Após quase quatro anos de espera e diversos adiamentos nos últimos meses, enfim a Câmara dos Deputados votou e aprovou o acordo entre o governo brasileiro e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), assinado em abril de 2010. A entidade tem como objetivos defender a dignidade humana e o bem-estar dos migrantes.
Logo da OIM (IOM, na sigla em inglês). Crédito: Reprodução
A proposta, votada em sessão extraordinária no último dia 13, ainda precisa passar pelo Senado antes de ir à sanção presidencial. Ela autoriza, por exemplo, a OIM a abrir escritório no Brasil e a ter os mesmos privilégios e imunidades concedidos às agências especializadas da Organização das Nações Unidas (ONU) instaladas no País. Entre os privilégios está a isenção tributária para os ativos, rendas e outros bens da organização.
Mesmo ainda sem a aprovação do acordo que libera a OIM para exercer em plenitude suas atividades, a entidade já vem trabalhando em parceria com o governo brasileiro em projetos pontuais. Um deles é a organização da Conferência Nacional de Migrações e Refúgio (Comigrar), que deve ocorrer entre 30 de maio e 1° de junho deste ano. Outra iniciativa conjunta entre governo e OIM é a consolidação das rotas usadas pelos haitianos que entram no país, assim como os riscos a que são submetidos.
Em entrevista ao blog, o representante da OIM na América do Sul, Jorge Peraza, confiava que em breve a questão seria resolvida e a organização poderia desenvolver em plenitude o trabalho já aplicado em países vizinhos e mundo afora.
No próximo dia 30 de março, 49 candidatos e candidatas devem concorrer às Cadeiras Extraordinárias de Imigrantes nos Conselhos Participativos de 19 das 32 Subprefeituras de São Paulo. Os dados, que já haviam sido divulgados no último dia 17, foram atualizados com a publicação da lista oficial de candidatos na edição de hoje (20) do Diário Oficial da Cidade de São Paulo.
Em relação à lista anterior, uma pessoa teve candidatura deferida, outra desistiu da eleição e mais duas candidaturas foram indeferidas. Ainda assim, a Subprefeitura da Sé continua sendo a região com maior número (11), seguida por Mooca (8), Penha, Vila Mariana e Ipiranga (4).
A eleição será realizada das 8h às 17h, na Praça das Artes (avenida São João, 281, Centro). Os imigrantes deverão comparecer ao local portando declaração de residência e um documento oficial (podendo ser do país de origem), com foto.
Em quatro idiomas, cartilha distribuída na roda de conversa traz as principais informações sobre a eleição do próximo dia 30. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Cada candidato aprovado coletou um mínimo de cem assinaturas de apoio à sua candidatura à cadeira especial nos conselhos. O portal Bolívia Cultural já abriu espaço a todos os candidatos que desejarem expor suas propostas.
O processo eleitoral, iniciado oficialmente em 27 de janeiro, permite pela primeira vez na cidade que imigrantes possam votar e sejam votados para os Conselhos de 21 das 31 subprefeituras da capital paulista que possuem ao menos 0,5% da população composta por imigrantes. No entanto, algumas dessas Subprefeituras não terão a eleição especial porque não tiveram nenhuma candidatura de imigrante registrada.
Para instruir tanto eleitores como potenciais candidatos sobre esse processo inédito, uma roda de conversa com os imigrantes foi organizada no último dia 10 de fevereiro pela Coordenação de Políticas para Imigrantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC).
Veja abaixo a lista atual dos candidatos às cadeiras especiais, de acordo com a Subprefeitura na qual vão concorrer. O Diário Oficial desta quinta-feira (20) traz ainda os números de cada candidato para a eleição
Butantã Werner Regenthal
Campo Limpo
Adelio Villalba Martinez
Casa Verde
Leonardo Zocca
Ermelino Matarazzo
Monica Rodriges Ulo
Freguesia do Ó
Gregory Edwin Fischer
Ipiranga
Ahmad Ali
Maria Lucia de Azize Freitas Gomes
Olga Luiza Leon de Quiroga
Rocco Procida
Jabaquara
Samuel Dany Santos Anez
Jaçanã
Jose Luis Martins Teixeira
Lapa
Ives Stazik Berger Vigueiras
Mooca
Adama Konate
Domenico Di Bisceglie
Eliseo Condori Cazas
Emilia Gallo Gambale
Luis Vasquez Mamani
Mauro Gallotta
Raul Heriberto Uria Aguirre
Sun Shih Cheng
A Procuradoria Regional da República da 3ª Região (PRR-3), em São Paulo, sediou nesta quinta-feira duas mesas de debates sobre tráfico de pessoas, em mais um exemplo da importância de se discutir, conhecer e enfrentar esse crime.
Público marca presença na sede da PRR-3 Crédito da foto: Rodrigo Borges Delfim
A primeira mesa teve como tema “A contribuição do Ministério Público Federal (MPF) na Política Nacional de Enfrentamento do Tráfico de Pessoas”, da qual participaram os procuradores-gerais Nilce Cunha Rodrigues (PR/CE) e Daniel Resende Salgado (PR/GO), com mediação de Samantha Chantal Dobrowolski (PRR-3).
Nilce, que lembrou as articulações do MPF dentro e fora do Brasil nos últimos anos, destacou a desigualdade como um elemento preponderante para o tráfico de pessoas, uma vez que esta deixa a pessoa fragilizada e a torna presa fácil para os criminosos. “A desigualdade social e econômica é fator decisivo para ensejar o tráfico. Ninguém explora seus iguais. Sempre aquele mais fraco é que é explorado”, destaca a procuradora.
A procuradora Nilce Rodrigues, durante evento na PRR-3 Crédito: Rodrigo Borges Delfim
A questão da desigualdade também foi lembrada pelo procurador Daniel Salgado, que falou mais especificamente sobre os meios usados hoje para reprimir o crime. Com base no planejamento e experiências obtidas pelo grupo de trabalho (GT) que ele coordena sobre o tema. Entre elas, destacou a dificuldade em lidar com os diferentes entendimentos mundo afora sobre o que é tráfico humano e com uma visão ainda muito criminal do tema em geral – há países que, inclusive, usam o tráfico humano como motivação para reprimir a imigração.
O procurador Daniel Salgado, também presente no debate da RRF Crédito: Rodrigo Borges Delgfim
Dentre as políticas e ferramentas já adotadas após as recomendações do GT, Salgado cita a adoção do termo “ofendido” no lugar de “vítima” devido à complexidade do assunto. “É preciso tentar evitar a re-memorização do trauma sofrido pelo ofendido”, frisa.
Evento marca lançamento de livro
A mesa seguinte foi a de lançamento do livro “Tráfico de Pessoas: uma abordagem para os direitos humanos”, que tem como objetivo fortalecer a compreensão de que essa temática só pode ser percebida e enfrentada na perspectiva da proteção e da promoção dos direitos humanos.
Capa do livro “Tráfico de pessoas – uma abordagem para os direitos humanos”, distribuído no evento e disponível na internet Crédito: Rodrigo Borges Delfim
A obra é fruto de uma parceria entre a Secretaria Nacional de Justiça (Ministério da Justiça) e o Instituto de Estudos Direito e Cidadania -IEDC. O livro foi distribuído gratuitamente no dia do lançamento, mas também pode ser obtido em versão digital no Portal do Ministério da Justiça, além de outras publicações da pasta.
As mulheres migrantes sofrem uma dupla vulnerabilidade: além das discriminações de gênero em geral aplicadas pelo machismo e sexismo presentes na cultura de tantos países (Brasil incluso), elas ainda precisam lidar com as dificuldades e questões que recaem sobre os imigrantes de um modo geral.
É justamente contra esse quadro e buscando saídas para ele que a ONG Presença de América Latina, o Projeto Si, Yo Puedo e a Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas promovem no próximo sábado (15) um evento para debater, formular e levar propostas voltadas às mulheres migrantes à COMIGRAR (Conferência Nacional de Migrações e Refúgio). O ato será no auditório do Memorial da Resistência, em São Paulo, das 14h às 18h.
Evento convoca mulheres migrantes para se unirem e elaborar propostas para a COMIGRAR Crédito: Reprodução
Chamada de “Mujeres Inmigrantes, unidas somos más fuertes”, a iniciativa visa dar maior destaque às necessidades específicas do gênero feminino dentro da temática migratória, evitando assim que reivindicações e demandas das mulheres migrantes fiquem de fora das discussões na Conferência.
O evento conta ainda com o apoio da Red de Mujeres Inmigrantes en Brasil e do Memorial da Resistência de São Paulo.
Serviço:
Local: Auditório do Memorial da Resistência de São Paulo
Largo General Osório, 66 – São Paulo (SP)
Entrada: gratuita
É necessário confirmar presença por meio do e-mail contato.pal@gmail.com ou pelo telefone com Patricia Vega (975553-3952).
Como uma pessoa do sexo masculino poderia escrever sobre o Dia Internacional da Mulher, independente de sua origem, cultura, idioma? Como prestar uma humilde homenagem que seja a um ser tão especial e poderoso (com o dom de dar à luz a um outro ser, por exemplo), mas que ao mesmo tempo sofre com as burrices históricas e contemporâneas ainda pregadas pelo machismo, sexismo e pela mentalidade patriarcal presentes na cultura brasileira e de tantos outros povos?
Ilustração da COMIGRAR para o Dia Internacional da Mulher. Crédito: Reprodução/COMIGRAR
Bom, penso que uma bela e permanente homenagem à mulher – seja ela quem, quando e de onde for – é jogar fora as piadinhas e brincadeiras idiotas que ouvimos desde a infância sobre mulheres e gêneros. Acredito que este já é um grande começo, o primeiro passo – não dizem por aí que o primeiro passo é o mais difícil?
Pois bem: nada de dizer que lugar de mulher “é na cozinha”, ou “pilotando tanque de lavar roupa” ou qualquer outra referência a serviços domésticos. E tampouco dizer “aproveite seu dia de hoje, porque amanhã volta tudo ao normal” – ao ler isso hoje em um perfil no Facebook, tive vontade de ir ao banheiro e vomitar. E ao contrário do que disse recentemente um certo ator de rostinho bonitinho e categoria C da Rede Globo, “um pouquinho de machismo” não é bom para ninguém e tampouco “coloca ordem na casa”.
Arranque de seu vocabulário essas e outras tantas expressões e ideias ridículas e o primeiro passo para jogar no lixo o machismo que insiste em ficar impregnado em si na sociedade em geral terá sido dado. Não adianta desmanchar-se em homenagens às mulheres no dia de hoje – enchê-las de beijos, abraços, flores e chocolates – e desligar a chave no seu cérebro no restante do ano.
Se mesmo depois desse passo você cair em tentação e soltar alguma pérola machista, não deixe seu instinto pré-histórico e selvagem tomar conta de si e reconheça o erro. Reconheça-o para não o cometê-lo novamente. Caso contrário, seja mal vindo de volta à estaca zero.
Não apenas as mulheres, nativas ou migrantes, mas o mundo todo agradece por um ser e uma sociedade menos preconceituosa, machista e sexista.
Feliz Dia Internacional da Mulher – não apenas hoje, mas nos demais dias do ano.
Seres humanos tratados como mercadoria. Sim, a escravidão, tema tão presente e vergonhoso ao longo da história, ainda continua à solta – agora sob seu nome moderno, o tráfico humano. Exemplos não faltam, seja na zona rural ou em cidades de todos os portes Ou você já se esqueceu dos dois jovens bolivianos recentemente colocados à venda em plena luz do dia em São Paulo?
Crédito: CNJ
Silenciar sobre o tráfico humano, um verdadeiro crime contra a humanidade que movimenta cerca de US$ 32 bilhões por ano (dados da ONU), é a mesma coisa que defendê-lo. Pensando justamente nesse urgente exame de consciência e necessário posicionamento contra essa realidade vergonhosa que todos precisam ficar atentos à Campanha da Fraternidade deste ano, que tem o combate ao tráfico humano como tema. O lançamento oficial foi feito nesta Quarta-Feira de Cinzas (5) pela CNBB (Congregação Nacional dos Bispos do Brasil), com o lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.
O artigo que escreveu sobre a CF, ao lado de Xavier Plassat, é um belo símbolo dessa união mais do que necessária de entidades laicas e religiosas contra o tráfico humano. O primeiro é fundador e coordenador da Repórter Brasil, ONG com um longo e importante histórico na luta contra o trabalho escravo no país; já o segundo é frei dominicano e coordenador da campanha pela erradicação do trabalho escravo da Comissão Pastoral da Terra (ligada à CNBB).
Poster oficial da CF 2014. Crédito: Reprodução
Intitulado Campanha da Fraternidade: onde está seu irmão?, o texto mescla elementos bíblicos, mobilizações anteriores e dados atuais sobre a transformação do ser humano em mercadoria. E ao final, lança uma pergunta que precisa martelar na mente de todo e qualquer cidadão, independente da crença: “E, você, que veste as roupas produzidas por tantos Josés, come o fruto de seu trabalho e mora em residências erguidas por suas mãos, saberia responder onde, neste momento, está teu irmão e tua irmã?”
Mais material de apoio
Ainda aproveitando o debate sobre o tema, está disponível no site do Ministério da Justiça a íntegra da Matriz Nacional de Formação para o Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. O documento técnico serve de referência para a realização articulada, integrada e contínua das ações e cursos de capacitação e formação para o enfrentamento ao crime. O material pode auxiliar em cursos e debates sobre o tema.
A aprovação do acordo que ratifica o ingresso do Brasil na OIM (Organização Internacional para as Migrações) continua parado no Congresso Nacional (o projeto não foi apreciado na Câmara, no último dia 27, por falta de quórum). Mas o representante da entidade na América do Sul, o argentino Jorge Peraza, confia que em breve essa barreira será vencida e a OIM poderá desenvolver em plenitude os projetos que já integra em outros países.
Ainda de acordo com Peraza, o Brasil é o único país da América do Sul que ainda não conta com uma oficina da OIM. Nessas oficinas, são desenvolvidas com maior profundidade as diversas iniciativas empreendidas pela organização, dedicada a promover a migração em benefício de todos – os projetos variam de acordo com a realidade migratória de cada país. Maiores informações sobre a série de trabalhos empreendidos pela OIM mundo afora podem ser obtidas por meio da página da entidade.
Logo da OIM (IOM, na sigla em inglês). Crédito: Reprodução
Mesmo assim, a OIM já trabalha em parceria com o governo brasileiro em frentes específicas, entre elas na elaboração da COMIGRAR (Conferência Nacional de Migrações e Refúgio), confirmada para ocorrer entre 30 de maio e 1° de junho em São Paulo.
Na entrevista abaixo, Peraza fala um pouco sobre trabalhos já desenvolvidos em outras nações e dos planos reservados para o Brasil assim que o acordo entre o governo e a OIM for ratificado.
Na sua opinião, o que representa para a OIM o ingresso do Brasil?
Há algum tempo Brasília já havia manifestado interesse em ingressar na OIM (o início das conversas entre Brasil e a entidade datam de 2004). No entanto ainda faltam as ratificações por parte do Congresso e da Casa Civil para o ingresso ser válido. Se não fosse as demoras nesses procedimentos, já teríamos a oportunidade de nos estabelecer e estabelecer oficinas no brasil. E confiamos que, dada a conjuntura e a importância que o movimento migratório vem assumindo no Brasil nos últimos meses, poderemos concretizar o acordo da OIM com o Brasil e a futura abertura das oficinas, que vão nos permitir trabalhar de maneira mais próxima com o governo e outras entidades da sociedade civil e internacionais em uma agenda que permita que o Brasil esteja mais preparado para atuar em assuntos migratórios.
Como a OIM trabalha nos países nos quais já está plenamente estabelecida?
A OIM é um organismo internacional e o único totalmente especializado em questões migratórias. Nossa principal ação é chamar os governos e autoridades para definir as políticas migratórias e implementá-las por diferentes meios. Por exemplo, junto às autoridades que atuam no ingresso de pessoas que chegam ao país (no caso do Brasil, o Ministério da Justiça); quando se discutem fluxos migratórios laborais, atuamos junto ao Ministério do Trabalho; também temos trabalhado com a situação dos brasileiros no exterior junto ao Itamaraty, que é a autoridade competente no caso.
O tema migratório é bem complexo nesse sentido, com muitas dimensões. E para poder trabalhar essas múltiplas facetas é preciso estabelecer alianças com diferentes atores, de governos a organizações da sociedade civil – muitas delas que têm um trabalho direto com a população migrante e sua integração. No caso do Brasil, já firmamos um acordo de cooperação com o IMDH (Instituto de Migrações e Direitos Humanos) e também temos alianças com instituições acadêmicas que nos permitem avançar em investigações para conhecer mais a situação e a tendências migratórias no país.
Seria possível citar exemplos de trabalho que a OIM já faz em certos países e até mesmo no Brasil e que já tiveram resultados relevantes?
No caso específico do Brasil já trabalhamos em cooperação com o Ministério da Justiça em mobilização e logística para o processo da COMIGRAR e também com o Ministério das Relações Exteriores sobre o reassentamento de brasileiros que vivem em regiões de fronteira na Bolívia.
Os projetos com os quais a entidade se envolve dependem das necessidades de cada país na questão migratória. Por exemplo, no caso do Equador temos trabalhado junto com a ACNUR para atender a zona de fronteira com a Colômbia, onde há muitas pessoas com status de refugiado, com ações que visam facilitar a integração delas no país.
Há ainda um programa chamado Retorno Voluntário, no qual, por exemplo, um brasileiro que está no exterior, deseja voltar e não tem os meios para tal, a OIM (dependendo do país onde está) aciona organismos para tentar facilitar a volta dessa pessoa ao seu país de origem. Há uma série de outras iniciativas na área de migrações laborais, assistência em caso de desastres. Enfim, o portfólio de trabalho é bastante amplo.
Como a OIM está organizada regionalmente?
Em Buenos Aires temos a oficina regional para a América do Sul, que coordena as ações a nível continental, e temos oficinas locais em quase todos os países. Eu diria que o único país que nos resta na América do Sul é justamente o Brasil e estamos tendo todo o empenho para abrir prontamente as oficinas.
Como a OIM é financiada, seja no Brasil futuramente e mundo afora?
Como todos os organismos internacionais, todos os países-membros têm uma contribuição anual, de onde provém parte da verba da OIM. A fonte mais importante de financiamento da OIM são os projetos que operamos, nos quais usamos essa verba serve para sua manutenção. No Brasil, no caso da COMIGRAR, estamos operando com o Ministério da Justiça e utilizando verba do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para este projeto.
“Ser mulher sempre foi uma tarefa heroica; ser mulher e imigrante, mais ainda”
A frase acima dá o tom da colaboração de Oriana Jara Maculet, primeira mulher da série “O Que É Ser Imigrante”. Ela vai além da pergunta-tema e contempla a questão da mulher migrante em sua colaboração. Além das dificuldades que recaem sobre os imigrantes em geral, as mulheres ainda sofrem também com as barreiras impostas pela discriminação de gênero ainda tão comum no Brasil e em outros países.
Oriana é responsável pelo projeto “Mujer Latina, tú eres parte: no te quedes aparte” (Mulher latina, você é parte, não fique à parte, em tradução livre), que visa resgatar a memória das mulheres migrantes latinas e tudo o que elas podem ensinar. Assim, procura também ajudar a romper as barreiras e estereótipos produzidos pela discriminação de gênero.
Oriana é ainda a atual presidente da ONG Presença de América Latina (PAL), que celebra dez anos de existência em 2014 e tem como objetivo mobilizar, articular e incentivar ações coletivas dos migrantes no Brasil, em especial os hispano-latinos. Mais informações sobre a entidade podem ser obtidas por meio da página no Facebook. O site está em processo de reformulação e deve ir ao ar em breve.
Chilena de Valparaiso, Oriana vive fora do país natal desde 1978 e está no Brasil desde 1995. Psicóloga social de formação, começou a trabalhar o tema das migrações em 1998, com foco em questões de gênero. Para preservar a essência, o relato de Oriana segue abaixo em espanhol, língua materna dela e de tantas outras mulheres migrantes.
Ser mujer e inmigrante
Por Oriana Jara
Ser mujer nunca fue una tarea fácil. Más difícil todavía es ser mujeres inmigrantes. Pareciera nos quedamos detenidas en el tiempo: en el tiempo del nunca- jamás.
Claro que es necesario deshacer la idea de homogeneidad cuando hablamos de mujeres e inmigrantes. Somos diferentes, incluso las de una misma procedencia y cultura. Variamos en forma de ver, sentir y pensar nuestros universos, al igual que las Evas nacionales. La migración, también es un proceso diferenciado, motivado por múltiples situaciones y circunstancias. Qué nos une, como para poder hablar de mujeres e inmigrantes?
El quedarnos todas, detenidas en el tiempo, en el espacio, en el desencuentro de lo que vivimos y de lo que viven las otras, tanto nuestras semejantes generacionales que se quedaron en el país de origen, como de nuestras congéneres del país que nos cobija.
Por qué?
En la mayoría de nuestro países, desde los años 70-80 en adelante, comenzó un proceso más o menos ágil de educación y de toma de conciencia referente a la situación de discriminación y de desigualdad vividos por las mujeres. Reforzada por la imperiosa necesidad para la reconstrucción de la democracia perdida., la inclusión de la mujer fue uno de los puntos de sustentación.
Esto trajo políticas públicas, programas y acciones concretas que permitieron el desarrollo gradual de la auto-estima, de la conciencia ciudadana, el reconocimiento de la sociedad como un todo de los valores y poder de lo femenino y sus representantes. Pasamos a ser sujetos históricos, económicos y actrices sociales en el desarrollo de la Nación.
Eso sucedía en nuestro país de origen, mientras nosotras, en cuanto mujeres inmigrantes, ajenas a la vida, procurábamos sobrevivir, adaptarnos a una cultura nueva, sociedad desconocida y grupos nuevos de encuentro y desencuentro. Quedamos al margen de los procesos que las mujeres vivían en la sociedad de origen y la de acogida.
Sus posibilidades de opción, de ejercicio de su libertad, estaba en juntarse con las compatriotas, que podían hablar la lengua, que conocían símbolos y silencios, que podían tejer memorias en conjunto y recordar lo que no era más parte de nuestra vida: idealizar costumbres, hábitos, ideas y creencias muchas de las cuales , en el país de origen otras mujeres estaban procurando y luchando por revisar, modificar, cambiar.
Mientras las mujeres, se movían para cambiar, para ponerse a andar en nuevos rumbos, recrear un universo destruido por la dictadura, ellas, las inmigrantes caminaban hacia el interior de sus recuerdos, para buscar en la memoria lugares comunes, vacíos de contenidos porque, en el lugar donde fueron generados, estaban diluyéndose por arcaicos.!
Y, en el lugar de origen? Muchas veces largos silencios por no saber la lengua. Una tierra diferente, historia no conocida, cultura no compartida Imagen, auto identidad confusa que para sobrevivir tiende a cristalizarse en lo que creíamos que éramos y ya no somos más.
Ser mujer e inmigrante, es haber visto pasar el curso de la historia, por la vereda de enfrente. Ser mujer e inmigrante es haber quedado aparte, es no ser parte, es como dice la canción: yo no soy de aquí, ni soy de allá.
Éramos las transmisoras de la cultura, de nuestra cultura. Transmitimos qué? Cual cultura? La cultura cristalizada en el tiempo, que allá, en el origen , no existe más?
Transmitimos costumbres, hábitos, formas de vivir, a nuestros hijos que no quieren más, porque necesitan adaptarse a los hábitos y costumbres de sus pares en el país que viven.? Tratamos de detenerlos en el “ como si”; como si fueran de nuestra nacionalidad., para comprobar con dolor que ni ellos ni nosotras somos más , eso que creíamos o soñábamos ser .
Ser mujer y ser inmigrante es una desgracia? Para nada , como siempre es una opción. Puedo quedarme repitiendo las cosas de ese tiempo que ya no es más, o se puede optar por ser más adquirir nuevas formas, nuevas culturas, nuevos modelos, en fin, adquirir una nueva vida. Ampliar su conciencia con nuevas vivencias, con la vivencia de esos otros u “ otras”, otras culturas como la nuestra, en fin esos otros, que me complementan y enriquecen .
Es más difícil, sí, es más difícil.. Fuera del país, cortadas en el medio, tenemos que hacer ese proceso, profundamente solas.
Esto está en la raíz de toda mujer inmigrante., somos mujeres fuerte, profundamente solas y con mucho miedo. Y, cuando expreso esto, ni siquiera estoy pensando en la indígena, en la mujer tradición, en la mujer tierra, que hasta la tierra perdió, pues todo es asfaltado. Esa soledad debe ser cósmica, así como su silencio.
Expreso esto , no solo desde mi experiencia sino también luego de un proceso maravilloso realizado con mujeres, inmigrantes latinas, a través de un proyecto colectivo llamado. Mujer Latina, tú eres parte: no te quedes aparte, que publicó las Memorias Sociales de mujeres chilenas, (2010) , Uruguayas (2011) Colombianas (2012) , ahora está en curso el libro de las argentinas. Trabajo que permitió recuperar una nueva identidad, hibrida, multicultural, amplia y generosa y elegida. Elegimos ser de aquí y de allá y también de más allá.
Ser mujer siempre fue una tarea heroica, ser mujer e inmigrante más aún.
A 1ª Conferência Nacional sobre Migrações e Refúgio (COMIGRAR) se aproxima e gera mobilizações em todo o Brasil. E elas também podem ser realizadas virtualmente por meio da plataforma online do evento.
Nesta quarta-feira (26) foi aberta uma nova etapa, a de transformar os textos do debate aberto em propostas de subsídios para a Política e/ou Plano Nacionais. O prazo final é 9 de março.
Conferências virtuais também vão elaborar propostas para a etapa nacional. Crédito: Reprodução/COMIGRAR
De acordo com o site da COMIGRAR, em março também terminam os prazos para realização das conferências prévias nos âmbitos, municipal, estadual e virtual. A etapa nacional está prevista para maio deste ano.
Maiores informações podem ser obtidas por meio da Plataforma COMIGRAR. Também é possível assinar o boletim eletrônico para receber atualizações sobre a conferência.
O peruano Víctor Gonzales Linares, 36, é o segundo personagem da série O Que É Ser Imigrante? Natural de Arequipa, segunda maior cidade do Peru, chegou no Brasil há 14 anos e atualmente vive em São Paulo, onde trabalha como tradutor profissional.
Víctor se define como um apaixonado por tradução literária e produção editorial. Esse lado, inclusive, fica bem evidente no estilo adotado por ele no texto especial para o MigraMundo. Ele é responsável pelo blog El Heraldo de la Traducción, que traz artigos, notícias e novidades sobre a área.
Esta não é a primeira colaboração de Víctor para o MigraMundo. Em parceria com Alexandre Pereira Alves, ele já escreveu sobre a Festa do Señor de los Milagros, considerada um marco da cultura peruana e latino-americana.
À procura da revolução de si próprio
Ser imigrante é uma pessoa de alma trincada que vai pelo mundo, uma alma insatisfeita que procura crescimento sempre, seja espiritual, econômico ou de conhecimento.
O imigrante sai de seu país como um ato de insatisfação, um ato contra o sistema à procura da revolução de si próprio.
O imigrante larga o melhor que tem, a família e sua terra, à procura de um bem maior para si e, em muitos casos, para os seus também.
O tradutor Víctor Gonzales durante visita à livraria El Virrey, em Lima, Peru Crédito: arquivo pessoal
Como imigrante, me dou de cara todos os dias com outros imigrantes por ruas e outros diferentes lugares, alguns pontos de encontro que eles procuram para ‘matar a saudade’. Uma das coisas que mais me surpreende, é ver neles rostos de guerreiros, de lutadores, alguns sofrendo, outros triunfantes, mas todos com um ‘olhar de imigrante’. Sim, depois de ver gravações, especificamente um vídeo produzido pelo Museu da Imigração pude perceber esses olhares e comprovar esses olhos de guerreiros nas ruas, em reuniões, em conversas entre amigos etc.
O olhar, é um olhar de gente que não é daqui e não é de lá, suas terras natais; olhares profundos que escondem historias e anedotas das mais singulares possíveis, que vão de tristes acontecimentos a gloriosas vitórias.
Ser imigrantes é um parto, sim, um parto doloroso para uma vida nova com uma língua nova em uma realidade nova, com novos amigos, novas situações, mas carregados de um passado que com o passar do tempo só aumenta.
Ser imigrante é falar uma língua nova carregada de sotaque aqui e uma língua materna carregada de sotaque lá. É ser estrangeiro na tua própria terra, é ser estrangeiro na terra que te acolhe. Imigrantes são seres híbridos carregados de riqueza cultural prontos para viver e conviver com o diferente.