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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Marcha dos Imigrantes em SP supera barreiras, inicia nova fase e vira “esquenta” para outros atos

Organizada a toque de caixa, edição deste ano da Marcha e mostrou capacidade de mobilização e articulação da comunidade migrante em São Paulo

A avenida Paulista, ponto emblemático de São Paulo, voltou a receber neste domingo (14) a Marcha dos Imigrantes, que teve como lema “Migrar, resistir e viver com dignidade são direitos humanos”. E a própria realização do ato em si, neste ano, traz uma série de significados pelas questões que foram superadas para que a manifestação se tornasse realidade.

A Marcha teve concentração a partir das 12h em frente ao MASP. De lá, saiu em direção à Praça do Ciclista, ocupando duas faixas da avenida Paulista. A limitação de espaço se deu pelo fato de o programa Ruas Abertas, da Prefeitura de São Paulo, ter sido suspenso neste domingo em razão das provas da segunda fase do vestibular da Fuvest, deixando a via aberta ao trânsito – diferente do que costuma acontecer aos domingos, quando a avenida vira um local de lazer.

A organização da Marcha dos Imigrantes estimou junto à Polícia Militar uma participação de mil pessoas, entre aqueles que acompanharam o ato desde o começo e os que se somaram ao longo do percurso. Assim como ocorreu nos anos anteriores, o sentimento do público brasileiro médio em relação à manifestação era de curiosidade.

Além de brasileiros simpáticos à questão migratória, entre as nacionalidades presentes foi possível observar a presença de migrantes do Haiti, Venezuela, República Democrática do Congo, Angola, Nigéria e Bolívia, entre outros países. A representação boliviana, como de costume, contou ainda com o reforço de grupos culturais que ajudaram a animar a Marcha com dança, música e trajes coloridos. No começo da Marcha dos Imigrantes, as integrantes do conjunto musical Lakitas Sinchi Warmis – formado por mulheres migrantes e brasileiras filhas de migrantes – também contribuíram com a animação.

Também foi possível identificar a presença da vereadora Luana Alves (PSOL) e do deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), ambos com histórico de apoio à causa migratória.

No manifesto, lido ao final da Marcha, as reivindicações englobaram tanto questões globais quanto locais. Entre os temas estiveram as críticas às políticas antimigração empreendidas por diferentes governos ao redor do mundo, a garantia de acesso a serviços públicos e o combate ao racismo. Também houve uma menção especial à Política Nacional de Migração, Refúgio e Apatridia, criada pelo governo federal em outubro passado, para que ela concretize avanços reais, e não paralisias ou mesmo retrocessos.

“Exigimos que a elaboração e implementação de leis e políticas públicas para nós não se faça sem nós, pois nossas experiências, ideias e conhecimentos são imprescindíveis”.

Sob nova direção e vencendo e desconfianças

“Decidimos que não íríamos deixar essa Marcha morrer. Essa Marcha representa a gente, nossa luta”, disse a militante camaronesa Constance Salawe, uma das organizadoras neste ano, expressando satisfação e alívio com a conclusão do ato.

O sentimento de Salawe se explica pela indefinição que a própria Marcha dos Imigrantes vivenciou ao longo deste ano, a primeira sem ter o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante) como entidade organizadora principal. Em abril deste ano, a entidade comunicou oficialmente que deixava de encabeçar os preparativos e articulações para o ato por não ter mais condições para tal. Com isso, abriu-se uma lacuna que demorou a ser de fato preenchida.

Em maio, após uma primeira reunião, a ONG Identidade Humana chamou para si a organização da Marcha dos Imigrantes. No entanto, segundo apuração do MigraMundo, a ausência de definição sobre a edição 2025 fez com que no mês de outubro um grupo de lideranças migrantes assumisse as rédeas de fato de articulação do ato. Começava aí uma corrida contra o tempo para mobilização de comunidades, viabilização de estrutura, recursos financeiros e diálogo com autoridades. A data de realização da Marcha só veio oficialmente em novembro, faltando pouco mais de três semanas para a manifestação.

“Há uma metamorfose das lideranças migrantes assumindo o protagonismo, convocando outros organismos e coletivos para a Marcha. Essa foi uma Marcha puxada pelos coletivos e lideranças migrantes, junto às autoridades públicas, seguindo todos os ritos processuais e orientações”, destacou o sociólogo Alex Vargem, que também atuou na linha de frente de promoção da Marcha em apoio ao grupo que tomou as rédeas do ato.

Também segundo apuração do MigraMundo, alguns atores envolvidos com a temática migratória chegaram a duvidar que a Marcha dos Imigrantes de fato ocorreria em 2025. E que a conclusão do ato marcou o fim de um sentimento de desconfiança que pairava sobre a manifestação deste ano.

Edição 2025 da Marcha dos Imigrantes foi a primeira sem ter o CAMI como entidade organizadora principal. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

“Esquenta” para outros atos

Além da organização a toque de caixa, a Marcha dos Imigrantes ainda precisou lidar com um elemento final para sua realização. Isso porque outras duas entidades – a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a Frente Povo Sem Medo – também convocaram atos para a avenida Paulista, com concentração em frente ao MASP, a partir das 14h.

A questão acabou resolvida por uma reunião na sexta-feira (12), que contou com representantes tanto da Marcha dos Imigrantes quanto da Frente Povo Sem Medo e UNE, bem como da Guarda Civil Metropolitana (GCM), Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e São Paulo Transportes (SPTrans). A partir dela, por questões de segurança, ficou decidido que a Marcha evitaria se misturar com outros atos e seguiria em direção à Praça do Ciclista, ao contrário do anos anteriores – quando começou e terminou em frente ao MASP.

Com a Marcha dos Imigrantes iniciando as movimentações políticas populares na Paulista, ela acabou servindo de “esquenta” para os atos que ocorreram depois. Representantes das outras manifestações na Paulista também foram autorizados a convidar o público da Marcha – e ao menos alguns dos participantes se mostraram dispostos a “esticar” para os demais protestos.

Veja abaixo os lemas das edições anteriores da Marcha dos Imigrantes

2007 – “Integração, cidadania universal e direitos humanos”
2008 – “Nossas vozes, nossos direitos por um mundo sem muros, @s imigrantes pedem: ANISTIA JÁ”
2009 – “Por acesso a todos os direitos” 
2010 – “Por um MERCOSUL livre de xenofobia, racismo e toda forma de discriminação”
2011 – “Trabalho decente e Cidadania Universal”
2012 – “Nenhum direito a menos para @s imigrantes”
2013 – “Nova lei de imigração justa e humana para o fim da discriminação”
2014 – “Basta de violência contra @s imigrantes”
2015 – “Fronteiras livres, não a discriminação”
2016 – “Dignidade para os imigrantes no mundo: nenhum direito a menos”
2017 – “Pelo fim da invisibilidade dos imigrantes”
2018 – “Por direitos iguais: Não me julgue antes de me conhecer”
2019 – “Para igualdade e dignidade não existem fronteiras: Livres com direitos em qualquer lugar do mundo”
2023 – “Sem direito ao voto e trabalho decente, não há cidadania plena”
2024 – “Não ao retrocesso: Migrar Não é Crime, é um Direito Humano. Igualdade nas Políticas Públicas Já!”


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