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domingo, junho 28, 2026
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Protestos e Justiça paralisam expulsão de milhares de migrantes em Israel

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Migrantes protestam em Israel contra o processo de deportação massiva promovido pelo governo. Crédito: Yonatan Sindel/Reprodução/Flash90

Plano de expulsão massiva tem sido criticado duramente pela comunidade internacional

Por María Villarreal
No Rio de Janeiro (RJ)

Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu junto a diversas autoridades locais, está promovendo há anos uma campanha anti-imigração. Em dezembro de 2017, o Knesset, o Parlamento de Israel, aprovou uma emenda a chamada “Lei de Infiltradores” que determinou o fechamento de um centro de detenção para imigrantes e aprovou a expulsão de cidadãos provenientes especialmente de Eritreia e Sudão.

O plano, lançado em janeiro de 2018, afetaria a quase 40 mil pessoas, as quais poderiam ser expulsas com uma passagem aérea paga e US$ 3.500 ou serem presas de forma indefinida. Contudo, após cálculos sobre a superpopulação das cárceres israelenses e os custos de manutenção dos detentos, começou a ser divulgada apenas a política de expulsão. Segundo o plano, as pessoas seriam expulsas até países “seguros” como Uganda ou Ruanda, Estados com os quais Israel mantém relações privilegiadas. A data limite para o cumprimento deste processo é 1º de abril de 2018.

Os afetados por esta medida, em sua maioria cidadãos eritreus e sudaneses, entraram no território israelense no período 2006-2012, atravessando a fronteira com o Egito, atualmente fortificada e praticamente impenetrável. Muitos destes migrantes vivem em condições precárias em bairros periféricos das cidades israelenses, sobretudo Tel Aviv, e são solicitantes de refúgio que Israel não reconhece como tais. Apesar do grave estado dos direitos humanos em Eritreia e Sudão e do perigo que eles correriam, caso voltassem aos seus países de origem, Israel os considera migrantes econômicos. Portanto, o país declara não ter nenhum tipo de obrigação legal ou ética em relação a eles.

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As medidas anunciadas pelo governo foram antecedidas por campanhas mediáticas de cunho racista promovidas com o objetivo de “mostrar a degradação promovida pela imigração nas periferias de Tel Aviv” e “os perigos da imigração fora de controle”. A este respeito, os solicitantes de refúgio têm sido definidos como “Infiltrados ilegais” e o primeiro-ministro israelense tem declarado que “é preciso que as pessoas entendam que o que estamos fazendo é legal e absolutamente essencial”. Por outro lado, na tentativa de diminuir a gravidade das medidas anunciadas e as primeiras críticas, o Diretor Geral da Autoridade para a População, Shlomo Mor-Yosef, afirmou que o plano inclui “exclusivamente a expulsão de homens solteiros e em idade de trabalhar e não afeta as mulheres, crianças ou famílias”.

O plano de expulsão massiva tem sido criticado duramente pela comunidade internacional e por organismos internacionais como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), enquanto que Uganda e Ruanda tem negado manter acordos de cooperação com Israel para receber a população expulsa. Em Israel, as denúncias também têm sido contundentes por parte de grupos e associações de direitos humanos como o Centro para Refugiados e Migrantes, Anistia Internacional Israel e a Associação pelos Direitos Civis em Israel que assinaram manifestos para pedir o fim das expulsões. Associações de médicos, Rabinos pelos direitos humanos e grupos de sobreviventes ao Holocausto criticaram também as medidas anunciadas pelo governo, definindo o plano como “antiético e uma mancha sobre a imagem de Israel como um refúgio para migrantes judeus”. A este respeito, chegaram a manifestar que, caso a medida fosse aprovada, esconderiam em suas casas as pessoas ameaçadas com a expulsão. Outros atos de indignação pública e desobediência civil incluíram as declarações de diversos pilotas israelenses se negando a pilotar voos com pessoas expulsas em direção à Uganda ou Ruanda.

Como parte das reações as propostas de expulsão massiva do governo, milhares de pessoas, incluindo solicitantes de refúgio e organizações a favor dos direitos humanos, protestaram em Tel Aviv e outras cidades em fevereiro, carregando cartazes com escritas como “Todos Somos Humanos” ou “Refugiados e Residentes não aceitam ser inimigos”; “Nós somos refugiados, não criminais” e “A deportação, não é a solução”. Durante as mobilizações, os migrantes denunciaram também que a campanha é motivada por motivos racistas, em referência às origens africanas e não hebreias das pessoas em risco de expulsão, e chegaram a exibir cartazes com escritas como “Vidas negras importam” e a pintar seus rostos de branco, perguntando publicamente: se eu fosse branco, você me deportaria?

Migrantes protestam em Israel contra o processo de deportação massiva promovido pelo governo.
Crédito: Yonatan Sindel/Reprodução/Flash90

Alguns analistas sugerem que a medida de expulsão massiva é fruto de uma campanha que visa distrair a atenção da população israelense das acusações de corrupção e das investigações que estão sendo promovidas contra o premiê Netanyahu e seu governo. A este respeito, as organizações de direitos humanos condenam a proposta por populista, racista e arbitrária, assim como por colocar um preço as vidas humanas, negar o direito das pessoas a salvar suas vidas e buscarem melhores condições fora dos seus países de origem. Contemporaneamente, afirmam que as declarações públicas sobre a não expulsão de mulheres, crianças ou famílias, não diminui em nada a gravidade de um processo de expulsão massiva de população.

Por outro lado, segundo o jornalista Gideon Levy do diário israelense Haaretz, o perigo desta medida reside também em que, que caso a proposta se tornasse realidade, poderia servir como um plano piloto para a futura expulsão massiva de diversos grupos de população, por parte do Estado israelense, incluindo especialmente os palestinos. Para aqueles que consideram esta visão inverossímil, o autor declara que “alguns anos atrás parecia absurdo que este país de prófugos colocasse pela força outros prófugos algemados em aviões, deixando eles ao seu destino em lugares desgraçados, como está pensando em fazer agora”.

Não obstante, as mobilizações públicas e a forte pressão exercida pela sociedade civil israelense sobre o governo têm gerado bons frutos. Após a denúncia de organizações pelos direitos dos migrantes, no dia 15 de março deste ano a Corte Suprema israelense suspendeu o plano governamental até o 26 de março, dia em que o governo deverá argumentar a defesa do mesmo. Por enquanto, a decisão é apenas uma vitória em uma longa estrada de desafios para frear uma medida perversa e anti direitos humanos, mas constitui uma esperança para todos aqueles que acreditam que a ação e a soberania dos Estados têm limites quando se trata de salvaguardar a vida e a dignidade das pessoas.

Fontes:

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/israel-migrants-protest-african-refugees-migrant-deportation-a8227166.html

https://www.timesofisrael.com/hundreds-protest-against-forced-deportation-of-african-migrants/

https://www.haaretz.com/opinion/.premium-fight-against-expulsion-of-refugees-is-a-pivotal-moment-for-israel-1.5767982

https://www.timesofisrael.com/el-al-pilots-refuse-to-fly-african-refugees-being-deported/

http://www.jornada.com.mx/ultimas/2018/03/15/suspende-israel-plan-de-expulsion-de-miles-de-africanos-9154.html

María Villarreal é doutora em Ciências Políticas e atualmente pós-doutoranda em Sociologia Política na UENF e pesquisadora do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global (GRISUL) da UNIRIO. Além disso, é migrante há 17 anos, tem vivido em vários países e, a cada dia, tenta compreender as nuances e particularidades do fenômeno da mobilidade humana. Aparte das migrações internacionais, também tem interesse nos estudos latino-americanos, na integração regional, nas políticas públicas, na democracia, na literatura e numa infinidade de outros temas

Brasil registrou 7,7 milhões de migrantes forçados em 18 anos

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Usina de Belo Monte, no Pará. Obra gerou cerca de 30 mil deslocados e é um dos casos emblemáticos apontados pelo Observatório de Migrações Forçadas. Crédito: PAC/Divulgação

Fenômeno ainda é invisível no Brasil, avalia pesquisadora que coordena o recém-lançado Observatório de Migrações Forçadas

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Entre 2000 e 2017, cerca de 7,7 milhões de pessoas no Brasil foram vítimas de algum tipo de deslocamento forçado. Um número que, aliás, ainda está subestimado e representa uma espécie de “ponta do iceberg”.

O cálculo é do Observatório de Migrações Forçadas, recém-lançado pelo Instituto Igarapé, entidade independente dedicada às agendas da segurança, justiça e desenvolvimento. Ele foi obtido a partir do mapeamento e cruzamento de dados oficiais com informações da sociedade civil.

Esses deslocamentos são classificados dentro de quatro categorias (desastres naturais, projetos de desenvolvimento, violência e refugiados) e podem ser visualizados de modo interativo no portal do observatório.

A grande maioria dos deslocamentos forçados no período (6.425.182) foi causada por desastres naturais, como grandes inundações, secas, incêndios e rompimento de barragens; outros 1.291.992 foram deslocados pelos chamados “projetos de desenvolvimento”, como construções de infraestrutura e intervenções urbanas. Também entram na conta os cerca 10 mil refugiados já reconhecidos pelo governo brasileiro.

O portal traz ainda uma linha do tempo com alguns dos casos emblemáticos sobre deslocamentos forçados neste século no Brasil, como estiagens, inundações no Nordeste, as chuvas na região serrana do Rio, a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte e a chegada de refugiados sírios e colombianos.

Falta de água no Açude Carnaubal, em Crateús, Ceará.
Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil – mar.2015

Um ponto pendente é a questão dos deslocamentos causados por situações de violência, tanto no meio urbano como rural, por falta de mecanismos que permitam acompanhar essa dinâmica. O instituto pretende atualizar o observatório em breve com essas informações.

Ferramenta para políticas públicas

Fruto de um ano e meio de pesquisas e interações com o setor público, sociedade civil e organismos internacionais, a ação busca jogar luz sobre um lado ainda pouco discutido das migrações no Brasil e ajudar na formulação de políticas públicas que respondam a esse problema.

“Sabemos que seriam muitas pessoas deslocadas no Brasil por esses motivos, mas pouco se conhecia sobre a escala desse problema”, pontua Maiara Folly, pesquisadora do Instituto Igarapé e coordenadora do observatório.

A pesquisadora Maiara Folly, coordenadora do Observatório de Migrações Forçadas.
Crédito: arquivo pessoal

Além da alimentação constante por parte do Instituto Igarapé, o observatório deve contar com análises periódicas que atualizem o estado do deslocamento forçado no Brasil. A primeira, intitulada “Migrantes invisíveis”, pode ser acessada neste link.

Responsabilidades do Brasil

Além da atualização constante, Maiara aponta outros dois grandes desafios a serem enfrentados pela ferramenta: que ela seja usada para tomadas de decisão, seja por parte do setor público como pela sociedade civil; e entender o perfil das pessoas deslocadas, de forma a aprimorar as políticas públicas para garantia de seus direitos.

“As pessoas deslocadas no Brasil tem direitos e, portanto, o Brasil tem responsabilidade sobre elas e deve agir para que elas possuam uma qualidade de vida satisfatória”.

Maiara ainda ressalta que essa responsabilidade também deve ser estendida aos refugiados, partindo do pressuposto da migração como um direito humano – apesar dos muitos fatores que levam esse movimento a ser mais do que um direito, mas uma forma de sobreviver. “Temos feito um grande trabalho de tentar conscientizar os gestores públicos e a sociedade que migrar é um direito e que nós devemos estar preparados para assegurar esse direito às pessoas que chegam ao Brasil com necessidade de proteção do Estado brasileiro”.

Em complemento ao trabalho do observatório, o Instituto Igarapé também pretende lançar até o final do ano um aplicativo para celular que possua, de forma sucinta e rápida, informações sobre os direitos das pessoas deslocadas (sejam elas deslocados internos ou refugiados).

Construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Obra gerou cerca de 30 mil deslocados e é um dos casos emblemáticos apontados pelo Observatório de Migrações Forçadas.
Crédito: PAC/Divulgação

 

Artista sul-africana luta por permanência no Brasil

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A artista sul-africana Nduduzo, que enfrenta processo de expulsão do Brasil. Crédito: Larissa Cidral

Campanha busca sensibilizar para o caso de Nduduzo, que mexe ainda com o tabu da reinserção social de pessoas egressas do sistema prisional

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 14h35 de 12/03/18

Movimentos culturais, ativistas e demais atores da sociedade civil tem se mobilizado em torno da permanência no Brasil da artista sul-africana Nduduzo Godensia Dlamini, 29, que pode ser expulsa do país.

Nduduzo cumpre pena desde fevereiro de 2013, acusada de ser “mula” – como são chamadas as pessoas usadas para o transporte internacional de drogas. Em regime aberto desde fevereiro de 2017, precisa ir a cada três meses no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, para justificar suas atividades profissionais e sua permanência em território brasileiro.

A artista sul-africana Nduduzo, que enfrenta processo de expulsão do Brasil.
Crédito: Larissa Cidral

Por conta do processo criminal, a sul-africana responde ainda a um processo administrativo que pode resultar na sua expulsão do Brasil.

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Além de ser mulher e migrante, o caso de Nduduzo mexe com um assunto que é considerado um grande tabu no Brasil, que é a reinserção social de pessoas egressas do sistema prisional.

“Como mulher, eu penso que não passamos apenas pela punição do sistema, mas a punição também se torna moral, dos seus valores como mulher. Mas por quanto tempo eu vou pagar?”, desabafa a artista, em vídeo disponível na página de apoio a ela no Facebook.

“São mulheres que muitas vezes saíram de seus países em razão de questões econômicas e que eram as chefes de seus lares, sem antecedentes criminais e que diante dessas diferentes vulnerabilidades que tangenciam suas vidas, aceitam realizar o transporte de pequenas quantidades de drogas para diferentes países. Outras mulheres não tinham sequer conhecimento que carregavam substâncias ilícitas e mesmo nessas situações extremas, elas enfrentam uma série de violações e dificuldades de provar e terem suas penas diminuídas ou extintas pelo poder judiciário brasileiro”, explica a advogada Viviane Balbuglio, do ITTC (Instituto Terra, Trabalho e Cidadania), sobre as circunstâncias que trouxeram Nduduzo ao Brasil. A entidade acompanha a artista por meio do Projeto Migrantes Egressas, voltado para mulheres migrantes em cumprimento de pena em meio aberto na cidade de São Paulo. A entidade também é responsável pelo Projeto Estrangeiras, focado nas migrantes que estão em regime fechado.

A descoberta da veia artística

Enquanto cumpria pena na PFC (Penitenciária Feminina da Capital) e na Penitenciária Feminina do Butantã, ambas em São Paulo, Nduduzo descobriu na arte um novo caminho ao atuar como cantora no projeto Mulheres Livres, desenvolvido em parceria entre a PFC e o Coral da USP (Universidade de São Paulo).

Depois de passar ao regime aberto, Nduduzo passou a integrar diversos projetos artísticos. Desde 2017, ela atua no espetáculo Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos, escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos em 1977, que ficou em temporada na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo e no Itaú Cultural. Também participou do projeto “Voz Própria”, do grupo Mulheres Livres, que dará origem a um filme curta metragem patrocinado pela Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo.

Nduduzo durante a peça Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos
Crédito: Alécio Cezar/Divulgação

Além da atuação artística, Nduduzo também é convidada do Núcleo Permanente de Pesquisa Musical da Cia Tijolo, projeto coordenado pelo maestro William Guedes apoiado pela Lei de Fomento ao Teatro da Prefeitura de São Paulo. A artista tem contribuído ainda o grupo de pesquisa em performances e novas mídias do Colabor-USP, ligado à ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP).

Luta pela permanência

É com base nesse processo bem sucedido de reinserção e nos laços já desenvolvidos no Brasil que Nduduzo tenta reverter e convencer o Ministério da Justiça a reconsiderar e revogar o decreto de sua expulsão, expedido ainda em 2017.

Em fevereiro de 2018, Nduduzo foi chamada a comparecer à sede da Polícia Federal em São Paulo para prestar esclarecimentos e manifestar desejo de permanecer no Brasil. Em seguida, pediu ajuda aos colegas do espetáculo Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos para elaborar uma defesa jurídica do caso. A artista está sendo acompanhada na Defensoria Pública da União pelo ITTC.

Nesse contexto, além da frente jurídica, começou também a se formar a campanha #NduduzoTemVoz, englobando projetos dos quais a artista faz ou fez parte e seus integrantes, lançada oficialmente no último dia 8 de março, quando também é lembrado o Dia Internacional da Mulher. Entre outros, a ação já recebeu apoio do político Eduardo Suplicy (PT), ex-senador e atualmente vereador em São Paulo.

“A solidariedade criada em torno da campanha já ultrapassa fronteiras, abrindo espaço para discutir também o encarceramento em massa que é o apartheid de hoje. Foi representativo lançar a campanha no Dia Internacional das Mulheres. A vitória de Nduduzo será uma vitória para os direitos humanos, com base na possibilidade de ressocialização prevista na nova lei de migração”, pontua a advogada de direitos humanos Karina Quintanilha, que faz parte da campanha. “Agora o desafio é garantir impacto na sociedade para sensibilizar o Ministério da Justiça, a Polícia Federal e, se for necessário, o Judiciário”, completa.

Enquanto o processo se desenrola, a campanha tenta sensibilizar a sociedade brasileira das contribuições que Nduduzo já realizou e da importância de reconhecer a possibilidade de ressocialização de pessoas egressas do sistema prisional. Uma batalha que, pelo contexto social vivido pelo país, promete ser dura. No entanto, também mas deixa lições importantes sobre a possibilidade real de reinserção de egressos do sistema prisional e sobre outras facetas do movimento migratório global.

“A prisão transnacional no Brasil, ainda que a extrema maioria dessas mulheres não tivessem a intenção de migrar ao Brasil desde o início, a obrigatoriedade de permanecer aqui enquanto respondem o processo ou cumprem pena, acaba por abrir novas perspectivas migratórias em suas vidas e que precisa ser entendida como o direito de migrar, independentemente da existência de antecedentes penais ou de ter passado pela justiça criminal brasileira”, finaliza Viviane.

Nduduzo recebe apoio durante oficina do Instituto Brincante, em São Paulo.
Crédito: Divulgação

Com informações da Ponte Jornalismo

Organizações e voluntários pregam respeito e solidariedade a venezuelanos em RR

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Aula de português para venezuelanos no Recanto, do Projeto Acolher, em Boa Vista (RR). Crédito: Nayra Wladimila

Na contramão dos que segregam os migrantes, diferentes grupos e pessoas tem se mobilizado para acolhê-los da melhor forma possível

Por Nayra Wladimila
Em Boa Vista (RR)

Às três da tarde de uma quarta-feira de fevereiro, o sol é de rachar em Boa Vista, capital do Estado de Roraima. No bairro Caimbé, periférico, o professor doutor do Instituto de Antropologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), José Carlos Franco, limpa um banheiro improvisado e seco no amplo quintal de uma casa na qual ele não reside. Ao lado, estudantes da mesma Universidade chegam para ensinar português de graça a uma dúzia de venezuelanos, em uma sala envidraçada. Eles poderiam estar em outro lugar naquele momento, mas decidiram ajudar os imigrantes que chegam aos montes todos os dias no seu Estado.

No Projeto/Rede Acolher, fundado por estudantes e professores da UFRR em 2017, inicialmente eram oferecidas aulas de português e atividades esportivas gratuitamente para estrangeiros. Até hoje, as aulas acontecem às segundas, quartas e sextas, das 15h às 17h, no Recanto, a casa na rua João Padilha, 1036, no Caimbé. No Centro de Treinamento do Servidor, na UFRR, há yoga às sextas e dança circular às quintas; e capoeira às terças no Espaço de Cultura e Arte da UFRR no bairro União Operária.

Cartaz improvisado anuncia as aulas de português para venezuelanos no Projeto/Rede Acolher.
Crédito: Nayra Wladimila

Mas em pouco tempo, outros voluntários apareceram e cederam residências ociosas para a moradia de imigrantes; produziram curtas-metragens e vídeos mais longos com recursos de agências de publicidade e ONGs; ofereceram assessorias jurídicas e escutas sensíveis; realizaram eventos de sensibilização; criaram o portal Somos Migrantes, que reúne dados e notícias sobre o assunto.

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Tudo isso foi muito além dos objetivos iniciais do projeto, para se tornar uma série de atividades independentes que não deixam de ser interligadas pela mesma finalidade: o acolhimento. Não é mais nem possível dizer quem está na coordenação geral, tamanha a diversidade de iniciativas.

“A Rede Acolher é hoje um sentimento, podendo ter seu nome usado mesmo sem a nossa autorização”, começa o professor Franco. “Nossa ideia inicial era a de que todo mundo ajudasse os imigrantes a se integrarem à nossa sociedade. Trabalhamos com poucos recursos institucionais (talvez quatro bolsistas e duas mil xerox da UFRR), mas seguimos pelo coração e somos muito sinceros no que propomos: acolher, proteger e inserir. Nós também somos pouco burocráticos: a pessoa que doa, logo vê o imigrante receber. Há ainda o fato de um voluntário convidar o outro, fazendo com que conheçamos diversos grupos, principalmente religiosos. Então é um trabalho ágil, e sem estrelismos na sua divulgação”, explica.

Aula de português para venezuelanos no Recanto, do Projeto Acolher, em Boa Vista (RR).
Crédito: Nayra Wladimila

Como aconteceu no último evento no qual o grupo participou: no dia 19 de fevereiro, na Praça Capitão Clóvis, no centro de Boa Vista, onde aconteceu uma grande apresentação artística que reuniu bandas de música, coletivos de cinema e ONGs, dentre outros grupos; e arrecadou 200 kits de higiene e outros materiais.

Conscientização

O professor faz questão de ressaltar que a quantidade de pessoas dispostas a dedicarem uma parte de seus dias e de suas rendas para ajudarem os imigrantes que fogem da fome no país vizinho é muito alta. Apesar da grande mídia e de uma parcela considerável da população local tratarem do assunto com preocupação, desdém, preconceito e outros comportamentos xenofóbicos.

Se hoje são 40 mil venezuelanos morando em Boa Vista (mais de 10% de todos os habitantes da capital, que possui um total de 330 mil pessoas), Franco arrisca dizer que em torno de 90% deles estão abrigados, graças à enorme rede de acolhimento. Os voluntários arranjaram residências até mesmo em outras capitais, como São Paulo. “A quantidade de refugiados em praças e ruas de Boa Vista é enorme, mas se compararmos ao montante total, a maioria conseguiu ficar em casas ociosas, em lugares alugados e/ou compartilhados, e só não conseguiram mais empregos porque o Brasil está em crise, mesmo”, comenta.

Para levar mais informações à população, como forma de diminuir este preconceito, a Rede Acolher iniciou no último mês de dezembro uma campanha dentro das escolas de ensino médio de Boa Vista, onde os voluntários apresentam o Portal Somos Migrantes como fonte de pesquisa, exibem dados sobre a imigração e explicam que este fenômeno não acontece somente em Roraima.

“Primeiro apresentamos as informações, para só então iniciarmos uma discussão. Os alunos perguntam bastante sobre a disputa pelo mercado de trabalho, uma questão que incomoda a muita gente e que origina os pensamentos xenofóbicos. Nas classes populares, que são maioria, há muitos desempregados, e com os imigrantes, esse contingente dobra, pois aqui o diploma de nível superior dos venezuelanos não é reconhecido e eles precisam exercer profissões que não são as deles”, diz.

“Então eles chegam aqui sabendo disso, mas com a expectativa de pelo menos conseguirem dinheiro para comer. Porém, tem acontecido de eles saírem de um lugar que já está ruim, chegarem aqui e não conseguirem trabalho, pois o momento está sendo de dificuldade para estrangeiros e brasileiros. Afinal, é uma conversa mais difícil de ser levada, porque a solução não está ao alcance da sociedade civil: é uma grana alta para se montar uma indústria, um comércio, asfaltar uma rodovia. É preciso que venham recursos de fontes públicas e privadas, não basta dizer: ‘tem que se gerar emprego’”, afirma.

Professor José Carlos Franco, doutor no Instituto de Antropologia da UFRR, que integra a Rede Acolher.
Crédito: Nayra Wladimila

Outro gargalo que gera discursos preconceituosos, observa Franco, está no estigma de que venezuelanos são mais perigosos do que brasileiros. Segundo a Polícia Civil em Roraima, houve realmente um salto nos crimes tendo estes estrangeiros como autores (de 13 para 30, em 2015 e 2017) e como vítimas (de 27 para 57, em 2015 e 2017), porém é importante destacar que a proporção de refugiados no Estado também cresceu de lá para cá.

“Se você desce do México até a Guatemala, passa pela Colômbia, pelo Brasil e pela Argentina, verá que o quadro é o mesmo: as pessoas se sentem inseguras por causa da grande quantidade de assalto à mão armada, de homicídio, de furto, de tráfico. Dentro do Brasil, se você buscar índices de violência em capitais como Recife e Porto Velho, eles serão bem mais altos do que os daqui. Ainda assim, se aqui ficou mais violento, não foi exatamente por culpa do imigrante: eu mesmo me mudei para cá em 2006 e no meu bairro só existiam cercas de madeira, ou nem isso. Em 2010, já estava tudo com muros, sob o argumento da insegurança. Naquela época não havia imigração em massa. Então é claro que há infratores venezuelanos, mas é na mesma proporção de brasileiros criminosos”, argumenta.

Sem Fronteiras

Como o próprio professor disse, a rede de pessoas interessadas em estender a mão aos novos moradores de Roraima é enorme. Jádila Tainá, estudante de enfermagem da UFRR e bolsista no Acolher, recentemente começou a se deslocar até o Recanto para ensinar português. “Nós vamos vendo do que eles sentem mais necessidade, e a partir daí montamos nossa próxima aula. Ensinar é algo com o qual eu não tenho tanta vocação, mas estou aqui porque gosto deste contato humanizado. Às vezes venho para cá cansada, mas sentir que estou ajudando alguém é revigorante”, explica.

Wagner Moura, fundador e presidente da ONG Fraternidade Sem Fronteiras, fundada em 2009 em Campo Grande (MS), está em Boa Vista desde outubro do ano passado com a intenção de observar a realidade e, a partir daí, treinar futuros representantes de sua organização. Encontrou a venezuelana Alba Gonzales, que se tornou a coordenadora do projeto em Roraima. Junto com outras pessoas, eles fundaram o Centro de Acolhimento no dia 9 de dezembro de 2017, na rua HC 4, 1633, no bairro Senador Hélio Campos.

Localizado em uma região de chácaras, o Centro dispõe de cinco mil metros quadrados, ruas artificiais e barracas 3x3m para acomodar mais de cem famílias. O aluguel de um ano foi pago por um empresário local, enquanto que a cozinha industrial do refeitório, os móveis e as próprias barracas foram conseguidos por empresários paulistas. Os próprios venezuelanos ajudam a administrar o espaço, como forma de aumentar a autoestima das pessoas ajudadas. São servidas três refeições diárias, distribuídos kits de higiene pessoal, há uma lavanderia compartilhada e banheiros. A doação mínima para ajudar o projeto é de R$50, que podem ser pagos através do site da Fraternidade.

Aula de português para venezuelanos no Recanto, do Projeto Acolher.
Crédito: Nayra Wladimila

Recebendo contribuições em dinheiro de todo o país (já são mais de 240 padrinhos), além de roupas e alimentos, a ONG é uma das mais procuradas em Boa Vista. Seus membros conseguem até mesmo ajudar outros abrigos. Porém, a meta é atingir 600 padrinhos, para cobrir os custos do terreno.

No dia 10 de fevereiro, um grande evento foi realizado como forma de agradecer à vizinhança do Centro de Acolhimento e o grande público: os próprios imigrantes que moram no local prestaram serviços de beleza gratuitos (escova, hidratação, corte masculino e feminino, esmalteria e chapinha), distribuíram café da manhã, organizaram um coral infantil e fizeram apresentações de balé moderno e clássico. O festejo contou com a parceria de outros grupos voluntários, como os palhaços da ONG Os Pirilampos.

A analista judiciária Vanessa Epifânio, moradora de Boa Vista e voluntária da Fraternidade, não tem hora para chegar em casa. Na entrevista que deu ao MigraMundo, já passava de meia-noite e ela ainda estava na rua fazendo atividades para a ONG. O cansaço é substituído pela satisfação em ajudar. “As doações já serviram de alívio para diversos imigrantes, e a linda manhã do dia 10 foi bem positiva para aquebrantar a xenofobia existente em Roraima. Tenho o maior orgulho em dizer que faço parte do movimento ‘Brasil, um Coração que Acolhe’, e trabalhar para essa organização humanitária é um grande prazer. Não digo nem que é um trabalho: é um aprendizado diário de amor, de exercício do bem, de olhar o próximo. É um crescimento espiritual”, descreve.

Respeito

Por ser uma jornalista bastante conhecida em Boa Vista, Sheneville Araújo tem muitos contatos. Acaba lendo muitas postagens desrespeitosas sobre o assunto em suas redes sociais e seus grupos de conversa, além de ver na mídia declarações públicas menosprezando os imigrantes. Muitas delas reclamam dos pedintes venezuelanos, os julgam como assaltantes, afirmam que eles são aproveitadores das coisas do Brasil e estão deixando a cidade feia. Nas ruas, a jornalista observa muita indiferença às pessoas vindas do país vizinho.

Entristecida com estas atitudes, ela acredita na velha frase do “cada um dá o que tem”. Em vez de fechar o vidro ou ligar o para-brisas para afugentar os venezuelanos que ficam nos semáforos, Sheneville os cumprimenta com sorrisos e com as palavras que sabe em espanhol. Quando lhe é possível, faz pequenas doações. Tudo isso porque ela não acredita que seja uma “vida fácil” ficar o dia inteiro debaixo de um sol de quase 40 graus, na expectativa de ganhar trocados para poder comer.

“Claro que existem venezuelanos ruins, assim como existem brasileiros ruins. É muita pequenez generalizar. Afinal, todas as pessoas, no fundo, são migrantes: se não elas, seus avós ou bisavós partiram de algum lugar em busca de melhores condições de vida, um movimento natural do ser humano. Migrações existem desde que o mundo é mundo”, opina.

Além disso, ela afirma ser impossível saber como está sendo a vida do outro, por isso, adotar uma postura de respeito é o mínimo. “Um sorriso desarma quem está infeliz, quem está chateado, e ajuda quem está precisando de um afago. Eu nunca fui desrespeitada por eles, pelo contrário, eles é quem pedem desculpa pela abordagem ou por falarem em espanhol. Acredito muito em energia, que uma coisa boa atrai outra. Espero sinceramente que mais energias boas circulem por aí”, finaliza.

É como o jovem venezuelano Rahidee Vidal gostaria de ser tratado. Com 24 anos de idade e um diploma de economista obtido há um ano, ele veio de El Tigre, no Estado de Anzoátegui, para morar com a tia brasileira em Boa Vista. Sua irmã pagou sua viagem até Santa Elena de Uairén, na fronteira com Roraima. De lá, ele seguiu de ônibus até a capital. Mas quando desceu na rodoviária, a pessoa que havia combinado de lhe buscar simplesmente não apareceu, e o rapaz não conseguiu se comunicar com ninguém. Acabou tendo que morar sozinho em um condomínio enquanto não conseguia ligar para sua família. Hoje, um mês depois, ele já está devidamente instalado na casa de sua tia, mas sua trajetória foi de muito desamparo.

Rahidee Vidal, venezuelano, economista, assiste às aulas de português do Projeto/Rede Acolher.
Crédito: Nayra Wladimila

“Senti muita saudade da minha antiga vida. Deixar o seu país e o seu povo não é fácil, aqui é outra cultura e outro idioma, é muito complicado. Apesar de achar Roraima tranquilo e organizado, me sinto deslocado. Para completar, escutei e escuto muitos comentários sobre sermos ladrões e as mulheres prostitutas. Falam isso para mim nas ruas, nas feiras, no condomínio onde morei”, lamenta.

É por isso que, sentado à uma mesa com outros dois conterrâneos, colando em uma cartolina figuras de produtos de supermercado com seus respectivos nomes em espanhol e português, ele sorria de orelha a orelha. Desde que sua tia viu uma notícia sobre o Projeto Acolher, ele passou a frequentar o Recanto no bairro Caimbé três vezes por semana, para aprender português enquanto espera seus documentos chegarem e enfim poder trabalhar. Chegando no endereço apenas com a expectativa de ter aulas gratuitas, ele descobriu que o grupo faz jus ao nome. “Me sinto muito bem aqui. Me sinto contente e acolhido, mesmo”, diz.

Yunza terá 1ª edição como parte do Calendário Oficial de Eventos de São Paulo

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Carnaval peruano é celebrado na capital paulista desde 2012 e agora deve acontecer sempre na última semana de março

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizada em 16/03/18, às 06h14

O Carnaval no Brasil oficialmente já ficou para trás, mas as comunidades migrantes presentes em São Paulo dão uma forcinha para “estender” a festa.

No próximo dia 25 de março acontece a sétima edição da Yunza, o Carnaval peruano, que vai reunir atrações gastronômicas e culturais do país andino. A festa começa a partir das 11h na Praça Ulisses Guimarães (ao lado do Museu Catavento e próxima da estação Pedro II do metrô) – as duas edições anteriores (2016 e 2017) aconteceram no Centro Esportivo Tietê.

A organização é da Associação Latino-americana de Arte e Cultura (ALAC) e do Consulado Geral do Peru em São Paulo, com apoio da Prefeitura de São Paulo e da Câmara Municipal.

“A Yunza é muito importante porque se relevam aspectos culturais do Peru. Parte da obrigação consular é difundir os colores culturais peruanos para que sirvam de referência a todos os membros da comunidade migrante assim mesmo na medida que cada vez mais participam os irmãos paulistanos que nos acolhem carinhosamente na cidade e é uma oportunidade para que conheçam mais do acervo cultural dos migrantes peruanos e se sintam convidados a conhecer nosso pais”, destaca Arturo Jarama, cônsul-geral do Peru em São Paulo.

Artesanato típico do Peru exposto na Yunza 2017 em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Mobilizações e conquistas

Realizada na capital paulista desde 2012, a edição deste ano pode ser considerada especial porque é a primeira depois que a Yunza entrou para o Calendário Oficial de Eventos de São Paulo. A inclusão veio com o Projeto de Lei 1 16.661/2017, de autoria do vereador Antonio Donato (PT), que institui ainda o último domingo de março para realização da festa.

A reivindicação era antiga. Na edição de 2014, a organização da festa já reivindicava a inclusão da Yunza no calendário oficial paulistano. No mesmo ano, a Alasitas, importante festa da comunidade boliviana celebrada sempre em 24 de janeiro, já havia conseguido a inclusão no calendário, após anos de mobilizações junto ao poder público municipal.

“É importante a preservação, a valorização das culturas dos povos migrantes, e o “bem viver” para uma melhor integração social na sociedade paulistana, o combate ao pré-conceito e a xenofobia”, reforça a peruana Tania Bernuy, presidente da ALAC.

Apresentações de dança e música agitaram o publico na Yunza 2014.
Crédito: Divulgação

Além da consolidação como evento cultural, a Yunza também já serviu como ponto de mobilização e solidariedade da comunidade peruana e de outras pessoas que apreciam a cultura do país. Em 2017, a festa reforçou a campanha global #UnaSolaFuerza, em prol dos centenas de milhares de peruanos atingidos pelas chuvas que atingiram o país em março de 2017.

Significado

Yunza (pronuncia-se junsa) significa “corta-monte” em quéchua, um dos idiomas oficias do Peru, e consiste na derrubada de uma árvore para colher os seus frutos, em uma apologia a “pacha-mama” (“mãe terra”, “universo”). Nela, o “padrinho” da festa é responsável por escolher uma árvore seca para enchê-la de enfeites e presentes – o objetivo é mostrar que ela ainda pode gerar frutos e alegrias, mesmo no final da vida.

No final da festa, o público faz uma roda em volta da árvore e cada um dá um golpe de machado para tentar derrubá-la. Quem der o golpe final é eleito o padrinho da festa do próximo ano.

Neste ano, os padrinhos do evento em São Paulo são Percy Iturriaga Garcia e Patricia Loayza Pinto.

Carnaval Peruano Yunza 2018
Data e hora: 25 de março, das 11h às 21h
Local: Praça Cívica Ulisses Guimarães, Parque Dom Pedro II, São Paulo – próximo ao Museu Catavento e da estação Pedro II do metrô
Entrada: gratuita

“Badante” rima com migrante

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Na Itália, 90% dos "batanti" (cuidadores) são imigrantes. E a demanda tende a aumentar. Crédito: Reprodução/Migranti Torino

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
Em Roma (Itália)

“Badante” é uma palavra italiana que, em português, pode ser traduzida como cuidador ou cuidadora. Alguém cuja tarefa é cuidar de outra pessoa com dificuldades especiais. Trata-se de um serviço privado de assistência familiar, voltado especialmente para o cuidado de idosos, doentes e às vezes crianças (para não falar dos cães). Na maioria dos casos, o serviço é prestado por mulheres, algumas enfermeiras profissionais, outras sem qualquer qualificação.

Na Itália, o número de “badanti” (plural) é estimado em 900 mil, ou cerca de um milhão, sendo que o percentual de 90% são estrangeiras. Grande parte vem do Leste da Europa, com destaque para Ucrânia Romênia e Moldávia. Outras são originárias da América Latina, particularmente do Peru e Equador. Não faltam também as asiáticas, de modo especial as filipinas. Convém lembrar que hoje a península italiana conta com aproximadamente 13,3 milhões de anciãos. Além disso, aqueles com mais de 65 anos aumentam ao ritmo de 260 mil por ano. Isso significa que em 2050 os anciãos alcançarão quase a cifra de um quarto de toda população. Os doentes de Alzheimer, para citar apenas um exemplo, ultrapassam a casa dos 600 mil, o que representa nada menos que 4% da faixa populacional superior aos 65 anos.

Disso resulta que o serviço de assistência familiar ou privada, de modo particular sanitária e social, continua em crescimento progressivo, não somente na Itália, mas também em outros países europeus. Quem presta assistência domiciliar a essas populações que se encontram em fase de rápido envelhecimento, aproximando-se do outono? Aqui faz sentido o título deste comentário: “badante” rima com migrante! Ainda na Itália, até 2030 prevê-se uma demanda de “badanti” da ordem de 500 mil, 25% a mais em proporção com o momento atual (Cfr. Istituto Nazionele di Statistica – Istat).

Na Itália, 90% dos “badanti” (cuidadores) são imigrantes. E a demanda tende a aumentar.
Crédito: Reprodução/Migranti Torino

Desnecessário acrescentar que os números e percentuais assinalados acima são todos aproximativos. O motivo é simples e duplo: os institutos de pesquisa não podem fornecem dados mais precisos e específicos sobre a assistência social e sanitária utilizada pelas famílias; e não os podem fornecer porque boa parte dessas trabalhadoras são assumidas de forma informal, sem um contrato de trabalho regulamentado por lei. O que é certo é que a Itália e demais nações da Europa tornam-se dia-a-dia países com tendência a um serviço em aumento de cuidado assistencial a domicílio. Vale dizer, países de imigração crescente.

Notoriamente, como bem sabemos, os migrantes nos países de destino entram no mercado de trabalho pela porta dos fundos: serviço domiciliar e serviços em geral, construção civil, limpeza, colheitas agrícolas temporárias… Numa palavra, trabalho braçal. Excetuando, claro, os técnicos, diretores e consultores de grandes conglomerados transnacionais. Ao contrário do que pensa e diz o senso comum (e muitas vezes a grande mídia), os estrangeiros não costumam roubar o emprego dos trabalhadores locais. Submetem-se, em lugar disso, aos serviços mais pesados e perigosos, mais sujos e mal remunerados. No caso da assistência familiar a que nos estamos referindo, a um serviço delicado e que exige boa dose de paciência e dedicação.

Cabem duas palavras de conclusão. Nos países do velho continente europeu, o cuidado com as pessoas mais frágeis, debilitadas e necessitadas da população, via de regra, está nas mãos dos migrantes, em particular das mulheres. Não será ocioso perguntar que significará isso em termos de preservação da saúde e da memória, de intercâmbio cultural e de uma convivência pacífica que a todos só pode enriquecer!

Roma, 1º de março de 2018

A falácia do American Dream – ou uma reflexão pessoal sobre migração nos EUA

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Graffiti em Chapel Hill, no Estado da Carolina do Norte (EUA). Crédito: Arquivo Pessoal/Patrícia Martuscelli

Os EUA são muito bons em vender a ideia de que o país é uma terra da oportunidades; na prática, o American Dream é um sonho que não é realidade

Por Patrícia Nabuco Martuscelli
Em Chapel Hill (EUA)

A migração é um tema sensível para mim como pessoa e pesquisadora. Como bisneta de imigrantes italianos, senti a necessidade de começar a estudar esse tema em 2011 quando ainda estava na graduação. Naquele momento, tive a oportunidade de pesquisar sobre o refúgio. Em 2015, quando me mudei para São Paulo, tive contato direto com a população imigrante e refugiada por meio de trabalhos voluntários na Missão Paz e na Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Mas só no meio de 2017, ao vir realizar um período de estudos nos Estados Unidos da América, foi que pude realmente me colocar no papel de imigrante.

Essa é uma reflexão muito pessoal sobre uma experiência migratória de alguém que teve contato com imigrantes nos Brasil e também está pesquisando migração nos Estados Unidos. Cada experiência migratória é única, portanto, não tenho pretensão de que meu relato seja representativo de qualquer ideia sobre imigração e nem acredito que haja um caso clássico de migração.

Ser latina

É no mínimo curioso para um pesquisador se transformar em seu objeto de estudo. No caso, eu pude realizar um percurso migratório documentado, como pesquisadora de um centro de estudos em uma universidade de renome internacional, contando com o apoio da universidade, da minha família e sem me preocupar com questões econômicas. Importante ressaltar que o visto concedido para pesquisa não te permite trabalhar e que tive que mostrar ao governo estadunidense que teria como arcar com minhas despesas durante os 12 meses antes mesmo de sair do país. Também tive que comprar um caro seguro saúde para o período de 12 meses sugerido pela universidade. Além de migrar documentada e com todo esse apoio, também tive o privilégio de estudar inglês desde os 8 anos de idade. Isso me possibilitou conseguir me comunicar com as pessoas facilmente assim que cheguei. Por fim, ainda que seja mulher, gozo do privilégio de ser branca e, portanto, sou constantemente confundida com europeia, até o momento quando alguém pega meu passaporte e percebe que sou brasileira. Aí então passo a ser vista e definida como “latina”.

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Interessante pensar que os brasileiros não se consideram latinos. Eu mesma nunca me identifiquei com a ideia de latina. Conversando com uma professora que trabalha com mulheres imigrantes aqui nos EUA, percebi que isso pode ser fruto de meu próprio preconceito sobre o que significa ser latino. Na realidade, nem os mexicanos, salvadorenhos, hondurenhos se consideram latinos. A ideia de latino é pejorativa e coloca uma série de grupos dentro de uma mesma caixa que se relaciona com “imigrantes” e “indocumentados”.

“Boas Vindas” não exatamente exprime o que os migrantes encontram nos EUA.
Crédito: Arquivo Pessoal/ Patricia Martuscelli

Nem tudo são flores na terra do Tio Sam. A pobreza nos EUA, assim como no Brasil, tem cor. Os pobres são negros e obesos. Sim… muito obesos… Marcas de redes de fast food caríssimas no Brasil são baratas aqui nos EUA, de modo que a população mais pobre não tem dinheiro para consumir produtos frescos como frutas e verduras, que são mais caros. A população latino-americana é parcialmente visível. Sinais nos ônibus são também escritos em espanhol como uma tentativa de integração, por exemplo. São imigrantes que trabalham na construção civil. Mas eles também não querem ser tão visíveis. Ainda mais no atual ambiente político que o país vive.

O governo Trump causou marcas na população latina. Estudos já mostram que denúncias de violência doméstica caíram 80% na população latina em diversas cidades no país. Isso significa que essa população está com medo de ter qualquer contato com autoridades, mesmo para buscar proteção e seus direitos, com medo de serem deportados. Isso para não mencionar o fim da Proteção Temporária (TPS) para diversos grupos como haitianos e salvadorenhos e do programa DACA para jovens que chegaram ao país como crianças.

Mas voltando para minha experiência pessoal. Logo que cheguei ao aeroporto, o agente de fronteira, ao pegar meu passaporte e ver o meu tipo de visto, comenta como será maravilhosa minha experiência como babá (aupair) nos Estados Unidos. Nada contra as pessoas que migram por essa razão e realizam um trabalho muito digno e necessário (conheci uma professora que era eternamente grata pela aupair brasileira que vivia em sua casa, sem essa profissional, a professora não conseguiria dar aulas, terminar seu doutorado e ainda dar atenção para seus dois filhos). O problema é a imagem que esse agente migratório tem da mulher brasileira jovem que chega aos EUA. Na mente dessa pessoa, uma brasileira não pode ser uma imigrante altamente qualificada como uma pesquisadora, ela pode apenas ocupar determinadas posições laborais baseadas em visões prévias do que é ser mulher e do que é ser latina, mais especificamente brasileira.

Migrar é um processo difícil e complexo. Você está longe de sua família e amigos. Você enfrenta desafios diários e isso pode ser mais ou menos doloroso a depender da sua condição migratória e de sua rede de apoio. Como migrante branca, altamente qualificada e documentada também enfrentei alguns pequenos desafios que me fizeram repensar o tema da migração e o olhar que eu direciono para imigrantes que estão em situação de maior vulnerabilidade do que eu.

Pequenas coisas se tornam difíceis quando você é um imigrante – dentre elas, fazer compras. Você não conhece as marcas e os produtos. Por exemplo, logo que cheguei fui ao mercado comprar shampoo. Tinha tantas opções com um vocabulário em inglês que eu não entendia. Infelizmente devo ter faltado nessa aula de inglês que ensinava como falar componentes de shampoo. Por isso, passei cerca de 30 minutos olhando e tentando decidir o que é que eu precisava. A mesma situação se repetiu no corredor dos cereais por causa da infinidade de opções. As pessoas passavam por mim, pegavam seus shampoos e olhavam como se eu fosse um ET lá olhando as diversas marcas. No final decidi por um shampoo e um cereal e fui embora.

Com o tempo, você vai se acostumando, mas no começo é tudo novo. Você também tem que se preocupar como questões culturais. Brasileiros são afetuosos e abraçam. Em mais de uma situação me peguei encontrando um colega americano na rua que fazia alguma aula comigo e fui cumprimentar a pessoa dando um abraço. É impressionante a reação dos americanos a um simples abraço. Eles ficavam parados e atônitos. Diante da situação, eu ficava extremamente envergonhada, pedia desculpas e explicava a situação. Além disso, você é diferente. Você se veste com roupas e sapatos que são diferentes e todo mundo te olha na rua.

A questão da saúde

Uma das frases mais interessantes que ouvi aqui nos EUA foi que os produtos são baratos, mas os serviços são caros. Isso inclui serviços de saúde. A experiência mais traumática que eu vivi até agora foi acessar serviços de saúde nos Estados Unidos. Lembrando,claro, que eu possuo um seguro de saúde caro da universidade e que fui tentar me consultar na rede que é coberta pelo seguro. Um professor brasileiro definiu da melhor forma o sistema de seguro saúde nos Estados Unidos: é como um seguro de carro, se você precisar acionar precisa pagar o sinistro. Essa ideia é muito difícil de ser entendida por um brasileiro porque se você tem plano de saúde no Brasil, suas consultas e exames são cobertos. Se você não tem plano, mas passar mal na rua, poderá ser atendido pelo SUS e alguém chamará uma ambulância para você. Não existe SUS nos EUA. Se você passar mal na rua e chamarem uma ambulância para você, essa brincadeira pode te render uma conta médica de cerca de 1000 dólares, contando é claro que você tem seguro.

Loja em Chapel Hill (EUA). Produtos são baratos, mas o mesmo não se pode dizer dos serviços no país.
Crédito: Arquivo Pessoal/Patrícia Martuscelli
Crédito:

Pois bem, fui acessar os serviços médicos. Primeiro que os estadunidenses adoram telefone. Todo tipo de serviço você tem que ligar para agendar ou ligar para pedir informação. Então você tem que ligar para o seguro saúde doente sem entender direito o inglês da pessoa do outro lado (é muito diferente conversar com alguém ao vivo e por telefone, principalmente logo que você chega ao país. Só de ver a boca da outra pessoa mexendo, já facilita a compreensão) para tentar entender qual será o valor da consulta. Ninguém te dá uma informação precisa porque a consulta médica depende dos exames que a médica pedirá. Exames que você consegue fazer de graça no posto de saúde, como exames de sangue e de urina, podem custar mais de 250 dólares cada se você tiver seguro. Ou seja, você está doente e acaba ficando com mais medo de ir ao médico porque você não sabe quanto custará o atendimento. E você acaba ficando mais ansioso e doente.

Depois da consulta, o plano de saúde te envia pelo correio uma conta que você tem de pagar. Ao mesmo tempo, todo mundo tem uma história terrível para te contar sobre o sistema de saúde estadunidense. Fulana foi na manicure, a unha dela encravou e ela teve que ir na emergência. Para ficar mais barato, ela fez o procedimento sem anestesia (meu Deus o.O) e acabou gastando mais de 533 dólares. Isso porque ela tinha seguro.

Mas o martírio com os serviços de saúde não acaba nunca. No início de setembro, marquei uma consulta para entrar no sistema de saúde da universidade e poder acessar serviços de urgência, que são mais baratos do que o pronto-socorro, em caso de necessidade. Antes de agendar a consulta, liguei para o sistema de saúde que explicou que uma consulta seria 20 dólares. Considerando essa informação, marquei a consulta e, no dia do agendamento, confirmei essa informação com a recepcionista que passou a mesma situação. Qual foi minha surpresa quando mais de 4 meses depois chega no meu apartamento uma carta com uma conta no valor de 297 dólares? Além de ficar desesperada porque obviamente você não está esperando por isso, você liga para o plano de saúde que explica que eles cobram consultas médicas (office visit) mas não consultas preventivas (physical routine exam), e que o sistema de saúde estava cobrando esse segundo e não o primeiro.

Sem entender a diferença entre essas duas coisas, ligo para o sistema de saúde e explico a situação. Ao mesmo tempo, confirmo na página online do sistema de saúde que tipo de consulta foi feita e está escrito office visit. Resultado: é bem provável que alguém tenha cometido um erro no meio desse trâmite, mas é uma questão tão procedimental que dificilmente um estrangeiro entenderia. Como você poderia imaginar que o sistema de saúde ia utilizar um código que seu plano não cobre? Parece que todo o tempo que você perde ligando para um lugar e para o outro (para tentar entender a situação e não pagar uma conta astronômica que não faz nenhum sentido) é normal para os estadunidenses. Sem argumentar que o sistema de saúde do Brasil é o melhor do mundo ou que o SUS não tem problemas, mas não me lembro de passar horas ao telefone com o plano de saúde e com o hospital por coisas básicas como consultas ou exames de sangue.

Uma pessoa documentada com plano de saúde e que fala inglês fica assustada com o sistema de saúde nos EUA. Imagina um imigrante indocumentado que fala apenas espanhol? Essas experiências me fizeram refletir sobre a situação nos países daquelas pessoas que preferem viver indocumentadas em um país em que elas não possuem direitos e não podem nem ficar doentes.

Graffiti em Chapel Hill, no Estado da Carolina do Norte (EUA).
Crédito: Arquivo Pessoal/Patrícia Martuscelli

Terra de oportunidades?

Os EUA são muito bons em vender a ideia de que o país é uma terra da oportunidades, onde aqueles que trabalharem duro podem alcançar tudo aquilo que desejarem. Mas na prática o American Dream é um sonho que não é realidade. A desigualdade nos EUA é enorme. Ter um presidente que tem posições tão contrárias à imigração, traz à tona o que as pessoas têm de pior. Se antes uma pessoa teria medo de ser julgada socialmente por ser xenófoba, com as declarações de Trump essa mesma pessoa passa a se sentir legitimada para ser preconceituosa e tratar mal quem fala inglês com sotaque. Aconteceu comigo algumas vezes. Não na universidade, mas no ônibus e em um bar durante o Super Bowl – que é a final do campeonato nacional de futebol americano.

Ser um imigrante nos EUA é bem diferente de passar férias em Orlando ou em Nova York. No último caso, você é um turista. Ser um imigrante indocumentado nos EUA significa conviver todo o dia com o medo: medo de ser deportado, medo de ficar doente e ter que enfrentar um sistema de saúde que nem os americanos entendem, medo de não poder trabalhar. Ainda assim com todo esse medo e insegurança as pessoas migram. Elas migram não é porque elas querem deixar suas casas, mas porque elas precisam. Enquanto elas precisarem, elas vão continuar migrando mesmo considerando os riscos da jornada. Quem ganha com esse sistema: redes de atravessadores de imigrantes que lucram milhões por ano, empresas privadas que administram centros de detenção para imigrantes no país (incluindo centros para famílias) e empresários que precisam do trabalho dos imigrantes e, como eles estão indocumentados, pagam menos do que o salário mínimo.

Minha experiência migratória privilegiada me fez entender que migrar, mesmo nas condições mais ideais do mundo, não é fácil. Fácil é culpar pessoas por erros estratégicos de política, fácil é separar famílias e construir muros. Agora entender um fenômeno complexo como a migração em que cada caso é um caso, isso sim é um trabalho difícil. São em tempos sombrios como esses nos EUA, em que pessoas que trabalham com imigrantes também estão com medo, que o ativismo pela causa é tão importante. Precisamos reconhecer que o American Dream não é real e defender a livre migração para todos.

Velhos e novos olhares sobre migrações internacionais e desenvolvimento

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As relações entre migração e desenvolvimento são complexas e transversais Crédito: Acervo Fundación Avina

É preciso lembrar que tanto migração quanto desenvolvimento são conceitos construídos e em constante evolução

Por María Villarreal
Do Rio de Janeiro (RJ)

Os vínculos entre migrações internacionais e desenvolvimento são heterogêneos e a sua discussão forma parte dos debates fundacionais sobre o fenômeno da mobilidade humana. Já nas Leis sobre Migrações, Ernest Ravenstein afirmava que as migrações tendem a aumentar com o desenvolvimento econômico e com o progresso da tecnologia e o transporte. Atualmente, a discussão que prevalece são os efeitos das migrações sobre o desenvolvimento. A este respeito, a ideia que os migrantes possam promover o desenvolvimento dos seus países de origem é majoritária e defendida por estudiosos, políticos e organismos internacionais como a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Banco Mundial (BM).

Não obstante, se até períodos recentes a crença que as migrações podem produzir benefícios se aplicava majoritariamente aos países de origem, hoje, com a globalização dos fluxos, se estende também aos países de recepção e se considera válida em todas as direções das migrações: Sul-Norte; Sul-Sul; Norte-Sul e Norte-Norte. Com o objetivo de debater internacionalmente as contribuições dos migrantes, no marco das Nações Unidas, nas últimas duas décadas foram criados espaços como o Diálogo de Alto Nível sobre Migrações e Desenvolvimento (High-Level Dialogue on International Migration and Development) e o Fórum Global sobre Migrações e Desenvolvimento (Global Forum on Migration and Development).

Logo do Global Forum on Migration and Development.
Crédito: Reprodução

Em relação aos efeitos das migrações sobre o desenvolvimento existem duas correntes de pensamento majoritárias: otimistas e pessimistas. Os que defendem a primeira acreditam que os países de origem podem se beneficiar das remessas enviadas pelos migrantes, ao passo que podem obter vantagens como contatos, investimentos e projetos de cooperação promovidos pelas comunidades de emigrantes e seus descendentes, também conhecidas como diásporas. Outras potencialidades das migrações, especialmente se constituídas por migrantes qualificados, são as redes de cooperação científica, as contribuições dos retornados e os projetos de co-desenvolvimento. Estes últimos são normalmente programas de cooperação locais nos quais participam associações de imigrantes, promovendo a participação social, uma melhor integração nas sociedades de acolhida e, contemporaneamente, maiores níveis de bem-estar em suas comunidades de origem.

Como exemplos concretos dos benefícios da emigração, os otimistas afirmam que os fluxos de remessas superam atualmente os fluxos de Investimento Estrangeiro Direto (IED) e os fundos de Ajuda para o Desenvolvimento, constituindo, portanto, importantes e sustentáveis recursos para o desenvolvimento das sociedades de origem (Villarreal, 2017). No caso dos países beneficiados pelas diásporas e por projetos de cooperação dois exemplos significativos são o Haiti e a Índia. O primeiro é uma referência de cooperação por parte da diáspora, especialmente em áreas como saúde e educação, mas o papel dos haitianos e seus descendentes tem sido essencial também para processos de transferência de tecnologias e na reconstrução do país após o terremoto de 2010. A Índia, por outro lado, deve boa parte do seu desenvolvimento tecnológico, sobretudo em estados como Kerala e Bangalore, aos processos de transferência de tecnologia e investimento econômico promovido pelos membros da diáspora (Collier, 2013).

Imagem da campanha e do evento Haiti 2030 sobre transferência e uso de novas tecnologias com a contribuição da diáspora
Crédito: Reprodução/Twitter Stéphane Bruno

Os otimistas também acreditam que os fluxos migratórios sejam benéficos para os países de recepção e que os imigrantes possam contribuir com seus saberes, trabalho e outros recursos ao desenvolvimento destas sociedades. No caso brasileiro, exemplos recentes desta visão são a publicação Imigração como vetor estratégico do desenvolvimento socioeconômico e institucional do Brasil e o projeto Imigrantes do século XXI, promovido pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Este último visa compreender as contribuições que os imigrantes podem oferecer à sociedade brasileira. Para tanto, o projeto registra as trajetórias das pessoas que escolheram provisória ou permanentemente o Brasil como lugar de residência, narrando visualmente quais são suas percepções, expectativas e possíveis contribuições para o desenvolvimento econômico nacional.

A perspectiva otimista sobre os vínculos entre migrações internacionais e desenvolvimento é majoritária, mas não é a única. Desde diversos pontos de vista e, especialmente desde os países do Sul do mundo, se formulam críticas a esta visão que ignora ou não considera devidamente as causas majoritárias das migrações e analisa apenas as vantagens, sem examinar os graves efeitos negativos que as migrações podem provocar nos países de origem e nos mesmos migrantes que, com frequência, realizam trabalhos que estão aquém das suas capacidades e formação. Desta forma, sublinham-se os impactos da fuga de cérebros (brain drain) e as perdas que provoca a emigração, que não são cobertas nem pelas remessas nem pelas possíveis contribuições dos emigrantes às suas sociedades de origem. Assim, os maiores benefícios das migrações ficam nos países de acolhida que recebem a população jovem e formada, capaz de contribuir com seu trabalho e conhecimentos ao progresso destas sociedades. Como consequência, para poder falar de desenvolvimento real e sustentável, os pessimistas defendem que antes de aceitar os possíveis benefícios da migração, é preciso promover mudanças nas relações internacionais e na distribuição dos recursos, fazendo com que a desigualdade entre países diminua e aumentem as chances de que a migração se torne uma opção real e deixe de ser, em muitos casos, uma forma de sobrevivência.

As relações entre migração e desenvolvimento são complexas e transversais
Crédito: Acervo Fundación Avina

Apesar da predominância dos enfoques otimista e pessimista, desde os anos noventa tem surgido também uma perspectiva intermediária que analisa os custos e benefícios da migração e defende efeitos positivos sobre o desenvolvimento sempre que se cumpram algumas condições que incluem programas específicos e o apoio dos Estados e outros autores as iniciativas dos migrantes. Contudo, as três visões enfrentam diversos e novos desafios como pensar as migrações internacionais e seus efeitos a partir de fenômenos como a mudança climática, o aumento dos fluxos migratórios em todas as direções, especialmente no circuito Sul-Sul, o refúgio, o trânsito de pessoas e as novas evidências sobre os efeitos da migração em relação ao bem-estar dos migrantes (Villarreal, 2017). Ao respeito, é preciso lembrar que tanto migração quanto desenvolvimento são conceitos construídos e em constante evolução, cujas relações são complexas e merecem estudos interdisciplinares que consideram todas as variáveis e não se reduzam apenas a visões economicistas fundamentadas em cálculos de custo-benefício.

Referências

COLLIER, Paul. Exodus: How Migration is Changing our World. Nueva York: Oxford University Press, 2013.

Fundação Getúlio Vargas (FGV): http://dapp.fgv.br/imigracao-e-desenvolvimento/imigrantes-do-seculo-21/

Fundação Getúlio Vargas (FGV): Imigração como vetor estratégico do desenvolvimento socioeconômico e institucional do Brasil. http://dapp.fgv.br/wp-content/uploads/2015/11/estudo_24.pdf

RAVENSTEIN, Ernest. The Laws of Migration. Journal of the Statistical Society 48 (1885) pp. 167-227; The laws of migration. Journal of the Statistical Society 52 (1889), pp. 214-301. https://cla.umn.edu/sites/cla.umn.edu/files/the_laws_of_migration.pdf

VILLARREAL, María. Replanteando el debate sobre migraciones internacionales y desarrollo: nuevas direcciones y evidencias. Revista Interdisciplinar de Mobilidade Humana (REMHU), Brasília, v. 25, p. 181-198, 2017 http://www.csem.org.br/remhu/index.php/remhu/article/view/753


María Villarreal
é doutora em Ciências Políticas e atualmente pós-doutoranda em Sociologia Política na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). Além disso, é migrante há 17 anos, tem vivido em vários países e, a cada dia, tenta compreender as nuances e particularidades do fenômeno da mobilidade humana. Aparte das migrações internacionais, também tem interesse nos estudos latino-americanos, na integração regional, nas políticas públicas, na democracia, na literatura e numa infinidade de outros temas.

A fronteira em três dimensões

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Na Marcha dos Imigrantes 2015, grupo levou cerca que simbolizou as fronteiras a serem superadas pelo mundo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - nov.2015)

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Em termos planetários, acentuam-se as assimetrias nacionais, regionais ou internacionais. Por toda parte aprofunda-se o fosso dos desequilíbrios socioeconômicos. O pico da pirâmide social distancia-se cada vez mais da base. A globalização da economia traz embutida a concentração de renda e riqueza, por um lado, e a exclusão social, por outro. Ao mesmo tempo que uma minoria privilegiada beneficia-se dos bens da técnica, do progresso e do crescimento, aumentam em proporção inversa a pobreza, a miséria e a fome. E, concluindo o efeito dominó, aumenta igualmente a busca de alternativas através das migrações de massa.

Tais deslocamentos, porém, logo descobrem que “no meio do caminho tinha uma pedra”, para usar a expressão do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Não uma, mas muitas pedras! Uma em cada fronteira, ou melhor, em cada dimensão da fronteira. Na fronteira geográfica, territorial, marítima ou física, tropeçam com a vigilância da polícia federal e do serviço aduaneiro. Na fronteira jurídico-política, são as leis da política migratória que lhes barram o caminho. Na fronteira cultural-religiosa, deparam-se com a discriminação e a hostilidade, a intransigência e a xenofobia.

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Muitos conseguem cruzar a fronteira geográfica, apesar dos muros que se multiplicam. Mas, em falta dos documentos necessários, não podem ir além disso. Permanecem no país de chegada na condição de irregulares ou “clandestinos”, com tudo que isso significa para a sobrevivência imediata e o futuro. Outros, com a documentação em dia, conseguem cruzar a fronteira geográfica e política. Cedo, porém, se dão conta da dificuldade de adaptação, sentindo-se estrangeiros e estranhos no lugar de destino. Outros, ainda, após ter cruzando as três dimensões da fronteira – física, política e cultural – experimentam o preconceito e não raro o racismo puro e simples. Fecha-se a oportunidade da cidadania.

Disso resulta que a intolerância – ideológica, religiosa ou cultural – constitui a fronteira mais difícil de ultrapassar. Uma fronteira que está na mente, no coração e na cultura de não poucas pessoas, setores e nações inteiras. Muro divisório que carregamos dentro de nós, seja enquanto habitantes dos lugares de acolhida, seja inclusive enquanto migrantes. É uma barreira que, em maior ou menor grau, faz parte da própria condição humana. Fronteira que é construída não com blocos de cimento, soldados armados ou arame farpado, mas costurada através de distintas línguas e ideias, diferentes costumes e modos de interpretar o mundo e a história.

Muro invisível e, por isso mesmo, mais difícil de superar. Aqui os grupos extremistas costumam apelar para o conceito de raça ou de nacionalismo, a fim de rechaçar qualquer aproximação. Basta pensar no avanço do neofascismo e do nacionalismo populista de direita em diversas partes do mundo.

Na Marcha dos Imigrantes 2015, em São Paulo, grupo levou cerca que simbolizou as fronteiras a serem superadas pelo mundo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Trata-se da fronteira entre os de “dentro” e os de “fora”, “nós” e “eles”, “conhecidos” e “desconhecidos” “nacionais” e “estrangeiros”. Pior ainda quando essa divisão vem temperada e reforçada com a cor da pele ou com uma espécie de moralismo excludente, de corte ético-religioso e maniqueísta, tipo “bons” e “maus”. É então que os muros substituem as pontes, o desencontro toma o lugar do encontro, o intercâmbio acaba sendo abortado antes de nascer, as portas se fecham uma a uma, o isolamento degenera em comportamento hostil… Dá-se origem e amplo espaço à “cultura da indiferença”, na expressão do Papa Francisco.

Na contramão da globalização política e econômica, verifica-se uma restrição crescente às vias legais de migração. Fechada a porta da frente, os migrantes forçam a porta dos fundos. Ou seja, pressionam em massa sobre a fronteira física, geográfica, territorial ou marítima. Disso decorre não só um aumento das migrações ditas irregulares, mas também uma maior visibilidade dos fluxos migratórios. O desafio está em gerir tais deslocamentos de forma, digamos, humanitária. Gestão que deve levar em conta os países de origem, de trânsito e de destino. Desnecessário  insistir que semelhante gestão passa, necessariamente, pelo combate à desigualdade socioeconômica, pela defesa dos direitos humanos, pela criação de postos de trabalho e, no fim da linha, por uma distribuição de renda mais justa e equitativa. As assimetrias que dividem países, regiões e o planeta como um todo, mescladas e acrescidas pela violência e pela guerra, encontram-se na raiz dos movimentos forçados de milhões e milhões de pessoas.

Roma, 18 de fevereiro de 2018

Casal de refugiados se separa em bote e se reencontra quase 2 anos depois

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(Foto: Depositphotos)

MigraMundo acompanhou por cinco meses o dia a dia de Maryam*, que após 1 ano e 7 meses de fugas e prisões, reencontrou o marido na França

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Nota da edição: todos os nomes mencionados nesta reportagem são fictícios, de forma a proteger a identidade de eventuais futuros problemas, especialmente em tempos de xenofobia e outras formas de discriminação e perseguição

Uma pequena janela despontava no alto de uma igreja, no centro da cidade francesa de Estrasburgo. De lá, via-se os telhados de todas as casas ao redor – e a lua. “Você já subiu para ver a vista daqui, Shang? É maravilhosa!”. “Não, me dá um pouco de medo de ir até a janela”, respondeu Maryam* a duas recém-conhecidas que depois se tornariam suas amigas.

Era noite já densa em Estrasburgo, noite de um outono que havia sido duro à jovem de 21 anos, curda, nascida nos campos que circundam Erbil, capital da Região Autônoma do Curdistão.

Após anos de guerra com o Iraque, inclusive de genocídio (1986) que aniquilou quase 200 mil curdos, o Curdistão, situado ao Norte do Iraque, ganhou autonomia depois da queda do regime de Saddam Hussein, em 2003.

Há quase 4 mil quilômetros distante do Curdistão, Maryam via-se sozinha naquele pequeno quarto feito todo em madeira, no centro de uma das cidades mais ricas da França. Naquela noite, ela havia comprado com o dinheiro que havia recebido do governo francês  uma barra de chocolate, alguns biscoitos doces e refrigerante. Shang fazia as refeições diárias na casa do pastor da igreja que a acolhera e a de sua família.

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A sua cama repousava bem no canto do quarto. No outro canto, via-se uma estante repleta de livros cristãos infantis e outras duas camas desmontadas – que eram usadas pela igreja para alojar mais pessoas em situação de emergência. No teto, uma enorme janela, de onde se via o céu de um azul-marinho profundo que pulsava em estrelas.

“Sempre que olho para o céu me dá tristeza, porque eu não sei onde o meu marido está. Vocês podem pedir para Deus trazer o meu marido de volta? Eu quero o meu marido de volta”, disse Maryam, fechando os olhos. Com uma voz firme e profundamente cansada, orou: “Deus, traz o Khalib de volta para mim”. Khalib, 32 anos, era o marido de Maryam.

Já se passaram quase dois anos que Maryam não via Khalib e quase quatro meses que ela não tinha nenhuma notícia dele. Os dois fugiram do Curdistão no dia 29 de janeiro de 2016, depois de terem sido ameaçados de morte por terem ajudado refugiados cristãos recém-fugidos da perseguição do grupo autodenominado Estado Islâmico (chamado de Daesh no mundo árabe) em Mossul (Iraque). “Fizemos um grupo de 10 famílias para recolher alimento e roupa”, contou a jovem.  A perseguição a cristãos por parte do Daesh em Mossul durou entre 2014 e 2016, reduzindo a antiga comunidade cristã a 200 mil pessoas – há dez anos era de 2 milhões.

Um dia, o casal começou a receber ameaças via SMS. A decisão de deixar o país veio quando um grupo os parou na rua à noite e bateu na cabeça de Khalib, com um pedaço de pau e quebrou o nariz da Maryam com um soco.

A chegada à Europa

Semanas depois, eles pegaram um voo de Erbil até Istambul, na Turquia, pelo preço de cerca de US$ 700 mais os gastos com os vistos. Lá, ficaram dez dias num pequeno hotel até conhecerem um homem “da máfia”, no centro de Istambul. “Ele disse que nos levaria até a Grécia de barco”. “É muito fácil encontrar esse tipo de gente, na Turquia eles estão por toda a parte. Eles se sentam nas praças com uma arma na mão e com a outra te vendem uma viagem de barco até a Grécia ou até a Itália”.

Por cerca de US$ 5.000, o casal curdo comprou duas passagens para a Grécia, uma viagem que demoraria três horas em um bote de 7 metros de comprimento superlotado com 35 pessoas dentro. “Era cerca de meia-noite e fazia muito frio, me lembro da gente chegar numa praia, depois de uma longa viagem de ônibus, e ver muitas pessoas. Tinha mulheres, homens, mães com bebês – inclusive recém-nascidos de um mês de vida”, conta ela. “Tinha também deficientes em cadeira de rodas, tinha crianças com Síndrome de Down…”.  Na hora do embarque, separaram homens de mulheres. Mas depois que os homens embarcaram, a polícia chegou. O motorista do barco deu, então a partida, e foi embora. Pela lei turca, os barcos são vistos como imigração ilegal e se o motorista é pego, ele é condenado à prisão perpétua.

Após Maryam ser pega pela polícia, junto com as outras mulheres, ela ficou três dias presa. Da prisão, ela ligou para uma amiga, que vivia em Istambul, pedindo ajuda. “Morei com ela um ano, lavei roupa, louça, fiz compras para a família”, afirmou a jovem, que esperava seu marido obter seus papéis de refugiado na Europa.

Na Grécia, o barco de Khalib chegava na costa da ilha de Lesbos. “Antes de chegar na costa, avistei umas pessoas com binóculos na praia, era um pessoal da Cruz Vermelha que fazia buscas de barcos como os nossos”, conta. “Eu cheguei contando do meu caso, que eu precisava recuperar a minha esposa na Turquia. ‘Nós não temos o que fazer, senhor. A Turquia não é território europeu”, afirmou a ele um agente da OIM (Organização Internacional para as Migrações). “Mas assim que ela chegar em qualquer país na zona europeia, ela será imediatamente encaminhada até onde o senhor estiver”, acrescentou. “É essa lei de não separação de família, sabe?”, acrescentou o jovem à reportagem.

O marido de Maryam ficou na ilha grega por cinco meses, com auxílio-moradia e comida da Cruz Vermelha aguardando qualquer país europeu aceitá-lo. “Eles me deram um documento que dizia que eu concordava em ficar em qual país me aceitasse”, afirmou. “Eu assinei, pensava em ir para a Inglaterra, Alemanha”. Cinco meses depois, Mohammed recebeu a informação de que o governo francês o aceitara.

Khalib chegou em Lille, no norte da França, no dia seguinte. Depois foi encaminhado para um pequeno alojamento numa cidade nos arredores. “Fiquei lá esperando por mais oito meses”, afirmou. “Me lembro que a funcionária do alojamento era muito racista, ela não gostava de nós. Era muito frio dentro do alojamento, quando reclamávamos, ela dizia que ou era isso ou era a rua”.

Enquanto isso, o casal se comunicava via Facebook, Whatsapp – e o marido enviava à sua esposa todos os seus documentos para que os dois tivessem tudo.

Após receber seu status de refugiado, Khalib foi informado que não havia mais lugar para ficar no alojamento, ele teria que ir embora. “Para onde? Eu não tinha ideia. Não conhecia ninguém, nunca havia pisado na França antes”, afirmou.

“Decidi pedir ajuda da Cruz Vermelha. Enviei uma mensagem privada a eles por Facebook. Depois de três dias, uma mulher, Sarah, me respondeu dizendo que poderia me ajudar. Ela trabalhava no campo de Calais”.

O jovem foi então de ônibus até Calais. “Muito sujo lá [em Calais]. Nunca vi um lugar tão terrível”, afirmou ele, com os olhos um pouco distantes, mas logo retoma a história e se antecipa à pergunta da reportagem. “Bom, daí a Sarah disse que tinha alguém que estava disposto a me ajudar, a me dar abrigo: um pastor cristão chamado Françoise que morava numa cidade chamada Estrasburgo”.

Na mesma tarde, no ônibus das 23h, o marido de Maryam estava embarcando para Estrasburgo. “O que o Pastor Françoise fez por mim eu nunca vou poder agradecer. Ele me ajudou no momento mais difícil da minha vida”, afirma Mohammed com os olhos cheio de lágrimas. “Sabe, não é todo mundo que faz isso por um desconhecido. Ele é um homem especial. Eu não o chamo de pastor, para mim, ele é um membro da minha família”, acrescenta. “Você sabe como eu chamo o pastor? De tio. Para mim, ele é como se fosse o meu tio”” explicou Mohammed, depois de frisar a importância da família na sociedade curda.

A ausência de notícias

Hamm ficou alojado por algumas semanas no mesmo quarto que a jovem ficaria também alojada pelo pastor, só que meses depois – e foi lá que a reportagem a conheceu pela primeira vez. Era o “quarto de emergência” da igreja. Mas, assim que Hamm conseguiu um apartamento para alugar – uma kitnet de sala, cozinha e quarto, só para ele – e quando ela poderia, então vir, parou de responder às mensagens. “Fiquei três meses sem notícias dela. Comecei a me desesperar”.

Maryam estava incomunicável porque ela tinha achado um jeito de viajar até a França. Ela ouviu de um homem que ele levava pessoas de avião até a Europa, mas que o pagamento teria que ser em ouro. Ela, então, pegou o ouro que havia guardado do seu casamento e deu todo para o homem. “Ele então me levou para uma casa com umas 15 mulheres, onde eu vivi por três meses. No quarto, éramos em sete. Nós não podíamos sair. Eles pegaram nossos celulares, nossos documentos, passaporte, tudo”, conta ela. “Foi horrível aquele tempo, não gosto de lembrar”.  A comida era trazida pelo homem e também roupas lavadas. “Um dia dois homens invadiram a casa, não sei pra quê…”, disse reticente. “Bom…queriam dormir com a gente talvez”, disse ela com uma voz amarga.

“Eles nos bateram, e eu levei uma facada”, diz mostrando seu braço direito com uma cicatriz de uns três centímetros de largura. “Eu não gosto de lembrar”, disse ela finalizando o assunto após dizer que tudo ficou bem no final, após uma das mulheres terem contatado o homem responsável por elas por um telefone que servia para emergências desse tipo.

Maryam então, depois de meses de espera, é chamada. “‘Hoje você vai para a França’. Ele me levou de carro junto com outras mulheres até o aeroporto de Istambul. Embarcamos num avião e ele me disse: ‘Você não abre a boca'”. “Me lembro que estava muito cansada e adormeci, quando acordei, ele não estava mais lá. Ele tinha desaparecido”.

“Comecei a chorar, desesperada, achando que tinha sido enganada, que eu tinha voltado para a Turquia e agora estava sem dinheiro, sem nada”, conta a moça. “Olhei pela janela e vi um avião da Turkish Airlines. Ai então que entrei em desespero. ‘Pronto, estou na Turquia mesmo’, disse a mim mesma”.

“Uma mulher me interpelou perguntando se estava tudo bem e eu perguntei a ela onde estávamos. ‘Acabamos de aterrissar em Paris'”.

Tão perto, tão longe

Quando Maryam aterrissou em Paris, Khalid, sem notícias, decidiu que iria atrás de sua esposa. Ele fechou o apartamento e pegou um ônibus até a Grécia. Quando chegou lá, depois de dois dias de viagem, foi à polícia perguntar se sua esposa tinha dado entrada como requerente de asilo. Eles disseram que não e, pior, não acreditaram na história de Mohammed e acharam que seus documentos eram falsos. Resultado: ele acabou preso na Grécia, onde ficou por um mês.

No aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, a jovem passa pela imigração em um completo estado de nervosismo. Por estar sem nenhum documento, foi presa. “Eles perguntaram meu nome e eu menti, falei o primeiro nome curdo que me veio na mente. Eu não poderia deixar que eles me mandassem de volta para a Turquia”, afirmou.

Maryam ficou presa por um mês no chamado Z.A.P.I, uma prisão do governo francês para migrantes sem documentos próxima do aeroporto Charles de Gaulle. “Contei a história do meu marido para o meu tradutor da Cruz Vermelha na prisão. Ele me ajudou muito. Nunca vou me esquecer dele”, afirma ela, que pediu ajuda para saber onde o amado estava.

“Após algumas semanas, ele me disse que constava uma atualização nos dados do meu marido. Tinha um endereço de um tal pastor Françoise*, residente de Estrasburgo”.

Depois disso, Maryam foi para julgamento três vezes. “Da terceira vez, a juíza era meio louca”, relembra ela rindo. “Ela entrou com aquele cigarro eletrônico e na sua mesa tinha umas barras de chocolate. Quando a vi eu pensei: ‘Pronto, essa mulher é louca, agora é que eu não saio daqui nunca'”.

A juíza então a interpelou. “Você diz que quando sair daqui vai atrás do seu marido. Como? A França não é um país de uma ou duas ruas, você sabia? Olha, se eu te deixar sair, para onde você vai?”

Imediatamente veio à memória de Maryam o nome e o endereço do tal pastor, que ela viu nos registros do seu marido. “Eu vou para a casa desse pastor”, disse ela, contando da atualização dos dados na ficha de seu marido.

A juíza olhou receosa para a moça e afirmou: “Eu vou então fazer a minha ação humanitária do dia e vou te deixar sair”.

Naquele exato momento, a promotora, ao lado de Maryam no tribunal, começou a gritar que tudo aquilo era falso, que as suas fotos eram falsas e que não tinha marido nenhum. “Bom, eu comecei a chorar, nervosa, e perguntar para essa mulher que me acusava porque ela estava fazendo isso, porque ela dizia isso”. Ela então virou para a juíza e disse: “Eu tenho o direito de ficar com o meu marido! Ela então bateu o martelo e falou: ‘STOP!’”

Às 23h55, Maryam embarcava no trem Paris-Strasbourg. O tal pastor, que havia sido contatado pela justiça francesa, a esperava, ele e a sua esposa, na estação central às 5h35 da manhã. “Eu nunca vou esquecer do pastor Françoise e de sua esposa dentro do carro me esperando. Eu nunca vou esquecer”.

O reencontro

Quatro dias depois de sua chegada à Estrasburgo, a reportagem conheceu Maryam.

Ela estava esperando por seu marido no mesmo quarto em que ele mesmo ficara antes, alojado pelo mesmo pastor, só que alguns meses antes. Mas agora, Khalib estava muito longe de Estrasburgo, na Grécia, e tinha acabado de ser solto pela polícia que o prendera achando que seus documentos de asilo eram falsos.

“Eles checaram meus documentos e viram que estava tudo dentro da lei”. Ainda sem notícias de Shang, Mohammed decidiu partir para a Itália. “Pensava que Maryam estaria lá”. Cruzou fronteiras a pé, depois de uma semana caminhando entre a Grécia e a Itália. Quando ele chega a Bari (sul da Itália), começa a perguntar de sua esposa às organizações locais. Quando o seu celular toca, é o seu irmão: “Hey, Maryam está em Estrasburgo! Onde você está?”

“O que? Em Estrasburgo?”, gritou ao telefone. Khalid já estava muito magro, com uma barba há um mês por fazer, há uma semana sem tomar banho e um dia sem comer. “Eu não sabia o que pensar, estava tão cansado de tudo aquilo, quando eu escutei que a minha esposa estava na minha casa, tudo explodiu dentro de mim; emoção, cansaço, alegria”, afirma.

Maryam estava almoçando na casa do pastor Francçoise quando o seu celular recebeu uma mensagem do seu cunhado. “Conseguimos contato com seu marido, ele está voltando!”. “Quando eu vi aquilo meu coração explodiu no meu peito”, conta a jovem. “Eu fiquei que nem louca tentando ligar para o irmão dele, saber o que era aquela mensagem, se era verdade, mas ele não ficou mais online”. Depois de conseguir ligar, a moça soube da história toda e que seu marido estava, enfim, voltando.

Um ano e sete meses depois da separação na Turquia, eles se veriam de novo, marido e mulher. O MigraMundo presenciou o reencontro deles junto com o pastor. A reportagem aguardava na sala de estar de Françoise quando Maryam subiu abraçada com um homem franzino, com uma barba cobrindo o queixo e o rosto inteiros, vestindo uma roupa surrada e com os olhos fundos repletos de cansaço, alegria e gratidão.

“Prazer”, disse ele, estendendo as mãos à reportagem. Maryam deu uma risada longa e disse: “Você ainda quer conversar? Podemos sim, mas depois! Depois! Agora quero ficar com o meu marido”, disse abraçando-o. “Françoise, muito obrigada, o que o senhor fez não tem preço”, disse Khalib ao pastor dando um largo sorriso que foi seguido de lágrimas escorrendo no rosto. “Que Deus os abençoe! É uma alegria ver vocês juntos. Agora tudo isso terminou”, disse o pastor.

O pastor fechou, então, a porta depois de abraços, lágrimas e oração. Ele olhou para a reportagem e disse: “É incrível o que Deus faz, não é?”.

Em meados de fevereiro o MigraMundo foi à casa do casal para uma entrevista e um jantar, feito por ela, “tipicamente curdo”. A jovem descascava cenoura, pepino e comia limão com sal enquanto contava a sua bela história. Hoje, Maryam espera um menino – ela está grávida de cinco meses. O nome não decidiram ainda, mas querem que seja compreensível em francês e em curdo.

O MigraMundo pergunta se eles contariam a história deles para o seu filho. “Claro!”, disseram os dois juntos. “É o que somos, a nossa história de como chegamos aqui faz parte do que somos. E o nosso filho vai saber quem somos e pelo que passamos”, afirmou Maryam, em sua casa, com seu marido, a descascar cenouras e a comer limão com sal. “Eu falo para ela que não é normal ela comer essa quantidade de limão que ela come”, diz Khalib, rindo e levando a esposa também ao riso. Era um riso fácil, solto, como se eles nunca tivessem atravessado mais de três países, um oceano e vencido prisões e julgamentos para estarem ali a descascar cenoura e a discutir sobre limões.