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sábado, junho 27, 2026
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Cidadãos angolanos no Brasil protestam pelo acesso ao voto vivendo no exterior

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Angola possui cerca de 450 mil cidadãos no exterior. No Brasil, comunidade debateu impossibilidade de participação no processo eleitoral no país. Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

Às vésperas de eleição histórica que vai eleger novo presidente de Angola, comunidade que vive no Brasil expressa indignação por ter direito, mas não poder participar do processo

Por Lya Amanda Rossa
Em São Paulo (SP)

A data de 23 de agosto de 2017 tem vocação para ser histórica em Angola. Nesse dia, irão ocorrer as primeiras eleições gerais após 5 anos, sendo o pleito o terceiro já realizado no país. Ou segundo, na visão da oposição que não aceitou o resultado das eleições de 1992, razão pela qual o país entrou em uma guerra civil que durou 27 anos, em sequência a outros 14 anos vividos sob a guerrilha anti-colonial.

O atual presidente, José Eduardo dos Santos, que encerra seu primeiro mandato oficial por voto direto e não concorre às eleições desse ano, governa o país desde 1979, após a morte de seu antecessor político, Agostinho Neto. Ambos representaram o MPLA- Movimento Popular de Libertação de Angola, partido que lidera o país desde 1975 e que disputou o poder com outros movimentos na luta anticolonial pré e pós a independência da metrópole Portugal, como a Unita- União Nacional para a Independência Total de Angola e o FNLA- Frente Nacional de Libertação de Angola, os quais também concorrem às eleições nesse mês.

Dados do Censo angolano de 2014 concluíram que a população de Angola é de mais de 25 milhões de pessoas. Contudo, o país não possui informações referentes à parcela populacional que vive no estrangeiro ou na diáspora, forma como os angolanos descrevem cidadãos que moram em outros países sob variadas condições jurídicas, como estudantes, migrantes, refugiados e solicitantes de refúgio. Levantamento realizado pela Unicef em 2013 estimou que cerca de 420 mil angolanos viviam fora de seu país, com a maioria dos residentes em países africanos circunvizinhos e em Portugal. Apesar de ser difícil estimar a parcela real de emigrantes na diáspora, o mesmo relatório aponta que o Brasil é o destino número 1 daqueles que buscam realizar estudos no ensino superior, situação promovida por convênios estudantis bilaterais, como o PEC-G (Programa Estudante-Convênio, do Ministério da Educação).

Apesar de o país possuir um longo histórico de pessoas com vivências (e famílias) transnacionais, que no Brasil remete à década de 70, quando o maior número de refugiados reconhecidos era de Angola (situação que se manteve até 2002);  cidadãos angolanos no exterior possuem o direito ao voto previsto em lei, mas ainda não garantido. Uma das razões alegadas para impossibilidade de realizar eleições nas seções consulares angolanas é a falta de recursos. Contudo, no país tem sido discutidos outros aspectos logísticos do pleito, como a indicação de zonas eleitorais bastante distantes dos locais de residência dos eleitores, que podem chegar a mais de mil quilômetros em alguns casos. Além de não poderem votar em Angola, angolanos e migrantes de todas as nacionalidades também não podem votar em nenhum nível federativo no Brasil, único país da América do Sul que não concede direitos políticos a residentes de outros países, o que gera mobilizações como a campanha “Aqui vivo, aqui voto“.

Motivados por um misto de anseio por mudanças e expressões de desânimo que indicam uma crise de representatividade, angolanos e angolanas em São Paulo se reuniram no último no dia 17 de agosto para realizar um debate aberto sobre a situação política em seu país: suas esperanças e sonhos, e também, sua indignação por não poderem participar desse momento histórico.

Angola possui cerca de 450 mil cidadãos no exterior. No Brasil, comunidade debateu impossibilidade de participação no processo eleitoral no país.
Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

Lucinda Pedro,  integrante do coletivo Muxima na Diáspora (muxima significa coração em Kimbundo, um dos vários idiomas nacionais), contou ao MigraMundo sobre a iniciativa de organizar o evento, que ocorreu na Câmara Municipal de São Paulo. “Já vínhamos debatendo o tema há algum tempo e realizamos a colhida de assinaturas (abaixo-assinado) pela possibilidade de votar no estrangeiro, mas não tivemos resultado. No ano passado o ministro Bornito de Souza afirmou que apenas poderiam votar no exterior representantes consulares e pessoas fora do país em tratamento de saúde, mas o processo eleitoral têm recebido críticas de falta de transparência, já que o ministro atualmente é membro do Conselho Nacional Eleitoral (CNE, equivalente à nossa Justiça Eleitoral) e também é candidato pelo MPLA.”

A mesa de debate, que contou com a participação de membros do Muxima na Diáspora, cidadãos independentes, estudantes e representantes e militantes de partidos, discutiu questões jurídicas, políticas, partidárias, culturais e teve uma simulação de intenções de voto com apuração de resultados. Dos 22 votantes, foi vencedor o representante do partido CASA-CE, com 12 votos, seguido pelo partido da situação, o MPLA, com 4 votos, a FNLA, com 1 voto, acrescidos de 4 votos nulos. A cédula de simulação fez referência aos candidatos à eleição atual, representados por cinco partidos: MPLA (situação), FNLA e UNITA (oposição histórica), APN (Aliança Patriótica Nacional), PRS (Partido de Renovação Social),  e a Coligação Eleitoral Casa-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola). Dentre os seis candidatos presidenciáveis, todos são homens, mas Angola já teve uma candidata mulher nas eleições de 2012 e conta atualmente com uma representatividade feminina legislativa equivalente a 36% – bastante superior à do Brasil, que é de apenas 9% na Câmara e 13% no Senado Federal.

Apesar da grande importância do tema para os rumos do país, pouco se ouve falar no Brasil sobre o caso, recebendo maior destaque as relações mantidas entre Angola e Brasil que se centram sobretudo no plano comercial, tendo a política internacional brasileira historicamente reconhecido a apoiado a dominância do MPLA no poder. Seria possível relacionar que o desinteresse dos brasileiros sobre a democracia em Angola se relaciona com o fato de que tal processo encareceria o preço do petróleo, maior commodity importada do país? A propósito, a Associação dos Empresários e Executivos Brasileiros em Angola (Aebran) estimava que em 2008 viviam em Angola cerca de 20 mil brasileiros, número bastante superior ao que consta sobre angolanos no Brasil, estando presentes também inúmeras organizações e empresas no país, tanto veículos de mídia (TV Globo e Record), igrejas como a Universal do Reino de Deus, sem além da maciça presença de multinacionais brasileiras de construção civil, como a Camargo Correia e a Odebrecht em uma das capitais mais caras do continente africano e do mundo, Luanda.

Eleitor deposita sua cédula eleitoral na urna durante a simulação de votos enquanto mesa debate questões políticas. Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

Por falar em democracia, esteve no Brasil no início do mês para o lançamento de seu livro “Sou eu mais livre então- Diário de um preso político angolano” o rapper e ativista Luaty-Beirão. Ele ficou internacionalmente conhecido após ser preso junto a um grupo de ativistas acusados de conspiração contra o governo enquanto se reuniam para a leitura de um livro de ciência política, num caso que ficou conhecido como 15+2 (em referência aos 15 primeiros presos, seguidos por mais dois) e que mobilizou a mídia internacional, após um longo processo criminal e greves de fome realizadas pelo grupo para atrair a atenção da imprensa sobre liberdade de expressão no país.

Recentemente, a solidariedade também veio do Coletivo Muxima na Diáspora, que participou  de um ato contra o encarceramento de Rafael Braga, preso após as manifestações de 2013, tendo sido acusado e preso em regime fechado por portar uma garrafa de pinho sol em sua mochila, caso que se complicou posteriormente frente a perseguição policial e imputação de outros crimes que levaram Rafael novamente ao encarceramento em regime fechado. Infelizmente, talvez haja muito mais semelhanças do que diferenças entre Brasil e Angola e acompanhar a democracia no outro lado do atlântico tenha bem mais a ver conosco do que possamos imaginar.

Relato: meu otimismo catalão sofreu um atentado em Barcelona

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Crédito: Reprodução/Twitter/@SilsdelaSelva

Brasileiro residente em Barcelona teme pelos efeitos que o ataque na cidade terá sobre toda a sociedade, incluindo refugiados e migrantes

Por Flávio Carvalho
Em Barcelona

Trabalho em Barcelona (moro há 12 anos na Catalunha) e estive com meus filhos, dois dias antes, em Las Ramblas, local do atentado terrorista. A cidade está com mais turistas do que normalmente já tem, mas fizemos algo impensável para a maioria de nós, moradores: a típica foto sobre a pintura de Miró, na calçada, em frente ao Mercado da Boqueria – eleito por uma associação de mercados públicos mundiais como o melhor de todos.

Logo, viajei urgente pra Olinda, para acompanhar de perto o grave estado de saúde do meu pai, na UTI. Nestes momentos, tendemos a pensar que fomos salvos: eu (pelo meu pai, muito doente), porque havia programado um curso para realizar bem ali perto, das Ramblas, sobre ajuda aos brasileiros recém chegados na cidade, sobre seus direitos e deveres.

Coincidentemente, o curso estava programado para as 17 horas daquele dia 17 (deste mês de agosto), mesma hora do atentado. Ali mesmo, na sala de uma ONG – que nos cederia gentilmente o espaço. Todos que lá moramos, hoje não deixamos de pensar o quanto poderíamos, cada um de nós, haver cumprido o ritual de passear pelas Ramblas, num caloroso dia típico de férias de verão europeu.

A cidade também é nossa, reclamamos com indignação, muitas vezes, aos turistas. Principalmente porque os moradores do centro turístico estão sendo expulsados pelo processo de gentrificação intenso (quando os interesses imobiliários dos grandes grupos inversores se sobrepõem ao direito de moradia da maioria dos cidadãos), pela especulação imobiliária de sempre – e até então cada vez maior. Todos sabemos que Barcelona estava recebendo os turistas que evitavam os destinos turísticos atacados pelo terror: Paris, Londres, etc.

Como eu trabalhei sempre em Barcelona com o tema “viagem” (por turismo ou por migração, duas pernas de um mesmo corpo), lamento fazer agora alguns prognósticos pessimistas para a cidade, exatamente em um momento muito oportuno para toda a Catalunha, às vésperas do referendo que poderá mudar nossas vidas: não se sabe para que sentido ou direção, mas se sente fortíssima, nas ruas da Catalunha, a oportunidade da mudança.

Primeiro, porque a Espanha não tem sido capaz de sair da “monocultura” do turismo barato. Pagando salários miseráveis aos imigrantes que ocupam os piores postos de trabalho, enquanto os grandes grupos hoteleiros se enfrentam às políticas de esquerda da mulher que mais combateu a especulação imobiliária nos últimos anos, antes e depois de ser prefeita de Barcelona, Ada Colau. Quem pagará novamente esse pato? Os imigrantes. Incluindo as dezenas (ou centenas) de brasileiros que chegam cada dia (posso lhes assegurar, porque trabalho cotidianamente com isso, voluntariamente mais que profissionalmente). Brasileiros que “fogem” do Brasil, expulsos por tudo isso que vocês já sabem que está passando no nosso país.

Em segundo lugar, porque aumentarão os controles migratórios sobre todos aqueles que não são europeus. Aumentará ainda mais a desconfiança generalizada e burra contra os imigrantes, a xenofobia, assim como já está acontecendo em toda a velha Europa. E não é verdade que a Espanha estivesse longe disso. Todos os brasileiros em situação irregular que eu conheço (e não são poucos, também posso lhes garantir) estarão infelizmente mais sujeitos a serem parados a qualquer momento para serem investigados pela polícia. Evidentemente de forma discriminatória.

Prefiro, portanto, ser mais realista e começar a alertar o nosso país, ativando políticas públicas de mais proteção dos direitos dos brasileiros migrantes, em situações como esta. E exatamente por haver assinado e ajudado a liderar, recentemente, um manifesto a favor do referendo na Catalunha (podendo explicar todas minhas razoes, se dispusesse de mais espaço), até mesmo como uma oportunidade de construir uma nova política migratória naquele “pequeno país”, a Catalunha, conhecido historicamente e ironicamente como um dos mais importantes territórios de acolhida de toda a Europa.

Um único dado exemplar: na mesma medida em que a direita espanhola que governa o Reino tira a saúde pública para os migrantes irregulares e os prende em presídios disfarçados de Centros de Internamento, a Catalunha enfrenta as leis espanholas criando uma legislação própria, para garantir o direito à saúde, e a Prefeitura de Barcelona concede documentos de integração aos indocumentados, porque se estivessem absolutamente “sin papeles” (sem nenhum documento) poderiam ser presos ou expulsos a qualquer momento, por mais que tivessem família ou algum trabalho informal. Lamentável, portanto, tudo o que está acontecendo e o que ainda poderá vir a acontecer.

Estávamos, infelizmente, na Catalunha, acostumados a sobreviver em um nível 4 de alerta terrorista. Haveremos, por força das circunstâncias, de viver sobre o nível máximo, o 5. Para que os brasileiros entendam, é como essa sensação terrível de termos que nos “acostumar” em viver nessa insegurança pública brasileira, em um clima de guerra nas ruas, como se nada estivesse acontecendo.

Barcelona não merece. A Catalunha e o Brasil não merecem. Atuemos. E sejamos ainda mais solidários. E isso porque eu nem entrei no assunto dos refugiados na Europa

Flávio Carvalho é sociólogo e brasileiro migrante. Vive em Barcelona e já fez colaborações anteriores para o MigraMundo

Em cartaz em São Paulo, peças refletem sobre guerra e refúgio

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Cena da peça Nomes para Furacões, do Grupo Pandora de Teatro. Crédito: Divulgação

As duas produções podem ser acompanhadas até o próximo dia 27 na capital paulista

Por Géssica Brandino
No Caminhos do Refúgiolink original aqui

Até o final do mês, estão em cartaz em São Paulo duas peças sobre o cotidiano da guerra e suas consequências. “Nomes para furacões”, do Grupo Pandora de Teatro e “São Paulo Refúgio”, da Cia. Perfomatron, abordam de forma diferente uma mesma temática: a realidade do refúgio e os múltiplos caminhos a serem trilhados para recomeçar.

Com dramaturgia de Lucas Vitorino, “Nomes para furacões” foi criada a partir do pensamento de Zygmunt Bauman na obra “Estranhos à nossa porta” e de amplo estudo do grupo sobre a temática dos deslocamentos. A montagem conta a história de Alice e seu pai em meio a guerra num país que não se sabe qual. Poderia ser qualquer um daqueles em conflito no mundo, que já geraram mais de 65 milhões de deslocados forçados, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

“O título da peça evoca a prática de nomear algo que está além do que entendemos como humano, uma necessidade de humanizar algo que vai além da nossa compreensão”, define o grupo. O enredo provoca e perturba, traz reflexões sobre a violência praticada por aqueles que fazem os conflitos, personalizada em dois soldados. A problematização sobre a violência de gênero também é colocada em cena, assim como a negligência global perante às mortes no mar mediterrâneo e o ciclo da guerra.

Cena da peça Nomes para Furacões, do Grupo Pandora de Teatro.
Crédito: Divulgação

A relação entre Alice e seu pai e os encontros e desencontros entre ambos trazem à tona o drama da separação familiar vivenciada por inúmeros refugiados. A falta de recursos e a urgência para partir fazem com que muitos sejam obrigados a deixar a família para trás, sem saber ao certo quando será o reencontro.

O recomeço, o desafio de cruzar a fronteira e todos os desafios impostos por essa realidade também estão no enredo da peça “São Paulo Refúgio“, teatro documentário de Conrado Dess, que conta por meio de cartas e depoimentos a vivência de refugiados de diferentes nacionalidades que chegaram ao Brasil.

A peça conta com a participação especial do refugiado congolês Tresor Muteba e provoca o público a pensar nos estereótipos construídos sobre quem são os refugiados, especialmente sobre o sensacionalismo midiático.

Tresor Muteba, que integra o elenco de São Paulo Refúgio, do grupo Performatron.
Crédito: Divulgação

Com recursos diversos, os dois espetáculos cumprem o papel de aproximar o olhar para uma realidade que poderia ser vivenciada por qualquer pessoa e pensar na responsabilidade de cada cidadão em dar uma resposta para que cada refugiado e migrante receba acolhimento digno para recomeçar.

Nomes para Furacões – Grupo Pandora de Teatro
Em cartaz até 27 de Agosto
Sábados às 20h e Domingos às 19h
Entrada: Pague Quanto Puder
Local: Espaço Companhia do Feijão (Rua Dr. Teodoro Baima, 68. República)
Duração: 100 min | 80 Lugares.
Classificação etária: 12 anos
Clique aqui para mais informações

São Paulo Refúgio – Performatron
Em cartaz até 27 de agosto
QUI, SEX e SAB, às 21h e DOM, às 20h.
Entrada: R$20 (Inteira) / R$10 (Meia) – pagamento somente em dinheiro
Local: FUNARTE SP | Sala Carlos Miranda (Alameda Nothmann, 1058)
Duração: 80 min | 60 Lugares.
Classificação etária: 14 anos
Clique para mais informações

Após ordem judicial, cidade francesa começa a instalar banheiros químicos e água para refugiados

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Solicitantes de refúgio e outros migrantes fazem fila para distribuição de comida, cobertores e roupas em Calais (França). Crédito: HRW - ago.2017

Calais vai instalar 5 banheiros e 3 bebedouros para 700 refugiados; ONGs dizem que ação é ridícula, e quantidade, “extremamente insuficiente”

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)
English version – click here

A prefeitura da cidade francesa de Calais começou na tarde da última quarta (16) a instalar banheiros químicos a 500 metros da região central da cidade, onde vivem cerca de 700 refugiados. A ação é consequência de uma decisão judicial que obriga o Estado a prover “condições de dignidade” para os migrantes.

A Prefeitura tem até o dia 21 de agosto (próxima segunda-feira) para terminar as instalações.  Para as ONGs que atuam no local, o poder público só agiu porque “foi coagido”.

De acordo com comunicado publicado pela Prefeitura de Calais, serão instaladas duas cisternas com água potável, três bebedouros, cinco cabines de banheiros químicos, além de dez latrinas suplementares.  A Prefeitura fez questão de ressaltar que o cumprimento da decisão judicial “melhorará a vida dos migrantes”, mas que não pretende fomentar o que chamou de “fluxo descontrolado de migrantes”.  “É necessário lembrar que o local não se constitui em um acampamento de refugiados –  afim de evitar um fluxo incontrolado de migrantes”, afirmou o prefeito da região de Pas-de-Calais, Fabien Sudry.

Para o chefe da missão de ajuda ao refugiado da Igreja Católica na região de Nord-Pas-de-Calais, Vincent de Coninck,  as autoridades só começam a fazer qualquer coisa pelo migrante porque elas “foram coagidas”. Vincent diz também ser “ridículo” o número de banheiros implantados.

“O número de banheiros instalados é menos que o necessário. É impossível cinco cabines para 600 pessoas, isso é ridículo. A interpretação que é feita da ordenança do Conselho de Estado e do Tribunal Administrativo me inquieta.  Eu espero que este seja apenas um primeiro passo, primeiro passo esse extremamente insuficiente”.

Condições precárias

A cidade de Calais, no norte da França, recebeu, de acordo com os dados do Ministério do Interior, 7 mil pessoas fugindo de guerras, perseguições políticas ou catástrofes humanitárias. Mas, com a falta de acolhimento e integração social, os refugiados acabaram sendo alocados em um acampamento às margens da cidade. Pelas condições precárias de vida, o campo de refugiados de Calais foi apelidado pejorativamente de “selva”.

Em novembro de 2016, por decisão judicial, o campo de Calais foi desmantelado, e parte dos refugiados foi realocada para centros de acolhida; outra parte ficou nas ruas.

Solicitantes de refúgio e outros migrantes fazem fila para distribuição de comida, cobertores e roupas em Calais (França).
Crédito: HRW

Em junho deste ano, uma decisão do Tribunal Administrativo de Lille condenou a situação dos migrantes abandonados nas ruas do centro de Calais e obrigando as autoridades locais a providenciarem água e banheiros. A decisão veio menos de uma semana depois do relatório da ONG Internacional Human Rights Watch, que ouviu 60 migrantes – em sua maioria, menores vivendo em situações precárias no centro da cidade. Eles denunciaram violência policial, como uso de gás de pimenta em crianças, e contínua falta de assistência humanitária, especialmente em relação à comida e acesso a sanitários.

A decisão foi contestada pela Prefeitura de Calais, que levou o assunto para a mais alta corte administrativa da França, o Conselho de Estado. Depois de duas semanas, o Conselho confirmou a decisão de Lille, chamando a situação dos migrantes em Calais como “degradante e sem o mínimo de humanidade”.

“A falta de pontos de água potável, de banheiros e de chuveiro expõe, por parte das autoridades locais, a falta de tratamento humano e o abandono degradante dos migrantes (…) Vê-se aqui um atentado grave à dignidade dessas pessoas”, segundo o Conselho.

Government starts to place toilets and water-points for refugees in Calais, France

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Solicitantes de refúgio e outros migrantes fazem fila para distribuição de comida, cobertores e roupas em Calais (França). Crédito: HRW - ago.2017

The local government will put 5 chemical toilets and 3 water-drinkers for 700 refugees in the centre; For NGOs , the quantity is “ridiculous and extremely insufficient”

By Victória Brotto
From Strasbourg (France)
Portuguese version – click here

The Calais’ town hall has started today to install chemical toilets a 500 metres from the city centre, where about 700 migrants live. The action comes up after a court decision that states Calais to provide humanitarian aid for the refugees. The local government has until August, 21st to finish the work. For the NGOs who work along with refugees, the aid is just taking place because the government was “obligated to do it so”.

According to the communicated published today by the Major of Calais, it will be placed two cisterns, three water points and five chemical toilets – and also ten latrines. With that, the major states, “it is been helped the migrants but there is a necessity of pointing out that there is no camp for refugees anymore in Calais and neither the city wants to encourage a deregulated flow of migrants over the city”, said the Pas-de-Calais major, Fabien Sudry.

For the head chief of the Refugee Catholic Aid in the region, Vincent de Conink, the authorities are just doing something because they were “forced to it”. Vincent also calls the number of toilets “ridiculous”

“The number of toilets is less than the minimum, it is impossible, five cabines for 600 people is ridiculous”. For him, the response of the local government is a “first extremely insufficient first step”.

“The interpretation of the court decision upsets me. But I hope that this response would be just a first step – even an extremely insufficient step.”

Poor conditions

The city of Calais, in the North of France, has received, according to the last figures of the French government, 7 thousand people fleeing from wars, persecution or humanitarian catastrophes since 2014. But, with the lack of support, these refugees were being put into a camp in the outskirts of Calais. Because of the extremely poor conditions of the refugee campin Calais, it was started to be called by the name of “Jungle”. In November of 2016, by a court decision, the camp was dismantle and some of the refugees went to the street.

On the last July, the Administrative Court of Lille condemned the situation of “lack of dignity” toward the refugees in the streets of Calais and ordained the local government to provide humanitarian aid to them such as water and sanitation. The ruling came less than a week after the publication of a sharply critical report from Humanitarian Right Watch conversations with approximately 60 migrants, about half of whom were minors. Those interviewed complained of police violence and regular disruptions of humanitarian assistance, especially food and access to amenities as basic as toilets and showers.

The decision was contested by the City Hall of Calais, that take up to the highest Administrative Justice Court, known as the Conseil d’Etat. After two weeks, the Council confirmed the previous decision of Lille’s court in favor of the migrants.“The living conditions of migrants reveal a failure of public authority, which is liable to expose the persons concerned to inhuman or degrading treatment and thus constitutes a serious and manifestly unlawful interference with a fundamental freedom,” read the opinion of the court.

Refúgio, ação humanitária e Palestina são tema de programação especial em São Paulo

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Exposição Infância Refugiada durante passagem por Fortaleza. Com ajuda de vaquinha virtual, projeto virou livro. Crédito: Divulgação

Evento gratuito na Matilha Cultural aproveita o Dia Mundial da Ação Humanitária, que será lembrado no sábado (19)

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

As ações humanitárias e a assistência a refugiados e migrantes em diversas partes do mundo possuem desafios em comum. São riscos diversos, até mesmo de morte, que acabam ampliados por fatores como mudanças climáticas, aumentos dos preços dos alimentos, turbulência financeira global, escassez de água, explorações e violações de direitos humanos.

Esses desafios serão tema de uma programação especial organizada pela Matilha Cultural, no centro de São Paulo, que acontece neste sábado (19) a partir das 15h, aproveitando o Dia Mundial da Ação Humanitária. A entrada é gratuita.

As atividades começam às 15h com a palestra “Os desafios da Ação Humanitária”, ministrada por Beatriz Gurgel, mestre em Ajuda Humanitária Internacional. Em seguida, às 16h, acontecem os lançamentos de dois livros sobre a questão palestina: “A Limpeza Étnica da Palestina” e “Al Nakba – Um estudo sobre a catástrofe palestina”, com a presença da autora, a professora e pesquisadora Soraya Misleh. Apresentações culturais e venda de doces árabes também estão previstas para o evento.

Quem for à Matilha Cultural também poderá acompanhar o último dia da mostra fotográfica Infância Refugiada. Idealizada e organizada pela fotógrafa brasileira Karine Garcêz (saiba mais aqui), ela é fruto do trabalho da autora com crianças palestinas que vivem no Líbano, Jordânia e Turquia. Algumas das imagens da exposição receberam intervenções artísticas na abertura, no último dia 27 de junho, e poderão ser adquiridas pelo público por meio de um leilão solidário. O dinheiro arrecadado com a atividade será revertido para ações em prol dos refugiados.

Instituído em dezembro de 2008 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o Dia Mundial da Ação Humanitária busca refletir sobre a importância do trabalho humanitário mundo afora, além de homenagear pessoas que perderam a vida em atividades humanitárias. A data foi escolhida para lembrar os 22 mortos no atentado ao hotel Canal, em Bagdá (Iraque), em 19 de agosto de 2003 – entre eles o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Dia Mundial da Ação Humanitária
Data e hora: 19 de agosto, a partir das 15h
Local: Matilha Cultural – Rua Rego Freitas, 542, República – São Paulo (SP)
Entrada: gratuita

 

CNIg divulga caderno de propostas feitas durante atividade sobre Lei de Migração

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Mesa de abertura da atividade presencial do Fórum de Participação Social, do CNIg, em São Paulo (agosto/17). Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Ao todo foram 68 propostas feitas para o processo de regulamentação da nova lei, que entra em vigor em novembro

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

O Conselho Nacional de Imigração (CNIg) disponibilizou no portal do Ministério do Trabalho (ao qual está vinculado) o documento com as propostas feitas durante a Atividade do Fórum de Participação Social, ocorrida no último dia 4 de agosto em São Paulo.

Clique aqui para baixar o material

O objetivo da atividade, intitulada “Lei de Migração: regulamentação e interfaces com o Pacto Global”, foi de coletar sugestões do público presente para a nova Lei, que entra em vigor no mês de novembro.

Durante o evento, os participantes – entre representantes da sociedade civil e do poder público, e migrantes –   elaboraram um total de 68 propostas, divididas de acordo com os eixos abaixo.

1) Vistos e autorização de residência;
2) Segurança Jurídica, cidadã e técnica;
3) A Sociedade Civil na formulação das políticas migratórias
4) O Brasil e o Pacto Global das Migrações

Dentre as propostas estão três moções (ambas feitas pelo Grupo de Trabalho 1) que cobram do CNIg e do governo federal em si maior transparência sobre o processo de regulamentação da Lei de Migração:

– Que as resoluções do CNIg continuam vigentes naquilo que não contrariar o que está disposto na Lei [de Migração] e no regulamento;
– Que os subsídios enviados recebam uma devolutiva antes de a minuta ser publicada; que a minuta seja disponibilizada para consulta pública antes da publicação final do texto; e que o texto final seja discutido em audiência pública, em ao menos nos três maiores polos migratórios do país
– Que seja respeitado o Artigo 5º da Constituição, onde brasileiros e estrangeiros cumpram os pagamentos de taxas da regularização da mesma maneira.

Ao final da atividade, o presidente do CNIg, Hugo Gallo, disse esperar que o Conselho consiga fazer uma nova atividade presencial do Fórum no final do ano, com a Lei de Migração já em vigor e regulamentada. Ele afirmou ainda que as propostas apresentadas “foram de alto nível” e vão subsidiar as discussões já em curso no Executivo sobre a nova lei.

A regulamentação da Lei de Migração é motivo de expectativa e preocupação para a sociedade civil, que tem tido pouco espaço para dialogar sobre o tema com o governo – o evento do último dia 4 de agosto foi o primeiro a permitir esse contato direto desde que a lei foi sancionada, em maio passado.

O que é o Fórum de Participação Social?

O Fórum de Participação Social foi (FPS) foi instituído em 2015 pelo CNIg como espaço consultivo para sugestões, propostas à formulação de políticas migratórias no âmbito do CNIg e do Ministério do Trabalho.

O objetivo do FPS é promover e ampliar o diálogo entre o CNIg e a sociedade civil a fim de propiciar subsídios para a construção de políticas migratórias no Brasil. A partir daí, o Fórum espera:

– Oportunizar um espaço para a discussão dos temas relativos à imigração e trabalho e a formulação de demandas e propostas de políticas públicas visando a incorporação destas na agenda do CNIg;
– Favorecer a participação de migrantes e entidades na elaboração de ações e políticas públicas voltadas a este público;
– Avançar no diálogo entre atores governamentais e não governamentais envolvidos na temática migratória.

Para acompanhar as discussões do Fórum basta se cadastrar na página do Ministério do Trabalho por meio deste link. Outras informações podem ser obtidas por meio do e-mail conselho.imigracao@mte.gov.br.

 

Que a solidariedade a Mohamed se torne regra, e não exceção, a migrantes e refugiados

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Mohamed recebe homenagem da Câmara de Vereadores do Rio. Crédito: Arquivo pessoal

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

O ato em apoio ao refugiado Mohamed Ali no Rio de Janeiro ganhou repercussão nacional. Milhares de pessoas compartilharam e se solidarizaram com sua história nas redes sociais ou foram até o pequeno carrinho onde vende suas esfihas no Rio de Janeiro – até uma vaquinha online está em curso para ajudá-lo a ter seu próprio foodtruck.

Reações humanas nobres e solidárias como a que Mohamed recebeu são como brisas de ar fresco em um ambiente cada vez mais abafado por intolerância e indiferença em relação ao outro, seja ele migrante, refugiado ou qualquer outra minoria social. Provavelmente está aí pelo menos um dos motivos pelos quais o ato em apoio ao refugiado tenha tomado a repercussão que tomou: foi a exceção à “regra”.

Regra essa que dias antes causou o ato de xenofobia contra Mohamed, que atinge diretamente pessoas em todo o mundo que cometem a “ousadia” de viver em um país diferente do qual nasceu e onde são vistas como potenciais invasores e usurpadores de direitos sociais e políticos – e que nem sempre ganham o mundo do Facebook ou são registradas por telefones celulares.

Regra essa que ajudou a motivar os atos xenofóbicos e racistas ocorridos em São Paulo contra os migrantes e a Lei de Migração pouco antes de sua sanção. Regra que está bem alinhada com o contexto internacional, no qual o discurso xenofóbico, racista e segregacionista ganha espaço sem cerimônia, fazendo a humanidade retroceder décadas no tempo e no espaço – o caso de Charlottesville (EUA) é só mais um triste (e assustador) exemplo.

Se a brisa de ar fresco representada pelo ato em solidariedade a Mohamed no Rio faz tão bem, por que a sociedade insiste em manter fechadas as portas e janelas de suas consciências e não deixa o ar circular por completo? Seria uma solidariedade seletiva por conta da repercussão que o caso ganhou no Brasil? Seria só para parecer “cool” por um dia?

Mohamed recebe homenagem da Câmara de Vereadores do Rio.
Crédito: Arquivo pessoal

Por que não transformar atos de solidariedade em regra? Regra essa que, aliás, deve ser aplicada no cotidiano – na fila do supermercado, no transporte público, no ambiente de trabalho, no jogo de futebol, dentro de casa – e não apenas quando a ofensa contra um ser humano viraliza nas redes sociais.

Talvez eu esteja me fazendo perguntas demais, é verdade. Mas os questionamentos estão bem diante do nariz de cada um, embora a maioria prefira ignorar e manter sua vida cotidiana como se nada tivesse acontecido. E quanto mais ignoradas são essas questões, mais abafado fica o cômodo da sua consciência.

Que atos de solidariedade como o que beneficiaram Mohamed ajudem a abrir portas e janelas da consciência de outras pessoas sobre o que acontece no mundo e deixem de se tornar excepcionais. Que ser “humano” se torne a regra, e não a exceção.

Para começar, que Mohamed e outros migrantes e refugiados no mundo possam reconstruir suas vidas em paz. E que num futuro próximo (mesmo sendo utópico desejar isso hoje), que migrar se torne um direito, e não um ato para salvar a própria vida.

Os impasses na rota mediterrânea e o impacto sobre migrantes e refugiados

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Diariamente, milhares de pessoas se arriscam no mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. O que os espera do outro lado (quando chegam) é incerto. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Os países aprimoram a leis, erguem novos muros, criam barreiras e se fecham sobre si mesmos, deixando a população “descartável” do lado de fora

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Em Roma (Itália)

Nas últimas semanas/meses, vem mudando o cenário das migrações no mar Mediterrâneo. A rota que faz a travessia entre a Líbia e o sul da Itália vem sofrendo uma série de restrições. O governo italiano passa a controlar mais de perto a travessia dos imigrantes. Além disso, vem exigindo que as organizações não governamentais (ONGs) assinem um documento chamado “código de conduta”, submetendo-se a tais restrições. Pelo menos uma embarcação foi apreendida pelas forças legais italianas, enquanto um sacerdote foi acusado de incentivar a imigração. Além disso, algumas de tais ONGs foram inclusive acusadas de “favorecer o tráfico de imigrantes clandestinos”, segundo o noticiário de um telejornal local. Por isso, torna-se cada vez mais comum a presença de homens armados nos barcos que vão em socorro dos potenciais “imigrantes náufragos”.

Do lado da Líbia, os problemas a situação não é melhor para os que buscam um futuro mais promissor. Novos personagens entram em cena. Num país dividindo em três governos diversos e controversos, as forças policiais estão tentando bloquear a saída em massa dos imigrantes. Por uma parte, exigem que os barcos estrangeiros se mantenham cada vez mais à distância da costa daquele país; por outra, obrigou a retornar retornar algumas embarcações apinhadas de gente que procura a Europa. Quanto ao velho continente europeu, suas autoridades parecem respirar mais aliviadas. Afinal de contas, na perspectiva europeia, a Itália “está fazendo o dever de casa”.

Os resultados não se fazem esperar. A entrada de imigrantes na Itália em julho caiu quase 50% em relação a junho, e diminui mais ainda no decorrer de agosto. Estima-se que ao final de 2017 o número de imigrantes seja menor que em 2016. Retida em território líbio, a população em fuga, vinda do Sudão do Sul, Afeganistão, Guiné, Nigéria, Etiópia e Eritreia – entre ouros países – é mantida em lugares fechados e em condições extremamente precárias. Há notícias de que muitos passam dia e noite sobre as próprias fezes, outros são “oferecidos” como mão-de-obra escrava. Doenças, fome e sede se alastram, golpeando especialmente os menores e indefesos.

Convém não esquecer que a outra rota – a balcânica – também encontra-se bloqueada. Um acordo feito em 2016 entre a Europa e a Turquia mantém os imigrantes neste último país. Isso para não falar dos muros que foram levantados na Sérvia, Macedônia, Áustria, e assim por diante. A lógica parece clara: primeiro, a legislação migratória, com passaporte, visto e tudo em dia, foi sendo endurecida. Fechada a via legal, os migrantes arriscam tudo através de caminhos alternativos, pressionando as fronteiras, pelo mar (norte da África), pelo deserto (México e Estados Unidos) ou pelas florestas (Venezuela, Colômbia e Brasil). Agora, busca-se todos os meios para impedir o uso massivo desta via alternativa.

Os países aprimoram a leis, erguem novos muros, criam barreiras e se fecham sobre si mesmos, deixando a população “descartável” do lado de fora. “Descartável” é o termo utilizado seguidamente pelo Papa Francisco para referir-se aos pobres e excluídos, os quais sequer conseguem a “fortuna” de serem exploradas pelo sistema capitalista neoliberal, e assim receber dele uma pequena migalha. Mas é também a expressão usada pelo Documento de Aparecida. Literalmente: “Uma globalização sem solidariedade afeta negativamente os setores mais pobres. Já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e opressão, e sim de algo novo: a exclusão social. Com ela, fica afetada em sua própria raiz a pertença à sociedade na qual se vive, pois nesta já não se está abaixo, na periferia ou sem poder, mas se está fora. Os excluídos não são somente explorados, mas pessoas que sobram e são descartáveis” (DP, n. 65).

Entenda como funciona o processo de pedido de refúgio na União Europeia

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Monumento "Direitos Humanos" no jardim central do Conselho Europeu, em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Bloco vive maior desafio migratório de sua história desde a Segunda Guerra Mundial; no 1º semestre de 2017, 50% das decisões foram negativas às solicitações

Por Victória Brotto
de Estrasburgo (França)

Nos últimos três anos, a Europa recebeu mais de 3 milhões de pessoas fugindo de guerras, catástrofes humanitárias e perseguições políticas. É o maior fluxo migratório já visto por europeus no continente desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com o último balanço da Comissão Europeia divulgado em junho, só no biênio 2015/2016, foram 2.5 milhões de pessoas pedindo refúgio no bloco. No primeiro semestre desse ano, 164.500 novos pedidos foram feitos à União Europeia (UE). No mesmo período, outros 284.750 casos foram julgados – e metade deles, negados.

Devido a situações de catástrofes humanitárias, como as guerras na Síria, Afeganistão e Iraque, a crise na Venezuela, a violência urbana na América Central e a outras guerras civis no Norte da África, populações inteiras têm sido obrigadas a fugir de seus países para não morrerem de fome ou torturadas pelas milícias ou por bombardeios do próprio governo. Em 2016, 65,6 milhões de pessoas no planeta estiveram em fuga – destas, 1,2 milhão pediram asilo na UE.

Países como Síria, Afeganistão e Nigéria estão no topo da lista de nacionalidades requerentes de asilo no bloco europeu, com 22.500 sírios, 12.500 afegãos e 11.500 nigerianos. A maioria dos pedidos de sírios e afegãos são encaminhados para a Alemanha, e dos nigerianos para a Itália.

Os países que mais receberam pedidos de proteção internacional na UE neste ano de 2017 foram, nesta sequência:

1º – Alemanha (49 mil)
2º – Itália (36.900)
3º – França (22.000)
4º – Grécia (16.500)
5º – Reino Unido (8.400)

Pedindo refúgio na UE

Por força da Convenção de Genebra de 1951, a União Europeia segue os mesmos parâmetros internacionais para análise de pedidos de asilo e proteção de refugiados. A Convenção de Genebra estabelece que toda pessoa que tiver fugido de seu país de origem por força de perseguição política, guerra ou ofensas grave deve receber proteção especial da comunidade internacional.

Assim, em 1999, a União Europeia criou o Sistema Comum Europeu de Asilo (SECA, sigla em português) que prevê o que o bloco deve fazer em relação aos refugiados e aos requerentes de asilo em seu território.

Monumento “Direitos Humanos” no jardim central do Conselho Europeu, em Estrasburgo (França).
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

De acordo com o Direito Internacional Humanitário, refugiados são pessoas que fugiram de seu país de origem para salvar suas vidas. Os solicitantes de refúgio são pessoas que, ao chegarem a um país, iniciam um pedido formal de proteção internacional por conta da perseguição, guerra ou ofensas graves que sofreram em seu país de origem)

O processo para a solicitação é idêntico em todo o território da União Europeia. E, desde 2014, pela atualização do Regulamento de Dublin, o período para um Estado-membro tomar uma decisão não pode ultrapassar 11 meses – ou 9 para casos de repatriamento.

Assim que o migrante chega ao território europeu suas digitais são colhidas e transmitidas à base de dados da Eurodac, o data-centre europeu. Esses dados são utilizados para identificar qual país é responsável pelo pedido de asilo.

Os parâmetros para se definir qual Estado-Membro é responsável por um determinado pedido foram definidos pelo Regulamento de Dublin, em 2003. Devido ao aumento de pedidos de asilo, o Regulamento foi atualizado dez anos depois, em julho de 2013 – e entrou em vigor no dia 1º de janeiro de 2014.

Assim que o migrante vira solicitante de refúgio, ele deve receber “condições materiais de acolhimento”, como moradia e alimentação. Após ter as digitais colhidas, o requerente é convocado para uma entrevista com um assistente especializado em direito da União Europeia. Com a ajuda de um intérprete, o assistente irá analisar se a pessoa se enquadra ou não no estatuto do refugiado ou se deve ou não receber qualquer outro tipo de proteção subsidiária.

Após a entrevista, o caso segue para a corte de migração do Estado-Membro em questão, que tem até 11 meses para julgar o caso. Caso a resposta for positiva, o novo status de refugiado confere à pessoa direitos como educação, residência, acesso ao mercado de trabalho e ao sistema de saúde do país.

Se o pedido for negado em primeira instância, o requerente pode contestar no Tribunal Europeu de Direitos Humanos, em Estrasburgo (França). Se a decisão negativa de primeira instância for confirmada pelo tribunal, o requerente será expatriado para o seu país de origem.

Caso o tribunal anule a decisão negativa de primeira instância, o seu pedido de asilo é confirmado e o migrante poderá morar, trabalhar e ter acesso à educação e saúde no país.

Bandeira da UE em Berlim, Alemanha.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Regulamento de Dublin

O Regulamento de Dublin foi assinado em 2003 e atualizado, por conta do aumento do número de pedidos de asilo, em 2013. O princípio fundamental do Regulamento é encaminhar os pedidos de asilo conforme os níveis de responsabilidade de um dado Estado-Membro. Ou seja, para se determinar qual país europeu irá julgar – e abrigar – um migrante, o Parlamento Europeu juntamente com o Conselho usarão, por ordem hierárquica, os seguintes critérios: considerações de ordem familiar (se o requerente já tiver familiares morando no país), emissão recente de visto ou de uma autorização de residência ou o primeiro estado onde o requerente entrou em solo europeu.

Com a atualização do Regulamento, estabeleceu-se o tempo limite de 11 meses ( ou 9 meses em casos de requerentes presos) para a decisão final em primeira instância. Além disso, caso o juiz de primeira instância decidir pelo repatriamento, o requerente pode apelar da sentença ao Tribunal Europeu e aguardar decisão em território europeu.

Veja o passo a passo de como pedir asilo na UE

1. As impressões do requerente são recolhidas e transmitidas à base de dados da Eurodac. Esses dados são utilizados para ajudar a identificar qual país é responsável pelo pedido de asilo (Regulamento de Dublin).

2. O requerente se beneficia de condições materiais de acolhimento, a saber moradia e alimentação.

3. O requerente é convocado para uma entrevista com um assistente especializado em direito da União Europeia, com a ajuda de um intérprete afim de apurar se pode se beneficiar do estatuto do refugiado ou de proteção subsidiária.

4. A concessão do estatuto do refugiado ou de proteção subsidiária confere à pessoa direitos como residência, acesso ao mercado laboral e ao sistema de saúde.

5. Caso o pedido seja negado em primeira instância, o requerente pode contestar no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (que fica em Estrasburgo, França).

6. Se a decisão negativa de primeira instância for confirmada pelo tribunal, o requerente pode ser expatriado para o seu país de origem.

7. Caso o tribunal anule a decisão negativa da primeira instância, o requerente obtém seu direito de refugiado ou sob proteção subsidiária e acesso a direitos como residência, trabalho e sistema de saúde.