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domingo, junho 28, 2026
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Coletivos e feira gastronômica destacam migrantes no IX Fórum de Migrações

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Mesa formada por coletivos migrantes no encerramento do IX Fórum das Migrações, no Rio. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Evento teve uma mesa composta apenas por coletivos migrantes do Rio e de São Paulo, além de outras formas de participação

Por Rodrigo Borges Delfim
No Rio de Janeiro (RJ)

Ser apenas alvo de pesquisa não basta. Eventos sobre migrações requerem a presença do migrante de forma ativa, na qual possa usar a própria voz. E durante os cinco dias do IX Fórum de Migrações /Migratic 2017 e V Simpósio de Pesquisas sobre Migrações, que ocorreram no Campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio (UFRJ), era possível notar a presença de diferentes nacionalidades e sotaques contribuindo para o evento – como parte da equipe de apoio, como pesquisadores ou representando coletivos e atrações culturais.

Mesa formada por coletivos migrantes no encerramento do IX Fórum das Migrações, no Rio.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

A mesa de encerramento, na sexta-feira (20), foi formada quase que exclusivamente por representantes de coletivos culturais e associações de migrantes do Rio de Janeiro e de São Paulo – Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, Projeto Chega Junto, Ocupação Vito Giannoti, Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas, Associação Mawon, Grupo Aguasalá, Associação de Angolanos do Estado do Rio e Estrelas da Babilônia.

Cada um teve pouco mais de 10 minutos para falar um pouco da atuação e deixar seu recado aos demais presentes ao Fórum. Apesar do tempo reduzido, conseguiram esse objetivo e falaram de questões que foram da apresentação de suas atividades aos pedidos de novas abordagens dos pesquisadores em relação aos migrantes, que não sejam vistos simplesmente como meros objetos.

A Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas, além de manter o costume de levar a faixa do movimento ao Fórum, aproveitou o espaço na mesa para ler o manifesto da rede – que pode ser visto no vídeo abaixo:

Sabores e histórias

Uma atração à parte no Fórum foi a Feirinha Gastronômica Chega Junto – idealizada e organizada pelo Projeto Chega Junto, que também integrou a mesa de encerramento do Fórum. A cada dia era possível experimentar e conhecer pratos e petiscos de diferentes países.

Latifah, da Nigéria, usa a gastronomia para divulgar sua cultura e como fonte de renda.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Em um dos dias da feira, a nigeriana Latifah Hassan mostrou um pouco dos sabores da terra natal por meio do arroz Jollof. Nascida em Lagos (maior cidade da Nigéria), vive há dois anos no Brasil e tem trabalhado com eventos e serviço de comida por delivery. Seu sonho é o de montar o próprio restaurante. “Quero levar a Nigéria ao mundo por meio da cozinha”, resume.

Ficou curioso sobre o arroz jollof? O vídeo abaixo, disponível também no Facebook do MigraMundo, traz uma amostra:

Além do prato típico nigeriano, ao longo da feira foi possível experimentar pratos e petiscos como o ceviche peruano, o sanduíche de falafel sírio, a Fritay haitiana, arepas colombianas e venezuelanas e um ensopado de carne e arroz à moda paquistanesa, entre outras opções.

Feira Gastronômica foi opção de almoço para participantes do IX Fórum de Migrações e para estudantes da UFRJ.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Redes de proteção se comprometem a estar “de braços abertos para migrantes e refugiados”

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Participantes de encontro de rede de apoio a migrantes em Brasília reforçando a campanha "Compartilhe a Viagem", lançada pela Igreja Católica em combate à xenofobia. (Foto: IMDH/Out.2017)

13ª edição do Encontro Nacional das Redes de Solidariedade aos Migrantes e Refugiados (RedeMir), em Brasília, reuniu aproximadamente 90 participantes de todo o Brasil

Por Ir. Rosita Milesi e Flavia Faria
Do IMDH*, em Brasília (DF)

Organizações que atuam na proteção, integração e defesa dos direitos de pessoas refugiadas e migrantes apresentarão projetos para ampliar o acesso dessa população ao ensino superior e ao mercado de trabalho. Também acompanharão de forma ativa o processo de regulamentação da nova lei sobre migração, para garantir que os direitos já conquistados não sejam minimizados. A Campanha Mundial “Compartilhar a Viagem” foi igualmente um empenho das entidades da RedeMiR.

Estes foram alguns dos compromissos firmados durante o 13º Encontro Nacional das Redes de Solidariedade aos Migrantes e Refugiados, realizado de 17 a 19 de outubro em Brasília. O aumento do fluxo migratório no norte do país teve destaque, contando para isto com o depoimento de vários representantes da sociedade civil atuante no Estado de Roraima.

Participantes do encontro em Brasília reforçaram a campanha “Compartilhe a Viagem”.
Crédito: IMDH

Com o tema “Por uma migração que acolha, promova, proteja e integre os migrantes, os refugiados e suas famílias”, o encontro reuniu aproximadamente 90 participantes, representando 41 instituições de todas as regiões do Brasil, assim como universidades, organizações internacionais, órgãos de governo e pessoas interessadas no tema e na causa da mobilidade humana. Durante os três dias de evento, os participantes tiveram a oportunidade de compartilhar informações, desafios, soluções para promover a integração de pessoas refugiadas e migrantes.

Os grupos de trabalho participaram de uma dinâmica em torno dos verbos “acolher, proteger, promover e integrar” para propor soluções diante dos desafios mais frequentes enfrentados por todos que trabalham com migrantes e refugiados. A necessidade de facilitar o acesso dessas pessoas ao mercado de trabalho e, para isto, além dos cursos de português, a facilitação do reconhecimento de títulos e capacidades profissionais, foram temas de alto interesse, debate e propostas do Encontro.

Ao concordar que essas medidas são essenciais para que as pessoas refugiadas e migrantes atinjam uma autonomia pessoal, econômica, profissional, e que possam ser inseridas no mercado de trabalho em sua área de competência, os participantes ressaltaram a importância da formulação de propostas para promover formas mais viáveis para a revalidação de diplomas e mais eficazes e inclusivas de acesso às universidades. Entre as medidas propostas estão a articulação junto ao MEC para padronizar processo de revalidação de diplomas, a destinação de vagas remanescentes para pessoas refugiadas, e uma efetiva implementação da nova Lei de Migração.

Encontro das Redes de Proteção para Migrantes e Refugiados chegou à 13ª edição neste ano.
Crédito: IMDH

Atualmente em processo de regulamentação, a nova Lei, que entrará em vigor no dia 21 de novembro, foi amplamente debatida durante o encontro. O representante do Ministério Público Federal, informou que em breve terá acesso ao texto base da regulamentação que está sendo preparado pelos órgãos de governo, e que possivelmente será organizada uma consulta pública com a participação de entidades da sociedade civil, atualmente representadas no Comitê Nacional para Refugiados (CONARE) e no Conselho Nacional de Imigração (CNIg).

Os participantes do encontro compartilharam muitas reflexões sobre a regulamentação desta lei. Ao mesmo tempo em que existe a esperança do favorecimento de uma ampla aplicabilidade, há também o receio de que o texto final limite as conquistas já alcançadas.

Outro tema debatido com apreensão foi a apatridia. Ainda que a nova lei tenha disciplinado pela primeira vez no Brasil o seu reconhecimento, foi consenso entre os participantes do encontro que é uma questão muito atual e complexa. Situações diversas inspiram preocupação, havendo inclusive pessoas nascidas no Brasil que não conseguem seus documentos de nacionalidade brasileira. Igualmente merece especial atenção a regulamentação desta matéria em relação à Lei de Migração.

Uma mesa voltada a debater a situação migratória de venezuelanos reuniu o ACNUR, representantes da Polícia Federal, do Ministério Público do Trabalho, IMDH e voluntários que atuam na linha de frente em Roraima. A Representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez, apresentou dados recentes, principais desafios e respostas. Expôs, também, os resultados da pesquisa realizada recentemente pelo OBMigra, sobre o perfil sociodemográfico dos venezuelanos que chegam ao Brasil. Entre as informações, destaca-se o fato de que os imigrantes apresentam bom nível de escolaridade (32% com curso superior completo ou pós-graduação), que 82% do total são solicitantes de refúgio, e o preocupante fato de que a maioria diz ter enfrentado situações de xenofobia. Neste contexto de atendimento aos migrantes na Delemig/Roraima, o Coordenador Geral da CGPI/Policia Federal ressaltou a importância da colaboração da sociedade civil, especialmente através do IMDH, ACNUR e voluntários, sem o que não teria sido possível dar a atenção indispensável para que esta população que já ultrapassa 18 mil pessoas registradas, obtivesse a documentação inicial básica no País.

Situação migratória em Roraima foi um dos temas discutidos no encontro em Brasília.
Crédito: IMDH

A diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos, articulador da Rede, Irmã Rosita Milesi, expressa imensa satisfação com o resultado do XIII Encontro da RedeMiR e afirma: “Destaco a maturidade e profundidade com que todos os temas foram debatidos, e a integração que se estabeleceu entre os participantes, com firmes posições na defesa dos direitos dos migrantes e refugiados e necessidade de avançar em políticas públicas para que se possa efetivamente acolher, proteger, promover e integrar esta população que vem ao Brasil em busca de vida com dignidade, de segurança e de paz”.

Para Isabel Marquez, a importância do evento é imensurável. “O encontro permite a reunião de entidades de um país de dimensões continentais como o Brasil, e o compartilhamento de desafios e boas práticas. Pude perceber o pessoal de Manaus conversando com Santa Catarina, Roraima com Paraná, compartilhando uma riqueza de sabedorias sem tamanho dessas entidades que trabalham na ponta com imigrantes e refugiados”, ressaltou.

O Encontro Nacional da RedeMir foi realizado conjuntamente pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), ACNUR, e Setor Mobilidade Humana da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com apoio do CONARE, do CNIg, da Fundação Avina, da Organização Internacional para o Trabalho (OIT) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Cerca de 90 pessoas de todo o Brasil participaram do encontro, que também reuniu autoridades e representantes de organismos e instituições internacionais.
Crédito: IMDH

A Rede Solidária para Migrantes e Refugiados trabalhará para impulsionar acesso de pessoas refugiadas e migrantes ao mercado de trabalho, aos direitos sociais e para agilizar reconhecimento de títulos e capacidades profissionais desta população, atuando sempre e insistentemente na demanda e implementação de políticas públicas para que a migração venha a ser cada vez mais uma política de Estado, sólida e permanente.

Relato reproduzido pelo MigraMundo com autorização do IMDH

Museu da Imigração e Memorial da Resistência: vocação para temas espinhosos

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Fachada do Memorial da Resistência, em São Paulo. Crédito: Divulgação

Atual coordenadora do Memorial da Resistência e ex-diretora do Museu da Imigração fala das semelhanças e diferenças entre as duas casas

Por Adriana Marcolini
Em São Paulo (SP)

“O poder simbólico desses lugares é o principal ponto comum, assim como sua vocação para tratar de questões espinhosas”. É o que diz Marília Bonas, ex-diretora do Museu da Imigração do Estado de São Paulo e atual coordenadora do Memorial da Resistência, sobre as semelhanças principais entre as duas instituições.

Especialista em Museologia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Museologia Social pela Universidade Lusófona de Lisboa, há mais de dez anos Marília atua em pesquisa, documentação museológica e gestão cultural. Foi diretora do Museu do Café, em Santos (SP), e do Museu da Imigração do Estado de São Paulo. Desde junho deste ano é a coordenadora do Memorial da Resistência, na capital paulista.

Em entrevista ao MigraMundo, Marília faz um balanço sobre sua gestão à frente do Museu da Imigração, reflete sobre as mudanças ocorridas depois da restauração do prédio e fala sobre seus planos para o Memorial da Resistência.

MigraMundo: Como os museus entraram na sua vida? Você se lembra da primeira vez em que entrou em um museu?
Marília Bonas: Fui a museus desde pequena, mas lembro da primeira vez que fui porque quis: aos 10 anos, queria ver as bailarinas do Degas no MASP. Pra mim, sempre foi um ambiente mágico, suspenso, de fantasia, de desconhecido. Mais velha, ia sempre à Pinacoteca. E depois, na faculdade, percebi mesmo que queria trabalhar na área.


Você foi diretora-executiva do Museu do Café, de Santos, e do Museu da Imigração, de São Paulo, durante quase cinco anos. Como avalia sua gestão à frente dessas instituições? Quais eram seus objetivos ao assumir o cargo no Museu da Imigração? Eles foram alcançados?

No Museu do Café foram quase sete anos, e no Museu da Imigração, cinco. Meu objetivo, em ambos os museus, era criar uma cultura museológica estruturada, onde as áreas de pesquisa, preservação e comunicação museológica fossem a verdadeira força motriz da instituição, sempre conectadas às questões do patrimônio preservado ali e o mundo contemporâneo. E, claro, entender o que é um museu que assume sua função social para além de ações pontuais. Aprendi imensamente nessas duas instituições, principalmente de que o legado de qualquer gestão é a tomada de decisões de maneira horizontal, compartilhada, harmonizando a polifonia das áreas e dos públicos. No Museu da Imigração, o desafio, claro, era maior: quando criada, na década de 1990, a instituição era bastante focada para a memória de grupos de imigrantes das primeiras décadas de funcionamento da Hospedaria (do final do XIX ao XX). Antes do fechamento para o restauro, estava já prevista uma ampliação desse recorte patrimonial e o desafio foi consolidá-lo. Acho que isso é muito bem resolvido no que diz respeito aos novos imigrantes e há um esforço da instituição de discutir também a migração interna no mesmo nível de qualidade de pesquisas e ações como o de outros fluxos. É uma instituição lindíssima, com um trabalho a cada dia mais importante no contexto da onda conservadora do Brasil que, por mais irônico que pareça para uma sociedade tão diversa, a cada dia ganha tons xenófobos.

Fachada do Memorial da Resistência, em São Paulo.
Crédito: Divulgação


As visitas ao Museu da Imigração aumentaram depois da reforma? O perfil dos visitantes mudou?

O Museu da Imigração sempre foi uma instituição muito querida pela população da cidade, então houve, sim, um aumento de visitação, mas de uma maneira orgânica e continuada com o que eram as ações antes do restauro. O perfil, sim, mudou: houve crescimento da presença de jovens e públicos que antes não visitavam o museu.


O Museu da Imigração tem chamado a população a colaborar com a coleta de material para algumas exposições, como aquela sobre os cadernos de receitas culinárias trazidos pelos imigrantes. Durante a sua gestão como foi a receptividade do público para com ações desse tipo? A população se sente parceira do museu?

Dizíamos que o Museu da Imigração é uma das poucas instituições brasileiras que não sofre com a questão do pertencimento em relação à população. Quem ama, o considera seu – o que é incrível em termos de ação compartilhada, mas bastante complexo quando falamos de peso de representações identitárias. O público sempre foi muito receptivo, interessado e parceiro do Museu. E esses processos colaborativos têm um potencial muito grande em termos de estratégia de ação, em diversas áreas. Mesmo sendo ex-diretora de lá, participarei em outubro da proposta pública de construção da política de acervos, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, o que é inovador na área museológica brasileira.


Em junho de 2017 você assumiu a coordenação do Memorial da Resistência, em São Paulo. Enquanto o Museu da Imigração aborda a questão do acolhimento dos imigrantes, o Memorial traz à tona temas como o exílio, a tortura e a ditadura. Quais são as principais diferenças e semelhanças entre administrar as duas instituições?

O Memorial da Resistência nasceu da iniciativa de ex-presos políticos de reconhecer seu edifício como um lugar de memória – o que aconteceu também no Museu da Imigração. O poder simbólico desses lugares é o principal ponto comum, assim como sua vocação para tratar de questões espinhosas: o Memorial da Resistência fala da repressão e o Museu da Imigração fala das trajetórias de migrantes e imigrantes, que são repletas de desafios e preconceitos. A função social das duas instituições e seus entornos também são prioridades na gestão das duas instituições, então para mim foi um passo importante sair dessa relação com o Brás/Mooca e vir para relação com a Luz e a chamada Cracolândia, bem mais complexa. Em termos de diferença, o Memorial da Resistência atua numa escala muito menor e muito mais próxima dos sujeitos que viveram a experiência da ditadura – algo mais complexo pela dimensão do Museu da Imigração e do grande número de migrantes e imigrantes que passaram por lá.

Marília Bonas, que dirigiu o Museu da Imigração e agora está à frente do Memorial da Resistência.
Crédito: arquivo pessoal


Qual das duas instituições recebe mais atenção da mídia? No caso de uma delas atrair mais a mídia, por favor, explique por quê.

O Museu da Imigração. Além de o assunto ter um interesse maior de público e um lastro afetivo, o tema é possível de ser trabalhado sob diversas perspectivas, incluindo festas e eventos. O Memorial da Resistência trabalha com temas que muitos querem esquecer na sociedade brasileira; são temas muito menos trabalhados nas escolas e na mídia do que em outros países que passaram por uma ditadura.


Os acervos de ambos estão em constante formação? A construção de um acervo museológico é um processo ininterrupto?

A construção de um acervo museológico é sim um processo constante, por isso a necessidade de políticas para aquisição, pesquisa e preservação que sejam atualizadas permanentemente. No caso do Museu da Imigração, esta política está sendo desenvolvida. No caso do Memorial da Resistência, há um foco em lugares de memória da resistência e da repressão e testemunhos – mas há a discussão de uma coleção de objetos testemunhos no futuro.


Além do acervo, as ações educativas também são um dos pilares dos museus atuais. Como elas são elaboradas? Também são desenvolvidas no interior do estado? Há avaliações periódicas? Existem programas para professores do ensino médio?

Em ambas as instituições, vinculadas à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, as ações educativas buscam trabalhar com públicos espontâneos, escolares e públicos-alvo (como deficientes ou pessoas em vulnerabilidade social). Há avaliações de satisfação, programas de formação de educadores (para ensino médio e fundamental) e guias de turismo e ações no interior, capitaneadas pelo Sistema Estadual de Museus.


As ações educativas do Memorial da Resistência contam com a colaboração daqueles que são o seu foco de atuação, como ex-exilados e ex-presos políticos? No caso do Museu da Imigração, a instituição se vale da colaboração de imigrantes nas ações educativas
?

O Memorial da Resistência conta com a contribuição direta e constante de ex-presos e exilados políticos, seja no programa regular “Sábado Resistente” – feito em parceria com o Núcleo de Preservação da Memória – ou nas rodas de conversa com ex-presos, realizadas após visitas mediadas pela equipe do educativo. O Museu da Imigração conta com a participação das comunidades especialmente nas ações culturais e eventos, como a Festa do Imigrante e o projeto Viva!.


As exposições do Museu da Imigração viajam para o interior? E as exposições do Memorial? Como tem sido a recepção do público?

Ambas as instituições têm exposições itinerantes que viajam para o interior do Estado a partir do programa do Sistema Estadual de Museus, com grande sucesso.


O Museu da Imigração e o Memorial da Resistência têm promovido intercâmbio com instituições de teor semelhante na América Latina, como o Museo de la Inmigración e o Museo de la Memoria (antiga Escuela de Mecánica de la Armada), de Buenos Aires? Há planos para que isto aconteça?

O Museu da Imigração tem um rol de parceiros internacionais muito fortes, como o Ellis Island Immigration Museum (Nova York) e o Museo de la Inmigración de Buenos Aires (Argentina), dentro outros. O Memorial da Resistência é uma das instituições mais importantes da Rede de Museus e Sítios de Consciência da América Latina (RESLAC), e conta com parceria direta com mais de 40 instituições, de 12 países. Além disso, o Memorial tem em curso um projeto de intercâmbio com o Museu de Liverpool, ligado ao trabalho com o entorno das instituições.

Fachada do Museu da Imigração, em São Paulo (ago.2017).
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo


O Museu da Imigração funciona na antiga Hospedaria dos Imigrantes e boa parte da exposição permanente diz respeito aos imigrantes que vieram para o Brasil a fim de trabalhar nas fazendas de café. Embora a parte final do percurso museológico se destine aos movimentos migratórios mais recentes, o visitante tende a ficar com uma visão equivocada sobre a imigração no Estado, ou seja, reduzida ao ciclo do café. Durante a sua gestão houve críticas em relação a esta abordagem?

Essa memória dos imigrantes das primeiras décadas é muito forte na instituição desde sua fundação e a exposição busca, na medida em que não nomeia ou data os fluxos, equilibrar essa construção, ainda que os módulos relativos às questões contemporâneas não cheguem aos pés das ações junto às comunidades que o museu tem feito desde sua reabertura. No período em que trabalhei no Museu, essa questão se traduziu no desenvolvimento de uma política de exposições temporárias que pudessem discutir essas múltiplas vozes e lacunas temáticas, com novas camadas e isso tem persistido na nova gestão.


Tanto o Museu da Imigração quanto o Memorial da Resistência têm acervos digitais à disposição do público. Eles são sempre acrescidos de novos materiais? O público é chamado a colaborar?

No caso do Memorial da Resistência, tanto o banco de dados “Lugares da Memória” quanto o “Coleta Regular de Testemunhos” são constantemente acrescidos de novos materiais e pesquisas, traduzidas em ações educativas e exposições. O público, em especial o de ex-presos, familiares, pesquisadores, especialistas e artistas que lidam com o tema, é parte fundamental dessa construção.


Para concluir, por favor, conte-nos sobre seus projetos para o Memorial da Resistência.

O Memorial da Resistência tem um papel fundamental no Brasil de hoje. Num momento em que o militarismo volta à baila e há uma parte da população que romantiza o período ditatorial, nossa ação torna-se mais estruturante para a discussão de um país verdadeiramente democrático e que luta contra a violação dos direitos humanos. Como instituição, estamos caminhando para uma programação que, além de tratar dos temas da memória da repressão e da resistência no período republicano, lide diretamente com as violações contemporâneas. Para isso, temos trabalhado em escutas do território, em novos projetos de mídia social, na continuidade dos programas educativos para todos os públicos e em exposições temporárias que abordem os temas ainda pouco conhecidos – como a morte de camponeses e indígenas no período ditatorial, o entorno do museu e as violações que sua população sofre.

O compromisso das religiões junto aos migrantes

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"A bondade desarma": mensagem inscrita no pátio do Arsenal da Esperança, em São Paulo. Ligado a uma ordem religiosa católica, essa casa de acolhida abriga cerca de 1.200 pessoas todas as noites - muitas delas, migrantes de outras regiões do Brasil e até de outras nacionalidades. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

As religiões estão a serviço da dignidade de todos os seres humanos ou apenas dos seus próprios adeptos?

Por Roberto Marinucci
Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM)*

Numerosas religiões consideram a acolhida do migrante um elemento constitutivo dos próprios sistemas de crenças e uma prática privilegiada de experiência do sagrado. Aliás, não são poucas as lideranças religiosas que, historicamente, passaram por alguma forma de deslocamento, voluntário ou forçado. Basta pensar na migração de Abraão em busca da terra prometida ou no êxodo de Moisés; na fuga de Jesus de Nazaré e sua família para o Egito devido à perseguição de Herodes; no deslocamento forçado de Maomé e sua comunidade para Medina; ou, mais recentemente, no exílio do Dalai Lama.

Na atualidade, entre as principais lideranças religiosas, chama atenção a figura do Papa Francisco que, desde sua primeira viagem apostólica à ilha de Lampedusa, passando pelas viagens à Fronteira Norte do México e à ilha de Lesbos na Grécia, tem tomado posições firmes, proféticas e, inclusive, impopulares em relação à questão migratória. Para o bispo de Roma, assumir a causa de migrantes/refugiados não é apenas uma “boa ação” ou um ato de generosidade. A acolhida dos migrantes diz respeito à integridade da identidade cristã, que não pode ser conciliada com a subordinação da vida e da dignidade de seres humanos à lógica do lucro, do consumo ou da acumulação indiscriminada de bens. Acolher quem não foi convidado representa um antídoto contra a idolatria do dinheiro que caracteriza o sistema econômico hegemônico.

“A bondade desarma”: mensagem inscrita no pátio do Arsenal da Esperança, em São Paulo. Ligada à Sermig, ordem religiosa católica, casa de acolhida abriga cerca de 1.100 pessoas todas as noites – estima-se que pelo menos 25% sejam migrantes.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Em sua abordagem sócio-pastoral, Francisco tem buscado desencadear processos de envolvimento das comunidades: “Cada paróquia, cada comunidade religiosa, cada mosteiro, cada santuário na Europa hospede uma família [de refugiados], começando pela minha diocese de Roma”. O papa tem plena consciência de que compromisso em favor de migrantes/refugiados só será eficaz se for pautado no cotidiano de todos os segmentos sociais que compõem a igreja. Embora a exortação do bispo de Roma não tenha surtido todos os efeitos esperados, não há dúvida de que em numerosas partes do mundo várias famílias, comunidades, paróquias, associações, ordens e congregações religiosas se mobilizaram, de diferentes maneiras, em prol dos direitos de migrantes e refugiados.

Mas seria um grave erro identificar esse compromisso com o universo católico. São numerosas as denominações cristãs que tomaram posição em defesa de migrantes e refugiados. Vale lembrar, por exemplo, os assim chamados “corredores humanitários” abertos na Itália pela Federação das Igrejas Evangélicas e a organização Tavola Valdese (órgão que representa oficialmente as igrejas metodistas e valdeses), em colaboração com a comunidade de Santo Egídio: tais corredores, até meados de 2017, permitiram a chegada segura de mais de 900 solicitantes de refúgio na Itália. Uma iniciativa análoga ocorreu também na França, com a participação da Federação Protestante da França e da Federação de Ajuda Protestante. Já nos EUA cabe destacar a firme tomada de posição da Aliança Batista Mundial (BWA) contra o Muslim Ban de Trump.

Muçulmanos de diferentes nacionalidades durante oração na Mesquita Brasil, em São Paulo. Local também atua como centro de apoio a migrantes de fé islâmica na cidade.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Dentre os vários aspectos que caracterizam o compromisso das numerosas denominações cristãs cabe destacar o serviço emergencial e sócio-transformador junto a migrantes e refugiados, principalmente na ótica da integração; a denúncia profética das violações de direitos humanos e de suas causas estruturais; a conscientização das sociedades de recepção no que toca à acolhida dos estrangeiros; a criação de espaços de interação e interlocução que permitam dinâmicas de recíproco enriquecimento.

Além disso, merece um destaque o compromisso na ótica do diálogo inter-religioso: a denúncia do Muslim ban, a tomada de posição em prol dos direitos dos rohingya, a inclusão de refugiados muçulmanos nos corredores humanitários, entre outros, atestam que o engajamento dessas igrejas transcende as fronteiras confessionais.

Aqui entra em jogo a credibilidade da ação social dessas igrejas: as religiões estão a serviço da dignidade de todos os seres humanos ou apenas dos próprios adeptos? Em seu engajamento social, os grupos religiosos visam a libertação e o bem-estar dos interlocutores ou sua doutrinação? O compromisso sócio-transformador, enquanto defesa e promoção dos direitos humanos, é instrumental ou constitutivo? De que forma as religiões se distanciam da espúria utilização da “gramática religiosa” para legitimar a violação de direitos humanos? Trata-se de perguntas extremamente desafiadoras, tanto em contextos caracterizados por uma crescente secularização quanto naqueles onde se registra o assim chamado “retorno do sagrado”. Sem renunciar à própria identidade, mas, ao mesmo tempo, reconfigurando constantemente os percursos de fidelidade ao próprio carisma, as várias denominações religiosas são chamadas a estabelecer espaços de interlocução, serviço e recíproca aprendizagem junto aos migrantes e às populações autóctones, com vistas à construção de uma cultura do encontro e do mútuo reconhecimento.

*Editorial da resenha Migrações na Atualidade, edição 108, publicado também no MigraMundo pela parceria com o CSEM – Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios

Instituições e autoridades reagem às mudanças no combate ao trabalho escravo no Brasil

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Exemplo de condições encontradas por auditores do trabalho em ações de combate ao trabalho escravo. Crédito: Sérgio Carvalho/Sinait

País deixa de ser considerado referência no tema, aponta OIT; entidades vão à Justiça para derrubar a nova portaria do Ministério do Trabalho

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

A decisão do governo federal de mudar as regras de combate ao trabalho escravo teve reação imediata de uma série de instituições e personalidades ligadas aos direitos humanos, em âmbito nacional e internacional.

No último dia 13 de outubro, a Portaria 1.129 do Ministério do Trabalho (acesse aqui) fez alterações na definição de escravidão e nas ações para combatê-la que praticamente inviabilizam a fiscalização e punição a essa situação.

A lei traz como definições para escravidão: trabalho forçado, escravidão por dívida, condições degradantes (quando há risco a saúde e a vida) e jornada exaustiva. Já a portaria estipula que os últimos dois fatores passem a ser considerados como “acessórios”para os flagrantes de trabalho análogo ao de escravo pelos auditores fiscais, bem como para a concessão de seguro-desemprego a resgatados – como atualmente prevê a lei. Além disso, a portaria também determina que as fiscalizações do Ministério do Trabalho agora terão que ser obrigatoriamente acompanhadas pela polícia e que uma empresa só poderá entrar para a lista suja do trabalho escravo por determinação do ministro do Trabalho.

As mudanças são uma reivindicação antiga da bancada ruralista no Congresso e também defendidas por setores da economia com incidência de trabalho escravo, como construção civil e vestuário têxtil. Essas últimas duas, inclusive, possuem registros de trabalhadores migrantes encontrados em condições análogas à escravidão nos últimos anos. Ou seja, as novas regras contribuem para fragilizar ainda mais a condição de pessoas nessa situação.

Migrantes também estão sujeitos a explorações e ao trabalho escravo.
Crédito: Sérgio Carvalho/Sinait

De 2003 a junho de 2017, o Ministério Público do Trabalho (MPT) ajudou a resgatar um total de 43,128 trabalhadores que se encontravam submetidos a condições análogas à escravidão, seja por meio do trabalho forçado, da restrição de locomoção em razão de dívidas, da submissão a condições degradantes ou jornadas exaustivas.

Fiscais do Ministério do Trabalho já sinalizaram que não vão cumprir as novas regras; outros setores da própria pasta e do governo federal manifestaram repúdio às mudanças; instituições e parlamentares de partidos que apoiam ou são oposição ao Planalto também marcaram posição. O MigraMundo listou abaixo algumas dessas manifestações públicas:

“O Brasil, a partir de hoje (segunda, 16/10), deixa de ser referência no combate à escravidão que estava sendo na comunidade internacional”

Antônio Rosa, coordenador do Programa de Combate ao Trabalho Escravo da OIT no Brasil – leia mais

 

“Digo que é inaceitável e que temos que lutar pela revogação dessa portaria em caráter de urgência, porque realmente os danos são acentuados, as violações de direitos são gravíssimas”

Flávia Piovesan, Secretária Nacional de Cidadania e também presidente da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae) – leia mais

 

A portaria “é manifestamente ilegal”, porque “contraria frontalmente o que prevê o artigo 149 do Código Penal e as Convenções 29 e 105 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao condicionar a caracterização do trabalho escravo contemporâneo à restrição da liberdade de locomoção da vítima”

Recomendação conjunta do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) para revogação da portaria – veja mais aqui

 

É evidente que uma Portaria, como ato administrativo especial que é, não tem o condão de modificar uma lei. Sua natureza jurídica impõe que contenha instruções e normas sobre a aplicação de leis ou regulamentos. Se a interpretação administrativa da lei divergir do sentido e do conteúdo da norma legal que o ato secundário pretende regulamentar, quer porque tenha este se projetado ultra legem, quer porque tenha permanecido citra legem, quer, ainda, porque tenha investido contra legem, a questão acarretará sua ilegalidade

Trecho da justificativa do Projeto de Decreto Legislativo nº 190, que pede a suspensão da portaria do Ministério do Trabalho. Documento é assinado por quatro senadores do PT – Paulo Paim (RS), Paulo Rocha (PA), Regina Sousa (PI) e Lindbergh Farias (RJ) – acesse aqui

 

Para assegurar o combate a este tipo de crime, é preciso se pensar numa posição mais autônoma para a inspeção do trabalho. Não se pode ficar à mercê de conjuntura política. Tem que ser um compromisso permanente e irreversível com a promoção da cidadania no ambiente de trabalho

Lelio Bentes Correa, ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) – leia mais

 

O esvaziamento do conceito de trabalho escravo e as limitações impostas à fiscalização do trabalho estabelecidos na portaria em tela, além de medida ilegal e inconstitucional, constitui inequívoco retrocesso social, absolutamente incompatível com os Sistemas Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e com as políticas públicas empreendidas no Brasil visando à proteção da dignidade de milhares de trabalhadoras e trabalhadores que, em razão de uma discriminação histórica e estrutural, se veem submetidos a formas intoleráveis de exploração do trabalho

Nota do Grupo de Trabalho Erradicação do Trabalho Escravo da Defensoria Pública da União (DPU) – texto completo aqui

Exemplo de condições encontradas por auditores do trabalho em ações de combate ao trabalho escravo.
Crédito: Sérgio Carvalho/Sinait

“Tendo enfrentado resistência para parar a Lista Suja, o governo agora tenta esvaziá-la de maneira autoritária. Além disso, o governo promove uma completa desvirtuação do conceito de trabalho escravo para atender a interesses das bancadas parlamentares mais conservadoras e contrárias aos direitos fundamentais”

Caio Borges, coordenador de Empresas e Direitos Humanos da Conectas. Instituição se juntou à Comissão Pastoral da Terra (CPT) em apelo urgente à ONU que pede a revogação imediata da portaria – veja a carta (em inglês)

 

[A medida] Fará com que se permita, às empresas que se utilizam de mão-de-obra análoga à escrava, a continuidade do recebimento de financiamento público, além da utilização de um típico mecanismo de concorrência desleal, garantindo aos mesmos uma posição de vantagem em relação aos demais concorrentes que procuram respeitar a Lei. Por fim, a medida permitirá que se mantenha impune a exploração de pessoas em situação de vulnerabilidade social, dentre as quais se encontram, especialmente, crianças, adolescentes, mulheres e estrangeiros oriundos de países miseráveis ou em guerra

Trecho da nota da Comissão de Erradicação do Trabalho Análogo ao de Escravo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Seção São Paulo, em repúdio à portaria do Ministério do Trabalho – veja mais

 

Esse governo mais uma vez atende as reivindicações da bancada ruralista, muda o conceito de trabalho escravo no Brasil – até então considerado referência no combate às formas contemporâneas de escravidão pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) – e dificulta flagrantes. Um governo que já reduziu recursos para fiscalização e favorece exploradores é um governo que apoia o trabalho escravo. Trabalho escravo mata. Mata aos poucos e mata muita gente. É preciso reagir

Carlos Bezerra Júnior, deputado estadual (PSDB-SP) e que tem o combate ao trabalho escravo como uma de suas bandeiras, em postagem nas redes sociais – acesse aqui

 

“Muitas vezes o trabalhador não vai embora por falta de opção, ou por vergonha, porque acha que tem que saldar a dívida com o patrão, o que não significa que seu trabalho seja digno. Há muitos outros elementos presentes para comprovar a escravidão. O Ministério quer que voltemos ao conceito do Século XIX, de grilhões e correntes. Não vamos aceitar”

Carlos Silva, presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait) – leia mais

Infância Migrante é tema de seminário sobre educação e migrações em SP

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Fachada da EMEI João Theodoro, no Bom Retiro. Bairro é foco do projeto Integração Família-Rede Socioeducativa Crédito: Reprodução/Facebook

Seminário Internacional Educação e Migração: caminhos para uma Cidade Educadora chega à segunda edição e terá também lançamento de livro

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Quais os principais desafios atuais para a garantia dos direitos fundamentais das crianças e adolescentes migrantes em São Paulo, em relação ao sistema de educação?

São sobre essas questões que se debruça a segunda edição do Seminário Internacional Educação e Migração: caminhos para uma Cidade Educadora, que acontece nesta quarta-feira (18) em São Paulo, no Memorial da Resistência, que apoia o evento.

Fachada da EMEI João Theodoro, no Bom Retiro. Bairro é foco do projeto Integração Família-Rede Socioeducativa
Crédito: Reprodução/Facebook

As atividades são gratuitas e organizadas pela Associação Cidade Escola Aprendiz, por meio de seu programa Cidades Educadoras. Seu foco principal são educadores, gestores públicos, movimentos, organizações sociais e profissionais das áreas de Educação, Infância e Migração. Para se inscrever basta preencher o formulário disponível neste link.

A nova edição do seminário vai tratar com maior particularidade do contexto do Bom Retiro, bairro de São Paulo marcado pela presença de diferentes comunidades migrantes ao longo de sua história e que continua a ser morada e/ou local de trabalho de trabalho e estudo de muitos migrantes. É nessa área que se dá o projeto Integração Família-Rede Socioeducativa, tocado pelo programa e que vem organizando ações diversas na região, a partir dos dados e demais informações coletadas em campo.

Além dos debates em si, o evento também recebe o lançamento do livro Sabores e Saberes: Memórias que atravessam tempos e espaços.

Na edição anterior (2016), cerca de cem pessoas lotaram o auditório do Museu da Imigração, também na capital paulista. Na oportunidade, os debates giraram em torno da perspectiva de que a educação pode ser repressora, mas também pode emancipar, conscientizar, promover o respeito e valorizar as diferenças. O evento foi acompanhado pelo MigraMundo e a cobertura está disponível neste link.

Seminário no Museu da Imigração debateu educação e migrações.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Programação:

9h30 – Credenciamento

10h – Abertura
Natacha Costa – Diretora-Executiva da Associação Cidade Escola Aprendiz

10h10 às 12h00 – Conferência de Abertura
“Migração e infância: desafios para a garantia de direitos na América Latina e Caribe”
– Lila Garcia – Doutora e pesquisadora do Centro de Investigação e Docência em Direitos Humanos da Universidade Nacional de Mar del Plata.

12h00 às 13h30 – Intervalo para almoço

13h30 – Infâncias Migrantes em São Paulo
– Elvira Riba Hernandéz | Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante – CDHIC
– Carolina Abrão Gonçalves | Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
– Patrícia Tavares de Freitas | Centro de Estudos da Metrópole (CEM)
– Andrea Zamur | Coordenadoria de Políticas para Imigrantes e Refugiados – Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) da Prefeitura de São Paulo (aguardando confirmação)
Mediação: Raiana Ribeiro – Aprendiz

15h00 – Bom Retiro: Caminhos para um Território Educativo
Aureli Alves de Alcântara | Memorial da Resistência
Josiane Oliveira | Museu de Saúde Pública
Mônica Siqueira | CEI Dom Gastão
Jorge Gutierrez | Associação de Comunicadores Bolívia Brasil
Mediação: Dayana Araújo – Aprendiz

16h30 – Lançamento do livro: Sabores e Saberes: Memórias que atravessam tempos e espaços
Dafni Paiva | Unidade Básica de Saúde Bom Retiro
Liliana Mamani | CEI Lar Criança Feliz
Luiz Gregório | Museu da Imigração
Mediação: Jéssica Moreira – Aprendiz

17h00 Encerramento e Café de lançamento Sabores e Saberes: Memórias que atravessam tempos e espaços

II Seminário Internacional Educação e Migração: caminhos para uma Cidade Educadora
Data e hora: 18 de outubro, das 9h30 às 17h30
Local: Memorial da Resistência – Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia, São Paulo (SP)
Entrada: gratuita, mediante inscrição – clique aqui
Informações: tel. +55 11 3255-2991 , 3129-4131 e pelo site do Aprendiz

Mudanças climáticas e migrações: uma encruzilhada global

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Entidades globais divergem sobre a ampliação do conceito de refugiado para questões ambientais. Crédito: IOM/Alessandro Grassani

Estamos todos na mesma nave azul. Ou a salvamos do naufrágio, ou afundamos juntos com ela

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
Em Roma (Itália)

“Estamos em uma encruzilhada energética. Um cartaz indica o futuro que utiliza a energia escavando do solo combustíveis fósseis e dando-lhes fogo. O outro indica a energia renovável. Não podemos seguir as duas direções. Incentivar a infraestrutura por uma das duas soluções penaliza a outra”, diz a bióloga Sandra Steingraber (Citada por KLEIN, Naomi Una rivoluzione ci salverá – perché il capitalismo non è sostenibile, Edizione best BUR, Milano, nevembre 2015, pag 291). Deparamo-nos com uma “inevitável rota de colisão entre o atual modelo econômico e a vida no planeta”, conclui por sua vez a autora do livro.

A citação inicial introduz o tema do título. Nos últimos anos, temos tropeçado frequentemente com a expressão migrantes ou refugiados “climáticos”. Aos milhares e milhões fogem de catástrofes climáticas extremas, tais como secas prolongadas e inundações repentinas, tempestades e furacões, terremotos e tsunamis, vulcões e incêndios… Deixam atrás de si montanhas de escombros, cidades em ruínas, ou cinzas em lugar delas; mas deixam para trás sobretudo cadáveres insepultos ou para sempre desaparecidos.

A que se deve tais extremos climáticos? Alguns apressam-se a dizer que semelhantes catástrofes são naturais. Sempre existiram, e sempre existirão, temos de conviver com elas. As análises mais recentes, porém, associam cada vez mais determinadas catástrofes à exploração desenfreada dos recursos naturais por parte da política econômica adotada especialmente após a Revolução industrial. A força motriz do progresso e desenvolvimento industriais, nestes dois séculos, está notoriamente ligado aos combustíveis de origem fóssil: carvão, petróleo e gás. Estudiosos do tema denominam “economia extrativista” a essa associação entre a tecnologia científica, de um lado, a produção e o consumo, de outro. A frenética extração e queima de tais combustíveis provindos do subsolo, além de contaminar o a terra, a água e o ar, geram o aquecimento global progressivo. Daí os vários encontros de cúpula entre as nações, com acordos tíbios e tímidos, para reduzir a emissão de CO2 na atmosfera, e outras substâncias nocivas à saúde do planeta.

Entidades globais divergem sobre a ampliação do conceito de refugiado para questões ambientais.
Crédito: IOM/Alessandro Grassani

Não que toda e qualquer catástrofe seja, sem mais, atribuída à ação humana sobre a natureza. O que essa ação faz, ao utilizar as riquezas naturais como se fossem recursos infinitos, é aumentar seu potencial devastador, alterando o equilíbrio natural dos diversos ecossistemas. Disso decorrem os efeitos extremados de frio e calor, chuvas e estiagem, tornados e tormentas, entre outros. Efeito visível do aquecimento global é a diminuição das geleiras nos pólos ártico e antártico, bem como a neve nos Alpes e nos Andes, para lembrar somente alguns exemplos. Também a desertificação e esterilização do solo e o aumento do nível das águas do mar são fenômenos combinados à elevação crescente da temperatura global.

O que fazer? O movimento ambientalista (ou movimentos ambientalistas) propõe a passagem, sem perda de tempo, das fontes de energia fósseis para as fontes de energia limpas e recicláveis. Do combustível à base de carvão, petróleo e gás ao combustível que nos oferece a natureza: sol, vento, potencial das águas. Solução mais fácil e cômoda tem sido o uso da bioenergia – como o etanol da cana-de-açudar e milho – mas esta entra também em outra rota de colisão, desta vez, com a produção de alimentos. Convém não esquecer, por outro lado, que o sol, o vento e a água como forças motrizes foram amplamente exploradas antes da invenção do motor a vapor pelo escocês James Watt, no século XVIII. Foi a partir dele que a produção e consumo, bem como os transportes de massa, cresceram a níveis jamais imaginados. Trouxeram conforto e rapidez, sem dúvida, mas em detrimento do planeta Terra – que exibe feridas e cicatrizes irreversíveis – e da das gerações futuras e da biodiversidade – que têm o mesmo direito à existência que nós. Impossível absolutizar os direitos do presente, do aqui e agora, ao ritmo da tecnologia atual.

Entre as chagas visíveis do planeta Terra e da humanidade, encontram-se as populações mais vulneráveis. Elas é que alimentam os grandes fluxos de migrantes/refugiados “climáticos” que, sem pátria e sem raiz, erram pelas estradas do mundo. A riqueza e o conforto de uma minoria decreta a pobreza e a fuga de povos inteiros numa migração forçada e às vezes sem destino. Desnecessário dizer que viajamos todos na mesma nave azul. Ou a salvamos do naufrágio, ou afundamos juntos com ela.

Festival Pangeia 2017 quer levar América Latina à periferia de São Paulo

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Crédito: Divulgação

Segunda edição do evento expande atividades e reduzir distâncias que ainda separam Brasil e o restante da América Latina

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Bairros das zonas sul e leste de São Paulo vão receber as atividades culturais da segunda edição do Festival Pangeia, que começa no próximo dia 17 e vai até 31 de outubro.

Coletivos, bandas e grupos culturais de migrantes que vivem na capital paulista e brasileiros vão permitir uma viagem de ritmos, sons, conhecimento e sabores pela América Latina sem sair da capital paulista. Para este ano as atrações culturais estarão concentradas no CEU Vila Rubi, na zona sul – próximo à estação Primavera Interlagos da CPTM. Outros dois locais vão receber atividades de formação: o Centro Cultural Grajaú, também na zona sul, e o CEU Quinta do Sol, na zona leste.

A programação completa pode ser vista na imagem abaixo e todas as atividades são gratuitas – apenas para os workshops é necessário enviar e-mail de confirmação para festivalpangeia@gmail.com. O trio feminino de rap Santa Mala e a Fraternidade Folclórica e Cultural Tinkus San Simón (Bolívia), o Grupo Cambamberos (Colômbia) e a dupla Jara Arrais e Ademar Farinha (Cuba) estão entre as atrações confirmadas.

A principal mudança em relação ao ano passado é a ampliação do escopo das atrações – da América do Sul à América Latina como um todo.

“Quando sentamos para organizar material e avaliar o projeto, percebemos que agora poderíamos ampliar as propostas do festival para além da América do Sul. Desde o primeiro gostaríamos de fazer direcionado às Américas, mas como estávamos iniciando nesse processo e era nosso primeiro ano, pensamos em direcionar o foco para conseguir fazer um evento bacana”, informou a organização do Pangeia ao MigraMundo.

Ainda segundo a organização, cerca de 2.000 pessoas acompanharam as atividades da primeira edição do Pangeia. E esse número tem potencial para crescer nesta e em próximas edições do festival

“Com essas atividades pretendemos experimentar as ações acontecendo em lugares diversos, ampliando o alcance, principalmente para as periferias da cidade. A proposta a longo prazo é desenvolver atividades nas periferias de regiões diferentes da cidade”.

Sobre o festival

O nome Pangeia é uma referência à primeira formação do Planeta Terra, onde não havia divisão dos continentes como conhecemos hoje. É também uma forma de pregar a superação de fronteiras, de barreiras que desagregam.

O projeto foi idealizado em 2015 a partir de encontros e pesquisas das integrantes do coletivo MisturArte e conseguiu apoio das edições 2016 e 2017 do Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, e da ONG Presença de América Latina.

“Pretendemos deixar a mensagem primordial que direciona a ideia do projeto, que é o respeito, devemos nos unir assim como sugere o nome Pangeia, ser um só e deixar as diferenças de lado”, aponta Pauliana Reis, diretora do festival, em entrevista ao MigraMundo antes da primeira edição, em 2016.

Uma breve mensagem do MigraMundo para o Dia da Criança

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Crianças de países centro-americanos brincam em centro de apoio do ACNUR no México. Violência na região tem aumentado o número de refugiados, mas crise segue ignorada. Crédito ACNUR

Crianças e jovens são a maioria entre os refugiados no mundo; proteção é um direito e deve ser garantido, independente da nacionalidade

Por Bruna Cristina
Em São Paulo (SP)

O Dia da Criança é lembrado como um momento de festa para quem ainda está na infância e de nostalgia para muitos dos que já estão na vida adulta. Mas é uma data que também permite – e precisa gerar – algumas reflexões sobre a situação em que milhões de menores estão vivendo mundo afora.

Crianças de países centro-americanos brincam em centro de apoio do ACNUR no México. Violência na região tem aumentado o número de refugiados, mas crise segue ignorada.
Crédito ACNUR
  • 52% dos refugiados no mundo (ou seja, mais da metade) são crianças e jovens de até 18 anos;
  • Calcula-se que, na última década, mais de 2 milhões de crianças morreram em conflitos armados, 6 milhões ficaram feridas ou mutiladas e outro milhão tornou-se órfã;
  • Mais de 300 mil crianças foram obrigadas a converterem-se em soldados ou escravos sexuais;
  • 15 milhões de meninas se casam antes dos 18 anos de idade por ano;
  • Criança refugiada tem cinco vezes menos chance de estudar do que uma criança local – leia mais;
  • Em cinco anos, 175 mil pessoas – maioria mulheres e crianças – fugiram do Triângulo Norte da América Central – leia mais aqui;
  • Crianças de mais de 87 países vivem rodeadas por 60 milhões de minas terrestres e 10 mil crianças continuam sendo vítimas destas armas.

Ou seja, milhares de crianças diariamente têm sua infância roubada pela violência mundo afora. Quando deveriam estar na escola e brincando na rua, estão sendo torturadas e obrigadas a sair do seu lar, percorrendo centenas ou mesmo milhares de quilômetros em busca de segurança. Muitas delas morrem nesse trajeto.

Relembre aqui o Especial Infância e Refúgio

Ele sobreviveu, mas nem todos têm a mesma sorte

Proteção é um direito de toda criança e isso deve ser garantido independente de sua nacionalidade.

Neste Dia da Criança, lembremos de todas que não estão ganhando brinquedos e comemorando essa data; lembremos dessas crianças que estão vivendo tragédias que muitos de nós nunca iremos viver; dessas crianças que, apesar de tão jovens, estão lutando pela vida e pela liberdade.

Crianças e jovens até 18 anos representam mais da metade dos refugiados e deslocados no mundo atualmente.
Crédito: ACNUR

‘’E eles esqueceram que não eram iguais às demais crianças, esqueceram que não tinham, nem pai, nem mãe, que viviam de furto como homens, que temidos na cidade como ladrões. Esqueceram tudo e foram iguais a todas as crianças, cavalgando os ginetes do carrossel, girando com as luzes. As estrelas brilhavam, brilhava a lua cheia. Mas, mais que tudo, brilhavam noite da Bahia as luzes azuis, verdes, amarelas, roxas, vermelhas Grande Carrossel Japonês.”
Trecho do livro Capitães da Areia, de Jorge Amado

Feliz Dia da Criança!

Migrantes e campanha mostram como romper barreiras

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Migrantes do V Seminário Vozes e Olhares Cruzados posam em apoio à campanha #compartilheaviagem , lançada recentemente pela Cáritas no mundo todo. Crédito: Miguel Ahumada

V Seminário Vozes e Olhares Cruzados trouxe relatos de migrantes sobre o mercado de trabalho e foi palco do lançamento de campanha internacional

Por Rodrigo Borges Delfim
Colaboração de Amanda Rossa
Em São Paulo (SP)

Além de barreiras físicas, os migrantes rompem outros tipos de fronteira – culturais, sociais, preconceitos, entre outras – quando se deslocam em busca de melhores condições de vida.

Essas transformações que ocorrem para cada migrante – e para as sociedades onde vivem – foram o tema do V Seminário Vozes e Olhares Cruzados – Rompendo Fronteiras, Trabalhando pela Vida, que aconteceu na última terça-feira (10) no auditório da Missão Paz, em São Paulo. O evento teve como ponto de partida os testemunhos dos próprios migrantes sobre como cada um tem enfrentado as dificuldades no mercado de trabalho.

“Quando pensamos no lema do evento, procuramos pensar nas diversas fronteiras que os migrantes cruzam, não apenas as barreiras físicas”, conta o padre Paolo Parise, um dos diretores da Missão Paz.

O seminário, organizado pela instituição desde 2012, contou neste ano com o apoio da Fundación Avina e do MigraMundo. Além dos relatos dos migrantes, o evento foi palco de lançamento da campanha Migração – Movimento que Transforma, organizada pela Avina e que fala das transformações positivas que a migração gera em meio à sociedade, além de rebater uma série de estereótipos associados à temática migratória (veja mais a seguir).

O evento também teve transmissão online o vídeo está disponível abaixo e também no perfil da Missão Paz no Facebook.

“Estar aberto a coisas novas”

O seminário começou com uma mesa formada por seis migrantes de cinco países – Haiti (2), Venezuela, Angola, Togo e Síria – que falaram sobre as barreiras já rompidas ou que ainda tentam superar no Brasil, do idioma ao preconceito, passando pela reinvenção profissional em meio à dificuldade para exercer sua atividade original no país.

“Em qualquer país do mundo, se você se fecha, é muito mais difícil. Devemos estar abertos a fazer e aprender coisas novas” relata Carlos Escalona, da Venezuela, apesar de admitir a frustração de não conseguir ainda exercer sua profissão no Brasil. Jornalista de formação e também músico, chegou no ano passado ao país e atualmente trabalha como ajudante de cozinha em um hotel próximo à avenida Paulista. Para o futuro, pensa em ter um negócio próprio.

A reinvenção profissional também é uma realidade para a síria Razan Suliman, que além de participar da mesa de abertura também foi responsável pelo coffee break do evento. Dona de casa na Síria, começou a cozinhar para os vizinhos do prédio onde mora em São Paulo e conseguiu abrir uma microempresa (Razan Comida Árabe) pela qual comercializa pratos e petiscos árabes. Sobre os planos para o futuro, ela é direta. “Quero abrir meu restaurante”.

Já a angolana Cristina Dipa, que fez curso de cuidadora e hoje trabalha como balconista, conseguiu a vaga com ajuda da Missão Paz, através do programa de mediação que a instituição faz entre empregadores e migrantes. “Fui escolhida entre 50 pessoas”, comemora Cristina, que relatou ter sofrido com racismo no Brasil e se emocionou ao fazer seu relato.

Ao final da mesa, os participantes posaram com braços abertos em apoio à campanha mundial Compartilhe a Viagem (#compartilheaviagem ou #sharejourney ), lançada recentemente pela Cáritas (saiba mais aqui).

Migrantes do V Seminário Vozes e Olhares Cruzados posam em apoio à campanha #compartilheaviagem , lançada recentemente pela Cáritas no mundo todo.
Crédito: Miguel Ahumada

Encarar os preconceitos de frente

Em sintonia com o objetivo de romper barreiras que impedem um melhor entendimento das migrações, a segunda parte do seminário abrigou o lançamento oficial da campanha internacional Migração – Movimento que Transforma. Focada no contexto sul-americano, ela busca esclarecer e desmistificar os preconceitos e pós-verdades que envolvem a temática migratória no continente, ao mesmo tempo que mostra as transformações e benefícios que a migração é capaz de trazer para a sociedade como um todo.

Clique aqui para acessar a página da campanha

A campanha, disponível em português e espanhol, é conduzida no Brasil pela Fundación Avina em parceria com a Missão Paz e conta também com o apoio formal do MigraMundo. O material foi produzido em conjunto pelas agências Social Docs e Espiral Interativa.

Assim como o Vozes e Olhares Cruzados, a campanha é baseada em relatos de migrantes sobre suas realizações, dificuldades e sonhos. “Assim como o Vozes, esta é uma campanha de rostos. Partimos do mesmo princípio. É uma campanha aberta para ser compartilhada. Deixamos uma semente que a gente espera que se multiplique”, conta Ofélia Ferreira, coordenadora do programa de migrações para América do Sul da Fundación Avina.

A campanha tem ainda uma seção de mitos e verdades, destinada justamente a derrubar estereótipos em geral associados às migrações e aos migrantes. “Precisamos olhar de frente esse fenômeno e desconstruir essa xenofobia”, complementa Ofélia.

A campanha deve ser lançada no Chile ainda em novembro e a expectativa é que aos poucos ela possa ser levada a outros países sul-americanos.