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quinta-feira, maio 7, 2026
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Documentário da Al Jazeera retrata imigrantes no Acre

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A situação dos imigrantes em Brasileia (AC), que recentemente voltou a aparecer na mídia brasileira, chegará às telas de milhões de pessoas hoje no mundo todo com o documentário Ticket to Paradise (Passagem para o Paraíso, em tradução livre), do brasileiro Rogerio Soares. A produção será veiculada pelo canal em inglês da emissora Al Jazeera, sediada no Qatar – para ver no Brasil, somente pela internet, no site do canal ou no YouTube.

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A produção é focada na relação de trabalho entre dois personagens, Damião e Ricardo: o primeiro, funcionário da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre, é o responsável pela recepção dos imigrantes e praticamente o único elo destes com o governo brasileiro; o segundo é haitiano e por três meses ajudou Damião, de forma voluntária, na recepção aos demais migrantes, muitos deles seus compatriotas, antes dele próprio conseguir um emprego e partir para o Sul do Brasil.

Damião, responsável pela recepção dos imigrantes e que administra o alojamento. Crédito: reprodução
Damião, responsável pela recepção dos imigrantes e que administra o alojamento.
Crédito: reprodução

Ticket to Paradise retrata uma região que ficou conhecida nos últimos anos como porta de entrada de imigrantes do mundo todo, após longas jornadas que passam por outros países latino-americanos e nas quais estão sujeitos à toda sorte de problemas e extorsões. Uma vez em Brasileia, ficam à espera de uma oportunidade de trabalho em outras regiões do Brasil, alocados em instalações improvisada e que desde muito tempo são insuficientes para atender a crescente demanda.

Nessas condições, problemas diversos são inevitáveis, de superlotação e falta de gêneros básicos a eventuais brigas entre os ocupantes do alojamento – chamado, inclusive, de campo de refugiados no próprio documentário e por outras organizações.

Vista interna do alojamento onde dormem os haitianos. Crédito: Reprodução
Vista interna do alojamento onde dormem os haitianos.
Crédito: Reprodução

Além de caro (há imigrantes chegam a pagar até US$ 7.000 a coiotes pela travessia até o Acre), esse “ticket” muitas vezes não significa uma passagem para o paraíso, sendo que a espera no Acre por uma oportunidade de trabalho pode levar semanas ou até meses. Para Ricardo, no entanto, o simples fato de estar no Brasil e não no Haiti já significa uma esperança de uma vida melhor. “Por exemplo, eu não estou trabalhando, mas já estou no Brasil. Então, vivo com esperança e não em desespero”. Tal esperança se tornou realidade quando Ricardo aceitou uma vaga de trabalho indicada pelo próprio Damião.

O haitiano Ricardo, que ajudou Damião, ao lado do diretor Rogerio Soares. Crédito: reprodução/ Al Jazeera
O haitiano Ricardo, que ajudou Damião, ao lado do diretor Rogerio Soares.
Crédito: reprodução/ Al Jazeera

A dificuldade maior é de encontrar trabalho para as mulheres, já que a maioria das empresas procura pessoas do sexo masculino. Uma das passagens do documentário mostra uma mulher de 50 anos tentando convencer um recrutador que está apta a trabalhar como camareira, sem sucesso.

No documentário, há imigrantes haitianos que elogiam o tratamento recebido por aqui e o comparam com situações vividas, por exemplo, na República Dominicana. “Éramos tratados como cachorros”, disse um deles. Já Damião diz que a população local, antes simpática devido à novidade trazida pela chegada dos imigrantes, agora está impaciente com eles. No entanto, ele próprio ressalta que aprendeu muito com os haitianos e se sente uma pessoa realizada. “Esses imigrantes me ensinaram muitas coisas boas, não tenho dúvida que eles me ensinaram a ver o mundo de uma outra maneira”.

Haitianos esperam por uma oportunidade de trabalho. Estadia no Acre pode variar de dias a meses. Crédito: reprodução
Haitianos esperam por uma oportunidade de trabalho. Estadia no Acre pode variar de dias a meses.
Crédito: reprodução

Uma comparação rápida com as notícias mais recentes sobre a região mostra como a situação retratada no documentário continua atual – e até mais grave, a ponto de já ter sido levada à Organização dos Estados Americanos (OEA) pela ONG Conectas. Enquanto isso, o poder público brasileiro bate cabeça sobre o que fazer na região, cogitando até fechar a fronteira temporariamente para coibir o ingresso de mais migrantes no Acre.

De acordo com Damião, na época do documentário, cerca de 10 mil pessoas de 15 nacionalidades diferentes já passaram por Brasileia. A grande maioria é composta por haitianos.

O projeto Viewfinder

Ticket to Paradise foi um dos documentários selecionados para o projeto Viewfinder deste ano. Ele consiste em apoiar projetos cinematográficos independentes que contem histórias que retratem o impacto de grandes questões globais em contextos locais. Ele será o primeiro da série a ir ao ar pelo canal em inglês da Al Jazeera neste ano.

Pela América Latina neste ano, além de Ticket to Paradise, também foi escolhida para o programa neste ano a produção Occupying Brazil, do chileno Daniel Rubio, que aborda a ocupação de prédios vazios da capital paulista por pessoas sem-teto.

Pelo mesmo projeto, em 2013, foi veiculado o documentário Open Arms, Closed Doors, focado no rapper angolano Badharo, que mora na favela da Maré, no Rio, e que encontrou na música uma forma de se expressar contra aas dificuldades sociais que afligem a ele e outros imigrantes no Brasil.

O Viewfinder é promovido todos os anos. De acordo com informações do site da emissora, em breve estarão abertas as inscrições para a próxima edição do projeto. Acompanhe o site do programa para maiores informações

Vidas humanas não têm preço – sobre os bolivianos colocados à venda em São Paulo

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A triste realidade do tráfico humano encontrou um triste exemplo prático de sua existência no episódio dos jovens bolivianos colocados à venda por um compatriota na rua Coimbra, bairro do Brás, região central de São Paulo.

Das matérias publicadas na imprensa, certamente o Bolívia Cultural tem o relato mais completo sobre o caso – refazendo a trajetória dos dois jovens desde Sucre, cidade boliviana onde foram abordados por uma aliciadora, até a triste cena na rua Coimbra.

Apesar dos jovens estarem agora acolhidos em local seguro e esperando a volta à terra natal, o cheiro de impunidade fica no ar pela fuga do comerciante e pela forma com a qual a Polícia Militar atendeu a ocorrência, conforme relato da Folha de S.Paulo.

O tráfico de pessoas é um mercado que movimenta altas cifras de dinheiro mundo afora. Pessoas e empresas lucram usando seres humanos como mercadoria, tal qual no tempo da escravidão – o tráfico de pessoas é a expressão moderna dessa forma sinistra e perversa de comércio.

Desmantelar essas redes e combatê-las é um grande desafio para toda a comunidade internacional, que não pode e não deve fugir dessa missão. Governos, organizações globais e entidades locais devem se articular contra essa realidade. E as próprias sociedades, seja no Brasil ou mundo afora, precisam repreender, condenar e denunciar tais práticas. Qualquer forma de silêncio diante dessa realidade é assumir e defender o lado opressor.

A luta dos imigrantes nas fronteiras do Chile – canal 13

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A reportagem abaixo, feita pelo Canal 13, um dos principais do Chile, mostra um pouco da situação dos imigrantes de toda a América Latina e outros continentes que tentam entrar no país sul-americano via Bolívia e Peru.

Sem entrar no mérito de como o tema foi abordado e dos termos usados, a reportagem mostra que a imigração é uma questão a ser trabalhada, debatida e conhecida no mundo todo, independente do país – seja no âmbito das relações exteriores, seja como situação presente no cotidiano.

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E a exemplo do que acontece em notícias brasileiras sobre imigração, a área dos comentários deixadas por certos internautas exala um chorume dos mais fétidos com mensagens do tipo “Bayoneta, métete la bayoneta en la raja” ou “A estos culiao ahí que meterles bala” – o teor das palavras dispensa traduções para o português.

A imigração é um fenômeno tanto histórico como atual que ainda carece de um melhor entendimento, seja por parte dos governos como da maior parcela da sociedade.

Ouvindo e dando voz a refugiadas e egressas

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Em 2009, ainda como estudantes do terceiro ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (São Paulo), Karina Gomes e Paulo Scheuer gravaram o programa de rádio “Refugiadas e Egressas: Saudades da Terra, Recomeço no Brasil”. Foram apenas 20 dias entre o início das gravações e a finalização da reportagem, mas a dedicação valeu a pena. Ela foi a vencedora do Prêmio CBN de Jornalismo Universitário, naquele mesmo ano.

A reportagem pode ser ouvida neste link abaixo. É possível ainda ter acesso a um making off gravado com a dupla sobre o programa. A lista completa com todos os vencedores pode ser acessada aqui.

Vencedores do Prêmio CBN de Jornalismo Universitário de 2009

A reportagem foi feita com base nos depoimentos de mulheres refugiadas e estrangeiras egressas do sistema prisional na Casa de Acolhida Nossa Senhora Aparecida, então localizada no bairro da Liberdade, região central de São Paulo (atualmente está no bairro da Penha, zona leste de São Paulo. Muitas mulheres escolheram o canto como forma de espantar o sofrimento causado pelos traumas sofridos na terra natal e também no Brasil, além de amenizar a separação em relação aos entes queridos.

Fachada da antiga sede da Casa de Acolhida Nossa Senhora Aparecida, onde o documentário foi gravado. Crédito: Karina Gomes
Fachada da antiga sede da Casa de Acolhida Nossa Senhora Aparecida, onde o documentário foi gravado.
Crédito: Karina Gomes

Tais cantos, que expressavam sentimentos de dor e esperança para aquelas mulheres, acabaram ditando o andamento da reportagem e tornando-se seu grande diferencial. “Foi um contato humano, muito sensível com aquelas mulheres. Queríamos passar essa emoção na reportagem. E até hoje eu ouço as vozes daquelas mulheres e procuro apresentar uma dimensão humana nas reportagens que faço”, lembra Karina, que cita ainda a emoção notada nos próprios jurados do prêmio ao ouvirem a reportagem.

Documentário e outras matérias derivadas

Karina ressalta que muitos relatos emocionantes ficaram de fora do programa para a CBN, mas alguns deles acabaram aproveitados por ela e Paulo, desta vez ao lado de Helton Simões Gomes, no documentário “Casarão 247 – Saudades da Terra, Recomeço no Brasil”. A produção foi o Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo do trio.

O documentário sofreu um grande baque em suas gravações devido a uma incursão da Polícia Federal (PF) dentro da Casa de Acolhida, atrás de egressas supostamente fugitivas da Justiça. A partir desse episódio, muitas mulheres associaram a ação da PF à presença da câmera no local para o documentário, dificultando a coleta de novos depoimentos.

Karina Gomes, no lançamento do documentário no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo Crédito: Karina Gomes
Karina Gomes, no lançamento do documentário no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo
Crédito: Arquivo pessoal Karina Gomes

A saída encontrada pelo trio foi utilizar áudios colhidos durante as gravações para o programa na rádio CBN. Com essa medida emergencial, o documentário ganhou forma final e foi aprovado pela banca de avaliadores do TCC, além de ter sido lançado publicamente em março de 2012, durante o festival Curta MIS. A produção pode ser visto no YouTube, onde está dividido em duas partes.

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O interesse de Karina pelo tema não terminou com o programa de rádio e o documentário. Depois da faculdade, começou a trabalhar na rádio CBN e atualmente está fazendo um estágio na redação brasileira da emissora pública alemã Deutsche Welle. Lá, também fez matérias sobre refugiados que chegam ao Brasil para o programa Contraste, série focada em assuntos de política e Direitos Humanos, questões de desenvolvimento e meio ambiente, com destaque para a Alemanha e países lusófonos.

Sobre os demais integrantes das produções, Helton atualmente trabalha no portal G1. Já Paulo Scheuer virou arquiteto e edita uma revista de arquitetura.

Imigrantes recebem instruções sobre eleição inédita para Conselhos Participativos de São Paulo

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Os imigrantes que vivem no Brasil podem ainda não ter direito a voto – uma das suas grandes reivindicações. Mas em São Paulo, ao menos, poderão eleger e serem eleitos para os Conselhos Participativos Municipais de 21 das 32 subprefeituras da capital cuja população de migrantes seja superior a 0,5% do total, de acordo com o Censo 2010.

A eleição será realizada em 30 de março, das 8h às 17, na Praça das Artes (avenida São João, 281, Centro). Os imigrantes deverão comparecer ao local portando declaração de residência e um documento oficial (podendo ser do país de origem), com foto.

Rogério Sottili, da SMDHC, fala da importância da participação dos imigrantes na eleição para os Conselhos. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Rogério Sottili, da SMDHC, fala da importância da participação dos imigrantes na eleição para os Conselhos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

E com o mote “Imigrante, chegou a hora de votar”, a Coordenação de Políticas para Imigrantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) promoveu nesta segunda-feira (10) uma roda de conversa no auditório da pasta para instruir tanto eleitores como potenciais candidatos sobre o processo. O evento contou com a participação do secretário Rogério Sottili, que destacou a importância da participação dos imigrantes no pleito:  “É importante que os imigrantes se mobilizem em torno dessas eleições porque é por meio do voto que eles vão participar efetivamente das decisões da cidade”.

Em quatro idiomas, cartilha distribúída no evento contêm as principais informações sobre a eleição. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Em quatro idiomas, cartilha distribuída no evento contêm as principais informações sobre a eleição.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Uma pequena cartilha com as principais informações, escrita em quatro idiomas (português, inglês, espanhol e francês) foi distribuída aos presentes no encontro para instrui-los sobre o processo. Maiores informações sobre todo o processo eleitoral (quem pode votar e se candidatar e como, que documentos podem ser usados, entre outras) estão disponíveis no site da Prefeitura. As inscrições dos candidatos começaram em 27 de janeiro e vão até o próximo dia 27.

Impressões sobre o encontro e preparação

“Ao propor uma eleição de imigrantes, São Paulo mostra ao Brasil que essa população é importante para a cidade e para o país. E ela será muito mais visível ainda através do direito ao voto”, diz Paulo Illes, coordenador de políticas para imigrantes da Prefeitura.

Talvez até pelo ineditismo da iniciativa, os imigrantes ainda possuem dúvidas básicas sobre o processo. A questão ainda preocupa Illes, que aposta na atuação conjunta do poder público e dos próprios imigrantes para contornar tal dificuldade. “O tempo de mobilização que temos é curto para que a gente possa de fato chegar a todos os imigrantes. Vai depender muito de um empenho da nossa parte, das lideranças imigrantes e dos candidatos”.

Marília Ruiz, coordenadora-adjunta de Política de Participação Social da SMDHC, explica que funcionários públicos e comissionados serão convocados junto às secretarias para trabalharem na eleição e receberão as instruções necessárias para o trabalho na eleição. Além disso, serão contratados tradutores e intérpretes em alguns idiomas para que possam nos ajudar a orientar os candidatos e eleitores que aparecerem no dia.

Imigrantes de diversas nacionalidades marcaram presença no evento. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Imigrantes de diversas nacionalidades marcaram presença no evento.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Os imigrantes presentes no encontro aprovaram a iniciativa. “A eleição é importante tanto para os imigrantes como brasileiros, para dar uma oportunidade de conhecer as dificuldades que os imigrantes têm aqui”, destaca Moussa Sangaré, do Mali e integrantes da União Malinesa em São Paulo no Brasil (UMSPB). O também malinês e integrante da associação, Adama Konate, concorda com o compatriota “Acho que foi muito legal, a conversa falou das coisas que precisávamos saber. Vamos ver como vai ser no dia da eleição”, disse.

Francesa Cosentino, da Itália, destaca a possibilidade de os imigrantes poderem tirar dúvidas sobre quem pode ou não participar da eleição. “Achei importante esclarecer as formas para os estrangeiros participarem, além do espaço de diálogo e a possibilidade das pessoas tirarem dúvidas”.

“É um primeiro passo de participação. Em geral a maioria dos países não negam direitos, mas sim a cidadania, o que impede o acesso aos direitos”, lembra Eduardo Carlson, do Paraguai. O exercício de cidadania e inclusão dos migrantes também foi destacada pela equatoriana Jenny De La Rosa, independente da situação migratória da pessoa. “Finalmente a cidade de São Paulo está mostrando que os imigrantes estão aqui e que é preciso fazer algo por eles”.

Saiba mais sobre os Conselhos Participativos

O Conselho Participativo Municipal é um organismo de atuação da sociedade civil que visa ampliar a participação popular e a transparência nas subprefeituras. A função dos conselheiros eleitos (incluindo os imigrantes) é exercer o controle social no planejamento, fiscalizar as ações e gastos públicos nas regiões e sugerir ações e políticas públicas. Os conselheiros não recebem qualquer tipo de remuneração pela participação.

A presença significativa de imigrantes na cidade de São Paulo levou a Prefeitura a criar um mecanismo que permitisse a inclusão destes nos Conselhos. A iniciativa se deu por meio do Decreto 54.645, que oficializou a criação de uma cadeira de Conselheiro Extraordinário nos Conselhos Participativos Municipais de 21 das 31 Subprefeituras de São Paulo em que a presença imigrante corresponde a, no mínimo, 0,5% (meio por cento) da população local, de acordo com os dados do Censo 2010 do IBGE.

Dessas regiões, a Subprefeitura da Sé será a única a contar com duas cadeiras. A relação completa de Subprefeituras que terão cadeiras especiais para migrantes consta na página 4 do arquivo citado no começo da reportagem. Para saber exatamente a que subprefeitura pertence determinada rua, avenida, praça, etc, basta entrar no site Geo.sp e digitar o endereço desejado.

Sem acordo, projeto que aprova a OIM no Brasil continua parado na Câmara

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Depois de anos de tramitação no Congresso Nacional, era esperada para a última quinta-feira a votação do Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1295/13, que aprova o acordo assinado entre o governo brasileiro e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), em abril de 2010, para defender a dignidade humana e o bem-estar dos migrantes. Era, porque o projeto não foi votado.

Segundo informações da Agência Câmara, o projeto estava na pauta do último dia 6, mas foi retirado por falta de acordo. Esta é a segunda vez que o acordo é retirado da pauta da Câmara – a primeira vez havia sido em 12 de dezembro do ano passado.

Pelo menos até o momento, não há informações sobre uma nova data prevista para o acordo entre o governo brasileiro e a OIM ser votado pela Casa (a nota sobre a falta de acordo no plenário está no final da matéria da agência).  No site da Câmara dos Deputados, onde é possível acompanhar o status de cada projeto em tramitação na Casa, o PDC 1295/2013 permanece como “pronto para pauta no plenário”, o que indica uma possível apreciação do projeto em breve.

Longo caminho

Em 26 de setembro, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara deu parecer aprovando o acordo da OIM com o governo brasileiro, assinado em 13 de abril de 2010. O início das conversas entre o Brasil e a OIM, no entanto, datam de 2004, quando o então chanceler Celso Amorim enviou carta à OIM apresentando solicitação de ingresso do Brasil na Organização.

Com sede mundial em Genebra (Suíça), a OIM foi fundada em 1951 e tem como objetivos defender a dignidade humana e o bem-estar dos migrantes. Em abril deste ano, por exemplo, o governo federal anunciou parceria com o organismo para consolidar dados das rotas usadas pelos haitianos que chegam ao país, assim como os riscos a que são submetidos.

Sem o aval formal do Congresso, a OIM não pode estabelecer em plenitude projetos e iniciativas que já desenvolve em quase todos os países nos quais já está presente, limitando a atuação da entidade. Dentre as diversas iniciativas estão a promoção de oficinas de capacitação de imigrantes e agentes públicos, ações de prevenção e combate ao tráfico humano, reassentamento de imigrantes e atuação em situações de emergência humanitária.

Mesmo sem o acordo aprovado, o Brasil já consta na lista de Estados-membros da OIM, atualizada em dezembro de 2013. A entidade já trabalha em colaboração com organismos federais no auxílio de políticas e iniciativas relacionadas aos imigrantes – entre elas a Conferência Nacional de Migração e Refúgio (Comigrar), prevista para ocorrer em maio deste ano.

The Refugee Project, um atlas da migração forçada humana

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Um mapa que permite visualizar os fluxos de refugiados no mundo de 1975 a 2012, seja por país ou de forma global. Parece improvável, mas essa ferramenta existe de fato e se chama The Refugee Project, desenvolvida pelo escritório de design nova-iorquino Hyperakt e pelo designer nigeriano-americano Ekene Ijeoma.

O projeto reúne dados disponibilizados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur, na sigla em português) e pela URNWA, agência da ONU voltada especificamente aos refugiados palestinos. Esse material é aliado de forma interativa a contextualizações históricas sobre os eventos que precipitaram tais movimentos migratórios, tornando-o uma importante ferramenta de consulta para jornalistas, pesquisadores e estudantes de diversas áreas.

Crédito: Reprodução/The Refugee Project
Crédito: Reprodução/The Refugee Project

Visualizar essa situação para ajudar a incentivar ações por parte de governos, instituições e pessoas em prol dessa população é um dos objetivos do portal. No site, há um botão de doação, que direciona o usuário para o site da comissão de refugiados da ONU, a Acnur.

O projeto não contabiliza as pessoas que migram por motivos econômicos e que estão indocumentados, nem os chamados deslocados internos (que tiveram de deixar suas casas, mas ainda estão no país de origem).

Para este ano a proporção de refugiados em relação à população mundial deve ser ainda maior, considerando a continuidade dos conflitos na Síria e novas crises humanitárias em locais como Sudão do Sul e República Centro-Africana. É de se esperar que uma futura atualização do projeto englobe esses novos fatos.

Todos os dias, em várias regiões do planeta, pessoas são forçadas a deixarem suas casas para fugir da morte e perseguições diversas, muitas vezes tendo apenas a roupa do corpo.  Segundo as Nações Unidas, em 2012, uma pessoa a cada 665 no mundo era considerada refugiada.

Refugiados no Brasil e do Brasil

De acordo com o The Refugee Project, o Brasil contabilizava 4.715 refugiados de 77 nacionalidades vivendo no país em 2012, um para cada 42.156 habitantes – Angola (1.689), Colômbia (742) e República Democrática do Congo (514) formam o “top 3” de refugiados vivendo no país.

O projeto traz ainda um dado interessante e pouco conhecido, o de refugiados brasileiros em outros países. Em 2012, de acordo com o The Refugee Project, eram 1.076 pessoas nessa condição, a maioria delas vivendo nos EUA, Canadá e Alemanha.

Vítimas de tortura e violência, medo de perseguição e de policiais corruptos, milicianos e traficantes e drogas, ativistas ameaçados de morte e testemunhas de crimes cometidos por agentes policiais são os principais motivos dos brasileiros para solicitar refúgio. O jornal Folha de S.Paulo fez uma matéria bem interessante sobre o assunto, inclusive atualizando o total de refugiados brasileiros no mundo para 1.208 – a partir de um levantamento da Acnur feito a pedido do jornal.

Com informações da Folha de S.Paulo e do blog da Paula Gomes, focado em Relações Internacionais

Em nova fase, exposição “Ser Imigrante” chega ao metrô de São Paulo

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Você já parou para pensar nas condições que determinam a aceitação ou não de quem migra para o Brasil, seja em caráter temporário ou permanente? Pois é esse o objetivo da exposição “Ser Imigrante”, que chega hoje à estação República do metrô de São Paulo.

Exposição Ser Imigrante vai até o próximo dia 30 de março Crédito: Museu da Imigração
Exposição Ser Imigrante vai até o próximo dia 30 de março
Crédito: Museu da Imigração

A mostra é pautada na questão das políticas migratórias do Brasil e o quanto isso reflete na imagem do imigrante, ontem e hoje, com base em depoimentos diversos, registros históricos e materiais extraídos da imprensa. Uma das instalações convida o visitante a entrar em uma espécie de prisma no qual ele se vê diante de todos os termos -positivos ou pejorativos – em geral associados ao imigrante.

Além disso, o visitante é convidado a pegar um passaporte e participar de um jogo que o ajuda a entender o passo a passo da burocracia à qual o imigrante é submetido ao chegar ao país – um caminho que muitas vezes não é claro e que rende grande insegurança para o imigrante. Em suma, é um exercício que chama a atenção para a necessidade de se discutir uma nova legislação migratória brasileira.

Ao pegar seu passaporte para a exposição, você pode ter a "agradável" surpresa de ter seu visto deferido ou negado sem saber bem ao certo o porquê Crédito: Museu da Imigração
Ao pegar seu passaporte, você pode ter a “agradável” surpresa de ter seu visto deferido ou negado sem saber ao certo o motivo
Crédito: Museu da Imigração

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de março de 2014 e disponibiliza visita orientada de segunda a sexta-feira das 10h às 20h, e aos sábados e domingos das 10h às 18h. O agendamento de grupos pode ser feito pelo do telefone (11) 2692-1866 (veja também o serviço ao final do post).

Nova fase

A ida ao metrô expressa uma nova fase na exposição, que ficou entre 12 de novembro de 2013 e 12 de janeiro deste ano ao lado da Igreja Nossa Senhora dos Ferroviários, no limite entre os bairros da Mooca e do Brás – bairros com heranças das migrações históricas e que também convivem com os fluxos contemporâneos – e feita em parceria com o Arsenal da Esperança, que atende cerca de 1.200 moradores de rua por noite (segundo a própria instituição, cerca de 20% deles são imigrantes).

Segundo Marília Bonas, diretora-executiva do Museu, a ideia da mostra era de promover a aproximação do trabalho feito pela instituição e pelo Arsenal com os moradores do entorno. “Muitas vezes eles não entendem o que é o trabalho do Arsenal ou do Museu e acabam às vezes reafirmando, por desconhecimento, uma cultura conservadora”.

Com a chegada ao metrô,  a exposição quer ampliar ampliar o debate sobre ser imigrante e aproximá-lo da sociedade. Crédito: Museu da Imigração
Com a chegada ao metrô, a exposição quer ampliar ampliar o debate sobre ser imigrante e aproximá-lo da sociedade.
Crédito: Museu da Imigração

Marília conta que a exposição teve boa aceitação junto aos moradores e atingiu seu objetivo junto à comunidade. “Agora temos muitos apoiadores aqui no entorno, pessoas felizes com a reabertura próxima do Museu, o que é muito gratificante”. Agora no metrô, a missão é ampliar o debate sobre ser imigrante e de aproximá-lo da sociedade. Existe ainda a ideia de associar a mostra a outras atividades culturais, promovidas pelas próprias comunidades de imigrantes e descendentes.

Os acontecimentos recentes de agressões a imigrantes dentro do metrô tornam o debate e as reflexões propostas pelo Museu da Imigração ainda mais atuais e urgentes. “É uma maneira de o Museu trazer essa discussão para o espaço no qual aconteceram esses fatos, de despertar as pessoas do desconhecimento do que é a fronteira de ser imigrante ou não, ser documentado ou não, e do grau de insegurança e vulnerabilidade que isso gera para essas pessoas”, explica Marília.

Reabertura do Museu da Imigração a caminho

A mostra “Ser Imigrante” faz parte ainda de uma série de eventos preparados pelo Museu da Imigração que antecedem a reabertura das suas instalações físicas, prevista ainda para o primeiro semestre deste ano.

Antigamente chamado de Memorial do Imigrante, o Museu assumiu a nova nomenclatura em 2010, quando a Hospedaria do Brás – que serviu de morada para milhares de migrantes e abrigava o Memorial – começou a ser restaurada. De acordo com Marília, a mudança faz parte de um reposicionamento geral da instituição. “O Museu da Imigração chega com uma proposta que tem como objetivo maior ampliar a discussão não só em um ponto de vista memorialista, associado às migrações dos séculos XIX e XX, mas também chegar até a contemporaneidade e falar do direito de imigrar como um movimento humano e associar a questão do direito de imigrar à construção da identidade de São Paulo”.

As obras devem ser concluídas já no próximo mês, permitindo o início do processo de reinstalação do Museu. Após a retomada das atividades, o Museu pretende fomentar a discussão sobre o patrimônio relacionado aos processos migratórios ligados a São Paulo. Outro objetivo é de se tornar um espaço de articulação, promovendo reflexões sobre a experiência do deslocamento e a construção da identidade paulista a partir de múltiplas origens.

O que é ser imigrante?

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O que é imigração para você? E o que é ser imigrante? Independente do país de origem ou do local onde vive hoje, as sensações (boas e ruins) se repetem. Existem os medos, as incertezas, mas também todo o aprendizado e a esperança de tentar uma nova vida – e uma vez conquistada, uma grande alegria nos olhos daquele que a alcança e a constrói.

Cada imigrante certamente tem uma história, uma trajetória particular que ajuda a enriquecer o já grandioso e complexo mundo das migrações. E é por isso que o blog MigraMundo inicia uma nova série, chamada O que é ser imigrante? 

Em breve, diferentes histórias serão contadas e compartilhadas por meio deste espaço. E que elas possam ajudar a entender melhor esse complexo e instigante fenômeno que são as migrações.

Para o imigrante, o mundo não tem fronteiras

Imigração é um dos temas mais antigos da nossa sociedade. Normalmente a primeira imagem que se vem a cabeça quando falamos em imigração é de pessoas indo ou vindo em um navio ou em um aeroporto, igual aquelas fotos antigas que se veem em livros de história ou museus. Porém, é interessante notar que a imigração não é só um privilégio humano, também existe no mundo animal e talvez até com mais frequência e sem fronteiras. Como podemos ver, imigração é um tema muito amplo, mas falaremos da imigração humana, suas complicações e altos e baixos, assim como também o seu lado positivo.

O imigrante sofre em novas terras. É como se fosse um novo parto. O adulto vira criança e tem de voltar a aprender a engatinhar. As crianças já veem como uma aventura de filme ou livro, que faz a experiência ser mais tranquila, mas sem dúvidas também passam por suas dificuldades e adaptações – e até medo, quem sabe. A verdade é que dói deixar o seu país, familiares e amigos para trás e partir para o estrangeiro, para o desconhecido. Mesmo que seu país tenha múltiplos problemas sociais, guerras e questões que parecem estar longe de qualquer solução, a verdade é que ali está sua zona de conforto, sua terra firme ou fortaleza, onde você já faz parte. Sair dali e ir para o estrangeiro sem conhecer a língua nativa, os problemas do novo lugar, sem conhecer pessoas é um grande ato de coragem. O imigrante é um guerreiro, que deixou sua casa, família e foi para a batalha. Suas armas são a esperança, a humildade e o pensamento positivo, a braveza de saber que terá muitas quedas e tropeços – mas que vai conseguir se levantar e continuar na batalha até vencer. Essa esperança que o faz levantar é a mesma esperança que o faz ver o lado positivo de cada experiência, positiva ou negativa, de ser imigrante.

As experiências que ele vai ganhar a cada dia neste novo lugar que um dia ele irá, ou não, chamar de “sua casa”; o legado que ele deixará na sua própria vida, para seus filhos e netos, de ter sido um guerreiro na batalha da vida; que não desistiu ao sentir medo ao olhar nos olhos do futuro – que para o imigrante é incerto; as batalhas contra o preconceito, a exploração (digo em termos de trabalho e salários) e as incertezas que vão sendo vencidas aos poucos. O fato de ter um emprego melhor que o que tinha em seu país, a sensação de segurança, uma escolaridade melhor são alguns dos fatores que o imigrante busca ao sair de casa. Mas sem dúvida alguma a experiência de vida é a melhor parte de ser imigrante. As lições de vida que aprendidas, que muitas vezes doem e machucam, também fazem crescer e abrir a mente, fazem rir, criar alegria, nos fazem sorrir. Os amigos que irão surgir, a nova língua que um dia será fluente, uma nova cultura – que talvez nunca iremos aderir à ela, mas que sem duvidas irá nos abrir a mente. Em suma, sermos pessoas mais receptíveis aos outros, ao “diferente”. 

Isso é a imigração, que faz com que o ser humano cresça, como se tivesse saindo do ventre de sua mãe pela segunda vez em sua vida. E como na primeira vez, dói. Porém, logo a dor passa e começa o crescimento. Batalhar contra todas as adversidades, sempre sendo positivo e se alegrar com os novos amigos, as novas aventuras que formam um legado na vida de cada imigrante, de cada guerreiro. Para o imigrante, o mundo não tem fronteiras.

Um mundo de migrantes – infográfico do El País

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O jornal espanhol El País elaborou um infográfico bem interessante que dá a dimensão do movimento migratório desde 1990 até os dias atuais. O ano de 2013 contabilizou nada menos de 232 milhões de migrantes internacionais (forçados ou não), 78 milhões a mais que em 1990 (em torno de 150 milhões).

http://elpais.com/especiales/2014/planeta-futuro/mapa-de-migraciones/

A partir do mapa, é possível visualizar para cada país como foi o fluxo em quatro momentos (1990,  2000, 2010 e 2013). Basta escolher um e navegar.

A evolução recente do movimento migratório no Brasil pode ser notada pelo infográfico. De acordo com o mapa, o país registrava cerca de 700 mil estrangeiros vivendo em território nacional em 1990, cifra que caiu nos anos seguintes até chegar a 592.568 pessoas em 2010. No entanto, ao pegar dados de 2013, o total já sobe para 599.678 – e o número deve crescer ainda mais nos próximos anos.