No Acre, a ONG Conectas tem denunciado a situação precária dos campos de refugiados ocupados por haitianos. Ou seja, uma realidade que até pouco tempo parecia restrita apenas a regiões de conflito também acontece em pleno território nacional – ainda que negligenciada pela mídia e pelo poder público.
Saber o que se passa em um campo de refugiados é fundamental para entender, se posicionar e cobrar uma solução imediata para a questão. E uma boa oportunidade para tal é a exposição “Campo de Refugiados no Coração da Cidade”, organizada pela entidade internacional Médicos Sem Fronteiras. O evento acontece de 6 a 15 de setembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
O evento convida o visitante a vivenciar o universo de um campo de refugiados e conhecer o trabalho humanitário realizado nesses contextos durante visitas guiadas pelos profissionais da MSF. Segundo dados da organização, cerca de 15,4 milhões de refugiados e 28,8 milhões de deslocados estão nessa situação em todo o mundo.
Não é a primeira vez que uma organização convida o mundo a se colocar no lugar de um refugiado. Em 2012, a ACNUR lançou um aplicativo para smartphones no qual convida o usuário a tomar decisões que um refugiado se vê vive – e que podem ser a diferença entre a vida e a morte.
Serviço: Exposição “Campo de Refugiados no Coração da Cidade” Data: De 6 a 15 de setembro, das 10 às 17 horas Local: Arena de Eventos do Parque do Ibirapuera
Avenida Pedro Álvares Cabral, portão 3 ou 10
São Paulo (SP)
Mais informações na página do evento no site da MSF
O Fórum Social pelos Direitos Humanos e Integração dos Migrantes no Brasil, articulação que desde 2011 agrega entidades, movimentos sociais e redes no Brasil que tenham como pauta a defesa dos imigrantes enquanto sujeitos de direitos, realizará em conjunto com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo uma Audiência Pública com o tema “Acesso à Cidadania, Direitos Civis e Participação Política dos Imigrantes”.
O evento ocorrerá dia 22 de Agosto de 2013, às 17:30hs, na Câmara Municipal de São Paulo (sala Prestes Maia/Plenarinho – 1º andar). É esperada a participação de lideranças das comunidades de imigrantes residentes em vários bairros de São Paulo.
A Audiência foi proposta pelo Fórum, num num contexto de reivindicação dos direitos humanos e o acesso a cidadania plena dos imigrantes no Brasil, em contestação a atual vulnerabilidade que vivem a maioria dos imigrantes na cidade de São Paulo. Um exemplo foi o assassinato do menino Brayan, boliviano, de apenas 5 anos, cuja família foi alvo de roubo e sequestro dia 28 de junho, na Zona Leste de São Paulo. Desde esta data, ocorreram vários protestos da comunidade de imigrante, exigindo respeitos e mudanças nas políticas públicas.
Por outro lado, a Audiência ocorre também em preparação da I Conferência de Políticas para Migrantes que será promovida em novembro próximo, pela Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania e Coordenação de Políticas para Migrantes da Prefeitura de São Paulo. Em março de 2014 ocorrerá a I Conferência Nacional de Migração e Refúgio, organizada pelo Ministério da Justiça. As organizações que compõe o Fórum pretendem incidir ativamente em ambos os espaços, já que as condições de vida dos imigrantes e seu acesso dos aos direitos básicos de cidadania guardam estreita relação com tais políticas. A legislação migratória brasileira, do tempo da ditadura militar, que depende de uma completa reformulação, é outra preocupação do Fórum.
Data: 22 de agosto de 2013, às 17:30hs
Local: Câmara Municipal de São Paulo – Salão Prestes Maia (1º andar) – Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista, São Paulo/SP
Convidados: autoridades do Governo Federal, Estatal, Municipal e imigrantes
O que você faria se, aos dez anos de idade, se visse abandonado em um país estranho e obrigado a lutar pela própria vida? Foi o que aconteceu com o jovem afegão Enaiatollah Akbari, que teve seu emocionante e envolvente relato transposto pelo jornalista italiano Fabio Geda no livro “Existem Crocodilos no Mar“. A obra virou best-seller, passou mais de um ano na lista dos mais vendidos na Itália e ganhou edições em 31 países, incluindo o Brasil. Está prevista ainda uma adaptação para o cinema.
De etnia Hazara, Enaiat teve de deixar o Afeganistão para fugir da perseguição da milícia Taleban. No Paquistão, em uma atitude extrema de sua mãe, foi deixado em um hotel com a esperança de que, sem ela, o menino tivesse alguma chance de sobreviver. É com esse peso que Enaiat começa uma jornada que passará ainda por Irã, Turquia, Grécia e Itália, onde enfim conseguiu um lar e asilo político. Lá também encontrou o jornalista italiano que se interessou e ouviu sua história, transformando-a em livro.
O nome da obra faz referência a um dos momentos mais dramáticos da jornada de Enaiat, quando ele e outros quatro garotos tentam atravessar o mar entre a Turquia e a Grécia. Ainda segundo o autor, o titulo foi escolhido para falar sobre medo e infância – tanto os temores do garoto como o fim precoce de uma fase da vida diante do desafio de crescer e sobreviver em ambientes hostis.
Durante os anos seguintes à sua fuga do Paquistão, Enaiat ficou à mercê de traficantes de pessoas, andou no fundo falso de caminhões e dentro de contêineres, passou semanas caminhando em uma cordilheira gelada e enfrentou o mar com apenas um bote. Viu colegas morrerem ao seu lado, dormiu em praças e alojamentos precários, fez trabalhos arriscados e incompatíveis com seu tamanho e idade. Enfim, sofreu com todas as dificuldades às quais um imigrante sem documentos está sujeito – mesmo na Itália, onde conseguiu o asilo, ainda teve de lidar com toda a dificuldade na adaptação a uma cultura e sociedade totalmente diversas da qual nasceu. Apesar desses obstáculos, Enaiat mantém o senso de humor e a esperança de um futuro melhor e de reencontrar sua mãe.
A narrativa é interrompida em certos momentos por intervenções de Geda, que em entrevista aqui no Brasil explica o porquê. “Não queria que os leitores esquecessem que estavam diante de uma história verdadeira. E, se esta história pôde ser revelada, foi porque alguém, neste caso eu, estava lá na frente do Enaiat pedindo: “por favor, me conte sobre sua vida. Estou aqui ouvindo”. É isso que devemos fazer com todas as pessoas a nossa volta, antes de julgar, de cuspir sentenças, de nos deixar cegar por nossos preconceitos. Somente sentar e ouvir.”
O conselho de Fabio Geda e a história de Enaiat devem nos fazer pensar em como enxergamos a questão migratória e as milhões de pessoas que, anualmente, deixam sua terra natal em busca de melhores condições de vida. E também devemos nos lembrar que Enaiat teve sorte e força para encontrar as pessoas corretas para sobreviver e poder contar sua experiência. Mas, diariamente, a história de milhares de outros “Enaiats” não termina com um final feliz.
Livro: Existem Crocodilos no Mar Autor: Fabio Geda Editora: Fontanar Número de páginas: 174 Ano de Lançamento: 2011 Preço: R$ 24
Se por um lado a Prefeitura de São Paulo abre espaços que permitem a participação dos imigrantes na vida pública da cidade, certas medidas colocam em xeque essa política municipal por outro.
Uma prova disso foi a ação ocorrida ontem na rua Coimbra, ponto tradicional da comunidade boliviana de São Paulo, onde acontecia a tradicional Feira Cultural e Gastronômica Boliviana. O evento marcava o dia da independência da Bolívia, comemorado por toda a colônia em 6 de agosto. A Subprefeitura da Mooca, no entanto, reprimiu a feira, usando ação policial.
A reação das organizações de defesa dos imigrantes foi imediata pelas redes sociais. O Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) repudiou a ação da subprefeitura dizendo que a ação é uma “quebra de acordo e de diálogo sobre a regularização da Feira Cultural e Gastronômica Boliviana”, um diálogo iniciado anda em 2012.
Mais tarde, em nota oficial, a Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo pediu desculpas pelos atos cometidos na tarde de ontem. A nota cita ainda que “a ação … não condiz com as diversas reuniões e o bom relacionamento em curso”. Segundo a secretaria uma proposta de regularização da feira aos finais de semana está em andamento.
O crescimento econômico do Brasil e a formação multiétnica da sociedade tem atraído pessoas de todo o mundo em busca de novas oportunidades por aqui. No entanto, estamos recebendo bem esses novos moradores, independente do país de origem? Infelizmente, essa resposta é não.
O documentário Open Arms, Closed Doors (Braços Abertos, Portas Fechadas, em tradução livre), mostra bem esse “outro lado” da vida dos imigrantes no Brasil. A produção é dirigida pelas paulistas Fernanda Polacow e Juliana Borges, mas tem como apoiadora a rede de TV Al Jazeera, do Qatar, que a transmitiu para cerca de 130 países em fevereiro deste ano – para ver a produção no Brasil, só pela internet.
O nome da produção é didático: como um Cristo Redentor, o país tem seus braços abertos a todos em teoria, mas na prática a situação é bem diferente. Enquanto exalta a vinda de europeus em busca de trabalho por aqui, torce o nariz quando os imigrantes em questão são latinos e africanos. Um exemplo é o modo pejorativo com o qual o dono de uma loja de material de construção, entrevistado pelo documentário, se refere aos angolanos: “Eles são todos iguais, muda apenas o nome”.
O documentário é focado no angolano Badharo, 37 anos, no Brasil desde 1997. É morador da favela da Maré, no Rio de Janeiro – local que tem a segunda maior população angolana no Brasil. Teve parentes mortos na Guerra da Independência de Angola e encontrou na música sua forma de se expressar a respeito das dificuldades sociais que afligem tanto a ele quanto a outros imigrantes – em especial os africanos.
“O Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas é um racismo velado”, diz Badharo. “Já me arrependi muito de ter vindo para o Brasil. Só não desisti porque formei uma família”, completa o músico, que vive com uma brasileira e tem uma filha com ela.
Uma das músicas do rapper se inspira em Zulmira de Souza Borges Cardoso, estudante de mestrado angolana morta na região do Brás, zona leste de São Paulo, em maio de 2012. O crime causou indignação da forma como se caracterizou. A angolana estava com um grupo de amigos num bar quando dois brasileiros começaram a provocá-los com xingamentos racistas como “macacos”. Os dois homens foram expulsos do bar, entretanto, um deles voltou e disparou vários tiros contra o grupo. Uma das balas atingiu a cabeça da estudante de 27 anos, que morreu. A lentidão da Justiça e o pouco caso da polícia com o crime são criticados por Badharo na canção feita em homenagem à jovem.
O documentário fica ainda mais atual se lembrarmos de outro caso emblemático da situação precária de certas colônias estrangeiras no Brasil. No último dia 28 de junho, o menino boliviano Brayan Capcha, 5, foi morto nos braços da mãe durante um assalto à oficina de costura na qual trabalhavam – e também dormiam. A revolta com o crime fez a comunidade boliviana, que costuma sofrer calada, sair às ruas pedindo justiça.
Com essa “proeza” de ser racista mesmo com uma miscigenação com poucos exemplos similares no mundo, é como se o Brasil cuspisse cotidianamente no próprio prato que come e o faz conhecido no mundo todo.
Fatos como esses mostram que o país e sua sociedade ainda precisam aprender como de fato ser cosmopolita e a abandonar o racismo – em suma, passar à pratica o discurso que tanto é defendido na teoria. Essa mudança é possível, mas os exemplos atuais mostram que o caminho a ser percorrido é longo. Bem longo.
Ficha técnica:
Título: Open Arms, Closed Doors Produção: Plataforma
Coprodução: Fagulha Filmes
Direção e roteiro: Fernanda Polacow e Juliana Borges
Produção Executiva: Ana Nasser e Pedro Gorski
Fotografia: Pablo Hoffmann
Montagem: Eliza Capai e Lara Lopes
Técnico de som direto: Evandro Lima
Duração: 26 min
Ano: 2012
As subprefeituras da cidade de São Paulo passarão a contar com conselhos populares que – ao menos em teoria – terão como finalidade ajudar no planejamento, na fiscalização e nas ações da prefeitura.
Os integrantes desses conselhos serão eleitos diretamente pela população, que precisará apenas apresentar um documento com foto para participar. A quantidade de membros que poderão ser eleitos por subprefeitura pode ser vista no decreto de regulamentação, publicado nesta sexta-feira.
Entre outras implicações, os conselhos populares permitirão a participação de imigrantes no processo, seja como eleitores ou candidatos. Trata-se de um passo em direção ao que havia sido prometido em dezembro de 2012, quando a então gestão eleita prometeu abrir canais que permitissem uma participação maior das comunidades estrangeiras no cotidiano da maior cidade brasileira.
“Os imigrantes são hoje 500 mil pessoas em São Paulo, e os moradores de rua perto de 15 mil, bem organizados em movimentos. Eles têm direito de colocar suas demandas e serem ouvidos”, defende o secretário dos Direitos Humanos Rogério Sotilli, que estava presente na reunião de dezembro passado com representantes das comunidades imigrantes.
Em meio a tantas notícias negativas que costumam recair sobre os imigrantes ao redor do mundo, uma notícia como essa precisa ser comemorada. Sem dúvida, é um passo a frente – mas muitos outros ainda precisam ser dados.
“Go home or face arrest” (“vão para casa ou enfrentem a prisão”). Este é o tom da nova campanha do governo britânico para tentar combater a imigração ilegal no país. Carros de som circularam em bairros de Londres na semana passada transmitindo o recado.
Comandado pelo Partido Conservador, o governo britânico vem tomando medidas para tentar reduzir o fluxo de imigrantes no país. No entanto, as ações têm gerado polêmica tanto dentro quanto fora do Reino Unido. A campanha nos bairro de Londres, por exemplo, foi alvo de críticas de integrantes do próprio governo. O ministro para Negócios, Inovação e Treinamento, Vince Cable, chamou a iniciativa de “estúpida e ofensiva”.
Mesmo dentro da mídia conservadora há restrições quanto às medidas adotadas pelo governo britânico. Um artigo da tradicional revista The Economist, de outubro de 2012, criticou as restrições impostas à entrada de estudantes estrangeiros em universidades britânicas, argumentando que elas espantam cérebros que tanto poderiam ajudar a economia como contribuir com os meios acadêmicos. O artigo cita ainda exemplos de países que vão na direção contrária da que tem adotado Londres, como Austrália e Canadá.
Tais medidas do governo britânico são, na verdade, mais um gesto para tentar agradar o eleitorado conservador que ameaça migrar para o Ukip, o Partido pela Independência do Reino Unido, com discurso abertamente anti-imigração.
Uma amostra da aceitação das posições anti-imigrantes por parte da sociedade britânica é o site Migration Watch UK, um portal que logo na página inicial identifica-se como “independente, voluntário e preocupado com a escala atual da imigração dentro do Reino Unido” e pede doações àqueles que são simpáticos à causa.
No site podem ser encontrados artigos e reportagens que tentam fundamentar a preocupação com o excesso de imigrantes no país, além de listar perguntas e respostas sobre o tema – claro, sempre com o viés anti-imigração.
Mesmo com estudos diversos mostrando que o impacto da imigração está bem longe de ser negativo, a retórica do medo criada em torno do tema ainda encontra forte apoio dentro e fora do Reino Unido. É uma amostra do quanto o debate ainda precisa evoluir tanto a nível local como nacional e global, independente se o país é considerado desenvolvido ou não.
O que faz um imigrante ser considerado legal ou ilegal? A polêmica é tão grande que até instituições de mídia já tomam precauções na distinção. A agência de notícias AP, por exemplo, baniu o termo “imigrante ilegal” de seu manual de redação.
Nessa linha, a especialista Agnieszka Kubal, do International Immigration Institute (IMI) da Universidade de Oxford, discute a questão da “semi-legalidade” de imigrantes ao explicar o limbo em que muitos deles vivem, partindo de dados coletados em Portugal, Reino Unido, Holanda e Noruega.
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) começou oficialmente nesta terça-feira (23), mas São Paulo recebeu na última semana cerca de 10 mil estrangeiros que vieram para a Semana Missionária, evento que serviu como uma espécie de “aquecimento” para a JMJ.
Era comum andar pelo metrô e pelas ruas dos locais mais conhecidos da cidade e encontrar jovens de diversas nacionalidades, usando a língua materna ou comunicando-se com os brasileiros da melhor forma possível – do inglês às mímicas.
Diversas paróquias abriram suas portas para os jovens peregrinos. A comunidade de Nossa Senhora do Carmo, na Vila Alpina (zona leste) foi uma delas e recebeu 60 pessoas da Diocese de Clough, na Irlanda do Norte, permitindo tanto o intercâmbio religioso como cultural. Toda a delegação ficou hospedada em casas de famílias que atuam na paróquia. A diferença de idiomas, que chegou a preocupar os organizadores da Semana Missionária, acabou ficando longe de ser um grande obstáculo para o acolhimento e comunicação com os irlandeses – pelo contrário, muitos dos jovens se referiram às casas onde ficaram como “segundo lar”.
A delegação irlandesa chegou na terça-feira, 16, e foi recebida com homenagens, samba e capoeira. Eles retribuíram contando um pouco da história da região de onde vieram e explicando o símbolo da Diocese de Clogher (uma pessoa que consegue alcançar o sol, auxiliada por outra), que simboliza a união e todo o poder que ela tem.
Nos dias seguintes, diversas atividades permitiram que brasileiros e irlandeses desenvolvessem fortes laços fraternos. Encontro de formação, reflexão e troca de experiências de fé, passeios por locais turísticos de São Paulo, ações sociais e momentos de lazer (tudo em conjunto com jovens brasileiros) fizeram parte da agenda. Os irlandeses se surpreenderam com o tamanho dos edifícios, com a avenida Paulista e a variedade de frutas do Mercado Municipal, entre outras impressões; ao mesmo tempo, ficaram espantados – e muitos deles emocionados – com a situação difícil vivida pelas famílias que vivem na favela da Vila Prudente, a primeira a se formar na capital paulista.
No domingo (21), durante a missa das 11h na paróquia, o padre Martin, um dos líderes da delegação irlandesa, partiu de uma famosa passagem bíblica (Mateus 25, 35) para expressar a gratidão deles para com os brasileiros. “Fomos estrangeiros e vocês não somente nos deram de comer, mas também alimentaram nossos corações. Ao abrirem suas casas, vocês nos deram muito mais do que abrigo, vocês abriram seus corações para nós”. No dia seguinte (22), partiram para o Rio de Janeiro, onde se juntaram aos cerca de 2 milhões de peregrinos que devem acompanhar a Jornada Mundial da Juventude.
Para os paroquianos, a temporada com os irlandeses já é considerada o início de um novo tempo para a comunidade, com o sentimento e união e fraternidade reforçado pelas trocas culturais e religiosas com os novos amigos do outro lado do oceano Atlântico. Também mostra que, com disposição e mente aberta de ambos os lados, é possível superar barreiras idiomáticas e culturais que dificultam a integração e o intercâmbio que uma experiência como essa permitem.
Certamente outras paróquias que receberam pessoas do exterior na última semana aprenderam como a tolerância e o abertura para aprender com as diferenças, com diferentes culturas, são benéficas para uma sociedade. Lição essa que pode muito bem ser aplicada para toda uma cidade como São Paulo – que, mesmo em grande parte constituída por imigrantes e descendentes, muitas vezes se esquece desse elemento fundamental da sua formação histórica, econômica e social.
Você já parou para pensar no que a vivência no exterior pode fazer com uma pessoa? Por que morar fora do país onde nasceu? E uma vez lá, como fica a relação com a terra natal?
Cada vez mais penso que o contato com uma cultura e sistemas de organização diferentes tem tanto o poder de expandir os horizontes e quebrar certos preconceitos e estereótipos como o de reforçá-los. Vai depender de cada um.
Abaixo temos dois exemplos totalmente opostos de brasileiros que viveram ou vivem no exterior e suas percepções. Um deles é de um homem, atualmente nos EUA, que divulgou um vídeo de desabafo na internet no qual expõe os motivos pelos quais não deseja voltar ao Brasil. Ele chega a adotar um tom de deboche e até ofensivo com os que vivem aqui, com direito a palavras de baixo calão. O vídeo já conta com mais de 1 milhão de visualizações no YouTube e uma série de apoiadores nos comentários.
O outro é um post do jornalista Valter Hugo Muniz, publicado no blog Escrevo, Logo Existo. Com o título “Morar Fora? Pra quê?”, o texto trata da experiência dele ao passar por diversos locais no mundo, como Indonésia, Itália e Suíça. Além de defender que todo aquele que tenha condições deveria morar um tempo fora do Brasil, Valter argumenta que ele passou a valorizar ainda mais os pontos fortes da cultura materna após tal vivência.
É verdade que, diante de condições de vida mais favoráveis que outros países oferecem, é fácil ficar indignado com problemas que os brasileiros vivem cotidianamente. A questão é: o fato de estar longe dessa realidade permite a alguém debochar, tirar vantagem ou mesmo ofender quem aqui ainda vive? Esse tipo de postura, ao meu ver, só reforça estereótipos e preconceitos e em nada ajuda a mudar as mazelas que atingem os brasileiros.
Claro, fiquem à vontade para concordar com qualquer uma dessas formas de ver o mundo após uma temporada no exterior. Eu, particularmente, compartilho da opinião do amigo e colega Valter e fico 100% com o segundo exemplo.