Guia de Fontes está disponível em versão impressa e também online.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Direcionada para jornalistas, a publicação também está disponível no formato online e inclui contatos úteis para pautas sobre migrações
Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)
Jornalistas e demais pesquisadores e interessados em questões humanitárias ganharam um reforço nesta semana. A organização Médicos Sem Fronteiras, que atua em crises humanitárias em todo o mundo acabou de lançar um guia de fontes importantes para quem acompanha o assunto.
A publicação, disponível tanto em formato impresso como online, conta com uma série de contatos de especialistas, organizações internacionais, grupos de pesquisa, entre outras fontes de referência. Há também um glossário com definições e informações básicas sobre termos comuns na cobertura de ações humanitárias de Direito Internacional Humanitário.
O guia teve dois eventos especiais de lançamento: no último dia 03/05 no Rio de Janeiro; e no dia seguinte, em São Paulo, no Sindicato dos Jornalistas.
Guia foi lançado no Rio de Janeiro e em São Paulo (foto). Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
“Com o guia, queremos promover e tornar mais acessível a cobertura jornalística de contextos desse tipo, que exigem uma grande mobilização internacional para salvar vidas”, aponta Claudia Antunes, coordenadora de relações com a imprensa de MSF-Brasil.
Entre os contatos disponíveis na área de migrações estão entidades como a OIM (Organização Internacional para as Migrações), ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) e as Cáritas de São Paulo e Rio de Janeiro, além de especialistas inseridos em centros de pesquisa e instituições de todo o país.
Na versão online os usuários podem ainda indicar outras fontes que ainda não constam entre as listadas para o guia, como forma de permitir uma atualização e expansão constantes do número de fontes.
Além dos contatos, a publicação conta ainda com artigos e depoimentos de especialistas e jornalistas que abordam especificidades, práticas e dilemas da assistência emergencial.
Fasasi na Nigéria, onde se formou em Artes Plásticas. Hoje vive na Itália, após ter feito a travessia pelo Mediterrâneo.
Crédito: Arquivo pessoal
Sobrevivente de travessia entre a África e a Europa, o artista plástico Fasasi Abeedeen Tunde vive na Itália e usa tal experiência como inspiração para suas obras
Uma nova arte surge entre as imperiosas ruínas de uma das maiores capitais artísticas do mundo. Roma, uma cidade que já viu tantos Michelangelos, Rafaeis, Picassos e Modiglianis se levantarem, hoje abre espaço para uma outra arte, uma nascida do outro lado de um dos mares mais sangrentos do planeta.
O artista plástico Fasasi Abeedeen Tunde, migrante nigeriano de 32 anos, expõe a sua arte na capital italiana, com esculturas sobre o que ele viu ao atravessar o Mediterrâneo em um barco, em agosto de 2015. “Apesar da viagem desesperadora [de seu país até a Itália], a minha arte salvou a minha vida”, diz Abeedeen Tunde em entrevista ao MigraMundo. O nigeriano, que usa argila, cimento e fibra de vidro para esculpir com suas mãos “cheias de vida”, teve de fugir da sua cidade natal Shaki, no estado de Oyo, no sudoeste da Nigéria, após ter a casa incendiada por um dos grupos políticos locais.
Hoje, as esculturas de Abeedeen estão expostas desde o dia 25 de abril na Casa della Cultura, em Roma, na mostra “Pittorica Amarte Roma 2017”, organizada pela associação Roma Capitale. Abeedeen chegou à Itália há dois anos, no dia 29 de agosto, mas há apenas cinco meses, no dia 26 de novembro de 2016, o seu pedido de asilo lhe foi concedido. Fasasi faz parte do seleto grupo de cerca de 520 mil migrantes que conseguiram sobreviver à viagem de barco pelo Mar Mediterrâneo em 2015. A rota Norte da África- Sul da Itália foi chamada pela ONU de “a rota mais mortal do mundo para migrantes”.
Fasasi com visitantes durante seu primeiro dia de exposição em Roma. Crédito: Arquivo pessoal
Fuga
Abeedeen Tunde é graduado em Artes Plásticas pela Universidade Politécnica de Ibadan, capital do Estado nigeriano de Oyo, e fez especialização em escultura. Fasasi conta que sempre gostou de esculpir guerreiros e lendas locais. “Eu fiz meu trabalho final de especialização, em 2013, sobre Basorun Ogunmola, um dos mais antigos guerreiros de Ibadan”. Mas a sua arte de guerreiros só durou até 2015, quando ele presenciou uma fraude durante as eleições gerais na Nigéria.
“No ano de 2014/2015, eu prestei serviço militar e nos mandaram fazer guarda em um dos pontos de votação, em Shaki, durante as eleições gerais. Quando a votação já estava para acabar, um grupo armado de um dos partidos chegou com armas e facas e roubou as urnas”, conta Fasasi. “Eu escapei levando comigo alguns documentos importantes”, acrescenta ele, que não especifica quais seriam os documentos. Mas diz, “eles souberam que os peguei e me perseguiram, incendiaram a minha casa e vieram atrás de mim e de minha família”.
Escultura em bronze feita por Fasasi na cidade natal, Shaki (Nigéria). Crédito: Arquivo pessoal
Fasasi fugiu então para a Líbia, de onde apanhou um barco para a Itália. A sua família não estava com ele, fugiu para outro lugar, que, por segurança, ele prefere não revelar. “E foi assim que a tragédia tomou conta da minha vida, queimaram minha casa, e todos tivemos que fugir, meus pais e meus irmãos”.
“A minha arte me salvou”
Assim como as mais de 520 mil naquele ano de 2015 – de acordo com dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) – Fasasi foi da Líbia até o Sul da Itália, em Messina (na ilha da Sicilia), atravessando o que o porta-voz da ACNUR, William Spindler, chamou de “rota mortal”. “Sem dúvida, a rota do Mediterrâneo do Norte da África até Itália e Grécia é ainda a rota mais mortal para os imigrantes”, afirmou ele durante conferência em Genebra, na Suíça, no fim do ano passado.
Fasasi na Nigéria, onde se formou em Artes Plásticas. Hoje vive na Itália, após ter feito a travessia pelo Mediterrâneo. Crédito: Arquivo pessoal
De acordo com os dados fornecidos pelo porta-voz, no ano em que Fasasi fez a travessia (2015), 3.771 pessoas morreram. No biênio 2015/2016, o número de mortes e desaparecimentos ultrapassavam 6 mil. Neste ano, de acordo com o ultimo relatório da ONU, foram 366 pessoas mortas nos três primeiros meses no mar Mediterrâneo – o que representa 122 mortes por mês, ou 4 por dia. “Em 2017 até fevereiro, estima-se que 326 migrantes tenham morrido durante a travessia fatal do Mediterrâneo na rota Líbia-Itália”, informou o porta-voz em Roma, Flavio di Giacomo, da Organização Internacional para as Migrações (OIM, IOM na sigla em inglês).
O nigeriano Fasasi não entra em detalhes sobre a travessia, apenas chama de “desesperada” – mas as suas esculturas falam por ele. Imagens de mulheres perdendo seus bebês para o mar, homens engolidos por um buraco negro fazem parte de seu trabalho. Em sua página no Facebook, o artista mostra alguns de seus trabalhos em argila, como a escultura de um homem sendo resgatado do mar por um guarda militar. Na descrição, Fasasi escreve em italiano: “Chegando a um lugar seguro depois de terminado o terror da fuga”.
Escultura de um homem se afogando no Mediterrâneo, feita por Fasasi. Ela está exposta hoje na Casa della Cultura, em Roma. Crédito: arquivo pessoal
Fasasi faz parte da maioria nigeriana dos sobreviventes desses barcos de morte. Segundo dados da ONU e da Cruz Vermelha, a maioria dos que sobrevivem à travessia até a Itália são da Nigéria (20%), seguidos por Eritreia (12%), Gambia e Sudão (7% cada).
“Doloroso? Claro que é doloroso. Mas a minha arte hoje é mais forte”, responde Fasasi depois de perguntado se não era doloroso demais esculpir cenas trágicas do passado. “A travessia me deu outra perspectiva de vida”, acrescenta o artista, que hora ou outra chama a fuga do seu país de “viagem desesperada”. “Apesar de minha viagem desesperada, a minha arte salvou minha vida”.
Itália
Hoje, o artista plástico mora em Roma, nas acomodações da Casa Benvenutti, uma ONG que ajuda refugiados e requerentes de asilo. Três vezes por semana, Fasasi tem aulas de italiano e nos outros dias trabalha na oficina de modelagem da ONG. Questionado qual seria a sua escultura de um futuro perfeito, o nigeriano diz: “Algo que mostrasse a vida depois da guerra”. Fasasi demorou a se adaptar à Itália, mas, como ele mesmo brinca ao final da entrevista, “no pain, no gain” (famosa expressão em inglês que significa “sem dor, sem ganho”).
Fasasi faz seu trabalho a partir da Casa Benvenutti, onde mora atualmente. Crédito: Arquivo pessoal
Hoje a Itália é um dos países que mais recebem migrantes da África, principalmente nigerianos como Fasasi Abeedeen. “O que vimos é uma tendência dessas pessoas permanecerem nos países em que chegam, principalmente na Itália”, disse o porta-voz do ACNUR em Genebra. “Os pedidos de asilo, por exemplo, praticamente dobraram na Itália no último ano em comparação com o mesmo período de 2015”, afirmou Spindler.
Ativistas, familiares e amigos aguardavam a decisão da Audiência de Custódia no Fórum Criminal Barra Funda, em São Paulo.
Crédito: Júlia Dolce/Brasil de Fato
Crédito da foto: Júlia Dolce/Brasil de Fato
Foram liberados na última quarta-feira (03) dois ativistas palestinos e dois brasileiros que haviam sido detidos na noite anterior depois de um embate contra um grupo que protestava contra a Lei de Migração na avenida Paulista, em São Paulo.
O brasileiro-palestino Hasan Zarif, o sírio de origem palestina Nour El Deen Al Sayed, e os brasileiros Roberto Antonio Gomes de Freitas e Nikolas Ereno Silva, foram detidos pela Polícia Militar sob suposta acusação de explosão, lesão corporal, associação criminosa e resistência. Nenhum deles acabou indiciado.
Zarif é dono do restaurante e centro cultural palestino Al Janiah, localizado no bairro do Bixiga, e líder do Movimento Palestina para Tod@s (MOPAT). Al Sayed, que também trabalha no Al Janiah, sofreu uma fratura no nariz após agressões na manifestação.
Os quatro detidos receberam apoio de amigos, familiares e militantes de movimentos sociais que esperavam do lado de fora do Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo.
O protesto anti-imigração
O ato, organizado pelo grupo Direita São Paulo, criticava a nova Lei de Migração, aprovada recentemente pelo Senado Federal e que atualiza o Estatuto do Estrangeiro.
De acordo com os manifestantes, os quatro detidos seriam responsáveis pelo lançamento de uma bomba caseira e de agressões contra o grupo. Apesar de diversos vídeos e fotos terem sido divulgados nas redes sociais como provas de agressão por ambos os lados, nenhum deles deixa claro quem de fato começou ou não a confusão. Ninguém do grupo anti-imigração foi detido pela polícia, que ainda foi saudada pelos manifestantes anti-imigração.
Para o grupo, a nova lei fere a soberania brasileira e deixa o país à “mercê de terroristas islâmicos”. Durante o protesto podiam ser notadas expressões de teor preconceituoso e xenófobo, como “Sem terrorismo, na minha nação, eu digo não à Lei da Migração” e “Abaixo a Lei da Migração, eu quero meu país longe da islamização”. Páginas simpáticas ao protesto qualificaram o episódio como “ato terrorista”, gerando ainda mais comentários racistas contra migrantes por parte dos seguidores.
Repúdio à xenofobia
Em verdade, o Estatuto do Estrangeiro é uma lei da época da ditadura militar e está em desacordo com a Constituição brasileira, alem de ver todo estrangeiro como uma potencial ameaça à soberania nacional; já a Lei de Migração recoloca a legislação migratória em acordo com a Constituição, além de ter o combate ao racismo e à xenofobia como um de seus objetivos.
Governos e autoridades públicas manifestaram repúdio contra todo e qualquer tipo de ato xenófobo. Em post no Facebook, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo lamentou o episódio e lembrou justamente o que está expresso na Carta Magna nacional.
Lembramos que a Constituição Federal garante os direitos dos imigrantes e sua igualdade de tratamento: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.
Além disso, segundo a Lei Federal n° 9.459/97, a prática, a indução ou incitação a discriminação por etnia, religião ou procedência nacional é crime passível de multa e reclusão de até 3 anos.
A Secretaria também informou que, por meio da Coordenação de Políticas para Migrantes e Refugiados, está acompanhando de perto as investigações sobre o ocorrido, em contato com os órgãos governamentais envolvidos na questão, para evitar outras violações de direito.
Ebenézer Oliveira (e), Juliana Armede (c) e Paulo Illes (d) durante sessão da CPI da Migração na Câmara Municipal de São Paulo,
Crédito: Naira G
Comissão teve início em fevereiro e deve se estender seus trabalhos até meados de junho; MigraMundo acompanha a comissão e vai trazer novos relatos e impressões sobre a CPI em próximas reportagens
Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)
Debater, fiscalizar e aperfeiçoar a implementação da Política Municipal para a População Imigrante de São Paulo: esse é o objetivo declarado da CPI da Migração, que está em curso atualmente na Câmara Municipal.
Regulamentada em 15 de dezembro de 2016, ainda durante a gestão de Fernando Haddad (PT) na Prefeitura de São Paulo, a Política Municipal para a População Imigrante tem como objetivo institucionalizar uma série de medidas tomadas ao longo dos últimos anos pelo poder público municipal, visando a garantia de acesso do migrante a serviços públicos e assistência social. Ela tem como princípio a igualdade de direitos e de oportunidades, com o respeito aos direitos humanos e combate a xenofobia, racismo, preconceito ou qualquer outra forma de discriminação.
Instalada em 15 de fevereiro, a comissão foi proposta pelo vereador Eduardo Suplicy (PT), que também preside os trabalhos, e deve se estender até 14 de junho, para quando é esperado o relatório final. Estão ainda na CPI: Fernando Holiday (DEM) como vice-presidente, Fabio Riva (PSDB) como relator, além dos vereadores Caio Miranda Carneiro (PSB), Edir Sales (PSD), Gilberto Nascimento (PSC) e Noemi Nonato (PR).
Até a última terça (02/05) foram cinco sessões, nas quais foram ouvidos tanto representantes das comunidades migrantes da cidade como da sociedade civil e autoridades públicas. O MigraMundo acompanhou as três últimas sessões da CPI e estará presente na próxima, marcada para 16 de maio, às 11h, no plenário da Câmara Municipal.
Relatos de ontem e de hoje
A sessão da última terça-feira contou com falas de representantes da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania: a chefe de gabinete da pasta, Juliana Armede, e o atual coordenador de políticas para imigrantes, Ebenézer Oliveira. Também falou à CPI Paulo Illes, que esteve à frente da coordenação entre maio de 2013 e março de 2016.
Ebenézer Oliveira (e), Juliana Armede (c) e Paulo Illes (d) durante sessão da CPI da Migração na Câmara Municipal de São Paulo, Crédito: Naira G
Em suas falas, Ebenézer e Juliana destacaram o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos em relação à política para migrantes, incluindo a sanção da atual política, e a presença migrante ontem e hoje na cidade de São Paulo. Citaram acontecimentos como a Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes (novembro/2013), a criação do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI), a presença de imigrantes nos Conselhos Participativos Municipais, entre outros, além da criação da própria Coordenação e da Política Municipal para a População Imigrante.
“Temos uma história de muitas lutas e de muitas vitórias. E dentro dessas lutas ainda precisamos andar muito em questões básicas de direitos sociais. Sem dúvida o município tem de estar pronto para garantir esses direitos”, destacou Juliana. Ela reforçou ainda que São Paulo é o único município no Brasil a ter uma coordenação específica de políticas para imigrantes, o que tem tem sido elogiado internacionalmente.
Na CPI também foram citadas ações futuras a serem articuladas pela Secretaria de Direitos Humanos e pela Coordenação de Políticas para Imigrantes, como a a implantação do Conselho de Imigrantes e a criação de 600 novas vagas de cursos de português em pelo menos dez bairros da cidade. Ambas estão previstas para o segundo semestre.
“O imigrante sabe melhor do que ninguém da sua realidade. E a partir desse Conselho vai haver uma nova Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes”, antecipou Ebenézer.
Segundo dados da Prefeitura citados na CPI, existem 400 mil imigrantes vivendo na cidade, de 196 nacionalidades diferentes. Entidades da sociedade civil estimam esse número em 600 mil pessoas.
Censo e comissão permanentes?
Em fala na CPI, o ex-coordenador de Políticas para Imigrantes da Prefeitura Paulo Illes também destacou o histórico de medidas criadas em benefício da população migrantes nos últimos anos. Ele também sugeriu a criação de uma comissão permanente na Câmara para acompanhar as questões relacionadas com as políticas para imigrantes.
“Na Câmara, até pelo fato dos imigrantes não votarem, esse debate acontece de forma desarticulada. Eu acredito que se for criada uma Comissão de Trabalho Mista, com a academia, imigrantes, a sociedade civil organizada e também o Executivo, será possível aumentar o orçamento para a execução das políticas para a população imigrante”.
Outra proposta que surgiu durante a sessão foi a de criação de um Censo municipal para a população migrante, por meio do qual seria possível traçar um perfil que permita nortear as políticas a serem implementadas na cidade. De acordo com Suplicy, essa ideia deve constar entre as recomendações do relatório final da comissão, a ser elaborado já em junho.
Breve histórico
Nas quatro sessões anteriores, a CPI da Migração ouviu especialistas, representantes da sociedade civil e dos próprios migrantes – processo que vai continuar nas sessões seguintes.
Entre pessoas de diferentes setores ouvidas pelo MigraMundo ao longo das últimas sessões havia o temor que uma CPI como a da Migração, em um contexto atual no qual questões como o preconceito e a xenofobia ganham cada vez mais destaque, poderia ser desvirtuada e representar retrocessos em relação às políticas implementadas na cidade.
Na grande maioria dos depoimentos dados à comissão, prevaleceram relatos do que vem sendo feito ou não na cidade no sentido de acolhimento e orientação em relação à população migrante. Também foram pontuados uma série de sugestões de aperfeiçoamento para a política atual.
O histórico de relatos sobre as sessões da CPI da Migração pode ser acompanhado no site da Câmara Municipal. Um relato completo de balanço da CPI será feito pelo MigraMundo em breve.
Apresentação do Congolinária no SESC Vila Mariana, em São Paulo (abr.2017).
Crédito: Matheus Passaro
Campanha de arrecadação busca recursos para continuidade do projeto Congolinária, que tem dado voz ao refúgio e ao veganismo por meio da culinária
Por Géssica Brandino
No Caminhos do Refúgio – link original aqui
Em São Paulo (SP)
Há sete anos em São Paulo, Pitchou Luambo já fez de tudo um pouco. Formado em direito na República Democrática do Congo, buscou refúgio em São Paulo, mas nunca conseguiu exercer a profissão. Trabalhou como operador de empilhadeira, liderou o Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto (GRIST), promovendo debates e encontros culturais para aproximar brasileiros da realidade de seu país, foi ator no teatro e cinema, contracenando no filme Era O Hotel Cambridge, de Eliane Café.
No ano passado, com o apoio de amigas veganas, Pitchou passou a cozinhar os pratos típicos de seu país. Foi aí que surgiu o Congolinária, restaurante que tem como intuito dar voz ao refúgio e veganismo. Nos primeiros meses, o empreendimento estava num food park no Itaim Bibi, porém, o local fechou as portas e foi preciso buscar um novo espaço. Já no começo desse ano, Pitchou conseguiu uma parceria com um restaurante na Vila Madalena, onde servia o cardápio do Congolinária nos almoços.
Apresentação do Congolinária no SESC Vila Mariana, em São Paulo (abr.2017). Crédito: Matheus Passaro
O projeto tem sido recebido de forma positiva pelo público e sido divulgado pela imprensa, com matérias na Folha de S. Paulo, CartaCapital e com a participação de Pitchou e a filha Marie no Programa Encontros, com Fátima Bernandes. O congolês também tem marcado presença em encontros veganos e outros eventos, nos quais tem a oportunidade de falar sobre a cultura culinária de seu país e aproximar brasileiros da realidade do refúgio no país.
A new art appears between the imperious ruins of one of the biggest artistic capitals in the world. Rome, a city that has seen so many Michelangelo’s, Rafael’s, Picassos and Modigliani’s rising, now it makes room for another type of art; an art born in one of the bloodiest sea’s in the planet, the Mediterranean Sea.
The artist Fasasi Abeedeen Tunde, 32, a Nigerian migrant, shows his art in Rome. His Sculptures are inspired by what he saw during his journey crossing the Mediterranean Sea, in August, 2015.
“Despite my desperate journey, my art saved my life”, said Tunde in an interview to MigraMundo. The Nigerian artist uses his hands to shape clay, cement and fiberglass. And the artist with these hands –“ full of life” as he says – had to run away from his hometown Shaki, in Oyo State in the Southwest region, after his house was burned down by one of the local political groups.
Today, the Tunde’s masterpieces have been displayed in Casa della Cultura, Rome, as part of the exhibition “Pittorica Amarte Roma 2017”, run by the Roma Capitale association. Tunde arrived in Italy two years ago and only late last year did his asylum petition was accepted. Tunde is part of a select group of more than 520,000 migrants that survived the mortal journey by boat through the Mediterranean Sea. The route from North Africa to South Italy was called by United Nations “the most deadly route in the world for migrants”.
Fleeing
Abeedeen Tunde is graduate of Fine Art from the Polytechnic University in Ibadan, the capital of the state. He is specialized in sculpture. Fasasi states he always liked to sculpt warriors and images of their local tales, as the famous local warrior “Basorun Ogunmola”. “I did my final project in 2013 on Bosorun Ogunmola, it was the story of the one of the oldest warriors in Ibadan.” But his ‘warrior art’ came to an end in 2015, when he saw a political fraud during the general elections.
“In the year 2014/15, I completed my National Youth service Corps. During my service, it was the 2015 general election in Nigeria. We were told to conduct the election and I was posted in my city, Shaki. On the day of the election, when voting was about to end, some men from political party came around with the bus. Some holding guns and some holding cutlass. They took away the ballot box. I escaped from polling station with some documents”, he tells.
“The armed men of the politicians are still following me as they want of kill me because I hold one important document that was consigned with the election”, he says without specifying what type of documents they are. But he adds, “They knew that I had them and that is why they came and burned my house down. My parents and my bothers also needed to run away.”
So Tunde fled to Libya, where he caught a boat to Italy. His family were not with him, they ran away to another place, which, for security reasons, he doesn’t disclose. “And that is how a whole tragedy overcame my entire life. They burned down my house and all of us had to flee.”
“My art saved my life”
More than 520,000 people also had crossed in that year – according to the UN Refugee Agency (UNHCR) – Fasasi went from Lybia to the South of Italy, in Messina, Sicily, crossing what the UNHCR spokesman, William Spindler, called “mortal route”. “Doubtlessly, the Mediterranean route from North Africa to Italy/Greece is the most mortal route for the immigrants”, said him during a press conference in Geneve, Switzerland, last year.
According to the figures given by Spindler, in the year when Fasasi crossed the sea, 2015, 3,771 migrants died. And in the 2015/2016 period, the number of deaths and missing overcomes six thousand. In this year, according to UN’s last update, 366 people already died in the Mediterranean Sea over these three first months. This means that 122 people die monthly or four migrants die per day. “To date in 2017, an estimated 326 migrants died during their deadly journey on the Mediterranenan’s central route linking Libya to Italy”, informed the International Organization for Migration (IOM) spokesman in Rome, Flavio di Giacomo.
To MigraMundo, the Nigerian Fasasi does not give much detail about his journey to Europe, but just called it as “desperate” – but instead his sculptural masterpieces speak on his behalf. On his Facebook page, the artist shows one of his works in clay, as the sculpture of a man being rescued by a police man. In the description, Tunde writes in Italian: “Getting into a safe place after the all terror of the escape had gone.”
Fasasi is part of the majority of Nigerian people who survived in these deathly boats. According to UN and Red Cross reports, the majority of those who survived from the crossing to Italy are Nigerian (20%), Eritrean (12%) and people from Gambia and Sudan (7% each).
“Painful? Of course it is painful”, answered the artist after being asked if was not too painful to sculpt tragic scenes from his past. “But my art is stronger now”, he adds. “The flight gave me another perspective of life”, he says, after calling the escape from his country “desperate journey”. “Despite my desperate journey, my art saved my life.”
Italy
Today, the artist lives in Rome, in Casa Benvenuto’s accommodation. Casa Benvenuto is a NGO that helps refugee and asylum seekers in Rome to learn Italian and to develop their abilities. Three days a week, Fasasi Abeedeen Tunde has Italian classes and the other days he works in the NGO’s artistic studio. He is asked about what would be his sculpture for a perfect future, he says: “It would be a realistic sculpture work that signified life after war.”
Tunde said to Migramundo that he took some time to adapt in Italy. “It takes time to you to relax, to refresh your mind and be alive again.” But, as he jokes at the end of the interview, “no pain, no gain”.
Today, Italy is one of the largest refugee-receivers from North Africa, especially from Nigeria, as is the case of Mr. Abeedeen. “More people arriving in Italy are staying there. As of today, asylum claims have more than doubled in Italy, in comparison to the same period last year,” he added. Over 158,000 people are currently accommodated in reception facilities in Italy”, said the UNCHR spokesman in Geneva.
Seja como trabalhadores ou consumidores, os migrantes possuem um papel importante na economia do país em que decidem recomeçar a vida
Por Debora Draghi
De Curitiba (PR)
A migração é uma transformação social, um processo dinâmico que ocorre entre um país ou local de origem e outro de destino. Contudo, na maioria da vezes a migração não é uma escolha, mas sim, uma necessidade que afeta a vida de muitas famílias, que deixam filhos e parceiros para trás passando por situações perigosas e dolorosas em busca de um futuro econômico melhor. Nesse cenário, a migração laboral é uma esperança tanto para aqueles que vão como para os que ficam. No caso dos haitianos e outros migrantes que pagaram coiotes para chegarem até o Brasil, o valor pago é imenso para que se tenha a oportunidade de conseguir um trabalho.
A ideia de que migrantes não possuem qualificações não deveria existir mais, pois eles trazem consigo habilidades e conhecimento. Ao contrário do que se pensa, as pessoas que mudam de país com o intuito de trabalhar não tiram os empregos de cidadãos nacionais, mas acabam contribuindo tanto com o país de origem como para o país de destino: para o primeiro através de remessas, e para o segundo que ganha com desenvolvimento, multiculturalidade e diversidade. As remessas acabam reduzindo os riscos nos países de origem, pois quem recebe encontra-se em uma situação melhor financeiramente.
Entretanto, de certa forma os Estados querem que a migração aconteça e desse modo, tentam selecionar os migrantes, regulando suas preferências através de políticas voltadas para determinados grupos: enquanto os migrantes altamente qualificados são encorajados a mudar de país, aqueles que não possuem tanta experiência acabam sendo excluídos de um sistema que procura deixar de fora cada vez mais os que são vistos como um incômodo. Precisa-se, sim, de migrantes em diferentes setores de trabalho, e não apenas os mais qualificados. Em meio a isso, os grupos mais vulneráveis, como trabalhadores sem documentação, mulheres e minorias étnicas e raciais são os grupos que sofrem maior risco de exploração.
A questão laboral é um dos principais motivos que levam as pessoas a migrarem de um país para o outro. Crédito: Marcello Casal Jr/ABr
Pensar que os migrantes internacionais tem direitos diferentes de cidadãos nacionais é uma maneira de exclusão. Eles precisam de uma proteção social que garanta seus direitos, pois muitas vezes o trabalho realizado é visto como “flexível” e quando não possuem um status “regular”, seus patrões utilizam-se dessas condições para fazer ameaças ou obter controle da situação. Em casos mais graves, os patrões de trabalhadores estrangeiros retém seus passaportes para que a fuga de seus empregados não aconteça e a exploração continue até que o prazo do contrato termine. No Brasil, muitos casos assim ocorreram com bolivianos, paraguaios e peruanos impedidos de saírem do país, e mais comumente, com cidadãos do sudeste asiático em países do Golfo Pérsico.
Assim, trabalhar de forma irregular é muito arriscado. Quanto mais o governo de um país restringe as leis e torna-as mais difíceis para os estrangeiros, mais a precariedade do trabalho aumenta. Trabalhos com condições insalubres não dependem apenas dos empregadores, mas sim, de um compromisso conjunto entre esses e as leis de imigração de um país. Em muitos casos, quando a legislação não protege os trabalhadores internacionais, corre-se o risco de que esses sejam explorados. Para que isso aconteça, geralmente há uma combinação de fatores como a falta de reconhecimento das qualificações, pouca fluência do idioma local, preconceito ou falta de documentos. Desse modo, políticas diferentes levam à segregação, enquanto que políticas iguais para todos permitem que os migrantes interajam com o resto da população e possam se integrar. A discriminação acaba afetando a integração dos imigrantes no mercado de trabalho e tende a aumentar na medida em que o grupo de imigrantes cresce.
Aqueles que oferecem um trabalho irregular para estrangeiros possuem um domínio sobre essas pessoas que não possuiriam sobre cidadãos nacionais. De certo modo, quando não existe uma proteção e garantia de direitos para estrangeiros, é apenas uma maneira de assegurar que certos empregos serão destinados à pessoas de fora do país. A curto prazo, muitos migrantes estão dispostos a trabalhar com salários baixos e condições inseguras, sendo muitas vezes mais qualificados do que o necessário para determinada posição laboral. Contudo, essas circunstâncias podem ser exatamente aquilo que é procurado pelos empregadores. (Anderson, 2010, p 313).
A migração dá a oportunidade para imigrantes econômicos de melhorarem suas qualificações e obterem melhores salários. Aumentar e facilitar a mobilidade de trabalhadores estrangeiros é uma maneira de melhorar a alocação de recursos e capitais, trazendo novas ideias, conhecimentos e diversidade, pois muitas vezes isso funciona como um complemento, preenchendo vagas que não são ocupadas por cidadãos nacionais por falta de qualificação, ou no sentido de realizarem trabalhos domésticos para que os patrões possam trabalhar fora de casa, por exemplo.
Seja como trabalhadores ou consumidores, os migrantes possuem um papel importante na economia do país em que decidem recomeçar a vida. A migração é uma estratégia para um meio de vida e os migrantes atuam como agentes do desenvolvimento. Providenciar trabalhos para eles é uma maneira de que sejam integrados na sociedade mais facilmente, não sendo apenas um passo a mais na vida financeira desses, mas também na social. É um modo de transformar um desafio em uma grande oportunidade.
Debora Draghi é internacionalista e Mestre em Migração e Etnia pela Universidade de Amsterdam. Realizou pesquisa com imigrantes sem documentação no mercado de trabalho holandês e refugiados sírios no Brasil. Durante a estada na Holanda, percebeu as dificuldades no processo de integração e presenciou a recepção e estrutura para refugiados da África e Ásia. Participa atualmente no Projeto Linyon em Curitiba (PR)
Referências:
Bridget Anderson, Migration, immigration controls and the fashioning of precarious workers ( Oxford: BSA Publications Ltd® Volume 24(2): 300–317)
Stephen Castles, Hein De Haas e Mark J. Miller, The age of migration: International Population Movements in the Modern World. (New York: Palgrave Macmillan, 2014)
Juventus e Portuguesa fazem o "Dérbi dos Imigrantes" na rua Javari (mar.2017).
Crédito: Ale Vianna/ Divulgação C.A. Juventus
Mais que times de futebol tradicionais de São Paulo, Portuguesa e Juventus carregam consigo parte das histórias de ontem e de hoje das migrações que ajudaram a formar a cidade
Por Jorge Monteiro
Colaboração de Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP) Atualizado em 25/08/2017, às 12h20
Você sabia que a cidade de São Paulo tem um jogo conhecido como “Dérbi dos Imigrantes”? Assim é apelidado o embate entre Juventus e Portuguesa, que voltam a se enfrentar na Rua Javari, no próximo domingo (27/08), pela Copa Paulista.
Mas por que esse nome? Os dois clubes representam duas das maiores colônias de imigrantes e descendentes da capital: o Juventus (italianos) e a Portuguesa (portugueses). Embora não seja tão conhecida como de outros clássicos entre times de São Paulo, sua história é importante para o futebol paulista e ainda ajuda a conhecer um pouco das comunidades de onde tiveram origem.
De Cotonifício Rodolfo Crespi para Juventus
O Clube Atlético Juventus nasceu da fusão de dois times de várzea do bairro da Mooca, então tradicional reduto da comunidade italiana em São Paulo, o Extra São Paulo e o Cavalheiro Crespi F.C, em 20 de abril de 1924. Os dois times eram formados por funcionários do Cotonifício Rodolfo Crespi, empresa de algodão da família italiana Crespi, e que tinha o empresário italiano Rodolfo Crespi como grande entusiasta. Foi ele quem cedeu o terreno na rua Javari onde até hoje fica o estádio do clube.
Em seus primeiros anos de existência, o time atuou com o nome de Cotonifício Rodolfo Crespi. A mudança para o nome atual veio em 1930, depois de uma viagem de Rodolfo Crespi para a Itália, na qual se encantou pela Juventus de Turim. Mas as cores do clube, o grená e o branco, homenageiam outro clube da cidade italiana, o Torino, grande rival da Juventus.
Lusa e as fusões
No dia 14 de agosto de 1920 surgiu a Associação Portuguesa de Esportes após a fusão de cinco times representantes da colônia portuguesa: Luzíadas Futebol Club, Associação 5 de Outubro, Esporte Club Lusitano, Associação Atlética Marquês de Pombal e Portugal Marinhense. A data da fundação não foi escolhida por acaso, pois é quando se comemora em Portugal a vitória das tropas portuguesas contra o reino de Castela na batalha de Aljubarrota (1385), que permitiu a afirmação de Portugal à época como reino independente.
O pedido de filiação para a Portuguesa jogar em campeonatos profissionais foi aceito no dia 02 de setembro daquele ano. Mas como não havia mais tempo de se inscrever no Campeonato Paulista, ela se juntou ao time do Mackenzie, mudando o nome do clube para Portuguesa-Mackenzie.
Essa fusão durou até 1923, quando retomou o nome original. Em 1940 o time muda novamente, desta vez para o que permanece até hoje, a Associação Portuguesa de Desportos.
Torcida da Lusa durante jogo contra o Juventus no Canindé (fev.2016). Crédito: Dorival Rosa/Portuguesa
Dérbi começou em 1930
O primeiro duelo entre Portuguesa e Juventus aconteceu em 18 de maio de 1930, no qual a Portuguesa venceu por 2 a 1. Em um dos embates mais marcantes, na final do Torneio Relâmpago do Pacaembu (que marcava os festejos da inauguração do estádio do Pacaembu, em 1940), quem levou a melhor foi o Juventus, que venceu facilmente a partida por 3 a 0. Mais de 50 mil pessoas aplaudiram a equipe juventina nesse jogo, que até hoje foi a única decisão entre as duas equipes.
Outro jogo marcante do dérbi foi na inauguração oficial do estádio do Canindé, quando a Portuguesa se tornou proprietária. O dia foi 9 de dezembro de 1956 e a vitória foi da Lusa por 2 a 0.
Desde então em 117 jogos a Lusa teve 63 vitórias, com 25 vitórias do Moleque Travesso (apelido do Juventus) e 29 empates.
Times em baixa
Tanto a Portuguesa como o Juventus atualmente estão distantes dos dias de glória, disputando a segunda divisão do Campeonato Paulista (conhecida como Série A-2). Vice-campeã brasileira em 1996, a Lusa vem amargando campanhas ruins nos últimos anos que levaram o time à Série D do Brasileirão e Série A-2 no Campeonato Paulista, de onde quase foi novamente rebaixada neste ano.
O Juventus também está há um bom tempo afastado da elite do futebol e sem grandes possibilidades de fazer jus ao apelido de Moleque Travesso (quando surpreendia os grandes times de São Paulo). Sua última vez na elite do Paulista foi em 2004 e chegou a cair para a terceira divisão estadual. Voltou para a A-2 em 2016 e permanecerá por lá em 2018, junto com a Lusa.
Juventus e Portuguesa se enfrentam pela Série A-2 do Paulista. Crédito: Ale Vianna/ Divulgação C.A. Juventus
Para Henrique Ferraz, torcedor do Juventus, o dérbi é atualmente marcado pelo momento ruim que ambos vivem no futebol. “Nos dias atuais o jogo ganhou uma conotação mais nivelada por conta das dificuldades enfrentadas pelos times por consecutivos rebaixamentos”.
Atualmente o Juventus se personificou como o time que agrada fãs de outros times pela sua característica peculiar de “time de bairro”. “Há uma identificação com o Juventus de amantes do futebol que não se identificam com o que se chama de ‘futebol moderno’, com a construção de arenas e o crescimento do entretenimento midiático e buscam algo mais enraizado”, explica o fã juventino Henrique Ferraz.
O torcedor da Lusa Everton Calício ressalta a importância da Portuguesa como instituição para os imigrantes portugueses, mas lamenta o abandono dos mesmos com o clube. “A Lusa é a mais importante instituição portuguesa na cidade de São Paulo, tanto que lá se realiza a maior festa da comunidade em São Paulo (a adega da Lusa, sempre no segundo sábado do mês), mas a colônia abandonou o clube com as sucessivas quedas do time”.
O futebol e povos migrantes de hoje
“Sou neta de imigrantes portugueses e italianos, em jogo entre Portuguesa e Juventus é dia de fazer antropologia de botequim: observar as características de cada lado, as poucas diferenças e outro tanto de coisas em comum, sobretudo a passionalidade (…). Há um lado bonito e outro bastante sombrio, com “viúvas do fascismo” de ambos os lados, que aproveitam pra descarregar seu rancor nos alambrados… Felizmente esses já são poucos”, conta Rachel Maimone Tiago, torcedora da Lusa.
De fato o futebol pode acirrar ânimos e ser motivo para hostilidades entre diferentes povos, mas também pode ser muito bem usado como ferramenta de integração. E experiências recentes envolvendo os dois times – assim como outros mundo afora – mostram que isso é possível.
“Quanto às imigrações acho que o ‘dérbi’ serve para reforçar, em tempos de ódio e xenofobia, que no Brasil, em algum momento de sua história, os “refugiados” eram nossos antepassados. Daí a importância de valorizar o ser humano independente da origem, condição social ou torcida…”, reforça Rachel.
Recentemente a Portuguesa fez uma parceria com o Instituto Adus, especializado na acolhida e orientação de refugiados que vivem em São Paulo, que permitiu que refugiados pudesses acompanhar os jogos do time no Canindé. Tais fatos são lembrados por Rachel como forma de mostrar que a Portuguesa já vai além dos limites da colônia lusitana. “Nossas arquibancadas já recebem novos torcedores: crianças bolivianas que vivem no entorno e adotaram a Lusa como clube do coração. A Lusa não é só dos portugueses, ela é de todos!”
Cartazes no FSMM 2016 pedem aprovação da nova Lei de Migração, e revogação do Estatuto do Estrangeiro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - 10.jul.2016
Documento contou com apoio de movimentos de todo o Brasil, ligados diretamente ou não à temática migratória
Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP) Atualizada às 00h07 de 16/05/17
Associações de todo o Brasil e do exterior que atuam em favor dos direitos humanos entregaram na última segunda-feira (15) uma atualização da carta ao presidente da República, Michel Temer, pedindo a sanção da nova Lei de Migração.
A primeira versão do documento, divulgada em 28 de abril, foi assinada por 109 entidades e chegou a 151 adesões depois que ele foi aberto para novos apoios.
A nova Lei de Migração foi aprovada no último dia 18 de abril pelo Senado Federal, depois de ter passado também pela Câmara dos Deputados. Ela revoga o Estatuto do Estrangeiro, em vigor desde 1980 e que está em desacordo com a Constituição atual, além de carregar o paradigma de que qualquer não brasileiro era visto como uma potencial ameaça à soberania nacional.
Fruto de um esforço suprapartidário e de uma articulação intensa da sociedade civil, a Lei de Migração reconhece o migrante, independente de sua nacionalidade, como um sujeito de direitos, e estabelece o combate à xenofobia e a não-discriminação como princípios da política migratória brasileira. Também reconhece a contribuição histórica e contemporânea dos migrantes para o desenvolvimento econômico e cultural do Brasil, tanto no passado como no presente.
Outra mudança importante da nova lei é a inclusão em seu escopo dos cidadãos brasileiros que moram no exterior, que não são assistidos pelo atual Estatuto do Estrangeiro.
Nova Lei de Migração revoga o Estatuto do Estrangeiro e reconhece o migrante como sujeito de direitos, ficando de acordo com a Constituição. Crédito: Missão Paz
Apesar do avanço que a proposta representa no cenário nacional e internacional em defesa dos direitos humanos, a nova Lei de Migração tem sido alvo de constantes ataques e de boatos que circulam nas redes sociais – o próprio MigraMundo, por exemplo, tem recebido comentários xenófobos, discriminatórios e ofensivos tanto no site como na página no Facebook.
Leia abaixo a íntegra da carta à Presidência e as instituições que já assinaram:
MOÇÃO PELA SANÇÃO INTEGRAL DA NOVA LEI DE MIGRAÇÃO
As entidades da sociedade civil e demais órgãos que firmam o presente documento, vem manifestar a Vossa Excelência, total apoio e o pedido de sanção do Projeto de Lei do Senado – PLS no 288, de 2013 (no 2.516/13 na Câmara dos Deputados), que institui a Lei de Migração.
Além de revogar o superado e defasado Estatuto do Estrangeiro (Lei no 6815/1980), legado pela ditadura militar, a Lei de Migração contempla valiosa adequação à Constituição Federal de 1988, orientando-se pelo princípio da igualdade e não discriminação, caráter essencial para a salvaguarda dos direitos humanos, patamar básico para o respeito à dignidade de toda a pessoa humana. A nova Lei de Migração sintoniza o sistema brasileiro com conceitos de sociedade acolhedora, justa e solidária.
Além de melhor corresponder à história de formação do povo brasileiro, a nova Lei moderniza o sistema de recepção e registro das pessoas migrantes, implementa o cumprimento de obrigações internacionais do Brasil, contemplando pela primeira vez na legislação do País o tema da Apatridia, trata disposições da maior importância e sensibilidade em relação a crianças desacompanhadas e prevê disposições voltadas à proteção dos direitos dos brasileiros que vivem exterior. Estabelece, ainda, institutos importantes, como a acolhida humanitária e procedimentos efetivos para a regularização migratória, tratando-se de uma legislação que coloca o Brasil na vanguarda do tratamento desta questão no mundo.
Importante destacar, Senhor Presidente, que o texto que ora chega a Vossa Excelência é resultado de um processo marcado por debate aberto, intenso e participativo desenvolvido nas duas casas do Congresso Nacional, com a participação das inúmeras representações da sociedade civil, de órgãos de governo, de instituições e agremiações diversas e da participação de partidos das diferentes visões políticas. Neste percurso, permita-nos sublinhar, o projeto de lei considerou diversas consultas públicas e ampla participação envolvendo todos os setores da sociedade e do poder público que guardam pertinência com a matéria.
Várias instâncias do Governo Federal (com destaque para a Polícia Federal e para os Ministérios da Justiça, Trabalho e Emprego e das Relações Exteriores) dialogaram, nas diversas fases do processo legislativo, tanto com parlamentares quanto com representantes de Estados e Municípios, de organizações da sociedade civil, acadêmicos, associações de migrantes, comunidades de brasileiros no exterior e com representantes do setor privado. Não há dúvida, portanto, de que, o projeto da nova Lei de Migração resultou de um processo significativamente democrático que o faz merecedor de aprovação em sua totalidade, sem retrocessos, para, a seguir, avançar para a regulamentação.
Muito convictos e confiantes, os signatários expressam a Vossa Excelência que o encaminhamento esperado por todos os atores que participaram do desenvolvimento do PLS 288, de 2013 corresponde à sua pronta sanção sem que haja descaracterização do texto nos seus vários dispositivos que tornam a nova Lei um avanço na mudança ao paradigma dos direitos humanos, selando, assim, um novo marco na causa das migrações em nosso País.
Atenciosamente,
1. ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
2. Agenda Pública
3. AILAC – Associação para a Integração dos Latinos Americanos em Curitiba
4. APP Cívico
5. ASBRAD – Associação Brasileira de Defesa da Mulher da Infância e da Juventude
6. Associação Cultural Cachola de Denuncia – Santa Catarina
7. Bibliaspa – Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul-Países Árabes-África
8. CAMI – Centro de Apoio e Pastoral do Migrante
9. Cáritas Arquidiocesana de São Paulo
10. Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro
11. Cáritas Brasileira
12. Cáritas Brasileira Regional Paraná
13. Cátedra Sérgio Vieira de Melo/UFRR
14. CCB – Conferência dos Capuchinos do Brasil
15. CDHIC – Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante
16. CEAMIG – Centro de Atendimento ao Migrante de Curitiba
17. CEM – Centro de Estudos Migratórios
18. CEMI – Centro de Migrações Internacionais / IFCH, Unicamp
19. Centro Bournier Fé e Justiça
20. Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennes
21. Centro de Pastoral para Migrantes (Cuiabá/MT)
22. Centro Zanmi – Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados
23. CERMA – Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas do Paraná
24. CFFB – Conferencia da Família Franciscana do Brasil
25. CIBAI – Associação Scalabrini ao Serviço dos Migrantes
26. CIMI – Conselho Indigenista Missionário
27. CMDH – Centro de Migrações e Direitos Humanos
28. CNLB – Conselho Nacional do Laicato do Brasil
29. CODHES – Consultoría para los Derechos Humanos y el Desplazamiebto Forzado
30. Coletivo Bambuo – Brasília
31. Coletivo Rede Migração Rio
32. Coletivo Yana Willqa
33. Comissão Pastoral da Terra/ MT
34. Comissão Pastoral da Terra/RR
35. Comitê Migrações e Deslocamentos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
36. Conectas Direitos Humanos
37. Conferência dos Religiosos de Roraima
38. Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP/PR)
39. Coordinadora de Abogados del Paraguay
40. CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil – Regional DF, Formosa/GO, Luziânia/GO
41. Departamento de Ciências da Religião da PUC/SP
42. Departamento de Sociologia da PUC/SP
43. Diocese de Roraima
44. Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas
45. ESF – Espaçio Sin Fronteras
46. FACC – Faculdade de Administração de Ciências Contábeis da UFMT
47. Faculdade de Ciências Sociais – PUC-SP
48. FEC – Fundación Ecumenica de Cuyo
49. Fórum de Direitos Humanos e da Terra
50. Fundación Avina
51. GEIFRON – Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre Fronteiras da UFRR
52. GEMA – Grupo de Estudos Migratórios na Amazônia, UFAM
53. GEPOP – Grupo de Estudos em Espaço e População (Departamento de Geografia da UFRJ)
54. Grupo de Estudos de Antropologia Crítica da Unipampa
55. Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública – EACH/USP
56. Grupo de Pesquisa Políticas Públicas, Direitos e Democracia – Unisinos
57. CAEBE – Centro de Apoio ao Estrangeiro no Brasil e Exterior
58. Grupo de Trabalho Migrações Internacionais da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais)
59. Haiti Aqui
60. IMDH – Instituto Migrações e Direitos Humanos
61. Instituto Ethos
62. Instituto Igarapé
63. Instituto Planeta América Latina
64. International Centre for Migration Policy Development
65. JUFRA – Juventude Franciscana
66. LEM – Laboratório de Estudos Migratórios da UFSCar
67. Migracult – Grupo de estudos de Migração, Comunicação e Cultura
68. Universidade Católica de Brasília
69. Missão Paz
70. Missão Scalabriniana
71. Missionárias Seculares Scalabrinianas
72. Missionários de Consolata
73. Mujeres Sin Fronteras
74. NACI – Núcleo de Antropologia e Cidadania (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, UFRGS)
75. Movimento Puraké
76. NIEM – Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios
77. Observatório das Migrações em São
Paulo (Núcleo de Estudos de População Elza Berquó, UNICAMP)
78. OIPP – Observatório Interdisciplinar de Politicas Públicas da USP
79. OIT – Escritório da Organização Internacional do Trabalho no Brasil
80. Open Knowledge Brasil
81. OSAMB – Organização de suporte das Atividades dos Migrantes no Brasil
82. PAL – Presença da América Latina
83. Pastorais Sociais da Diocese de Roraima
84. Pastoral da Criança
85. Pastoral da Mobilidade Humana da Diocese de Corumbá/MS
86. Pastoral de Migraciones de Neuquen
87. Pastoral do Migrante – Arquidiocese de Curitiba
88. Pastoral do Migrante da arquidiocese de Manaus
89. Pastoral do Migrante da Arquidiocese do Rio de Janeiro
90. Pastoral SOS Migrantes – Regional Sul 2/Paraná
91. Pastoral Universitária
92. PROANDES – Programa Andino para la Dignidad Humana
93. Projeto “O planeta é um só”
94. Projeto Migração da Faculdade de Direito da USP
95. Recanto Franciscano Paz e Bem Em Curitiba
96. Rede Scalabriniana de Comunicação
97. Rede Um Grito Pela Vida – RR
98. Religiosas Missionárias de Nossa Senhora das Dores
99. Repórter Brasil
100. Revista Travessia
101. SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
102. Secretaria do Grito dos Excluídos
103. SEFRAS – Serviço Franciscano de Solidariedade
104. SESDUF/RR – Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Roraima
105. SIGNIS Brasil – Associação Católica de Comunicação
106. SIMN – Scalabrini Internacional Migration Network
107. Sindicato dos Psicólogos do Paraná
108. SINTEP – Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público
109. SPM – Serviço Pastoral dos Migrantes
110. Academia Brasileira de Ciência (ABC)/Presidência
111. África do Coração
112.. Arquidiocese de Porto Alegre
113. ASAV – Associação Antônio Vieira/Programa Brasileiro de Reassentamento Solidário de Refugiados – Porto Alegre (RS)
114. Associação Palotina (sede São Paulo)
115. Casa Brasil-Holanda
116. CEDPIR – Centro de Estudos de Direito e Política de Imigração e Refúgio
117. Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios de Brasília
118. Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça – SC
119. Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais
120. Costura Solidária SP
121. Design Possível
122. FPMH – Fórum Permanente de Mobilidade Humana de Porto Alegre/RS.
123. Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas
124. Fundação Casa de Rui Barbosa
125. GAPP – Grupo de Apoio ao Protesto Popular
126. GEIROSC – Grupo de Estudos sobre Imigrações para a Região Oeste de Santa Catarina (Chapecó/SC)
127. Grupo de Apoio a Imigrantes e Refugiados em Florianópolis e Região (GAIRF)
128. Grupo de Estudo e Pesquisa em História Oral e Memória (GEPHOM/USP)
129. Grupo Folclórico Kantuta Bolivia
130. IKMR – I Know My Rights
131. ISER – Instituto de Estudos da Religião
132. Lakitas Sinchi Warmis
133. Migraflix
134. MigraMundo
135. Movimento Humanista Internacional
136. Movimento Palestina para Tod@s
137. MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
138. Nós, mulheres da periferia
139. OBMinas – Observatório de Migração Internacional do Estado de Minas Gerais
140. Observatório das Migrações de Santa Catarina – UDESC
141. Organismo Internacional Convergência das Culturas
142. Missionários de São Carlos – Scalabrinianos
143. Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Deslocados Ambientais (NEPDA/UEPB)
144. Pastoral do Migrante – Arquidiocese de Florianópolis
145. Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Brasília
146. Rede de Apoio ao Imigrante – Guarulhos
147. RESAMA – Rede Sul-Americana para as Migrações Ambientais
148. Serviço Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Porto Velho/RO
Gustavo Masías, do Peru, tem ateliê no Rio de Janeiro onde dá aulas de desenho, mas também se dedica a trabalhos autorais. Ele também fala sobre a experiência de ser migrante
Por Glória Branco
Do Rio de Janeiro (RJ)
Aos 16 anos, um jovem peruano chega ao Rio de Janeiro para encontrar o tio artista plástico. Em busca de uma nova vida longe do fujimorismo*, trabalhou com o tio em um estúdio no centro carioca – onde, além de criarem, davam aulas de desenho. Aos finais de semana expunham as obras em feiras de artes e assim ganhavam a vida como migrantes do Peru. Os anos se passaram e ele aprendeu tudo que pode sobre arte e hoje pode dizer que é um privilegiado artista, especialista em retratos a lápis, que transmitem encanto e emoção, trabalhando em seu ateliê montado em sua casa na capital fluminense.
Gustavo dá aulas de desenho e também se dedica a trabalhos autorais. Crédito: Gustavo Masías
Gustavo Masías, hoje com 38 anos e pai de dois filhos, encontrou no Brasil uma familiaridade que o fez se adaptar mais facilmente ao país. Foi aqui que conheceu sua esposa, uma pernambucana que o ajuda na administração de sua carreira artística e no contato com os clientes. Foi por ela que entre 2005 e 2007, Gustavo morou em Recife e lá também pode aprender mais sobre desenho e arte. Quando retornou ao Rio de Janeiro tinha convicção que queria passar mais tempo com os filhos, por isso decidiu trabalhar de casa. Assim Gustavo também ajuda na educação das crianças e na rotina doméstica, e afirma valorizar muito mais o dia a dia das mulheres.
Gustavo relata que sua experiência como migrante o ajuda a valorizar ainda mais seu país e também a entender melhor seus problemas. Foi na base de conversas e reflexões com outros migrantes peruanos no Brasil e em outras partes do mundo que surgiu a ideia de criar um podcast de nome provisório “Fora de Casa”. O programa, que ainda está em fase de ajustes, se propõe a debater temas pertinentes aos peruanos fora de seu país e a repensar questões políticas e sociais de um país que recentemente passou por um desastre natural de grandes proporções.
Mas não é só o Peru que passa pela avaliação de Gustavo. Com seu olhar migrante, o artista também enxerga com olhar critico o Brasil e sua atual crise econômica e política, e reconhece que os migrantes e refugiados podem muito ajudar o país na busca por novas soluções. Mas atesta pelo tempo que está no Brasil que ainda há uma resistência ao estrangeiro e em seu campo de atuação identifica que os brasileiros valorizam mais a figura do artista do que sua obra, numa “adoração” à pessoa em detrimento de seu trabalho de criação.
Por isso, Gustavo encontrou a oportunidade de desenvolver uma carreia mais comercial e nas redes sociais focou seu campo de contato artístico e divulgação. Gustavo também oferece aulas de desenho e nas horas vagas se dedica a criação mais abstrata e autoral. Ele se diz privilegiado por ser um artista em terras brasileiras e garante que é feliz e apaixonado pelo que faz.
Gustavo se diz privilegiado por ser um artista em terras brasileiras e garante que é feliz e apaixonado pelo que faz. Crédito: Gustavo Masías
Atualmente, sua mãe também mora no Rio de Janeiro assim como sua irmã, professora de espanhol. A família faz questão de ensinar as crianças, um menino de 12 anos e uma garota de 9 anos, a valorizar, amar e respeitar suas raízes peruanas, assim como a admirar e estimar a cultura e as tradições brasileiras. “A alegria e a simpatia do povo brasileiro são um forte atrativo do país e deve ser sempre enaltecido”.
*Fujimorismo é um movimento político peruano baseado na figura de Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000.
Glória Branco é jornalista com especializações em marketing e Relações Internacionais. É diretora da La Gringa Comunicação e, além do MigraMundo, atua como voluntária no Coletivo Maria (que defende causas feministas).