Bomba de efeito moral encontrada perto do bar Al Janiah, em São Paulo. Local foi alvo de bombas disparadas pela PM.
Crédito: Reprodução/Facebook/Al Janiah
No dia em que o Senado aprovou o impeachment de Dilma Rousseff e a população saiu às ruas em protesto contra Michel Temer, o bar Al Janiah, criado no centro de São Paulo por refugiados sírios palestinos e integrantes da causa palestina, como o Movimento Palestina para Tod@s (Mop@t), foi alvo de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia Militar paulista.
Desde a inauguração, em janeiro deste ano, são promovidos ali debates sobre temas da política nacional e internacional, com reflexões e bate-papos. As comidas ali servidas são feitas por três refugiados sírio-palestinos e o dono do estabelecimento, Hasan Zarifi, é filho de refugiados palestinos e integrante do Mop@t.
Após o primeiro ataque, na noite de quarta-feira (31/8), a página oficial do Al Janiah no Facebook divulgou nota comunicando que apenas o local foi alvo de bombardeios na rua e que não havia nenhum protesto naquela rua. No momento em que as bombas foram atiradas, músicos de diversos países se apresentavam no local e funcionários e clientes foram atingidos pelo gás.
“Não acontecia nenhum tipo de protesto ou movimentação na rua e apenas nosso estabelecimento que sofreu o ataque. Quando alguns membros da nossa equipe saíram e avisaram aos policiais que ali era um bar e restaurante, eles mandaram mais duas bombas. A jam session, com músicos de diversos países do mundo, que acontecia foi brutalmente interrompida”.
Em entrevista ao portal G1, Hasan detalhou a ação contra o Al Janiah. “Estavamos tendo um sarau com alguns shows de música, quando a PM jogou cerca de quatro bombas na calçada do restaurante, de cima do Viaduto Nove de Julho”, relatou. “Tinha cerca de 30 pessoas ali, que dispersaram na hora”.
No dia seguinte, a cena se repetiu e o Al Janiah foi novamente bombardeado pela PM. O ataque foi registrado por uma cliente do bar que descreveu o momento no Facebook. “Dentro do Al Janiah agora, criança, bebê, polícia jogando bomba”.
Foram diversas as manifestações de solidariedade ao Al Janiah, como a feita por judias e judeus não-sionistas:
Nós, integrantes da equipe do MigraMundo, também manifestamos nosso repúdio a quaisquer atos repressivos praticados de forma deliberada pela Polícia Militar de São Paulo contra o Al Janiah, um espaço de diálogo sobre migração e refúgio. Acreditamos no direito à livre manifestação e na democracia. Atitudes fascistas como as praticadas pela PM paulista contrariam tais princípios e devem ser denunciadas pela sociedade.
Representantes da ASA, Pastoral do Migrante de Florianópolis, GAIRF e da comunidade migrante no dia 30 de agosto de 2016, momento do anúncio da licitação vencedora para implementação do CRAI.
Crédito: GAIRF
A Pastoral do Migrante de Florianópolis, através da Ação Social Arquidiocesana (ASA), entidades fundadoras do GAIRF venceu, no dia 30 de agosto, a licitação para a implantação do Centro de Referência e Acolhimentos aos Imigrantes e Refugiados (CRAI) em Florianópolis, para atendimento estadual. A inauguração do espaço, que será no Terminal Rodoviário Rita Maria, deve acontecer entre outubro e novembro.
A assinatura do convênio do governo federal com o estadual para a criação do CRAI ocorreu em janeiro de 2016 e, desde então, buscava-se um local para o atendimento. Nos últimos meses um espaço no Terminal Rodoviário Rita Maria, no centro de Florianópolis, foi designado para a atividade. O CRAI é resultado de um convênio assinado pela União, com fundos do Ministério da Justiça, e pelo governo do estado de Santa Catarina e anuência do poder municipal de Florianópolis. O convênio tem duração de 24 meses, período no qual a ASA desempenhará as atividades referentes ao estabelecimento do CRAI, estruturação e organização do local e atendimento a imigrantes e refugiados.
A escolha da ASA para a concretização do CRAI de Florianópolis se deu após a instituição ser a única a apresentar proposto para o edital de concorrência pública Nº0028/2016 e cumpriu todos os requisitos de habilitação técnica exigidos pelo edital.
Para marcar e comemorar a implementação do CRAI, a ASA e o GAIRF vão organizar uma atividade cultural, no dia 7 de setembro, às 14h, no Terminal Rodoviário Rita Maria, momento em que será realizado um simbólico “abraço cultural” na rodoviária por imigrantes e refugiados.
Por que em CRAI em SC?
Nos últimos anos, as demandas relacionadas a um Centro de Referência ficaram ainda mais fortes em razão da chegada de imigrantes haitianos, senegaleses, ganeses e de refugiados sírios. Em audiências públicas realizadas desde 2014 e nos seminários organizados pelo grupo de apoio e no Fórum das Associações Migrantes, em outubro do ano passado, os imigrantes exigiram especialmente do governo estadual a criação do espaço e sua pronta instalação e funcionamento.
A efetiva criação do Centro de Referência significaria a instalação de uma via institucional de acesso dos imigrantes a serviços específicos, como acompanhamento de solicitação de vistos, encaminhamento a serviços de tradução juramentada de documentos e informações sobre educação, saúde e trabalho. Na prática, significaria a ampliação do serviço de esclarecimento e acompanhamento já realizado pela Pastoral do Migrante, em condições limitadas de espaço e recursos financeiros.
A existência do Centro de Referência é necessária, urgente, mas ainda não suficiente. É preciso garantir o acesso pleno a direitos e documentos, sem quaisquer custos ao imigrante, e assegurar o encaminhamento de todas as denúncias de violações de direitos humanos e trabalhistas, e das reivindicações feitas pelas associações migrantes e grupos de apoio em referência a outros órgãos, como Delegacias de Polícia Federal, Universidades, sindicatos e empresas que contrata profissionais imigrantes.
Até parece que foi ontem que a foto de uma criança morta em uma praia na Turquia chocou o mundo. Era o menino Aylan, sírio de origem curda que caiu de um dos vários botes que faziam na travessia entre Turquia e Grécia.
A morte de Aylan não tinha sido a primeira. E tampouco foi a última.
Um ano depois, Aylan continua sendo um dos símbolos de uma crise humanitária que se agrava a cada dia. Já gerou e continua a gerar novas vítimas cujos nomes e histórias se perdem em desertos, mares, montanhas ou em qualquer momento da travessia de um lugar para outro. Não é de hoje que estudos, organizações humanitárias, indivíduos, agências de notícias e outros meios denunciam essa realidade. Não é de hoje que pessoas que se deslocam em busca de uma vida melhor – ou simplesmente para preservá-la – acabam encontrando justamente a morte da qual tanto fugiam.
Mas o choque com fotos de crianças mortas ou feridas, ou mesmo de migrantes que arriscam a própria vida na esperança de salvá-la, já não causa o mesmo efeito. É como se tais cenas – que são na verdade a ponta do iceberg do que acontece de fato – se tornassem naturais, corriqueiras, previsíveis… Ou até pior: se tonassem aceitáveis. Um misto de indiferença e naturalização da tragédia, mitigado em muitos casos pela distância geográfica em relação aos centros nervosos atuais desses grandes deslocamentos humanos.
A comoção gerada em torno de Aylan na época foi como um soco no estômago de uma sociedade global que insistia em ignorar os dramas e mortes que acontecem nas rotas migratórias – não importa se no mar Egeu, no Mediterrâneo, no oceano Índico, no deserto do Saara ou entre México e EUA. O efeito do soco passou, mas as mazelas vividas por aqueles que são obrigados a apostar na migração como forma de sobreviver não passaram. Pelo contrário, só pioraram – tanto a ignorância da sociedade global em geral como as políticas aplicadas à mobilidade humana.
Existem lampejos honrosos de simpatia e apoio, como a bela recepção e o apoio à delegação de refugiados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. No entanto, a visão global sobre as migrações no mundo continua sendo negativa, como mostra pesquisa divulgada pelo Instituto Ipsos em agosto deste ano. Essa visão negativa ajuda a embasar políticas cada vez mais restritivas mundo afora, nas quais a migração é encarada como uma questão de soberania nacional, de segurança, como uma ameaça.
E tem ainda os usos desses fluxos migratórios para fins políticos ou para justificar medidas xenófobas e nacionalistas. O governo da Turquia, por exemplo, fez um acordo com a União Europeia no qual se propõe a “segurar” refugiados em seu território em troca de ajuda financeira e isenção de vistos para cidadãos turcos – e não se acanha em ameaçar com a quebra do acordo caso a UE não elimine os vistos para os turcos. Países erguem cercas, muros e outras barreiras que julgarem necessárias para brecar o que chamam de “invasão”. Há ainda os centros de detenção de migrantes, os campos de refugiados à beira do colapso…
Falando em campos de refugiados, embora os holofotes se concentrem na Europa e Oriente Médio, em outras áreas do planeta a situação e igualmente ou até mais grave. Os campos de refugiados do Quênia (incluindo Daddab e Kakuma, dois dos maiores do mundo) estão com os dias contados. Para novembro o governo queniano prevê o fechamento de todos os campos do país, o que deve atingir cerca de 600 mil pessoas – a maioria delas da Somália e do Sudão do Sul.
Existe forma de parar com os fluxos migratórios? A resposta é não, porque se trata de um movimento natural da humanidade, que transforma as sociedades ontem, hoje e sempre. Acontece que ele é intensificado por conflitos, desastres ambientais, situações de pobreza e perseguições, entre outros fatores. Ou seja, a migração, que é e deveria ser vista como um direito humano, acaba se tornando uma das poucas saídas possíveis para sobreviver. E essa sobrevivência se torna uma espécie de loteria, de roleta russa.
Como mudar esse quadro? São necessárias ações concretas, pressão sobre os governos para uma política que preze o ser humano, o apoio a ações – individuais e coletivas, públicas ou privadas – que valorizem a diversidade, o combate diário a ideias e estereótipos xenófobos e discriminatórios, entre outras. Combinadas, essas ações e políticas mais humanas têm potencial para ajudar nessa mudança.
É preciso transformar a indignação com a situação desumana daqueles que se deslocam em força para agir. É o mínimo que o mundo ainda pode fazer para evitar destinos trágicos em Aleppo, Kobani, North Kivu, Daddab, Lampedusa, entre outros. O desafio está lançado há muito tempo, mas ainda são poucos os que se propõem a arregaçar as mangas.
Entre os dias 3 e 4 de setembro acontece em São Paulo a Virada Feminista, no Centro Cultural da Juventude, zona norte da cidade. Ela é organizada a partir da Marcha Mundial das Mulheres e da SOF Sempreviva Organização Feminista, que participa do programa Cultura Viva e é um ponto de cultura da cidade de São Paulo. Atividades de mulheres migrantes também estão na programação.
Pelo segundo ano seguido, a Equipe de Base Warmis promove atividades durante a Virada. Desta vez o coletivo é responsável pela Roda de Conversa: A Migração e as Mulheres, às 22h30 do sábado (3 de setembro) no Espaço Sarau do Centro Cultural da Juventude, que fica no bairro de Vila Nova Cachoeirinha.
O que é a Virada Feminista?
O evento é um esforço coletivo de mulheres militantes, artistas e artistas militantes para promover um jornada de 24h de cultura feminista. A ação tem como inspiração a resistência cotidiana das mulheres e contará com atividades de dança, cinema, teatro, literatura, internet livre, fotografia, zine, agroecologia, grafite e culinária.
As atividades estão concentradas no Centro Cultural da Juventude e vão das 18h do dia 3 de setembro às às 18h do dia seguinte, assim como na Virada Cultural. A programação completa pode ser consultada neste link.
Virada Feminista
Data e hora: Das 18h do dia 3 de setembro às 18h do dia 4 de setembro
Local: Centro Cultural da Juventude – Av. Deputado Emílio Carlos, 3641, Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo (SP)
Informações: http://www.sof.org.br/viradafeminista2016/
A Associação Cidade Escola Aprendiz, por meio do programa Cidades Educadoras, em parceria com a Editora Moderna e apoio do Museu da Imigração realiza no dia 14 de setembro (quarta-feira), o Seminário Internacional Educação e Migração: caminhos para uma Cidade Educadora.
O evento será realizado no Museu da Imigração (Rua Visconde de Parnaíba, 1316 – Mooca), e marca o lançamento do terceiro volume da coleção Territórios Educativos. A publicação sistematiza as ações do projeto Trilhas da Cidadania, uma iniciativa de ensino de Língua Portuguesa para imigrantes, solicitantes de refúgio e refugiados desenvolvida pelo Aprendiz sob a perspectiva da Cidade Educadora.
“O evento soma-se à agenda de mobilização em torno do tema da imigração na cidade, apresentando experiências e políticas que visam assegurar os direitos dessa população, à luz dos princípios de uma Cidade Educadora”, aponta Raiana Ribeiro, da Associação Cidade Escola Aprendiz.
O evento reunirá movimentos sociais, educadores, gestores públicos e coletivos para discutir o fenômeno das migrações no Brasil e no mundo, bem como os desafios enfrentados pela cidade de São Paulo para garantir os direitos dessa população.
*** Atenção – Vagas limitadas pela capacidade do auditório! Você recebera um e-mail de confirmação de inscrição. **
Manhã
9h
Credenciamento
9h30
Conferência de abertura: O fenômeno global das migrações e a reinvenção das cidades
Conferencista: José Manuel Valenzuela (Profº Dr. do Departamento de Estudos Culturais do Colégio da Fronteira Norte, no México)
Debatedora: Vera Telles (USP)
14h
Debate: A Cidade como Território Educativo
Cristina de Branco (Visto Permanente)
Giovanna Modé (Campanha Latinoamericana pelo Direito à Educação)
Sueli Ramos (EMEI João Theodoro – Projeto Integração Família – Rede Socioeducativa)
Tatiana Waldman (Museu da Imigração)
Debatedora: Raiana Ribeiro (Associação Cidade Escola Aprendiz)
Juliana*, da Nigéria, veio para o Brasil fugindo da violência do grupo extremista Boko Haram.
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Esta é a quinta e última parte do Especial Anônimas, uma série de cinco perfis de mulheres refugiadas que vivem em São Paulo, feitos pela jornalista Lu Sudré. Os nomes das personagens são fictícios, para preservar a identidade de cada uma delas, ao mesmo tempo em que é possível abrir um pouco a mais a mente sobre as migrações a partir de seus relatos, dramas e superações.
Por Lu Sudré (texto e fotos)
Acordou de manhã e se arrumou para uma ocasião especial. Depois de um ano no Brasil, sem entender bolhufas do que os brasileiros falavam, se encerraram as aulas de português que fez dela capaz de entender o básico. Era o dia da formatura no curso promovido pelo projeto Trilhas da Cidadania – A Língua Portuguesa pela Cidade, realizado pela Associação Cidade Escola Aprendiz, com o apoio da Editora Moderna, da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e do Museu de Arte Sacra, local onde aconteciam as aulas.
Juliana não faz questão de esconder sua vaidade. Veio para a formatura nos trinques: Vestia um conjuntinho composto por uma calça cor de café, com uma estampa de cobra na lateral. Usava uma regata preta, com detalhes pratas e um terninho com a mesma estampa de cobra da calça. Os brincos e o colar combinavam: cor de ouro com detalhes marrons. As bijuterias douradas chamavam atenção, mas seu salto alto, preto com glitter prateado, é o grande destaque.
Suas unhas, pintadas com um verde-água, também não ficam para trás, assim como seus lábios carnudos, coloridos com batom vermelho. As sobrancelhas finas dividem espaço com a sombra dourada, da mesma cor dos detalhes de sua bolsa preta, de couro. A nigeriana, assim como Mate, também é nigeriana.
Apesar de serem muito diferentes, vieram para o Brasil pelo mesmo motivo: a insurgência do grupo Boko Haram. Depois de algumas semanas que chegou ao país, Juliana conseguiu trabalho por dois meses, mas logo a despediram. Foi contratada como professora de inglês, mas por não entender o português, não conseguia ensinar para os iniciantes, assim como não conseguia traduzir palavras.
Foi quando se deu conta que sem a língua, não conseguiria trabalho. Agora, depois de algumas semanas tendo aula no Museu de Arte Sacra, se sente mais preparada.
— Estou muito feliz. Ainda não domino a língua, mas agora sei o básico. Vou ganhar um certificado e levar para as pessoas me contratarem. Dizem que sou simpática, então, estou torcendo para conseguir logo.
E ela não está errada. Cumprimenta à todos, inclusive os seguranças, com um sorriso enorme no rosto. Juliana é daquelas mulheres que são alvo de todos os olhares por onde passa. Faz questão de salientar que o diploma de português não é o único. No final do ano de 2014, seis meses depois que chegou, Juliana fez um curso profissionalizante de pizzaiolo no Senac Aclimação. Nem imaginava que faria algo na área de gastronomia, mas foi a oportunidade que surgiu e não se arrepende. Afinal, ela mesma diz que está disponível para qualquer serviço e trabalharia como pizzaiola com prazer.
Quando era criança, chegou a pensar em ser enfermeira mas acabou estudando Psicologia da Religião, faculdade que não conseguiu terminar porque teve que sair da Nigéria. Juliana é encantada por essa área do conhecimento, acredita que a psicologia é a única coisa que pode entender o que o homem tem na cabeça, a partir da análise das interações humanas e do comportamento do ser humano.
Distraída, checa o celular de cinco em cinco minutos. Está esperando mensagem da sua irmã caçula, que apesar de estar na Nigéria, acompanha o dia de formatura da irmã mais velha pela internet. O combinado é que ela mande uma imagem posando com o diploma. Quando Juliana fala de sua família, é nítida a proximidade com sua irmã mais nova e devoção pela memória de sua mãe.
Quando o assunto é a família, a postura tranquila e descontraída muda. Até mesmo seu tom de voz. Ter vindo sozinha para o Brasil fez com que Juliana tivesse a saudade como um ponto fraco no seu bom humor. Seus pais tiveram sete filhos. Quatro filhos e três filhas, sendo ela a segunda filha mais nova entre as três. Há um ano e meio não vê nenhum deles. Reflexiva, tem noção que agora, com a distância, a relação deles não é fácil como costumava ser.
Juliana* é vaidosa e descontraída, mas a saudade da família que está dispersa pela África afeta seu bom humor. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Atualmente, todos são casados, menos ela, fato que não deixaria seu pai muito feliz, como bem lembra. Mas o casamento não é algo que Juliana quer para agora. Nasceu em Sokoto, estado do noroeste da Nigéria. Na capital de 600 mil habitantes, também chamada Sokoto, fica a sede do sultanato, a mais alta autoridade religiosa muçulmana da Nigéria e região onde o grupo extremista Boko Haram comete muitos atentados.
Em maio de 2013, o então presidente cristão Jonathan Goodluck, impôs um estado de emergência no país. Mesmo com esforços do governo, a insurgência do Boko Haram não foi freada. De acordo com a organização Human Right Watch, que organiza informações sobre abusos contra os direitos humanos em mais de 70 países no mundo, o apoio do governo nigeriano para a formação de grupos de autodefesa armados, a maioria homens jovens para ajudar na apreensão de insurgentes islâmicos, trouxe uma dimensão nova e alarmante para seus esforços anti-Boko Haram.
Os jovens financiados pelo governo, se tornaram alvo de ataques do grupo extremista islâmico. Ainda de acordo com a organização, a conduta das forças de segurança do governo também está em jogo. Os combatentes ao grupo, cometeram prisões indiscriminadas, tortura e detenção de supostos simpatizantes, além de queimar propriedades que supostamente abrigavam integrantes da milícia.
Goodluck não pode contar a insurgência do grupo, e com o discurso de que impedirá as ações terroristas do Boko Haram, o muçulmano Muhammadu Buhari foi eleito no começo de 2015. Buhari, que já tinha sido Chefe de Estado da Nigéria após Golpe Militar em 1983, ainda não conseguiu alterar a situação.
Para Juliana, os muçulmanos do Boko Haram gostam de guerra e eram contra o presidente cristão da Nigéria. Por isso, criavam muitos problemas para os cristãos, como ela e sua família. Quando a crise se intensificou em Sokoto, com os saques, atentados, sequestros e assassinatos à aqueles que não concordavam com a Sharia, lei islâmica, eles tiveram que ir para outro estado. Mudaram-se para Kaduna, no centro norte do país, no segundo semestre de 2013.
— Achamos que estávamos indo para uma região melhor, mas foi lá, em Kaduna, que eles mataram meu pai e minha mãe. Eles jogaram bombas em todas as casas da vila, todos correram desesperadamente. Infelizmente, eu tive que correr pra sobreviver. Correr pela minha vida. Meus pais estavam lá, desmaiados. Gritei, mas acho que já estavam mortos. Eu queria ajudá-los, mas se eu parasse ali, naquele momento, também morreria.
A mãe de Juliana tinha 69 anos quando o ataque aconteceu. Seu pai, 72. A nigeriana sabia que seus pais, com idade avançada, não conseguiriam correr, muito menos depois de serem atingidos pela explosão das bombas. Ela lembra que estavam conversando na sala, quando ouviram pessoas gritando e os barulhos das bombas, que logo chegaram à eles.
“Isso aqui, é de quando tentava fugir”, diz ela, erguendo a calça e mostrando uma cicatriz enorme da ponta do pé a metade da perna, um pouco acima do tornozelo. Nas costas, diz ter uma cicatriz bem maior, de queimadura. Não deu tempo de escapar. Os integrantes do Boko Haram ainda entraram na casa, em busca de objetos de valor.
Apesar da forte dor causada pelos estilhaços da explosão, ela conseguiu pular a janela da casa, mas caiu do lado de fora. Desmaiou. As poucas pessoas da vila que conseguiu ver, estavam fugindo, assim como ela. Em meio há tanta coisa ruim, era preferível que a história tivesse terminado aí. Mas, a cicatriz no tornozelo e a morte dos pais não foi a única marca que o Boko Haram deixou em Juliana.
Ela não conseguia levantar. Estava sangrando, e, machucada devido à explosão, acabou se mexendo. Foi quando três homens do grupo fundamentalista se aproximaram. A nigeriana acha que se tivesse ficado parada, eles considerariam que ela estava morta e passariam reto mas viram que ela ainda estava viva, apesar de muito machucada. Juliana, que usualmente conversa de forma tranquila, passa a acelerar sua narrativa, como se quanto mais rápido terminasse, mais rápido fosse esquecer.
Eles a seguraram com força e a empurraram contra o chão. Perguntaram o que ela queria e a ela respondeu que seu único desejo era que eles a deixassem sair dali. Em seguida, outra pergunta. “Você é cristã?”. Sem saída, respondeu que sim. O homem, que pressionava seus dois braços enquanto ela estava deitada no chão, disse que não poderia fazer nada por ela. Juliana tinha a noção que mesmo se mentisse, não conseguiria escapar.
Se sentiu impotente por não ter forças para fugir. Sufocada e com dor, um dos homens sugeriu para os outros que eles saíssem dali. Por um segundo, ela achou que aquilo teria fim.
— Vamos fodê-la antes, disse um dos homens.
Os três a estupraram, um em seguida do outro.
— “O que eu poderia fazer? Eu estava deitada no chão, com sangue no meu corpo. Até hoje, quando lembro, digo para mim mesma: “Não!”. Eu não podia nem gritar. Porque se eu gritasse, todos os outros iriam saber que tinha alguém ali. Eles me disseram: se você gritar, está morta. Então, me calei.
Juliana se calou. Assim como as outras centenas de nigerianas, incluindo as adolescentes e crianças, que se calam diante do Boko Haram. Não gritou, porque além de estar ameaçada de morte, seu maior medo era que outros integrantes se aproximassem e também a estuprassem.
Ela tirava, com os dentes, o resto do esmalte que tinha nas unhas das mãos enquanto relatava o que tinha lhe acontecido. Hábito comum entre algumas mulheres, principalmente em situações de desconforto e ansiedade. Não é para menos. Contava ali, algo que apenas sua irmã caçula sabia. Em muitos países da África, como Nigéria e Congo, as mulheres vítimas de estupro sofrem preconceito, são consideradas “marcadas”.
Meio sem jeito por ter exposto algo tão pessoal, tenta pegar o caminho mais curto para o fim da conversa. Juliana sente sua voz entalada até hoje, o grito que não pode dar, o pedido de ajuda que não pode fazer. Só pensou em Deus. O estupro é apenas uma das atrocidades do Boko Haram.
Em informe anual publicado em abril de 2015, a ONU revelou que o grupo, assim como os extremistas do Estado Islâmico (EI, também conhecido como Daesh), usam a violência sexual como tática de guerra. Os ataques sexuais, não só na Nigéria, mas também no Iraque e na Síria, são atos “totalmente vinculados a objetivos estratégicos, à ideologia e ao financiamento de grupos extremistas”.
Ainda segundo o informe, o estupro é usado como implementação ao recrutamento de jovens, além dos casamentos forçados, escravidão e a venda de mulheres e meninas sequestradas, pontos elencados como centrais ao modus operandi e ideologia do Boko Haram. Outros especialistas dizem que a violência sexual é usada para chamar atenção da comunidade internacional. Juliana, assim como outras mulheres, viraram estáticas da ONU. Até quando?
— Eu ainda lembro do rosto dos três homens que fizeram isso comigo. Não acho que vou conseguir esquecer. Eu lembro, tenho certeza que reconheceria.
Depois do acontecido, Juliana acordou em um hospital. Foi encontrada desmaiada e foi socorrida por pessoas que, até então, não conhecia. Seus anjos da guarda, como se refere à eles, também eram moradores do norte da África, mas não eram muçulmanos, como faz questão de ressaltar. Sua maior preocupação quando acordou e estava internada, cheia de curativos, era a conta do hospital mas seus anjos da guarda tomaram conta disto também.
Antes de sair da Nigéria, se despediu deles, que mudaram-se para Abidjan, na Costa do Marfim. Sem seus pais, e com seus irmãos vivendo em regiões diferentes da África, ligou para um tio que vive nos Estados Unidos pedindo ajuda. Desde o começo deixou claro que não queria ir para terra do Tio Sam e sim para a terra do samba. Seu tio lhe arranjou a documentação necessária e algum dinheiro.
Gostava do Brasil desde sua infância. Diz que as terras de cá são bem sucedidas no futebol e no carnaval, se lembra de como os homens ficavam eufóricos vendo o Ronaldinho jogar. Aos poucos, deixa escapar que aqui era admirava o país por outros motivos. Sabia que muitas modelos importantes ao redor do mundo eram brasileiras, como por exemplo, a Gisele Bündchen e desde criança sonhava em modelar.
Realizou este sonho, dos 18 aos 23 anos. Foi quando aprendeu a usar salto alto. No começo foi difícil, mas hoje desafia qualquer um e diz que pode ficar muito tempo com eles nos pés. Pensava que se viesse para o Brasil antes, poderia treinar e ficar famosa. Seus pais eram muito religiosos para gostar da ideia. Queriam que ela cobrisse tudo. Roupa curta e decotada? Nem pensar.
Depois de muita insistência, ganhou permissão para disputar o concurso de Miss no estado de Delta, na África. O centro de São Paulo não sabe, mas uma Miss Delta State anda por suas ruas. Depois disso, seus pais a fizeram parar. Juliana amava desfilar e modelar. Agora se acha velha demais para a profissão. Pelo menos, diz que agora pode usar o que quer, quando ela quer. As vestimentas são parecidas com as das mulheres brasileiras, então, não se sente culpada.
Juliana* chegou a trabalhar como modelo na Nigéria e disputar concursos de miss na terra natal. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Outra coisa que Juliana gosta aqui, é que as mulheres podem se separar. Na Nigéria não tem jeito. Se estivesse em seu país, com essa idade, solteira e sem filhos, acredita que perderia até mesmo o direito de ser considerada uma pessoa.
— Lá os maridos batem muito nas mulheres. Sei que aqui também, mas lá é absurdo. Aqui, se eu quiser ter um filho sozinha eu posso. Lá não. Você tem que casar, não tem outra opção. Prefiro o jeito brasileiro. Diz, caindo na gargalhada.
Juliana, atualmente, está namorando um nigeriano que conheceu aqui no Brasil. Ela o descreve como um homem forte, grande e bonito, porém um pouco ciumento para seu gosto. Ele já estava aqui há um ano antes dela chegar. Quando desembarcou nas terras tropicais, Juliana não conhecia ninguém e não tinha lugares para ir, ia apenas ao centro de São Paulo para fazer ligações para sua irmã, quando o avistou de longe pela primeira vez.
Começaram a conversar e marcaram de se encontrar algumas vezes. Logo começaram a se apaixonar. Juliana fala sobre o ciúmes dele, mas também não fica para trás. Não se incomoda com as brasileiras, mas ai de alguma africana se nele encostar.
Aos risos, não quis revelar o nome de seu amado, que a está sustentando por enquanto. Ele trabalha como estilista, desenha roupas para uma confecção. Apesar do momento difícil, ela diz que isso é passageiro. Quando trabalhava como professora, também comprava coisas para ele. É nítido que Juliana não quer depender de ninguém.
Quando chegou, a Miss Delta passava as noites em hotéis pequenos do centro da cidade, com ajuda de seu tio. Agora está morando no bairro Campos Elísios, em um cortiço. O problema, além do quarto pequeno, são os banheiros coletivos e a reação de algumas pessoas que vivem lá.
— Ás vezes, se você é da África, sofre com racismo. Sempre dou um sorriso e falo: “Oi, tudo bem”, para as pessoas que moram ali comigo. Mas sei que algumas pessoas não gostam de mim. Eles me olham com nojo. Se tento falar algo pra eles em português, me corrigem. Outras vezes, ignoram minha presença.
Apesar disso, acredita que as coisas estão indo bem. Está angustiada por conta do desemprego. Acha que as pessoas não a levam muito a sério quando diz que quer trabalhar, mas não vai desistir. Seu objetivo agora é conseguir trabalho em um banco. Disseram a ela que esse tipo de trabalho dá dinheiro e é o que ela precisa no momento.
Foi até o Centro de Apoio ao Trabalhador (CAT) e aguarda para comparecer em algumas entrevistas. Pensamento positivo é sua palavra-chave. De vez em quando, pensa que gostaria de voltar para a Nigéria mas acha que isso nunca será possível.
— Eu era muito próxima da minha mãe. Quando ela morreu, eu não sabia se ia sobreviver. Ela era tudo pra mim. E olha o que eles fizeram com ela… O Boko Haram não pode ser retirado da Nigéria. É como um tumor inoperável.
Quem vê a Juliana sorridente, não consegue imaginar um terço do que ela já passou. Embora as memórias estejam lá, com bom humor, ela reconstrói sua vida. Deixando as coisas no passado, e se preparando para o presente, Juliana corre em cima de seu salto, atravessa as crianças que estão visitando o Museu de Arte Sacra, e chega ao páteo onde estão seus colegas de curso.
Antes de começar a formatura, para qual Juliana estava muito ansiosa, o professor a lembra que ela vai ler uma redação que escreveu em português. Apesar do nervosismo, ela topa apresentar o trabalho. Seu texto é um agradecimento caloroso ao seu professor, que a ensinou o básico para se virar no Brasil.
No final da formatura, todos os refugiados se reuniram para cantar “País Tropical”, de Jorge Benjor. Cerca de 90% da turma é composta por homens. As vozes femininas são poucas mas a voz de Juliana se destaca como a mais alta e animada. Sabe a letra de cor, nem precisa segurar o papel.
Aos poucos, seu corpo se mexe, as palmas começam a bater em sincronia e ela começa a dançar de um lado para o outro, ainda que timidamente. Na hora da confraternização, a Miss Delta tira fotos com o celular e mostra sua redação para seus colegas.
— Faz tempo que não me sentia assim. Não ia em uma festa, com comes e bebes. Não tive dinheiro para comemorar meu aniversário desde que cheguei aqui. Mas agora estou feliz, porque moro em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, né?
Brasileiros e haitianos dançaram juntos durante o Festival de Cultura do Haiti, que agitou a Vila Itororó-Canteiro Aberto.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Por Eva Bella
Música, culinária, dança e integração entre culturas. Esse foi o clima buscado e criado pelo Festival de Cultura do Haiti, que agitou a Vila Itororó-Canteiro Aberto, no último sábado, em São Paulo. O evento foi organizado pela União Social dos Imigrantes Haitianos, associação que tem como objetivo facilitar a integração dos haitianos na sociedade brasileira.
Além das atrações culturais, o evento contou ainda com intervenções e chamadas sobre a história do Haiti e os aspectos migratórios para o Brasil.
Como já é costume em eventos culturais haitianos, a bandeira do país era exibida com orgulho – junto com a brasileira – e acompanhava as apresentações de música e dança. O grupo de rap Dance Low, a banda Satellite Musique e o grupo de dança HaiBrasil estavam entre as atrações culturais do festival.
Grupo de rap Dance Low foi uma das atrações da festa. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Também era possível experimentar a culinária haitiana, ainda pouco conhecida junto ao público brasileiro. Tinha arroz nacional (mexidinho de arroz com feijão bem temperado e sequinho), acompanhado de frango frito, e o Fritay – que, como o nome diz, é composto de carne de porco frita, banana da terra frita. Tinha ainda sopa de abóbora e Kremás, uma bebida alcoólica bem cremosa e saborosa, feita de leite, coco, limão e especiarias.
Além de mostrar um pouco do país caribenho a partir dos próprios haitianos e promover integração entre culturas, o evento também pediu contribuições para a reforma da sede da USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos), que fica no bairro da Liberdade. O imóvel foi cedido à USIH sob o compromisso de reforma da casa. Mas se a associação não conseguir ao menos iniciar a reforma até outubro, ela corre o risco de perder a casa.
Para contribuir para a “vaquinha” para a sede da USIH, basta acessar o link abaixo. E o vídeo abaixo, no YouTube, explica um pouco mais sobre a associação e sobre a campanha.
Petição pede Nova Lei de Migração no Brasil e o fim do Estatuto do Estrangeiro.
Crédito: Reprodução
Uma petição online no portal Change.Org está recolhendo assinaturas pelo fim do Estatuto do Estrangeiro e pela aprovação de uma nova Lei de Migração no Brasil. Para assinar, basta acessar este link.
Organizado por diversas entidades da sociedade civil dedicadas à temática migratória, a petição é um novo passo da campanha lançada oficialmente no encerramento do VII Fórum Social Mundial de Migrações – nas redes sociais circulam as hashtags #novaleidemigraçãojá e #MigrarEDireito, que visam convidar a sociedade a aderir ao esforço para se mudar o marco migratório nacional.
A petição lembra que o Estatuto do Estrangeiro, lei que define atualmente as regras da política migratória brasileira, foi criado durante a ditadura militar, mais exatamente no ano de 1980, sob o paradigma da segurança nacional. Por causa dele, pessoas de todas as nacionalidades que vêm ao Brasil em busca de uma vida melhor para suas famílias ainda são vistos como uma ameaça para o país e têm seus direitos restringidos, porque são vistos como potenciais ameaças a essa segurança nacional.
Hoje, por exemplo, migrantes não podem participar de protestos ou sindicatos e correm o risco de ser expulsos ou presos se não estiverem em situação regular.
Tramita atualmente na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2516/2015, que revoga o atual Estatuto do Estrangeiro e institui uma nova Lei de Migração. Ele já passou pelo Senado e, no último dia 13 de julho, foi aprovado em uma comissão especial de deputados, ficando apto para entrar na pauta de votações do plenário da Câmara.
As movimentações para mudança do Estatuto do Estrangeiro remontam ao início da década de 1990, mas o PL 2516/2015 foi a proposta que chegou mais longe até agora. Ela abandona o paradigma da segurança nacional e institui os direitos humanos como princípio norteador da política migratória brasileira. Outra mudança importante na proposta da nova lei é a previsão de defesa da igualdade dos migrantes perante a lei, independente de seu status migratório. Ou seja, nenhum migrante poderá ser criminalizado por estar em situação irregular.
Além de reforçar o pedido para aprovação da nova Lei de Migração, a petição ajuda ainda em outra tarefa: a de reforçar a vigilância contra tentativas de enfraquecimento do texto por parte de determinados parlamentares ou grupos representados por eles – e que inclusive, já atrasaram a tramitação do projeto em comissões da Câmara e do Senado.
Paulo Sérgio de Almeida, presidente do CNIg, durante evento em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - out.2014
Vítimas resgatadas de tráfico de pessoas e de trabalho análogo ao escravo podem permanecer no país por até um ano
Do Ministério do Trabalho
Link original – clique aqui
O Conselho Nacional de Imigração (CNIg), órgão ligado ao Ministério do Trabalho, publicou nesta segunda-feira (22) as novas regras para a concessão de permanência no Brasil a estrangeiros considerados vítimas de tráfico de pessoas ou de trabalho análogo escravo. De acordo com a Resolução Normativa nº 122, ao estrangeiro que esteja no Brasil em situação de vulnerabilidade poderá ser concedida a permanência no país, condicionada ao prazo de um ano. O relatório foi aprovado durante a VI Reunião Ordinária do CNIg que ocorreu no início de agosto, em Brasília.
Para o presidente do Conselho Nacional de Imigração, Paulo Sérgio de Almeida, “a resolução protege o imigrante, do ponto de vista de seus direitos fundamentais, e é boa para a apuração das responsabilidades no Brasil, porque essa pessoa vai poder colaborar com as investigações e ajudar a punir e diminuir essas práticas aqui no país”. Segundo a norma, ao ser concedida a sua permanência, o estrangeiro poderá decidir se colabora ou não com eventuais investigações e processos em curso.
A nova resolução foi um pedido de autoridades policiais, Ministério Público, Defensoria Pública e auditores fiscais que atuam em casos que envolvem vítimas estrangeiras deste tipo de prática. O pedido de permanência será avaliado com base nos seguintes requisitos: se o estrangeiro encontra-se em uma situação que ao voltar a seu país de origem possibilite uma ‘revitimização’; se o estrangeiro está coagido ou exposto a grave ameaça em razão de colaborar com a investigação ou processo no Brasil; e ainda, se em virtude da violência sofrida, aquele estrangeiro necessitar a assistência imediatas de serviços prestados no Brasil, como assistência médica, por exemplo.
A resolução define ainda exploração de trabalho escravo como trabalhos forçados, jornada exaustiva, condições degradantes de trabalho, cerceamento da liberdade de locomoção e a retenção de documentos e objetos pessoais. A nova norma se aplica também a estrangeiros indocumentados.
Confira aqui a Resolução Normativa nº 122, de 03 de agosto de 2016.
CNIg – O Conselho Nacional de Imigração (CNIg) é um órgão colegiado responsável por formular a política de imigração laboral migratória brasileira, a partir de resoluções normativas. O CNIg é composto por 20 membros que representam Governo, Centrais Sindicais, Empregadores e Sociedade Civil. Confira o relatório de autorizações de trabalho – temporárias e permanentes – concedidas a estrangeiros, nos meses de abril e junho de 2016, no link http://obmigra.mte.gov.br/
Refugiados que vieram à Rio-2016 foram homenageados com grafite no Rio de Janeiro.
Crédito: ACNUR
Por Rodrigo Borges Delfim
Crédito da foto: ACNUR
Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro tiveram como uma de suas grandes marcas a participação pioneira de uma delegação formada apenas por refugiados. Muito mais do que a competição, o fato de estarem presentes no maior evento esportivo do mundo era uma oportunidade de mostrarem ao planeta suas habilidades, histórias de superação e de como buscam viver com dignidade para trilharem seus próprios caminhos. E não apenas em relação a si próprios, mas também em relação aos refugiados no mundo.
Eles foram aplaudidos, homenageados, ficaram gravados em um grafite no muro do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Mas, passada a Olimpíada e com a volta para “casa” desses atletas, o que será desses refugiados? Não apenas dos dez competidores, mas das cerca de 21 milhões de pessoas que foram obrigadas a se deslocar para outros países? Total esse que salta para 65 milhões quando a conta inclui os deslocados internos, que não conseguem cruzar uma fronteira.
Dos dez refugiados que competiram nos Jogos, cinco – todos do Sudão do Sul – ainda moram em campos de refugiados no Quênia, que abriga dois dos maiores do mundo, Daddab e Kakuma. No entanto, o governo queniano vai fechar os dois locais até o final do ano, o que vai deixar cerca de 600 mil pessoas sem ter para onde ir. É em Kakuma, por exemplo, que mora a sul-sudanesa Rose Lokonyen, porta-bandeira da delegação de refugiados. Isso só para dar um exemplo das dificuldades que os atletas terão de enfrentar depois dos Jogos.
Mesmo os atletas que vivem em locais que em princípio possuem melhor estrutura estão a salvo de estereótipos – três vivem na Europa e dois estão refugiados no Brasil. Uma rápida passada pelas áreas de comentários de posts nas redes sociais mostra como a sensibilização quanto aos dramas vividos, superados e a superar por essas pessoas ainda custa a chegar aos ouvidos e consciências de outras.
Mundo afora, as políticas públicas e externas de governos continuam a cercear os refugiados e ignorar os dramas aos quais estão submetidos. No caso da Turquia, por exemplo, os refugiados foram usados como moeda de troca para as pretensões externas de Ancara junto à União Europeia – esta, aliás, prefere fazer vista grossa aos abusos que acontecem dentro e fora da Europa.
Milhares de pessoas continuam a morrer nos mares, desertos, montanhas e planícies, a serem violadas e exploradas, a fugirem de bombas, de tiros e da pobreza.
Com o pagar dos holofotes da Olimpíada, sim, há o risco iminente dessas histórias voltarem para o obscuro, para a invisibilidade. E uma das grandes tarefas pós-Olimpíada é não deixar que a conscientização sobre os refugiados caia no esquecimento. Também é preciso pressionar e agir, em diferentes níveis, para permitir que essas pessoas tenham direitos e dignidade preservadas, não importa onde estejam ou o motivo que as levaram a migrar.
A preocupação com a temática do refúgio – e da migração em geral – não pode vir a cada quatro anos ou estar dependente de ações isoladas em prol das pessoas que se deslocam. Estar #ComOsRefugiados e disseminar valores de tolerância e humanidade devem ir além dos Jogos Olímpicos.
Conheça os atletas
Os atletas refugiados, suas respectivas nacionalidades e países de refúgio e modalidades esportivas são:
Ramis Anis, da Síria (Natação, 100 metros borboleta – masculino); vive na Bélgica;
Yiech Pur Biel, do Sudão do Sul (Atletismo, 800 metros – masculino); vive no Quênia;
James Nyang Chiengjiek, do Sudão do Sul (Atletismo, 400 metros – masculino); vive no Quênia;
Yonas Kinde, da Etiópica (Atletismo, maratona – masculino); vive em Luxemburgo;
Anjelina Nada Lohalith, do Sudão do Sul (Atletismo, 1.500 metros – feminino); vive no Quênia;
Rose Nathike Lokonyen, do Sudão do Sul (Atletismo, 800 metros – feminino); vive no Quênia;
Paulo Amotun Lokoro, do Sudão do Sul (Atletismo, 1.500 metros – masculino); vive no Quênia;
Yolande Mabika, da República Democrática do Congo (Judô, peso médio – feminino); vive no Brasil;
Yusra Mardini, da Síria (Natação, 200 metros livres e borboleta – feminino); vive na Alemanha;
Popole Misenga, da República Democrática do Congo (Judô, peso médio – masculino); vive no Brasil.