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sábado, junho 27, 2026
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Mobilidade humana: entre fronteiras e muros

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Na Marcha dos Imigrantes 2015, grupo levou cerca que simbolizou as fronteiras a serem superadas pelo mundo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - nov.2015)

Por Carmem Lussi
Do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios

Na era da globalização se chegou a acreditar num mundo sem fronteiras, enquanto produtos e capitais financeiros já não as percebem e as pessoas as atravessam mais do que nunca. Turismo, viagens de trabalho, circulação de mercadorias, desenvolvimento. Os deslocamentos de pessoas chamaram a atenção para as fronteiras quando a linha geopolítica entre os Estados já se transformava em uma área discutível e discutida, que em várias regiões do mundo cedia o passo à prioritária circulação de bens e recursos, sobretudo financeiros, enquanto em outras se erguia como barreira e como sinal de divisão e de relações internacionais sem atenção pelo ser humano.

A antiga linha de demarcação fronteiriça hoje se tinge de nuances para dar lugar à emergência dos espaços fronteiriços, onde vidas e mortes migrantes buscam o centro, que a margem tutela, sem capacidade para proteger as multidões que pedem passagem. As fronteiras, como eram entendidas tradicionalmente, hoje se escondem sob muros ou são escondidas por pessoas e eventos que ocupam os postos de passagem transformados em campos e zonas de risco, dependendo dos sujeitos que as observam e da posição física e política em que se encontram. Assim, a linha geopolítica, que marcava uma descontinuidade entre Estados-nação, se transforma progressivamente em lugar perigoso e posto seletivo de controle e de bloqueio, criando ao seu redor diferentes configurações de espaços fronteiriços. Se, por um lado, algumas regiões do mundo abrem áreas fronteiriças e diminuem a tensão em postos de controle, por escolhas políticas, como se registra entre Colômbia e Venezuela e entre Moçambique e África do Sul, na maioria das regiões fronteiriças onde se registram apelos até urgentes de travessia migrante – às portas da Europa, dos Estados Unidos e de países vizinhos onde a política de extensão de fronteiras já se faz presente, por exemplo, a tendência que vem se confirmando é a de impedir a passagem de pessoas e grupos humanos indesejados em base a critérios muitas vezes não declarados e, sempre, pouco claros frente aos valores que regem os Estados e as culturas.

A tendência a “desfronteirizar” através do fechamento seletivo das áreas de fronteira (conforme aponta a entrevista de Tito Carlos Machado de Oliveira em um dos artigos desta Resenha[1]) só faz multiplicar os conflitos fronteiriços que ameaçam as populações que vivem ou se encontram nas fronteiras, especialmente migrantes e vítimas de deslocamentos forçados. Estes são atingidos diversamente sobre como as nações e seus policymakers se deixam afligir pelo fenômeno, pois para a grande mídia e para a retórica política é suficiente tratar o tema como se fosse uma emergência contingente e passageira, para a qual bastariam decisões estratégicas e fortes para estancar fluxos humanos. Como Chris Gilligan[2], acreditamos que falta uma abordagem dos deslocamentos populacionais focada nos ser humano, pois a mesma fronteira que se fortalece como barreira entre povos, é, de fato, um constante ponto de contato, de transculturalidade e de inter-relações entre os dois lados. E onde os muros ideológicos ou físicos dividem sem unir, o espaço fronteiriço é laboratório de violações de direitos, de ameaças à vida e de omissão do poder e dos serviços dos Estados. Ainda, à distância, as fronteiras se tornam causa e estímulo para exploração, aumento de processos causadores de vulnerabilidade e até de crimes, porque ninguém ainda inventou um modo de parar a mobilidade humana. Quando uma porta se fecha, outras portas e janelas são escancaradas ou forçadas a ficarem, ao menos, entreabertas.

O “fechamento de fronteiras entre países, muitas vezes materializado pela construção de muros”, segundo Marco Weissheimer[3], serve também para demarcar territórios entre os 20% da população mundial de dentro dos muros, onde está 75% da riqueza mundial, e os de fora dos muros, que têm 20% da riqueza mundial e são 80% da população. O controle fronteiriço, então, não tem foco nos que querem entrar, mas nos que tem medo e discriminações a sustentar, tendo por sua vez o direito à mobilidade assegurado, pois um lado fechado não impede que o outro lado seja aberto no sentido inverso e o fechamento para seres humanos não significa barreira para mercadorias legais e ilegais, inclusive contrabando e tráfico de seres humanos, especialmente de crianças e adolescentes desacompanhados. O controle, por vezes legítimo e de direito, vem sendo praticado também como ato público seletivo de xenofobia e de discriminação de sujeitos com traços somáticos indesejados.

A mesma fronteira que é ambiente extremamente dinâmico e criativo, “espaço de liberdade e criação, repleto de riqueza e diversidade” (Adriana Dorfman[4]), pode ser em um breve período de tempo, limite geopolítico insuperável para determinadas populações em situação de risco e de vulnerabilidade, porque às portas das fortalezas os seres humanos valem mais ou menos pelo que trazem ou pedem, pelo que oferecem ou podem demandar para salvar suas vidas ou para viver com dignidade. A securitização nos discursos e nas políticas sobre migrações e refúgio desumaniza a visão do fenômeno e a gestão das demandas e dos desafios fronteiriços.

A vida e a agency das populações que se aproximam das fronteiras sem terem sido convidadas se tornam dados estatísticos. Números não interpelam consciências; são suficientes muros para deter corpos frágeis, como bem nota Saskia Sassen. Todavia, “as fronteiras são formadas por muito mais instituições e se encontram em muitos mais lugares do que estamos acostumados a pensar” (Saskia Sassen[5]).

A diversidade, a quantidade, a gravidade das necessidades e a força desconhecida dos sujeitos que empurram junto às fronteiras esbarradas escondem o segredo da complexidade desses fenômenos e a possibilidade que esses sujeitos têm de escrever páginas impensáveis na história dos povos em mobilidade.

[1] WEISSHEIMER, Marco. (2015) “Vivemos um processo de fechamento seletivo de fronteiras no mundo”, dizem pesquisadores

[2] GILLIGAN, Chris. (2016) Is it utopian to argue for open borders?

[3] WEISSHEIMER, Marco. (2015) “Vivemos um processo de fechamento seletivo de fronteiras no mundo”, dizem pesquisadores

[4] WEISSHEIMER, Marco. (2015) “Vivemos um processo de fechamento seletivo de fronteiras no mundo”, dizem pesquisadores

[5] SASSEN, Saskia. (2016) ¿Quién tiene el poder de crear fronteras?

*Editorial da edição 104 da Resenha Migrações na Atualidade, publicada pelo CSEM – Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios. Material reproduzido no MigraMundo como parte da parceria do portal com o CSEM

Festival Pangeia vai levar cultura de migrantes da América do Sul para a periferia de São Paulo

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Festival Cultural Pangeia vai acontecer em outubro e reunir artistas brasileiros e imigrantes de toda a América do Sul. Crédito: Divulgação

Por Rodrigo Borges Delfim

O bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, vai virar uma síntese cultural da América do Sul. Entre os dias 18 e 30 de outubro acontece na região a primeira edição do Festival Cultural Pangeia, que contará com atividades de grupos culturais e artistas brasileiros e imigrantes de países sul-americanos que vivem na capital paulista.

As atividades acontecem no Centro Cultural Grajaú, localizado no Parque América – veja mais no serviço ao final do texto. O projeto, que conta com apoio do Programa VAI, foi idealizado pela produtora cultural Pauliana Reis, moradora do Grajaú, depois de experiências pessoais que teve pela América do Sul. Também fazem parte do Pangeia mais três pessoas: as brasileiras Renata Rodrigues, Thamara Lage, Priscila Magalhães e a boliviana Monica Rodriguez, que também integra a ONG Presença de América Latina, parceira cultural do projeto.

O nome Pangeia é uma referência à primeira formação do Planeta Terra, onde não havia divisão dos continentes como conhecemos hoje. É também uma forma de pregar a superação de fronteiras, de barreiras que desagregam.

Em entrevista ao MigraMundo, Pauliana fala um pouco mais sobre a iniciativa e de como ele vem se desenvolvendo. A programação está disponível na página do Pangeia no Facebook.

MigraMundo: De onde surgiu a ideia do festival e por que o nome Pangeia para a ação?
Pauliana Reis: Estudei espanhol por um bom tempo, isso já faz muito tempo, mas ficou na minha memória, me instigou a pesquisar e querer conhecer mais dos países da América Latina, principalmente aqueles que tinham como língua principal o espanhol. Assim, quando consegui juntar dinheiro e me preparar, fiz uma viagem para a Argentina e Chile onde fiquei ainda mais encantada com a cultura desses países, e me fez querer pesquisar mais. Observando e tendo contato com imigrantes desses países aqui no Brasil, senti vontade de externar isso e falar um pouco mais sobre as influências de vários países aqui na nossa cultura.

Assim surgiu a primeira ideia de fazer um evento cultural com essa temática. No coletivo os integrantes também partilhavam da mesma vontade. Inicialmente não tínhamos imigrantes no coletivo, agora com a idealização do projeto temos na produção e na equipe a querida Mônica Rodriguez, ela é boliviana e atua como articuladora de várias ações culturais aqui no Brasil. Isso foi imprescindível para dar vida as ideias iniciais do projeto e promover o evento que tanto queríamos fazer, o Festival Cultural Pangeia.

O nome Pangeia se refere a primeira formação da terra, onde não havia essa divisão dos continentes como conhecemos hoje. A proposta de reunir as culturas dos povos de diferentes nações está ligada a essa ideia de junção, assim, pensando na cultura do nosso pais, o Brasil, podemos perceber que somos essa junção, essa mistura de culturas, essa composição que vem de varias nações. Assim, idealizando um lugar onde essa junção pode acontecer, principalmente culturalmente, pensamos em propor a realização desse festival.

 

Quem são as pessoas envolvidas na organização do festival?
No coletivo temos os integrantes: Pauliana Reis – Diretora do Festival; Mônica Rodriguez – Produtora Geral; Thamara Lage – Produtora e Curadora da exposição; Renata Rodrigues – Produtora; e Priscila Magalhães – Assessoria de Imprensa e Produtora. Para os dias de festival teremos um apoio de uma equipe de mais 8 produtores que irão atuar na linha de frente da produção e auxiliando em todas as ações práticas do festival.

 

Vocês têm uma estimativa do público esperado para o festival?
Não temos uma estimativa precisa para o festival, mas posso arriscar dizer que pretendemos atingir um publico de no minimo 2 mil pessoas transitando nos dias de festival.

 

Vocês têm algum projeto ou iniciativa que serviu de inspiração?
Temos varias inspirações e com certeza deve haver alguma ligação que nos direcionou nas tomadas de decisões para realização do Festival Cultural Pangeia.

 

Vocês já desenvolveram algum projeto anterior relacionado com migrantes? Se sim, como foi?
Ainda não desenvolvemos projetos relacionados a imigrantes, alias, esse é o primeiro projeto do nosso jovem coletivo.

 

O Festival Pangeia conta com recursos do Programa VAI, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, que é procurado por muitos coletivos culturais com poucos recursos. Como foi esse processo em relação ao Pangeia? Vocês contam com outras fontes de recursos para organizar o evento?
Somos exatamente um desses coletivos, temos poucos recursos. Contamos somente com patrocínio do VAI. Como apoio cultural contamos com o PAL – Presença da América Latina que tem dado muito suporte relacionado a organização, contatos, informações que auxiliam muito para a realização do festival.

 

Por que o recorte pela cultura e pelos imigrantes da América do Sul?
Projetos culturais com certeza são os projetos que gostamos e sempre que podemos estamos auxiliando e promovendo. A ideia de focar nessa edição na América do Sul surgiu a partir de alguns anseios e ideias (VIDE: resposta da primeira pergunta). Um recorte importante é levar a cultura tradicional desses países, inclusive a cultura popular brasileira para a periferia, para o Grajaú, pois não temos acesso a festas, festivais e eventos com esse recorte em nossa região.

 

Já há algumas atrações culturais confirmadas no Pangeia, como os conjuntos folclóricos QuinchamaLi e Alma Guarani, entre outros artistas. Como tem sido o contato com eles e a reação em relação à proposta do festival?
Tem sido incrível! Visitamos e pudemos conhecer de perto quase todas as atrações que fará parte da nossa programação. Os grupos citados, QuincamaLi e Alma Guarani, foram em especial muito atenciosos e com certeza será de grande importância a participação deles no nosso festival. Além de assistir diversas apresentações em festas e eventos voltados para a mesma temática, tivemos apoio de muitas pessoas queridas que nos auxiliaram nessa curadoria.

 

As atividades vão acontecer no bairro do Grajaú, aqui em São Paulo. Já há algum tipo de divulgação na região? Como tem sido o retorno da comunidade local sobre o projeto?
O Grajaú é o lugar onde a maioria dos integrantes do coletivo vivem. Temos amigos, raízes, histórias nesse local, já fizemos uma boa divulgação e ainda continuamos fazendo, principalmente em parceria com o local que vai nos receber que é o Centro Cultural Grajaú, bem localizado, em um lugar que é ponto de encontro no Grajaú. A comunidade tem sido muito acolhedora, estamos em casa, então fica mais fácil desenvolver qualquer tipo de divulgação por aqui.

 

Que tipo de legado o Festival Pangeia pretende deixar para o público que acompanhar o evento?Pretendemos deixar informações, troca de experiências, vivências dentro desse universo, da troca com brasileiros e imigrantes, deixando cada vez mais claro que somos todos parte de uma mesma cultura, miscigenada, composta por pessoas de diversas nacionalidades, fazendo esse nosso Brasil ser ainda mais lindo! Pretendemos deixar a mensagem primordial que direciona a ideia do projeto, que é o respeito, devemos nos unir assim como sugere o nome Pangeia, ser um só e deixar as diferenças de lado.

 

Depois da edição sul-americana, vocês cogitam organizar novas edições?
Sim, essa edição, como se tratava de um primeiro momento optamos por focar somente na América do Sul, mas a proposta é realizar edições focadas nos continentes.
Festival Cultural Pangeia – América do Sul
Data: de 18 a 31 de outubro – início no dia 18, a partir das 18h
Local: Centro Cultural Grajaú – Rua Professor Oscar Barreto Filho, 252 – Grajaú, São Paulo (SP)
Entrada: grátis
Informações e programação: página no Facebook e festivalpangeia@gmail.com

Nova exposição do Museu da Imigração dá voz aos migrantes e reforça que migrar é direito humano

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Seja em poemas, fotos, vídeos ou depoimentos, nova mostra do Museu da Imigração reitera que migrar é direito humano. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Por Rodrigo Borges Delfim

A migração é um direito humano, e independente da origem, os migrantes possuem direitos. É essa mensagem, assim clara e direta, que está presente na exposição Direitos Migrantes: Nenhum a Menos, aberta no último sábado (24) no Museu da Imigração, em São Paulo.

A mostra é resultado de dois projetos de História Oral desenvolvidos pelo Museu da Imigração: “Conselheiros extraordinários imigrantes nos Conselhos Participativos municipais” e “Mulheres em Movimento: migração e mobilização feminina no Estado de São Paulo”. Ela parte, sobretudo, do entendimento de que a migração é um direito humano, independente do país de origem ou do destino da pessoa que migra – uma posição que ganha ainda mais importância em meio a um contexto local e global no qual predominam a construção de muros e a disseminação do ódio e da discriminação em relação aos migrantes.

A exposição mescla depoimentos, fotos e produções artísticas de migrantes contemporâneos, destacando assim as vozes, experiências, dificuldades, contribuições e reivindicações de cada um deles.

Mostra Direitos Migrantes: Nenhum a Menos fica aberta no Museu até 18 de dezembro. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Mostra Direitos Migrantes: Nenhum a Menos fica aberta no Museu até 18 de dezembro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Cidadania em movimento

Um elemento bastante presente na exposição é a fronteira – tanto física como imaterial, nos seus aspectos legais e práticos e no campo simbólico. Ao mesmo tempo, a mostra destaca mobilizações diversas promovidas pelos migrantes na luta para superar essas fronteiras e pelo reconhecimento deles como cidadãos de direitos. Entre eles estão gravações e fotos da Marcha dos Imigrantes, do último Fórum Social Mundial de Migrações (FSMM) e do coletivo Visto Permanente.

Dessa forma, migrantes que não estão exatamente ligados àqueles que passaram pela antiga Hospedaria do Brás conseguem encontrar uma forma de se sentirem representados no Museu. “É um espaço em que eu não me sentia muito representada, mas agradeço por esse trabalho de trazer visibilidade para esta migração da qual faço parte e de poder ocupar o espaço do Museu, mostrar os pontos em comum entre as migrações”, afirmou a chilena Andrea Carabantes Soto, uma das integrantes da Equipe de Base Warmis.

Seja em poemas, fotos, vídeos ou depoimentos, nova mostra do Museu da Imigração reitera que migrar é direito humano. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Seja em poemas, fotos, vídeos ou depoimentos, nova mostra do Museu da Imigração reitera que migrar é direito humano.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

“É papel do museu e é importante que o Museu seja usado também como espaço de discussão de direitos, entender e reafirmar quantas vezes for necessário que migrar é um direito humano, e que os direitos humanos também são eles direitos migrantes, que nos acompanham para onde quer que vamos, uma cidadania que está em movimento”. mostra Tatiana Waldman, curadora da mostra e integrante da equipe do Museu da Imigração.

Para o alemão Werner Reghental, conselheiro imigrante na região do Butantã e um dos entrevistados pela mostra, ficou muito feliz com o resultado. “Foi muito bem feita. Misturou depoimentos dos imigrantes com dados, poesias e fotos. Foi muito impactante”,

Outro retratado na mostra é o malinês Adama Konate, conselheiro na região da Mooca e que também emprestou um de seus poemas ao acervo da exposição. “Precisamos também deixar nossa história aqui”, resumiu.

A educadora brasileira Wendy Villalobos também elogiou a exposição, especialmente em um contexto no qual os muros e a discriminação têm ganhado maior destaque. “É uma exposição muito ousada, todos estão de parabéns”.
A mostra vai até 18 de dezembro, quando é celebrado o Dia Internacional do Imigrante. O acesso a ela é gratuito e o público também é convidado a interagir com a instalação.
Público é convidado a interagir com a exposição e deixar sua mensagem de apoio. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Público é convidado a interagir com a exposição e deixar sua mensagem de apoio.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Migrantes ajudam a repovoar e a desenvolver cidades na Europa

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"Onde vão as nuvens", questiona mural na cidade de Riace, no sul da Itália. Cada nuvem tem o nome de um país. Crédito: Reprodução/www.riaceinfestival.it

Por Eleonora Silanus

Desde o inicio de 2016, cerca de 300 mil pessoas atravessaram o Mar Mediterrâneo para alcançar as costas europeias, de acordo com dados da Organização Internacional das Migrações atualizados em 21 de setembro. A carência do sistema de requerimento de asilo europeu, o fechamento das fronteiras e as péssimas condições dos refugiados e dos migrantes são somente algumas das questões que mostram a incapacidade da Europa em oferecer uma resposta eficaz a essas milhares de pessoas.

É por este motivo que é tão importante falar de pequenas realidades que mostram no dia a dia o que pode ser feito para tornar a sociedade mais inclusiva, e de como podemos transformar uma “crise” em uma oportunidade. Uma das possibilidades para oferecer respostas efetivas está sendo desenvolvida em pequenas e corajosas cidades europeias, onde os migrantes estão repovoando e garantindo a vida de áreas que, de outra forma, estariam destinadas a desaparecer do mapa.

Para melhor entender este fenômeno, é preciso considerar alguns dados: na Europa existem 11 milhões da casas que nunca foram habitadas por ninguém (The Guardian, Londres, 2014). Além disso, existem diversas cidades quase abandonadas, com um limitado número de habitantes. A localização desprivilegiada, junto ao crescimento econômico dos grandes centros, esvaziaram gradualmente vários municípios. Apenas na Itália, as chamadas “Cidades Fantasmas” estão em torno de 6.000; na Espanha, são cerca de 4.500.

Repovoar estes locais significa reconstruir a vida social das pequenas cidades, fortalecer a economia por meio da construção e reforma de edifícios públicos e privados e, no longo prazo, fazer renascer as economias agrícolas e artesanais. Além de contribuir com a construção de uma sociedade multicultural e mais justa, uma cidade viva é uma cidade que oferece possibilidades para todos, novos e antigos habitantes.

O caso italiano e outras realidades europeias

O italiano Domenico Lucano, junto com Angela Merkel e Papa Francisco, foi indicado como um dos 50 líderes mais influentes do mundo neste ano pela revista Fortune. Lucano é o prefeito de Riace, cidade italiana que fica na região da Calábria e que nos últimos anos passou de 400 para 2.000 residentes. Considerado um prefeito “illuminado”, Lucano acolheu em Riace cerca de 6.000 migrantes de 20 nacionalidades diferentes desde o final dos anos 90, através de um programa de integração sustentável que revitalizou a economia e a vida social com benefícios não somente para quem chegava mas também para quem já morava na cidade.

Domenico Lucano com os migrantes em Riace, Itália. Crédito: Reprodução/Adnkronos
Domenico Lucano com os migrantes em Riace, Itália.
Crédito: Reprodução/Adnkronos

O acolhimento em Riace iniciou sem planejamento: “Tudo começou por acaso, quando em 1998 chegaram 800 curdos. A comunidade local, em nome de antigos valores, acolheu sem medo os migrantes. Em 2001 iniciou uma recepção organizada, com o programa nacional de asilo e a participação da Prefeitura”, disse Lucano. Nos últimos anos o prefeito recusou gerenciar as migrações com políticas de emergência: a escolha por políticas de desenvolvimento foi colocada em prática por meio de moradias (casas, não centros de acolhida),  participação dos migrantes em cursos de especialização e o inserimento no mercado de trabalho.

Perguntado se o modelo de Riace pode ser “exportado”, o prefeito responde: “A humanidade é sempre exportável. Mas precisa de gradualidade e não podemos nos inserir na lógica da sociedade moderna, que vive com ansiedade e medo do outro”.

Lucano está certo: a humanidade pode ser exportada e é possível encontrar outras histórias parecidas com a de Riace. Michele Drosi, prefeito de Satriano, outra cidade da Calábria que está entre os mais de 300 municípios italiano ativos no Sistema de Proteção de Requerentes Asilo e Refugiados (SPRAR), acredita que é necessária uma ajuda recíproca. “Tentamos oferecer para eles uma outra casa aqui, e eles nos ajudam em manter esta casa viva”. Além do exemplo italiano, a cidade de Sumte, na Alemanha, passou de 120 para 1.000 habitantes.

Estes programas são baseados na vontade comum de construir uma sociedade de novos cidadãos, unidos não pela origem mas pelos ideais. Nos casos citados a maioria da população recebeu os migrantes com solidariedade. Muitos idosos do sul da Itália, por exemplo, viveram como migrantes na juventude quando fugiram da Segunda Guerra Mundial e da pobreza. “Quem melhor do que a gente, que deixou a casa como jovens trabalhadores por causa da miséria, pode entender a dor destas pessoas que fogem das guerras e das perseguições?”, explica Carmine Battaglia, presidente da Associação dos idosos de Satriano.

Desafios para o futuro

As cidades europeias que colocaram em pratica o modelo de Riace são poucas. A sociedade civil e a politica não apoiaram abertamente este modelo de integração. Neste momento a atenção da mídia e dos governantes está focada na alimentação do medo e não no apoio à esperança. Por exemplo, na Itália, a maior parte da verba disponibilizada pelo Sistema de Proteção de Requerentes Asilo e Refugiados não está sendo usada pelas Prefeituras por causa dos poucos pedidos das mesmas. Das 4.000 cidade que poderiam pedir o financiamento para o SPRAR, apenas 300 o fizeram. É evidente que os prefeitos não querem se expor às criticas de uma sociedade cada vez mais fechada em si mesma e com medo do futuro.

"Onde vão as nuvens", questiona mural na cidade de Riace, no sul da Itália. Cada nuvem tem o nome de um país. Crédito: Reprodução/www.riaceinfestival.it
“Onde vão as nuvens”, questiona mural na cidade de Riace, no sul da Itália. Cada nuvem tem o nome de um país.
Crédito: Reprodução/www.riaceinfestival.it

Além disso, um dos maiores desafios no âmbito dos projetos já ativos é aquele de garantir aos migrantes as oportunidades de trabalho no longo prazo. O apoio do sistema italiano SPRAR tem duração de um ano, sendo de tipo financeiro (35 euros diários recebidos pela prefeitura por cada migrante acolhido) e de inserção no mercado de trabalho por meio de estágios. Depois deste período são as empresas que escolhem se garantem um contrato efetivo. Vários migrantes entrevistados manifestaram a vontade de permanecer nas pequenas cidades, mas o primeiro objetivo é aquele de achar um trabalho estável e seguro. Por isso, quando possível, muitos desses migrantes abrem lojas artesanais e escolhem ser trabalhadores autônomos.

O modelo de integração de Riace é realidade em poucas cidades nas quais o relacionamento entre população local e migrante é uma troca entre iguais e não entre quem ajuda e quem recebe. Os migrantes expressam a vontade de serem independentes e reconhecidos como seres humanos, com sonhos e objetivos. As limitações temporárias na liberdade de escolher onde morar, onde trabalhar e onde ver os próprios filhos crescerem devem ser amenizadas pela eficiência de uma sociedade capaz de acolher e criar as condições nas quais estes direitos voltem a serem efetivos.

Alimentamos cada vez mais o medo pelo “outro”, focamos nas diferenças entre “nós” e “eles” sem querer ver as soluções. Considerar as possibilidades é mais difícil e, para fazê-lo, precisamos de coragem e competência. Apesar destes obstáculos, existem pessoas que enfrentam as dificuldades e trabalham para alcançar soluções sem alimentar conflitos inúteis. A migração, quando bem gerenciada, é uma oportunidade para melhorar a sociedade, mas quando o gerenciamento dos fluxos migratórios é baseado no alarmismo e desrespeito dos direitos humanos, os resultados afetam negativamente a população inteira.

Precisamos repensar a integração como um novo modo de ser cidadãos, combinando os desejos e as necessidades de cada um. A solução é aceitar a migração como fenômeno humano e garantir a inclusão de todos. Desta forma, se satisfaz também os interesses da população acolhedora: uma sociedade justa é, necessariamente, mais rica e mais segura. Somente eliminando os conflitos sociais e cessando o desrespeito às pessoas, podemos ser parte de uma humanidade pronta para enfrentar os desafios do futuro, sobreviver a eles e ser cada dia melhor.

 

Fim de semana em São Paulo tem nova exposição do Museu da Imigração, lançamento de livro e workshop culinário

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Nenhum direito a menos, nenhum ser humano é ilegal. Essa mensagem está presente em todo e qualquer evento que dê visibilidade para o migrante, direta ou indiretamente. Crédito: Tatiana Waldman

Este final de semana em São Paulo (24 e 25 de setembro) está repleto de atividades para quem acompanha eventos sobre migrações e refúgio. Tem nova exposição, lançamento de livro e workshop culinário.

Vamos às atividades e prepare sua agenda:

24/09, às 11h – Abertura da Exposição Direitos Migrantes: Nenhum a Menos

A mais nova exposição do Museu da Imigração de São Paulo aborda um tema extremamente sensível para o imigrante: a luta pelos próprios direitos – que muitas vezes o próprio imigrante sequer conhece. Direitos esses que, em verdade, independem de nacionalidade ou origem.

É dessa percepção que parte a mostra: da migração como um direito humano e que a nacionalidade, ou a ausência de documentos, não podem servir de impedimento para o exercício de direitos fundamentais que garantam uma existência digna no país de destino.

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A proposta é estimular a reflexão sobre a situação de pessoas que migram ou solicitam refúgio no Brasil, retratando a sua mobilização para o exercício e a garantia de direitos e suas conquistas de espaços. No material exposto estão trabalhos de imigrantes que já desenvolveram essa percepção cidadã e, de uma forma ou de outra, também buscam levá-la a outros imigrantes.

A exposição fica na Sala Hospedaria em Movimento (no andar térreo do Museu) até 18 de dezembro – data em que é celebrado, aliás, o Dia Internacional do Imigrante.

Exposição Direitos Migrantes: Nenhum a Menos
Local: Museu da Imigração, Rua Visconde de Parnaíba, nº 1316 – Mooca –São Paulo
Sala Hospedaria em Movimento
Datas: de 24 de setembro a 18 de dezembro de 2016
Horário: Terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos das 10h às 17h.
Entrada: grátis
Informações: (11) 2692-1866 ou www.museudaimigracao.org.br
Facebook: https://www.facebook.com/events/535069740022754/

25/09, às 16h – lançamento do livro Histórias que se Cruzam

No domingo, a partir das 16h, o coletivo Si, Yo Puedo vai lançar o livro Histórias que se Cruzam. A obra é resultado de um projeto de história oral, com o objetivo de resgatar histórias e memórias dos imigrantes, organizado por Luana de Freitas Garcia. O projeto é financiado com recursos do Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo,

Capa do livro Histórias que se Cruzam. Crédito: Divulgação
Capa do livro Histórias que se Cruzam.
Crédito: Divulgação

O evento acontece na Praça Kantuta, próximo à estação Armênia do metrô e ponto tradicional de encontros e atividades de imigrantes que vivem em São Paulo – em especial de países latino-americanos. Além do lançamento e distribuição do livro, vão acontecer apresentações artísticas e rodas de leitura da obra.

O Si, Yo Puedo é formado por um grupo de voluntários de várias nacionalidades que, desde 2012, atuam em um espaço dentro da Praça Kantuta. Lá promovem ações de acolhimento, orientação profissional e apoio na busca do trabalho formal de imigrante a fim de democratizar a informação e promover a real integração dos trabalhadores imigrantes na cidade de São Paulo.

Lançamento do livro “Histórias que se cruzam”, de Luana de Freitas Garcia
Local: Praça Kantuta, S/n – Canindé, São Paulo – próximo à estação Armênia do metrô
Quando: domingo, 25/09, das 16h às 18h.
Entrada: grátis
Informações: evento no Facebook

25/09, às 11h – Workshop Sabores e Lembranças

Também no dia 25, um pouco mais cedo (das 11h às 14h), acontece um workshop de comida síria ministrado pelo refugiado sírio Talal Al-Tinawi, que ensinará três pratos típicos (uma entrada, um prato principal e uma sobremesa) do país natal.

O evento, organizado pelo Instituto Adus, acontece na Rua Groenlândia, 1478, no bairro de Pinheiros. A Chef Bel Coelho, madrinha do projeto, também estará presente no workshop. São apenas 30 vagas disponíveis e cada convite custa R$ 150 – ou seja, melhor correr para garantir o seu ingresso!

Os ingressos podem ser adquirido através do site do Adus: www.adus.org.br/ingressos

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Discurso de Temer sobre migrações traz “pedaladas” e uma distância abissal em relação à realidade do migrantes no Brasil

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(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Por Equipe MigraMundo

Os discursos do presidente do Brasil abriram os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, nos dias 19 e 20 de setembro, como de costume na história da organização. Nas palavras de Michel Temer, o atual chefe de Estado, aparece um Brasil benevolente, que “acolheu 95 mil refugiados de 75 nacionalidades” nos últimos anos, e que convida as nações a facilitar a inclusão e a não criminalizar a migração.

Mas o discurso – que será analisado apenas em relação às falas relacionadas às migrações, para se ater ao foco deste site – não resiste sequer a uma olhada de relance nos dados reais e na situação jurídica, social e política dos migrantes no Brasil – sejam eles refugiados ou não.

Para começar, os tais “95 mil refugiados” incluem os menos de 9 mil refugiados reconhecidos de fato pelo governo brasileiro – dados do Comitê Nacional para Refugiados, o Conare – com os cerca de 85 mil haitianos que entraram no país desde o terremoto de 2010 que arrasou a nação caribenha. Uma verdadeira “pedalada” com números oficiais sobre a mobilidade humana no Brasil.

As palavras “non sense” de Temer são reforçadas pelo atual ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que afirmou “ser discriminatório excluir os haitianos da possibilidade de serem tratados como refugiados” “só porque são da América Latina. Ou seja, utiliza-se de um estereótipo, de um preconceito para, teoricamente, combater outro…

O país que nas palavras de Temer é acolhedor com migrantes e refugiados, em verdade trata a migração como caso de polícia. Afinal, quem regula as migrações no Brasil é o famigerado Estatuto do Estrangeiro, que vê o migrante como uma potencial ameaça à segurança nacional. E tem na Polícia Federal a grande executora e beneficiária de um sistema no qual o migrante é repleto de deveres e tem sua cidadania cerceada. Um sistema tão nefasto que, em sua maioria, vai contra a Constituição vigente no Brasil – ou seja, as migrações no Brasil são regidas por um código inconstitucional.

Essa situação esquizofrênica cria diversos limbos para os migrantes, em suas diversas formas. Limbos esses que muitas vezes são tratados com medidas paliativas. E uma delas é o chamado visto humanitário, concedido principalmente para os haitianos que vieram ao Brasil a partir de 2010. Visto esse que tem validade de cinco anos – ou seja, após esse período, o portador do visto fica novamente em situação indocumentada.

Ora, um país que se propõe defensor da inclusão e da não criminalização não pode ter uma política migratória baseada apenas em vistos provisórios, em “jeitinhos” e paliativos. No entanto, é preciso reconhecer que o visto humanitário, sim, cumpriu um papel importante na regularização – ainda que precária – dos haitianos que chegaram ao Brasil. Mas o período de concessão do visto humanitário para os haitianos termina em outubro deste ano, e uma não renovação dessa medida representa um retrocesso em relação esse grupo.

Existe atualmente toda uma discussão no âmbito global sobre os chamados refugiados ambientais, que são deslocamentos gerados por conta de mudanças abruptas do clima ou desastres naturais de grandes proporções, como elevação do nível dos mares que ameaça engolir países inteiros, tsunamis, desertificação e, inclusive, terremotos como o que devastou o Haiti em 2010. Ainda não existe um consenso sobre como lidar com os deslocamentos gerados por fatores ambientais, que tampouco aparecem entre os critérios que definem se uma pessoa é refugiada ou não. Ainda que determinado conceito não tenha sido incorporado à Convenção que define o que é um refugiado, a proteção e a garantia de direitos a pessoas mais vulneráveis transcendem qualquer pressuposto jurídico.

Vale lembrar que tramita atualmente na Câmara dos Deputados a Lei 2516/2015, que revoga o Estatuto do Estrangeiro e cria a nova Lei de Migração, esta com o paradigma de ver a migração sob o ponto de vista dos direitos humanos. No entanto, os debates se arrastam no Legislativo e a combinação de lobbies de quem não quer perder poderes com uma mudança na lei e divergências dentro da própria sociedade civil engajada na temática migratória emperram as discussões e uma futura adoção da nova lei. E assim se perpetua uma luta que remonta ao início da década de 1990, quando começaram as discussões para mudança do Estatuto do Estrangeiro.

Exemplos do quão distante da realidade está o discurso de Temer na ONU não faltam. Mesmo assim, é notável a força de milhares de brasileiros e migrantes que, mesmo apresentando divergências, conseguem desenvolver projetos e até mesmo pautar o poder público local em certos casos. Eles chamam a atenção para um fato que é ignorado por grande parte da sociedade, mas que é cada vez mais latente: o de que os migrantes, independente da nacionalidade ou status migratório, são cidadãos e parte da sociedade – e merecem ser tratados como tal.

 

Projeto mobiliza e promove formação para que migrantes busquem seus próprios direitos

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Imigrantes de diversos países estão entre os participantes do projeto. Crédito: Divulgação

Já conhece o projeto Todo Migrante Tem Direito à Informação? No texto abaixo, a coordenadora da iniciativa, a advogada Karina Quintanilha, explica um pouco sobre como ele funciona e os resultados já alcançados

Por Karina Quintanilha*

O projeto Todo Migrante Tem Direito à Informação, apoiado pelo edital público Agente de Governo Aberto da Prefeitura de São Paulo, surgiu da vontade de fortalecer espaços em que os migrantes possam se expressar livremente, construindo a partir de suas demandas e necessidades um espaço em que podem ter informações de como garantir seus direitos e se organizar.

O projeto consiste em um curso de formação e ações de mobilização em torno dos problemas enfrentados pelos migrantes na hora de saber seus direitos e obter informações públicas. Desde julho de 2016, cerca de 100 migrantes de diversas nacionalidades do mundo e interessados na temática residentes em São Paulo participaram da formação sobre a Lei de Acesso à Informação e direitos humanos.

A maioria dos participantes são de países da África, como Angola, República Democrática do Congo, Nigéria, Moçambique, dentre outros. Também tiveram até o momento muitos participantes do Haiti e de países da América do Sul.

O projeto consiste em um curso de formação e ações de mobilização em torno dos problemas enfrentados pelos migrantes na hora de saber seus direitos e obter informações públicas. Crédito: Divulgação
O projeto consiste em um curso de formação e ações de mobilização em torno dos problemas enfrentados pelos migrantes na hora de saber seus direitos e obter informações públicas.
Crédito: Divulgação

As oficinas tem acontecido com apoio da SP Aberta em diferentes lugares da cidade com públicos diversos. Em parceria com a Coordenação de Políticas para Imigrantes (CPMig) foi realizado um ciclo de oficinas no auditório da Secretaria Municipal de Direitos Humanos com os conselheiros imigrantes eleitos nas subprefeituras de São Paulo. No Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante (CRAI), conveniado pela Prefeitura com a ONG Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade), participaram os migrantes moradores do Centro de Acolhida que fica no mesmo local. Na Biblioteca Mário de Andrade e na Universidade Zumbi dos Palmares participaram migrantes estudantes e trabalhadores de diferentes áreas.

O objetivo do projeto não é apenas falar sobre a Lei de Acesso à Informação e discutir direitos humanos, mas também proporcionar um espaço de acolhida que possibilite uma escuta das demandas dos migrantes na cidade e amplie a sensibilização do poder público para a necessidade de compartilhar informações de utilidade para os migrantes em formato acessível.

Muitos migrantes enfrentam a dificuldade de compreender o idioma português, sofrem com racismo e com a falta de estrutura de políticas públicas, principalmente na hora de ir em busca de trabalho e regularizar a documentação.

Assim, o projeto incentiva o uso da Lei de Acesso à Informação por meio de algumas dinâmicas em que os participantes entram em contato com exemplos internacionais em que o acesso a alguma informação pública foi um instrumento para fazer valer os direitos humanos ou conquistar políticas públicas.

Demandas dos migrantes e mapeamento colaborativo da cidade de São Paulo

Durante os encontros, formam-se grupos de trabalho em que os migrantes discutem o que querem saber do governo brasileiro, seja da prefeitura, governo do estado ou governo federal, seguindo o guia com o passo-a-passo de como fazer um pedido de informação. Essas oficinas também contam com convidados/as especiais: entre eles, já participaram Hasan Zarif, do movimento pela palestina livre Mopat e que toca o bar de refugiados Al Janiah, e Fabio Ando Filho e Camila Luchini, membros do CRAI/Sefras.

Foram enviados até o momento 10 pedidos de informação a diferentes órgãos públicos elaborados pelos próprios participantes durante as oficinas (veja todos os pedidos feitos durante o projeto). A partir dos relatos dos participantes, percebe-se de uma forma geral que para os migrantes residentes em São Paulo faltam informações sobre:

– como regularizar a situação no país, informações sobre o motivo da demora e

arbitrariedades na obtenção do RNE;

– onde encontrar oportunidades de trabalho;

– como conseguir vagas em hospitais públicos e creches;

– como obter gratuidade em serviços, por exemplo visto e certidões;

– como e onde regularizar diplomas;

– locais com oferta de curso de português e cursos técnicos.

Segundo os participantes, a situação dos migrantes fica dificultada pela falta de articulação entre o governo municipal, estadual e federal, o que tem gerado graves violações a direitos. Em um dos encontros foi relatado por uma assistente social que existem coiotes no Aeroporto de Guarulhos que cobram ao menos US$ 100 apenas para fornecer a informação e endereço dos centros de acolhida e de atendimento ao imigrante que chega em condições precárias em São Paulo.

Para facilitar a troca de informações entre os participantes e debate sobre a cidade, um dos encontros é dedicado para o mapeamento colaborativo da cidade de SP a partir do olhar do migrante. Começamos com a pergunta: qual lugar da cidade você indicaria para o migrante que está chegando agora em SP?

Imigrantes montam mapa colaborativo sobre a cidade de São Paulo. Crédito: Divulgação
Imigrantes montam mapa colaborativo sobre a cidade de São Paulo, a partir do olhar deles próprios.
Crédito: Divulgação

Veja aqui como foi a atividade de cartografia com a última turma do curso.

Em breve, toda a riqueza de informações sobre lugares de interesse e acolhimento de migrantes em São Paulo que estão sendo levantadas por todas as turmas do curso Todo Migrante Tem Direito à Informação estarão disponíveis também em um mapa virtual para facilitar a consulta, compartilhamento e continuar sendo alimentado de forma colaborativa.

Blog Somos Migrantes

Criado em julho desse ano para dar voz às demandas que surgem durante os encontros de formação, o Blog Somos Migrantes é uma forma de compartilhar informações e ideias de interesse entre os migrantes.

Até o momento já conta com quase 1000 visualizações e já foi acessado de diferentes países como Argélia, França, Argentina, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido.

Dessa forma, o projeto busca dar visibilidade às questões trazidas pelos próprios migrantes e, ao mesmo tempo, demonstrar aos gestores públicos como a falta de informação contribui para a exposição dessa população à violações de direitos humanos. Ainda é comum, por exemplo, ouvir histórias de migrantes que não sabem que, mesmo sem documentação, tem direito à escola ou hospital.

Durante os encontros, muitos migrantes trazem em seu semblante a dor da guerra, da miséria, censura e perseguição política em sua terra natal, não raramente similares ao que ocorre em zonas periféricas das cidades brasileiras. Mas também contam histórias de seu povo, compartilham sua cultura e lembranças saudosas da família que ficou, tratando a seus próximos como irmãos e expressando uma força e solidariedade impressionantes.

Ainda estão programadas pelo menos mais 2 turmas do projeto Todo Migrante Tem Direito à Informação até outubro, e se tudo der certo vai continuar!

Confira como foram os encontros de formação até agora pelo link https://somosmigrantessite.wordpress.com/

Blog Somos Migrantes agora no Facebook: https://www.facebook.com/blogsomosmigrantes/

*Karina Quintanilha é advogada formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Coordenou projetos nas áreas de acesso à informação e liberdade de expressão na Artigo 19. É membro do GAIR (Grupo de Apoio Interdisciplinar a Imigrantes e Refugiados da Faculdade de Direito da USP) e responsável pelo projeto Todo Migrante Tem Direito à Informação, aprovado pelo edital da SP Aberta. É ainda membro da Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos Advogados de SP.

E-mail kaqferreira@gmail.com

Seminário mostra educação como promotora da diversidade e conscientização sobre migrações

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Seminário no Museu da Imigração debateu educação e migrações. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

A educação pode ser repressora, mas também pode emancipar, conscientizar, promover o respeito e valorizar as diferenças. É essa perspectiva de transformação que foi debatida e defendida durante o Seminário Internacional Educação e Migração: Caminhos para uma Cidade Educadora, que aconteceu no último dia 14 em São Paulo.

Promovido pela Associação Cidade Escola Aprendiz, o evento lotou o auditório do Museu da Imigração, na zona leste da cidade, e reuniu estudiosos, ativistas, pessoas que trabalham com educação e também migrantes, ainda que em menor número. Pouco mais de cem pessoas participaram das discussões.

Os trabalhos foram abertos com a conferência do mexicano José Manuel Valenzuela Arce, professor e doutor do Departamento de Estudos Culturais do Colégio da Fronteira Norte, no México. Ele falou da fronteira além das barreiras físicas, mas como um conceito político e de classificação social, e da necessidade de superar e ir além dessas barreiras.

“Temos de construir novas estratégias de inclusão, de civilização. Que tipo de horizonte civilizatório e humanitário queremos construir?”, questionou Valenzuela, a partir do cenário de retrocessos em relação aos direitos humanos e de respeito ao outro que se desenha mundo afora. “A diversidade cultural nos enriquece, nos faz mais fortes”, completou.

O caso do projeto Trilhas da Cidadania

Logo em seguida, no evento ocorreu o lançamento do volume III da Coleção Territórios Educativos: Trilhas da Cidadania, Educação e Refúgio na Cidade, que sintetizou a experiência do Aprendiz com o projeto Trilhas da Cidadania, que funcionou entre 2012 e 2015 com o ensino de português para refugiados e solicitantes de refúgio. O Trilhas aproveitava a cidade e seu cotidiano como elemento e cenário para fomentar o ensino do português, combinando essas experiências com as atividades em sala de aula.

“Eles [os refugiados] mostraram não só a capacidade de se comunicar em português como deu voz, comunicou diferentes culturas, também pautando a cidade”, lembrou Agda Sardenberg, coordenadora executiva de programas do Aprendiz, sobre barreiras notadas dento da cidade pelos refugiados e que geravam reflexão dentro dos próprios espaços públicos.

Experiência do Trilhas da Cidadania foi sistematizada em livro. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Experiência do Trilhas da Cidadania foi sistematizada em livro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Embora o projeto fosse considerado um sucesso, ele foi descontinuado em 2015. Questionada sobre esse término, Agda explicou que isso era necessário para dar maior escala à experiência do Trilhas e fomentar a expansão e adoção da metodologia por outros projetos e instituições. “A ideia foi de sistematizar, fazer a diferença. Temos pensado em multiplicadores a partir deste material, ganhar escala”.

O congolês Hidras Tuala, aluno do Trilhas em 2012, contou um pouco da experiência com o projeto e de como ele impactou na sua vida no Brasil. “ No tempo que me dediquei ao curso eu apendi muito. Depois dele, consegui aprimorar meu português e consegui um trabalho”, lembrou ele, que atualmente trabalha orientando outros imigrantes no CAT (Centro de Atendimento ao Trabalhador).

Para referenciar futuros cidadãos, valorizar o bilinguismo

Na parte da tarde, os debates seguintes trouxeram outros exemplos práticos sobre o desafio de tratar das migrações no campo da educação, e de como escolas, centros culturais e iniciativas dos próprios migrantes, dos governos e de instituições do terceiro setor podem quebrar estereótipos e fomentar essa diversidade e respeito ao outro dentro da cidade.

“As comunidades migrantes já fazem parte e já contribuem com São Paulo. Querendo ou não, a cidadania migrante existe e transforma a cidade”, enfatiza a arte-educadora Cristina de Branco, nascida em Lisboa, a partir do Visto Permanente, projeto do qual ela faz parte e que debate as migrações e promove a diversidade cultural por meio do audiovisual.

A professora Sueli Ramos, diretora da EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil) João Theodoro, contou um pouco do cotidiano que vive no local, que conta com 265 crianças matriculadas, sendo 79 delas imigrantes – entre bolivianas, sírias, peruanas, entre outras nacionalidades. “Queremos referenciar esses futuros cidadãos”, sintetizou a professora, sobre aproveitar essa característica da escola – e que pode ser notada em outras unidades de ensino – para promover o respeito à diferença e combater o bullying ao qual as crianças imigrantes estão sujeitas.

Evento reuniu estudiosos, educadores, migrantes, entre outros interessados no tema. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Evento reuniu estudiosos, educadores, migrantes, entre outros interessados no tema.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

A jornalista Giovanna Modé, que atua na Campanha Latino-americana pelo Direito à Educação, lembrou que a educação é um direito humano e que a aproximação entre educação e migração ainda é pouco abordada, mas que deve ser buscada, apesar das dificuldades. “São negociações tensas no cotidiano, mas não podemos perder de vista que esse encontro é possível.”

Tatiana Waldman, do Museu da Imigração, lembrou  que essa tensão existe também entre as migrações do passado e do presente, mas reforçou que o museu deve promover esses diálogo. “O papel do museu é contrapor e desconstruir os estereótipos que, em grande parte, desvalorizam os processos migratórios, e colocar em evidência a cultura e experiência dos imigrantes, além de mostrar um olhar mais crítico sobre o fenômeno migratório”.

Para mudar a nós mesmos

O contexto atual, marcado por retrocessos no campo social tanto no Brasil como no exterior, foi um dos fios condutores da última mesa de debates do dia, na qual projetos de educação idealizados e tocados por imigrantes foram destacados.

“Vivemos numa encruzilhada e temos de atentos para lutar contra esses retrocessos”, resumiu Guilherme Otero, coordenador-adjunto de políticas para imigrantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, que fez ainda um resgate das políticas públicas adotadas para imigrantes na capital paulista nos últimos anos, como a criação do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI) e a Política Municipal para a População Imigrante.

Bruno Lopes, do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), enfatizou o fato de o Brasil ser o único país da América do Sul a não permitir participação política dos imigrantes, mas que a educação pode ajudar a mudar o modo como a migração é vista na sociedade. “É preciso mudar as narrativas que associam a migração a medos, a questões securitárias. E a educação oferece ferramentas para essas novas narrativas”.

Seminário teve bom público no Museu da Imigração. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Seminário teve bom público no Museu da Imigração.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

A web designer boliviana Jobana Moya, fundadora e integrante da Equipe de Base Warmis, lembra que para lutar pelos próprios direitos é preciso também ter essa convicção dentro de si. “Para transformar nossa realidade, precisamos primeiro transformar a nós mesmos, nos ver como sujeitos de direitos. Do contrário, não sabemos pelo que estamos lutando”.

A reflexão de Jobana foi reforçada pela também boliviana Veronica Yujira, idealizadora e gestora do Si, Yo Puedo,  que mostrou um pouco da atuação do coletivo não só para ensinar português, mas para fomentar o acesso à informação e à conscientização sobre ser migrante. “Quanto mais cedo nos notarmos multiculturais, mais fácil será fazer essa integração. Esse momento tem que ser no dia a dia”.

Haitiana que vive em São Paulo pede união para combater o racismo e a xenofobia

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Lauren esteve no elenco da peça Cidade Vodu, encenada na Vila Itororó e que reuniu haitianos e brasileiros. Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Depoimento dado a Eva Bella

Meu nome é Lauren (nome completo é Roselaure Jeanty), tenho 25 anos, sou haitiana.

Moro aqui há 3 anos e antes de chegar aqui eu estudava medicina na República Dominicana, e pretendo terminar meus estudos aqui, esse é meu grande objetivo. Enquanto isso, eu faço parte da USIH ( União Social dos Imigrantes Haitianos)  e nosso trabalho é facilitar  a integração dos imigrantes haitianos na sociedade brasileira, sou muito orgulhosa de ser haitiana e me sinto obrigada a ajudar meus irmãos.

Vamos conseguir superar as dificuldades, queremos ser vistos como guerreiros, afinal o Haiti foi o primeiro país negro a se tornar independente.   Queremos ser vistos como seres humanos, guerreiros,  estamos na luta para isso se concretize.

Essa luta é feita com união e sem violência.

Lauren, sobre o combate ao racismo e à xenofobia: "Essa luta é feita com união e sem violência". Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Lauren, sobre o combate ao racismo e à xenofobia: “Essa luta é feita com união e sem violência”.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Como ensinou Jean-Jacques Dessalines (líder revolucionário do Haiti e primeiro governante do país), ele sempre dizia que temos que lutar pelo que queremos, que sabemos onde queremos chegar e sabemos de onde viemos. É essa força que carregamos. Eu carrego essa força em qualquer lugar que eu for, ela nos leva a enfrentar as dificuldades, principalmente vivendo fora de nosso país. Olhamos nossos antepassados para manter a força deles para ter a terra livre, onde os escravos tomavam conta do poder, isso com sabedoria, paciência. Essa luta é diária, sempre iremos lutar, e vivendo aqui por sermos negros, as dificuldades são piores, são maiores. E ser mulher negra não é fácil, mas gosto da minha cor, tenho orgulho, é uma coisa única. Ser negra significa muito para mim, é minha história, não somos vítimas.  Nós somos humanos, e quando vejo os negros eu sinto resistência, coragem, temos características que nos ajudam a sobreviver, afinal o racismo existe.

Não é porque somos negros que estamos recebendo favores, somos todos humanos, temos direitos iguais, iremos conseguir lidar com o racismo, aqui somos vistos com desconfiança, nos olham como coitados, mas temos uma história. Não saímos de um país pobre onde só existe fome, onde não tem água. Estão usando o Haiti como laboratório, queremos nossa terra livre, o país já foi conhecido como a Pérola das Antilhas.

Há muitos haitianos formados, mas aqui não temos oportunidades na área. Existem barreiras por sermos negros e haitianos, e isso tem que mudar, nós precisamos mostrar o lado bom. A mídia não tem mostrado as coisas boas, mas nós queremos mostrar essa imagem positiva e sempre vou contribuir para nossa evolução.

O Haiti tem cerca de 95% da população de negros, e os 5% entre mulatos e brancos, dificilmente o racismo acontece lá.

Mas aqui no Brasil eu fiquei impressionada com esse crime de racismo, pois aqui eu passo por isso quase todos os dias, é quase uma coisa normal. Mas hoje eu me aceito mais, eu consigo explicar porque me orgulho de ser negra.

Além de buscar um futuro melhor, Lauren se mobiliza contra o racismo e contra xenofobia. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Além de buscar um futuro melhor, Lauren se mobiliza contra o racismo e contra xenofobia.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Não sabia como o racismo afetava as pessoas, não imaginava que a cor da pele seria motivo de piadas, de se desprezar uma pessoa, mas olhando pelo lado positivo,  sou confiante, sempre luto e acredito na história e em mim mesma.

Vamos aprender a nos conhecer melhor, nos valorizar, procurar saber de onde viemos, porque sou negra/negro e qual importância disso?

Temos que estar prontos para enfrentar as dificuldades, temos que ter o pensamento bom. Sou uma pessoa melhor, cada dia aprendo a me aceitar mais.

Tive muitas oportunidades de participar de atividades culturais, pois isso gera uma integração entre nós e a sociedade brasileira. Estou aprendendo e conquistando muitas coisas, participando de peça teatral e mostrando a realidade do Haiti, me sinto realizada!!

Vai além do que imaginei, não é fácil representar e contar um pouco sobre a História do Haiti, relembrar em uma peça vale muito à pena, expressei meus sentimentos e isso contribuiu para meu crescimento.

E tem muitos haitianos que tem participado também de outras atividades culturais para nos integrarmos na sociedade brasileira e vou lutar para que consigamos mostrar nosso valor!

Lauren é integrante da USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos), que busca facilitar a integração dos haitianos no Brasil. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Lauren é integrante da USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos), que busca facilitar a integração dos haitianos no Brasil.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Esses eventos são ótimos para convivermos! Quero ver os haitianos ocupando espaços na sociedade, hoje os brasileiros estão interessados e tenho sonho de falar às pessoas o que é o Haiti, mostrar as coisas boas. A história de lá reflete em muitos países, todos países tem altos e baixos, mas não podemos esquecer da origem, sempre levanto minha cabeça, nunca negarei ser haitiana.

Cada país tem seu momento de crise, tem também seu lado bom, as paisagens do Haiti são maravilhosas, e também temos nossos heróis, fica aqui o convite para que todos possam conhecer mais nosso país.

Sei que muitos brasileiros também passam por dificuldades, mas vamos nos unir para enfrentarmos juntos o racismo, preconceito, xenofobia. A luta é nossa!

Migrantes e refugiados sofrem com abandono e violência em Calais

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Vista aérea do campo de refugiados de Calais, na França. Crédito: Michel Spingler, File/AP

Em mais um artigo da série “Deslocados e Descartados”, a pesquisadora social Bruna Kadletz visita o campo de refugiados em Calais, França, e realça que se o campo e suas estruturas sociais forem destruídas, refugiados serão retraumatizados e o “problema” será apenas deslocado ao invés de solucionado.

Por Bruna Kadletz
Em Calais, França
Publicado originalmente em inglês, no site News Deeply

Na chamada “Selva” de Calais, a maior favela europeia localizada nos arredores do porto francês, carros policiais patrulham as entradas principais do acampamento informal construído por refugiados e migrantes. A resposta militarizada das autoridades francesas controla acesso ao campo. Apesar de não ser reconhecido como oficial por autoridades e organizações internacionais, a polícia francesa controla o movimento de pessoas e veículos, permitindo somente entrada de carros que possuem autorização.

Quando eu visitei Calais, a atmosfera que circundava o campo era desconfortável e espessa. Quando visto de longe da estrada que leva ao campo, cercas reforçadas com arame farpado e milhares de barracas se expandiam tão longe quanto meus olhos podiam alcançar. Na frente do estacionamento principal, policiais armados estavam prontos para agir em caso de qualquer perturbação.

“Parece uma prisão ao ar livre”, comenta uma amiga que me acompanha nas visitas pelo campo.

A conduta dos policiais cria um clima intimidador – contrastando a sensação de segurança e aconchegante cultivada pelos refugiados que escapam zonas de conflito. Praticamente todas as pessoas vivenciam algum nível de abuso e manipulação durante a rota que leva a Calais.

Um olhar mais próximo do campo revela condições de vida desumanas e insalubres – incontáveis ratos mortos nas ruas enlameadas, lixo acumulando pelo chão, esgoto a céu aberto e banheiros portáteis transbordando.

Esta é a receita perfeita para doenças e outros males.

Campo de Calais enfrenta condições insalubres e precárias. Crédito: MSF-UK
Campo de Calais enfrenta condições insalubres e precárias.
Crédito: MSF-UK

A Selva é um ambiente predominantemente masculino. Jovens homens dominam as filas, escolas e lojas no campo. Eles vêm principalmente do Afeganistão, Sudão, Eritreia e Paquistão. Alguns te recebem com um “Bonjour” e sorriso no rosto, enquanto que muitos outros possuem uma expressão vazia. Vários estão fisicamente machucados e severamente fatigados.

Ao comentar sobre a entrada dos refugiados na Europa, Slavoj Zizek, filósofo Esloveno, diz que “ao escapar suas terras destruídas pela Guerra, refugiados são possuídos por um sonho.” Mas o sonho de uma vida segura na Escandinávia, Alemanha ou no Reino Unido (e todas as demandas acopladas ao sonho europeu) são utópicas, Zizek afirma. Eventualmente, refugiados e migrantes se deparam com a dura realidade sobre a Europa – “Não existe Noruega, nem na Noruega”.

Similarmente, os homens que conheci em Calais eram motivados pelo sonho de uma vida decente, longe de violência, conflito e destituição. Entretanto, em pouco tempo, eles descobrem que o sonho de achar segurança na Europa não corresponde com as suas experiências diárias em Calais.

O sonho da Europa tem causado uma desilusão amarga naqueles que ousam sonhar. Quando refugiados pisam em solo europeu, eles logo se deparam com as dificuldades de uma política desumana que os considera indesejados e descartáveis.

Ainda assim, apesar de todas as adversidades e desilusões presentes em Calais, mais de 400 pessoas arriscam suas vidas diariamente em tentativas de chegar ao Reino Unido (que inicia a construção de muralhas em ambos os lados da estrada que leva ao porto). Refugiados e migrantes são expostos a morte durante suas tentativas regulares de se esconder clandestinamente dentro caminhões (e as vezes embaixo deles) e balsas para atravessar a fronteira. Durante o último ano, diversas pessoas perderam suas vidas em tentativas falhas, enquanto que outros milhares foram atingidos por balas de borracha atiradas pela polícia francesa. Dados oficiais desta questão são escassos.

Nem as condições de vida desumanas, ambientes deletérios, tratamento cruel e o reforço de fronteiras são capazes de interromper o movimento de pessoas do Oriente Médio e África em direção a Europa. Na verdade, o contrário ocorre. Em agosto, a população total no campo ultrapassou a marca dos nove mil, com uma média de 70 novas pessoas chegando diariamente. Este é o maior número de pessoas residindo a Selva nos recentes anos.

Vale ressaltar que o legado de abandono e política bárbara empregados contra pessoas no campo é mais antigo que a última onda de violência vivenciada pelos relativamente novos residentes.

Desde 1999, refugiados e migrantes tem ocupado terra e construído acampamentos informais nos arredores do Porto de Calais. O número de pessoas que habitam tais acampamentos informais tem oscilado no decorrer dos últimos 17 anos, de algumas centenas a milhares de residentes. Sua presença era invisível e suas dificuldades eram silenciosas para a comunidade internacional. Foi somente com a intensificação do influxo de refugiados durante o ano 2015 e com o ápice da travessia do Mar Mediterrâneo, que o campo e seus residentes atraíram atenção internacional.

Como o Porto de Calais é a passagem principal entre o Reino Unido e o nordeste da Europa, refugiados e migrantes, que objetivam chegar ao Reino Unido através do canal da mancha, naturalmente se concentram nesta região.

Os rótulos “refugiados” e “migrantes” carregam um pesado estigma em Calais. Residentes locais e autoridades políticas frequentemente associam refugiados e migrantes com crimes, preocupações e problemas que devem ser excluídos da circunferência da cidade e, eventualmente, dos assentamentos informais construídos nas margens da cidade. Consequentemente, diversas evacuações forçadas já ocorreram no passado.

A última evacuação forçada ocorreu em marco de 2016, quando times de demolição franceses destruíram centenas de barracos e estruturas comunitárias na região sul do campo. Com a ajuda de voluntários e organizações, refugiados e migrantes relocaram suas tendas e barracas para a região norte do campo. Como resultado, a densidade populacional na metade norte aumentou, junto com tensões e conflitos.

Contribuindo mais para a incerteza e insegurança dos residentes do campo, a prefeita de Calais, Natacha Bouchart, anunciou recentemente o plano de demolir completamente o campo. Mas a história prova que evacuação forçada é uma estratégia política perversa que somente reproduz o ciclo de deslocamento forçado. Ao forçar o reassentamento de populações já deslocadas de forma forçada, autoridades não somente legitimam violência contra pessoas que deixam zonas de guerra e destituição, mas também adicionam novos traumas a tais populações.

Evacuação forçada não é a única forma de violência direcionada contra migrantes em Calais. No final de julho, esquadrões da polícia destruíram o coração comunitário do campo ao confiscar comida, água e documentos dos refugiados e interditar os restaurantes gerenciados pelos residentes do campo. As autoridades francesas apreenderam até mesmo comida do restaurante que oferece refeições de graça para menores desacompanhados. Esta ação policial deixou mais pessoas destituídas e com fome, adicionando mais pressão nas organizações que servem refeições para os residentes da Selva.

Os restaurantes comunitários ofereciam muitos mais que refeições tradicionais e bebidas quentes. Eles eram santuários seguros para pessoas destituídas. Os restaurantes criavam uma atmosfera convidativa, onde residentes podiam sociabilizar, compartilhar comida e conversar. Tais espaços cultivavam um senso de comunidade, normalidade, conexão e apoio. Diante de desesperança e conflito, espaços sociais possibilitam um sentimento de pertencer, enquanto sustentam um nível mínimo de humanidade e sanidade para milhares de refugiados e imigrantes que são submetidos a condições desumanas diariamente.

Além de promover a mensagem de que refugiados e imigrantes não são bem-vindos e desejados, tais estratégias desestabilizam coesão social e estruturas sociais. Essas ações políticas são claramente desenvolvidas com a intenção de dizer para pessoas: “Você não pertence aqui.”

Ao enfraquecer laços sociais e separar pessoas das estruturas que permitem que elas se sintam humanas, a lógica das vidas descartáveis triunfa.

É óbvio que nós não podemos abandonar pessoas que fogem de países devastados por guerras e (re) traumatiza-las ao expô-las a mais força e violência. Mas, o que nós devemos certamente abandonar é a presunção de que a crise dos refugiados existe em um outro plano, desconectado de nós e que, portanto, não está na zona de responsabilidade de comunidades, particularmente de líderes europeus.

Esta visão limitada acredita que se governos locais ou nacionais expulsarem refugiados para outro lugar – outra cidade ou mesmo outro país – eles não irão mais existir e o “problema” desaparecerá.

A crise dos refugiados existe em um contexto dinâmico, interconectado e constantemente interativo. Em um mundo globalizado, não existe tal realidade de expulsar “o problema” para outro lugar.

A destruição do campo em Calais não fará com que os refugiados desapareçam. Eles simplesmente irão ressurgir, talvez em um local diferente, mas com as mesmas necessidades.