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quinta-feira, maio 7, 2026
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Como gregos nos ensinam a receber refugiados como pessoas e não como “convidados indesejáveis”

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Praia na costa norte de Lesvos. Os coletes pertenciam a refugiados/migrantes que haviam feito a travessia recentemente. Crédito: Bruna Kadletz

Neste segundo artigo da série Deslocados e Descartáveis, Bruna Kadletz encontra redes de solidariedade e ações inclusivas que abraçam milhares de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia. Tais redes e ações nos ensinam que “o outro” não precisa ser recebido com hostilidade

Por Bruna Kadletz
De Lesbos, Grécia
Publicado originalmente em inglês, no site Refugees Deeply (acesse aqui)

Ao redor do mundo, da Europa as Américas, existe uma prevalente retórica que reduz refugiados ao status de “convidados indesejados”.

Muitos países e seus governos restringem pessoas que tiveram suas vidas despedaçadas por guerra e violência de seus direitos humanos básicos, caso não possuam documentos válidos. Esta retórica previne refugiados de obterem passagem segura e de terem liberdade de movimento assegurada. Ao invés de garantir a proteção de populações vulneráveis, a resposta global para pessoas forçadas a se deslocar tem na realidade amplificado vulnerabilidade e sofrimento.

Enquanto que restrições legais e políticas têm paralisado a vida de milhões de refugiados, diversas organizações e voluntários têm criado formas inclusivas de responder às necessidades dos refugiados: redes de solidariedade e aceitação que prestam assistência humanitária.

Durante uma viagem recente a Lesbos, na Grécia, os residentes locais me ensinaram uma poderosa lição: quando nós nos enxergamos “no outro”, assim como muitos gregos que são descendentes de famílias refugiadas se enxergam, nós podemos manter uma atitude inclusiva, enxergando “convidados indesejados” como seres humanos que merecem apoio.

O influxo de refugiados, que começou no verão europeu passado e continuou pelos meses de inverno – com mais de um milhão de pessoas atravessando da Turquia para a Grécia – transformou nossa percepção coletiva das ilhas gregas. De destino turístico ao centro de uma crise humanitária, a Grécia tornou-se o principal portal para refugiados e migrantes que sonhavam com segurança e direitos humanos em solo europeu.

Cartões postais com visuais de férias e tranquilidade no azul turquesa do Mar Mediterrâneo foram substituídos por retratos de sofrimento humano, barcos afundados e cemitérios de coletes salva-vidas. Imagens de botes de borracha cheios de crianças, mulheres e homens apavorados dominaram a primeira página de vários jornais em 2015. A mídia alertava: a Europa está sendo invadida por “convidados indesejados” que irão destruir prosperidade e estabilidade social e, fatalmente, corroer valores liberais europeus.

Praia na costa norte de Lesvos. Os coletes pertenciam a refugiados/migrantes que haviam feito a travessia recentemente. Crédito: Bruna Kadletz
Praia na costa norte de Lesbos. Os coletes pertenciam a refugiados/migrantes que haviam feito a travessia recentemente.
Crédito: Bruna Kadletz

Devido à importância da Grécia para a crise dos refugiados, eu também fiz a travessia da costa turca para Lesbos de balsa. Ao atravessar o Mar Egeu, eu tentei imaginar qual o sentimento de ser sistematicamente destituída, indesejada e ter todas as passagens seguras fechadas para mim. Mas, o privilégio de carregar um passaporte válido e ser aceita não me permitiu compreender a sensação de ser descartada.

Assim que a balsa motorizada se aproximou do porto de Mitilini, eu fiquei encantada com a beleza da costa da ilha e sua silhueta. Minha chegada foi tranquila e segura, contrastando com o caos enfrentado pelos refugiados que aportam em costões rochosos e afundam na água gélida.

Assim que comecei a explorar as estradas montanhosas da ilha e suas vilas remotas, outro contraste chocante surgiu.

Em Lesbos, os remanescentes de coletes salva-vidas, pedaços de barcos nas praias e centros de detenções cercados por arame farpado silenciosamente confirmam como que determinadas vidas são percebidas como descartáveis e sem valor. É desconfortável contemplar a beleza encantadora e exuberante da ilha grega ao testemunhar o custo humano de uma abordagem política descartável a sobreviventes de guerra. A noção normalizada de que determinadas populações e grupos raciais possuem menos valor intrínseco que outros tem legitimado autoridades a abandonar refugiados no Mediterrâneo, permitindo que pessoas morram afogadas sem que nenhuma medida definitiva seja tomada.

Sobrecarregados e sem soluções sustentáveis, as mesmas autoridades aprisionam os convidados indesejáveis em centros de detenções, onde eles permanecem invisíveis a comunidade internacional.

Enquanto isso, a falta de consenso entre as nações europeias com relação ao destino dos solicitantes de asilo acrescenta mais um desafio aos milhares de refugiados e imigrantes vivendo em Lesbos. A falta de consenso prende refugiados e imigrantes na ilha, paralisando o presente e futuro deles. Eles devem esperar por procedimentos legais morosos e incertos para seus futuros precários possam ser definidos. Lesbos tornou-se uma prisão para aqueles que buscavam liberdade a qualquer preço. Sem um destino certo ou ocupação, refugiados e imigrantes caminham sem propósito pelas estradas da ilha ou se reúnem na frente dos centros de detenção e campos de refugiados.

Centro de detenção Moria, também em Lesvos. Após a assinatura do acordo entre a UE e Turquia, os recém-chegados sao encaminhados diretamente a esse centro. Crédito: Bruna Kadletz
Centro de detenção Moria, também em Lesvos. Após a assinatura do acordo entre a UE e Turquia, os recém-chegados sao encaminhados diretamente a esse centro.
Crédito: Bruna Kadletz

Diante do aumento de instabilidade global e mobilidade humana, como nós podemos sustentar uma atitude receptiva com relação ao outro, aqueles que são vistos como convidados indesejáveis? O sociólogo polonês Zygmunt Bauman ilumina essa questão ao afirmar que a crise dos refugiados é na realidade uma crise da humanidade. Em suas recentes análises, Bauman argumenta que a única resposta para o nosso predicamento global se encontra no reconhecimento da interdependência da humanidade. Seguindo este reconhecimento, o cultivo de comunidades com diversidade cultural, religiosa e étnica, aliado com a cooperação entre diferentes culturas e sistemas de valores formam uma possibilidade latente.

Instintivamente, os residentes de Lesbos compartilham a mesma visão. Ao promover redes de solidariedade e solidificar ações de apoio, os residentes da ilha recebem “o outro” ancorados no reconhecimento da interconexão da humanidade. Eu me hospedei em um hotel cujos donos haviam aberto suas portas para uma família sírio-palestina de sete membros. O casal grego cuidava das crianças refugiadas como se elas fizessem parte da sua própria família. A esposa me contou que, por causa do influxo de refugiados na ilha, o turismo estava em baixa esse ano e que os moradores locais estavam passando por dificuldades econômicas. Ainda assim, apesar das adversidades, o casal estava hospedando e cuidando de uma família que poderia facilmente ser vista como indesejada. Para o casal grego, hospedar e cuidar da família era a resposta mais natural e imaginável.

Durante nossas longas conversas sobre o influxo de refugiados e situação econômica da ilha, eu não senti em momento algum um pingo de ressentimento direcionado aos refugiados.

Em um mundo onde mobilidade humana caminho lado a lado com a lógica dos descartáveis e intolerância institucionalizada, os gregos nos mostram que é possível manter um coração aberto ao outro, mesmo sob condições hostis. Embora o turismo esteja em baixa e a economia local ferida pelo receio de um novo influxo de refugiados, muitos residentes locais continuam a personificar o que era conhecido na Grécia antiga como philoxenia, a tradição de ser hospitaleiro com estranhos, demonstrando amor e amizade.

Após presenciar a generosidade de indivíduos e grupos de solidariedade que permanecem a apoiar populações presas na ilha, é difícil compreender como que traficantes, políticos e outros envolvidos na crise dos refugiados possam explorar e obter vantagem de populações vulneráveis. Ao testemunhar tanta exploração e sofrimento, é tentador tornar-se cínico ou cair em ciclos de frustração e raiva. Consciente desse perigo, eu sempre busco por ações de solidariedade que possam restaurar minha fé na humanidade, e eu geralmente encontro as histórias mais inspiradoras em locais desprovidos de agenda política ou organizacional.

A próxima parada da jornada é em Calais, França, onde resposta militarizada tem sido utilizada como única alternativa contra pessoas que buscam refúgio no Reino Unido.

Os rumores da migração: dos silenciosos aos estridentes, do sofrimento à resistência e esperança

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Pessoas refugiadas são protegidas pelo princípio de "non refoulement" (não devolução, em tradução livre). Crédito: ACNUR

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Rumor dos passos de migrantes, prófugos e refugiados. Às dezenas e centenas de milhares batem trilhas e estradas e/ou cruzam o mar Mediterrâneo. Ansiosamente buscam um lugar de repouso, onde construir a plataforma para um futuro menor rumoroso e mais pacífico. Rumor de crianças famintas e irrequietas, boa parte órfãs de toda a família, e não raro desacompanhadas. Rumor de um pranto sufocado de quem perdeu tudo e, em desespero, procura algo para manter-se de pé e sobreviver.

Para trás ficaram outros rumores, bem mais estrepitosos e devastadores. Rumor seco e contínuo da metralha e dos fuzis, que varre aldeias, campos e cidades. Varrem o chão pátrio, deixando um rastro macabro de cadáveres insepultos e casas dilaceradas, abandonadas, vazias. Rumor do bombardeio aéreo das grandes potências mundiais, especialmente sobre o território da Líbia e da Síria, que, do alto, golpeia indiscriminadamente guerrilheiros e civis. No solo e na alma da nação abrem feridas que, por longos anos, haverão se sangrar. Rumor da luta corpo e corpo, do fogo e da rapina que tudo reduzem a ruínas, cinzas e escombros. Nada resta a não ser a fuga.

Mas existem também os rumores silenciosos, nem por isso menos estridentes e letais. Rumor da pobreza, da miséria e da fome que, num martírio gota a gota, enfraquece e dizima inteiros povoados. Rumor de muros, cercas e fronteiras, os quais, sem uma única palavra, marcam o limite entre os de dentro e os de fora, cerrando o caminho aos fugitivos. Rumor surdo e mudo de olhares e sorrisos oblíquos, onde se mesclam e se confundem o medo, a compaixão, o rechaço e a ameaça.

Depois, existem os rumores sociais, políticos, culturais e mediáticos. Rumor de grupos de extrema-deireita, de orientação nazi-facista, avessos e agressivos diante de qualquer tipo de abertura e acolhida. Rumor de leis migratórias que tratam de excluir os “não capacitados”, obrigando-os à deportação. O que, em grande medida, significa a morte imedianta e violenta ou a longo prazo. Rumor das manchetes de jornais, TV e revistas, espetaculares e sensacionaliastas: ao mesmo tempo, revelam e escondem a face e as opiniões de hostilidade, preconceito, discriminação e xenofobia, exibindo imagens devidamente selecionadas. Rumor da população perplexa e assustada que, nas praças, ruas e meios de transporte, por exemplo, desviam o olhar ou apontam o dedo sobre os “esses estranhos”. Rumor de promessas que partem de Bruxelas ou de outras capitais europeias, e jamais se realizam.

Permanecem vivos, entretanto, os rumores da resistência, da solidariedade e da busca de paz. Pequenos, esparsos, muitos deles invisíveis e também silenciosos (ou silenciados) – mas constituem sementes que indicam uma colheita futura, por modesta que seja. Organizações não governamentais, entidades, igrejas, grupos de voluntários, um verdadeiro exército que tenta abrir o coração e as portas, conscientes que o mundo é a pátria de todos. Não menos importante, porém, é a teimosia e a tenacidade dos próprios forasteiros. Uma a uma, vão superando as barreiras de um longo e árduo percurso. Resistência e acolhida, combinadas, fazem da fuga uma nova busca. Representam um avanço na passagem da “cultura da indiferença para a cultura da solidariedade”, como tem insistindo seguidamente o Papa Francisco.

Especial Anônimas: o perigo mora ao lado

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O perigo morava ao lado e tem o mesmo sangue que Chichi. Era seu tio, que tinha aderido ao Boko Haram. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas

Esta é a terceira parte do Especial Anônimas, uma série de cinco perfis de mulheres refugiadas que vivem em São Paulo. Os textos foram feitos pela jornalista Lu Sudré, mais nova colaboradora do MigraMundo, para o livro “Anônimas”, publicado por ela como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo da PUC-SP, em 2015. As histórias e imagens foram cedidas com exclusividade para o MigraMundo.

A série traz histórias de mulheres refugiadas que lutam para reconstruir as próprias vidas longe da terra natal. Os nomes das personagens são fictícios, para preservar a identidade de cada uma delas, ao mesmo tempo em que é possível abrir um pouco a mais a mente sobre as migrações a partir de seus relatos, dramas e superações.

Chichi: o perigo mora ao lado

Por Lu Sudré

Os africanos que vendem ouro no centro de São Paulo podem se frustrar com o número de “hoje não” que recebem, mas Chichi garante que é um bom negócio na África. Era o que ela fazia na Nigéria para complementar sua renda e ajudar nas despesas da casa, onde morava com seus pais. O ouro vinha de longe, lá dos Emirados Árabes, de Dubai, lugar que ela visitou algumas vezes para comprar a mercadoria e revender nas feiras de Zaria, em Kaduna.

Foi com as joias que conseguiu comprar um carro, o que facilitou muito a vida da família. Além de vendedora, trabalhava em uma empresa que produzia peças para os caixas eletrônicos dos bancos nigerianos. Chichi enganou sua vontade de ser médica quando começou a faculdade de Bioquímica. Para alguém formada nessa área, o ideal mesmo seria trabalhar em um hospital ou em uma empresa alimentícia, mas ela sabe que nem tudo é como a gente quer e agarrou a chance que apareceu.

Há oito meses vive no Brasil. Para solicitar o refúgio, precisou muito da ajuda da Cáritas, mas até que foi fácil conseguir o protocolo. Difícil mesmo foi perceber que tinha se enganado: achou que aqui falava-se inglês mas deu com a cara na porta. “Cheguei e não entendi nada do que as pessoas falavam. Jurava que aqui também falavam inglês. Isso tornou tudo mais difícil”.

Chichi – nome que escolheu para ser identificada – não aparenta ser estrangeira à primeira vista. Usa tênis, calça jeans, camiseta polo listrada. Seus cabelos, longos e lisos, geralmente ficam soltos. Usa uma tiara para que os fios não fiquem caindo no rosto. Presta muita atenção na aula de português do projeto Trilhas da Cidadania. Introvertida, sorri timidamente quando o professor lhe pergunta algo. Não é muito de falar ou de chamar atenção, como ela mesma define.

Todas as segundas e quartas pela manhã vai ao Museu de Arte Sacra para assistir às aulas. Romântica inegável, anda sempre com um livro de romance na bolsa. O livro da vez é Romeu e Julieta. “Essa versão é em inglês. Ainda não estou pronta para ler tudo em português. Quem sabe daqui alguns meses”, diz esperançosa, enquanto folheia as páginas do livro.

Filha única, tinha o pai como seu herói. Claro que ama a mãe, mas com seu pai era um chamego só. Quando começou a trabalhar pensou em mudar de país mas permaneceu a pedido do patriarca da família. O trabalho como bioquímica lhe rendia um salário de 1200 dólares, o que em Naira, moeda nigeriana, era o suficiente. Aqui no Brasil o que ganha por mês não chego nem perto. Até agora, está trabalhando como professora de inglês. Dá aula só para duas turmas e acha que seus dias estão contados por não dominar o português. A cada aula é uma mímica diferente para ajudar seus alunos a desvendar os termos que ela diz em inglês mas não sabe como falar em português.

Até que gosta do Brasil, mas seu sonho é morar nos Estados Unidos. Tem a sensação de que as pessoas aqui não gostam de estrangeiros, mas mesmo com todas as dificuldades, está melhor do que estaria na Nigéria. Chichi é mais uma vítima da guerra emplacada pelo Boko Haram. “Eu tive problema com um deles. Um homem que me fez perder muitas coisas, me fez perder a paz e ter que lidar com a morte”.

Desde que se tornou refugiada sua rotina mudou completamente. Em Zaira, saía de casa todos os dias às oito da manhã. Seu turno de trabalho acabava às quatro da tarde. Depois ia para as feiras de rua vender suas joias. No máximo cinco e meia já estava voltando para casa. Ficava pouco tempo nas feiras por uma questão de segurança. “Moro na parte norte da Nigéria. Andar a noite na rua é muito perigoso, o Boko Haram poderia me sequestrar ou estuprar. Voltava pra casa com a luz do sol porque meu pai sempre me pedia para tomar cuidado”.

Chichi e seus pais viviam com medo. Assim como todos os outros cristãos que moram na parte norte da Nigéria, poderiam ser alvo do grupo terrorista. Mas, além disso, eles tinham um motivo específico. Conheciam um homem que havia se convertido ao islamismo, se incorporado ao Boko Haram e que morava próximo à casa deles. Por muito tempo este homem havia acompanhado o cotidiano dos três, principalmente do seu pai.

O perigo morava ao lado e tem o mesmo sangue que Chichi. Seu tio, irmão do seu pai, passou a acreditar que a única lei que deveria ser seguida era a Sharia. Tentou coagir seu irmão a também se incorporar ao grupo terrorista. As brigas e ameaças começaram quando seu pai disse a ele que preferia estar morto do que ser um extremista islâmico.

O perigo morava ao lado e tem o mesmo sangue que Chichi. Era seu tio, que tinha aderido ao Boko Haram. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
O perigo morava ao lado e tem o mesmo sangue que Chichi. Era seu tio, que tinha aderido ao Boko Haram.
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas

Por muito tempo tentaram ignorar a presença deste homem mas não foi possível. Ela se pergunta todos os dias como alguém pode querer obrigar outra pessoa a se converter a alguma religião. Acredita em Jesus Cristo e na Ave-Maria, mas não forçaria ninguém a acreditar também. Para ela, religião é uma coisa que vem do coração de cada um.

Sentada no banco de madeira, no jardim do Museu de Arte Sacra, conta da primeira vez que entrou e visitou a capela. Tirou muitas fotos das santas que ali estavam, sentiu uma paz que não sentia há tempos. Aos poucos, seguindo um momento de introspecção, fala sobre o motivo que lhe fez sair da Nigéria.

Era um dia comum para Chichi. Acordou e foi trabalhar. Recebeu uma ligação no meio do expediente e atendeu despretensiosamente, não tinha como imaginar que naquela manhã perderia seu herói. “Meu tio apareceu na minha casa com seus amigos. Insistiram pro meu pai que ele tinha que se tornar muçulmano e ele disse não. O prenderam no quarto e bateram nele, muito. Muito mesmo. Quando me avisaram no trabalho, não tive como socorrê-lo. Já tinham o levado para o hospital, mas ele não sobreviveu”.

Assassinaram seu pai, que estava próximo de completar 59 anos. Sua mãe também não estava em casa mas tem certeza que foi seu tio, que já vinha fazendo ameaças há tempos. Muitos vizinhos confirmaram. “Doeu muito. Ainda dói. É alguém que você ama muito e não está mais perto de você. Eu até a polícia, mas eles não fizeram nada. Ninguém pode fazer nada contra eles”.

Chichi nunca fala seu nome, refere-se a seu tio como este ou aquele homem. Ela sabe que, naquelas condições, não era alguém de quem ela poderia se esconder. Depois de denunciá-lo, soube que teria que fugir. O homem sabia o que ela fazia, quem a conhecia, onde era seu trabalho. Quando seu pai morreu, não teve outra saída. Tem certeza que se estivesse vivo a protegeria. Mas na ausência dele, ninguém mais pode fazer isso.

A mãe dela, também senhora de idade, se escondeu em outro país da Nigéria. Conversam por telefone. O que mais queria era ver sua mãe. Se sente sozinha aqui. Sua cabeça fica vazia por não ter o que fazer. Não porque ela não quer, mas porque não conseguiu trabalho. “Eu quero vê-la salva. Quando eu estiver bem aqui vou trazê-la para ficar comigo. Mas ainda não. Não quero que ela sofra comigo”, comenta, acrescentando que mal consegue comer aqui, imagine alimentar outra boca.

Apesar do coração apertado com a saudade, está tranquila. Sua mãe é forte e consegue cuidar dela mesma. Quando saíram da Nigéria, pegaram um pouco de roupa e todo o dinheiro que tinham. Chichi trancou a casa e pediu para alguns dos vizinhos tomarem conta, mas não tem certeza se a casa ainda está lá. Garante que se voltar para a Nigéria dará um jeito de verificar.

a moça de 33 anos deixa transparecer seus anseios de menina. Com seu jeito brando, se refugia também nos romances que lê. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
a moça de 33 anos deixa transparecer seus anseios de menina. Com seu jeito brando, se refugia também nos romances que lê.
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas

Vendeu seu carro para comprar sua passagem de avião. Se deixasse lá, com certeza roubariam. Tinha uma amiga nigeriana refugiada no Brasil, e ao contar o que tinha acontecido com ela lhe deu a ideia de solicitar o refúgio aqui. “Chorei durante dias por causa da morte de meu pai. Ela me disse que eu precisava mudar de ambiente, pelo menos a moradia já estava garantida”, diz aliviada. Conhece o drama de outros refugiados em busca de um teto.

Tem a esperança de que o novo presidente, Muhammadu Buhari, controle a situação. De qualquer forma, só volta a Nigéria se estiver casada e ter a certeza de que seu país voltou a ser um lugar seguro.

Está morando em uma kitnet perto do metrô Santa Cecília, no centro da capital. A moradia é bem precária mas enquanto não arranjar outro trabalho, não tem outra opção. Já tirou a Carteira de Trabalho e vai à mutirões de emprego. O motivo que lhe impede é sempre o mesmo: a língua. “O problema é que vocês, brasileiros, falam muito rápido e com muitas gírias. Se falar devagar eu consigo entender,  mas ninguém tem paciência”, desabafa.

A outra nigeriana com que mora, trabalha na área da limpeza. Chichi quer trabalhar em uma empresa ou continuar a ser professora, mas é provável que consiga algo só na área de limpeza. Quer tentar a revalidação do diploma para conseguir uma vida melhor. “O único trabalho que dão para as pessoas de fora são desse tipo. Varrer a rua, limpar o chão. Eu sei que posso mais do que isso. Vou pegar meu certificado do curso e mostrar pra eles.”

Não tem certeza de nada sobre o futuro, mas quer casar o quanto antes. Há alguns anos atrás viajou para os Estados Unidos e conheceu um rapaz, que ficou horrorizado quando soube que ela viria para o Brasil. Mas, sabe que o dólar está muito alto e que vai ser difícil pra que eles se encontrem de novo. Que seja brasileiro, nigeriano ou americano, mas quer entrar de vestido e véu branco na igreja.

Enquanto conversa sobre sua vontade de casar, a moça de 33 anos deixa transparecer seus anseios de menina. Com seu jeito brando, se refugia também nos romances que lê. Pode não ter muita coisa na kitnet apertada, mas visita muitos mundos por meio de seus livros. Só lê coisas que a deixam feliz. Quem sabe, um dia, ela possa viver as histórias pelas quais tanto se encanta.

Violência agrava crise humanitária no Sudão do Sul; deslocados internos chegam a 1,7 milhão

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Mais de 1.7 milhões de pessoas se deslocaram internamente, devido ao conflito no Sudão do Sul. Crédito: Andrew Ash/Jesuit Refugee Service

Se as condições de segurança se deteriorarem ainda mais, providenciar assistência se tornará logisticamente impossível. As organizações de ajuda humanitária praticamente já conseguem evitar a fome nos locais de difícil acesso do Sudão do Sul – se elas não puderem operar integralmente, as consequências serão catastróficas.

Por Angela Wells, JRS – link original aqui
Tradução por Márcia Passoni

Juba, 28 de julho de 2016 – O Sudão do Sul enfrenta uma acentuada crise humanitária que, com o recente aumento dos conflitos, impede organizações de ajuda humanitária de providenciar auxílio urgente para milhões de pessoas em situação de necessidade. Violência e insegurança reinam em Juba, capital do país, e estão se alastrando por outros Estados, apesar de um cessar-fogo um tanto frágil, em um país onde metade da população depende de ajuda humanitária. Esta foi a conclusão a que chegaram dez organizações que prestam auxílio ao país.

As organizações CARE, International Rescue Committee, Mercy Corps, Oxfam, Christian Aid, Danish Refugee Council, Global Communities, Internews, Jesuit Refugee Service e Relief International estão convocando o governo do Sudão do Sul e a oposição para implementar um cessar-fogo mais rigoroso em Juba e em todo o país. O governo e as forças pacificadoras da ONU, UNMISS (United Nations Mission in South Sudan – Missão da ONU no Sudão do Sul, em tradução livre), devem também trabalhar para garantir que as agências humanitárias possam operar com segurança para levar ajuda àqueles que necessitam.

Mesmo antes do último conflito que balançou o Sudão do Sul, em 7 de julho, na véspera do quinto aniversário da independência do país, 4,8 milhões de pessoas ficaram sem ter o que comer e 2,5 milhões precisaram abandonar seus lares. O conflito em Juba deixou pelo menos 300 mortos e forçou outros dezenas de milhares a abandonar suas casas, ficando sem água, comida e abrigo.

Mais de 1.7 milhões de pessoas se deslocaram internamente, devido ao conflito no Sudão do Sul.  Crédito: Andrew Ash/Jesuit Refugee Service
Mais de 1.7 milhões de pessoas se deslocaram internamente, devido ao conflito no Sudão do Sul.
Crédito: Andrew Ash/Jesuit Refugee Service

“Mais uma vez, corremos o risco de falhar com o povo do Sudão do Sul, justo no momento em que mais precisam da nossa ajuda. Muitas organizações de ajuda humanitária estão precisando suspender ou limitar os trabalhos de salvamento devido aos conflitos contínuos e à insegurança, e são aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade que pagam o preço. A comunidade internacional precisa redobrar os esforços para encontrar uma solução para esta crise. Nada protegeria mais os cidadãos do que a total implementação da paz. O status quo simplesmente não é suficiente.”, afirma Kate Phillips-Barrasco, diretor Sênior de Política e Advocacia do International Rescue Committee.

Por causa da insegurança, muitas agências tiveram que reduzir temporariamente o seu pessoal, restringindo-se a atender apenas o essencial. Armazéns de comida, água e outros materiais de auxílio tem sido saqueados, mesmo depois de declarado o cessar-fogo. Em um país que tem somente 200km de estradas pavimentadas, os conflitos em curso e as restrições para vôos internos, significam que colaboradores das agências não podem viajar livremente para levar ajuda, e nem reabastecer suas bases pelo país com os suprimentos básicos para operações e os materiais necessários para projetos humanitários.

A violência também faz com que os bancos operem apenas parcialmente, o que dificulta o acesso ao dinheiro para pagar bens e suprimentos; e muitos fornecedores restringiram suas operações, limitando-as apenas a produtos estritamente necessários.

“Se as condições de segurança se deteriorarem ainda mais, providenciar assistência se tornará logisticamente impossível. As organizações de ajuda humanitária praticamente já conseguem evitar a fome nos locais de difícil acesso do Sudão do Sul – se elas não puderem operar integralmente, as consequências serão catastróficas”, disse Zlatko Gegic, Diretor do Sudão do Sul na Oxfam.

Organizações de ajuda humanitária estão convocando o Conselho de Segurança da ONU para garantir que a performance da UNMISS seja aprimorada, a fim de proteger civis e possibilitar que organizações humanitárias trabalhem com liberdade e segurança por todo o país. Toda a comunidade internacional e oficiais da ONU também tem um papel a desempenhar para assegurar que o governo garanta o acesso às organizações de ajuda humanitária à todas as pessoas que necessitarem.

“A falta de habilidade da UNMISS para proteger civis dá margem ao risco de minar qualquer tentativa de estabelecer a segurança no país e impossibilita as organizações de ajuda humanitária de prestar o auxílio com a urgência necessária. A UNMISS deve cumprir sua incumbência de proteger o povo e disponibilizar pessoas para facilitar a assistência.”, disse Frederick McCray, diretor do Sudão do Sul na CARE.

“Em última análise, o Sudão do Sul precisa de uma paz permanente. Todas as partes interessadas devem trabalhar para promover a paz, tentar solucionar os conflitos sem violência, e agir com tolerância durante esses momentos mais vulneráveis. Pedimos que ambos os lados respeitem o cessar-fogo e trabalhem juntos para chegar a uma solução sustentável. O povo do Sudão do Sul está sofrendo muito, há muito tempo.”, disse Deepmala Mahla, diretor do Sudão do Sul na Mercy Corps.
Signatários:

  • CARE
  • Christian Aid
  • Danish Refugee Council
  • Global Communities
  • International Rescue Committee
  • Internews
  • Mercy Corps
  • Jesuit Refugee Service
  • Oxfam
  • Relief International

Para maiores informações e para organizar entrevistas, favor contatar: Angela Wells, JRS Eastern Africa Communications Officer, angela.wells@jrs.net, +254 715 33 2035

Espaço gastronômico de refugiados do Congo será inaugurado durante Festival em São Paulo

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Culinária congolesa será atração em novo food park em São Paulo. Crédito: Divulgação

Por Géssica Brandino
Do Caminhos do Refúgio (acesse aqui o link original)

Refugiados da República Democrática do Congo inauguram neste sábado (6/8) o  Congolinária: Descobrindo os Sabores do Congo, no Food Park Quintal de Casa (Rua Dr. Renato Paes de Barros, 484, Itaim Bibi – São Paulo). A abertura do espaço gastronômico marca o início do 1º Festival de Gastronomia, Arte, Música, Imigração e Refúgio, que será realizado no espaço das 12h às 22h, durante todos os finais de semana de agosto.

Com o intuito de partilhar a história, cultura e especialmente a gastronomia da região central da África, a comunidade congolesa, costumeiramente participa de festivais e eventos culturais diversos, oferecendo pratos típicos degustados em países africanos.

A culinária congolesa privilegia a utilização de produtos naturais sem aditivos químicos e complementos industrializados, todos os pratos são preparados de modo artesanal, mantendo viva a tradição das famílias congolesas que preparam todas as suas refeições em casa, sem o hábito de alimentar-se fora, como nas grandes metrópoles ao redor do mundo.

No cardápio que poderá ser degustado diariamente no Congolinária estão os tradicionais sambusas (típico salgado congolês), couve na mwamba, (refogado de couve servido com pasta de amendoim), pilao (típico arroz congolês servido com vegetais, gengibre e especiarias), pomme sautèe (batata temperada frita inteira), fufu (um tipo de polenta feita com farinha de mandioca fina e farinha de milho), choux (regofado de repolho temperado à moda congolesa), o docinho congolês de biomassa de banana da terra com amendoim, chips de banana da terra e o Tangawisi (suco de gengibre e abacaxi).

Culinária congolesa será atração em novo food park em São Paulo. Crédito: Divulgação
Culinária congolesa será atração em novo food park em São Paulo.
Crédito: Divulgação

Respeitando a base da dieta congolesa, que é vegetariana, o Congolinária não servirá nenhum produto de origem animal e também proporá algumas releituras com ingredientes não tão comuns no Congo mas facilmente encontrado no Brasil, como o nhoque de banana da terra com molho de shimeji.

Sabores do Festival

Além da inauguração do Congolinária, o Festival promovido no Quintal de Casa também terá restaurantes do Oriente Médio, México, Itália, França, entre outros trucks que estão no local. Haverá ainda apresentações musicais, exposições de arte, venda de roupas, artesanatos e peças de decoração típicas de diversos países. Para completar o evento, no primeiro dia de atividades do Festival será realizada uma roda de conversa sobre imigração e refúgio no Brasil e no mundo. Confira a programação abaixo:

Sábado – 06/08/2016

Feira de Artesanato – 12h às 22h
Feira gastronômica – 12h às 22h

Oficinas de Turbantes Africanos – 15h às 16h
Mulheres do Congo e do Senegal realizarão uma oficina cujo objetivo é valorizar o uso de turbantes em mulheres, homens e crianças, desmitificando qualquer preconceito que se tenha sob o uso desse acessório. A proposta é ensinar a fazer turbantes ornamentais que compõem o figurino de mulheres africanas de vários países.

Roda de Conversa sobre os desafios da imigração e refúgio no Brasil – 16h30 às 17h30 – Roda de conversa sobre imigração e refúgio no Brasil, discussão sobre os impactos sobre a imigração na pulverização e fortalecimento da cultura internacional na cidade de São Paulo.

Apresentações musicais

14h às 15h | YANNICK DELASS – República Democrática do Congo

18h às 19h|OS ESCOLHIDOS – República Democrática do Congo

19h às 20h |TEX BROW – BOLÍVIA

20h às 21h | LOODY BEAVUAIS- HAITI

21H às 22h | AURIEN JOEL – HAITI

Local: O QUINTAL DE CASA
Rua Dr. Renato Paes de Barros, 484, 04530000 São Paulo

Mais informações, nas páginas Congolinária e na página do Festival no Facebook

Seminário no Rio vai debater migração, geopolítica e sexualidade; veja programação

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Bandeira LGBTTI carregada durante manifestação em Moldova. Crédito: Joseph Smida/ACNUR

Crédito da foto: Joseph Smida/ACNUR

Entre os dias 5 e 6 de setembro a UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) vai receber um seminário dedicado a debater sobre migração e sexualidade, integrando diversas unidades acadêmicas da instituição, além de pesquisadores e profissionais externos à universidade que se debruçam sobre tais temáticas. Todas as atividades são gratuitas e acontecem no campus Maracanã, no auditório 91 (bloco F, 9º andar).

Intitulado de Jornadas “Subjetividades em batalha, territórios em guerra: geopolítica, sexualidade, migração e violência”, o evento é organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social/UERJ e pelo Lidis (Laboratório Integrado em Diversidade Sexual e de Gênero, Políticas e Direitos). Ele conta ainda com apoio do ACNUR, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, CLAM (Centro latinoamericano em sexualidade e direitos humanos), Geni (Grupo de estudos em gênero, sexualidade e(m) interseccionalidades), CAPES e LEGS (Laboratoire D’études de Genre et Sexualité).

As inscrições podem ser feitas no ato. Maiores informações podem ser obtidas pelo email subjetividadesembatalha@gmail.com

Veja abaixo a programação:
5 de setembro

Manhã
– 8:30 às 9:00 Mesa de abertura

– 9:00 às 9:30 Apresentação da exposição Vidas refugiadas
Gabriela Cunha Ferraz

– 9:30 às 12:30 – Movimentações sexuais transnacionais
Bruna Andrade Irineu (UFTO) – Homonacionalismo e cidadania LGBT nas tramas da participação social no Brasil
Anna Uziel (UERJ) – Nomadismos transnacionais na fixidez da parentalidade
Aureliano Lopes (UERJ) – Made in Brazil, made in Thailand: Movimentações e imaginários transacionais em dois concursos de beleza trans
Franklin Gil Hernández (Universidad Nacional de Colombia) – Sexualidades dissidentes e cidade. Políticas urbanas, promessas de modernidade e imaginários globais da ‘cultura gay’ em Bogotá D.C.
Mediadora: Jimena de Garay Hernandez (UERJ)

Tarde
14:00 às 16:00 – Perspectivas foucaultianas sobre sexualidade e subjetividade
Eric Fassin (Paris 8) – A verdade homossexual. Migrações e identidades
Patricia Porchat (Unesp-Bauru) – Política sexual e precariedade: Butler com Foucault
Maria Rita Cesar (UFPR) – Atualizações do dispositivo da sexualidade e as políticas da sexualidade no Brasil contemporâneo
Mediadora: Thayz Athayde (UERJ)

16:30 às 18:30 – Conflitos, refúgios e dor
Ângela Facundo (UFRN) – Pressupostos e expectativas na integração de refugiados reassentados colombianos no Brasil
Mirian Alves (UFF) – Refúgio e construções identitárias na esfera pública (Brasil e Canadá)
Natália Corazza Padovani (Pagu/Unicamp e Global Prisons Research Network) – É pior ser imigrante irregular que criminoso internacional!”: afetos nas tramas dos deslocamentos transacionais através das prisões.
Isadora Lins França (Unicamp) – “Refugiados LGBTI”: articulações entre direitos, categorias e reconhecimentos
Mediadora: Adriana Vianna (MN/UFRJ)

Noite
19:00 às 20:00 Conferência – “A retórica do conflito sexual das civilizações (2001-2016). Geopolítica e culturalismo”
Eric Fassin (Paris 8)
Mediador: Horacio Sivori (UERJ)

 

6 de setembro

Manhã
9:00 às 12:00 – Refugiados na batalha: sexo, trabalho e fronteiras
José Miguel Nieto Olivar (Unicamp) – Cafetinagem de fronteira: afetos, economias, parentesco e política na administração do comercio sexual na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia
Ana Paula Silva (UFF) – “Gringos sinistros X gringos “do bem”: mitos e representações sobre o turismo sexual e tráfico de pessoas.
Daniel Kerry dos Santos (UFSC) – Homens no mercado do sexo: fluxos, territórios e subjetivações
Laura Lowenkron (UERJ) – Gênero, violência e agência: (des)construção do tráfico de pessoas a partir do olhar policial no Brasil
Mediador: Felipe Fernandes (UFBA)

Tarde
14:00 às 16:00 – Fronteiras da saúde e dos direitos sexuais
Claudia Medeiros de Castro (USP) – Parto culturalmente adequado? Desafios na assistência ao parto de imigrantes bolivianas
Sérgio Carrara (UERJ) – Construções nacionalistas na geopolítica da saúde pública
Luciene da Silva Lacerda (UFRJ) – Mulheres negras: vulnerabilidades nas fronteiras da saúde
Mediadora: Jane Russo (UERJ)

16:30 às 18:30 – Guerras e fronteiras da legislação
Gabriel Gualano de Godoy (UERJ e ACNUR) – Guerra e corpo, guerra ao corpo: o trabalho com refugiados lgbt
Fabricio Souza (PUC e Cáritas) – Refugiados e fronteiras em deslocamento
José Díaz Lafuente (UJI) – Asilo por motivo de orientação sexual e identidade de gênero
+ Vídeos sobre migração e refúgio LGBT:
Mediadora: Silvia Aguião (CEBRAP e CLAM/LIDIS/UERJ)

 

 

Deslocados, desprivilegiados e descartáveis: a situação de migrantes e refugiados em Atenas

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Refugiados instalados no antigo Parque Olímpico de Atenas, Grécia. Crédito: Bruna Kadletz

Na primeira parte de uma série intitulada “Deslocados e Descartáveis”, a trabalhadora humanitária e pesquisadora social Bruna Kadletz argumenta que leis atuais e atitudes sociais desprivilegiam populações refugiadas ao ponto de desumanizá-las como produtos descartáveis.

Por Bruna Kadletz
de Atenas (Grécia)
Publicado originalmente no Refugees Deeply, em inglês (clique aqui)

Assim que eu entrei no campo de refugiados no Parque Olímpico na capital grega, Atenas, eu pensei por um momento que estava na África do Sul.

Minha mente me levou de volta para os prédios abandonados e favelas em Johanesburgo, onde refugiados e imigrantes moram em condições desumanas. Eu levei um tempo para lembrar que estava na Europa. Meus olhos não podiam acreditar no que testemunhavam.

O complexo, que consiste do antigo aeroporto de Atenas, Ellinikon, e do parque que recebeu as Olimpíadas de 2004, abriga em torno de 4 mil solicitantes de asilo e refugiados, sendo a maioria do Afeganistão.

Centenas de barracas armadas nas calcadas, sob um calor insuportável, onde crianças brincam e adultos conversam ou fumam um cigarro. Lençóis e cobertores pendurados servem como cercas, separando barracas, protegendo os residentes do sol ou de olhos curiosos. Dentro do aeroporto, incontáveis barracas ocupam cada metro quadrado do prédio. Respirar fica difícil, imagina se mover.

O abandonado complexo esportivo de Atenas virou a casa de refugiados. Crédito: Bruna Kadletz
O abandonado complexo esportivo de Atenas virou a casa de refugiados.
Crédito: Bruna Kadletz

Ironicamente, refugiados que tanto aspiram por se deslocar de forma segura agora se encontram presos no local que um dia serviu de decolagem para milhares de pessoas.

Apesar do cenário e contexto serem completamente diferentes, a impressão registrada em minha mente era a mesma. Refugiados, solicitantes de asilo e imigrantes, tanto em Johanesburgo ou Atenas, eram tratados como se suas vidas não importassem, como se eles pudessem ser descartados em um aterro de injustiça social e política.

Certamente, nós vivemos em tempos descartáveis. Montanhas de lixo acumulando nos arredores de Délhi, longas faixas de zonas mortas nos oceanos, perda alarmante de biodiversidade e o aumento de terras envenenadas pela indústria agropecuária – esses fenômenos acelerados simbolizam nossa abordagem descartável da vida.

Mas, estamos falhando em reconhecer que a resposta global para o deslocamento forçado também adota uma lógica similar para vidas humanas. Milhares de corpos humanos acumulados em campos de refugiados e fronteiras internacionais, enquanto que outros desaparecem no Mar Mediterrâneo. Até agora em 2016, mais de 3 mil pessoas desapareceram no oceano. Enquanto isso, o estabelecimento de restrições legais, que acarretam no aumento da exclusão social, ocasiona em futuros incertos para aqueles que buscam refúgio. Quando tais políticas públicas são implementadas, vidas são fragmentadas, o espírito humano é envenenado e comunidades inteiras são corroídas, deixando deslocados forçados sem uma gota de esperança.

O que nós podemos observar em tempos de deslocamento forçado extraordinário é que a lógica de vidas descartáveis não está mais restrita ao exército industrial de reserva, como era o caso na era da revolução industrial. O fenômeno de trabalhadores reserva foi identificado por Karl Marx, quando o pensador alemão articulou sobre a capacidade intrínseca do capitalismo em gerar populações reservas e, consequentemente, desperdiçar a vida de milhões de trabalhadores.

O intelectual e filósofo camaronês Achille Mbembe e o teórico cultural Henry Giroux, dos Estados Unidos, estenderam a teoria de Marx para incluir populações desprivilegiadas. Ao explorar a história de desumanização racial na África, Mbembe atribuiu a lógica das vidas descartáveis ao longo processo de desvalorização da vida humana, no qual determinados grupos raciais e populações vulneráveis são sistematicamente destituídos e expostos a violência e exclusão pois os mesmos tem suas vidas consideradas como descartáveis e com menos significado. As políticas públicas, como resultado, acabam exacerbando a condição daqueles que são considerados descartáveis.

Giroux, por outro lado, foca no contexto americano. Argumenta que modos contemporâneos de exercício de poder sobre populações implementam métodos brutais e punitivos, o que tem intensificado a produção de vidas descartáveis. A manifestação física desse exercício de poder pode ser vista na forma como determinadas minorias e imigrantes caem em zonas de exclusão e abandono, já que são considerados o excesso da sociedade.

Essa abordagem descartável para o problema do deslocamento forçado está desperdiçando o futuro de milhões de crianças, profissionais qualificados e artistas talentosos, parte dos quais se encontra em solo europeu. Tal abordagem é mais palpável nos assentamentos informais em Atenas, onde os arredores físicos nos informam visualmente sobre a política deliberada que produz populações desprivilegiadas e, consequentemente, descartáveis.
Por exemplo, nos assentamentos do Parque Olímpico, privacidade e espaço pessoal são impossíveis de serem alcançados. Como não há segurança no local, mulheres e crianças desacompanhadas tornam-se alvos para exploração sexual ou tráfico humano.

Lençóis são usados para tentar assegurar um mínimo de privacidade para os refugiados no Parque Olímpico de Atenas. Crédito: Bruna Kadletz
Lençóis são usados para tentar assegurar um mínimo de privacidade para os refugiados no Parque Olímpico de Atenas.
Crédito: Bruna Kadletz

O Parque Olímpico está sob a tutela do ACNUR (Alto Comissionado das Nações Unidas para os Refugiados) e a entrada só é permitida com passes de identificação. Os policias gregos, conhecidos pela sua atitude violenta e hostil, monitoram os portões de entrada, garantindo que ninguém tire fotos ou faça perguntas. Contudo, não é claro se alguma organização internacional está responsável pela área vizinha, o aeroporto onde barracas continuam a proliferar. Não existe nenhum sinal da presença do ACNUR, UNICEF, OXFAM, Médicos sem Fronteiras ou outras ONGs internacionais.

A única presença organizacional que pude notar foi uma empresa privada de distribuição de comida. O gerente da empresa alimentícia me contou que o governo grego contratou os serviços da empresa para provisão de três refeições ao dia para os refugiados que residem o campo. Os residentes enfrentam longas filas duas vezes ao dia, debaixo de um sol escaldante e com seus documentos de registro em mãos, para que possam coletar seus pacotes de comida pronta. O pacote coletado no jantar também inclui o café-da-manhã do dia seguinte.

A fortaleza europeia trata refugiados como não desejados. Com o aumento da restrição de movimento, refugiados são jogados fora ou em campos isolados em regiões remotas ou nas margens urbanas. As narrativas políticas ainda retratam refugiados como um peso econômico para o estado ou como ameaças para a sociedade. Como resultado, aqueles que fogem zonas de guerra estão fadados a ocupar zonas de invisibilidade, controle e confinamento. Por falta de recursos e vias legais, refugiados acabam sendo submetidos a exploração e opressão – tantos por sistemas políticos, traficantes empregadores e organizações radicais.

Refugiados instalados no antigo Parque Olímpico de Atenas, Grécia. Crédito: Bruna Kadletz
Refugiados instalados no antigo Parque Olímpico de Atenas, Grécia.
Crédito: Bruna Kadletz

Esta realidade deveria nos encorajar a questionar como, no continente que deu vida aos direitos humanos e afiançou proteção aos refugiados, pessoas ainda são desumanizadas e tratadas como o lixo da sociedade.

Durante o desenrolar desta série de artigos, vou buscar retratar a conhecida “crise dos refugiados” através da lógica das vidas descartáveis. Os textos refletem minha experiência e observações em diferentes contextos – de comunidades de migrantes e refugiados na Turquia, África do Sul e Brasil aos assentamentos informais montados na Grécia e França.

Assim como a viagem continua, eu espero conseguir encaminhar o do leitor ao longo da série para a intenção que motiva essa exploração – um chamado para uma abordagem baseada em uma consciência coletiva que reconheça a importância de reconhecer valor em todas as vidas humanas.

Essencialmente, nós precisamos encontrar humanidade no centro da crise mundial dos refugiados para que assim possamos amenizar a crescente violência no mundo, conflitos armados e deslocamento forçado. Conflitos desestabilizam comunidades e nações e, ainda que comunidades possam ser fragmentadas, há a necessidade de reconhecer a essência da interdependência e interconexão da nossa existência como humanidade.

Exploração sexual e trabalho forçado afetam 21 milhões de pessoas em todo o mundo

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Em 2013, ONU estabeleceu o dia 30 de julho como o Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas. Crédito: Reprodução/YouTube

Em 2013, ONU estabeleceu o dia 30 de julho como o Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas

Por Ricardo Rossetto

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, cerca de 21 milhões de pessoas em todo o mundo estão submetidas, nos dias de hoje, à exploração sexual ou trabalho forçado. Elas são vítimas de tráfico humano, violação muitas vezes difícil de ser identificada e que se prolifera diante da vulnerabilidade de imigrantes e refugiados. Seja porque essas as pessoas temam represálias de quem as contratou para o serviço, ou porque vários casos de abuso são realizados pelas próprias agências de recrutamento que têm caráter legal. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC, na sigla em inglês) estima que para cada caso conhecido existam outras 20 pessoas que têm seus direitos desrespeitados de forma silenciosa. Pelo menos a metade desses indivíduos são menores de idade, e a ampla maioria são mulheres.

Para conscientizar as pessoas sobre esses crimes humanitários, e incentivar os governos de cada país a promover políticas públicas que protejam os imigrantes, a ONU estabeleceu, em 2013, o dia 30 de julho como o Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas.

As histórias de exploração, dor e desespero das vítimas são inúmeras e estão presentes em 124 países, segundo a UNODC. E são quase sempre ocultadas ou dissimuladas perante a opinião pública. Há quinze dias a ONG Human Right Watch publicou um grande informe sobre empregadas domésticas que se encontram em condições trabalhistas abusivas em Omã, país ao sul da Península Arábica. O documento mostra como o sistema de contratação de mão de obra imigrante conhecido como kafala, presente em diversos países do Oriente Médio (e criticado como uma legislação que promove um tipo moderno de escravidão), expôs as domésticas a diversas violações de seus direitos por parte dos empregadores. Nesse sistema, os trabalhadores que conseguem fugir dos patrões que lhes exploram são punidos pelo governo e dificilmente conseguem algum tipo de indenização.

Em junho do ano passado o site Reveal, mantido pelo The Center for Investigative Reporting, denunciou os estupros que aconteciam durante a madrugada contra faxineiras imigrantes na região do Vale Central, na Califórnia, nos Estados Unidos. De acordo com a reportagem, as violações ocorriam dentro de escritórios vazios , e eram cometidas por supervisores que tinham a missão de visitar diferentes prédios na região para supervisionar o trabalho de limpeza. E traz um dado arrasador: aproximadamente 50 pessoas são agredidas ou violadas sexualmente todos os dias, e nos mais diferentes lugares, segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Além disso, a investigação mostra como as empresas que são acusadas de terem funcionários que perseguem e violentam seus subordinados ocultam as denúncias, ou até mesmo fazem acordos de confidencialidade com os tribunais que julgam os assédios – tornando quase impossível a publicização dos casos.

No Brasil, o primeiro banco de dados sobre tráfico de pessoas e exploração sexual e trabalho escravo surgiu em 2013, depois de um esforço realizado pela Secretaria Nacional de Justiça, em colaboração com a UNODC e o Centro Internacional para o Desenvolvimento de Políticas Migratórias. A pesquisa revelou que pelo menos 475 pessoas foram vítimas de tráfico humano em 11 estados de fronteira do país entre os anos de 2005 e 2011. As modalidade de exploração foram desde a escravidão doméstica de crianças e adolescentes, até a utilização de pessoas como mulas para levar substâncias ilegais através da fronteira.

Nós, do MigraMundo, endossamos a campanha pelo Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas. A escravidão, em qualquer de suas formas, não tem mais espaço nos dias de hoje. A violação da liberdade e da dignidade de qualquer ser humano é inaceitável. E também repudiamos aqueles que se utilizam do combate ao tráfico humano como pretexto para criminalizar os demais movimentos migratórios. Seguimos na luta em defesa dos direitos dos migrantes.

Especial Anônimas: Uma mulher sem casa não tem paz

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Mate* luta sobretudo pelo filho, Akin, que significa "menino corajoso". Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas

Esta é a segunda parte do Especial Anônimas, uma série de cinco perfis de mulheres refugiadas que vivem em São Paulo. Os textos foram feitos pela jornalista Lu Sudré, mais nova colaboradora do MigraMundo, para o livro “Anônimas”, publicado por ela como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo da PUC-SP, em 2015. As histórias e imagens foram cedidas com exclusividade para o MigraMundo.

A série traz histórias de mulheres refugiadas que lutam para reconstruir as próprias vidas longe da terra natal. Os nomes das personagens são fictícios, para preservar a identidade de cada uma delas, ao mesmo tempo em que é possível abrir um pouco a mais a mente sobre as migrações a partir de seus relatos, dramas e superações.

Mate: Uma mulher sem casa não tem paz

Por Lu Sudré (texto e fotos)

Existe um encantamento em relação à gravidez: A ansiedade da espera, preparar a casa, o quarto, o enxoval do bebê. Chega a ser um ritual coletivo. A família inteira, desde os pais ao tio-avô, quer saber como foi a última consulta, como será o parto, e, se possível, que dia a “encomenda” chegará. Estranhos comentam sobre a barriga da grávida e como ela está com um brilho que só acontece neste momento. E quando a cria chega, é flor, foto e carinho pra todo lado. Isto é o que geralmente ocorre quando uma mulher grávida dá a luz ao seu filho… Mas não foi assim que aconteceu com Mate.

Chegou da Nigéria com oito meses de gestação, o que a tornou mãe de um brasileirinho. Não sabia falar português e não sabia o que a esperava no Brasil. O que pode ser considerado um ato de loucura por muitos, foi um ato de sobrevivência para Mate e seu quarto filho que estava pra nascer, que aqui será chamado de Akin. O nome, na cultura nigeriana, significa “menino corajoso”. Suas outras três crianças, duas meninas e um menino, de 10, 8 e 5 anos, respectivamente, não vê há um ano e três meses.

A encontrei pela primeira vez no banheiro da Casa do Imigrante. Havia acabado de tomar banho, estava com um pente na mão, desembaraçando seus cabelos. Uma cena corriqueira e comum para todas as mulheres, mas o que chamava mais atenção em Mate não era ela e sim um lençol colorido, estampado, enrolado nas suas costas, onde carregava seu bebê. Foi meu primeiro contato com os olhinhos de jabuticaba de Akin.

Assim que começamos a conversar, um pouco receosa, Mate me pediu para esperar porque precisava trocar as fraldas de seu filho e depois me encontraria. Dito e feito. Depois de meia hora, a avistei na área de convivência dos imigrantes. Falando baixo e quase monossilábica no começo, me perguntou o que era o objeto que acabara de colocar em cima da mesa. Expliquei que era um gravador e perguntei se me permitia gravar sua voz. Disse que tudo bem, que não se importava, mas que gostaria de um como aquele para gravar às aulas de português.

Mate nasceu em Lagos, segunda maior cidade do país depois do Cairo, capital do Egito. Casou-se e mudou para Gana. Depois de alguns anos, decidiu voltar para a Nigéria, as condições do país vizinho não estavam muito diferentes. Foi aí que se mudou para Adamawa, um dos 36 estados que constituem a República Federal da Nigéria, localizado no nordeste do país. O país mais populoso do continente africano, com cerca de 174 milhões de habitantes, para ela, é amável. Terra rica em recursos naturais, com um povo bom, mas com “políticos que somem com tudo”. Sobre a necessidade de se tornar solicitante de refúgio, dizia que um “problema” fez com ela precisasse sair. Enquanto falava, a nigeriana olhava apreensiva para o celular, antes mesmo do relógio cantar os dez minutos de conversa, tivemos que interromper. “Desculpa, mas eu preciso ir embora. Eu não estou aqui agora. Minha mente está dividida em dois. Minha cabeça está lá fora, meu bebê não tem leite. Preciso arranjar dinheiro.”

Antes de sair, me passou seu número e agendamos outra conversa. Me prometeu que dessa vez duraria mais que dez minutos. Elogiei o pano amarrado em suas costas que servia de berço para Akin, que dormia profundamente. Aquele parecia o lugar mais confortável do mundo e Mate confirma que realmente é. “Carregar nos braços faz doer tudo, é muito pesado. Assim o bebe fica aquecido e é bem mais fácil, chama wrapa. Posso te ensinar da próxima vez que te encontrar, para você fazer com seus filhos”, disse dando risada. Ela não abre mão de sua cultura, apesar dos olhares curiosos das pessoas quando anda com seu filho na rua.

Mate* luta sobretudo pelo filho, Akin, que significa "menino corajoso". Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Mate* luta sobretudo pelo filho, Akin, que significa “menino corajoso”.
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas

Akin é um bebê de sorriso fácil, encanta todo mundo. Quando um desconhecido começa a interagir com seu filho, Mate parece ficar desconfiada e responde com um sorriso amarelo. Todos os dias ela enfrenta a cidade de São Paulo sozinha, a pé, com seu neném, procurando trabalho e ajuda, principalmente da Cáritas, que doa o leite em pó de Akin. Não sabe em quem pode confiar ou não, toma todas as precauções possíveis. Assim que chegou aqui, com as economias que guardava trabalhando no setor financeiro de um colégio privado em Adamawa, a Cáritas a encaminhou para a Amparo Maternidade, instituição filantrópica de assistência a gestante pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O centro de acolhida nasceu da concepção que nenhuma parturiente na cidade de São Paulo deveria ficar sem local adequado para dar à luz, disponibilizando moradia provisória para as mulheres. Foi lá que Mate passou seu primeiro mês. Foi lá também que conheceu uma das pessoas que ela julga estar entre as mais importantes da sua vida: A psicóloga Michele, que trabalha voluntariamente na Maternidade. Mate não sabe seu sobrenome, mas sabe que ela foi a primeira pessoa a ajudá-la. “Ela olhou pra mim, disse que era muita coisa pra uma mulher só e que se eu precisasse dela, era só entrar em contato. Me deu número de telefone, e-mail e até endereço. Ela é abençoada.”

Sem conseguir falar com seu marido pelo telefone, encontrou em Michele uma amiga. A visita, que acontecia pelo menos duas vezes por semana, era o momento mais esperado. Diz que Michele é como uma irmã mais velha, que aparece quando nós mais precisamos. “Ela tentou colocar um sorriso no meu rosto. Eu nunca vou esquecê-la na minha vida. Quando eu trabalhar e tiver dinheiro, vou comprar um presente pra ela.” No início, quando Mate não sabia falar nem um pouco de português, Michele traduzia e escrevia pra ela. A psicóloga era a única companhia e pessoa com quem a nigeriana conseguia se comunicar.

Seu filho nasceu dia 11 de outubro de 2014, na Rua dos Franceses, no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. E para ela, foi ele, Jesus, que fez com que tudo corresse bem. Foi assustador passar pelo parto sem sua família, principalmente sem falar a língua. Hoje seu português já dá conta do recado. Foi a algumas aulas, mas não conseguiu aprender a língua fluentemente porque não tinha ninguém para cuidar de seu filho. As limitações de ser uma mãe refugiada.

Mate, uma mulher simples, baixinha, com o cabelo curto e olhos negros como sua pele, diz não gostar de confusão e nem de pedir favor para ninguém. Seu tom de voz é baixo, calmo… só se altera quando seu filho, carregado pela wrapa, puxa seus cabelos sem ela esperar. Depois de um sonoro “Ai!”, traz Akin para sua frente e explica que ele faz isso para avisá-la que acordou, mas que bem que ele podia puxar o do pai um pouquinho também. Seu marido havia chegado há uma semana, também solicitante de refúgio e era o único motivo que a ajudava a manter a calma.

Quando nos reencontramos, lhe restava duas semanas para sair da Casa do Imigrante. Sem saber o que fazer, Mate relembrou-se de quando chegou ao Brasil: Também não tinha onde morar, aquela angústia era velha conhecida. Seu trajeto pela cidade seria diferente naquele dia: seu único objetivo era conseguir outro lugar para ficar. Assim que chegou em São Paulo, foi parar em um abrigo de moradores de rua. Ela aceitaria qualquer coisa, menos voltar para aquele local. “As pessoas se drogavam e estavam doentes, tossiam muito, fumavam, bebiam. Não é nem por mim, mas agora tenho meu bebê.”

A assistente social da Casa do Imigrante pediu para que ela procurasse o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População em Situação de Rua (CREAS), unidade da Barra Funda, para ver se eles disponibilizariam uma vaga para Mate e sua família. Me perguntou se eu a acompanharia e então poderíamos conversar pelo caminho. Fomos até o Terminal de ônibus Parque Dom Pedro II, próximo à Baixada do Glicério, e pegamos a linha 9300, que por sorte passava exatamente da Rua Norma Pieruccini Gianotti, nome que Mate balbuciava com dificuldade.

Durante o caminho, seu olhos queriam desvendar a cidade. A cada nova avenida do centro de São Paulo, uma pergunta. Queria saber o nome de todas as ruas e bairros pelos quais passávamos, e aproveitou para tirar as dúvidas sobre a cidade de pedra. “Onde fica Guarulhos?”, “Essa é a Avenida Rio Branco?”, “Aqui é a Sé?”. Quando entramos no ônibus, o cobrador a observou e sorriu para Akin. Quando demos sinal, Mate desceu pela porta da frente e não pagou passagem. “Dependendo do motorista, eles me deixam andar se pagar. Percebem que eu não sou daqui e que não tenho dinheiro. Mas uma vez tive que descer antes, porque não me deixaram passar. Mas se estou acompanhada de alguém que paga, eles deixam. Ainda bem que você está aqui hoje, porque não tenho nenhum dinheiro”.

Quando chegamos ao centro popular, nos deparamos com uma fila de moradores de rua em busca de uma refeição. O setor que atenderia Mate ainda não estava aberto. Tivemos que esperar por meia hora, mais trinta minutos de consternação para a nigeriana, que não conseguia pensar em nada além de sentir a aflição de não ter um teto para morar. Com os olhares dos homens que estavam no Creas, insistentemente invasivos para nos cumprimentar, preferimos esperar no banco de um colégio vizinho, onde crianças faziam uma roda e brincavam no páteo. Expliquei a situação para o segurança, que por conta de Akin, permitiu que entrássemos e aguardássemos.

O Boko Haram fez com que Mate* saísse da Nigéria. "Uma mulher sem casa não tem paz". Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
O Boko Haram fez com que Mate* saísse da Nigéria. “Uma mulher sem casa não tem paz”.
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas

Mate falava de como algumas ruas da Nigéria se parecia as de São Paulo, inclusive com a rua em que se localizava seu pequeno mercado, chamado “Treasure e Peculiar”, nome de suas meninas. Observou aquelas garotas brincando, com tênis rosa, uniforme e cabelos presos, lembrou de suas filhas, quando menores. “Treasure significa algo muito precioso. Peculiar é algo único, uma característica especial. Os nomes traduzem o que elas são”. Com muito cuidado, sem se expor, começou a contar qual o “problema” que a fez sair de seu país e a causa de sua saudade.

“Saí por causa do Boko Haram. Já ouviu falar deles? Eles são o problema da Nigéria. Único motivo que faz dela um lugar para não se viver”, contou, enquanto abria a fralda de Akin para checar se tudo estava certo. Não olhou diretamente para mim. Sua expressão mostrava desconforto, como se ao falar sobre isso, expusesse uma parte de sua vida que queria deixar escondida. Disse que era algo difícil de falar, difícil de lembrar e difícil de aceitar.

Não há como não conhecer as atrocidades do Boko Haram, grupo radical islâmico, fundamentalista religioso, que visa a implantação da lei islâmica, conhecida como Sharia. O nome, Boko Haram, significa “a educação não islâmica é pecado”, na língua Hausa, idioma do norte da Nigéria. O grupo surgiu em 2002, com seguidores que acreditam que a cultura ocidental reproduzida no país seria a principal razão de seus males. A partir dessa concepção, a erradicação dos valores ocidentais é o principal objetivo, além de fundarem a República Islâmica.

Com o passar dos anos, o grupo se militarizou e estabeleceu vínculos com a rede Al-Qaeda, organização fundamentalista islâmica internacional que disputa a geopolítica no Oriente Médio, responsável por inúmeros ataques terroristas. Em maio de 2014, o Comitê de Segurança da ONU adicionou o Boko Haram a lista de grupos considerados terroristas devido a sua relação com a Al-Qaeda, que inclui treinamento das milícias e suporte de armas. Ao me perguntar se eu conhecia o grupo, Mate deu a entender pelo seu tom de voz que os conhecia muito bem.

Cristã, não compartilha da mesma religião do grupo. E assim como muitas outras pessoas, não teve o direito de seguir sua religião. Mate resume algo muito complexo e distante para nós: “Ele são muçulmanos e querem que todos também sejam. Se você não pode fazer parte da religião deles, eles te matam. Exatamente assim.” Usando poucas palavras, Mate demonstra-se desconfortável a cada nova frase. A mulher que hoje não tem casa, também perdeu a que tinha na Nigéria. Foi incendiada pelo Boko Haram.

“Se você não concordar com o que pensam e eles estiverem no território, vão entrar na sua casa. E mesmo se você estiver dormindo, eles podem entrar antes mesmo que você perceba e queimam tudo”. Parou de falar e segurando uma das mãos de seu bebê, que agora estava quase adormecendo enquanto agarrava um de seus dedos, encarou as crianças que estavam brincando no páteo.

O Boko Haram atua principalmente no nordeste da Nigéria, onde controla a maior parte dos estados de Borno, Adamawa e Yobe. Viajar para outro estado da Nigéria exige muito dinheiro, coisa que Mate não tinha. Com pesar, a nigeriana relata que o grupo queima as casas sem se importar com as mulheres grávidas, e muitas perdem seus filhos ainda pequenos. Precisou vir para o Brasil para que seu filho tivesse a chance de nascer. “Eles sequestram, espancam as pessoas. Estupram as garotas. Se você sair, não é 100% de certeza que voltará vivo.”

Ela não disfarça o medo e o receio em falar sobre o Boko Haram. Acredita que eles são mais fortes do que o governo, e inclusive, já ouviu por aí que o próprio governo financia o grupo mas não tem certeza de nada. Não quer se comprometer. Com educação, Mate não conta nada específico. Agitada, busca encerrar a conversa a qualquer custo. “Eles estupram garotas pequenas. Eu não quero falar sobre o Boko Haram porque é complicado, faz com que eu me sinta mal e me faz lembrar de coisas que eu não quero lembrar. Vamos mudar de assunto, por favor”

Respeitando a vontade de Mate, o silêncio que veio a seguir conseguiu dizer mais do que quaisquer palavras. Naquele momento, não quis contar o que havia acontecido com ela e sua família detalhadamente, mas, saber que teve que deixar seu país, grávida e sozinha, é o suficiente para saber que passou por graves violações físicas, morais e psicológicas. Na tentativa de me explicar a gravidade da situação, Mate me perguntou: “Você já teve um problema como este?”. Dessa vez, quem se calou fui eu.

O grupo terrorista utiliza métodos radicais, incluindo a realização de atentados e sequestros com a finalidade de conquistar territórios. As mulheres e crianças são o principal alvo do grupo, pois a utilizam para barganhar e as negociam como escravas sexuais. Uma das ações mais notórias do Boko Haram ocorreu em abril de 2014, quando o grupo sequestrou cerca de 276 mulheres entre 16 e 18 anos em Chibok, no estado de Borno. Em novembro de 2015, o grupo destruiu cerca de 16 povoados no nordeste da Nigéria, deixando milhares de mortos e feridos. O país vive uma guerra entre os radicais e o exército nigeriano. O atual presidente, Muhammadu Buhari, diz que fará de tudo para combater as ações do grupo.

Segundo relatório da Anistia Internacional, no período de um ano (abril de 2014 – abril de 2015) o Boko Haram sequestrou pelo menos duas mil mulheres e meninas, matou cerca de cinco mil civis em 300 invasões e ataques durante seu avanço no nordeste da Nigéria, além de obrigar mais de um milhão de pessoas a se deslocarem. O relatório ouviu cerca de 200 testemunhas (incluindo 28 mulheres que foram sequestradas pelo grupo e escaparam), assim como autoridades do governo local, militares e outros.

As ações do grupo terrorista são consideradas crimes contra a humanidade. De acordo com a organização, o Boko Haram comete assassinatos, ataques a civis, atentados, incêndios e assaltos todos os dias, e seus membros deveriam ser investigados por crimes de guerra como tortura, estupro, violência sexual, escravidão sexual, casamentos forçados e recrutamento de soldados crianças. Os atentados ocorrem principalmente em escolas, igrejas e edifícios públicos. “Se você não acredita no que eu falo, procure na Internet. São atrocidades sem medida”. Os trinta minutos de espera haviam terminado e fomos conversar com a assistente social do Creas.

Mate disse “Oi” e entregou um documento da Casa do Imigrante, que explicava sua situação. As informações não eram suficientes, mas a assistente social não sabia falar inglês. Mate, claro, não sabia falar português o suficiente para entendê-la. O fluxo de pessoas passando e de telefones tocando pareciam deixar Mate confusa. Nenhum trabalhador do Creas estava preparado para auxiliar uma refugiada, nem entendiam o porquê dela ter sido encaminhada para lá. Mate me pediu para explicar a situação e ser sua intérprete. Não havia vaga para que ela pudesse ficar com seu filho e seu marido.

Nunca esquecerei seu rosto quando lhe disse que eles não poderiam ajudá-la, mas que pegariam o contato para caso conseguissem algum lugar. Ela disse obrigado e saímos do prédio. O desabafo e as lágrimas, ainda que tímidas, vieram de uma vez só. “Ontem eu estava chorando muito por causa da casa. Eu preciso de um lugar para morar, mas eu não consigo trabalhar por causa do bebê. O que eu vou fazer? Me pergunto todo dia: será que vou dormir na rua? Uma mulher sem casa, não tem paz.”

A nigeriana sente falta de sua antiga casa. A casa era imensa, alugada, com três dormitórios e com muito espaço para seus filhos brincarem. Enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus para voltarmos a Baixada do Glicério, Mate dizia o quanto era sufocante não ter um lugar para dormir e não ter dinheiro para comprar nada, sendo que na Nigéria tinha tudo, principalmente seus filhos.

“Não quero lembrar disso agora, porque não tem solução. Dá última vez que falei com meu filho pelo telefone, ele disse que eu tinha o abandonado. Perguntou se eu não ia voltar.” Parece se arrepender de ter começado o assunto e diz que precisa ter uma mente livre para resolver os problemas daqui. “Quando você ama alguém assim, é difícil falar sobre.”

Meses depois a encontrei novamente, na sede da Cáritas. Esperava para pegar remédio para Akin, que havia sido internado com o diagnóstico de pneumonia mas já estava melhor. Estavam no abrigo do Sefras, também temporário, e ainda em busca de uma casa. Me contou que conversaria em breve com o advogado do abrigo, para tentar trazer seus filhos para o Brasil. Estava mais confiante do que da última vez, seu marido estava procurando emprego na área de assistente administrativo.

Sentada nas cadeiras de plástico na área coletiva da Cáritas, Mate opina que o governo brasileiro não precisa dar dinheiro para os refugiados, apenas um lugar para morar e oportunidade de trabalho. Com isso, eles conseguem todo resto. “Eu não posso nem pensar em futuro. Meu plano agora é conseguir uma casa e um trabalho, nada além disso. Não há tempo para pensar que eu posso aquilo e não posso aquilo. Minha cabeça e meu coração estão cheios”.

Continuamos a conversar, e, como ela mesmo declarou, já me considerava amiga da família. Com Akin no colo, ri e diz: “Esse menino está fazendo caca de novo?! As fraldas estão acabando!”. Depois de pegar o remédio, usou a wrapa para carregar seu bebê. Pelo centro de São Paulo, com seu filho em suas costas, a nigeriana caminha lentamente. Um destino incerto a espera, mas ela não pode fazer nada além de caminhar.

Debate lembra instabilidade e o drama de 20 anos de conflito armado no Congo

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Evento busca chamar a atenção sobre a situação do Congo, pouco divulgada no noticiário internacional. Crédito: Divulgação

Evento foi parte das celebrações pelos 56 anos de independência do Congo e tenta chamar a atenção para o que acontece no país atualmente

Por Gláucia Quenia e Christ Kamanda
Foto: Divulgação

A sala Galeria Olido no centro da cidade de São Paulo, no último dia 30 de junho, recebeu a grande conferência “O conflito armado da RD Congo no espaço geopolítico do mundo: imperialismo capitalista e guerra econômica”. A Infos-Migrant BR foi organizadora desse evento.

As atividades foram marcadas por palestras de especialistas na Geografia, História Política e pesquisador de Geopolítica para explicar aos participantes todo o contexto que envolve essa guerra que toma conta do leste congolês há duas décadas. Os minérios encontrados no Congo são extraídos em prol de grandes marcas mundiais de forma desumana em razão dessa riqueza natural cobiçada pelos países vizinhos na região do leste.

A data foi escolhida propositadamente para marcar dois momentos importantes para o Congo: a conquista da independência da Bélgica, ocorrida exatamente em 30 de junho de 1960; e com a finalidade de sensibilizar a comunidade internacional para denunciar a barbárie e exploração que acontecem no Congo há 20 anos e a mídia internacional ignora.

As palestras foram organizadas com assuntos sequenciais. Foram convidados para compor esse processo de conscientização o professor Luis Antônio Bittar Venturi, do Departamento de Geografia da FFLCH – USP; Pitchou Luambo, advogado congolês e mestrando em Relações Internacionais pela FESPSP e Christ Kamanda, jornalista congolês e pesquisador em geopolítica.

Evento teve objetivo de sensibilizar sobre a situação vivida pelo Congo. Crédito: Divulgação
Evento foi parte das celebrações pelos 56 anos de independência do Congo, segundo maior país da África em extensão.
Crédito: Divulgação

Com o tema “O Congo e seus recursos naturais”, o professor Luis Venturi explicou de forma minuciosa sobre a diversidade no país: localização, área e países fronteiriços; aspectos físicos e os recursos naturais; aspectos sociais: cidades, população e economia; o paradoxo congolês (com uma população em crescimento, cerca 77 milhões de habitantes e mais de 250 etnias). O Congo é o segundo maior país africano, é um dos mais ricos do mundo em recursos naturais e segundo país de maior biodiversidade do mundo.

O professor ainda apresentou as riquezas que possui a República Democrática do Congo. Além de importantes reservas de cobre, ouro, ferro, urânio e zinco. O Congo é maior produtor mundial de coltan – mistura de dois minerais (columbita-tantalita), que formam um tipo de liga natural de alta resistência térmica, eletromagnética e corrosiva, o que o torna fundamental para a indústria eletroeletrônica, em alta demanda no mundo atual. A RDC posse mais de 80% de reservas mundiais do “Coltan”. Toda a região do país e da zona de conflito mostra o quanto o Congo tem de riqueza natural e por que desperta o interesse daqueles que exploram esses recursos da maneira mais agressiva.

Em seguida, a fala do congolês Pitchou Luambo trouxe o tema “História política e conflito armado”. Ele retratou toda a história para que o país conquistasse sua independência até o conflito que toma conta do leste há 20 anos. Segundo Pitchou, a violência e exploração de Leopoldo II, rei da Bélgica, no Congo começaram quando ele tomou posse do país na Conferência de Berlim (1885). A borracha e o marfim eram as principais fontes de enriquecimento do rei. Porém, todo o trabalho era feito com mão de obra escrava. Dos seus atos desumanos, a mutilação era uma das punições que aplicava.

Na época, esses crimes cometidos pelo rei belga chamou a atenção da opinião mundial acarretando numa denúncia que fez a Bélgica se sentir pressionada. Por motivos políticos, desde a tomada de posse por Leopoldo II, o país teve como nome: Estado Livre do Congo (1885), Congo Belga (1908) e, até a conquista da independência, República Democrática do Congo-Kinshasa em 1960. Entre os nomes que lutaram pela independência está Patrice Lumumba, considerado um herói nacional. Entre 1971 até 1997, o ditador nacionalista Mobutu Sese Seko trocou o nome do país para Zaire.

A Guerra do Congo iniciou em 1996. O objetivo era derrubar Mobutu Sese Seko, que foi apoiado pelos EUA na Guerra Fria. Ela tem ligação com o genocídio em Ruanda, em 1994, quando os hutus massacraram 800 mil tutsis. A desestabilização no Leste do Ex-Zaire (RDC) aconteceu após o genocídio de Ruanda, quando Mobutu abriu um corredor humanitário e os perpetradores do genocídio fugiram para o Congo; os tutsis estavam planejando vingança. Em seguida, as tropas do presidente de Ruanda, Paul Kagame, entraram no Congo, derrubaram Mobutu e colocaram no poder Laurent Kabila e se dedicaram à aniquilação de seus assassinos em 2001.

Para finalizar as palestras, o também congolês Christ Kamanda levou o tema “Geopolítica, imperialismo capitalista e guerra econômica”. O jornalista analisou os papéis dos atores da guerra e a influência dos fatores geoestratégicos, além de dados estatísticos. Como, as “matérias primas” são indispensáveis para a sobrevivência das potências econômicas mundiais. São objetos de cobiça das potências, que são totalmente dependentes porque algumas delas não possuem em seus territórios essas riquezas. Na lista dessas potências estão os países europeus, o Japão e os EUA.

Essa é uma guerra geoestratégica da exploração dos recursos naturais pelas grandes potências ocidentais por meio das empresas multinacionais que alimentam o conflito, afirmou Christ. O relatório da ONG Anistia Internacional sugere que a Apple contribui para a guerra com a compra de coltan no Congo, – ao mesmo tempo, o comércio ilegal desses minerais financia as milícias. Eles são contrabandeados para países vizinhos. Mesmo o governo da República Democrática do Congo faz parte da cúpula responsável pela continuidade dos crimes cometidos no país. Segundo o relatório das Nações Unidas, os responsáveis militares e civis do Congo também estão envolvidos no comércio ilegal das armas.

São quase vinte anos de guerra, com a participação de milícias e grupos rebeldes de países vizinhos do Leste da República Democrática do Congo. É a maior e mais sangrenta guerra desde a Segunda Guerra Mundial. As mídias ocidentais enganam-se sobre o número dos mortos nesse conflito. Christ Kamanda afirma que são cerca de 20 milhões de mortos e desaparecidos desde 1996. Os crimes cometidos por guerrilheiros são estupros, trabalho infantil e mortes extremamente trágicas. Apesar de ser a maior e mais cara missão desde a criação da ONU, infelizmente, após 16 anos que ela está no Congo, a Monusco (missão da ONU no Congo) não consiga acabar com a guerra; e o número de mortos acrescenta todos os dias.

No final das palestras, os participantes deram seus pontos de vista sobre a guerra no Congo e reafirmaram a necessidade de trabalhar para sensibilizar a opinião mundial e denunciar as atrocidades contra os congoleses que vivem naquela região.

Outras ações são programadas para mobilizar a comunidade internacional e entender sobre o drama escondido da guerra do Congo.