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sábado, junho 27, 2026
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Praça Kantuta terá tarde teatral neste domingo (27/11); veja atrações

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Depois da Marcha dos Imigrantes, na avenida Paulista, este domingo (27) reserva uma outra atividade relacionada diretamente com a temática das migrações, desta vez em um plano mais cultural. É a Mostra de Teatro, Dança e Fotografia, organizada pelo Colectivo de Arte Semillas e que acontece a partir das 14h na praça Kantuta, no bairro do Canindé, em São Paulo.

A atividade tem como objetivo divulgar as diversas linguagens artísticas das comunidades migrantes de São Paulo – no caso do coletivo, especialmente das comunidades latino-americanas. Peças de teatro criadas e encenadas por imigrantes estão entre os grandes destaques do evento, além de música e gastronomia típica da Bolívia e que são facilmente encontradas na praça Kantuta.

Entre as apresentações teatrais estão a de Florencia Manzoni Roca, com um espetáculo de uma transformista fazendo dublagens; a participação da Professora Nina, que ensinará matemática e português de uma forma diferente, inspirada na obra “A professora Maluquinha”, do cartunista brasileiro Ziraldo; e a obra “Donde Está Jaime”, inspirada nos livros “Vidas y Muertes”, “La Piedra Imán” e “Felipe Delgado”, todas do autor boliviano Jaime Saenz, apresentada como homenagem aos 30 anos da sua morte.

Após o teatro, o público poderá acompanhar a Wayllunka, festa originária da Bolívia, na qual as “Cholitas Cochabambinas” brincam num balanço de mais de 4 metros de altura.

Av. Paulista será palco da 10ª Marcha dos Imigrantes neste domingo em SP

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Diversidade foi uma das marcas da Marcha dos Imigrantes 2015. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Por Caroline Gomes

Acesso às políticas públicas e à justiça gratuita, uma lei de migração humana e democrática e o fim da discriminação e da xenofobia são algumas das muitas bandeiras de luta que serão levantadas na 10ª Marcha dos Imigrantes, que acontece no próximo domingo (27/11), a partir das 9h na avenida Paulista, em São Paulo.

Veja aqui como foi a Marcha dos Imigrantes em 2015

Veja aqui como foi a Marcha dos Imigrantes em 2014

Com o lema “Dignidade para os imigrantes no mundo”, a marcha deste ano pretende atrair um público ainda maior do que a última. Além da mobilização de imigrante e movimentos, outro fator que pode contribuir para isso é a Paulista Aberta, no qual a avenida é fechada para veículos e aberta para pedestre e ciclistas aos domingos.

Cartaz da 10ª Marcha dos Imigrantes. Crédito: Divulgação
Cartaz da 10ª Marcha dos Imigrantes.
Crédito: Divulgação

Segundo Isabel Torres, imigrante peruana e funcionária do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), o intuito da marcha é dar visibilidade aos imigrantes que estão no Brasil, sobretudo em São Paulo, e colocar em pauta as demandas e bandeiras de luta daqueles que migram. “Essa caminhada é uma forma de manifestar as nossas reivindicações políticas e sociais. A gente quer expressar que também somos pessoas, humanos, cidadãos do mundo. Que somos parte deste país. Espero que com essa marcha a gente consiga, dentro da nossa diversidade, demonstrar que estamos juntos na luta”.

O CAMI é uma das instituições que compõe o comitê organizador da 10ª Marcha dos Imigrantes, juntamente com outros movimentos, grupos, coletivos e instituições como o Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), o Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI), a Frente de Mulheres Imigrantes, a Casa das Áfricas, o Iada África, o Saúde sem Fronteiras, entre outros, além de entidades que apoiam o ato.

Na Marcha dos Imigrantes 2015, grupo levou cerca que simbolizou as fronteiras a serem superadas pelo mundo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Na Marcha dos Imigrantes 2015, grupo levou cerca que simbolizou as fronteiras a serem superadas pelo mundo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

“Existe muita gente envolvida para que a marcha aconteça. A união de todos esses movimentos e coletivos é muito importante. Se não nos mantermos unidos e bem articulados, nós perdemos muito. Todos são bem-vindos”, afirmou Isabel. Ela também destacou a importância da participação das mulheres no ato, que, segundo ela, “resistem diariamente dentro dessa luta desigual”.

Frente de Mulheres Imigrantes pelo terceiro ano

A representatividade feminina na marcha é marcada pelo bloco das mulheres imigrantes e refugiadas organizado pela Frente de Mulheres Imigrantes, que marca presença na Marcha pelo terceiro ano seguido (começou em 2014, inspirada pelo tema da Marcha daquele ano, e continua até hoje). A Frente é composta por diferentes militantes e organizações, entre elas, a Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas.

Bloco das Mulheres leva centenas à Marcha de 2014 - e continua para este ano. Crédito: Lya Maeda/MigraMundo
Bloco das Mulheres leva centenas à Marcha de 2014 – e continua para este ano.
Crédito: Lya Maeda/MigraMundo

Segundo a imigrante chilena Andrea Carabantes e a boliviana Jobana Moya, ambas integrantes da Warmis, a marcha é importante porque visibiliza as questões dos imigrantes e refugiados e concretiza o direito de ocupar espaços públicos, fazendo com que a cidade enxergue os imigrantes como parte dela. “Além disso, às vezes nós não temos noção de quão diversa é São Paulo e esse ato nos ajuda a não pensar somente nas nossas preocupações com a nossa comunidade, mas também nas problemáticas dos outros”.

São reivindicações da Frente:

– Saúde da mulher (tratamento digno e humanizado no atendimento; o respeito às diferenças culturais no momento do atendimento no período da gestação e parto; tratamento de saúde multilíngue nos centros de saúde onde haja maior convergência de mulheres imigrantes);

– Diminuição da violência sobre a mulher (atendimento multilíngue e humanizado nas delegacias da mulher; fim da violência doméstica e sexual; direito de uso de anticoncepcionais a favor do planejamento familiar);

– Dignidade no trabalho (divisão equalizada do trabalho doméstico; remunerações iguais; fim do assédio moral e sexual; condições seguras e dignas de trabalho);

– Imigração (por um mundo sem papéis e sem fronteiras; por uma lei de imigração justa e humana; pelo fim da xenofobia).

10ª Marcha dos Imigrantes
Data e hora: 27 de novembro, a partir das 9h
Local: concentração em frente ao MASP – av. Paulista, 1578 – Cerqueira César – São Paulo (SP)
(próximo à estação Trianon-Masp do metrô)
Entrada: livre
Mais informações: evento no Facebook, tel. 3333-0847 e cami.imigrantes@terra.com.br

Campanha busca financiamento para documentário e projeto sobre refugiados sírios

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Documentário independente Salam, Síria, vai contar história de famílias sírias espalhadas pelo mundo. Crédito: Divulgação

O conflito armado que aflige a Síria desde 2011 continua a causar efeitos devastadores. Já são cerca de 480 mil mortos e mais de 6 de milhões deslocadas dentro e para fora do país por causa de uma guerra que ainda parece longe de terminar. A comunidade internacional não se entende sobre o que e como fazer para acabar com o banho de sangue. Por outro lado, iniciativas locais e globais surgem a todo momento procurando contribuir, a seu modo, para sensibilizar outras pessoas sobre o que acontece na Síria.

Uma delas é o projeto “Salam, Síria”, idealizado pela cineasta Juliana Torquato, de Porto Alegre. Para viabilizá-lo, se juntou a Joice de Oliveira e Rodrigo Moares, que atuam na produção do longa, e criou uma campanha de financiamento no site Kickante, que vai até 30 de dezembro. Podem ser feitas doações a partir de R$ 10 – veja abaixo como ajudar e as recompensas disponíveis.

Acesse aqui a campanha no portal Kickante

Veja a página do projeto no Facebook

A ação se divide em duas frentes: a primeira é um documentário (o “Salam, Síria”) que vai contar as histórias de cinco famílias sírias espalhadas pelo mundo devido à guerra; a segunda é a doação de metade do valor arrecadado com a campanha para as famílias entrevistadas para o documentário.

Ponte Brasil-Alemanha-Jordânia

Das cinco famílias que estarão no documentário, são duas na Jordânia (incluindo uma que vive no campo de refugiados de Zaatari, um dos maiores do mundo), uma na Alemanha e outras duas no Brasil. “Meu objetivo é mostrar que os refugiados são seres humanos como nós, independente da cultura, religião e costumes. É ajudar estas famílias que estarão contando suas histórias”, explica Juliana.

Socióloga e bibliotecária de formação, Juliana conta que sempre acompanhou questões ligadas a refugiados, mas a ideia para o projeto veio de fato a partir da experiência de ter vivido na Jordânia, entre 2014 e 2015. Casada com um jordaniano há seis anos, conheceu de perto a realidade de refugiados sírios e palestinos que vivem no país.

“Eu sempre fui muito inquieta com relação aos refugiados desde a época em que cursava Ciências Sociais e tive contatos com alguns refugiados que eram amigos do meu marido aqui no Brasil, mas foi quando fui morar no Oriente Médio que isso fez agir. Eu não consigo acreditar que no mundo globalizado no qual vivemos ainda temos tantas barreiras que impeçam os seres humanos de ir e vir”, expressa Juliana, que desde então vem batalhando meios para viabilizar o projeto.

Documentário independente Salam, Síria, vai contar história de famílias sírias espalhadas pelo mundo. Crédito: Divulgação
Documentário independente Salam, Síria, vai contar história de famílias sírias espalhadas pelo mundo.
Crédito: Divulgação

Próximos passos

Embora o documentário-alvo da campanha seja focado nos refugiados sírios, Juliana acredita que a produção pode também ajudar refugiados de outras nacionalidades. “Quero continuar trabalhando com essa temática para tentar inserir, integrar essas pessoas nesta nova sociedade. Mostrar que são pessoas como nós, mas que por questões de poder e política (que e o que move as guerras), perderam tudo e saíram de seu país que não lhes ofereciam segurança ou  trabalho ou dignidade. Elas não querem ser refugiadas. Elas estão refugiadas e precisam de amparo, pois nenhum país no mundo a salvo de acontecer o que está ocorrendo na Siria, na Líbia, no Iraque”.

Além do documentário sobre os sírios, Juliana, Joice e Rodrigo também tem trabalhado ou já atuaram em outras produções relacionadas com refúgio, que englobam outras nacionalidades. “A maioria dos refugiados está precisando de ajuda e são pessoas instruídas que poderiam estar ajudando no desenvolvimento de qualquer nação na qual se refugiou, mas que há muitas barreiras que impedem que estas pessoas ingressem nesta sociedade, principalmente o preconceito”, completa Juliana.

Dados sobre refúgio no mundo e no Brasil

De acordo com o Global Trends 2015 (baixe aqui), relatório lançado em junho deste ano pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), uma em cada 113 pessoas no mundo encontrava-se em situação de refúgio ou deslocada, totalizando 65,3 milhões – um aumento de quase 10% em relação a 2014. Ainda de acordo com o Global Trends, a lista de países com mais refugiados no mundo é encabeçada pela Turquia (2,5 milhões), seguida de Paquistão (1,6 milhão), Líbano (1,1 milhão), Irã (979.400) e Etiópia (736.100). Jordânia, Quênia, Uganda, República Democrática do Congo e Chade fecham esse nada glorioso top 10. E os países que atualmente mais geram refugiados são Síria (4,9 milhões), Afeganistão (2,7 milhões) e Somália (1,1 milhão). Juntos, eles respondem por nada menos que 54% do total de refugiados.

Total de deslocados e refugiados no mundo é recorde, aponta ACNUR. Crédito: ACNUR
Total de deslocados e refugiados no mundo é recorde, aponta ACNUR.
Crédito: ACNUR

Entre os países com solicitações de refúgio a liderança ficou com a Alemanha (441,900), seguida por Estados Unidos (172.700), Suécia (156.400) e Rússia (152.500). Em números per capita, o país com mais refugiados no mundo é o Líbano, (183 refugiados para cada 1.000 habitantes, uma proporção de quase 1 para cada 5 habitantes), seguido por Jordânia (87), Nauru (50), Turquia (32) e Chade (29).

Já outro relatório mais recente, lançado em outubro pela Anistia Internacional, aponta que 56% do total de refugiados no mundo está em apenas dez dos 193 países do planeta –Jordânia, Turquia, Paquistão, Líbano, Irã, Etiópia, Quênia, Uganda, República Democrática do Congo e Chade. O estudo ainda criticou a postura de países desenvolvidos de restringir a acolhida aos refugiados.

Falando de Brasil, o país atualmente reconhece 8.863 refugiados e tem 25 mil solicitações de refúgio aguardando análise do governo, de acordo com dados do Conare (Comitê Nacional para Refugiados). A nacionalidade com mais representantes é a síria, seguida por angolanos, colombianos, congoleses e palestinos.

 

UFRJ recebe Fórum e Simpósio sobre Migrações; veja programações

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O Rio de Janeiro recebe entre os dias 29 de novembro e 1° de dezembro dois grandes eventos relacionados à temática migratória: o VIII Fórum de Migrações (não confundir com o FSMM, que aconteceu em julho em São Paulo), e o IV Simpósio de Pesquisa sobre Migrações.

Os dois eventos são organizados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e vão acontecer na Casa da Ciência – Rua Lauro Müller, 3, Botafogo, Rio de Janeiro (veja mais informações no serviço ao final do texto). O evento é gratuito e aberto ao público e não precisa de inscrição prévia para participar.

Para este ano foi escolhido o tema “Coletivos – Redes – Fluxos – Coletivo”. Na página oficial do evento, a descrição mostra o porquê desse lema para o Fórum. “Em tempos de Globalização, as migrações não podem ser dissociadas das redes sociais reais e virtuais que as abarcam e dos fluxos humanos e midiáticos que as sustentam. Mas, a viabilidade da empreitada e a sobrevivência do sujeito migrante dependem, antes, de sua capacidade de somar e se articular em coletivos sociais e políticos”.

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O Fórum

A programação do Fórum está descrita abaixo e também pode ser consultada no site oficial do evento:

Prorrogado por 6 meses o prazo para registro de haitianos que receberam residência no Brasil

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Os haitianos que vivem no Brasil com visto humanitário e foram autorizados a obter residência permanente no país ganharam um prazo adicional de 6 meses para regularizarem a situação. A medida foi publicada na edição deste sábado (12/11/16) do Diário Oficial da União.

No ano passado, em 11 de novembro, o Ministério da Justiça anunciou que 43,7 mil migrantes do Haiti teriam direito ao visto de residência permanente, conhecido como o Registro Nacional de Estrangeiro (RNE), e deu prazo de uma no para os haitianos se regularizarem. O problema é que a Polícia Federal não está liberando agendamentos para que os migrantes – de qualquer nacionalidade, não apenas os haitianos – tirarem ou renovarem sua documentação. A demora se concentra em São Paulo, cidade que concentra o maior volume de solicitações. O sistema de agendamentos da PF não libera datas há mais de três meses – e o problema parece longe de uma solução definitiva.

A prorrogação do prazo é uma vitória para os migrantes e para a sociedade civil organizada, que solicitaram o prazo adicional junto ao governo federal, via Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) e Conselho Nacional de Imigração (CNIg), por conta das falhas atuais no sistema da PF. No caso dos haitianos, o fim do visto humanitário sem a entrada no pedido de residência os deixaria em uma espécie de “limbo”, no qual só escapam de ficarem totalmente indocumentados no Brasil por conta da solicitação de refúgio que fizeram ao entrarem no Brasil, que gera um protocolo que funciona como documento provisório até a chegada do RNE. Ainda assim, muitas empresas e estabelecimentos resistem em reconhecer o protocolo e exigem o registro definitivo.

Essas e outras questões sobre a dificuldade dos migrantes em obter o agendamento na Polícia Federal serão abordadas de forma mais detalhada em breve pelo MigraMundo.

Com informações de Missão Paz e IMDH

Haitianos ficam presos entre furacões e a política da morte

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Casa destruída pelo furacão Matthew na região de Les Cayes, uma das mais afetadas. Crédito: Werner Garbers e Rosena Olivier

Como parte da série “Deslocados e Descartáveis”, a pesquisadora social Bruna Kadletz relata sobre o último deslocamento forçado no Haiti devido ao Furacão Matthew. Enquanto milhares de haitianos continuam a coletar os pedaços das suas vidas, alguns estão se deslocando rumo aos Estados Unidos em busca de estabilidade.

Por Bruna Kadletz
De Florianópolis (SC)
Publicado originalmente em inglês no Refugees Deeply (leia aqui)

Após o devastador terremoto de 2010 no Haiti, que tirou a vida de mais de 220 mil pessoas, milhares de sobreviventes do desastre caminharam até o Brasil para reconstruírem suas vidas.

Desesperados e sem apoio, haitianos mais uma vez arriscaram suas vidas em rotas perigosas – primeiro escapando para a República Dominicana, para depois passarem pelo Panamá, Equador e Peru, onde coiotes os atravessavam do lado peruano da Floresta Amazônica para o território brasileiro.

O governo brasileiro, ao invés de construir muralhas e prender os imigrantes em centros de detenção (prática comum da “Fortaleza Europeia”), ofereceu residência permanente a quase 44 mil haitianos em 2015. Esta decisão, apesar de possuir questionamentos relevantes, os possibilitou acesso ao mercado de trabalho formal, sistema de saúde e educação.

Contudo, com a crise econômica no Brasil, os haitianos foram os primeiros a sofrer com desemprego prolongado.

Agora que o Haiti foi atingido por outro desastre natural – o Furacão Matthew – tanto os recém-deslocados como aqueles que estão deixando o Brasil parte rumo a América do Norte. Enquanto os haitianos aguardam em abrigos sobrepovoados no México, seus futuros estão nas mãos das autoridades americanas.

Ainda que sua admissão nos EUA seja incerta, retornar para casa certamente não é uma opção viável para os solicitantes de asilo haitianos, especialmente depois da última tormenta destruidora.

‘Devastação Total’

Ventos fortes e chuva torrencial atingiram a península sudeste da ilha caribenha no dia 4 de outubro, destruindo vilas costeiras, isolando regiões inteiras, destelhando casas e varrendo plantações.

Quando o furacão de categoria 4 chegou ao país, ele deixou as cidades de Jeremie e Les Caves debaixo da água. O extensivo dano a estruturas e a dificuldade em acessar água limpa, comida e medicina, fez com que a situação se transformasse na pior crise humanitária no Haiti desde o terremoto de 2010.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 2 milhões de haitianos foram afetados pelo Matthew, enquanto que quase um milhão e meio de pessoas estão precisando de assistência humanitária urgentemente. A Direção da Proteção Civil do Haiti já confirmou 546 mortes e 438 feridos durante a tempestade, mas esses números ainda podem subir uma vez que áreas isoladas restaurarem comunicação com o resto do país.

Com a destruição de milhares de casas, comunidades inteiras estão desabrigadas e deslocadas, já que muitos perderam seus lares e forma de subsistência, e agora buscam por refúgio em abrigos temporários ou mesmo nas ruas. Como as fortes chuvas varreram plantações, quase um milhão de pessoas estão sob o risco de insegurança alimentar.

Ao visitar o país após o desastre, o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que o estrago causado pelo Furacão Matthew era de “partir o coração”, descrevendo a situação de “devastação total”. “Eu ouvi muitas vítimas. Eu senti sua dor. Eu entendo a sua frustração, e até raiva,” Ki-moon declarou.

Desapropriação no Haiti

O Furacão Matthew somente agravou a já existente desapropriação social e material vivenciada pela maioria dos haitianos, que ainda estavam se recuperando de prévios desastres naturais.

Como o Haiti é o país mais pobre do Hemisfério Ocidental e fica localizado em um corredor de furacões, muitos estão inclinados a acreditar que as recorrentes crises humanitárias no país são frutos somente da má sorte geográfica e falta de recursos financeiros.

Contudo, é importante observar que a vulnerabilidade a tempestades e furacões do Haiti, e as consequentes crises de deslocamento dentro e fora do país, tem sido significantemente exacerbada pela combinação de discriminação socioeconômica, exploração de ecossistemas frágeis e escolhas políticas do governo.

Políticas de desenvolvimento pobre e desflorestamento tem removido a proteção natural da terra, deixando áreas rurais mais suscetíveis ao deslizamento de terra e zonas urbanas a enchentes e alagamentos. Enquanto isso, a mudança climática tem aumentado a frequência e intensidade dos padrões climáticos na região.

A pobre infraestrutura do Haiti, deficiente saneamento básico e construções frágeis amplificaram mais ainda a crise.

Comida e água potável estão escassas, portanto, insegurança alimentar e doenças infectocontagiosas adicionam mais pressão ao custo humano do desastre. Nas áreas atingidas pelo furacão, diarreia e casos de cólera continuam a aumentar. Para muitas dessas comunidades, o risco de outra epidemia descontrolada de cólera reaviva as memórias dolorosas do terremoto do 2010.

Falha do Sistema Humanitário

A falta de preparo também contribuiu para a escala da destruição. Apesar de possuir um longo histórico de desastres causados por fenômenos climáticos seguidos por catástrofes humanitárias – desde Hazel em 1954 até Fay, Gustav e Ike em 2008 – uma quantia insignificante foi investida em prevenção de desastres ou medidas de mitigação no Haiti nos últimos anos.

De fato, a lucrativa indústria humanitária tem sido, repetidamente, acusada de falha no país.

Jocelyn McCalla, diretora executiva da Coalisão Nacional dos Direitos dos Haitianos, aponta para a falta de visão e vontade política em investir em capacidade de resposta a desastres naturais. “O Fundo de Reconstrução do Haiti – um fundo monetário estabelecido em 2010 e gerenciado pelo Banco Central em nome de diversos países – direcionou até o dia 30 de junho deste ano, uma quantia irrisória de 16,7 milhões de dólares, de um total de 351 milhões, para alívio de desastres,” McCalla escreve. “Uma das razões pelas quais somente uma pequena fração do dinheiro tenha sido usada até o momento é que a maioria do dinheiro seria destinada para a reconstrução do terremoto.”

Política da Morte

A devastação atual do Haiti é o resultado não somente de uma pobreza herdada e da vulnerabilidade climática, mas também do necropoder, ou a política da morte.

Achille Mbember, filósofo africano e escolar, conecta o necropoder – que seriam estratégias e tecnologias que expõem deliberadamente determinadas populações ao poder da morte – com dominação colonial, exploração do capitalismo e desumanização racial.

Durante os anos de escravidão dos africanos e colonização francesa, e depois durante a ocupação americana no começo do século XX, os haitianos foram sistematicamente desapropriados e sujeitos a violência e morte.

Atualmente, haitianos continuam a ser expostos a tais políticas desumanas pelo seu próprio estado. Em uma nação com extrema discrepância econômica como o Haiti, quando autoridades nacionais e internacionais ignoram o investimento em medidas de prevenção e mitigação de desastres naturais e estruturas mais seguras em comunidades com baixa renda, tais autoridades ignoram o valor da vida de milhões de haitianos. Esta forma de necropoder é brutal. Ao considerar a vida de milhões de haitianos descartáveis, autoridades nacionais e internacionais também os forçam a atravessar as fronteiras em busca de uma vida com dignidade.

Seja no Haiti, Brasil ou na fronteira entre os EUA e México, ou pelo rápido esquecimento da comunidade internacional sobre a crise humanitária vivida no país, a sensação é que haitianos forçados a se deslocar devido a desastres naturais são tratados como se suas vidas valessem menos ou fossem descartáveis.

 

Com a vitória de Trump nos Estados Unidos, novos muros se levantam; e é preciso se preparar para agir

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Bandeira dos EUA no Empire State Building, em Nova York, em noite de nevoeiro. (Foto: Rodrigo Borges Delfim - mai.2013/MigraMundo)

Por Rodrigo Borges Delfim

Era maio de 2013. Estava como intercambista no Canadá e a escola de idiomas onde estudava fazia excursões semanais para os Estados Unidos. Foi nessa época que tive minha primeira, breve – e até agora, única – experiência no país. Mas lembrei como se fosse ontem da cena…

Estava voltando de Chicago de ônibus, com uma excursão com outros estudantes internacionais. No meio do caminho, parou em uma cidadezinha – não lembro o nome, mas era no Estado de Michigan, que faz parte do chamado Cinturão Industrial dos Estados Unidos. Era começo da tarde e a parada foi em uma pequena lanchonete, que parecia não ter recebido nenhum cliente até então.

Terminei de comer um pouco antes do restante dos demais estudantes e dei uma volta pelo quarteirão da lanchonete. A cidade estava bem empobrecida, parecia bastante decadente, mas o que me chamou a atenção de verdade foi um carro vermelho velho, já enferrujado, com estilo esportivo, provavelmente do final dos anos 80 ou começo da década de 90. Parecia abandonado. E logo me veio à cabeça a crise econômica de 2008, que atingiu os Estados Unidos e outros países ricos em cheio – e o Estado de Michigan, especialmente Detroit e a indústria automobilística. Logo, foi impossível não traçar um paralelo entre aquele carro velho, a pobreza nas redondezas, e como aquela crise deve ter atingido em cheio a população e ferido seus orgulhos – um carro velho em um país que preza tanto pelo automóvel…

Essa imagem voltou à mente quando li este artigo no portal HuffPost Brasil, publicado em julho deste ano, mas resgatado logo após a vitória do republicano Donald Trump. Sim, o texto é do Michael Moore, aquele cineasta autor de documentários como Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11 e considerado panfletário por muitos… Mas ele é de Michigan e, além de “prever” a vitória de Trump em novembro, lembrou de um episódio da campanha do republicano que combinava em com o que vi na minha breve passagem por Michigan (Estado no qual, aliás, Trump levou a melhor):

“Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan”.

Com promessas assim, embaladas pelo slogan “Make America Great Again” e com o discurso de que vai unificar o país e governar para “todos os americanos”, Trump ganhou boa parte do eleitorado tradicional dos Estados Unidos que se sentiu abandonado. E claro, não dá para deixar de lado a desconfiança que recaiu sobre Hillary Clinton desde o começo da campanha, embora a maioria das pesquisas eleitorais apontasse para uma vitória da democrata, ainda que por margem estreita de votos.

Promessas e discursos que são apoiados em conceitos como a xenofobia, a misoginia e outros ódios contra minorias, no fechamento dentro de si próprio em vez de expandir horizontes. Novos muros físicos, sociais, culturais, políticos e econômicos devem ser erguidos, e os já existentes ganharão reforço. Tudo para “fazer a América Grande” novamente, mas pelo jeito é um preço que praticamente metade dos eleitores nos Estados Unidos aceitou pagar.

Veja aqui o resultado final da eleição presidencial nos EUA (com UOL e AP)

Depois de ler o texto de Moore, a vitória de Trump me pareceu menos absurda – mas não menos desastrosa. E também está longe de ser um fato isolado. Basta olhar para a vitória do Brexit no Reino Unido, para as políticas cada vez mais restritivas em relação às migrações em outros países (e que devem ser replicadas também nos Estados Unidos). O Brasil também entra nessa roda, é claro. Basta lembrar das reportagens que a Ponte Jornalismo tem divulgado sobre refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil, só para citar um único exemplo e dentro do escopo do MigraMundo, as migrações.

O baque para quem acreditava em uma vitória de Hillary vai custar a passar, mas traz lições importantes e deve gerar uma profunda autorreflexão – só assim para não perder a esperança de uma vez com o mundo atual e seus retrocessos recorrentes. Só para citar um exemplo, essa eleição para mim mostra, mais uma vez, o quanto as redes sociais nos colocam dentro de grandes bolhas que nos levam a ter uma visão de mundo, mas que pouco ou nada têm a ver com a realidade. Mostra que é necessário enxergar além dessa bolha e tentar entender que argumentos conseguem angariar tantos apoios, mesmo quando pressupõem exclusão, discriminação e fechamento dentro de si, em nome de uma suposta segurança e manutenção do bem-estar. Por exemplo, o conceito de que “migração controlada” é diferente de “xenofobia” – que é encampado, por exemplo, até mesmo por brasileiros que vivem no exterior ou que já tiveram experiência como migrantes, independente do status migratório.

Dos limões azedos de agora, é preciso tentar fazer a limonada mais doce possível. Com reflexões, autocrítica, união e ações inovadoras e positivas, é possível manter abertos os caminhos que possibilitam mudanças. Mas sim, nunca é demais lembrar que o desafio e as dificuldades são cada vez maiores.
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Voltando a falar de Michigan, percebi hoje que não tinha fotografado o carro. Mas ao procurar uma foto para ilustrar este texto, me deparei com uma imagem um tanto quanto fantasmagórica que tenho da bandeira dos Estados Unidos no mirante do Empire State Building, em Nova York. Era uma noite com visibilidade zero do alto do edifício, e a bandeira era a única coisa que dava para ver em meio ao nevoeiro, além da luz no topo do prédio. E pensando bem, ela mostra o quão incerto o futuro vem se desenhando – e devemos nos preparar para ele.

Bandeira dos EUA no Empire State Building, em noite de nevoeiro. Uma foto que traduz o cenário de incerteza que se desenha. Crédito: Rodrigo Borges Delfim - mai.2013/MigraMundo
Bandeira dos EUA no Empire State Building, em noite de nevoeiro. Uma foto que traduz o cenário de incerteza que se desenha.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim – mai.2013/MigraMundo

Artista italiana cria projeto para histórias de migrantes em São Paulo; veja como participar

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Mapa montado pela artista italiana Margherita Isola a partir de retalhos e relatos de imigrantes. Crédito: arquivo pessoal

Como é deixar o país de origem e ir para outro lugar? Quais os anseios, dores, medos e esperanças envolvidos nessa mudança? É a partir desse testemunho que a artista italiana Margherita Isola, baseada em São Paulo, quer criar um mapa afetivo com as histórias de migrantes de diferentes nacionalidades. Para tal, ela convida imigrantes que moram em São Paulo a participar do projeto contando a sua própria experiência migratória.

Chamado de Projeto Untitled Migrante (migrante sem título, em tradução livre), ele é inspirado na própria experiência migrante pessoal e na crise humanitária potencializada pelos deslocamentos forçados por conflitos e catástrofes naturais no mundo. A partir daí, Margherita iniciou uma investigação sobre “deixar o próprio país e entrar em um outro” e o que este movimento provoca, dentro e fora de cada um, a partir de São Paulo – cidade multicultural e centro histórico de migração, mas que ainda hoje sofre de uma forte desigualdade e discriminação racial.

“Meu desejo é de investigar o fenômeno da migração numa perspectiva subjetiva e coletiva ao mesmo tempo. Meu desafio é de criar uma ponte que possa conectar eu com você, o imigrante e o seu pais de origem, e com o aqui e agora do Brasil e dos brasileiros. Por isso achei fundamental desenvolver o projeto através de um processo participativo e dando voz em primeiro lugar aos protagonistas, os imigrantes, e ao que acontece no interior deles. Olhar para a migração como um deslocamento que acontece dentro e fora de nós”, explica Margherita.

A partir dessas histórias e de uma troca de ideias, a artista irá costurar um bordado em um pedaço de roupa com desenhos que ilustrarão os mapas afetivos inspirados nos testemunhos dos imigrantes que participarem do projeto.

Mapa montado pela artista italiana Margherita Isola a partir de retalhos e relatos de imigrantes. Crédito: arquivo pessoal
Mapa montado pela artista italiana Margherita Isola a partir de pedaços de tecido e relatos de imigrantes.
Crédito: arquivo pessoal

“Acho extremamente importante recolher essas histórias de migração, mapeá-los e, em seguida, pôr essas histórias migrantes em uma perspectiva histórica. Caso contrário, uma amnésia coletiva pode assumir e destruir rapidamente o caminho através do qual entendemos onde estamos agora, e para onde estamos indo”, completa a artista.

Para participar, basta entrar em contato com a artista pelos meios abaixo:

Margherita Isola
Email: margherita.isola@gmail.com
Telefone/WhatsApp: (21) 96916-9502
Línguas que fala/entende: português, francês, italiano e inglês

Com informações do blog Somos Migrantes

 

Migração em migalhas – um breve resumo de sofrimentos globais contemporâneos

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Fronteira húngara, fortificada para restringir novas entradas de refugiados e migrantes. Crédito: Bruna Kadletz - out.2016

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Segundo a Guarda Costeira italiana, no período de janeiro a novembro/2016, os imigrantes desembarcados nas costas da Itália ultrapassaram a cifra de 153 mil. Isso supera o número dos que chegaram durante todo o ano anterior, estabelecendo um novo recorde.

. Sua origem inclui a África subsaariana, o Oriente Médio e alguns países da Ásia.

As autoridades e a polícia francesa acabam de desalojar os milhares de imigrantes que ocupavam o “acampamento” de Calais, ao norte do país, às margens do canal da Mancha. A grande maioria tinha como sonho alcançar a Inglaterra. Foram levados para diversos alojamentos espalhados no território francês.

Em um pequeno município do interior da Itália, a população local construiu uma barricada para impedir que 12 mulheres e 8 crianças imigrantes fossem recebidas, conforme pretendiam as autoridades. O pequeno grupo foi transferido para outra localidade.

Com a dificuldade de obter o visto legal para os Estados Unidos, um crescente número de asiáticos opta por um percurso mais longo: Dirigem-se ao México, onde pressionam a fronteira com os EUA. Destacam-se, entre outros países, os imigrantes provenientes da Índia, China, Bangladesh.

Cresce igualmente o número de haitianos e africanos de vários países que, nas últimas semanas, se aglomeram na cidade fronteiriça de Tijuana (México), tentando cruzar para o outro lado, no Estado da Califórnia.

Tudo isso contribui para aumentar a pressão dos mais de 400 mil (entre latino-americanos e outros) que, no decorrer de 2016, tentaram cruzar a mesma fronteira rumo aos Estados Unidos.

Resulta como conclusão que nada – nem muros, nem ameaças, nem leis anti-migratórias – é capaz de deter os que fogem da violência e da pobreza para buscar “um lugar ao sol”. Contra setores sociais cerrados e discriminatórios, segue de pé o direito de ir-e-vir, correspondente ao direito de permanecer no próprio país.

Roma, 3 de novembro de 2016

Da Catalunha para o mundo, um grito contra as mortes de migrantes nos mares

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Na Catalunha, manifestação em apoio aos refugiados e migrantes mobilizou pessoas de todas as idades. Crédito: Andrea Dama

O relato e a manifestação são do mês de junho, mas a motivação continua mais do que atual. Pessoas de várias idades e comunidades se reuniram em Barcelona em defesa dos direitos de refugiados e migrantes de todo o mundo e denunciaram a negligência dos países europeus em relação aos que chegam ao continente

Texto e manifesto adaptado por Adama Saraiva, especial para o MigraMundo
De Barcelona (Espanha)

No dia 19 de junho de 2016, em razão do Dia Mundial das Pessoas Refugiadas (20 de junho), aconteceu em Barcelona, na Espanha, uma manifestação importante em prol da necessidade de auxiliar, defender e acolher as pessoas em busca de refúgio.

Diante da denominada “crise dos refugiados”, diferentes coletivos, entidades, sindicatos e partidos políticos, convocados pela Stop Mare Mortum, uniram-se para o que foi o ápice da semana internacional dos refugiados e que ocorreu em todo o território catalão.

Milhares de pessoas, sob os temas ainda pouco aclamados: “abram-se as fronteiras, queremos acolher”, “toda pessoa tem direito à vida, à liberdade, à segurança e a livre circulação” e “nenhuma pessoa é ilegal, em pleno domingo de sol de verão priorizamos reivindicar tudo o que todo um manifesto ditava.

Todos os presentes se basearam em reivindicar os direitos que têm as pessoas refugiadas e migrantes ao mesmo tempo em reivindicar as obrigações e deveres do Estado para com essas pessoas em especial. 

Publicamente, denunciamos o que muitos de nós vêm como irresponsabilidade, negligência e hostilidade por parte dos representantes políticos do Estado espanhol e dos demais países europeus diante do êxodo dessas pessoas que buscam um lugar seguro. Clamamos contra os que trancam as portas para mulheres, homens e crianças que necessitam proteção, contra seus impedimentos ao acesso legítimo de recursos e direitos legais e à manutenção de privilégios econômicos que são postos à frente de vidas humanas. Negando-lhes direito à livre circulação e às vias legais existentes, se lhes obriga a estarem expostos ao negócio impune que é o trafico de pessoas, às fronteiras militarizadas subordinadas, a regimes opressores, a arriscarem suas vidas.

Reclamamos com dor das muitas mortes que há mais de uma década seguem copiosamente a ocorrer no Mar Mediterrâneo e como o mar pode ser a única via de acesso, da vulnerabilidade dos direitos humanos.

Unimo-nos para exigir ao Estado espanhol e a todos os Estados da União Europeia que se cerquem das vias seguras previstas e para que as leis já incluídas nos Tratados Internacionais de Asilo e Direitos Humanos sejam aplicadas imediatamente. 

Denunciamos o acordo imoral para a deportação dos refugiados feito entre os estados da União Europeia e a Turquia – país este que desrespeita sistematicamente os Direitos Humanos.

Denunciamos as inaceitáveis ações policiais dos estados europeus e dos regimes que trabalham em contra das pessoas exiladas, destacando-se as repressões a atos voluntários e pacíficos, dispersão violenta e manejos forçosos a centros de detenções.

Reclamamos consciência social, compromisso e vontade política. Em prol de atuarmos juntos, com valores humanos, respeito, responsabilidade, solidariedade, esforço e empatia. 

Denunciamos condições médicas, sanitárias e alimentarias deploráveis.

Questionamos, sobretudo, a guerra, a indústria armamentista, a disputa econômica e política por trás de todo o contexto e resultado do que vemos: do menosprezo a vidas. Expressamos o nosso apoio a todos os povos que sofrem com guerras e à favor de suas lutas por liberdade e justiça social em contra de regimes ditatoriais e intervenções estrangeiras.

Expressamos a não aceitação ao que é uma crise humanitária mas de causas morais, políticas e econômicas.

Principalmente, estivemos ali para transformar as fronteiras que existem entre nós. Este, acredito que seja o verdadeiro e essencial ponto de partida.

E é esperançoso saber que somos muitos, em muitos lugares do mundo, que lutam e têm a consciência voltada ao bem comum e à integração de todos. Manifestações como estas contribuem significativamente para mudar uma dura e inaceitável realidade, dão força para a continuidade de uma luta que vale a pena e que, sabemos, transforma.