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quinta-feira, maio 7, 2026
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Cidades recorrem a imigrantes para sobreviver

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Os migrantes são em geral apontados como bodes expiatórios e considerados culpados por “roubar empregos e vagas nos serviços públicos”. Mas eis que ao menos duas localidades estão recorrendo ou já recorreram aos “forasteiros” recentemente para sobreviver e repor perdas populacionais sofridas nos últimos anos.

O exemplo mais recente é o de Detroit, uma das cidades mais conhecidas dos EUA, berço da indústria automobilística nacional e que ainda recebe o tradicional Salão do Automóvel de Detroit. O governo do Estado de Michigan deve solicitar a Washington a criação de 50 mil vistos especiais nos próximos cinco anos para povoar uma cidade que já chegou a ter 1,8 milhão de habitantes na década de 1950 e hoje tem apenas 700 mil – sendo que, destes, 38% vivem abaixo da linha de pobreza. A vista do lago Eire ainda pode ser imponente, mas não esconde os problemas sócio-econômicos de Detroit.

Uma das cidades mais conhecidas dos EUA, Detroit recorre aos imigrantes para se reerguer Crédito: Reprodução/Prefeitura de Detroit
Uma das cidades mais conhecidas dos EUA, Detroit recorre aos imigrantes para se reerguer
Crédito: Reprodução/Prefeitura de Detroit

A intenção do governo local é atrair estrangeiros com alta qualificação profissional, empreendedores ou com habilidades especiais em tecnologia, ciência, arte e setor automotivo que se comprometam a viver e trabalhar em Detroit. Mesmo ainda sem resposta oficial da Casa Branca, a expectativa é que o pedido do Estado de Michigan seja atendido.

Além do setor automotivo, Detroit é um importante centro da cultura negra, da gravadora de soul music Motown, que lançou artistas e grupos como Diana Ross e Jackson Five. Atualmente, no entanto, tem o maior índice de criminalidade dos EUA e quarteirões inteiros abandonados ou destruídos. Nem a recuperação recente das montadoras foi suficiente para impedir que uma das cidades mais importantes do país decretasse falência, com dívidas na casa dos US$ 20 bilhões.

A aldeia italiana que sobreviveu graças aos “homens do mar”

Localizada na costa sul da Itália, região da Calábria, a aldeia de Riace quase teve a extinção como destino devido à emigração de jovens em busca de oportunidades. A salvação veio no começo dos anos 2000 graças a uma iniciativa do prefeito Domenico Lucano, que apostou no acolhimento a imigrantes para repovoar o local – que tinha caído de 3.000 para menos de 800 habitantes.

Vista da pequena cidade de Riace, no sul da Itália Crédito: Wikimedia Commons
Vista da pequena cidade de Riace, no sul da Itália
Crédito: Wikimedia Commons

Atualmente, são cerca de 1.700, sendo 300 deles chamados de “homens do mar”. A expressão, antigamente usada para se referir aos piratas, hoje designa os imigrantes e refugiados – a maioria originários da África e Ásia – que chegam diariamente à Itália de barco em locais como a ilha de Lampedusa.

Empregados em pequenas fábricas e estabelecimento de Riace, os novos “homens do mar” ajudam a mover a economia local. O portal Deutsche Welle conta um pouco da história de Riace e dos refugiados que hoje vivem e trabalham na aldeia.

Apesar de serem dois casos bem distintos, os exemplos de Riace e Detroit ajudam a derrubar a teoria – defendida por diversos estudiosos e nacionalistas xenófobos de plantão – de que os imigrantes exercem impacto negativo sobre a economia de um país, região ou cidade.

Com informações dos portais Opera Mundi e Deutsche Welle

Alasitas é incluída no Calendário Oficial de eventos de São Paulo

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A festa Alasitas, uma das mais importantes da comunidade boliviana, enfim conquistou o reconhecimento que há anos procurava. Na edição deste ano, ocorrida no último dia 24 em diversos pontos de São Paulo, foi anunciado o decreto assinado pelo prefeito Fernando Haddad que incluiu a Alasitas no Calendário Oficial de eventos da capital.

A festa é realizada todo dia 24 de janeiro na Bolívia há mais de dois séculos. As alasitas são miniaturas de bens materiais que simbolizam a ascensão social e econômica. Durante a feira, elas são vendidas a fim de que, durante o ano, os desejos se realizem, graças ao “deus da abundância”, Ekeko.

Realizada em São Paulo desde 1999, este ano foi o primeiro na qual a Alasitas contou com o apoio do poder público. Tudo isso apenas dois anos depois que a edição da Alasitas ocorrida na rua Coimbra, tradicional reduto boliviano, foi reprimida pela Subprefeitura da Mooca e Guarda Civil Metropolitana porque foi “confundida com comércio ambulante ilegal”. E essa mudança para melhor na posição da administração municipal sobre a festa é celebrada pelos bolivianos – estima-se que até 300 mil residam em São Paulo.

“É um fato histórico. Saímos da repressão para a aprovação total. Felizmente os tempos mudaram, e estamos gratos à administração por ter trazido um novo olhar para os imigrantes.”, afirma Luís Vásques, da Assempbol (Associação de Empreendedores Bolivianos da rua Coinbra), em entrevista à Rede Brasil Atual (leia mais aqui sobre a Alasitas deste ano).

Essa mais recente conquista deve encorajar não apenas os bolivianos, mas também outras comunidades migrantes, a reivindicar o reconhecimento de outras datas tradicionais, a mudança na legislação migratória e o direito a voto, bem como outras demandas que beneficiam não apenas os migrantes, mas toda a sociedade que estão ajudando a compor.

Com informações da Rede Brasil Atual

 

São Paulo, 460 anos

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Em 1929, quando São Paulo ainda estava longe de ser a maior cidade brasileira, o escritor Guilherme de Almeida publicou oito artigos no jornal O Estado de São Paulo, cada um sobre uma comunidade migrante existente na futura metrópole. Mais tarde, esses textos foram reunidos no livro Cosmópolis, em uma mostra da participação dos migrantes na formação e desenvolvimento de São Paulo.

Ou seja, celebrar os 460 anos de São Paulo e esquecer os “forasteiros” que ajudaram e ainda ajudam a construir a atual maior cidade do país é um verdadeiro sacrilégio. O idioma e os migrantes podem ser diferentes daqueles retratados por Guilherme de Almeida, mas a pluralidade de crenças, idiomas e costumes continua mais viva do que nunca. E aproveitar e valorizar esse potencial social e cultural é um dos grandes desafios para a cidade e seus moradores (nativos ou não) e administradores.

Vista aérea dacidade de São Paulo, que completou 460 anos. Crédito da imagem: Wikimedia Commons
Vista aérea da cidade de São Paulo, que completou 460 anos.
Crédito da imagem: Wikimedia Commons

A metrópole ainda precisa tratar melhor aqueles que chegam de outras regiões do país e do mundo para iniciar uma nova vida ou mesmo buscam uma experiência temporária por aqui. O triste incidente ocorrido com um jovem chinês no metrô de São Paulo neste ano e certos preconceitos ainda enraizados na mentalidade de muitos paulistanos são uma amostra do tamanho do desafio existente. Felizmente, porém, são visíveis os progressos obtidos pelas comunidades migrantes e seus defensores na sociedade civil, no poder público e até mesmo na mídia.

São Paulo hoje conta com uma coordenação voltada especificamente para os migrantes na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, permitirá que imigrantes participem e tenham representantes nos Conselhos Participativos das subprefeituras e pouco a pouco conquista reconhecimento para suas atividades culturais – a Alasitas, ocorrida em diferentes locais da cidade no último dia 24, é um bom exemplo. Isso para citar apenas alguns avanços.

O livro Cosmópolis ainda serve de inspiração para um grande projeto envolvendo a Prefeitura de São Paulo e o Instituto de Relações Internacionais da USP, que tem como objetivo mapear, estudar os migrantes em São Paulo e ajudar na elaboração de políticas públicas na área.

Pouco a pouco a abordagem do tema pela mídia também mostra avanços, como a abolição do termo “ilegal” em certas matérias sobre imigrantes sem documentação e também um maior destaque para os anseios e realizações dos migrantes – sem perder de vista as dificuldades que de fato vivem. O especial publicado pelo portal UOL no último dia 21 é um exemplo bem interessante de como o tema pode ser abordado com qualidade pela mídia.

Imigrantes em São Paulo veem sonho esbarrar em preconceito e dificuldades

Infográfico sobre imigrantes em São Paulo

Um em cada três imigrantes está em situação irregular na cidade de São Paulo

São Paulo tem mais da metade dos imigrantes em situação regular do país

São Paulo é de fato um resumo do mundo, uma verdadeira Cosmópolis como mostrou Guilherme de Almeida ainda no começo do século passado -e o novo projeto da Prefeitura e da USP deve resgatar e perpetuar. Um caldeirão de riquezas sociais e culturais que ainda precisa ser melhor apreciado por seus moradores e despido de preconceitos que há muito já perderam qualquer sentido. Mas alguns dos exemplos listados acima mostram que as barreiras entre nativos e migrantes podem muito bem ser derrubadas. Reivindicar e trabalhar por uma cidade mais humana para seus moradores, independente do local de origem, é o melhor presente que São Paulo e seus habitantes podem ter.

Viajando e sonhando com uma vida melhor – migrantes de ontem para entender os de hoje

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As migrações estão na pauta da sociedade, mas ainda são pouco compreendidas por ela – o caso do jovem chinês agredido recentemente no metrô de São Paulo é um exemplo didático. Sobretudo em tempos assim, é fundamental resgatar e compreender a participação que os migrantes tiveram no passado para ajudar a entender a importância que continuam a exercer na sociedade atual. E uma dessas boas oportunidades é vistar a exposição “Viagem, Sonho e Destino”, organizada pelo Museu da Imigração.

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A mostra, que já passou por diversas estações de trem e metrô de São Paulo e já caminha para seu final, fica na estação Brás da CPTM até o próximo dia 27. Ela conta, por meio de fotos e depoimentos do acervo do Museu da Imigração, os trajetos de cerca de 2,5 milhões de migrantes que tentaram a vida em São Paulo.

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O local não poderia ser mais adequado, já que fica a poucas centenas de metros da antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, que funcionou entre 1887 e 1978 e tem seu funcionamento contado na exposição.

Apesar do recorte histórico, a exposição “Viagem, Sonho e Destino” ajuda o visitante a abrir os olhos para a importância dos migrantes – que não apenas ajudaram a construir São Paulo no passando, mas continuam ajudando e dando sua contribuição à metrópole.

Exposição Viagem, Sonho e Destino

Local: Estação Brás da CPTM

Horário: das 7h30 às 19h, até dia 27 de janeiro

Entrada: Gratuita

Crédito das fotos: Rodrigo Borges Delfim

“Invasão” de haitianos? – Sobre o uso irresponsável do termo pela imprensa

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Do NIEM

A carta que se segue foi escrita e enviada por Helion Póvoa Neto, coordenador do grupo NIEM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios), ao jornal O Globo que, em diversas oportunidades, utilizou a expressão “invasão” para se referir aos migrantes haitianos chegados ao nosso país desde 2011.

Sua não-publicação até agora, bem como a recusa em publicar outras cartas sobre o mesmo tema em ocasiões anteriores, ao mesmo tempo que prioriza todo tipo de manifestação hostil a estes migrantes, leva a que nos pronunciemos publicamente através de outros meios de divulgação.

Como grupo de pesquisadores, professores, estudantes e profissionais que têm uma atuação ligada à defesa e promoção dos direitos dos migrantes e refugiados, expressamos nosso protesto contra as restrições do direito a migrar, defendemos a regularização e o atendimento às demandas dos migrantes que vêm sendo recebidos na fronteira, e recusamos a terminologia securitária e criminalizante adotada por certos veículos de imprensa.

O NIEM é um núcleo de pesquisas e debates sobre as migrações no Brasil e no mundo, existente desde 2000 e sediado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Invasão” de haitianos?”

Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2014

Em sua edição de sexta feira, 17/01, O Globo publicou matéria, assinada por Evandro Éboli, com o título “Tião Viana, do PT, critica governo federal após invasão de haitianos”. O jornal reitera, assim, o uso da expressão “invasão”, já empregada há cerca de dois anos (10/01/2012) com referência ao mesmo grupo de migrantes. E também utilizada por setores da imprensa européia e norte-americana referindo-se à chegada de fluxos, numericamente muito mais significativos, de imigrantes e refugiados africanos, asiáticos e latino-americanos.

Ninguém ignora que o Brasil vem sendo destino de um expressivo movimento migratório de haitianos, quantitativamente inferior, aliás, ao de outras nacionalidades, inclusive de origem européia, que mesmo quando em situação irregular, parecem não causar o mesmo alarme. O caso dos haitianos, e de outros migrantes de países do Sul, representa sem dúvida um problema social e humanitário, a ser enfrentado com políticas adequadas de direitos humanos, de inserção no mercado de trabalho, de reforma na atual legislação quanto aos estrangeiros e de uma política imigratória aberta ao futuro.

Lidar seriamente com a questão significa estar à altura da posição ocupada pelo Brasil no plano internacional, nem por isso imitando de forma subserviente o vocabulário xenófobo e securitário adotado em muitas nações do Norte, onde forças políticas se aproveitam do pânico criado com a situação dos migrantes para apoiar medidas socialmente retrógradas.

No caso da matéria em questão, o conteúdo sequer indica que a palavra “invasão” foi utilizada pelo governador mencionado. Parece que o uso, no título, de palavra mais adequada a intervenções militares do que a famílias e trabalhadores migrantes, expressou antes uma opção editorial do jornal que um respaldo em declarações de autoridades. Chamar migrantes de “invasores” denota hostilidade, favorece aqueles que apostam na criminalização e no atraso social. Uma terminologia, portanto, que um veículo de comunicação responsável faria bem em evitar.

Atenciosamente,

Helion Póvoa Neto – Professor da UFRJ, coordenador do NIEM

Subscrevem a carta os integrantes do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM):

Bianka Pires – Professora da UENF
Camila Daniel – Professora da UFRRJ
Fabrício Toledo de Souza – advogado da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro
Gustavo Junger da Silva – Técnico do IBGE
Helion Póvoa Neto – Professor da UFRJ
Isabela Cabral Félix de Sousa – Pesquisadora da Fiocruz
Isis do Mar Marques Martins – Geógrafa, Doutoranda na UFRJ
Joana Bahia – Professora da UERJ
João Henrique Francalino da Silva – Professor e Mestre em Geografia
Miriam de Oliveira Santos – Professora da UFRRJ
Nelly de Freitas – Historiadora, pós-doutoranda na PUC-SP
Patricia Reinheimer – Professora da UFRRJ
Regina Petrus – Professora da UFRJ
Rogério Haesbaert – Professor da UFF
Sofia Cavalcanti Zanforlin – Professora da Universidade Católica de Brasília
Valburga Huber – Professora da UFRJ

Eventos em SP mostram passado e presente das migrações na cidade

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Na véspera do aniversário de São Paulo, pelo menos dois eventos gratuitos oferecem uma bela oportunidade para conhecer um pouco do passado e do presente dos migrantes que vivem e ajudaram a construir a capital paulista.

Conhecendo e tomando consciência da importância dos migrantes no passado e presente da metrópole, certamente será possível quebrar estereótipos, preconceitos e ajudar a construir um futuro mais justo para quem vive por aqui, independente do local de origem.

Alasitas

Uma das sugestões é a Alasitas, tradicional festa boliviana que acontece por aqui desde 1999 e será realizada em diversos pontos da cidade neste ano – as maiores concentrações devem ser na região do Parque dom Pedro II e no Memorial da América Latina (veja serviço ao final do post).

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Alasitas são miniaturas de bens materiais que simbolizam a ascensão social e econômica. Durante a feira, elas são vendidas a fim de que, durante o ano, os desejos se realizem, graças ao “deus da abundância”, Ekeko. Com origem em La Paz, a festa é uma boa oportunidade de conhecer a culinária e danças típicas bolivianas. Ela ainda vive a expectativa de, em breve, ser inserida no Calendário Oficial do Município.

O vídeo abaixo conta um pouco do evento e ajuda a dar uma prévia do que esperar dele.

Exposição e apresentações no Brás

Ainda no dia 24, a exposição “Viagem, sonho e destino” terá uma programação comemorativa especial. Três apresentações de dança e música acontecerão no Espaço Cultural da Estação Brás (CPTM), local onde está a mostra. A partir das 16h30, a comemoração conta com uma apresentação de música peruana, com o grupo Los Criollos del Peru. Na sequência, a dupla Lampião e Maria Bonita – que representa o Centro de Tradições Nordestinas de SP – se apresenta em um show lúdico e interativo. Para fechar a ação, o Grupo Volga fará uma exibição de danças típicas da Rússia.

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Além da apresentação cultural, a exposição “Viagem, sonho e destino” continua no Espaço Cultural da estação até o próximo dia 27, depois de passagens por outras paradas do metrô paulistano desde outubro (mais informações sobre a exposição especificamente estarão no próximo post).

Mais informações sobre a exposição e a atividade cultural do próximo dia 24 podem ser obtidas pelo telefone (11) 2692-1866, na página do Museu da Imigração ou pelo e-mail museudaimigracao@museudaimigracao.org.br

Serviço Alasitas

– Parque Dom Pedro II
Avenida do Estado, 3.600, centro (ao lado do terminal de ônibus Pedro II)
A partir das 8h

– Memorial da América Latina – Praça Cívica
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda (ao lado da Estação Barra Funda do Metrô)
A partir das 10h

– Feira Patujú
Av. Mendes da Rocha, 1.014, Jardim Brasil
A partir das 10h

2005 e 2014: xenofobia e indiferença ainda são realidade em SP

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Os avanços nas políticas públicas em prol dos migrantes podem ser facilmente notados em São Paulo, mas expressões de xenofobia e indiferença contra eles ainda são uma triste realidade em uma metrópole que tem tudo para fazer valer e aproveitar seu potencial cosmopolita.

O mais recente (que se tem notícia) ocorreu na última sexta-feira (11). Um jovem chinês, aparentando 20 anos, foi assaltado e agredido por bandidos na estação Luz do metrô de São Paulo. Como se não bastasse, ainda foi hostilizado pelos seguranças do metrô: “A culpa é ‘desses coreias’. Esse pessoal vem de fora e fica andando com o bolso cheio de dinheiro por aqui, aí, dá nisso”.

O relato completo sobre o incidente está no Blog do Sakamoto, que desde ontem circula nas redes sociais.

Assim que li, lembrei de um comentário xenófobo que ouvi de uma pessoa considerada “esclarecida”, em setembro de 2005. Eu trabalhava como empacotador em um mercado atacadista na Mooca, zona leste de São Paulo, e já me chamava a atenção os comerciantes chineses, coreanos, sírios e libaneses que iam ao local atrás de mercadorias para seus estabelecimentos. Também me chamava a atenção os bolivianos, muitos deles moradores da vizinhança: em geral faziam as compras em grupos, pouco falavam com outras pessoas que não eram bolivianos e tinham um olhar assustado, como se após cada esquina pudessem encontrar uma ameaça, algo do qual fugir.

Esse homem, frequentador assíduo do mercado na época e também morador da região, era chamado de “professor” pelos mais chegados. Um belo dia, ao ajudá-lo com suas compras, ouvi dele um comentário ao ver uma família boliviana inteira se dividindo para levar os produtos que tinham acabado de comprar: “Esses bolivianos chegam aqui para roubar nossos empregos, a escola dos nossos filhos… O que eles têm que fazer aqui, por que não ficam lá naquela terra deles em vez de se aproveitarem do que é nosso?”

Adendo: o referido professor era filho de imigrantes árabes. Então teria seu pai também “roubado emprego e escola” de brasileiros para se estabelecer em São Paulo?

Naquela época eu nem sonhava em acompanhar migrações, mas o comentário me incomodou bastante. E voltou à minha cabeça logo que li sobre ocorrido com o jovem chinês na última sexta-feira. Os avanços foram obtidos, muitos deles aqui na capital paulista. Mas muito ainda precisa ser mudado não apenas em políticas públicas, mas sobretudo na mentalidade da sociedade. E esses dois episódios mostram o quão longo e duro será tal processo.

 

 

 

 

Cosmópolis e Observatório das Migrações vão pensar e estudar movimentos migratórios

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A criação de grupos e projetos voltados às migrações é fundamental devido ao crescimento da demanda migratória no Brasil. E eis que novos espaços e projetos começam a ganhar corpo: dois deles são o projeto Cosmópolis e o Observatório das Migrações.

O Cosmópolis surge de uma parceira entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP. O projeto tem como objetivo cooperar com a Prefeitura na elaboração de um diagnóstico dos imigrantes na capital paulista, agrupar os estudos já existentes sobre migração e tornar este acervo acessível tanto à comunidade acadêmica quanto para a sociedade. Também está prevista a criação de um atlas das migrações internacionais na cidade, que também será chamado de Cosmópolis.

Para auxiliar na tarefa, uma chamada pública deve ser feita neste ano para que pesquisadores do país e do exterior que tenham trabalhos sobre imigração em São Paulo possam ajudar a compor essa futura base de dados. Maiores informações podem ser obtidas no portal da USP.

Já o Observatório das Migrações surge a partir de um Termo de Cooperação firmado entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e a Universidade de Brasília (UnB), assinado no último dia 27. O novo espaço terá como objetivo dar suporte ao CNIg (composto pelo MTE e também pelos Ministérios das Relações Exteriores e da Justiça), fornecendo dados e informações para a elaboração de políticas públicas migratórias no país.

Além de dar suporte ao CNIg, o observatório também terá como missão aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno migratório internacional brasileiro nas suas principais vertentes: imigração, emigração e migração de retorno. Está prevista ainda a criação, manutenção e disponibilização de uma base de dados que facilite a análise das migrações internacionais.

Para tanto, o Observatório já busca 12 pesquisadores em nível de Graduação e Pós-Graduação, por meio do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação Sobre as Américas (Ceppac) que deverão receber auxílio financeiro que pode ir de R$ 800 a R$ 3.200. Os candidatos deverão ter domínio de técnicas de pesquisa em Ciências Sociais e/ou participação em projetos científicos relacionados com as migrações internacionais ou temas afins como, por exemplo, gênero, minorias, desenvolvimento, direitos humanos, acesso à justiça, entre outros. As atividades deverão ser realizadas em Brasília e mais informações podem ser obtidas por meio do site do Ceppac ou pelo e-mail obmigra.brasil@mte.gov.br

Experiência de retorno de migrantes é tema de dossiê da Remhu

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Seja para estudiosos ou apenas interessados nas migrações, a Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana (Remhu) é uma importante referência na área. O periódico é uma publicação semestral do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (Csem) e visa oferecer análises interdisciplinares, amplas e aprofundadas de temas ligados às migrações contemporâneas, sempre tendo como princípio a promoção dos direitos humanos.

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A edição atual (41), publicada em dezembro e já disponível no site da revista, conta com o dossiê “Retorno e Circularidade“, que traz artigos e resenhas sobre experiências de retorno de migrantes em diferentes regiões do mundo (incluindo o Brasil). E até 28 de fevereiro de 2014 podem ser enviados artigos para a edição 42 da revista, que abordará Migrações e Juventude.

Em junho, foi lançado o dossiê “Migração e Saúde”, focado em especial nas dificuldades que os imigrantes enfrentam no acesso e uso dos serviços públicos de saúde. O material acabou coincidindo com o início do Programa Mais Médicos, que trouxe profissionais de outros países para ocupar vagas abertas em áreas carentes do Brasil. A medida, embora emergencial e longe de poder acabar com os problemas de saúde pública do país, foi encarada de forma muito negativa pela maior parte da classe médica brasileira – gerando inclusive manifestações xenofóbicas contra profissionais do exterior selecionados para servir no Brasil.

Já no dossiê anterior, “Migrações e Dados Estatísticos”, a edição se dedicou a responder a algumas perguntas sobre a intensificação dos deslocamentos humanos: essas afirmações fundamentam-se em dados estatísticos coletados cientificamente? Quais são as fontes de mensuração das migrações? Trata-se de fontes confiáveis? O que pode e o que não pode ser mensurado?

Essas e outras edições da Remhu, bem como os artigos em outros idiomas (inglês, espanhol, francês e italiano), podem ser lidos e baixadas também por meio do portal SciELO Brasil, uma das bibliotecas eletrônicas mais importantes da América Latina.

Caminhada Noturna: turismo de conscientização ou uma ação oportunista?

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A situação dos migrantes que tentam cruzar a fronteira entre México e EUA já foi tema de filmes, séries, novelas brasileiras, documentários, estudos e reportagens de todo o tipo.  Mas uma iniciativa criada no Estado de Hidalgo (México) vem dividindo opiniões ao propor um modo mais radical de tomar conhecimento dessa realidade.

Trata-se da Caminhada Noturna, promovida em um parque situado no vilarejo indígena de El Alberto, que submete o visitante às mesmas condições vividas pelos milhares de migrantes latino-americanos que tentam cruzar a fronteira com os EUA.

O texto completo sobre o polêmico “tour” foi publicado pelo portal Opera Mundi.

Por “apenas” US$ 40, você passa por uma simulação bastante realista que inclui andar na escuridão, ser insultado, roubado, perseguido, fugir de balas, atravessar correntezas e encarar o calor inclemente do deserto – os migrantes da vida real que se arriscam nessa jornada chegam a desembolsar milhares de dólares em busca do chamado “sonho americano”.

Fronteira entre EUA (esq) e México (dir), na região de Nogales, Estado do Arizona. Crédito: Wikimedia Commons
Fronteira entre EUA (esq) e México (dir), na região de Nogales, Estado do Arizona.
Crédito: Wikimedia Commons

Segundo os organizadores, o real objetivo da Caminhada Noturna é dar “a chance de experimentar as dores de um imigrante é conscientizar aqueles que buscam “uma vida melhor em outro país”, estimulando-os a ficar em sua terra e aí aspirar a projetos produtivos que criem riqueza própria e levem em conta a comunidade”. Também seria uma forma de homenagear aqueles que já imigraram (que conseguiram fazer a travessia ou não, vivos ou mortos).

Já os críticos da ideia argumentam que a Caminhada Noturna é um “simulado” para quem de fato planeja atravessar a fronteira México-EUA. Ou ainda que ela caçoa dos reais migrantes e se promove às custas dos que gastam suas economias em busca do sonho de entrar nos EUA e muitas vezes pagam com sua liberdade ou até mesmo com a própria vida.

Tentar fazer o visitante se colocar no lugar de um grupo que passa por sofrimentos não é uma situação nova. Entre setembro e outubro deste ano, por exemplo, a ONG Médicos Sem Fronteiras promoveu em São Paulo e no Rio de Janeiro a exposição “Campo de Refugiados no Coração da Cidade”, na qual o visitante era convidado a vivenciar (mesmo que por alguns poucos minutos) como vivem os refugiados ao redor do mundo. Claro, nada tão radical como a experiência oferecida pela Caminhada Noturna no México.

E você, o que acha? A Caminhada Noturna é um tipo de turismo de conscientização ou uma medida oportunista? Mesmo sendo algo radical, fico com a primeira opção.