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sábado, junho 27, 2026
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Fundador do MigraMundo lança campanha para viabilizar viagem pelo site a Roraima

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Diariamente, imigrantes venezuelanos chegam a Roraima em busca de uma vida melhor. Crédito: Graziele Bezerra/Agência Brasil

Ideia da ação é conseguir arrecadar fundos para acompanhar delegação de entidades da sociedade civil sobre a situação dos imigrantes no Estado, no mês de março

Por Rodrigo Borges Delfim

Quem me conhece sabe do envolvimento que tenho desde 2012 com a temática das migrações. E o grande assunto relacionado hoje por aqui é a questão dos imigrantes venezuelanos em Roraima, que buscam melhores oportunidades no Brasil e em outros países diante da crise que a Venezuela atravessa.

No Brasil, esses imigrantes encontram problemas como a falta de acesso a serviços públicos, discriminação, ficam submetidos a condições precárias, entre outras situações. No começo de março será organizada uma missão de entidades da sociedade civil organizada para checar com os próprios olhos o que está acontecendo na fronteira norte do Brasil (leia mais aqui)

É dessa missão que o MigraMundo, do qual sou fundador, tenta fazer parte, para trazer informação de qualidade sobre o que realmente se passa no extremo norte do Brasil. No entanto, é uma viagem bastante cara, e o site não tem recursos para pagar.

Por isso que resolvi criar esse evento e uma vaquinha online por meio da Eventos do Bem, organização porreta que conheci no Social Good Brasil de 2015 e que tanto ajudou na campanha para fazer o novo site do MigraMundo – que deu certo e está aí, no ar e atualizado constantemente (relembre aqui).

Acesse aqui a campanha no site Eventos do Bem

Sei que o Carnaval está aí, mas peço sua colaboração (R$ 50, R$ 20, até “déizão” já ajuda) para viabilizar esse projeto importante para o MigraMundo, para mim e para tantas pessoas que confiam e acreditam nesse projeto. Especialmente em tempos nos quais a xenofobia,o preconceito e os muros tem sido cada vez mais numerosos, todo e qualquer movimento para derrubar essas barreiras é válido e necessário…

O desafio está lançado! E conto com sua ajuda para chegar lá 🙂

Chamado Internacional da Greve de Mulheres do 08 de Março: por que também devemos nos levantar a favor das mulheres imigrantes no Brasil

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Mulheres de todo o mundo são convocadas a se unirem no dia 8 d Março, ou 8M. Crédito: Reprodução

Por Karina Quintanilha e Laura Guerreira
Do blog Somos Migrantes (link original aqui)

Para o vindouro 8 de março desse ano, vem sendo articulada e convocada uma Greve Internacional das Mulheres. O objetivo é buscar unidade de ação para combater a violência doméstica, social, legal, política, econômica, e tantas outras que vem permeando de forma autoritária e sem qualquer diálogo com o universo feminino em diferentes partes do globo.

Com inspiração nas recentes greves promovidas por mulheres da Polônia, Islândia, França e Argentina (unida a outros países latino-americanos), o movimento internacional de mulheres tem buscado unificar ações para resistir aos ataques mundialmente. Soma-se a isso imagens da Women’s March nos Estados Unidos que ocupou grande parte da mídia e redes sociais mostrando ao mundo mais de 3 milhões de pessoas contra Trump em janeiro desse ano.

Diante de uma nova e emergente luta feminista que através da globalização – com o boom das tecnologias – reconfigura a relação entre pessoas e Estados, tem-se formado novas pautas e desafios para a luta feminista mundial.

Dentre os mais urgentes desafios que se colocam, está a emergência em se debater o que já é considerado como a maior crise migratória da história, assim como suas causas.

Como essa realidade afeta ainda mais as mulheres que são forçadas a se deslocar entre fronteiras?

Em busca de uma vida digna e trabalho, muitas vezes fugindo de inúmeros conflitos e guerras, mulheres tem sido forçadas a deixar para trás sua história, vínculos sociais e culturais, assim como tantas outras formas de opressão, enfrentando perigosos trajetos e violações para chegar em um novo país completamente desconhecido.

Apesar das dificuldades em encontrar dados consolidados sobre a complexidade dos novos fluxos migratórios no Brasil, pesquisas apontam que tem aumentado rapidamente, em especial nos últimos anos, o fluxo de mulheres nessas condições. No inicio de 2016, chegaram no mesmo dia em São Paulo 50 refugiadas da Angola grávidas, em um total de 600 angolanas que aterrissaram na capital em um período de 3 meses.

No Brasil, vendido no exterior como o País da Imigração, as violações e exclusão das mulheres imigrantes, cuja discriminação não depende tanto da nacionalidade mas sim da condição socioeconômica e raça/etnia, já são uma realidade e todos aqueles que se solidarizam com o 8 de Março como um calendário de lutas devem se levantar também a favor dessas mulheres, apoiando suas demandas concretas de reivindicação ao Estado para garantir acolhida e combate à xenofobia e racismo.

Brasil: Por que incluir as mulheres imigrantes na pauta dos movimentos que apoiam o Chamado para Greve Internacional no 8 de Março?

As múltiplas formas de violência que atingem as brasileiras no cotidiano também são vivenciadas por mulheres imigrantes que vivem no país, principalmente as mulheres que chegam em condições precárias e com problemas na documentação.

Um evento organizado pela Defensoria Pública em São Paulo no final de 2015 buscou dar visibilidade para a questão das mulheres imigrantes e apontou desafios diversos que o Estado brasileiro deve enfrentar para cumprir minimamente com os tratados internacionais de direitos humanos a que está comprometido. Um dos grandes entraves que está contando com a pressão de parte da sociedade civil no Senado trata da substituição do Estatuto do Estrangeiro, uma lei da ditadura militar, que trata a migração como caso de policia.

O desconhecimento da língua portuguesa, a falta de informações sobre seus direitos e a precária estrutura de acolhimento do Estado reforçam o ciclo de silenciamento das violações sofridas pelas mulheres imigrantes.

No final de 2016, o Alto Comissário da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein, ressaltou que “Os deslocados, sejam refugiados ou migrantes, são especialmente vulneráveis e estão entre as principais vítimas de violações dos direitos humanos. Mulheres e crianças são alvos preferenciais.”. Dados coletados por organismos internacionais de direitos humanos revelam as violações específicas que as mulheres migrantes estão sujeitas ao cruzarem fronteiras, sendo frequentes os relatos de estupro e aliciamento para tráfico internacional de mulheres e drogas.

Com a eleição de Trump nos Estados Unidos está ficando mais evidente os caminhos que os Estados podem tomar para endurecer ainda mais a criminalização e restrições aos imigrantes, sob a justificativa ilusória que interessa ao sistema neoliberal, a depender do momento econômico, de que o imigrante representa uma ameaça a empregos e à segurança nacional.

Apesar dos fortes ataques xenófobos e racistas de representantes políticos em diferentes países, inclusive na América Latina – no Brasil e de forma mais grave na Argentina, uma série de protestos desde o inicio do ano tem mostrado uma crescente resistência, a exemplo de mobilizações em Nova York e Barcelona que reuniram milhares a favor da acolhida de imigrantes e em oposição a políticas restritivas.

Os discursos durante a Women’s March também alertaram para a solidariedade em torno dos e das imigrantes como forma de se opor a todas as formas de opressão ao redor do mundo. Foram marcantes os discursos da palestina ativista Linda Sarsour, Angela Davis e o protesto de uma criança latino-americana com o lema “Si, Yo Puedo”.

Por ocasião da Marcha, também foi publicado em janeiro um Guia de Visões e Definição de Princípios (em inglês) que traz reivindicações específicas aos Estados sobre o direito de migrar:

“rejeitamos a deportação em massa, a detenção de famílias, as violações do devido processo legal e a violência contra migrantes queer e trans”, diz a declaração. “Reconhecemos que o apelo à ação para amar o próximo não se limita aos Estados Unidos, porque há uma crise de migração global. Acreditamos que a migração é um direito humano e que nenhum ser humano é ilegal”.

Para a Greve do 8 de Março no Brasil, é fundamental que as mulheres e movimentos também dialoguem com as reivindicações das mulheres imigrantes que vivem no país e com a plataforma de ação que está sendo articulada internacionalmente. Uma iniciativa nesse sentido ocorrerá durante o ciclo de debates do mês de Março organizado em São Paulo durante o evento “Conexão Internacional da Luta Entre Mulheres Imigrantes e Brasileiras”, confira a programação.

8M de 2017: A luta das mulheres incendeia mundialmente

Mulheres estão se dedicando em diferentes cidades da América Latina, África, América do Norte, Europa, Oriente Médio e Ásia para construir “um feminismo mais amplo e com unidade de ação: antirracista, ‘antiheterossexista’ e antineoliberal, anti-imperialista, e que defenda também as pautas das mulheres negras, pobres, lésbicas, trans e queers, sem colocá-las em segundo plano”.

A data 8 de março emerge originalmente como proposta em um turbilhão de transformações históricas na virada do século XX, durante o processo de intenso desenvolvimento da industrialização e expansão econômica, ao qual as mulheres em condições precárias de trabalho nas fábricas começam a contestar essas condições de total descomprometimento dos patrões com as mulheres.

Diante desse contexto de fortes opressões, as mulheres em diferentes partes do mundo além de ter na pauta a precarização do trabalho feminino passam a reivindicar também por direito ao voto, melhores salários, redução da carga horária, etc.

Um dos estopins para potencializar a internacionalização da luta das mulheres ocorreu na fábrica Triangle Shirtwaist (Nova Iorque), onde mulheres operárias foram queimadas vivas ao se recusarem a trabalhar em forma de protesto. Após o incêndio ocorrido na fábrica Triangle Shirtwaist alavancou-se uma onda de protestos no mundo inteiro.

Nos últimos anos, o 8 de Março (8M) vinha tomando um viés diferente do que foi proposto na virada do século XX. Uma certa despolitização e otimismo com alguns pontuais e transitórios “Estados de bem estar social” fortaleceu a tentativa de transformar o 8M em uma data de festejos e esquecimento de séculos de luta. Apesar de que é preciso também saber celebrar as conquistas das mulheres, tal deslocamento parece ignorar a existência de um sistema perverso e violento com o universo feminino em todos os campos em que esse corpo atua, além de ignorar a história das mulheres que foram mortas lutando nas fogueiras, nas fábricas e nas periferias do capital.

O aprofundamento das contradições de um sistema que esmaga, a cada dia mais, a grande maioria da população mundial está reacendendo as chamas de uma luta feminista que nunca deixou de existir.

Nesse 8 de Março de 2017, a fim de fortalecer o Chamado Internacional de Greve Geral das Mulheres (link) publicado em meados de fevereiro por reconhecidas ativistas atuantes nos Estados Unidos, mulheres de mais de 30 países estão compondo movimentos de base em torno da plataforma Greve Internacional de Mulheres (International Womens Strike – IWS/Paro Internacional de Mujeres – PIM).

A ideia é mobilizar mulheres, incluindo mulheres trans, e todos os que as apoiam num dia internacional de luta – um dia de greves, marchas e bloqueios de estradas, pontes e praças; abstenção do trabalho doméstico, de cuidados e sexual; boicote e denuncia de políticos e empresas misóginas, greves em instituições educacionais.

No Brasil, mulheres de diferentes estados vem buscando unidade para levantar as pautas contra a violência cotidiana, o Estado machista e genocida que está aprofundando as medidas contra os trabalhadores, a exemplo da Reforma da Previdência que afetará ainda mais as mulheres se for aprovada.

Nos últimos anos no país, ganha destaque a organização das mulheres contra o feminicidio, a cultura do estupro e pelo enfrentamento aos ataques de políticos que buscam retirar direitos das mulheres, como foi o caso das passeatas contra Eduardo Cunha. Protagonismo recente também das mulheres no movimento Mães de Maio que denuncia o Estado genocida contra a juventude negra e as secundaristas que estiveram a frente de grande parte das ocupações de escolas, um dos movimentos mais vibrantes dos últimos tempos no país.

Sem hierarquizar as opressões, as mulheres e movimentos brasileiros podem se colocar em solidariedade as mulheres imigrantes e se conectar também com a luta internacional em torno dessa pauta.

Veja mais informações sobre o 8M no Brasil neste link.

Especial Infância e Refúgio – Érica e as meninas que fogem de homens

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Erica e a mãe, Pamela, no terceiro perfil da série Infância e Refúgio. Crédito: Júlia Dolce Ribeiro

Por Júlia Dolce Ribeiro – texto e fotos
Desenhos de *Érica (nome fictício)

“Aqui as mulheres também são fortes”

Foi assim: a gente tava lá no Congo, pegou o avião e puft… Fugiu!”, explicou Érica com graça, sem tirar os olhos da boneca que tinha nas mãos, enquanto sua mãe ainda abria a boca para responder que sim, poderia explicar como havia sido sua vinda para o Brasil.

Com 5 anos na época do primeiro encontro, mas com um tamanho de 10 e uma maturidade de muito mais do que isso, a menina de cabelos trançados com extensões avermelhadas tornou um hábito interromper as respostas da mãe para ajudar com o português e dar a sua opinião sobre os ocorridos. “Me desculpa por isso”, respondia Pamela com uma risada envergonhada e colocando as mãos sobre o rosto, em comportamento oposto ao da extrovertida Érica.

Mãe e filha vivem em um quarto alugado no segundo andar de uma casa em Guarulhos, próxima ao Parque Ecológico do Tietê e a alguns metros da linha do trem, que periodicamente atropelava a entrevista com seu barulho. Érica nos esperava em cima da cama de casal que divide com a mãe, brincando em uma roda de bonecas de bebês brancos e Barbies, enquanto Pamela nos guiava para encontrarmos a casa na rua sem lógica numérica da comunidade. O aposento pequeno ficava no alto de uma escada estreita e reunia quarto e cozinha, assim como todos os pertences da família. “Pode sentar aqui, por favor”, disse Pamela, sem jeito com a falta de espaço e com a cama inclinada, com uma dos pés quebrados.

Após uma tentativa frustrada de distrairmos Érica, que parecia bastante interessada na entrevista, Pamela começou a nos explicar, em português pausado e baixo, misturado com palavras do francês, que as duas estão no Brasil há um ano e três meses, após terem que deixar o país de origem por problemas políticos e por causa do pai de Érica. “Meu marido… Como fala? Me maltratava, me batia muito. Violência doméstica. Demorou muito, quatro anos, mas conseguimos fugir. Meu amigo me ajudou, me falou que aqui no Brasil era bom e que eu ia ficar segura com a minha filha. Meu marido ficou lá, agora minha mãe me falou que ele tá na França, acho. Viemos de avião, eu cheguei aqui no aeroporta…”.

– Aeroporto, mãe, aeroporto! Eu vou avisando você e você vai respondendo eles!

– Deixa eu falar português, Érica. Desculpa – continuou, rindo.

“Passamos pelo Marrocos e viemos com três pessoas de lá também. Chegamos aqui e a irmã de um dos amigos que estavam com a gente nos ajudou a ver a Cáritas e depois a Polícia Federal. É muito difícil para chegar aqui”. Desde então, elas já viveram em três abrigos diferentes até conseguirem alugar o quartinho, em fevereiro deste ano: passaram dois meses na Casa do Imigrante, quatro dias em um abrigo comum do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e seis meses na Casa da Acolhida da Associação Palotina para mulheres.

“No abrigo sofremos muito, não ajudam nada, só para comer. Na Casa das Mulheres eu tinha que fazer a limpeza, trabalhava muito, daí não dava tempo de sair e procurar emprego. Na Casa do Imigrante é muito melhor, você não trabalha, pode sair cedo, conhecer o Brasil e procurar emprego’, explicou Pamela, sendo interrompida mais uma vez pela filha.

“Na Casa do Imigrante eu aprendi a falar português sozinha, não aprendi com ninguém. Antes eu falava só que queria água, daí passaram os meses e eu ficava repetindo o que as pessoas falavam, até que aprendi sozinha com a minha cabeça assim!”, contou Érica, animada, sentando no colo da mãe.

– Você já deu alguma entrevista antes, Érica? – perguntei
– O que é entrevista?
– Isso que você tá fazendo agora, respondendo perguntas assim. Já fez isso antes? Você fala muito bem!
– Não… Eu falo bem, minha mãe não fala muito bem não, ela ainda não aprendeu. Eu gosto de falar, falo várias línguas: inglês, francês, lingala. Good night, bonsoir…

Erica e a mãe, Pamela, no terceiro perfil da série Infância e Refúgio.
Crédito: Júlia Dolce Ribeiro

Naturais de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, as duas tinham uma vida financeiramente estável, apesar dos múltiplos conflitos armados entre forças paramilitares e o exército do presidente Joseph Kabila. Pamela era enfermeira e estudou nutrição na faculdade. “Lá você recebia o salário todos os dias, aqui tem que esperar até o final do mês. Para conseguir pagar aluguel, comprar comida, é muito difícil, não tem como. Lá minha casa era muito grande, com dois banheiros, um espaço grande. Sinto falta do espaço”.

Segundo maior país africano, a República Democrática do Congo – que durante o século XX sofreu o processo de descolonização e independência, tendo seu nome mudado de Congo Belga para Zaire e finalmente para o nome atual – já passa por mais de vinte anos de guerra civil, que deixou até agora cerca de 6 milhões de mortos e desaparecidos.

País mais rico em recursos naturais da África Subsaariana, a República Democrática do Congo enfrenta duramente as consequências da exploração e disputa de suas riquezas. Trabalho infantil nas minas de coltan – liga metálica utilizada para a produção de telefones celulares – genocídios, sequestros de crianças, estupros como arma de guerra e múltiplas epidemias: a população congolesa é vítima de uma das maiores emergências humanitárias do mundo, enquanto seu processo de redemocratização pós Guerra-Fria parece repetir as décadas de ditadura.

“Lá tem os problemas com o presidente, a família do presidente Kabila. Tem muita guerra, guerra política, guerra civil. Lá no interior tem guerra, no Beni tem guerra. Mata criança, mata mulher, mata todo mundo. Conheci muita gente que morreu, só na minha rua foram três pessoas que morreram”, me revelou Pamela. Apesar das especificidades históricas e geográficas dos conflitos congoleses, o principal motivo para a fuga de Pamela e Érica vitima mulheres de todas as regiões, países e classes sociais do mundo. Exemplo da estrutura patriarcal e da grande vulnerabilidade de mulheres e meninas dentro e fora da perspectiva do refúgio.

“Ele era muito violento comigo, o pai da Érica. A família dele estava envolvida nos conflitos políticos, mas era ele quem me fazia sofrer todos os dias. Eu tinha que ir para o hospital, voltava e ele fazia de novo. Jogava água quente em mim. Teve um dia que ele jogou quando eu tava com a Érica no colo, daí pegou nela. Ficou cheio de cicatriz. Tem foto até”, disse, pegando um pequeno álbum de fotos cor-de-rosa de dentro da mala que guarda em cima do armário e me mostrando imagens da filha bebê, sem roupas, com o corpo todo queimado em carne viva.

“Ela tinha três meses, era pequenininha, mas melhorou rapidinho, tratou das feridas porque teve infecção. Mas comigo foram muitas vezes, eu tenho a cicatriz até hoje. Muitos homens fazem isso, matam as mulheres. Fazem tudo porque lá se você casa o homem faz o que ele quiser, porque você paga muito para casar. Daí pensei que tinha que fugir, se não ele iria me matar. Fiquei por mais anos, mas já tinha arrumado a mala. Esperei um dia para sair, bem rápido, sem ninguém saber, só a minha mãe. Fugi com meu próprio dinheiro, comprei a passagem sozinha”. Ela levantou a barra do vestido por um segundo e mostrou uma faixa de queloides que subia pela sua coxa.

Crédito: Reprodução/*Érica

“Todos os dias eu choro… O Jean me ajuda, diz que não posso chorar porque agora tô num país com muitas leis de proteção das mulheres e crianças”, continuou, se referindo ao amigo congolês Jean Katumba, organizador da Copa dos Refugiados que me passou seu contato. “Uma amiga também tinha me dito para eu vir para cá. Falou que as coisas eram diferentes politicamente e que as mulheres também são fortes”.

Para a mãe, o medo, no entanto, ainda é grande. “Eu não sei se a Érica tá mais protegida aqui. Se o pai dela entrar aqui ninguém vai reconhecê-lo. Brasileiro não reconhece fácil o negro, falam que todos os negros se parecem. Se ele vier aqui, pode chegar até mim através de outro africano. Se mostrarem minha casa, é isso, acabou”, confessou, em voz baixa, quando a filha se distraiu por um momento brincando.

Apesar de gostar muito do Brasil, a mulher grande, de fala e movimentos contidos, conta que se sente muito sozinha. Ela chegou a trabalhar por cinco meses em uma padaria, mas foi demitida porque estava com depressão. “Eu chorava muito porque de uma hora para outra, meu pai, minha sogra e minha irmã morreram, lá no Congo. Foi difícil. Eu trabalhava direitinho, era ajudante de confeitaria, mas a dona falou que não podia mais trabalhar. No Congo era diferente porque aqui eu sou sozinha, eu e a Érica, sem ninguém para confiar meus problemas. Sinto muita falta da minha mãe… Tenho duas amigas aqui só, mas não quero muitas amigas africanas porque trazem muitos problemas. Agora como faço pra procurar emprego? Quando eu procuro emprego gasto dinheiro no bilhete único…”.

– Mamãe, desculpa cortar a conversa de vocês, mas você quer que eu desenhe para você, né Júlia? – perguntou a menina, impaciente.

Érica frequenta a escola no período da manhã, das 5h às 13h. Ela gosta de dançar ballet e assistir filmes na sua escola. “Lá tem um cinema e a gente fica assistindo. Sabe o filme do dinossauro bonzinho? É muito chato, faz chorar as crianças”, contou a menina, enquanto copiava no papel a imagem da Branca e Neve estampada em um caderno. “Lá na escola tem piscina também, e eu gosto de nadar. Vou de perua quando ainda é muito muito a noite, mas eu sei a hora, minha mãe não me acorda. As mamães ficam de pé esperando e as crianças vão embora no ônibus. Mas se a sua mãe não vir tem várias mamães que tão lá e a tia te leva até a escola”.

“Na escola tem uns amigos chatos que cantam funk. Eca, não gosto. Tem amigo que se chama Rafael, ele canta funk O Gustavo canta funk; o Lucas não cantava funk, mas começou a cantar; e o Thiago não canta funk. Eles cantam “A Marconi é Baile de favela”, explicou, cantarolando um trecho da música. “Eu gosto de música de Deus. Aqui o dono dessa casa tem um carro e ele leva a gente para uma igrejinha. Eu gosto de música do Congo também, mas é em Lingala… É tão engraçadinha, vou cantar, ó”. A menina cantou um trecho da música na língua africana e logo em seguida perguntou, com receio: “Foi legal?”.

Tagarela e incansável, Érica continuou, explicando com propriedade as diferenças entre o Brasil e seu país de origem, como se tivesse vivido lá por décadas e não por pouco mais de quatro anos. “No Congo tem esconde-esconde, gira-gira, escorrega, tem tudo. Mas tem umas brincadeiras que não tem lá não, na verdade. Não é tão diferente assim. Aqui a escola dá bastante comida. Eu gosto de arroz, feijão e carne, mas não gosto de feijão preto. Lá no Congo tem arroz e feijão, mas não tem gelatina. Só tem aquilo lá, amarelo, o Fufu. É uma mistura que fica tão tão apertada, e você põe em uma vasilha bem grande, minha mãe sabe fazer.

A mãe balançava a cabeça incrédula com a erupção de palavras e gestos que saiam da boca e das mãos da menina. “O Fufu é como fubá com farinha de mandioca”, me explicou, enquanto Érica pausava para recuperar o ar. “Pensando bem, o Brasil não é tão tão diferente do Congo, porque lá tem plasma e aqui também…”, concluiu a menina.

– Plasma, Érica? – perguntei.
– Ela quer dizer TV de plasma – explicou a mãe, rindo.

Era impossível acompanhar a linha de raciocínio da menina, que, apesar da energia, aparenta um desenvolvimento precoce e bastante saudável para uma criança que havia passado por tanto. Quando falava sobre o resto da família, no entanto, sua percepção sobre o que havia motivado a fuga aparecia com sutileza. “Eu sinto falta da minha família, da minha bisavó e falta do irmão dele”, disse, provavelmente se referindo ao pai – palavra que aparentemente escolheu arrancar do seu vocabulário extenso e substituir por pronomes.

“No Congo eu gostava de tomar suco com a minha mãe e eu ficava indo na praça todos os dias com meu tio que se chamava um nome tão engraçado, ele se chamava Colombelebele”, continuou, com uma gargalhada. “Lá as pessoas crescem e ficam casando, pode se casar em casa ou na igreja. Aqui não é tão parecido. Lá eu comia muito nos casamentos, hmmm era muito gostoso. Se eu mostrar uma foto do casamento do irmão dele você vai achar que era um casamento bem sério, com muita comida, porque era o único irmão que ele tinha. Aqui eu não gosto de ficar sozinha sem a minha mãe e sem ninguém brincando comigo, e eu não gosto de quem xinga. Na minha classe tem umas amigas muito folgadas, tipo a Luciana, que é fofoqueira. Ela entra nas conversas. Eu falo coisas tão boas e ela estraga as coisas tão boas que eu falo”.

Érica é um turbilhão de ideias e pensamentos, algo que, coincidentemente, seu próprio nome (originalmente uma interjeição em grego para epifania) sugere. Ela parava de falar apenas para se concentrar nos desenhos, que já haviam migrado de personagens da Disney para retratos de mim e do meu companheiro. “Acho que vou fazer uma coisa que você vai gostar. Vou fazer tão rápido para vocês não perderem a hora de ir embora. Desculpa, Júlia, mas a sua orelha tá guardada no cabelo aqui no desenho”.  Na segunda vez em que visitei sua casa, ela mostrou outros muitos desenhos que havia feito: “Esse aqui são pernas. As suas pernas são assim direitas ou quadradas?”. Érica se referia a um equipamento metálico – similar ao utilizado por Forrest Gump no filme – que a menina teve que usar no Congo durante meses para endireitar suas pernas. “Esse aqui é o dia de Festa Junina na minha escola, essa aqui é a Ariel, esse aqui é do filme da Dory, que eu vi na escola também”.

Nesse encontro, ocorrido durante o mês de julho, Pamela estava mais tranquila. Há poucos dias havia conseguido um emprego como faxineira em um restaurante libanês no centro de São Paulo e planejava a comemoração do aniversário de seis anos da filha no Sesc Itaquera, que havia conhecido quando foi assistir a Copa dos Refugiados com o amigo Jean. “Agora tá melhorando. Eu consegui um emprego e meu patrão fala francês e português. Trabalhar é bom, melhor que ficar em casa. A Érica fica com a babá enquanto eu trabalho, ela cobra 200 reais. Queria sair dessa casa pequena, mas tudo é muito caro”.

O maior sonho dela, entretanto, ainda é conseguir validar seu diploma de enfermeira no Brasil. “O problema é que eu quero estudar, mas tem que trabalhar… Eu disse que fazia parto lá no Congo também? Aqui já fiz dois partos das minhas amigas nas casas delas”, disse, orgulhosa.

Além das dificuldades financeiras, linguísticas e emocionais enumeradas por Pamela, a violência causada pelo racismo, segundo ela, torna  o processo de solicitação de refúgio no Brasil ainda mais doloroso. “As pessoas daqui não são parecidas com as pessoas do Congo. Brasileiro não gosta de ninguém. Aqui no Brasil, se você senta junto com as pessoas no ônibus, eles fecham o nariz e a boca. No metrô também. É de racismo. Uma pessoa me falou que eu tava cheirando muito mal. Falam que eu venho aqui e não tenho trabalho. Outras pessoas gostam de mim, mas acho que de 100%, 80% não gosta. As crianças são racistas com a Érica também, ela conta muito. Eu falo para ela que não interessa o que pensam”.

Crédito: Reprodução/*Érica

Segundo Pamela, as instituições no Brasil não reconhecem o protocolo de refúgio, único documento ao qual elas tem direito enquanto aguardam a decisão do CONARE de aceitar ou não sua solicitação de refúgio, o que torna tudo mais complicado. “Quando você vai no banco eles ligam no telefone, ligam, ligam, e descobrem que é o documento de estrangeiro. Pra procurar emprego, se não tem RG, não tem trabalho pra você. Alguns brasileiros sabem o que é refúgio, outros não, mas não sabem nada do Congo. Perguntam que país é, onde fica, se é igual ao Haiti”, critica.

Com todas as adversidades, entretanto, Pamela sustenta que gosta de quase tudo no Brasil. “O Brasil é bom. Em todo lugar não tem polícia pra perguntar de documento. Lá no Congo tinha muita polícia, se você voltava para casa depois das 20h eles pegavam suas sacola, seu celular. Aqui só tem polícia quando tem problema do “Fora PT, Fora PT”, eu vi um dia lá no centro. Gosto muito daqui, mas dá saudade né…”.

Me despedi de Pamela e Érica já, eu mesma, com certa saudade. As duas, tão opostas em personalidade e tão completas como família, cativam não só pela experiência de vida e por respeito à sua história, mas por acolherem com carinho qualquer companhia que se aventure a mergulhar em seu mundo por algumas horas. Fui convidada para a comemoração do aniversário de Érica, mas não consegui ir. Deixei uma boneca da loja Preta Pretinha de presente, esperando que os próximos anos lhe sejam mais ternos.

– Uma bonequinha!!! Eu adoro bonequinhas! Bonequinha nova, bonequinha nova! Obrigada, eu gostei!
– Bonequinha africana – disse Pamela, sorrindo e agradecendo o presente.
– Tem até cabelo trançado, né mãe? Vai chamar Lúcia, é um nome bonito. Ou Rosa. Ou Isabela. Ou…

Crédito: Reprodução/*Érica

Dicionário das crianças refugiadas – Érica

 

Refugiado: O que é refugiado?

Imigração: Pfuit, não sei.

Brasileiro: Ser brasileiro é… Não entendi o que vocês tão dizendo, essas coisas que vocês tão dizendo é tão difícil.

Assim Érica, eu te pergunto o que é algo e você me explica o que você acha que significa. Tipo… Lápis, o que é lápis? Lápis é uma coisa que escreve. Como giz de cera é uma coisa que escreve também, e luz é uma coisa que acende.

Isso. E brasileiro? Brasileiro é uma pessoa que tem cor brasileira. É uma pessoa que é igual vocêszinhos, os brasileiros é igual a vocês.

Congo: Congo é nosso país, como a gente somos estrangeiras, a gente somos diferentes. Porque as Angolanas não são da mesma cor, as Angolanas tem outra cor. Que nem minha cor, é igual a cor da minha mãe? Não. Acho que aqui fora é preto, aqui na mão não é preto…

Racismo: Racismo é igual uma pessoa cantora.

Uma pessoa cantora? É, tem muitas pessoas que ficam com medo das vidas, eu não to com medo da vida porque eu já to tão tranquila, eu gostei desse país um pouquinho.

Mas você já teve medo da sua vida? Eu? Nunca.

Cáritas: As pessoas vão lá pra procurar ajuda, porque não tem ajuda, não tem carinho, não tem ninguém pra ajudar, eles não tem casas e não tem nada. Deu problema nos países. Assim como aqui quem é presidência é a Vilma, aqui a Vilma é chata, lá no Congo também tem o Kabila que é muito chato, ele manda todas as polícias matar as pessoas. Eles não deixam tirar fotos do lugar que eles não gostam.

País: País é pra gente morar. Que nem esse coração que eu fiz aqui, parece um país. No mundo todo, todo mundo tem país. Às vezes tem as pessoas que tão morrendo e tem as pessoas que não tão morrendo. Tem uma coisa que o deus não mandou fazer e eles fez, daí azar deles. Eu tenho um livro que “Era uma vez que o Satanás que era cobra, daí tinha uma laranjinha e deus mandou não comer e eles não obedeceu e comeu, aí deus mandou “Fora do meu país!!!”” É assim. Se eu sou inteligente então o Deus pode me colocar em cima lá no céu. Tem muitos país, aqui tem muitas pessoas muito chatas também. Também pessoas tão maluquinhas aqui, dormem na rua.

Criança: é como uma mamãe que teve uma criança. Deus criou as crianças, a gente, deus criou todo nós. Você não era pequenininha? Você cresceu né, então me diz você, o que é criança?

Eu não tenho uma resposta também…

Aaah, eu também não tenho né. Não tenho ainda resposta.

 

*Esta é a terceira parte do especial Infância e Refúgio, sobre crianças refugiadas na cidade de São Paulo. Nele, as crianças entrevistadas usam desenhos e outros elementos lúdicos para falar sobre o que já viveram em tão pouco tempo de vida. Os perfis são do livro Por um Pedaço de Terra ou de Paz, trabalho de conclusão de curso (TCC) na PUC-SP da jornalista Júlia Dolce Ribeiro, e serão publicados um a cada semana no MigraMundo (veja aqui a lista completa). Os nomes das crianças nos textos são fictícios para preservar a identidade de cada uma.

Sociedade civil cobra explicações após CNIg recuar e invalidar concessão de residência temporária a migrantes de países fronteiriços

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Print da edição eletrônica do DOU mostra decisão tomada pelo CNIg sobre a Resolução Normativa 125/2017. Crédito: Reprodução

Entidades da sociedade civil mostram espanto e querem explicações do Conselho sobre mudança repentina

Por Rodrigo Borges Delfim
Atualizada em 24/02/17

Um dia após aprovar a Resolução Normativa 125, que permitia a concessão de residência temporária para migrantes que entraram no Brasil por via terrestre e sejam naturais de nações que tenham fronteira com o Brasil, o CNIg (Conselho Nacional de Imigração) voltou atrás e decidiu invalidar a decisão.

A revogação está na edição desta quinta-feira (23) do Diário Oficial da União e é assinada por Hugo Gallo, novo presidente do CNIg.

De acordo com informações obtidas pelo MigraMundo, o CNIg deve se pronunciar nesta sexta (24) sobre a decisão e sobre o que vai ser feito em relação à resolução, que é fruto de grande mobilização da sociedade civil organizada em torno da temática das migrações.

Print da edição eletrônica do DOU mostra decisão tomada pelo CNIg sobre a Resolução Normativa 125/2017.
Crédito: Reprodução

Reação da sociedade civil

A invalidação da Resolução Normativa 125 pegou de surpresa entidades da sociedade civil e do Ministério Público. Há meses elas reivindicavam uma resposta humanitária para a situação dos migrantes venezuelanos em Roraima e comemoravam a publicação da norma, considerada um grande avanço (leia mais aqui).

“As organizações que assinam esta nota aguardam os necessários esclarecimentos públicos acerca dos motivos da referida publicação, na expectativa de que sejam assegurados os princípios regimentais que devem pautar a atuação colegiada do órgão”, aponta trecho da nota pública divulgada pelas instituições. Assinam a carta:

– Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) – Ministério Público Federal
– Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais – Ministério Público Federal
– Procuradoria da República em Roraima – Ministério Público Federal
– Grupo de Trabalho Migrações – Ministério Público do Trabalho
– Grupo de Trabalho Migrações e Refúgio – Defensoria Pública da União
– Instituto Igarapé
– Missão Paz
– Conectas Direitos Humanos

Leia aqui a íntegra da nota pública, disponível no site do Ministério Público Federal

A Rede Espacio Sin Fronteras, que congrega diversas instituições de defesa dos direitos dos migrantes na América Latina, também divulgou nota em reação à medida. “Pedimos que o CNIg esclareça a opinião pública sobre os encaminhamentos e quais medidas serão tomadas para a regularização migratória de centenas de imigrantes que se encontram na fronteira norte do Brasil”.

Dúvidas e apreensão

A professora Carolina de Abreu Batista Claro, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora na área de migrações, também ficou surpresa com a decisão, especialmente por decisões anteriores do CNIg positivas em prol dos direitos humanos dos migrantes econômicos e indocumentados, como a própria Resolução Normativa nº 125/2017.

“A revogação dessa Resolução no dia seguinte à sua vigência mostra que ou ela está demasiadamente ampla e será republicada para abarcar apenas os nacionais venezuelanos ou que sucumbiu a pressões políticas do governo”.

Embora o CNIg esteja subordinado ao Ministério do Trabalho, o conselho conta com representantes de diversas pastas do governo federal e também da sociedade civil. Carolina teme ainda que essa mudança de decisão tenha a ver com uma alteração recente em outra pasta, a da Justiça, que trocou o título do Ministério da Justiça e Cidadania para Ministério da Justiça e Segurança Pública.

“O que preocupa é a possibilidade de a Resolução ter sido revogada justamente pelo fato de ser bastante benéfica aos migrantes transfronteiriços e, na esteira da alteração do título do Ministério da Justiça, de ter sucumbido a preocupações de que os migrantes transfronteiriços passam a serem vistos como uma espécie de ameaça à segurança nacional, o que seria um grande retrocesso às políticas migratórias adotadas na última década pelo país”.

 

Após recuo, CNIg autoriza concessão de residência temporária de migrantes de países fronteiriços ao Brasil

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Diariamente, imigrantes venezuelanos chegam a Roraima em busca de uma vida melhor. Crédito: Graziele Bezerra/Agência Brasil

Fruto da pressão da sociedade civil, decisão tem efeito direto sobre migrantes da Venezuela em Roraima

Por Rodrigo Borges Delfim
Atualizada em 03/03/17

O CNIg (Conselho Nacional de Imigração) publicou novamente nesta sexta-feira (03/02) a Resolução Normativa 125/2017, que permite concessão de residência temporária para migrantes que entraram no Brasil por via terrestre e sejam naturais de nações que tenham fronteira com o Brasil.

A resolução permite a solicitação de residência temporária no Brasil de migrantes oriundos de países fronteiriços e para os quais ainda não esteja vigorando o Acordo de Residência para Nacionais dos Estados Partes do Mercosul e associados – no caso, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname.

A proposta tinha sido publicada originalmente no Diário Oficial da União no dia 22 de fevereiro, mas no dia seguinte o CNIg voltou atrás e invalidou a proposta. Segundo o Conselho, a proposta precisava ainda de ajustes, que foram feitos.

Recentemente, o Peru aprovou uma norma que permite a concessão de Autorizações Temporárias de Permanência para venezuelanos que migraram em razão da crise social.

A republicação da resolução do CNIg acontece às vésperas da missão agendada para os dias 8, 9 e 10 de março em Roraima. Nela, representantes de organizações públicas, organismos internacionais e sociedade civil estarão no Estado para conhecer melhor a situação dos migrantes no Estado. A agenda de atividades contará com encontros com órgãos do poder público federal, estadual e municipal, visita a locais onde estão vivendo esses migrantes, além de uma ampla audiência pública.

Vitória da sociedade civil

A medida atende a pedidos do Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho e Defensoria Pública da União que, em conjunto com diversas entidades da sociedade civil, pediam uma resposta rápida e humanitária à situação vivida por venezuelanos na fronteira com o Estado de Roraima.

“Acreditamos que a melhor solução seja a concessão de residência, facilitando, assim, a solução para a vida destes imigrantes, bem como evitando acumular mais processos junto ao Conare (Comitê Nacional para Refugiados) que já possui uma grande demanda pendente de análise. Por outro lado, dever-se-á sempre assegurar a quem o desejar o direito de pedir refúgio e de ter o processo analisado devidamente pelas instâncias próprias”, argumenta o documento assinado pelas entidades.

A carta foi assinada por: Caritas Arquidiocesanas de São Paulo e Rio, IMDH, Missão Paz, Conectas, Fundação Avina e Instituto Igarapé, além do Ministério Público do Trabalho, Defensoria Pública da União e Ministério Público Federal. Outras entidades que não assinaram o documentos também ajudaram a pressionar o CNIg em favor de uma resolução para a situação em Roraima.

 

Diariamente, imigrantes venezuelanos chegam a Roraima em busca de uma vida melhor.
Crédito: Graziele Bezerra/Agência Brasil

“A regularização migratória tem vantagens evidentes, como a possibilidade de documentação desses migrantes e de condições de ingresso no mercado formal de trabalho”, destaca o procurador federal dos Direitos do Cidadão adjunto João Akira Omoto, em entrevista ao site da instituição.

Para o gestor público João Guilherme Granja, especialista em migrações e refúgio, a medida representa um grande avanço. “O principal ponto positivo é não ter sido uma resolução estreita, que criasse mais uma situação “extraordinária” pensando num único país ou outro. É positivo que ela atende ao principal ponto de preocupação humanitária atual na região, que é notório no Estado de Roraima, com o aumento dos fluxos de pessoas da Venezuela. É especialmente adequado para promover uma documentação sustentável e duradoura para essas populações”.

Granja destaca ainda o papel da sociedade civil para aprovação da resolução, em uma articulação semelhante a que tem pautado a tramitação da nova Lei de Migração no Congresso. “Esse pessoal [as entidades] estão mantendo uma articulação bem profunda e chegou a fazer audiências em janeiro para organizar um plano e cobrar uma atitude do CNIG. É grande o esforço da sociedade civil e essa articulação foi fundamental para a resolução sair”.

Pontos a observar

Apesar do avanço que a resolução representa, Granja cita dois pontos que merecem uma observação.

Um deles diz respeito ao fato do texto limitar a decisão somente os casos de migrantes que entram no Brasil por terra, excluindo o ingresso por via área, por exemplo. O outro ponto se refere à documentação exigida dos migrantes e o fato de parte deles serem indígenas, que podem nunca chegar a ter tais documentos.

“Seria interessante desenvolver alguma forma mais especifica para lidar com esses casos, envolvendo os órgãos especializados das políticas para essa população”, opina Granja. Para o primeiro caso, o especialista sugere que a norma não se limitasse ao ingresso via terrestre e contemplasse também a via aérea, considerada mais segura.

Mudanças no CNIg

A Resolução Normativa 125/2017 foi a última do CNIg sob a presidência de Paulo Sérgio de Almeida, que teve sua exoneração do cargo publicada no Diário Oficial da União da última segunda-feira (20). Em seu lugar, assume Hugo Gallo, atual coordenador geral de imigração do Ministério do Trabalho.

O MigraMundo vai acompanhar a mudança e, em breve, vai trazer entrevistas tanto com Paulo Sérgio de Almeida como com Hugo Gallo.

 

Festival VIVA! Itália celebra cultura italiana e lota o Museu da Imigração

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Grupo Folclórico La Bella Italia foi uma das atrações do festival VIVA!Itália, que lotou o Museu da Imigração. Crédito: José Luiz Altieri Campos/Arsenal da Esperança - fev. 2017

Cerca de 3.000 pessoas participaram da festa. Além das homenagens à Itália, evento permitiu pontes entre o passado e o presente das migrações

Por Rodrigo Borges Delfim

Em meio à programação de Carnaval que já toma conta de São Paulo, o Museu da Imigração promoveu neste domingo (19) um evento que homenageia a cultura italiana, uma das mais presentes na formação da atual sociedade paulistana e paulista.

O Festival VIVA!, que estreou trazendo a Itália como tema, atraiu milhares de pessoas aos jardins e demais dependências do Museu, além do restaurante utilizado pelo Arsenal da Esperança – entidade que divide com o Museu o edifício da antiga Hospedaria do Brás. De acordo com a organização, pelo menos 3.000 pessoas participaram da festa, entre famílias inteiras, descendentes diretos ou indiretos de italianos e demais fãs da cultura do país. Cerca de 600 entradas tinham sido vendidas antecipadamente pela internet.

Bandeira italiana foi estendida no Museu da Imigração durante o VIVA! Itália.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O VIVA! Itália contou com uma série de atrações gastronômicas e culturais (dança e música) de diferentes regiões da Itália, como Vêneto, Nápoles, Sicília, Calábria e Abruzzo. Também era possível participar de rodas de conversa e sessões de cinema relacionadas à Itália, obter orientação sobre como buscar informações sobre antepassados que teriam passado pela antiga Hospedaria e encontrar atrações voltadas para crianças.

O tamanho do público surpreendeu alguns dos expositores. A Cannoleria Brasil, de Campinas (SP), por exemplo, trouxe 800 cannolis para a festa, que se esgotaram em menos de quatro horas. Para adquirir algumas das principais iguarias disponíveis, como pizzas, massas e sorvetes (e os próprios cannolis), era preciso certa dose de paciência para encarar o calor e longas filas. Mas a maioria do público parecia não se importar com esses fatores.

“Por ser uma primeira festa, acho que superou as expectativas. Acredito que se ela crescer, pode se tornar uma festa tradicional. É o tipo de evento do qual gostamos de participar”, afirmou Emilia Cairo, italiana que chegou ao Brasil com oito anos e é presidente do Circolo Sociale Calabrese di San Paolo. A entidade é responsável pelo grupo folclórico La Bella Italia, fundado em 1991 e que foi uma das atrações da festa.

Grupo Folclórico La Bella Italia foi uma das atrações do festival VIVA!Itália, que lotou o Museu da Imigração.
Crédito: José Luiz Altieri Campos/Arsenal da Esperança – fev. 2017

“Esse tipo de festa é de suma importância, porque você está mostrando o patrimônio do país a partir da dança, das comidas, do idioma, do cinema. Isso é mostrar esse patrimônio para as novas gerações, que precisam conhecê-lo”, completou Emília, que destacou as dificuldades que grupos folclóricos enfrentam para se manter pela ausência de patrocínios, por exemplo.

Estima-se que cerca de 32 milhões de descendentes de italianos residam atualmente no Brasil, sendo 13 milhões somente no Estado de São Paulo. Os ítalo-brasileiros são considerada a maior população de descendentes fora da Itália.

Sorvetes, massas, bebidas e cafés foram algumas das atrações gastronômicas da festa.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Buscando as origens

Entre os presentes ao VIVA! Itália estava a advogada carioca Valeska Rossi, que ficou sabendo do evento há duas semanas, quando veio pela primeira vez o Museu, aproveitando visita a familiares em São Paulo. “Era meu sonho vir aqui, passei a tarde toda aqui e aí me avisaram do festival e acompanhei a informações a partir do Facebook. Foi uma experiência bem forte e enriquecedora vir aqui e gostei muito do evento”.

Bisneta de italianos da região de Nápoles, ela também busca informações sobre como poderia obter a cidadania italiana, a partir de dados sobre a chegada de seus antepassados ao Brasil. “Meus bisavós se conheceram em um barco vindo para o Brasil, parecia história da novela Terra Nostra [exibida pela TV Globo entre 1999 e 2000, que parte da história de dois jovens italianos que se conheceram em um navio a caminho do Brasil e se apaixonaram]. Eles chegaram aqui, se casaram e tiveram 13 filhos, entre ele o meu avô”.

A dúvida de Valeska é algo comum entre as pessoas que procuram saber sobre a trajetória dos antepassados até o Brasil. O Museu conta com um serviço no qual os descendentes de italianos e de outras nacionalidades podem buscar informações sobre a origem de cada um – e que foi bem concorrido durante o VIVA! Itália.

“A maior demanda são as pesquisas sobre origem e família. A grande dúvida é sobre a origem do imigrante e a cidade onde ele nasceu, que é um dado que poucas pessoas possuem. Tem pessoas que só sabem o sobrenome, mas tem outras que sabem até o número do barco no qual ele veio e querem informações adicionais. A maioria são pessoas que estão buscando uma cidadania italiana ou portuguesa, principalmente”, conta Henrique Trindade Abreu, do Centro de Pesquisa, Preservação e Referência do Museu da Imigração, que atendeu cerca de 40 pessoas ao longo da festa – em geral são em torno de cem pesquisas presenciais por mês no Museu, fora os pedidos online e por telefone.

“As pessoas ficam muito felizes quando conseguem essas informações. Não é muito comum, mas hoje mesmo teve uma pessoa que chegou a chorar de emoção ao ver os registros”, completa Trindade.

Ponte para o presente e para o futuro

Quem participou do VIVA! Itália teve ainda oportunidade de conhecer o refeitório do Arsenal da Esperança, que serviu como restaurante durante a festa – mesma função que exerce durante a Festa do Imigrante, organizada anualmente em conjunto com o Museu da Imigração.

O Arsenal da Esperança é uma casa que acolhe 1.200 pessoas todas as noites, especialmente aquelas que estão em situação de rua. Cerca de 300 desses acolhidos pelo Arsenal são pessoas de outras nacionalidades que chegam ao Brasil em busca de uma nova vida, fazendo com que a antiga Hospedaria mantenha parte de seu uso original.

Refeitório do Arsenal da Esperança, usado diariamente por 1.200 pessoas (inclusive imigrantes) e que serviu de restaurante no VIVA! Itália.
Crédito: José Luiz Altieri Campos/Arsenal da Esperança

“É engraçado que muitas pessoas não sabem que o prédio ainda é usado para o que ele foi construído. Até mesmo pessoas que já frequentam o Museu ainda não conhecem esse espaço ou não sabem como ele é utilizado”, conta Everton Furlan, voluntário do Arsenal da Esperança há dez anos.

“Quando a pessoa vem ao Museu e passa para o Arsenal em eventos como esse, ela passa do passado para o presente. Nisso, muitas pessoas resolvem voltar aqui e até se tornam voluntárias do Arsenal, ajudando a construir histórias futuras”, destaca o voluntário.

A cultura como ponte: sarau aproxima refugiados e brasileiros por meio da arte

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Artistas de diversas nacionalidades integraram mais uma edição do Sarau dos Refugiados. Crédito: Géssica Brandino/Caminhos do Refúgio

Longe de estereótipos comuns quando se fala do tema, projeto desenvolvido pelo Sesc São Paulo traz protagonismo de refugiados na música, poesia e dança

Por Géssica Brandino – texto e fotos
Para o Caminhos do Refúgio – link original aqui

Abdulbaset Jarour conversa com a plateia exibindo um sorriso largo. Ele chegou ao palco amparado por muletas, após uma cirurgia na perna. Nascido em Aleppo, na Síria, Abdulbaset apresenta sua terra com orgulho, “a cidade mais antiga do mundo”, para logo cantar em árabe uma música sobre a saudade de casa. O jovem sírio entoa a letra sem desfazer o sorriso, tornando a melodia mais doce e alegre. É uma noite especial: há exatos três anos, no dia 8 de fevereiro de 2014, Abdulbaset chegou ao Brasil. “Senti como se tivesse nascido de novo. Hoje, sinto o Brasil como minha pátria”.

Artistas de diversas nacionalidades integraram mais uma edição do Sarau dos Refugiados.
Crédito: Géssica Brandino/Caminhos do Refúgio

Compartilhar a própria cultura permite àqueles que se refugiaram no país uma aproximação dos brasileiros livre de estereótipos comuns quando se aborda tal questão. Eles vieram da República Democrática do Congo, Colômbia, Palestina, Haiti e da Síria e não querem ser reduzidos a vítimas. O sentimento que trazem é de troca, de descoberta de outras culturas, idiomas e formas de comunicação. Naquela noite, eles são os protagonistas de uma experiência intercultural que tem se espalhado pelo estado de São Paulo por meio do projeto Sarau dos Refugiados.

A iniciativa promovida pelo Sesc São Paulo começou na unidade Pompeia, na capital, em maio de 2016. De lá pra cá, o projeto já esteve em Campo Limpo, na zona sul, São José dos Campos, Santos, Registro, Osasco e Sorocaba. Na semana passada, abrindo o calendário de 2017, foi a vez do evento levar música, literatura e dança à noite da unidade do Belenzinho, na zona leste da capital. Há mais de vinte anos, por meio da parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e de convênio com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o Sesc oferece cursos de português para solicitantes de refúgio que chegam à capital paulista. À frente dos projetos desenvolvidos para refugiados nas unidades do serviço, a gerente de estudos e programas sociais Denise Collus vê no sarau uma forma de abordagem diferenciada e quem tem sido recebida com entusiasmo pelo público. “Foi uma forma muito interessante de introduzir a temática do refúgio, porque eles se apresentam, contam de onde vieram e as pessoas começam a ser situadas na temática de uma forma muito mais leve do que se o tema estivesse numa mesa de discussão”, conta.

O sarau é conduzido pela mestre de cerimônia Débora Garcia. Brasileira e mulher negra, a poeta fala com entusiasmo da iniciativa e do aprendizado contínuo por meio do projeto. A realidade do refúgio aos poucos é apresentada com dados e reflexões sobre a importância do respeito. Com trajetórias diversas, cada refugiado leva ao palco um pouco da própria história em forma de arte.

Das músicas africanas cantadas a capella pelo grupo “Os Escolhidos”, formado pelos congoleses Hidras Tuala, Mabiala Nkombo e Muanda Tryson, às poesias escolhidas por refugiados da América Latina e Oriente Médio, o público participa de uma viagem cultural. Vinda da Colômbia, Juanita Solano declamou em espanhol a letra da música “No me llames extranjero”, de Alberto Cortez e Facundo Cabral, uma reflexão sobre a humanidade que une pessoas de todas as nacionalidades, além de um poema do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro. Da Palestina, Amjad Melhem recitou poemas em árabe, com o apoio de Débora na tradução. Os versos falavam sobre perseverança, sobre não abaixar a cabeça e não desistir. Já Marc Pierre, do Haiti, declamou em crioulo uma reflexão sobre o socialismo, com críticas À exploração do sistema capitalista.

Além dos artistas refugiados, a edição do sarau contou com a participação do ator e cantor Bukassa Kabengele, nascido na Bélgica e criado até os 10 anos no Congo. Filho de Kabengele Munanga, primeiro antropólogo congolês, eles migraram para o Brasil nos anos 80 por questões políticas. Para o artista, é preciso que se entenda o ser humano como universal e que não existe um favor ao receber migrantes e refugiados, mas uma troca honesta. “O que estamos tendo aqui nos mostra que o mundo é muito maior, que há guerras e abismos e tantos ismos que nos separam, mas o fato é que quando abrimos o coração entendemos que nenhum desses desentendimentos faz sentido, pois viemos do mesmo berço. Se pararmos e olhar para o nosso coração, com o olhar do respeito e do que é universal, vamos entender que somos todos irmãos”. E é nesse espírito que o artista convida “Os Escolhidos” para cantar a música “Mina Penda”, encantando a plateia.

A apresentação do sarau no Belenzinho fez parte da mostra “Motumbá: memórias e existências negras”, que tem como intuito valorizar a representatividade de matrizes africanas, por meio da integração de diversas linguagens artísticas e ações culturais produzidas e interpretadas por grupos e artistas negras, negros e periféricos. Segue até março com programação variada, oficinas, debates, apresentações de teatro, performance, dança, shows musicais e outras atividades.

As próximas apresentações do Sarau dos Refugiados estão previstas para março. No dia 24, os artistas se apresentam no Sesc da Vila Mariana, como parte da semana da francofonia, e no dia 26, em Ribeirão Preto.

“Dia Sem Imigrantes” fecha estabelecimentos e leva milhares de pessoas às ruas nos EUA

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Restaurante com aviso de que está fechado em apoio aos imigrantes nos EUA. Crédito: Artaxerxes/ Wikimedia Commons

Quinta-feira foi de boicotes, estabelecimentos fechados e protestos em apoio aos imigrantes nos EUA 

Por Rodrigo Borges Delfim
Foto de Artaxerxes/Wikimedia Commons

As políticas anti-imigração adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continuam motivando protestos dentro e fora do país. E a manifestação mais recente é o Day Without Immigrants (Dia Sem Imigrantes, em tradução livre), impulsionada nas redes sociais pela hashtag #DayWithoutImmigrants

A ação é uma combinação de protestos e greves em todo o país, na qual restaurantes, escolas e outros estabelecimentos comerciais fecharam as portas durante esta quinta-feira (16), em apoio aos imigrantes – até mesmo um museu no Estado de Massachusetts retirou as peças de arte criadas por imigrantes como forma de apoiar a causa. Ao mesmo tempo, os imigrantes também foram convidados a não ir trabalhar, a não ir à escola e a não comprar nada por um dia, como forma de mostrar a importância de cada um deles para a economia, para a cultura e para a toda a sociedade do país.

De acordo com informações da NPR (National Public Radio), o dia de protesto foi marcado depois que agentes da Imigração e da Alfândega dos Estados Unidos prenderam 680 pessoas ao longo da última semana. O governo alega que as ações eram rotineiras e miravam apenas imigrantes com antecedentes criminais. O fato alarmou defensores dos imigrantes no país.

O vídeo abaixo, feito pela agência de noticias France Presse, mostra o boicote feito por restaurantes em Washington, a capital dos Estados Unidos, em apoio ao protesto:

Além de Washington, foram registradas manifestações de rua em apoio ao #DayWithoutImmigrants em diversas outras cidades dos Estados Unidos, como Austin, Chicago, Charlotte, Philadelphia e Atlanta.

Dados da Restaurant Opportunity Centers United, divulgados pelo jornal USA Today, apontam que os imigrantes são a maioria dos trabalhadores em restaurantes nos Estados Unidos, percentual que chega a 70% em cidades como Nova York e Chicago. A entidade luta para melhorar as condições de trabalho dos imigrantes nesses estabelecimentos. Estima-se que 1,3 milhão de imigrantes que trabalham nos restaurantes dos Estados Unidos estejam indocumentados.

Repercussão

Nas redes sociais, as manifestações se dividem entre apoios e críticas ao protesto:

Entre os críticos do Dia Sem Imigrantes, muitos argumentos calcados em valores conservadores, mas também não faltaram preconceitos e estereótipos sobre imigrantes de determinadas regiões do planeta.

 

Ideia que se repete

O boicote promovido nesta quinta-feira não foi o primeiro em apoio aos imigrantes nos Estados Unidos. O atual Dia Sem Imigrantes acontece uma década depois de outro grande movimento nacional, o Great American Boycott (Grande Boicote Americano, em tradução livre), realizado em 1º de maio de 2006 em protesto contra o Illegal Immigration Control Act, publicado no ano anterior pelo governo do então presidente George W. Bush.

A data foi escolhida para coincidir com o Dia Internacional do Trabalhador como forma de apoiar os imigrantes que, mesmo indocumentados, ajudam a movimentar a economia dos Estados Unidos. Na época, os imigrantes também eram encorajados por um dia a gastar o mínimo de dinheiro possível (ou mesmo não gastar nada). O México e países da América Central, regiões de origem de muitos dos imigrantes que vivem com ou sem documentos nos Estados Unidos, também planejaram boicotes de um dia a produtos dos Estados Unidos.

Com informações de CNNNPR, USA Today e BBC Brasil

Carnaval cubano e Itália no Museu da Imigração são atrações deste final de semana em São Paulo

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Museu da Imigração de São Paulo, que ocupa parte da antiga Hospedaria do Brás e recebe uma série de atividades culturais e em benefício da comunidade migrante. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Um final de semana à moda cubana ou italiana? Quem mora em São Paulo poderá escolher entre essas opções (ou até mesmo ir em ambas, já que são em datas diferentes).

No sábado (18), mais exatamente no bairro da Bela Vista, produtores, músicos, dançarinos, amantes da cultura latina, brasileiros e cubanos vão se reunir no bloco Os Buena Vista, que interpretará as músicas mais conhecidas do Buena Vista Social Club e outros clássicos da música latina, tudo em versões de Marchinha de carnaval.

“Queremos estabelecer esse intercâmbio com a cultura latina e principalmente com a cubana, que possui muitos aspectos semelhantes à cultura brasileira, na música, dança, religião, no jeito alegre e expansivo de ser e no modo de festejar o carnaval.”, aponta Thiago Galindo, um dos organizadores do bloco.

Os Buena Vista vão sair da rua Treze de Maio até a praça Dom Orione, no coração da Bela Vista. O bloco terá estrutura de trio elétrico, dançarinos, expressões da arte latina, drinks cubanos e o som dos músicos multi-instrumentistas do grupo BATANGA & CIA.

Já no domingo (19), o Museu da Imigração de São Paulo faz uma homenagem à cultura italiana por meio do projeto VIVA!. Será uma tarde temática com várias apresentações artísticas de música e dança, além de exibição de filmes e atividades gastronômicas. A ação é promovida por comunidades de imigrantes e descendentes e artistas especializados na cultura italiana.

Maiores informações podem ser obtidas na página do evento no Facebook. As entradas custam R$ 6 (valor normal de ingresso no Museu) e podem ser compradas antecipadamente por meio deste link.

O VIVA! Itália aproveita as celebrações do Dia Nacional do Imigrante Italiano, celebrado anualmente em 21 de fevereiro. A data foi criada pela pela lei 11.687, de 2 de junho de 2008, em referência é uma homenagem à expedição de Pietro Tabacchi ao Espírito Santo, em 1874. Este evento ficou marcado como o inicio do processo de migração em massa dos italianos para o Brasil.

Estima-se que cerca de 25 milhões de descendentes de italianos vivam no Brasil atualmente. Grande parte desta comunidade está em São Paulo e tem ancestrais que passaram pelas instalações da antiga Hospedaria do Brás, que hoje é em parte ocupada pelo Museu da Imigração.

Bloco Os Buena Vista
Data e hora: Sábado, dia 18/02 – Concentração às 14h e saída às 15h
Local: concentração na rua Santo Antônio, 929, cruzamento com a Treze de Maio, Bela Vista (Bixiga).
Informações: evento no Facebook

VIVA! Itália
Data e hora: Domingo, 19/02, das 11h às 19h (bilheteria até as 18h)
Local: Museu da Imigração – Rua Visconde de Parnaíba, 1316, Mooca – São Paulo (SP)
Entrada: R$ 6 – ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link
Informações: evento no Facebook

Especial Infância e Refúgio – Enrico, entre caronas, lagartixas e o Cristo

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Com desenhos, Enrico descreveu o caminho que ele e sua família percorreram até o Brasil. Crédito: Júlia Dolce Ribeiro

Por Júlia Dolce Ribeiro – texto e fotos
Desenhos de *Enrico (nome fictício)

“Viemos caminhando. A gente andou muito pela estrada. Dormimos na rua, em postos de gasolina, às vezes em hotéis. Pegamos cerca de… Quantas caronas, filho?”. “Cento e dezenove caronas! Nós contamos”, respondeu o menino animado, levantando pela primeira vez os olhos do desenho que fazia, deitado na cama, enquanto eu entrevistava seu pai.

Enrico, de 12 anos, seu pai Robert, 46, e sua meia-irmã Nataly, 21, deixaram Bogotá (Colômbia), cidade onde viviam, no dia 18 de novembro de 2014, com apenas 20 mil pesos colombianos (cerca de 7 dólares), para dar início a uma jornada que durou dois meses e 15 dias até São Paulo. Entraram no Brasil pela fronteira com o Peru no dia 31 de dezembro, chegando em Brasileia, no Acre. “Ano novo, país novo, vida nova”, disse Robert, com um sorriso tímido.

A família, que aguarda entrevista com o CONARE para conseguir o reconhecimento de refúgio no Brasil, saiu de seu país de origem por conta da perseguição do narcotráfico e por problemas financeiros. “grupos do narcotráfico e paramilitares, grupos armados da Colômbia. Saímos por seguridad”, continuou o pai, que se tornou alvo por ter feito bicos como membro de um órgão que investigava traficantes de drogas. “Recebia e-mails com ameaças dizendo que já haviam me localizado”.

Un pueblo sin piernas pero que camina*“

Com quase meio século de duração e agravado nos últimos cinco anos, o conflito colombiano – uma guerra que envolve múltiplos grupos paramilitares, traficantes e guerrilhas ideológicas como as Forças Armadas Revolucionárias (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) – coloca o país em segundo lugar em número de refugiados e deslocados internos, os “desplazados”, perdendo apenas para a Síria. Um acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC que estava sendo negociado há quatro anos foi anunciado em agosto de 2016, mas acabou sendo recusado pela população por 50,2% dos votos válidos em um plebiscito realizado em outubro do mesmo ano.

São cerca de 6,7 milhões de pessoas deslocadas dentro da Colômbia, aproximadamente 13% da população, e um total de 360 mil colombianos reconhecidos como refugiados em outros países, a maioria no Equador e na Venezuela. No Brasil, são a terceira maior população de refugiados, cerca de 1.100 já reconhecidos, um número que, entretanto, representa uma porcentagem pequena do total de refugiados colombianos.

“É muito comum acontecer isso, todos os dias colombianos deixam o país, mas poucos vêm para o Brasil, por causa do idioma. Eu não conheço até hoje porque quis vir para cá. Sempre falei que tínhamos que conhecer o Rio de Janeiro. Eu descobri o país direito pela Copa, por televisão. Ficou muito famoso. Quando tomei a decisão de sair de lá, o Rio veio na minha cabeça”, explicou Robert. O Rio, destino ainda inalcançado da família, é referência constante nos desejos de Enrico, refletido nos desenhos feitos pelo menino.

“O Santos do Rio de Janeiro” foi o primeiro desenho entregue pelo garotinho pálido e magro, vestido de camiseta do Corinthians e óculos de grau, que me recebeu com timidez, estendendo um banco de plástico em um apartamento alugado da Baixada do Glicério, enquanto seu pai e irmã cozinhavam arepas colombianas, erguendo uma nuvem de fritura que tomava conta do cômodo único de 20m².

“Santos do Rio de Janeiro”, o Cristo Redentor do desenho de Enrico.
Crédito: Reprodução/Enrico

Era noite de Virada Cultural em São Paulo e a família aproveitava a manhã de sábado para encher o estoque dos salgados típicos colombianos, a fim de vendê-los no Vale do Anhangabaú para o público itinerante. Enrico, por sua vez, assistia a um episódio de ‘Todo Mundo Odeia Chris’, sentado na cama debaixo da beliche que divide com sua irmã – o pai dorme em um colchão improvisado no chão.

O menino ria com gosto do seriado na Record e parecia confortável em ignorar minha presença, uma dos tantos “periodistas” que já passaram pelo apartamento para perguntar sobre sua “aventura” ao seu pai. Isso até eu tirar o maço de sulfite e estojo de canetinhas da mochila e perguntar se ele gostaria de desenhar para mim. Ele afastou da TV os olhinhos aumentados pelas lentes e assentiu com a cabeça, sorrindo: “Eu gosto de desenhar coisas. Tenho vergonha de dar entrevista”, disse, em um português quase sem sotaque que, segundo ele, foi “mais ou menos fácil de aprender”.

Em monossílabas, Enrico, ou Yuyo (algo que me custou descobrir por conta da inversão confusa de “apelido” e “sobrenome” feita entre hispanohablantes e lusófonos), me contou que está no sexto ano da escola; que gosta de andar de skate e jogar videogame; que sua matéria favorita é matemática, porque matemática é “bom”; e que quer ser policial ou bombeiro, “porque meu pai quer que eu conduza um helicóptero”.

“Minha escola é mais grande do que a que eu estudava no ano passado, lá eu brinco, faço lição, é fácil. Eu gosto de lá, tem pessoas legais e tem gente chata. Tem gente que enche o saco, fala que eu não sou daqui desse país. Eu gosto um pouquinho só de morar aqui, tem uns meninos que ficam aqui na Baixada que falam muito palavrão”, conta Enrico.

Meia hora depois, seu pai puxa outro banco, esfregando o suor no avental, e pede desculpas pela demora, explicando que pretendem vender bastante naquela noite. Ele tem um jeito doce, olhos bondosos e preocupados. O menino volta a sua atenção ao desenho e Robert dá início à explicação padrão da viagem para o Brasil, que já deve ter repetido uma centena de vezes, até que desacelera o discurso e se emociona quando as perguntas colocam seus filhos em foco.

“Eu vim por mim e pela minha família. Mas tenho muitos problemas com eles, as crianças brasileiras discriminam muito, não respeitam. Falam palavrões para ele, batem nele. Ele ainda tem alguns problemas na escola, mas tá indo. Tem alguns amiguinhos. É complicado… O Enrico reclama bastante que quer ir embora para a Colômbia, ele não gosta muito daqui e gostaria muito de voltar, mas entende que não pode. Ele não chegou a ver nada lá, fomos embora para ele não ver. Foi a melhor coisa, por agora”.

Eletricista de formação, Robert trabalhava em uma padaria na Colômbia antes de ficar desempregado e deixar o país. Enrico frequentava normalmente a escola, e nas horas extras desenhava, jogava futebol ou acompanhava o pai no trabalho. A mãe do menino deixou a família há oito anos. Da sua vida antiga, Enrico diz sentir saudade de muita coisa, principalmente da família e da comida.

“É muito boa a comida de lá. Meu pai faz algumas comidas aqui, o arroz e a carne ficam iguais, mas lá eu comia bastante peixe, aqui como mais batata-frita e hambúrguer. Minha comida favorita do Brasil é o churrasco”. Ele conta que fala com seu primo por telefone e por Facebook, mas que não tem contato com nenhum amigo mais. Segundo Robert, o resto da família colombiana não pensa em vir para o país ainda, por ser muito difícil chegar aqui. Sobre o quanto mudou desde a viagem, Enrico diz apenas estar “um poquito mais grande” do que quando chegou.

Apesar de ter gostado de partes da aventura, Enrico absorve as dificuldades financeiras do pai na sua percepção sobre o Brasil. “Não sei se foi bom vir para cá, talvez. Tá muito difícil conseguir o dinheiro e pagar o aluguel, lá era mais fácil”, explica o menino. Durante a entrevista, o pai confessa: “Não estou muito bem não. A coisa mais difícil é ter estabilidade, tranquilidade, para mim e para as crianças, eu preciso muito disso. Trabalho direitinho, mas sou completamente dependente do meu trabalho. Não é fácil vender empanadas”.

Robert trabalhou por alguns meses em uma lan house do Glicério, que entrou em falência e fechou. Hoje trabalha vendendo as empanadas e arepas colombianas com a marca própria: “¡És Rico!”. Através da entidade Adus, ele participou de um projeto no qual vendia seus pratos em um food truck na Universidade Mackenzie, por 40 dias. “Para nós a vida é muito mais difícil do que na Colômbia, é muito complicado fazer tudo sendo refugiado, organizar tudo, conseguir documento”.

Na opinião de Robert, falta muito espaço para os refugiados no Brasil. “A Cáritas ajuda muito, guiando quando os refugiados chegam, mas é muito demorada. A Adus ajuda no encaminhamento, para que eu possa me empoderar da minha situação. As duas tem programas, mas muito pouco para as crianças. Para elas falta tudo. Tem alguns cursos de português, mas não há uma diretriz”.

Ele opina que os brasileiros sabem muito pouco sobre o refúgio, e muito menos sobre seu país de origem. “Eles sabem que existem refugiados aqui, mas não conhecem nossas vidas e porque tivemos que deixar tudo para chegar aqui. Acho que é bom que as pessoas conheçam mais, para não acharem que nós viemos tirar seus trabalhos. As pessoas não gostam de nós, não podemos generalizar, mas sinto que não gostam. Falam que os estrangeiros têm que ir embora. Falta educação para as pessoas”.

Enrico vai à escola de ônibus no período da manhã e volta para casa à tarde, onde fica pelo resto do dia, ajudando nos afazeres domésticos, fazendo compras no supermercado para as arepas e brincando. Ele faz questão de me contar que no seu prédio mora um menino que estuda junto com ele, com quem, de vez em quando, disputa campeonatos de videogames. “Ele é brasileiro e é meu amigo”. Tanto o pai quanto o filho acham o Centro, e principalmente o Glicério, perigosos. “Do lado da lan house onde meu pai trabalhava só tinha brigas”. A maior diferença entre o Brasil e a Colômbia, para o menino, é a quantidade impressionante de “pessoas dormindo na rua”, que temos aqui.

O lugar preferido do menino em São Paulo é o Parque Ibirapuera, onde já foi duas vezes visitar e andar de skate. A família já visitou outros locais turísticos da cidade, como o Parque Vila Lobos e o Aquário. Da viagem para o Brasil, o lugar que Enrico mais gostou foi Cusco, no Peru, e o mar de Esmeraldas, no Equador. “Eu conheci o mar. Nunca tinha visto, nem na Colômbia. A gente morava longe”, conta.

Em um mapa cuidadosamente desenhado pelo menino, mas que ainda assim não representa toda a distância e cidades percorridas, ele explica que a jornada teve início quando tinha 11 anos, no Terminal de Bogotá, passando pela cidade de Ibagué, Cali, Pasto e Ipiales, na Colômbia. “Em Pasto tem uma ponte famosa”, relata. Cruzaram a fronteira para o Equador, passaram por Tulcán e pelo tal mar de Esmeraldas, onde aprendeu a nadar, cena também escolhida por Enrico para ser perpetuada em desenho.

Desenho descreve local onde Enrico aprendeu a nadar.
Crédito: Reprodução/Enrico

Para representar a cidade seguinte, Santo Domingo, também no Equador, o menino desenhou uma mão. “Foi em um shopping onde a gente pediu dinheiro para comer pela primeira vez, por isso a mão”, explica. Na cidade de Naranjal, o desenho de três sacos representam as sacolas de roupas que a família recebeu quando se hospedou em um hotel, e em Machala, quase na fronteira com o Peru, uma iguana desproporcionalmente grande mostra a primeira vez que Enrico viu o animal. “Machala foi onde fui a conhecer as… Como diz? São como grande lagartixas. Fazia muito calor”.

O muro vermelho padronizado que simboliza as fronteiras no mapa de Enrico (e expõe a riqueza semiótica do desenho) marca dessa vez a entrada no Peru. A primeira cidade atravessada, Piura, é representada com grãos de areia, “lá é um deserto”. Na cidade seguinte, Chiclayo, um pequeno homem com chapéu remete à vez em que a família se hospedou na casa de um policial por quatro dias. Em seguida vem a capital, Lima, com seus muitos prédios; Nazca; Pisco; e Cusco: várias casinhas entre montanhas. “Lá fica bem alto, é muito frio”. Enrico conta que gostou de Cusco porque o hotel onde se hospedaram ficava em frente à linha do trem. “Lá foi a primeira vez que conheci o trem, muito barulhento, mas legal”.

Nesse momento o menino interrompe a explicação e se volta para o pai em espanhol, comprovando a insatisfação em morar no Brasil: “Papa, vamos a volver para Colombia caminando?”, pergunta, dando risada. A irmã ri junto e o pai responde, em um misto de graça e preocupação, que já está muito velho para caminhar.

Enrico continua, explicando que em Puerto Maldonado pegou carona no carrinho acoplado de uma moto, até a última cidade do Peru, Iñapari, onde finalmente cruzou a fronteira para o Brasil.

Em Brasileia, primeira cidade conhecida em solo brasileiro, Enrico conta que um moço os abrigou, “mas não em uma casa com coisas, era uma casa em construção mesmo. Nós dormimos lá por uns dias”. Na cidade, os três aprenderam a fazer pulseirinhas de miçanga para vender, até chegarem em Rio Branco. “Conhecemos um montão de haitianos lá. Alguns falavam espanhol ou português, então conseguimos falar com eles. Vi uma cobra lá no albergue, também”.

Na capital acreana, Robert procurou o endereço da Polícia Federal e apresentou o pedido de refúgio. Ele já havia pesquisado todo o procedimento antes de sair da Colômbia. “Eles falaram que como a Colômbia faz parte do Mercosul eu podia entrar no país com o documento do bloco, é bem mais fácil. É muito complicado ficar com o Protocolo de Refúgio, ninguém sabe o que é, não dá nem para abrir uma conta, é sempre ‘não, não e não’ com o protocolo. Mas a carteira do Mercosul custa R$600”, explica.

“Ficamos quinze dias em um albergue em uma chácara onde chegavam cerca de 800 haitianos diariamente. Então nos colocaram em um ônibus para São Paulo. Não é difícil entrar no Brasil, é difícil chegar e transportar-se aqui dentro, porque tudo é mais caro. Ficamos no ônibus por três dias e meio e chegamos aqui em São Paulo. O Brasil é bem grande e as pessoas são muito temerosas, não gostam de dar carona como nos outros países”, continua Robert.

Em São Paulo, a família chegou a dormir na rua por alguns dias, até procurar a Cáritas e se hospedar por um tempo no CRAI (Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes), conhecido por eles como o “albergue da Rua Japurá”. Robert conta que gostou do albergue, porque lá oferecem três refeições diárias e permitem que as crianças fiquem na casa, enquanto na maioria dos albergues em que passou tinha que sair às 6 horas e retornar às 18h. A família chegou a morar em outro apartamento, menor ainda, até se estabelecer no endereço atual do Glicério.

Para o pai, o mais difícil do trajeto de refúgio foi o próprio caminhar. “Havia dias inteiros que tínhamos só água e pão para comer, água e pão. Algumas vezes pegávamos uma bandeja para os três comerem. Eu tentava ser o que menos comia, para deixar para eles. Era duro”. Nos retratos feitos por Enrico, a mochila grande, pesando sobre os ombros como a de um mochileiro, parece fazer parte da anatomia do pai. “Ele carregava a mais pesada. Meu pai e a Nataly levavam duas mochilas cada, e eu uma”.

Em desenho, a longa caminhada de Enrico e família até o Brasil.
Crédito: Reprodução/Enrico

A menina, que tem uma aparência infantil e esteve ocupada cozinhando durante todo o meu primeiro encontro com a família, conversou comigo durante a visita seguinte, e contou acreditar que a jornada trouxe várias coisas novas. “Muitas experiências boas, outras tristes que a gente nunca vai esquecer, tipo dormir na rua, pedir dinheiro na rodoviária… Eu nunca tinha pedido dinheiro, tive muita vergonha. Ficamos com fome e sede todos os dias…”.

Nataly, que ainda não completou o ensino fundamental, afirma que a decisão da viagem foi de uma hora para a outra e que ela amadureceu muito durante o trajeto. “A gente decidiu e arrumou tudo em um dia, saiu no dia seguinte, dormimos na rodoviária e começamos essa aventura louca. Nunca imaginei que seria assim, eu era uma criança”.

Quanto a pegar tantas caronas, Nataly e Enrico disseram que nunca ficaram com medo. “A gente conhecia bastante gente, contávamos que estávamos indo para o Brasil caminhando, as pessoas gostavam de saber, davam dinheiro, almoço, guaraná, até panetone”, conta a menina. “Quando a gente começava o caminho a gente tinha que terminar. Agora a gente caminha fácil”, disse, rindo, sob queixas do irmão mais novo:

— Eu não caminho fácil, não.

— Ele é uma manteiguinha, cansava e ficava chorando — provocou a menina, arrancando gargalhadas da família que, por um momento, pareceu estar conversando sobre uma dificuldade pré-adolescente de acordar cedo, e não sobre os milhares de quilômetros percorridos.

Em consenso, a família decidiu que o momento mais divertido da viagem foi quando fizeram uma competição para vender bolachas, que o pai comprava em rodoviárias para depois revender em pequenos sacos. Já a pior hora, segundo Nataly, foi quando tiveram que dormir em um posto de gasolina. “Meu pai ficou acordado toda a noite, ele não conseguiu dormir”.

Quando questionado sobre os desenhos, Enrico disse que foi difícil se lembrar de tudo, mesmo com a ajuda do pai. Seu mapa, cheio de símbolos significativos, cruza parte da América Latina sem destacar atrações turísticas. Nazca não é representada com suas misteriosas linhas e Cusco não é acompanhada das ruínas de Machu Picchu, que a família gostaria tanto de ter visto, mas não conseguia pagar a entrada. Mesmo o trajeto entre Rio Branco e São Paulo não traz referência qualquer da Floresta Amazônica. Sua vivência e percepção da jornada simbolizam as dificuldades, encantamentos e incertezas da própria experiência do refúgio. Noites sob tetos que os abrigaram, em casas ou hotéis, são cuidadosamente marcadas, assim como alguns dos veículos que facilitaram o caminho da família com caronas. As fronteiras entre países, barreiras em vermelho, são quase uma metáfora da interdição do migrar, e a pequena mão sobre Santo Domingo, uma metáfora imagética da fome. Já o “Mar de Esmeralda”, onde o menino nadou por vários dias, corta seu mapa como um Oásis.

Entretanto, o mapa não termina com o prédio cinzento de São Paulo. A estrada continua, com ajuda de flechas, até outro pequeno desenho do Cristo Redentor, a única marca totalmente turística do desenho, acompanhado de um ponto de interrogação que dispensa qualquer explicação. “Eu só quero conhecer o Cristo… E a praia”, diz Enrico. “Até ofereceram trabalho para o meu pai no Equador, mas ele queria chegar ao Rio. Essa era a meta”, destacou Nataly. “Ainda não terminamos, não chegamos lá”, concluiu Robert, que hoje pensa apenas em visitar a cidade maravilhosa.

Desenho de Enrico descreve o longo caminho que ele e sua família percorreram até chegarem ao Brasil.
Crédito: Reprodução/Enrico

— Obrigada pelos desenhos, Enrico, você desenha muito bem. Essa história daria um livro, hein?

— Seria muito legal um livro de dibujos da viagem… — respondeu Nataly

—Muito bonito… — completou o pai, com seu último sorriso preocupado antes que eu saísse do apartamento.

Dicionário sobre a situação de refúgio, por Enrico:

Refugiado: “São as pessoas que ficam refugiadas, assim, nos albergues, em casas onde tem pessoas de diversos países, porque quando vieram de um país não tem como pagar o aluguel.”

Imigração: “Não sei. Eu sei, mas não me lembro.”

País: “Várias nacionalidades que moram muitas pessoas, assim.”

Nacionalidade: (não responde)

Dá pra ter duas nacionalidades? “Dá, ou mais”.

Dá pra ser colombiano e brasileiro ao mesmo tempo? “Sim… Não sei”

Você se considera brasileiro? “Não, mais ou menos, um pouquinho.”

Brasileiro: “Quem nasce no Brasil”.

Criança: “Criança são uns meninos muito pequenos e que são menos maduros”.

Nação: “Hahaha, não sei, não”.

ONU: “Não sei, esse eu não sei mesmo”.

Direitos Humanos: “Direitos humanos sim, mas não me lembro. Direito é, por exemplo, assim, a coisa que qualquer pessoa quer fazer. Por exemplo, eu tenho direito a tomar banho”.

São Paulo: “É uma cidade onde tem muitas pessoas de vários países também”.

Rio de Janeiro: “Esse eu não sei, porque não fui ainda”.

Colômbia: “Ah, na Colômbia é… Eu não conheci o mar”.

 

*Esta é a segunda parte do especial Infância e Refúgio, sobre crianças refugiadas na cidade de São Paulo. Nele, as crianças entrevistadas usam desenhos e outros elementos lúdicos para falar sobre o que já viveram em tão pouco tempo de vida. Os perfis são do livro Por um Pedaço de Terra ou de Paz, trabalho de conclusão de curso (TCC) na PUC-SP da jornalista Júlia Dolce Ribeiro, e serão publicados um a cada semana no MigraMundo (veja aqui a lista completa). Os nomes das crianças nos textos são fictícios para preservar a identidade de cada uma.

Texto publicado também no site Brasil de Fato em 12/12/16