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sábado, junho 27, 2026
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Especial: Mulheres migrantes e a busca pelo trabalho digno

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De diferentes origens e perfis, mulheres migrantes lutam por seus espaços e direitos no Brasil. Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Superar estereótipos, garantir a regularização migratória e o acesso às políticas públicas são ações necessárias para promover o empoderamento das mulheres no Brasil e atingir a igualdade de gênero. Experiências em São Paulo mostram que uma outra realidade é possível

Por Géssica Brandino e Rodrigo Borges Delfim
Colaboração de Eva Bella e Glória Branco
Traducción al español: Brisia Pina Zavala (leer aquí)

Salários menores nos mesmos cargos, preconceito, dificuldade em chegar aos postos de chefia e o acúmulo do trabalho reprodutivo e não remunerado. Vencer essas barreiras que impedem o empoderamento das mulheres ao redor do mundo e garantir a igualdade de gênero é uma meta das Nações Unidas para 2030 dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O desafio é ainda maior para as mais de 117 milhões de mulheres migrantes ao redor do globo –  320 mil no Brasil – que buscam no trabalho o meio de alcançar uma vida digna para além das fronteiras.

Acabar com a desigualdade de gênero, segundo dados do Fundo Monetário Internacional, tornaria a economia dos países mais rentável. Em algumas regiões do mundo, as perdas em PIB per capita que podem ser atribuídas à desigualdade de gênero no mercado de trabalho podem chegar a 27%. O FMI aponta que as mulheres representam cerca de 50% da população em idade ativa, mas apenas 40% da força de trabalho global, embora a participação feminina tenha crescido nas últimas duas décadas.

No Brasil, a presença das mulheres no mercado de trabalho tem se expandido e os anos de estudo são mais elevados que o dos homens. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014, realizada pelo IBGE, mostra que as mulheres estudam em média oito anos, frente 7,5 anos dos homens. Mesmo assim, a desigualdade ainda precisa ser superada. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), homens ainda ganham mais do que as mulheres: em 2014, homens tinham o salário médio de R$ 1.831, enquanto as mulheres ganhavam R$1.288. As mulheres negras têm a menor remuneração, com valor médio salarial de R$ 946, e os homens brancos a maior, com média de R$ 2.393.

Manifestação da Amura (Asociación Civil de Derechos Humanos Mujeres Unidas Migrantes y Refugiadas en Argentina), durante o FSMM (Fórum Social Mundial das Migrações) em São Paulo, em 2016. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Manifestação da Amura (Asociación Civil de Derechos Humanos Mujeres Unidas Migrantes y Refugiadas en Argentina), durante o FSMM (Fórum Social Mundial das Migrações) em São Paulo, em 2016.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Desafio da mulher migrante

Juliana Bueno, coordenadora do Cidade 50 50, programa da ONU Mulheres no Brasil que visa fortalecer o debate sobre igualdade de gênero, aponta que a realidade das mulheres migrantes aqui é semelhante a de muitas brasileiras: baixos salários, responsabilidade sobre as tarefas domésticas e de cuidado além do trabalho externo, ou seja, jornadas duplas e até triplas, mas se deparam ainda com outras barreiras pela nacionalidade.

“Elas enfrentam as mesmas dificuldades que mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil, mas agravam sua situação a barreira linguística, o preconceito e a xenofobia, ausência de referências e a ambientação ao novo país. A dificuldade de acesso a políticas públicas universais por causa dessas situações também torna o dia-a-dia mais difícil. Não por acaso, os poucos estudos que temos mostram que essas mulheres que chegam ao país em situação de vulnerabilidade – sem documentos, sem carteira de trabalho, sem falar português – se alocam em serviços de baixa remuneração e condições precárias de trabalho – as oficinas de costura e o emprego doméstico não formal são exemplos disso”.

Foi assim a vida de Júlia* (identificada apenas com o primeiro nome e que preferiu não ser fotografada) ao longo de mais de duas décadas. Migrante boliviana, ela chegou a São Paulo em 1982 sem falar português e sem conhecer as leis locais. Sem documentos, começou a trabalhar como babá para uma família brasileira, em troca de comida e um lugar para morar. Quando casou com um brasileiro, se viu sozinha na realização das tarefas do lar e, com muita economia, conseguiu comprar um terreno e construir a casa própria. Engravidou, mas não teve descanso nem quando a filha nasceu. Trabalhou até os nove meses de gestação e retornou ao serviço vinte dias após o nascimento da criança. Ia diariamente para o trabalho com a pequena nos braços, pois tinha que amamentar.

Leia aqui o perfil de Júlia (em português e espanhol)

As situações vividas por Júlia (que preferiu não ser fotografada) são parecidas com as que outras mulheres enfrentam, independente da nacionalidade. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
As situações vividas por Júlia (que preferiu não ser fotografada) são parecidas com as que outras mulheres enfrentam, independente da nacionalidade.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

A menina ainda era pequena quando Júlia conseguiu se desvencilhar da relação destrutiva com o marido. Morou algum tempo com amigos e a situação começou a mudar quando finalmente conseguiu regularizar a situação no Brasil. A carteira assinada, horizonte distante quando chegou ao país, se tornou realidade há 12 anos. Aos 51, Júlia trabalha no setor de limpeza de um hospital na capital paulista e se formou como técnica de enfermagem. A filha, agora com 24 anos, passou no vestibular e estuda arquitetura na Universidade de São Paulo, um dos cursos mais concorridos do país.

Mudar a realidade de mulheres como Júlia tem sido um dos focos do trabalho desenvolvido pela Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig)  da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. Em julho de 2016, entrou em vigor na capital paulista a Lei Municipal nº 16.478, que institui a Política Migratória da Cidade. O artigo 3º da norma determina que as políticas locais devem “respeitar especificidades de gênero, raça, etnia, orientação sexual, idade, religião e deficiência”.

Por meio do Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI-SP), criado em 2014, os migrantes são atendidos em seis idiomas, recebem orientação para regularização migratória e intermediação para o trabalho, além de curso de português. Em parceria com os Centros de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (CATe), equipamentos da Secretaria do Desenvolvimento do Trabalho e Empreendedorismo (SDTE) da Prefeitura, o CRAI tem realizado mutirões de emprego e oficinas para migrantes, além de ações para sensibilizar o mercado de trabalho. “A regularização migratória, o acesso a documentos trabalhistas, a comunicação (ainda que não plena) em língua portuguesa e a bancarização são condicionais para a efetivação da empregabilidade de imigrantes (mulheres e homens). Atualmente, a CPMig junto ao CRAI está realizando novos encontros, a fim de sensibilizar as empresas da importância de oferecerem vagas para imigrantes e das especificidades na documentação deles na hora da contratação”, explica a assessora da CPMig, Camila Breitenvieser.

Para a professora de Direito Internacional do Departamento de Direito Público da Universidade de São Paulo Cynthia Soares Carneiro outra necessidade para garantir o empoderamento das migrantes é avançar em termos de legislação. No Brasil ainda vigora o Estatuto do Estrangeiro, criado à época da Ditadura Militar e que vê no migrante uma potencial ameaça à soberania nacional. “O Brasil precisa criar normas que facilitem a regularização, principalmente daquelas imigrantes que já tem um trabalho ou meios de subsistência, trabalhando como autônomas, por exemplo”.

Dados do Banco Mundial revelam que, em 60% dos países, falta legislação que garanta oportunidades iguais para homens e mulheres, em termos de remuneração e possibilidade de evolução na carreira escolhida.

Acesso à creche

Outro fator que interfere diretamente na inserção de mulheres no mercado de trabalho, migrantes e brasileiras, é a formulação de políticas públicas, como a creche. De acordo a Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2002 a 2012 o percentual de crianças de até três anos de idade atendidas em creche passou de 11,7% para 21,2%. Porém, o acesso à política é desigual. Em 2012, 63% das crianças entre 2 e 3 anos da população mais rica do país frequentava creche, enquanto o acesso da parcela mais pobre era de 21,9%.

A angolana Mariza Kalongua vive na pele essa realidade. Fisioterapeuta, formada no Brasil, ela migrou para cursar o ensino superior em São Paulo. Hoje, já pós-graduada, ela exerce a profissão num hospital da capital paulista. O local de trabalho foi escolhido justamente pelo horário, que permite deixar e buscar na creche o filho, de dois anos. Aos finais de semana, a rotina se torna mais difícil. Trabalhando em turnos de 12 horas ao dia, Mariza precisa primeiro deixar a criança com uma tia para poder exercer as atividades profissionais.

Leia aqui o perfil de Mariza (em português e espanhol)

A fisioterapeuta angolana, Mariza Kalongua: mulher, migrante, mãe, trabalhadora e estudante. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
A fisioterapeuta angolana, Mariza Kalongua, assim como outras mulheres: migrante, mãe, trabalhadora e estudante.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Para migrantes recém-chegadas no país e que não têm amigos ou parentes para contar, essa realidade se torna ainda mais complexa. A Prefeitura de São Paulo oferece 690 vagas para imigrantes nos Centros de Acolhida. Ali, assistentes sociais auxiliam na busca por emprego e encaminham as crianças filhas de mulheres imigrantes para as creches públicas com prioridade. “As mulheres imigrantes acolhidas nos centros são normalmente recém-chegadas e não possuem uma rede de relacionamentos sólida no país, o que compõe a especificidade da condição de migratória. A creche se torna assim a possibilidade, muitas vezes a única, de cuidado dos filhos, o que é condição necessária para que as mães possam trabalhar”, reforça Camila Breitenvieser.

Empreendedorismo migrante

Batendo de porta em porta, Rima Eissa, 41 anos, busca em São Paulo uma oportunidade de trabalho dentro das especialidades que aprendeu no país de origem, a Síria. Formada em agronomia, trabalhava no setor público em Damasco. Há sete anos, o interesse pela biologia do corpo e seus benefícios, além do diálogo com os pacientes e o auxilio na busca pelo bem-estar fizeram Rima começar a atuar como massoterapeuta.

Chegou à capital paulista há um ano e cinco meses. Trabalhou informalmente numa clínica, conseguiu dois clientes fixos e passou a vender comida árabe. Mas o que Rima deseja é ser independente. O próximo ano deve começar na sala de aula de uma universidade paulista, onde fará o curso de estética.

Leia aqui o perfil de Rima (em português e espanhol)

Fisioterapeuta, personal trainer, massagista terapêutica, professora de aeróbica, pilates e yoga. Esses são os conhecimentos de Rima, com os quais busca se integrar no Brasil. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Fisioterapeuta, personal trainer, massagista terapêutica, professora de aeróbica, pilates e yoga. Esses são os conhecimentos de Rima, com os quais busca se integrar no Brasil.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Garantir a empregabilidade de mulheres como Rima é um dos objetivos do projeto Empoderando Refugiadas, iniciativa do Grupo Temático de Direitos Humanos e Trabalho da Rede Brasileira do Pacto Global das Nações Unidas, em parceria com a ONU Mulheres Brasil, Caritas Arquidiocesana de São Paulo, Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR) e Fox Time.

Trinta mulheres participaram da iniciativa piloto, realizada em São Paulo, ao longo de sete meses. Neste período, refugiadas de Angola, Nigéria, Camarões, República Democrática do Congo, Burundi, Colômbia e Síria participaram de workshops sobre planejamento financeiro e profissional, direitos das mulheres e trabalhadoras no Brasil, habilidades práticas para aprimorar o português e empreendedorismo feminino, além de sessões de coaching, num espaço para articulação com futuros empregadores. Desde o final da ação, em junho, nove participantes foram contratadas para áreas diversas.

“As empresas gostaram das mulheres empregadas, pois elas agregam diversidade cultural no espaço de trabalho. Nosso objetivo com o curso é que elas fossem empregadas, que grandes empresas contratassem essas mulheres”, destaca Vanessa Tarantini, representante da Rede Brasil do Pacto Global.

Além dos resultados, Vanessa cita ainda o aprendizado que o Empoderando Refugiadas deixou para as empresas e para outros envolvidos no projeto. “Pessoalmente, depois desse contato você aprende muito mais com elas e passa a valorizar mais nossas vidas, que não podemos reclamar”.

Parceiros do projeto Empoderando Refugiadas conversam com empresas para sensibilizá-las à causa do refúgio. Crédito: Pacto Global Brasil/Divulgação
Parceiros do projeto Empoderando Refugiadas conversam com empresas para sensibilizá-las à causa do refúgio.
Crédito: Pacto Global Brasil/Divulgação

Resultados positivos também vêm do poder público. Neste ano, projetos de mulheres migrantes foram contemplados no Programa VAI e Agente Comunitário de Cultura, ações da prefeitura que geram recursos para projetos artísticos na cidade e que permitem a divulgação de expressões culturais das mulheres migrantes. Além disso, o governo municipal também tem promovido a participação de mulheres migrantes no Projeto Economia Solidária SP, que possibilita trabalho e renda, num processo de autogestão em que o trabalhador participa de todo o processo produtivo.

Para Juliana Bueno, é fundamental que governos de todos os níveis, locais, estaduais e federal, assim como o setor privado, deem atenção especial a migrantes.  “É necessário fortalecer o entendimento entre todos e todas de que as migrações são algo benéfico para o nosso país e para as nossas cidades, que a integração cultural e socioeconômica nos ajudará a produzir mais e nos desenvolver mais e melhor, contanto que façamos políticas públicas que visem acolher essas pessoas e não deixa-las em situação de vulnerabilidade. A migração é uma realidade, a migração feminina mais ainda”.

Na avaliação da especialista mudar o cenário das mulheres migrantes exige de toda a sociedade uma mudança no olhar. “Nós precisamos enxergar essas mulheres como cidadãs de direito no nosso país, e essa mudança de visão vai fazer a diferença na hora de tomarmos ações, porque nos dará a capacidade de entender como lidar melhor com essas especificidades e dar a devida acolhida que merecem para que possam se empoderar”, completa Juliana.

 

Mãe, trabalhadora, estudante: as jornadas múltiplas de Mariza no Brasil

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A fisioterapeuta angolana, Mariza Kalongua: mulher, migrante, mãe, trabalhadora e estudante. Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Este perfil é parte do Especial Mulher Migrante e Trabalho, produzido pelo MigraMundo e disponível em português e espanhol

Por Eva Bella
Tradução para o espanhol: Brisia Pina Zavala

Ela não queria vir para o Brasil. Mas cedeu ao sonho do pai, que era formar os filhos no exterior, pois assim teriam uma carreira mais valorizada em Angola. Foi assim que Mariza Kalongua, 30, caçula da família, chegou ao Brasil há oito anos, junto com dois irmãos – a outra irmã casou cedo e ficou em Angola.

Antes de chegar aqui, Mariza conta que levava uma vida tranquila, sem preocupações. Tinha um noivo em Angola, mas terminou o relacionamento devido à insistência dos pais em se mudar para o Brasil.

Mariza se estabeleceu em São Paulo (atualmente é a única entre os irmãos que continua no Brasil), passou no vestibular e começou a estudar fisioterapia na Unip (Universidade Paulista) com a ajuda dos pais que queriam investir na carreira da filha caçula. Marisa começou a namorar com um amigo angolano que vinha visitá-la no Brasil – e que agora é seu marido e pai do seu filho, de dois anos e meio. Mas como a gravidez foi de alto risco, precisou paralisar temporariamente a graduação, perto do fim do curso. O bebê nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez, mas está saudável.

Pouco depois do nascimento do filho, Mariza retornou à universidade e concluiu a graduação em fisioterapia. Em seguida, começou a enviar currículos e entrou na pós-graduação – contrariando o marido, que queria que ela voltasse para Angola para cuidar do bebê. Chamada para trabalhar em três locais diferentes, escolheu um hospital na zona sul de São Paulo por ter expediente compatível com a creche na qual deixa o filho durante a semana.

Atualmente Mariza tem a pós-graduação concluída e já completou um ano trabalhando no hospital. Mesmo com a insistência do marido para que volte para Angola, ela pensa ainda em fazer mestrado e doutorado antes de um possível retorno à terra natal. “Não sei se fico mais, se retorno”.

Mesmo com uma trajetória aparentemente tranquila, ela também sente o peso da sobreposição de jornadas de trabalho que afetam outras mulheres – migrantes ou não: ser mãe, trabalhar, estudar, cuidar da casa, entre outras tarefas.

“Fica um pouco puxado. Depois que comecei a pós-graduação ainda ficou mais complicado, porque tem que fazer a pós, tem que trabalhar, que cuidar de casa, do bebê, não tenho quem me ajude com o bebê no dia a dia”. Aos finais de semana, quando trabalha 12 horas por dia e não tem creche, Mariza deixa o filho com uma tia.

Além da dificuldade de conciliar as diferentes jornadas, Mariza conta que já sofreu preconceito no Brasil. No entanto, ela diz que se sente feliz e que sabe se defender sozinha. “Conheço bem meus direitos, já vim para o Brasil sabendo o que poderia passar aqui, mas é a vida que segue. Hoje está aqui, amanhã quem sabe?”

As lutas e conquistas de Júlia, a síntese de uma mulher migrante

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As situações vividas por Júlia (que preferiu não ser fotografada) são parecidas com as que outras mulheres enfrentam, independente da nacionalidade. Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Este perfil é parte do Especial Mulher Migrante e Trabalho, produzido pelo MigraMundo e disponível em português e espanhol

Por Glória Branco
Versão em espanhol por Brisia Pina Zavala

A jornada de trabalho de Júlia* (identificada apenas com o primeiro nome e que preferiu não ser fotografada), 51, começa cedo rumo ao hospital em que trabalha há 12 anos. Ela sai de Interlagos e vai até o centro de São Paulo para cumprir sua etapa como auxiliar de limpeza. Chegar até aqui não foi fácil para Júlia, que deixou para trás seu passado de órfã nas montanhas na fronteira da Bolívia com o Peru.

Seu primeiro trabalho foi no Brasil, quando chegou à cidade de São Paulo em 1982. Sem saber uma palavra de português, a jovem Júlia foi recebida por uma família para trabalhar como babá. Não tinha amigos, nem família e até colocar os pés na metrópole brasileira tinha certeza que estava indo para outra parte da Bolívia.

Trabalhava sem registro, apenas em troca de comida e um lugar para dormir. Os poucos amigos que fez, e que até hoje são a família de Júlia no Brasil, eram nordestinos e assim ela já não se sentia tão só, pois eles também eram migrantes em São Paulo. Foram esses amigos que ensinaram Júlia a falar o português, andar pela cidade, cozinhar e a se adaptar à cidade.

Júlia casou com um brasileiro alguns anos depois e sua vida não ficou mais fácil. Mulherengo e irresponsável, o homem não ajudava em quase nada com as despesas da casa. Era ela quem garantia o sustento e o alimento na mesa. Fazia dupla jornada de trabalho e lutava para manter tudo em ordem. Com muita dificuldade e ainda trabalhando como babá, conseguiu comprar um terreno em Embu-Guaçú, na Grande São Paulo. Construíram uma casa e logo depois a filha nasceu.

Trabalhou até os nove meses de gestação e vinte dias após o parto da filha, voltou às atividades. Saia todos os dias de madrugada de Embu-Guaçú para trabalhar no bairro da Casa Verde, em São Paulo, carregando a filha consigo, pois precisava amamentar. Dias seguidos nessa rotina levaram Júlia ao hospital com estafa. A orientação do médico foi trabalhar menos, mas Júlia não tinha outra escolha. Ou era isso ou ela e sua família poderiam passar fome.

Quando a filha completou 5 anos, Júlia se separou do marido. Após vê-lo em um caso de infidelidade, fez as malas dela e da filha e deixou tudo para trás. Foi acolhida por suas amigas nordestinas e depois de quatro meses conseguiu alugar um cômodo, o que o salário de babá podia pagar.

Nesse mesma época com o apoio de uma amiga brasileira, Júlia procurou pelo Consulado da Bolívia e conseguiu regularizar seus documentos. Como ela também havia retomado os estudos pode, pela primeira vez, trabalhar com registro em carteira. Foi no antigo Hospital Evaldo Foz que Júlia enfim teve seus direitos como trabalhadora assegurados. Depois trabalhou na Cruz Vermelha e atualmente é funcionária em um outro hospital.

Júlia se formou como auxiliar e técnica de enfermagem, mas ainda não exerce a profissão. A filha, hoje com 24 anos, faz arquitetura na FAU/USP. Segundo as próprias palavras de Júlia, “a vida do imigrante é sempre de muita luta, mas também de muitas vitórias”.

Rima e o otimismo no olhar de quem busca o recomeço

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Rima aposta nos conhecimentos que adquiriu na Síria para conseguir um espaço no mercado de trabalho no Brasil. Crédito: arquivo pessoal

Este perfil é parte do Especial Mulher Migrante e Trabalho, produzido pelo MigraMundo e disponível em português e espanhol

Por Géssica Brandino
Versão em espanhol por Brisia Pina Zavala

“Saúde para seu corpo e mente” é a frase em destaque no cartão de visitas de Rima Eissa, 41. Batendo de porta em porta, ela busca em São Paulo uma oportunidade de trabalho dentro das especialidades que aprendeu no país de origem, a Síria. Fisioterapeuta, personal trainer, massagista terapêutica, professora de aeróbica, pilates e yoga. Apesar de todo ao conhecimento acumulado, são apenas dois os alunos fixos e a busca pela recolocação no mercado é constante para conseguir se integrar no Brasil.

Conheça o trabalho de Rima no Facebook e no Instagram

Antes mesmo de chegar ao país, Rima já havia sido alertada sobre a dificuldade de conseguir trabalho na capital paulista. Formada em agronomia, ela trabalhava no setor público em Damasco, capital da Síria, ajudando na promoção de adubos, produto exportado para empresas de todo o país. Era um emprego de meio período, que conciliava com o trabalho de massoterapeuta em um hotel.

Foi o interesse pela biologia do corpo e seus benefícios, além do diálogo com os pacientes e o auxilio na busca pelo bem-estar, que fizeram Rima sonhar em iniciar um projeto, aplicando as técnicas aprendidas em um empreendimento próprio. A Guerra iniciada em 2011, porém, adiou os planos. Diante dos conflitos, os investimentos diminuíram e iniciar o negócio se tornou impossível.  Foi então que decidiu partir.

Tinha informações sobre o Brasil vindas de amigos que já estavam no país. Aprendeu as primeiras palavras antes mesmo de aterrissar no aeroporto: olá, como vai, conta aos risos. Migrou para o país há um ano e cinco meses e logo no segundo dia conseguiu a primeira cliente. Ainda não falava o português e a comunicação era problemática.

Trabalhou informalmente por três meses numa clínica de shiatsu e depois passou a cozinhar e vender comida árabe em uma igreja. Por meio de amigos no país, ela conheceu alguns serviços voltados para a população migrante.

Massoterapeuta é uma das qualificações de Rima. Crédito: arquivo pessoal
Massoterapeuta é uma das qualificações de Rima.
Crédito: arquivo pessoal

Hoje, ela divide o tempo entre estudar o idioma local, aprender francês e buscar uma oportunidade de trabalho. “Não gosto de como estou agora, sem trabalho fixo”, conta, sem perder o otimismo em conseguir ter uma vida melhor. Do novo vocabulário que tem estudado, ela já elegeu as duas palavras que menos gosta: difícil e caro, termos que fazem a realidade pesar mais. Prefere evitá-las e olhar o cotidiano numa outra perspectiva. Quer estudar estética para finalmente conseguir uma colocação no mercado de trabalho, com carteira assinada. E no futuro, Rima sonha em abrir um clínica de estética com seu próprio nome.

Já buscou informações numa universidade da capital e se inscreveu para a nova turma. Pelas previsões, em fevereiro, Rima deverá estar numa sala de aula, dando mais passos rumo à sonhada autonomia.

Mujeres migrantes y la búsqueda de un trabajo digno

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Superar estereotipos, garantizar la regulación migratoria y la inclusión en políticas públicas, son acciones necesarias para promover el empoderamiento de las mujeres migrantes en Brasil y conseguir la igualdad de género. Experiencias en San Paulo muestran que otra realidad es posible.

Por Géssica Brandino y Rodrigo Borges Delfim
Colaboradores: Eva Bella y Glória Branco
Traducción al español: Brisia Pina Zavala

Salarios más bajos para los mismos cargos, prejuicios, dificultad para alcanzar altos cargos y la carga del trabajo reproductivo no remunerado. La superación de las barreras que impiden el empoderamiento de las mujeres alrededor del mundo, y garantizar la igualdad de género, es una de las metas de la Organización de Naciones Unidas para 2030, dentro de los Objetivos de Desarrollo Sostenible. El desafío es aun mayor para las más de 117 millones de mujeres migrantes en el mundo -320 mil en Brasil- que buscan en el trabajo en el extranjero un medio para alcanzar una vida digna.

Acabar con la desigualdad de género, según datos del Fondo Monetario Internacional (FMI), volvería las economías de los países más rentable. En algunas regiones del mundo, las pérdidas en PIB per cápita que pueden ser atribuidas a la desigualdad de género en el mercado laboral pueden alcanzar hasta el 27%. El FMI apunta que las mujeres representan cerca del 50% de la población en edad activa, pero apenas el 40% de la fuerza de trabajo global, a pesar del aumento de la participación femenina en las últimas dos décadas.

En Brasil, la presencia de mujeres en el mercado de trabajo aumentó y la media de años de estudios es más elevada que la de los hombres. La Encuenta Nacional por Muestra de Viviendas (PNAD por sus siglas en portugués) de 2014, realizada por el Instituto Brasileño de Geografía y Estadística (IBGE), muestra que las mujeres poseen una media de ocho años de estudios, frente  a siete años y medio de estudio de los hombres. Aún así la desigualdad precisa ser superada. De acuerdo con el Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), los hombres aún ganan más que las mujeres: en 2014, los hombres tenían el sueldo medio de R$ 1.831, mientras las mujeres ganaban R$ 1.288. Las mujeres negras tienen la menor remuneración, con el sueldo medio de R$ 946 y los hombres blancos el mayor sueldo medio, en cerca de R$ 2.393.

Desafío de la mujer migrante

Juliana Bueno, coordinadora de Ciudad 50 50, programa de ONU mujeres en Brasil que buscar fortalecer el debate sobre igualdad de género, apunta que la realidad de las mujeres migrantes aquí es semejante al de muchas mujeres brasileñas: salarios bajos y responsabilidad por la tareas domésticas y del cuidado, además del trabajo fuera de casa. Es decir, jornadas dobles o triples, con el agravante para las mujeres migrantes de enfrentar barreras por su nacionalidad.

“Enfrentan las mismas dificultades que las brasileñas en situación de vulnerabilidad, pero su situación se agrava con las barreras lingüísticas, los prejuicios, la xenofobia, falta de referencias y las dificultades de adaptación e integración a un nuevo país. La dificultad de acceso a servicios públicos universales, por su condición de extranjeras, también torna el día a día mucho más difícil. No por casualidad, los pocos estudios con los que contamos muestran que aquellas mujeres que llegan al país en situación de vulnerabilidad –sin documentos, sin hablar el idioma- acaban trabajando en empleos de baja remuneración y en condiciones precarias, talleres de costura y empleo doméstico informal son algunos ejemplos.

Fue así la vida de Júlia* (identificada sólo con el primer nombre y que pidió no ser fotografiada) durante más de dos décadas. Inmigrante boliviana que llegó a San Paulo en 1982, sin hablar portugués y sin conocer las leyes locales. Sin papeles, empezó a trabajar como niñera para una familia brasileña, recibiendo como pago comida y un lugar para dormir. Se casó con un brasileño, pero el matrimonio no resultó ser lo que esperaba. Con mucho esfuerzo logró comprar un terreno y construir una casa propia, cuando se quedó embarazada no tuvo descanso durante la gestación y apenas se tomó veinte días libres para cuidar a su hija, al reincorporarse al trabajo tenía que trasladarse con su hija en brazos para poder amamantarla.

As situações vividas por Júlia (que preferiu não ser fotografada) são parecidas com as que outras mulheres enfrentam, independente da nacionalidade. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Por: Eva Bella/MigraMundo

Su hija aún era pequeña cuando Júlia consiguió salir de la relación destructiva con su esposo. Vivió algún tiempo con amigos hasta que la situación comenzó o mejorar al regularizar su situación migratoria en Brasil. El contrato formal, horizonte distante cuando llegara a Brasil, se volvió una realidad hace doce años. Con 51 años, Júlia trabaja en el servicio de limpieza en un hospital de la capital paulista y consiguió estudiar para técnico en enfermería. Su hija, ahora con 24 años, aprobó el examen de acceso a la universidad y consiguió una plaza para estudiar arquitectura en la Universidade de São Paulo, una de las carreras y universidades más solicitadas en todo el país.

Cambiar la realidad de mujeres como Júlia ha sido uno de los objetivos de trabajo desarrollados por la Coordinación de Políticas para Migrantes (CPMig) de la Secretaría de Derechos Humanos del Ayuntamiento de San Paulo. En julio de 2016 entró en vigor en la capital paulista la Ley Municipal nº 16.478, que instituye la Política Migratoria de la Ciudad. El artículo 3º de la norma determina que las prácticas locales deben “respetar especificidades de género, raza, etnia, orientación sexual, edad, religión y deficiencia”.

Por medio del Centro de Referencia y Atención para Inmigrantes (CRAI-SP), creado en 2014, los migrantes pueden ser atendidos en seis idiomas, reciben orientación para regularizar su situación migratoria, información sobre empleos y clases de portugués. Colaborando con los Centros de  Apoyo al Trabajo y Emprendedurismo (CATe) y la Secretaría de Desarrollo del Trabajo y Emprendedurismo (SDTE) del Ayuntamiento, el CRAI ha podido llevar a cabo talleres de capacitación para migrantes, búsquedas de empleo, además de realizar acciones para sensibilizar el mercado de trabajo. “La regularización migratoria, el acceso a los documentos de trabajo, el dominio del portugués (aunque no sea perfecto) y la posesión de una cuenta bancaria son requisitos indispensables para que los inmigrantes puedan tener empleos formales (hombres y mujeres). Actualmente la CPMig y el CRAI están realizando nuevos encuentros con el fin de sensibilizar a las empresas sobre la importancia de ofrecer empleo a migrantes e informales sobre la documentación específica requerida a la hora de la contratación”, explica la asesora de la CPMig, Camila Breitenvieser.

Para la profesora de Derecho Internacional, Cyntia Soares Carneiro (Departamento de Derecho Público de la Unversidade de  São Paulo), otra necesidad para garantizar el empoderamiento de las mujeres migrantes es avanzar en términos legislativos. En Brasil todavía está en vigor el Estatuto del Extranjero, creado en la época de la dictadura militar, y en el que se percibe al migrante como una potencial amenaza a la soberanía nacional. “Brasil necesita normas que faciliten la regularización, principalmente de aquellas inmigrantes que ya cuentan con un trabajo o con otros medios de subsistencia, trabajando como autónomas, por ejemplo”.

Datos del Banco Mundial revelan que en el 60% de los países existe la necesidad de una legislación que garantice oportunidades iguales para hombres y mujeres, tanto en términos de remuneración como en posibilidades de ascenso en la carrera escogida.

Acceso a guarderías

Otro factor que interfiere directamente en la inserción de mujeres en el mercado de trabajo, inmigrantes y brasileñas, es la disponibilidad y acceso a servicios públicos como las guarderías. Según los indicadores de sociales del IBGE, en el periodo de 2002 a 2012, el porcentaje de niños de hasta tres años en guarderías se incrementó de un 11.7% a 21.2%. No obstante, el acceso a este servicio es desigual. En 2012, el 63% de los  niños entre 2 y 3 años entre la población más rica del país asistía a guarderías, mientras que el acceso por parte de los sectores de población más pobres era del 21.9%.

La angoleña Mariza Kalongua vive en su propia piel esa realidad. Fisioterapeuta, graduada en Brasil, emigró para poder cursar sus estudios universitarios en San Paulo. Hoy, contando con postgrado en su área, ejerce su profesión en un hospital de la capital paulista. Su lugar de trabajo fue escogido justamente pensando en el horario que le permitiese llevar y recoger a su hijo de dos años de la guardería. Los fines de semana, cuando la guardería está cerrada, la rutina se complica pues con turnos de 12 horas al día, Mariza necesita dejar a su hijo al cuidado de una tía para poder cumplir con su horario de trabajo.

A fisioterapeuta angolana, Mariza Kalongua: mulher, migrante, mãe, trabalhadora e estudante. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
La fisioterapeuta angolana Mariza Kalongua: mujer, migrante, madre, trabajadora y estudiante.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Para las migrantes recién llegadas al país, que no cuentan con amigos o familia que las puedan auxiliar, esa realidad se vuelve más compleja. El Ayuntamiento de San Paulo ofrece 690 plazas para inmigrantes en sus centros de acogida, donde asistentes sociales orientan en la búsqueda de empleo y gestionan la admisión prioritaria de hijos de mujeres migrantes en las guarderías públicas. “Las mujeres inmigrantes acogidas en los centros normalmente son recién llegadas y no tienen una red de relaciones sólida en el país, lo que es un rasgo específico de su condición migratoria. La guardería se convierte en una posibilidad, muchas veces la única, del cuidado de los hijos, que a su vez es una condición necesaria para que las madres puedan trabajar”, agrega Camila Breitenvieser.

Emprendedurismo migrante

Llamando de puerta en puerta, Rima Eissa, 41 años, busca en San Paulo una oportunidad de trabajo dentro de las especialidades aprendidas en si país de origen, Siria. Graduada en agronomía, trabajaba en el sector público en Damasco. Hace siete años, su interés por la biología del cuerpo y la búsqueda del bienestar la llevaron a trabajar como mesoterapeuta.

Llegó a la capital paulista hace un año y cinco meses. Ya trabajó informalmente en una clínica, tuvo un par de clientes fijos y, finalmente, pasó a vender comida árabe. Pero lo que realmente quiere es poder ser independiente. El próximo año deberá estar en un aula iniciando sus clases de estética, avanzando unos pasos más hacia su autonomía.

Fisioterapeuta, personal trainer, massagista terapêutica, professora de aeróbica, pilates e yoga. Esses são os conhecimentos de Rima, com os quais busca se integrar no Brasil. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Rima, de Síria,  busca una oportunidad de trabajo en Brasil como mesoterapeuta.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Garantizar el empleo de mujeres como Rima es uno de los objetivos del proyecto Empoderando Refugiadas, iniciativa del Grupo Temático de Derechos Humanos y Trabajo de la Red Brasileña del Pacto Global de las Naciones Unidas, en colaboración con ONU Mujeres Brasil, Cáritas Arquidiócesis de San Paulo, el Programa de Apoyo para el Reasentamiento de Refugiados (PARR) y Fox Time.

Treinta mujeres participaron en esta iniciativa piloto, llevada a cabo en San Paulo, con una duración de siete meses. En este periodo refugiadas de Angola, Nigeria, Camerún, República Democrática del Congo, Burundi, Colombia y Siria participaron en talleres sobre planeación financiera y profesional, emprendedurismo femenino, derechos de las mujeres trabajadoras en Brasil y técnicas para mejorar el portugués, además de sesiones de coaching. Todo ello dentro de un espacio de enlace con futuros contratantes. Desde que culminó la iniciativa, en junio, nueve de las participantes fueron contratadas en diversas áreas.

“A las empresas les gustaron muchos las mujeres que contrataron, en aquel escenario de diversidad. Con este curso, nuestro objetivo era que fuesen contratadas, que grandes empresas consideraran esas mujeres”, destaca Vanessa Tarantini, representante de la Red Brasil del Pacto Global de las Naciones Unidas.

Más allá de los resultados, Vanessa cita el aprendizaje que Empoderando Refugiadas dejó para las empresas y para otros que participaron del proyecto: “personalmente, después de haber estado en contacto con esas mujeres, se aprenden muchas cosas y uno valora más las circunstancias propias de vida, no nos podemos quejar”.

Parceiros do projeto Empoderando Refugiadas conversam com empresas para sensibilizá-las à causa do refúgio. Crédito: Pacto Global Brasil/Divulgação
Proyecto Empoderando Refugiadas, que llama empresas para contratar mujeres refugiadas.
Crédito: Pacto Global Brasil

Los resultados positivos también provienen del sector público. Este año proyectos de mujeres migrantes fueron contemplados en el programa VAI y Agente Comunitario de la Cultura, ambos configuran acciones del Ayuntamiento que generan recursos para financiar proyectos artísticos de la ciudad y que permiten la divulgación de expresiones culturales de las mujeres migrantes. Además el gobierno municipal también ha promovido la participación de mujeres migrantes en el Proyecto Economía Solidaria SP, que posibilita trabajo remunerado, en un proceso de autogestión en el que el trabajador participa en todo el proceso productivo.

Para Juliana Bueno es fundamental que los gobiernos, en todos los niveles -local, estatal y federal- así como el sector privado, ofrezcan atención especial a los migrantes. “Es necesario fortalecer el entendimiento entre todos y todas para tener claro que las migraciones son algo que beneficia al país, a nuestras ciudades. Que la integración sociocultural nos ayuda producir más y a desarrollarnos mejor, siempre y cuando pongamos en práctica políticas públicas que busquen acoger esas personas y no dejarlas en situación de vulnerabilidad. La migración es una realidad, la migración femenina más todavía”.

En la evaluación de la especialista, cambiar el escenario de las mujeres migrantes exige que toda la sociedad cambie su percepción. “Necesitamos ver a esas mujeres como ciudadanas, como sujetos de derechos en nuestro país. Ese cambio de visión es lo que hará la diferencia a la hora de llevar a cabo acciones, porque nos proporcionará una mayor capacidad de comprensión para poder gestionar las particularidades de la situación de esas mujeres, para poder acogerlas como merecen”, completa Juliana.

Novo guia orienta empresas sobre contratação de refugiados

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Parceiros do projeto Empoderando Refugiadas conversam com empresas para sensibilizá-las à causa do refúgio. Crédito: Pacto Global Brasil/Divulgação

A Rede Brasil do Pacto Global, por meio do grupo temático de direitos humanos e trabalho, lançou recentemente um documento sobre o engajamento de empresas na causa dos refugiados e um guia de perguntas e respostas com as principais dúvidas sobre as possibilidades de contratação.

O documento é resultado do diálogo promovido no encerramento da primeira edição do projeto “Empoderando Refugiadas” em junho deste ano, em São Paulo. O evento reuniu cerca de 50 pessoas, entre representantes de empresas, organizações da sociedade civil e governo.

Clique aqui para acessar e baixar o guia

Clique aqui para acessar o relatório sobre o projeto Empoderando Refugiadas

O objetivo foi incluir o setor privado no diálogo sobre refúgio e gênero, trazendo exemplos nacionais e internacionais na área, além de fornecer orientações e workshops a refugiadas sobre o mercado de trabalho brasileiro.

Além de responder às dúvidas, o guia traz um panorama do refúgio no Brasil, explicações sobre os direitos de trabalho destas pessoas no Brasil, documentos de apoio, bem como casos de empresas que integraram refugiados na equipe.

Entre os benefícios relatados por empresas que promovem atividades para refugiados estão a melhoria da imagem corporativa, maior engajamento de funcionários, apoio a diversidade e multiculturalidade no ambiente de trabalho e desenvolvimento de habilidades de liderança para os funcionários que atuam como mentores de refugiados. Além disso, o fato dessas pessoas em geral dominarem mais de um idioma é visto como diferencial para casos de clientes que não falam português.

Sobre o projeto

O Empoderando Refugiadas foi criado pelo Grupo Temático de Direitos Humanos e Trabalho da Rede Brasil do Pacto Global, que tem o objetivo de conscientizar e informar às empresas a situação da mulher refugiada – grupo que tende a sofrer mais com o preconceito por ainda envolver uma questão de gênero. Ao final, foram 33 mulheres refugiadas participantes do projeto, sendo que nove delas conseguiram emprego formal logo após o programa.

“A nossa ideia no Brasil é extremamente replicável, qualquer outro ator pode trabalhar com o engajamento de empresas, não só o Pacto Global. Esse não é um tema que estava na agenda das empresas, começou a entrar na cabeça das pessoas após a crise na Síria e o fluxo de pessoas indo pra Europa. Aqui no Brasil o número tem aumentado também e talvez tenha se tornado mais perceptível para as empresas na hora de contratar alguém”, explicou Vanessa Tarantini, coordenadora de Parcerias e Engajamento da Rede Brasil do Pacto Global, em entrevista ao MigraMundo em abril deste ano sobre o projeto.

O Empoderando Refugiadas foi destaque em eventos internacionais dos quais o Pacto Global participou neste ano. Para Vanessa, essa visibilidade fortalece o projeto. “O reconhecimento de fora dá mais legitimidade, o que pode melhorar a vida dessas pessoas do projeto, não com uma perspectiva de pena, pois são pessoas que podem ajudar no crescimento das empresas”.

Veja o vídeo abaixo, feito pelo Pacto Global por conta do fechamento do projeto:

Com informações da ONU Brasil e Pacto Global

Haitianos e brasileiros usam redes informais para ajudar vítimas de furacão e pedem novo olhar sobre o Haiti

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Redes de solidariedade informais são comuns no Haiti. Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier

Por meio dessas redes extraoficiais, brasileiros e haitianos driblam a desconfiança que paira sobre ONGs acusadas de não entregar a ajuda prometida; ao mesmo tempo, pedem um novo olhar sobre o país

Por Rodrigo Borges Delfim
Com colaboração de Eva Bella e Fabio Ando Filho

O Haiti foi o país mais atingido pela passagem do furacão Matthew, no começo de outubro. O total de mortos passa de mil, os desabrigados são milhares, sem contar os prejuízos materiais. Tudo isso em um país que vive grandes contradições: tem o orgulho de ser a primeira nação negra independente no hemisfério ocidental, por meio de uma rebelião de escravos, enfrentando o poderio da França de Napoleão; mas sofre com instabilidades políticas e está sujeito a catástrofes ambientais. Fugindo desses dois fatores e em busca de uma vida melhor, milhares de haitianos tentam a sorte em outros países – e de lá, procuram ajudar, na medida do possível, os parentes e amigos que ficaram na terra natal.

Empresa de energia do Haiti trabalha para religar ligações elétricas destruídas pelo furacão. Crédito: Wener Garbers e Rosena Olivier
Empresa de energia do Haiti trabalha para religar ligações elétricas destruídas pelo furacão.
Crédito: Wener Garbers e Rosena Olivier

Com os haitianos que vivem no Brasil não é diferente. Acompanham as notícias sobre o país, ficam apreensivos com estado de saúde dos entes queridos e pensam em formas de ajudar os que estão a milhares de quilômetros de distância. No entanto, a cobertura sobre o país que chega ao Brasil e as informações sobre meios disponíveis para ajuda geram desconfiança em muitos haitianos.

“Se eu disser que conheço uma organização que está mandando ajuda para o Haiti, eu estaria mentindo. Falo isso porque eu conheço os políticos de lá. Além da situação crítica do povo, muitas pessoas se aproveitam desse sofrimento para ficarem ricos. “Nem penso em mandar um real para lá porque nem acredito que vá chegar de fato a quem precisa, quase nada chegaria para o povo”, responde o haitiano Fenitho Duverna, que vive em São Paulo e acompanha pela internet as notícias sobre o Haiti. Seus parentes moram em uma área alta da capital, Porto Príncipe, que não foi atingida pelo furacão.

Residente em Porto Príncipe, a haitiana Rosena Rebecca Olivier lembra contatos que possui com haitianos que vivem no exterior e reclamam da atuação dessas ONGs. “Eles acham que as instituições tem que sair do país para deixar que os haitianos entre eles façam as distribuições, que não precisa de todas essas pessoas cheguem ao país. que só o dinheiro de uma passagem para o Haiti poderia salvar uma vida”, conta.

Redes de solidariedade informais são comuns no Haiti. Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier
Redes de solidariedade informais são comuns no Haiti.
Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier

Redes informais e ação direta

Diante desse quadro, de que forma ajudar de fato as pessoas que estão no Haiti? A resposta pode estar em redes informais existentes dentro do próprio Haiti, como as acionadas por Rosena junto com o professor e pesquisador brasileiro Werner Garbers Elias Pereira, também residente na capital haitiana. Por meio dessas redes são mobilizados voluntários e recursos que ajudam a coletar as doações e a distribuí-las nos locais mais necessitados.

“As doações chegam com mais eficácia porque utilizam mais o conhecimento dos haitianos, que tem várias redes de solidariedade e colaborativismo que a comunidade internacional não sabe nem que existe ou mesmo ignora. Havia uma insatisfação com as formas tradicionais de ajuda. Por isso decidimos fazer isso que seria chamado de ação direta: quer dizer, todos voluntários, sem remuneração, sem grandes estruturas custosas, etc. É só botar gasolina nos carros – que até agora veio por doação também – e ir, sabe?”, explica Werner.

Doações já preparadas para serem entregues nas áreas mais afetadas pelo furacão. Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier
Doações já preparadas para serem entregues nas áreas mais afetadas pelo furacão.
Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier

Um grupo foi criado no Facebook para divulgar os pedidos de doação, formas de colaborar e também para mostrar o que tem sido entregue e onde (clique aqui para acessar). Do Brasil, conta Werner, já chegaram cerca de R$ 2.500 que foram convertidos para gourde, a moeda haitiana. O dinheiro que chega é usado para comprar os mantimentos que são distribuídos nas áreas mais afetadas. No último final de semana, Werner e Rosena estiveram na região sul do Haiti, a mais afetada pelo furacão, entregando as doações, e fizeram um relato sobre a situação encontrada.

Werner explica que essas redes informais são comuns dentro do Haiti e ajudam a levar as doações a locais nos quais outras instituições não conseguem ou mesmo não tentam chegar. “As redes de colaboração do Haiti, dentro de sua sociedade, muitas vezes são assim mesmo, sem reconhecimento sem instituição. E não entender isso é um dos fatores que fazem a comunidade internacional não ser tão eficaz aqui e continuar trabalhando de outra forma”.

Durante a visita a Les Cayes, uma das áreas devastadas pelo furacão, Rosena reencontrou a avó, da qual não tinha notícia desde a tempestade. “Logo depois do furacão eu percebi que onde morava minha avó foi devastado também. Aí eu comecei a chorar, fiquei uma semana sem notícia dela. Então o Werner e eu decidimos ir lá visitá-la e passar em Petit-Goãve, outra região devastada que estava no caminho. Lá também distribuímos comida para algumas pessoas mais atingidas. Trabalho para ajudar familiar e amigos, e também as pessoas que eu não conheço, me sinto bem assim”, contou Rosena.

Por onde doar?

Doações em dinheiro podem ser feitas para a conta abaixo, no Brasil

titular:Patricia Elias Pereira
Banco do Brasil
Agência: 0813-3
conta: 6548-x poupança,
modalidade: 51

Para transferência em nome de “Rosena Olivier”

Um novo olhar sobre o Haiti

Haitianos e brasileiros envolvidos com o país enfatizam que o pós-furacão é mais um exemplo de que é necessário um novo olhar sobre o país caribenho, apesar de todas as dificuldades que atravessa atualmente e ao longo de sua história.

“O mais importante é ter alguma outra forma de relação e de ajudar o Haiti, pois estamos no paraíso das ONGs, para onde já veio e vem muito dinheiro em muitas ocasiões, mas que não chega ao seio da população. Precisamos repensar as formas, e conseguir criar formas de ajudá-los, inclusive a médio e longo prazo”, observa Werner.

Casa destruída pelo furacão Matthew na região de Les Cayes, uma das mais afetadas. Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier
Casa destruída pelo furacão Matthew na região de Les Cayes, uma das mais afetadas.
Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier

O haitiano Dady Simon, que vive em São Paulo, se queixa da cobertura da mídia, que reforça estereótipos de pobreza sobre o Haiti e pouco ou nada fala sobre a história do país. “Precisamos ver o país de forma diferente. Ninguém gosta que sujem a bandeira de seu país. E na TV só aparecem coisas ruins sobre o país. Precisamos de pessoas que ajudem de verdade, com paixão, sem hipocrisia. A joia do Caribe [apelido que o Haiti recebeu quando ainda era a mais rica colônia francesa] precisa levantar do chão e se libertar. Mesmo diante da destruição, o país não perde sua beleza”.

Nas redes sociais, circula uma mensagem que atenta justamente para a necessidade desse novo olhar sobre o Haiti. Traduzida para o português, fica assim: “Querida mídia, se você insiste em começar todo artigo sobre o Haiti com ‘o país mais pobre do hemisfério ocidental’, acrescente respeitosamente ‘a primeira nação negra independente do hemisfério ocidental, primeira nação independente pós-colonial liderada por negros no mundo e única nação cuja independência foi fruto de uma rebelião bem sucedida de escravos'”.

Leia também

Nexo: Como o furacão no Haiti reacende o debate sobre refúgio ambiental

Nexo: O que faz do Haiti um país de crises ininterruptas

 

#MaisQueImigrantes: Campanha contra xenofobia valoriza diversidade do Brasil e ligação com imigrantes

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Uma das fotos da campanha #MaisQueImigrantes, na qual a pessoa é convidada a mostrar sua "mistura" de culturas. Crédito: Divulgação

Por Rodrigo Borges Delfim

Qual é a sua mistura?

É dessa pergunta, que leva a pessoa a pensar nas próprias origens, que parte a mais recente campanha de conscientização sobre as migrações no Brasil e de combate à xenofobia.

A campanha #MaisQueImigrantes foi idealizada por Brenda Louise Monaro e Mariana de Almeida Francisco, estudantes de Publicidade da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, em conjunto com a Equipe de Base Warmis, coletivo referência em empoderamento da mulher migrante.

“Ficamos sabendo que estavam procurando ONGs e coletivos para um trabalho para a matéria de comunicação do curso de Publicidade da Cásper Líbero, através do Facebook do professor Eric de Carvalho. Achamos interessante a proposta e pedimos para participar. Duas alunas [Mariana e Brenda] chegaram à nossa equipe e começaram a trabalhar conosco. Disso nasceu esta campanha”, explica a militante chilena Andrea Carabantes Soto, integrante da Warmis, sobre a origem da iniciativa e da parceria com as estudantes.

Qualquer pessoa é convidada a participar, mostrando sua “mistura” e usando a hashtag #MaisQueImigrantes. Quem adere convida outras pessoas a expressar cada qual suas raízes. Com isso, a ideia é mostrar que todos, direta ou indiretamente, são frutos das migrações, fenômeno que transforma as sociedades ontem, hoje e sempre.

“A hashtag fala por si só: a pessoa posta sua foto falando sua mistura, ou seja, os imigrantes são muito mais do que pensam que são, eles completam e também agregam para o país, a hashtag quebra aquele pensamento xenofóbico “estão aqui só para roubar o lugar do brasileiro” Não!! o Brasil precisa deles, eles formam o Brasil, são bem mais que imigrantes”, explica Mariana sobre a campanha.

A ideia tem sido abraçada tanto por imigrantes residentes no Brasil como brasileiros engajados na temática. As fotos são compartilhadas junto com um pequeno resumo da mistura de cada um e com. Ao mesmo tempo, a campanha mostra a ligação existente entre os brasileiros natos e os migrantes, independente da origem ou ascendência.

Nas redes sociais, pessoas de diferentes origens mostram suas "misturas" e aderem à campanha. Crédito: Montagem/Reprodução/Facebbok
Nas redes sociais, pessoas de diferentes origens mostram suas “misturas” e aderem à campanha.
Crédito: Montagem/Reprodução/Facebbok

“Elas captaram muito bem que para a gente é importante gerar essa ponte com a comunidade brasileira, e que o nosso nó essencial é a convergência de culturas. Elas conseguiram captar isso. Nós ficamos muito gratas pelo sensibilidade. E para nós tem sido uma grata surpresa o profissionalismo e dedicação delas”, elogia Andrea.

“Ninguém é só brasileiro, todos os brasileiros são misturas de nacionalidades que vieram para o Brasil e formaram a diversidade que hoje temos aqui. Então devemos muito aos imigrantes e é hipocrisia você falar que não gosta de imigrantes no seu país sendo que sua família é uma mistura de nacionalidades”, completa Mariana.

Lançada no último dia 3 de outubro, a campanha online vai até o próximo dia 31. Mas a data pode ser estendida, dependendo dos rumos que a ação tomar. A equipe ainda planeja organizar um evento sobre migração e saúde, conscientizando sobre os direitos básicos de saúde da mulher imigrante.

 

 

AI chama atenção para deslocamentos e pedidos de refúgio na América Central e cobra ação do Brasil

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Jovens de Honduras, na América Central. Relatório da AI denuncia violência na América Central e os deslocamentos forçados que ela gera. Crédito: Anistia Internacional

Um novo relatório divulgado na última sexta (14) pela Anistia Internacional (AI) denuncia a situação de milhares de pessoas que têm se deslocado na América Central, região que não costuma ocupar grande espaço no noticiário global.

O documento “Lar Doce Lar: O papel de Honduras, Guatemala e El Salvador na crescente crise de refugiados” avalia como os três países estão falhando ao não proteger a própria população da violência e não estabelecer um plano de proteção para as pessoas que retornam após serem deportadas de países como o México e os Estados Unidos, voltando a correr risco de vida.

Clique aqui para acessar o relatório (em inglês)

“El Salvador, Guatemala e Honduras praticamente se tornaram zonas de conflito onde as vidas parecem descartáveis e milhões de pessoas vivem em constante terror de que membros de gangues ou até das forças de segurança pública possam fazer com elas ou com suas famílias”, comenta Salil Shetty, secretário-geral da Anistia Internacional. “Esses milhões de pessoas são agora os protagonistas de uma das crises de refugiados menos visível no mundo”.

Violência que desloca e ameaça

Os três países estão entre os mais violentos do mundo. A ONU já classificou El Salvador como um dos mais perigosos fora de uma zona de guerra: foram 108 homicídios por 100 mil habitantes em 2015. Em Honduras, o índice foi de 63,75, e na Guatemala, de 34,99 por 100 mil habitantes.

Os jovens são os mais afetados pela violência: mais de metade das pessoas assassinadas em El Salvador, Honduras e Guatemala em 2015 tinha idade inferior a 30 anos. Muitos jovens são forçados a entrar para gangues, enquanto as mulheres são forçadas a se relacionar com membros desses grupos armados. Além disso, sofrem sistematicamente violência sexual e outras formas de violência baseadas em gênero. Crianças também estão entre os grupos afetados pela situação.

Esse quadro de violência é o grande gerador de pedidos de asilo de cidadãos da América Central ao México, Estados Unidos e outros países, chegando a níveis que não se via desde que os conflitos na região terminaram, há décadas.

Um pedido de refúgio negado pode ter como preço, literalmente, a vida. Foi o que aconteceu com Saul, de 35 anos e pai de cinco filhos. Ele foi morto no seu país de origem, Honduras, menos de três semanas depois de ser deportado para lá, em julho 2016, quando seu pedido de asilo foi negado no México. Esta é uma das histórias presentes no relatório da Anistia Internacional.

“Esses casos ilustram bem a crescente dinâmica de uma população que migra fugindo de graves e generalizadas violações de direitos humanos e solicita refúgio com base nesse critério”, reforça Marina Motta, assessora de Direitos Humanos da Anistia Internacional no Brasil.

A Anistia Internacional não é a primeira entidade a chamar a atenção para a situação na América Central. Em fevereiro deste ano, o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) emitiu comunicado apelando às nações, em especial às da América Latina, que acolham os refugiados da América Central, especialmente os originários de El Salvador, Honduras e Guatemala, países do chamado Triângulo Norte da América Central.

Pressão internacional e papel do Brasil

A Anistia Internacional cobra de El Salvador, Honduras e Guatemala como utilizarão os U$750 milhões de dólares que receberão dos Estados Unidos como parte do “Plano da Aliança para a Prosperidade” para prestar apoio às pessoas deportadas cuja vida está em perigo. A iniciativa tem como objetivo abordar as causas da migração para conter o fluxo migratório e proteger aqueles que são deportados.

“Os programas de acolhimento dos deportados são uma piada de mau gosto. Um edifício brilhante, uma refeição quente e um banner de boas-vindas não vai manter essas pessoas a salvo dos horrores que as esperam em casa “, criticou Salil Shetty.

O relatório da Anistia aponta ainda que, na contramão de Estados Unidos e México, outros países da América Central, como Costa Rica, Panamá e Belize têm acolhido número significativo de pedidos de refúgio em comparação com a população local. E a partir desse dado, procura mostrar que países com uma economia mais desenvolvida, como o Brasil, deveriam dar mais atenção aos deslocamentos causados pela violência nos países centro-americanos.

“O Panamá é a 76ª. economia do mundo em termos de PIB bruto, tem 4 milhões de habitantes em um território menor que o estado de Pernambuco e já abriga 3.400 pessoas refugiadas; a Costa Rica é 75ª. economia mundial, tem em torno de 5 milhões de habitantes em um território um pouco maior do que o do estado do Espírito Santo e abriga 3600 pessoas refugiadas – já o Brasil é a 9ª. maior economia, sua população de 210 milhões de habitantes está amplamente espalhada em um território de dimensões continentais e, no entanto, abriga apenas 9 mil pessoas refugiadas”, pontua a organização em comunicado divulgado no Brasil junto com o relatório.

A Anistia sugere para o Brasil a extensão dos programas de vistos humanitários e de reassentamento solidário também para pessoas dos países afetados pela violência – atualmente o reassentamento é voltado apenas para colombianos que estão vivendo no Equador. Também pede que o governo brasileiro pressione Honduras, El Salvador e Guatemala para que tomem medidas para proteger suas populações retornadas.

Advocacy e mobilização no Brasil

A questão do refúgio e das migrações se tornou um dos novos campos de atuação da Anistia no exterior. E essa diretriz também vem sendo aplicada no Brasil, procurando somar esforços a outras entidades locais e internacionais que já lidam com o tema no país.

“A Anistia decide suas pautas prioritárias consultando toda a sua base de apoiadores. Na última consulta saiu que um dos temas sobre os quais as pessoas estão mais preocupadas e querem se mobilizar são os direitos das pessoas refugiadas e migrantes. Por isso, todas as seções e escritórios nacionais da AI baseados em países onde isso é uma questão importante [como o Brasil] são convidados a desenvolver uma estratégia de advocacy e mobilização local sobre o tema”, explica Marina, que é também responsável pela campanha da AI sobre os direitos das pessoas refugiadas e migrantes.

 

Ministério da Justiça tem novo edital para migrações e refúgio; veja quem pode concorrer

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Migrantes e refugiados a caminho da Europa. Crédito: Manu Gomez/ Fotomovimiento - 14.mar.2016

O Ministério da Justiça lançou recentemente um chamamento público para aportar até R$ 300 mil em 12 meses para até 4 projetos aprovados na área de migrações e refúgio. Ao todo, a pasta deve destinar R$ 1,2 mi para as propostas aprovadas.

Para participar do edital, entre outros pré-requisitos, as organizações precisam ter experiência prévia comprovada para realização do projeto, estar habilitadas no Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse (SICONV) e ter pelo menos cinco anos de inscrição no CNPJ. Estas e outras condições impedem a adesão de diversas entidades que funcionam de modo informal, incluindo iniciativas tocadas há anos por imigrantes e demais agentes na sociedade civil.

As propostas apresentadas pelas entidades precisam ser encaixadas em algum destes eixos abaixo:

a) disponibilizar atendimento especializado nas áreas de assistência psicossocial ou jurídica de imigrantes, refugiados, solicitantes de refúgio e apátridas;

b) disponibilizar cursos e atividades educacionais voltadas ao aperfeiçoamento pessoal e à capacitação profissional de imigrantes, refugiados, solicitantes de refúgio e apátridas, incluindo aprendizado de língua portuguesa;

c) desenvolver ações de apoio a imigrantes, refugiados, solicitantes de refúgio e apátridas para ingresso no mercado do trabalho, integração laboral, inclusive de intermediação de mão de obra;

d) desenvolver ações de capacitação relativas a empreendedorismo para imigrantes, refugiados, solicitantes de refúgio e apátridas, em especial voltados à criação e gestão de negócios e obtenção de crédito;

e) desenvolver ações de integração de imigrantes, refugiados, solicitantes de refúgio e apátridas, por meio da arte, cultura, esporte e lazer; ou

f) desenvolver ações de acolhida e albergue de imigrantes, refugiados, solicitantes de refúgio e apátridas.

As propostas devem ser enviadas, pela internet ou por correio (via Sedex), até as 18h00 do dia 4 de novembro. O resultado definitivo é previsto para o dia 24 do mesmo mês.

Mais informações sobre o processo podem ser obtidos na íntegra do edital e na página do Ministério da Justiça.