São Paulo é daqueles locais onde é possível dar uma volta ao mundo sem sair da cidade. E este final de semana é mais uma prova dessa característica.
Há pelo menos dois festivais previstos para os dias 11 e 12 de fevereiro, organizados por imigrantes residentes em São Paulo. E você, sabe de alguma atividade que não entrou nesta lista? Basta enviar para nós do MigraMundo que atualizamos a programação:
TAI – Território Artístico Imigrante
Organizado pelo coletivo Visto Permanente, em conjunto com outros coletivos e grupos culturais de imigrantes, o Território Artístico Imigrante chega à sua terceira edição e vai ocupar a praça Coronel Fernando Prestes, no bairro do Bom Retiro. A ideia do evento é trazer a cultura para a rua como forma de reivindicar o direito do imigrante de viver em paz e ver sua cidadania e cultura respeitadas.
Fazem parte da programação expressões culturais de países como Angola, Bolívia, Cuba, Palestina, República Democrática do Congo, Colômbia, Argentina, Guiné-Conacri, Chile e Uruguai. Também haverá uma exposição de fotografias de imigrantes ou sobre imigração e a projeção de vídeos do acervo do Visto Permanente.
Em Lingala, idioma falado principalmente no Congo e em Angola, “lisanga” significa “ união ”. Esse é um dos objetivos do Lisanga Awards, mais um evento organizado por imigrantes, que vai homenagear pessoas, instituições, organizações e grupos que trabalham com as pautas imigrantes.
Além das homenagens, o Lisanga Awards contará com diversas apresentações culturais, comidas típicas de países da África, performances musicais e um desfile de moda africana.
O evento será no sábado (11) na Sapopemba Fábrica de Cultura, na Fazenda da Juta, zona leste de São Paulo. A programação está disponível na página do evento no Facebook.
Serviços:
Território Artístico Imigrante (TAI) Data e hora: 11 e 12 de fevereiro, das 15h às 22h Local: Praça Cel. Fernando Prestes, Bom Retiro – São Paulo (SP) Informações: evento no Facebook, tel +55 11 9 7583 5153 e e-mail acervovivo.sp@gmail.com Entrada: gratuita
Lisanga Awards
Data e hora: 11 de fevereiro, das 14h às 18h
Local: Sapopemba Fábrica de Cultura – Rua Augustin Luberti, 300 – Fazenda da Juta, São Paulo (SP)
Informações: evento no Facebook
Entrada: gratuita
Documento foi encaminhado ao CNIg e pede autorização para residência temporária e carteira de trabalho. Maioria dos migrantes e solicitantes de refúgio é de indígenas, mulheres e crianças
O Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e o Ministério Público do Trabalho encaminharam no último dia 2 de fevereiro ao Conselho Nacional de Imigração (CNIg) uma recomendação que pede a adoção de medidas humanitárias diante do aumento no fluxo de venezuelanos no Estado de Roraima. O documento é assinado em conjunto com o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), a Cáritas do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Instituto Igarapé, a Missão Paz, a Fundação Avina e a Conectas Direitos Humanos.
Relatos encaminhados a essas instituições dão conta de que venezuelanos têm buscado o estado de Roraima, fronteira entre Venezuela e Brasil, para fugir da crise política e econômica que atravessa aquele país. A estimativa é de que milhares de venezuelanos já teriam cruzado a fronteira e que muitos estariam sendo deportados ou vivendo em condições precárias – incluindo indígenas, mulheres e crianças.
Na recomendação encaminhada ao CNIg – instância de articulação da Política Migratória Brasileira – as instituições pedem uma resolução normativa que contemple a possibilidade de concessão de residência temporária e de autorização para trabalho regular, protocolo similar ao adotado com cidadãos de países que integram o Mercosul. A proposta é que, ao ingressarem em território brasileiro, os migrantes possam solicitar à Polícia Federal pedido de residência temporária por dois anos. No momento da solicitação, receberiam um protocolo de residência provisória, que lhes daria condições para obtenção de CPF e de Carteira de Trabalho.
Para o conjunto de organizações que assinam o documento, a regularização migratória nesses moldes tem vantagens evidentes, como a possibilidade de documentação desses migrantes e de condições de ingresso no mercado formal de trabalho. “Como o fluxo já vem ocorrendo, acreditamos que a pura e simples negativa de regularização seria, na prática, contraproducente, vez que não nos parece postura humanitária ou justa que o Brasil simplesmente impeça o fluxo ou negue a estas pessoas possibilidade de buscar sobrevivência temporária em nosso País, quando no seu se encontram em situação de extrema precariedade e de fome”, destacam.
O texto lembra que o Estatuto do Estrangeiro (Lei Nº 6.815/80 ) não possui alternativas normativas para dar conta do volume e da complexidade desse fluxo migratório – fazendo com que recorram ao único instrumento disponível na legislação nacional, que é a solicitação de refúgio, mesmo não sendo essa a situação pessoal ou o desejo desses migrantes.
“A Resolução Normativa 27/98 do CNIg – ao tratar de situações especiais e casos omissos – já confere abertura para uma alternativa migratória para aquelas pessoas que não se enquadrem no refúgio mas que, diante de circunstâncias urgentes, especiais, humanitárias ou que não encontram amparo em outras disposições legais vigentes, possam pedir a regularização migratória com outros fundamentos”, aponta a recomendação.
Missão – A recomendação feita ao CNIg é resultado de um conjunto de ações que a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal; o Grupo de Trabalho Migrações, do Ministério Público do Trabalho; e o Grupo de Trabalho Migrações e Refúgio, da Defensoria Pública da União, vêm desenvolvendo em busca de soluções jurídicas e sociais para a questão. O trabalho conta com a participação de instituições como Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Organização Internacional do Trabalho, Organização Internacional para Migrações, Plataforma Dhesca, Instituto Migrações e Direitos Humanos, Cáritas, Anistia Internacional e Médico Sem Fronteiras. Na primeira quinzena de março, representantes desse conjunto de instituições irão a Roraima para conhecer melhor a situação, inclusive por meio de uma ampla audiência pública sobre o tema
Caporales dançam com o público durante o Carnaval dos Imigrantes.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
Por Géssica Brandino – texto e fotos
Música, dança e sabores de diversos países da América Latina marcaram a primeira edição do Carnaval dos Imigrantes. Promovido pelo Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) neste domingo (05/2), na Quadra do Sindicato dos Bancários, em São Paulo, o evento proporcionou um momento de intercâmbio cultural.
Integrante da equipe de organização do evento, Vera Gers destaca que o intuito da iniciativa é abrir um espaço dentro do Carnaval para que os imigrantes possam se divertir e apresentar um pouco da própria cultura. “É uma oportunidade para ajudar a derrubar barreiras, num momento em que muros estão se erguendo contra imigrantes no mundo. Queremos mostrar que não precisa ser assim”.
Quem participou do evento pode saborear pratos típicos da Colômbia, Peru e México. Arepas, ceviche, empanadas, burritos e alfajores foram algumas das iguarias que deliciaram o público. Também era possível comprar brincos, colares, bolsas, lenços, roupas e artesanatos peruanos.
A programação cultural começou com a apresentação do grupo “Entre Latinos” e ao longo do dia, a quadra ganhou cores com os grupos de dança de diferentes países. O “Mi Viejo San Simón” levantou público com o Caporal, dança folclórica de La Paz, na Bolívia. Na sequência, dança cigana de “Concepcion y las Gitanas”, “Kantuta” e, para trazer um pouco do carnaval brasileiro, a “Bateria 22” e a “Escola de Sampa Em Cima da Hora Paulista”.
Dançarinos há quatro anos, Jane Mota e Manollo Hannishi apresentaram ao público a dança cigana de casal. Os artistas já participaram de eventos e elogiaram a iniciativa de promover uma ação com enfoque migratório para comemorar o mês do carnaval. “Tem que haver esse tipo de evento para expandir as culturas. Ouvindo a música, eu me sinto na Bolívia. Como professora de artes, gosto muito de trabalhar essas conexões”, destaca Jane.
Caporales dançam com o público durante o Carnaval dos Imigrantes.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
Artesanato de países latino-americanos foi uma das atrações do Carnaval dos Imigrantes.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
Mi Viejo San Simón dança com o público durante o Carnaval dos Imigrantes.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
Comidas típicas de países latino-americanos estavam disponíveis no evento.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
Comidas típicas de países latino-americanos estavam disponíveis no evento.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
Comidas típicas de países latino-americanos estavam disponíveis no evento.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
O casal Jane e Manollo.
Crédito: Géssica Brandino/MigraMundo
*Esta é a primeira parte do especial Infância e Refúgio, sobre crianças refugiadas na cidade de São Paulo. Nele, as crianças entrevistadas usam desenhos e outros elementos lúdicos para falar sobre o que já viveram em tão pouco tempo de vida. Os perfis são do livro Por um Pedaço de Terra ou de Paz, trabalho de conclusão de curso (TCC) na PUC-SP da jornalista Júlia Dolce Ribeiro, e serão publicados um a cada semana no MigraMundo. Os nomes das crianças nos textos são fictícios para preservar a identidade de cada uma.
Paula e Maravilha: As marcas e fronteiras das guerras dos outros
Por Júlia Dolce Ribeiro (texto e fotos) *Especial Infância e Refúgio
Em alguns pontos de São Paulo a gente se vê estrangeiro de uma hora para a outra, ao virar uma esquina, mesmo tendo vivido aqui por toda a vida. A Rua Japurá, na Bela Vista, é um desses lugares. Entre imóveis de classe média alta, um sobrado amarelo chama a atenção, com sua porta de metal sempre entreaberta, enquanto homens de pele muito negra conversam na sarjeta em línguas desconhecidas, fumando cigarro. Ao passar por eles em direção à entrada da casa, sou educadamente cumprimentada com acenos de cabeça e ‘bons-dias’, apesar de nunca terem me visto antes, e me sinto ainda mais forasteira com a minha frieza e pressa paulistanas.
Lá funciona o Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI), abrigo mantido pela ONG Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), em parceria com as Secretarias Municipais de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC). Com 120 vagas, o CRAI dá prioridade aos imigrantes e refugiados recém-chegados e com maior vulnerabilidade, abrigando dezenas de crianças que se enquadram nestas categorias.
Entre elas, estão as irmãs angolanas Maravilha e Paula, com 7 e 15 anos, que desceram com desconfiança as escadas do seu dormitório para conversar comigo, a pedido da mãe, Godelina. Uma mulher alta de vestido estampado e turbante, ela acabara de me explicar o motivo da sua vinda para o Brasil em voz doce com sotaque chiado, um misto de português de Portugal com fonemas do francês.
“Muitos problemas. Eu saí por muita violência e problemas da igreja. Eu sou do Pentecostal, Igreja Cristo do Sétimo Dia. Teve uma confusão, o líder da Igreja foi condenado neste ano, eu tive que sair para proteger a vida das minhas duas filhas. Eu perdi o contato com o meu marido no dia 16 de abril de 2015, na província onde tínhamos concentração da Igreja. Aconteceu uma tragédia, tiroteio de polícia, morreu muita gente. Também perdi meu filho, que tinha quatro anos e tá em vida, se Deus quiser, tá em vida ainda… No dia 20 de agosto ele vai completar cinco anos. Não tenho contato com ele ainda, nem sei se ele está com meu marido. O nome dele é Patrício”, contou, com tristeza e esperança.
Segundo websites angolanos de notícias, no dia 16 de abril de 2015 houve um massacre, protagonizado pelas forças militares e policiais da Angola, que causou a morte de centenas de fiéis da seita adventista do sétimo dia “Luz do Mundo”, fundada pelo Pastor José Juli-no Kalupeteka. Milhares de fiéis se encontravam em um acampamento religioso no Monte Sumi, na província do Huambo, quando foram atacados, sob ordens do governador da província. A versão do governo confirma o assassinato de apenas 13 fiéis, em reação ao assassinato de nove policiais por discípulos de Kalupeteka. O pastor, que era acusado de desobediência civil e de promover fanatismo religioso e ódio, foi condenado à prisão em abril de 2016.
Reprodução/*Maravilha
Godelina conta que quando regressou à Luanda, capital do país, onde vivia com sua família, viu que a polícia estava aguardando em sua rua. “Estávamos na província vizinha, eu pensei que quando chegássemos em casa iríamos encontrar meu marido e meu filho, mas não encontramos ninguém. No dia 20 de abril a polícia apareceu na minha casa para deixar uma convocatória para eu me apresentar em uma investigação criminal. Eu não tinha forças, meu marido não estava”. Alguns meses depois, ela fugiu para o Brasil de avião com as filhas e a ajuda de um amigo, chegando ao Rio em janeiro de 2016.
A Guerra Civil Angolana teve fim em 2002, após 27 anos de conflitos que marcaram o período pós-independência do país e alimentaram inclusive a Guerra Fria, com a disputa de poder entre os antigos movimentos anticoloniais, como a União Nacional para Independência Total da Angola (UNITA), o Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação da Angola (FNLA) e a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC).
No entanto, as consequências da guerra são refletidas no legado de violência que envolve a administração pública, os empreendimentos econômicos e as instituições religiosas angolanas na luta pelo poder territorial. Os complexos conflitos geopolíticos ainda não são compreendidos pelas filhas de Godelina, embora elas carreguem no corpo e na memória suas marcas: além de terem perdido o pai e o irmão mais novo no conflito da Igreja, Maravilha teve, no mesmo dia, sua boca bombardeada por estilhaços de granada.
“Ela foi vítima de um acidente que aconteceu naquela data, a pequenininha, a boquinha dela tava fechada assim, só tinha um lábio. Para comer era muito difícil. Foi uma granada que acertou ela”, continuou a mãe. Na data do meu primeiro encontro com a família, Maravilha havia sido operada há apenas duas semanas, no dia 2 de maio de 2016, no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus.
A menina teve sua boca reconstruída, embora a cicatriz ainda fosse bastante perceptível e ela ainda escondesse os lábios automaticamente com as mãos ao se comunicar, como costume. “Quando ela chegou na escola tinha vergonha da boquinha dela, quando perguntavam o que tinha acontecido ela chorava. Mas o professor ajudou a fazer uma carta, colocaram na ficha dela e a levamos no médico. A operação foi rápida e de graça”, disse Godelina.
Crédito: Júlia Dolce Ribeiro
Maravilha, um apelido comum em alguns países africanos, é uma garotinha pequena e carinhosa, que usa elásticos coloridos em cada ponta do cabelo trançado. Ela tem se saído bem na escola pública em que está matriculada. Em quatro meses aprendeu “a fazer leitura”, algo que nunca havia conseguido na Angola pois, segundo a mãe, o ensino era muito limitado e a professora brasileira a ajudou com todos os sons do alfabeto. “Falou para eu acompanhar ela em casa, ela tinha que estudar três vezes por dia. Um mês depois conseguiu ler. Ela fala português melhor que eu, parecendo brasileira”, conta Godelina, orgulhosa.
A menina gosta de cantar no coral da igreja aos sábados e diz que quer ser bailarina. Ela diz que sente falta de brincar com suas amigas na escola em Luanda e que sua música favorita é “Ana Beatriz”, provavelmente se referindo à cantora gospel brasileira. Ficou com vergonha quando pedi para cantar para mim, mas depois de ter começado, deixou de lado a mania de cobrir a boca e não quis mais parar, embora a irmã mais velha repetisse insistente que já era hora das duas dormirem. “Calma, eu vou cantar rápido”, e cantou, terminando com um abraço de boa-noite.
Paula, por sua vez, já não guarda mais o encantamento da infância. Provavelmente bem mais marcada pelas memórias da violência, ela resistiu em responder as perguntas, desconfiada e tremendo de frio com seu vestido fino e chinelos na noite gelada. “Não vai demorar, né?”. Respondi que não havia problema se ela subisse para o quarto, mas alguns minutos depois ela retornou. Alta, magra e monossilábica, ela disse que está gostando do país, que sente falta das amigas na Angola, com quem não fala mais, e que esperava que o Brasil fosse diferente. As respostas ganharam volume quando perguntei sobre sua escola e comentei que sua mãe havia me contado sobre as perseguições que estava sofrendo lá.
“As pessoas são racistas. Não é que eu sinto que tem racismo; tem racismo. Tem só brasileiro na minha escola, mas o racismo é porque sou negra, não porque sou da Angola. Já me xingaram de negra e de suja. Eu falei com a escola, falaram com o menino e ele parou… Mas… Fora da escola eu me sinto isolada”, contou, sem que eu perguntasse, como se quisesse falar sobre isso há bastante tempo. “Na Angola eu saía da escola, tinha as minhas amigas, ia passear. Agora eu saio da escola e tenho que voltar para casa. Ainda não passeei por São Paulo, de noite dá medo”.
Ela acredita que foi melhor ter vindo para cá, mas não comenta sobre o ocorrido na Angola, destacando apenas que “foi muito triste” e que não consegue falar sobre o assunto. A rotina diária das irmãs se resumia em ir para a escola e voltar para o abrigo, onde faziam as lições de casa juntas e frequentam algumas das atividades propostas. Paula também fez um curso de informática disponibilizado pelo Sefras. A mãe conseguiu um emprego de auxiliar de cozinha através da ONG e voltava para o abrigo apenas de noite.
Embora a vida no abrigo fosse instável, a família já viveu situação pior no Brasil, chegando a dormir na Rodoviária do Tietê e a morar por alguns dias debaixo do viaduto da Rua Pedroso, em barracos de papelão. “Era uma casa embaixo do viaduto. Era muito abafado, não tinha condições. As pessoas de rua iam para lá no frio, não estava dando certo. Aqui é melhor”, explicou Godelina. Segundo Paula, uma senhora abrigou a família por um tempo após chegarem em São Paulo e as levou para a Cáritas. Mas os abrigos estavam lotados, e a família teve que dormir na rua por um tempo até conseguir vaga no CRAI.
Com as coordenadas das servidoras do abrigo, Godelina fez a solicitação de refúgio na Polícia Federal e tirou o documento de trabalho. Agora, a família aguarda com o protocolo de refúgio a decisão do CONARE. “Quando cheguei não conhecia ninguém, mas vi um grupo de pessoas vindo para São Paulo, então segui ele. Eu pensava que o Rio era a capital do Brasil. Quem ajudou a gente foi a senhora e o marido dela, que nos acolheram. Eles são… Como chama? Aqueles que vestem aquela roupa assim, e que o Deus dá muita confusão, mata muitas pessoas… Muçulmanos, acho. Eles me contaram tudo, como fazer. Eles sempre me ligam e sempre iam me visitar”, disse a mãe.
“Gostei do Brasil, porque na minha mente, não contava que um dia ia viajar para cá. Mas Deus é Deus, e hoje estou aqui. O Brasil é grande, grande, muito grande. Muita população também. O brasileiro é muito legal, simpático. Quando eu tava em Luanda estava a assistir aquele canal do Zap, que apresenta muitos programas daqui, como novelas e notícias. Sempre gente matando, roubando as outras pessoas. A gente tinha medo do Brasil, não contava que um dia ia chegar aqui. Mas chegou. Desde que cheguei vejo muita violência na televisão, mas nunca vi um roubo nem nada. Não sei se depende do bairro… “ contou Godelina, completando que não está muito interessada na televisão. “Na minha cabeça tenho que ajudar as crianças a estudarem e só”.
O objetivo não é à toa; Godelina estudou apenas até a oitava série, por conta da guerra civil na Angola e do ensino patriarcal. “As meninas só ficavam limpando e os rapazes podiam estudar. Eu estudei depois de crescida para saber ler, ter noção. Já estava na casa do meu marido. Trabalhei como auxiliar de cozinha por um tempo na Angola, depois tinha sido costureira, porque minha mãe me ensinou a fazer roupas. Aprendi a falar o francês quando trabalhei como doméstica na casa de um francês. Na Angola tem muita empregada doméstica. Eu quero muito que elas façam faculdade aqui, Deus ajuda para que elas tenham faculdade. Mas a vida é assim, né. Todo país tem rico e tem pobre, e um tem que ajudar o outro. Se você é deputada, tem que trabalhar o dia todo e precisa de alguém para cuidar da sua filha, o pobre tem que vir ajudar. É assim mesmo”, explica.
Paula tem diferentes sonhos e ainda não decidiu o que gostaria de fazer no futuro. A mãe revelou que ela gostaria de seguir o curso de medicina, mas que também quer ser modelo, sonho alimentado constantemente por todos que a conhecem e elogiam sua altura e estrutura óssea. “Eu gosto de moda, amo moda. Uma moça assistente social disse que vai me ajudar a ser modelo, mas eu não sei quanto tenho de altura. Também queria ser aeromoça. Eu andei a primeira vez de avião vindo para cá e não tive medo, gostei” disse a adolescente. Já Maravilha, segundo a mãe, só pensa em cantar: “Ela fala que vai ser cantora, e ela canta muito. Se você tá procurando o telefone, ela já levou para o canto e começou a cantar nele, inventando canções. Quando vai escutar vê que ela cantou muito bem”.
Quando voltei ao abrigo pela segunda vez, Paula, já menos desconfiada, me contou que visitou o Sesc Pompeia e o Museu de Arte Contemporânea (MAC) com assistentes sociais, e que havia viajado para um acampamento no interior com a igreja evangélica que a família frequenta em São Paulo. Mais animada, ela olhava para o celular de cinco em cinco minutos e explicou que havia arranjado uma nova amiga. “Eu era sozinha na sala, a única angolana, mas ontem uma outra angolana que acabou de chegar no Brasil veio na escola e está estudando comigo na oitava série. To muito feliz agora. Melhorou muito, porque a gente conversa… É bom ter alguém, as pessoas são um pouco diferentes aqui”.
No segundo encontro, o abrigo estava todo enfeitado com bandeiras de festa junina e os imigrantes e refugiados se preparavam para uma apresentação musical que aconteceria na sala onde costumam assistir a televisão. As crianças, de diferentes nacionalidades e idades, corriam pelo abrigo brincando e me olhavam com curiosidade enquanto eu conversava com Paula. As mais novas ficaram deslumbradas com o gravador e a câmera fotográfica, e tiravam dezenas de fotos, gargalhando de felicidade simplesmente ao ouvir o ‘click’ do botão sendo apertado.
Paula revirava os olhos do alto de sua adolescência, como quem precisasse de um pouco de privacidade, e perguntou mais uma vez o que faria com a entrevista. “Você vai imprimir as fotos que eu tirei com a câmera?”.
– Sim, essa é a ideia.
– Não sei se quero isso.
– Tudo bem, não vou colocar no livro então.
– Vai ser um livro mesmo? Um livro de histórias?
– Sim, com a história de algumas crianças refugiadas…
– … Não faz mal, não. Pode imprimir. Quantas páginas você já tem?
– Umas quarenta…
– SÓ?!?! Vai dar tempo?
– Espero que sim, hahaha. Você gosta de ler?
– Tem um livro favorito?
Nesse momento ela sorriu em catarse. “Eu tenho um livro favorito, mas é da escola, de língua portuguesa, com poesias e histórias passadas da Angola. Você pode copiar né? Pode colocar no livro ou tirar uma foto das páginas, você vai achar bem interessante. Tem a história de um chefe que maltratava os imigrantes e a história do búzio, que é sobre um senhor que morava em um búzio, à beira do mar. Você vai ver, é interessante, e daí escreve no livro”, disse, soltando as palavras rapidamente e subindo para pegar o livro.
Crédito: Júlia Dolce Ribeiro
Em pausas e com certa dificuldade, Paula leu o livro didático rasgado e amassado, que trazia na capa uma máscara africana sob o título: Língua Portuguesa – Manual do Aluno: 1o Ciclo do Ensino Secundário. Entre um parágrafo e outro dos contos lidos em seu sotaque chiado, a menina parava para me explicar o significado de palavras típicas angolanas. A cada história e poema, repletos de moral sobre a importância das mulheres manterem seu papel recatado, os efeitos do álcool e as consequências de governos ditatoriais, ela parecia mais envolvida.
“Essa é a história do Mbanga Mussungo, explica a lenda de um senhor que era grande, grande em tudo, na ostentação e na crueldade. Era muito mal, ele sentava na cadeira e espetava duas varas nos corações dos escravos. Muito interessante”, conta. Perguntei se ela sabia explicar o que está acontecendo na Angola hoje, ao que ela respondeu que “cada pessoa tem os seus problemas”.
– Qual o nome do presidente da Angola?
– José Eduardo dos Santos.
– E no Brasil, vocês sabem o que tá acontecendo agora?
– Não…
– É complicado.
– Tem a Dilma. Tem muita gente protestando na rua, já vi aqui na frente. Fica um monte de barulho…
Ela voltou a atenção para o livro. “Vou ler mais esse, tudo bem? Ai, assim vou acabar lendo o livro inteiro. Fazia tempo que não lia. Lembrei que tava com saudade – disse, rindo – Esse livro é bem velhinho, bem velhinho mesmo, mas eu guardo”. O livro, já lido e relido a ponto dela saber de cor o nome de todas as histórias, é um dos únicos objetos que a menina trouxe para o Brasil.
Godelina, Paula e Maravilha não têm quase nada em que se apoiar aqui. Muito religiosas, acreditam que a vida é uma eterna luta entre o “Satanás” e Deus, e depositam no último as esperanças de conquistarem seus sonhos. “A vida é assim, Deus quer por nós, mas o Satanás quer contra nós. Ontem você tinha uma vida melhor, depois o Satanás pega tudo”, me revelou Godelina.
Essa disputa eterna entre o bem e o mal, tão simbolizada pela sua religião, continua regendo a vida da família aqui em São Paulo. Na última vez em que visitei Paula e Maravilha, seu Deus parecia estar vencendo. Encontrei as duas perto da Estação Artur Alvim do metrô, onde Godelina havia conseguido alugar um aposento só para elas – algo que, depois daqueles que perderam para a violência, afirmavam sentir mais falta.
“Aqui eu quero ter minha casa também, porque viver com uma multidão de pessoas é difícil, cada pessoa tem seus problemas. No abrigo tem haitianos, nigerianos, congoleses, pessoas do Guiné-Bissau e do Benim. É difícil, mas já estamos habituadas”, dissera Godelina, na primeira entrevista.
Impaciente, após minha demora para descer no ponto de ônibus que beirava a comunidade onde hoje vivem, Paula ficou incrédula quando eu disse que não conhecia o lugar, explicando que São Paulo é enorme e não é possível conhecer todas as ruas ou bairros. “Você nunca tinha vindo aqui?!”, questionou, em choque.
Deixei um livro de contos brasileiros com Paula, que o recebeu com curiosidade, depois de ter me contado em outro encontro que ainda não havia lido nenhuma história sobre o Brasil. Recebi um abraço apertado da pequena Maravilha e voltei para a zona oeste de São Paulo, que poderia muito bem ser outro país em distância socioeconômica, da onde, talvez, eu seja menos estrangeira. Acho que, aos poucos, Paula está começando a entender e questionar essas novas fronteiras, ainda mais difíceis de serem ultrapassadas.
Por Karina Quintanilha Blog Somos Migrantes Link original aqui
A serviço de que e do que se alimentam os muros nos EUA, na Palestina e no Brasil
Em meio a protestos de massa que tem sacudido os Estados Unidos e vários países pelo mundo desde a posse de Donald Trump, o presidente norte-americano anunciou que pretende seguir com seu plano de construir um muro ainda mais extenso do qual já existe para isolar completamente a fronteira entre Estados Unidos e México.
Nas palavras de Trump: – Não é apenas política. O muro é necessário, é bom para o coração da nação. As pessoas querem proteção e o muro protege. Basta perguntar a Israel. Tinham um absoluto desastre do outro lado.
Como amplamente noticiado, destaca-se o fato de que na fronteira EUA-México dados estimam que ao menos 2.400 pessoas morreram ou estão desaparecidas, incluindo crianças, após tentar fazer a travessia em 2016.
Afinal, a quem servem os muros e a política de dividir a sociedade entre muros?
Uma boa reflexão a esses questionamentos pode vir do nosso olhar sobre a história. Após a queda do Muro de Berlim, a maioria dos países capitalistas que criticavam o por eles denominado “Muro da Vergonha” são os que hoje possuem fronteiras ou comunidades separadas pelo mesmo tipo de concreto.
O “medo” e a segurança nacional têm sido os principais álibis e motor da propaganda do Estado para convencer a população da necessidade dos muros. Ao mesmo tempo, enquanto fala-se de muros, o Estado também desvia a atenção dos reais motivos geopolíticos que tem levado milhões de pessoas a se deslocarem entre fronteiras desconhecidas, e sem amparo, em busca de acolhida e trabalho em países completamente distintos de sua cultura original.
Passados 28 anos da queda do Muro de Berlim, o número de muros no mundo para impedir a imigração chega a 70 contabilizando 5,604 mortes nas fronteiras segundo a International Organization of Migration (IOM, OIM em português). Alguns desses muros podem ser visualizados por fotos nesse link. Isso sem contar os muros “invisíveis” – por exemplo quando o Estado escolhe discriminar ou segregar a população por meio de leis ou políticas que restringem o direito humano à livre circulação de pessoas.
O banimento de muçulmanos de sete países (Iraque, Síria, Irã, Sudão, Líbia, Somália e Iêmen) anunciado pelo decreto de Trump na quinta passada, e a reação da sociedade que tem gerado uma crise sem precedentes nos Estados Unidos, mostra o quão concretos podem ser os muros “invisíveis”.
Curiosamente, não por acaso, na semana em que tomou posse na Casa Branca, Trump comparou o muro da fronteira EUA-México ao de Israel com a Palestina.
Dada as peculiaridades e objetivos dos muros atualmente existentes na sociedade, Noam Chomsky – ao se referir à barreira construída por Israel na Cisjordânia (foto abaixo) – afirmou que: “O que o muro realmente faz é tomar terras palestinas”, em seu artigo denominado “Muro, humilhação e roubo”.
Muro construído pelo governo de Israel na Cisjordânia. Crédito: Free Palestine
O muro que hoje se estende por 730 km, chamado de “cerca de segurança” de Israel, foi objeto de audiências na Corte Internacional de Justiça de Haia (CIJ) e contou com a pressão dos Estados Unidos e governos da União Europeia para que fosse construído. Em 2004, a CIJ emitiu parecer oficial declarando que o Muro é ilegal. No mesmo ano, o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon afirmou que o muro na Cisjordânia violava o direito internacional.
Como os muros da desigualdade que dividem a sociedade e as fronteiras entre os países estão relacionados?
O Brasil que tem a fama de “País da Imigração” tem levantado a cada dia muros mais altos para esconder o abismo das desigualdades, e recentemente tem criado ainda mais barreiras aos migrantes internacionais que buscam reconstruir a vida no “País da Imigração”.
No Rio de Janeiro, durante os preparativos para a Copa do Mundo e Olimpíadas, foi construido muro que separava a favela Vila Autódromo do trajeto por onde passariam os turistas.
No fim de 2016, o recém-eleito Prefeito do Rio, Marcelo Crivella, chegou ao ponto de declarar que “o Rio de Janeiro deveria ser murado como Jerusalém”, como se já não existisse um apartheid velado entre a periferia e o centro do Rio.
A segregação da população que recebe salários mais baixos nas zonas periféricas dos grandes centros urbanos ao mesmo tempo em que inexistem políticas de mobilidade urbana, foi o estopim da chamada Jornadas de Junho que em 2013 levou milhões de pessoas a protestarem por tarifa zero do transporte público.
Talvez, no entanto, a mais recente expressão de muros presente no imaginário brasileiro sejam as masmorras dos presídios. O Brasil, com a 4a maior população carcerária do mundo, enfrenta desde o inicio do ano uma série de massacres de pessoas encarceradas, muitas que estavam presas sem nem sequer ter passado por um juiz ou que já deveriam ter sido postas em liberdade pela lei.
Dada a repercussão nacional e internacional dos massacres que mostrou ao mundo barbaridades que o Ocidente prefere atribuir ao Oriente Médio, o Governo Federal ignorou as propostas da sociedade civil organizada, e dos organismos internacionais de direitos humanos, que vão no sentido do desencarceramento e respondeu, com insistência, na fracassada política de construção de novas unidades muradas.
Especificamente na questão da imigração, desde a posse de Michel Temer, o Governo brasileiro também tem anunciado o fechamento de fronteiras entre alguns países e embaixadas, além de estar sendo frequente relatos de que a Policia Federal tem implementado novas barreiras para dificultar a obtenção de vistos por algumas nacionalidades, a exemplo dos africanos e sírios.
Em novembro de 2016, situação similar às medidas de Trump foi aplicada por Temer no Brasil. Após o governo endurecer as regras para refugiados com residência no país por meio da Nota Informativa 09/2016 da Divisão de Polícia de Imigração, solicitantes de refúgio de Senegal, Gâmbia, Guiné Bissau, Togo, entre outros, relatam que foram impedidos de retornar ao Brasil depois de viajarem aos seus países de origem pelos mais diversos motivos. A questão foi amenizada após pressão que evidenciou a contradição da medida com o discurso de Temer na ONU, no entanto a referida Nota passou a estar vigente agora em janeiro.
Enquanto isso, não há previsão de votação no Senado do projeto de lei que traz uma política mais humanizada sobre as políticas migratórias e deverá substituir o famigerado Estatuto do Estrangeiro que data da ditadura militar brasileira.
Com a atual cifra de 13 milhões de desempregados no Brasil, tudo indica que as oportunidades de trabalho, que há menos de uma década eram favoráveis para os imigrantes de todas as classes sociais, agora enfrentarão um ciclo de escassez que tende a se aprofundar ainda mais com os cortes nos gastos sociais e ataques aos direitos dos trabalhadores que estão em curso.
Sem dúvida que ao escolher essa direção, o governo opta por multiplicar os muros (e os abismos) entre os mais ricos e os mais pobres, com todos os conflitos que daí se originam.
BASTA!
Em todas as partes do mundo, um massivo grito de BASTA, solidariedade e resistência a esses tantos muros que só geram mais violência e dor em toda a sociedade tem furado o cerco da grande mídia e invadido o imaginário de grande parte das novas e velhas gerações que ainda acreditam na humanidade.
Durante a maior manifestação da história dos Estados Unidos que concentrou mais de 3 milhões de pessoas em protesto contra Trump no domingo (22/01), Angela Davis – aclamada pela multidão – encerrou seu discurso contagiante com as palavras:
“A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social. (…)
Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.
Este é só o começo. E termino nas palavras da inimitável Ella Baker: ‘Nós que acreditamos na Liberdade não podemos descansar até que ela seja alcançada!’ Obrigada.”
Imagem da obra Saliendo, exposta no metrô de Buenos Aires, Argentina.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
O poeta angolano Moisés Tiago António, ou simplesmente Moisés António, publicou no começo deste mês uma poesia sobre ser imigrante. Atualmente vivendo em Curitiba (PR), ele mantém uma página no Facebook chamada Moisés E A Poesia, onde estes e outros poemas podem ser encontrados.
O MigraMundo agradece a Moisés pela oportunidade de replicar a poesia!
Sou Imigrante
Sou Imigrante dalém
Lá do outro lado do oceano
Forçado a abandonar o país
Sim o país de origem
Que há séculos venho lutando
Querendo viver
Batendo as portas nunca descerradas
Sempre encerradas
Não tenho terra
Lá de onde eu venho
Do qual vós chamais
ou dizeis ser minha terra…
Eu era igual uma flecha
Querendo ir pra frente
Eu era cada vez mais puxada pra trás
Com mais força!
E de tanto me puxarem
Fui lançada veementemente
Para atingir o alvo
E vim aqui parar!
Sou Imigrante
Não tenho terra
Tudo é terra
Não importa se aqui ou lá!
Quem dera que não houvessem fronteiras!
Quem dera que não houvessem leis
Leis essas que nos prendem, Separam,
Hostilizam, injuriam e abalam!
Oh, se não houvessem fronteiras
Divisões geográficas
E que todos os homens fossem só homens!
Sem distinção de cores, raças, nacionalidades!
Que culpa tenho eu em ser Preto ou branco?
Cristão ou muçulmano? Hindu ou Budista?
Judeu ou Samaritano?
Se talvez as raças negra ou branca, não existissem!
Na verdade, não existem
O que apenas existe é…
Raça humana!
Sou Imigrante, emigrante, migrante
Resistente, com força pra viver, almejando viver
Sou resistível como um Leão da África
Tenho garras de um falcão do mato
Sou persistente como a onda movível
Porém, me respeitem!
Só quero viver a vida…
Porque a terra é nossa, de todos nós
Feito por Deus e entregue à todos os homens
Não importa se aqui ou lá!
Nos dias 11 e 12 de fevereiro, a praça Coronel Fernando Prestes, no bairro paulistano do Bom Retiro, vai se tornar um Território Artístico Imigrante, ou simplesmente TAI.
O festival, que chega à terceira edição (as duas primeiras aconteceram em junho e em outubro de 2016), procura ser uma amostra de como os imigrantes seguem construindo a cidade de São Paulo. Expressões culturais de países como Angola, Bolívia, Cuba, Palestina, República Democrática do Congo, Colômbia, Argentina, Guiné-Conacri, Chile ou Uruguai, fazem parte da programação.
Para os coletivos envolvidos, a iniciativa é organizada em torno de uma ideia: trazer a cultura para a rua é em si uma reivindicação pelo direito imigrante a viver em paz e ver sua cidadania e cultura respeitadas.
A iniciativa é organizada pelo projeto Visto Permanente, um acervo digital de expressões artísticas imigrantes de São Paulo (www.vistopermanente.com), em conjunto com outros grupos e coletivos imigrantes. O evento conta ainda com o apoio do Edital Municipal Redes e Ruas e da Coordenação de Políticas para Imigrantes da Prefeitura de São Paulo.
Da poesia à performance, da música ao teatro, da fotografia à dança, o Território Artístico Imigrante é um momento de conexão criativa de artistas e grupos culturais com linguagens e propostas artísticas diferentes, que transformam e reinventam São Paulo, esse território imenso que é também território de artes e culturas imigrantes. Por isso o festival é uma iniciativa que procura ser representativa da diversidade das migrações recentes, mas é também um gesto de afirmação do direito imigrante à cidade.
Além da programação abaixo, durante os dois dias acontecerá também uma exposição de fotografias de imigrantes ou sobre imigração e serão exibidos vídeos do acervo do Visto Permanente.
Programação:
Sábado (11)
15h I Oficina de Tullmas (pompons andinos) com Equipe de Base Warmis
16h I Triptico (Colômbia)
17h. Oula Al-Saghir (Palestina)
18h I Yannick Delass (RD do Congo)
19h I Lakitas Sinchi Warmis (mulheres imigrantes de vários países)
19h30 I SayaAfro Bolivia (Bolívia)
20h30 I DJ Cecilia Yzarra (Perú)
Domingo (12)
15h I Oficina de Danças da Guiné com Aboubacar Sidibé (Guiné-Conacri)
16h I Projeto Raízes e Sarau das Américas
18h I Kollasuyo Maya (Bolívia)
19h I Pipo y Su Sabor (Chile/Argentina/Uruguai/Brasil)
20h I Batanga e cia (Cuba)
Território Artístico Imigrante (TAI)
Data e hora: 11 e 12 de fevereiro, das 15h às 22h
Local: Praça Cel. Fernando Prestes, Bom Retiro – São Paulo (SP)
Informações: evento no Facebook, tel +55 11 9 7583 5153 e e-mail acervovivo.sp@gmail.com
Entrada: gratuita
Dança do dragão é uma das atrações nas comemorações do Ano-Novo Chinês.
Crédito: Leo Bella
Por Rodrigo Borges Delfim, de São Paulo Colaboração de Denise Cogo e Sofia Zanforlin, de Paris
Cerca de 200 mil pessoas passaram pelo bairro da Liberdade, em São Paulo, durante o último final de semana (28 e 29/01) por conta do Ano-Novo Chinês – uma média de 5.000 pessoas por hora. A estimativa é da Associação 21 Tomates Fritos, entidade que reúne quatro ex-presidentes da JCI Brasil-China, idealizadora do evento.
Os chineses relacionam cada novo ano a um dos doze animais que teriam atendido ao chamado de Buda para uma reunião. Apenas doze se apresentaram, e Buda, em agradecimento, os transformou nos signos do Horóscopo Chinês. Neste ano celebrou-se a chegada do Ano do Galo, que de acordo com Astrologia chinesa, deve ser marcado por novas ideias, oportunidades e escolhas decisivas. No entanto, deve-se tomar cuidado com ações precipitadas.
O Ano-Novo Chinês celebrado em São Paulo é a maior festa do tipo no Brasil e uma das maiores fora da China, ajudando a divulgar a cultura chinesa.
Cerca de 200 mil pessoas participaram do Ano-Novo Chinês no bairro da Liberdade, em São Paulo. Crédito: Leo Bella
“[A festa] É muito importante para difundir a cultura chinesa no Brasil, fazer essa interação entre as diferentes culturas e ter mais proximidade. E também para quebrar os “tabus” em relação à cultura chinesa, que é muito rica e milenar”, opina Kelly Lam, organizadora da festa do último final de semana.
Nas ruas da Liberdade era possível encontrar barracas e food trucks de comida chinesa e de outras comunidades presentes no bairro, além de diversas apresentações culturais e de artes marciais – tanto no palco principal, na Praça da Liberdade, como no meio do público.
Para quem perdeu o evento na Liberdade ou quer repetir a dose, há novas atividades previstas para este domingo (05), a partir das 10h, no Templo Zu Lai, em Cotia, na Grande São Paulo – veja mais informações ao final do texto. O local é uma das grandes referências à China e à cultura do país no Brasil.
De acordo com os organizadores da festa, são cerca de 300 mil chineses vivendo no Brasil, sendo 20 mil apenas na cidade de São Paulo.
“Conexão Paris”
A cidade de Paris foi outra na qual a comunidade chinesa celebrou a chegada do Ano do Galo, mais exatamente no bairro de Marais. Além dos conhecidos dragões chineses, era possível observar a relação entre a comunidade organizadora do evento e os comerciantes chineses locais.
Segundo dados dos organizadores, a associação franco-chinesa do Marrais, Pierre Ducerf, organiza uma lista de comércio cujos donos são chineses, e realizam um desfile pelas ruas do bairro em visita a estes estabelecimentos para desejar boa sorte para o ano que começa.
A celebração é marcada pela dança dos dragões – que são vestidos por jovens franceses de ascendência chinesa, em sua maioria – que e são recebidos pelos comerciantes com comidas que simbolizam fartura e boa sorte. Alguns comerciantes montam uma mesa com incenso e alimentos para serem consumidos por quem passa. Além disso, os dragões que entraram nos estabelecimentos eram alimentados com folhas de alface.
Ano-Novo Chinês no Templo Zu Lai
Data e hora: 5 de fevereiro, a partir das 10h
Local: Templo Zu Lai – Estrada Fernando Nobre, 1.461 (acesso pelo km 28,5 da rodovia Raposo Tavares) – Cotia (SP)
Informações: (11) 3500-3600 e zulai@templozulai.org.br
O feriado de Carnaval é apenas no final de fevereiro, mas a cidade de São Paulo já promove “esquentas” para a festa, que é celebrada no mundo todo. E os imigrantes que vivem na cidade vão mostrar um pouco sobre como ele é celebrado em seus países de origem.
O Carnaval dos Imigrantes, organizado pelo Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrantes (CDHIC), acontece neste domingo (05) na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo (veja mais no serviço ao final do texto). Com entrada gratuita, o evento busca proporcionar um espaço dinâmico, participativo e democrático, oferecendo a possibilidade para que cada país possa apresentar e representar seu carnaval através de danças, músicas e costumes típicos.
A programação conta com diversos estilos musicais, DJ, musica latina, batucada universitária, escola de samba e danças típicas. Entre as atrações estão: Kantuta Bolívia, Escola de Samba Em Cima da Hora Paulistana, Mi Viejo Caporales San Simón, Bateria 22, Entre Latinos, Concepición y las Gitanas.
Além das apresentações de diferentes estilos musicais e danças, o evento contará também com uma feira gastronômica, da qual as pessoas poderão desfrutar comidas típicas de diferentes países latinos e africanos, apresentando um pouco da diversidade da culinária mundial.
Veja na imagem abaixo a programação atualizada do evento:
Sendo o carnaval uma festa mundial de alegria e confraternização, ele deve ser também um espaço democrático, onde o intercâmbio entre diversas culturas ajude para que a diferença dê espaço à tolerância e ao respeito ao outro.
Carnaval dos Imigrantes
Data e hora: 05 de fevereiro, das 10h às 22h
Local: Quadra do Sindicato dos Bancários – Rua Tabatinguera, 192, Centro, São Paulo (próximo à estação Sé do metrô)
Entrada: gratuita
Informações: contato.cdhic@gmail.com
Carmen Morales with 2 of her grandchildren Christian, 8, and Sofia, 4, meet for the first time Morales’ daughter in law and grandchildren Jessi, 15, and Crystal, 11, who came to visit from San Bernardino, California. In this area, the iron bars are separated enough that families would be able to easily hug but it is strictly prohibited to approach from the U.S. side.
Criado pela fotojornalista espanhola Griselda San Martín, o documentário mostra interações entre famílias separadas pela fronteira entre Tijuana (México) e San Diego (EUA)
Por Rodrigo Borges Delfim
Tradução para o português: Márcia Passoni
Fotos: Griselda San Martin English version: click here
Sim, ao contrário do que Donald Trump diz, já existe um muro separando os Estados Unidos e o México. Ele cobre cerca de 1.000 km dos 3.200 km de fronteira entre os dois países e começou a ser erguido a partir do governo de Bill Clinton (1993-2000).
Além de já existir, há um trecho dessa barreira que é coberto por um parque binacional (o Friendship Park, ou Parque de la Amistad, em espanhol), onde pessoas dos dois lados podem interagir umas com as outras – apesar das severas restrições.
Mostrar a existência dessa barreira física – mas também psicológica e social – e conscientizar sobre seus efeitos é o objetivo do projeto The Wall, desenvolvido pela fotojornalista espanhola Griselda San Martín entre 2015 e 2016 na área do Friendship Park.
“Há pessoas neste país que ignoram o fato de que já existe um muro. Quero mostrar a elas como é este muro, e o seu significado para as pessoas afetadas por ele”, afirma a fotojornalista.
Em entrevista exclusiva ao MigraMundo, Griselda conta sobre o desenvolvimento do projeto e mostra que Trump, na verdade, já conseguiu construir um tipo de muro, que divide a sociedade dos EUA. E as fotos abaixo trazem um pouco das histórias afetadas pela barreira já existente.
Pastor Guillermo Navarrete, da Igreja Metodista do México, na cerca do Friendship Park durante o encontro semanal da Igreja da Fronteira, em Tijuana, México, em 22 de maio de 2016. O serviço binacional é conduzido simultaneamente nos dois lados da fronteira, em inglês e em espanhol.
MigraMundo: Como você começou a trabalhar com o tema das migrações? Griselda San Martín: Foi na Faculdade de Jornalismo (2011-2013) que eu comecei a me aprofundar nos assuntos que iriam despertar meu interesse na questão migratória. Focando nos assuntos de identidade cultural e minorias étnicas, eu me familiarizei com as consequências trazidas pelas políticas migratórias durante minha primeira viagem de pesquisas para a região da fronteira entre Tijuana e San Diego, em 2013.
Quanto tempo você levou para desenvolver o projeto “The Wall”? Após concluir a graduação no Internacional Center of Photography em Nova York em 2015, eu voltei para a fronteira e passei um ano trabalhando em um documentário social, procurando histórias de deportação, separação, deslocamentos e violação de direitos humanos. The Wall é um dos projetos de longo prazo que eu desenvolvi de setembro de 2015 até agosto de 2016.
Você teve algum tipo de patrocinador para criar o projeto? Não, foi um projeto autofinanciado.
Alejandra Vallejo visita seu marido, Daniel Armendariz, no muro da fronteira no Friendship Park, em Tijuana, México, em 15 de maio de 2016. O casal se encontrou na fronteira todos os finais de semana nos dois meses anteriores. Armendariz não pode deixar os EUA porque ele está em liberdade condicional e Vallejo não tem documentos para cruzar legalmente a fronteira em direção aos EUA.
Qual a sua opinião sobre o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump? O novo clima político dos Estados Unidos é preocupante. O presidente Donald Trump tem dado sinais claros de que planeja realmente fazer o que prometeu durante sua campanha. Durante sua primeira semana como presidente, ele assinou várias ordens executivas que devem afetar muito a alguns grupos minoritários. Em relação à questão migratória, ele quer deportar milhões de imigrantes indocumentados, renegociar o NAFTA (Sigla em inglês para: Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), banir refugiados de certos países, e construir um muro ao longo da fronteira do Sul, fazendo com que o México pague por isso. Algumas dessas coisas não são novidades. Obama deportou 2,5 milhões de imigrantes e já existe um muro que ocupa um terço da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Ele poderia, ou agora pode construir ou aumentar este muro, mas ele já construiu um muro que divide o povo dos Estados Unidos. E ele parece se importar apenas com aqueles que votaram nele. De alguma forma, é evidente que a imigração está sendo erroneamente culpada pelos problemas econômicos deste país. E algumas minorias sentirão as consequências dessa percepção.
Que tipos de dificuldades você encontrou durante o projeto? O Friendship Park, que é a parte da fronteira com muro que eu fotografei e onde as famílias se encontram, fica aberto somente aos sábados e domingos, por algumas poucas horas. Isso significa que eu contava apenas com essas poucas horas semanais para trabalhar no projeto, e precisava voltar lá por muitas vezes. Algumas vezes, as condições climáticas não eram favoráveis. Algumas vezes, as pessoas não queriam ser fotografadas (mas devo dizer aqui que na maior parte das vezes, estavam de acordo). No lado do muro que fica para o México, o parque é aberto. Mas no lado dos Estados Unidos, há uma segunda cerca e a área é controlada pela patrulha de fronteira. Eu não era autorizada a usar microfones no lado dos Estados Unidos e o período autorizado para fotografar e filmar era muito limitado. Eu precisava pedir permissão com antecedência.
Em sua opinião, que tipo de legado o projeto “The Wall” deve deixar? Meu objetivo é mostrar as consequências das políticas migratórias para a humanidade. A separação de famílias. Há pessoas neste país que ignoram o fato de que já existe um muro. Quero mostrar a elas como é este muro, e o seu significado para as pessoas afetadas por ele.
Vista da fronteira México-EUA em Tijuana, México, em 16 de maio de 2016. A barreira de metal foi reforçada diversas vezes e se estende quase cem metros adentro do oceano Pacífico.
Você tem planos para outro projeto relacionado à migração? Sim. Já estou trabalhando em um projeto com imigrantes hispânicos, que vivem nos Estados Unidos, como suas vidas são agora, e de que forma serão afetados pelo novo governo.
Falando em migração, qual o significado dela para você? Migração para mim é sacrifício. Pessoas que deixam tudo para trás em busca de um futuro melhor para elas e para seus filhos.
Sobre o projeto The Wall
“The Wall” é um documentário sobre famílias que se encontram dos dois lados da cerca na fronteira entre Tijuana e San Diego, no Friendship Park, em um momento de crescimento das tensões políticas xenofóbicas. O parque é o único lugar de encontro binacional ao longo das 2.000 milhas (cerca de 3.200 km) de fronteira que separam os Estados Unidos do México.
Carmen Morales e dois de seus netos, Christian, 8, e Sofia, 4, encontram pela primeira vez a a nora e os netos Jessi, 15, e Crystal, 11, que vieram visitá-los de San Bernardino, Califórnia. Nesta área, as barras de ferro são separadas o suficiente para que as famílias possam se abraçar facilmente, mas o contato é estritamente proibido do lado dos EUA da fronteira.
Quando o parque foi inaugurado, em 1971, a cerca se constituía apenas de fios de arame farpado. Hoje, um muro de metal maciço, que já foi reforçado por diversas vezes, separa os dois países. Ele se estende até a praia, alongando-se por quase 100 metros em direção ao Oceano Pacífico. O acesso para tocar o muro no lado dos Estados Unidos é limitado a uma pequena área, e famílias se apoiam na cerca, na tentativa de ver seus entes queridos através da malha de aço, que é tecida tão firmemente que eles mal podem tocar as pontas dos dedos. Em uma pequena área do parque, o espaço entre as barras de metal permitiria às famílias até mesmo se abraçarem, mas a Patrulha da Fronteira no lado dos Estados Unidos está sempre vigilante e os visitantes tem que ficar alguns passos longe da cerca, e qualquer contato físico é estritamente proibido.
Além de servir como um local de encontro para as famílias, e por causa do significado histórico e da localização estratégica do parque, eventos sociais como casamentos e sweet sixteens (o equivalente à festa de quinze anos no Brasil), assim como encontros binacionais, são mantidos periodicamente para demonstrar e aumentar a conscientização para causas sociais.
“The Wall” analisa essas interações através da fronteira em um momento de crescimento do clima político xenofóbico, onde práticas de controle de fronteira estão remodelando espaços públicos, sob uma lógica de detenção e contenção. O grande e “belo” muro que alguns políticos prometeram construir, na verdade já existe. Mas apesar da cerca de metal maciço e da supervisão militarizada, para o amor não há fronteiras.
Pastor Jonathan Ibarra e a mulher Gladys Lopez em foto de casamento na frente da cerca da fronteira em Playas de Tijuana, México, em 12 de dezembro de 2015. A fronteira é um lugar simbólico para ambos, que cresceram juntos na Califórnia, mas agora vivem em Tijuana, separados do restante da família. Ibarra foi deportado e Lopez não possui documentos para residir regularmente nos Estados Unidos. Ela já tentou cruzar a fronteira três vezes, mas foi capturada pela Patrulha de Fronteira e retornou para o México.