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quarta-feira, julho 1, 2026
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A situação dos imigrantes na Itália como sinal de declínio de uma sociedade (Parte 4)

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Bandeira da Itália, país que vinha adotando uma política linha-dura em relação às migrações. Crédito: Ell Brown/Creative Commons

Por Arnaldo Cardoso*

O reconhecimento da complexidade do fenômeno das migrações internacionais é o primeiro passo para sua adequada compreensão. Assim, evitam-se danos decorrentes de simplificações e generalizações que tem sido presentes em discursos e ações, tanto de autoridades governamentais quanto de outros atores sócio-políticos, como é o caso de parcela da mídia em matérias acerca do fenômeno.

Outra afirmação coerente com a da complexidade do fenômeno é a da necessidade da utilização de diferentes fontes e tipos de dados para uma adequada abordagem dessa realidade em suas diferentes esferas e níveis em que se processa.

No estudo em tela sobre a situação dos imigrantes na Itália como sinal de declínio da sociedade, considerando o já exposto nos três artigos precedentes, foi um bom ponto de partida a identificação da situação demográfica atual da Itália cuja taxa líquida de reprodução (TLR) expressa a diminuição da população do país, fato que, sob diversos ângulos, é motivo de preocupação.

Avançando sobre a questão da exploração do trabalho do imigrante na Itália em setores como o da agricultura e do trabalho doméstico – agravadas nos casos dos imigrantes irregulares – as implicações disto desdobram-se para além do aviltamento da vida dos imigrantes. Ao tolhê-los de direitos básicos dá-se a privação de condições para uma integração digna na sociedade, retroalimentando processos de degeneração de relações sociais e deformando valores subjetivos positivos relacionados ao trabalho.

É eloquente de um tal estado de coisas os números e interpretações atribuídos ao trabalho irregular (onde está inserido o trabalho dos imigrantes irregulares) expressos em relatórios do Istat (Instituto Nacional de Estatística).

Ao tratar da “economia não observada” que Inclui essencialmente a economia paralela e a economia ilegal, o Rapporto Annuale 2020 informa que “o valor agregado gerado pela economia não observada ou pela soma da economia de atividades subterrâneas e ilegais, situa-se em 211 bilhões de euros (12,1% do PIB), com um aumento de 1,5% em relação ao ano anterior.”

Numa demonstração da incidência de trabalho irregular por setores, o relatório mostra que “é maior no setor de serviços (16,8%) e atinge níveis particularmente altos no segmento ‘Outros serviços para pessoas’ (47,7%), onde a demanda pelo desempenho irregular do emprego pelas famílias é relevante. Muito significativa é a presença de trabalhadores irregulares também na agricultura (18,4%), na construção civil (17,0%) e no comércio, transporte, armazenamento e reformas (15,8%).”

É especialmente significativa a avaliação estampada no relatório do Istat onde diz que “O uso de trabalho irregular por empresas e famílias é uma característica estrutural do mercado de trabalho italiano.”

Demonstrativa dessa realidade, na parte 2 do presente estudo abordamos o caso dos imigrantes búlgaros na comuna de Mandragone e de outras origens em Terracina, onde milhares de trabalhadores imigrantes são submetidos a jornadas diárias exaustivas e mal remuneradas, na colheita de produtos agrícolas. No contexto da pandemia do coronavírus eles se viram diante de novas situações de violências, marcadas pela xenofobia e preconceitos.

Ainda no tocante a exploração de mão-de-obra estrangeira, na parte 3 abordamos a situação do mercado do sexo pago na Itália, abastecido predominantemente por mulheres imigrantes. O entrelaçamento da dinâmica migratória com redes de prostituição desde muito operantes na Itália, associada a percepção revelada por entrevistas junto a clientes italianos de prostitutas, das quais extrai-se que “o sexo pago pode ser entendido como um ‘costume’ popular e difundido, que faz parte, de certa forma, ‘de ser homem na Itália’” e que “eles não perguntam de onde vêm, não ligam se são imigrantes regulares ou irregulares, se são menores ou adultas: compram um serviço” reforçam o entendimento da amplitude e profundidade dos desafios com os quais a Itália precisa se defrontar.

Diante da complexa realidade da prostituição no país, uma análise mais atenta sobre a dinâmica das redes de tráfico de pessoas e de prostituição demandou informações de um nível mais amplo, sistêmico, o das relações internacionais onde se dão as negociações entre Estados, e destes com organizações internacionais regionais e globais.

O relatório “Oltre un milione di ferite”: La Violenza Sessuale contro Uomini e Ragazzi lungo la Rotta del Mediterraneo Centrale verso l’Italia” de março de 2019, produzido pela Women’s Refugee Commission (WRC), ao reunir importantes dados e informações sobre a violência sexual e outras formas de abuso a que migrantes são submetida(o)s nas rotas marítimas com destino à Itália, expõe um quadro gravíssimo que tem sido desprezado ou merecido atenção secundária das autoridades envolvidas nos programas e medidas de controle e repressão à imigração irregular.

A primeira afirmação constante das conclusões do referido relatório, fruto de extensa investigação contemplando entrevistas com migrantes e refugiados, é que a violência sexual “está espalhada por toda a rota do Mediterrâneo central” e que ela incide sobre  mulheres e meninas mas também sobre homens e meninos, que são “expostos a múltiplas formas de violência enquanto viajam”. Essas ocorrências são configuradoras dos deslocamentos forçados que se dão em contextos de conflitos e guerras nos quais diferentes formas de abuso e violências sexuais são cometidos.

A Líbia (ex-colônia italiana) que vive uma grave instabilidade política desde a queda do regime de Muammar Gadafi em 2011, é descrita como um “inferno” onde “refugiados e migrantes se veem presos em redes de exploração, onde atos brutais de violência sexual são cometidos em total impunidade, com a finalidade de extorsão, submissão, punição e diversão dos torturadores.”

Nas conclusões do relatório da WRC há um alerta sobre as consequências da estratégia do governo italiano e da UE para coibir a imigração através do endurecimento das medidas de segurança e acordos como o realizado com a Líbia, incluindo  apoio financeiro à Guarda Costeira da Líbia que, para realizar a captura e detenção de migrantes reprimem o trabalho de monitoramento e resgate feito por navios humanitários de ongs internacionais,  aumentando com isso a tensão e a violência, provocando a “morte de milhares de pessoas no mar e  incentivando fenômenos como a detenção ilegal, tortura, violência sexual, escravidão e assassinatos.”

É legítimo nos perguntarmos: O que a indiferença diante dessa realidade por parte de um país democrático revela sobre ele?

Dando mostras de uma mesma compreensão da extensão e gravidade da situação dos migrantes e refugiados, e coerente com o postulado de fraternidade de seu pontificado, o papa Francisco – que é alvo da ira de determinados grupos políticos na Itália – tem feito ecoar os apelos por consciência e responsabilidade de governantes e sociedades. Em uma missa em Roma, ocorrida em 8 de julho passado, o papa lembrou de uma viagem que fez sete anos atrás à ilha de Lampedusa, quando ouviu relatos de migrantes do norte da África, especialmente da Líbia.

Fazendo um apelo contra a indiferença diante da tragédia dos migrantes no Mediterrâneo o papa exortou em sua missa “Eu penso na Líbia, nos campos de detenção, nos abusos e violências que sofrem os migrantes, nas viagens sem segurança, esperando salvamento e sendo rejeitados aqui.” (AFP, 8/7/20).

Contrastante com posições como a do papa Francisco e de outros atores da sociedade civil, o governo italiano persiste num padrão de ações que só tem agravado o quadro. No começo de agosto passado o Ministro das Relações Exteriores da Itália Luigi Di Maio (M5S) ameaçou bloquear 6,5 milhões de euros de fundos da Tunísia – outro país cuja situação vem gerando crescentes fluxos de migrantes forçados – como punição ao fato de migrantes provenientes do país continuarem aportando na costa italiana.

A Tunísia passa por uma profunda crise econômica com queda de 4,3% de seu PIB e 35% de taxa de desemprego entre jovens. Críticas ao bloqueio de fundos se embasam na denúncia da ineficácia da estratégia de chantagem e na inadequação dessa visão sobre o problema dos deslocamentos forçados. A Itália se faz presente na Tunísia através de investimentos empresariais na exploração de recursos energéticos, num modelo extrativista sem atenção para o meio ambiente e questões sociais do país.

Organizações como a Associação das Organizações Italianas para a Cooperação e Solidariedade Internacional (Aoi) que defendem que só através de um plano estratégico concebido multilateralmente, contemplando questões ambientais, de saúde, educação, emprego, bem como do empoderamento das mulheres poderá trazer resultados positivos no sentido de reverter a situação dos deslocamentos forçados de países como a Tunísia.

A crítica ao padrão da política externa italiana para países de onde provém a maior parte dos deslocamentos forçados é extensiva a outras metrópoles europeias de recente passado colonizador, bem como às autoridades da União Europeia.

Com base em relatório de 2016 da Amnesty International, Wermuth & Aguiar já denunciavam que “A União Europeia, por meio desses acordos de readmissão e cooperação, recorre aos Estados que não podem ou que não respeitam os direitos humanos dos refugiados e migrantes, para fazer o ‘trabalho sujo’ de interceptação e repatriamento forçado desses sujeitos, em clara violação do Direito Internacional”.

Em cimeira da União Europeia ocorrida em fevereiro de 2016, em Bruxelas, o professor François Crépeau, especialista em Direito Internacional Público e  relator especial da ONU sobre Direitos Humanos dos Migrantes expressou preocupação com “acordos de cooperação bilaterais negociados entre a Itália e seus vizinhos, especialmente a cooperação com a Líbia, devido à falta de padrões mínimos de Direitos Humanos e os inúmeros e frequentes relatos de abusos e violações aos imigrantes”. Asseverou ainda que o continente está criando “um assustador novo conceito do que é normal”.

Política externa europeia e italiana

Agora, podemos nos perguntar: sendo a política externa uma expressão da imagem que um país faz de si e do mundo, o que podemos extrair da atual política externa italiana e europeia?

Quanto à criminalização da imigração e do imigrante, os autores Wermuth & Aguiar, já em 2017, salientavam que na Itália desde a Lei nº 225 de 1992, passou-se a delegar poderes emergenciais a órgãos especiais com o objetivo de superar determinadas situações de crise. Com base nesse dispositivo, a prática da legislação governamental por meio de decretos-lei transformou-se em regra na Itália, tornando rotineiro o uso de medidas excepcionais, a tal ponto que, ao constituírem a forma normal de legislação, acabam culminando alterações jurídicas, políticas e sociais”.

Sendo disso exemplo os decretos e circulares de Salvini, de 2018-19, em matéria de imigração, que ferem direitos fundamentais e a legitimidade constitucional, sua manutenção pelo atual governo italiano faz crer que o PD e o M5S compactuam com uma visão de país explicitada pela Liga de Salvini, de extrema-direita, ou que tais partidos governistas são incapazes de conceber e liderar uma nova orientação política para o país, capaz de efetivamente enfrentar problemas como o da gestão das migrações que desde muito demandam novas e eficientes respostas.

Um ambiente de demandas sociais não atendidas e insatisfação com o sistema de representação política é terreno fértil para ideologias que apostam no ódio, na polarização e na construção de “inimigos imaginários”. É onde prosperam líderes com promessas salvacionistas, defendendo astuciosamente a política como uma expressão necessária da “vontade geral”.

Realidade incontornável em diferentes países, o populismo de extrema-direita tem se afirmado como força política na Itália e em países como Brasil, Estados Unidos e Reino Unido, e uma direita radical populista tem ampliado seu poder e posto em xeque o Estado de Direito em países como Polônia e Hungria.

Embora com variações em cada país, um traço comum entre eles é a escolha de um inimigo contra o qual engajar o “povo”. Como sugere o estudioso da extrema direita, Cas Mudde, a associação de ansiedade econômica a questões como a integração regional e a imigração tem sido explorada por extremistas de direita com bons resultados eleitorais especialmente na Europa.  Também a invocação de um idealizado povo portador de tradições e valores ameaçados tem sido recorrente.

Nesse contexto, cada avanço dessas ideologias extremistas representa um custoso retrocesso no caminho para a superação de problemas estruturais como o das migrações internacionais.

À Itália está posto o desafio de rejeitar fórmulas que visam perpetuar caricaturas de um passado e povo idealizados e construir um presente novo fortalecido pelo aprendizado com os erros do passado.

*Arnaldo Cardoso é cientista político, pesquisador e professor universitário.


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Campanha da Casa do Brasil de Lisboa combate mitos e fake news sobre migrantes

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Campanha da Casa do Brasil de Lisboa combate mitos e fake news sobre migrantes
Migra Myths, campanha promovida pela Casa do Brasil de Lisboa contra mitos e fake news sobre migrantes. (Foto: Divulgação)

Da política à opinião pública: o debate sobre migrações contemporâneas tem servido de pretexto para disseminação de fake news e mitos estereotipados. Foi pensando nessa situação que a Casa do Brasil de Lisboa (CBL), em Portugal, criou o projeto #MigraMyths — Desmistificando a Imigração.

Por meio de fatos e dados concretos, o objetivo da iniciativa é simples e direto: desmentir informações falsas que alimentem a rejeição a imigrantes no país.

Através de uma campanha em redes sociais, dados e informações oficiais são divulgadas como resposta ao racismo e à xenofobia.

Fomentado pelo crescimento nas sondagens de intenção de voto ao partido Chega, de extrema-direita e com discurso nacionalista, Portugal passa por um momento importante de debate sobre racismo e xenofobia.

Recentemente, Portugal prorrogou até meados de 2021 a regularização de todos os migrantes com processos correndo no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) desde antes de 18 de março. Foi nesse dia em que o governo local declarou estado de emergência por conta da pandemia do coronavírus.

Portugal e seus imigrantes

A imagem de invasores e aproveitadores de benefício social é a mais frequente entre aqueles contrários à migração em Portugal, embora os não nacionais representem apenas 5% do total dos residentes. Além disso, ao contrário do que muitos pensam, os migrantes contribuem com a Segurança Social portuguesa.

Segundo dados do Observatório das Migrações, em 2018, por exemplo, houve um saldo positivo de 651 milhões de euros entre as contribuições dos imigrantes para os cofres do Estado português.

Questões políticas, sociais e históricas fazem com que brasileiros e brasileiras enfrentem estereótipos específicos. A comunidade brasileira é a maior entre as de imigrantes em Portugal, estimada pela Casa do Brasil de Lisboa em pelo menos 378 mil pessoas.

“No caso das mulheres brasileiras, por exemplo, existe um estereótipo atribuído ao corpo e à sexualidade brasileira, que as submetem a diversas formas de xenofobia, discriminação, assédio e preconceito (…) Quanto aos homens brasileiros são [vistos como] malandros e não gostam de trabalhar” comentou Ana Paula Costa, que faz parte da direção da Casa do Brasil de Lisboa e é uma das responsáveis pelo projeto.

Segundo Costa, dados em diagnóstico inicial realizado para o projeto mostraram que tal imagem se mostra ainda muito presente no imaginário português.

Além disso, o relatório da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) indicou que a comunidade brasileira foi a terceira que mais apresentou queixas de discriminação com base em nacionalidade em 2019.

O projeto

Financiado pelo Programa de Apoio ao Associativismo Imigrante (PAAI), gerido pelo Alto Comissariado, o #MigraMyths – Desmistificando a Imigração surge da necessidade de descontruir os mitos, estereótipos e fake news relacionadas à imigração e as pessoas imigrantes em Portugal.

O projeto é dirigido a imigrantes de todas as nacionalidades, pois enfrentam preconceitos semelhantes e são alvos de estereótipos pejorativos.

“A xenofobia é um problema social que afeta todos(as) os(as) imigrantes e isto também está relacionado aos estereótipos sobre a imigração e os imigrantes em Portugal”, pontuou Costa.

Há 4 anos no país europeu, a doutoranda em Ciência Política na Universidade Nova de Lisboa descreve sua experiência enquanto imigrante como boa. “Sempre existem desafios, principalmente pelo fato de ser uma mulher brasileira e negra. Mas o meu processo migratório tem sido muito positivo”, concluiu Costa.

O projeto consiste em uma campanha de sensibilização e de disseminação de informações que contradigam mitos e fake News. Para isso, a hashtag #MigraMyths vem sendo usada em redes sociais para compartilhar conteúdo em três principais vertentes:

  1. informações sobre mitos e realidades sobre a imigração através de dados e fontes oficiais.
  2.  informações positivas sobre a imigração, demonstrando a contribuição dos(as) imigrantes para Portugal
  3. valorização de histórias de vida de pessoas imigrantes.

Os/as estrangeiros/as em Portugal contribuem muito para a Segurança Social e as constituições são muito importantes para…

Posted by Migra Myths – Desmistificando a Imigração on Friday, August 21, 2020

Próximos passos

Para além dessa mobilização virtual, está prevista até outubro, a CBL dará início a uma segunda etapa do projeto, por meio de um ciclo de tertúlias chamado de Contra Atos Não Há Argumentos.

Nas reuniões, que poderão acontecer de maneira presencial ou online dependendo da situação da pandemia de Covid-19, serão debatidos temas relacionados ao objetivo do projeto e um seminário final para divulgação dos resultados.

“Nos debates vamos discutir fake news, mitos, estereótipos e os preconceitos na imigração aqui em Portugal e vamos trazer alguns convidados e convidadas para falar”, concluiu Costa.


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Paraguai buscou na imigração uma saída para crise pós-guerra; entenda

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Imigrantes alemães embarcam no Paraguai. (Foto: Mennonite Church USA Archives)

O fato de o Paraguai ser lembrado sob uma série de estereótipos dificulta uma visão mais ampla sobre o país vizinho ao Brasil. E a contribuição da imigração para sua população é um desses detalhes que passam despercebidos.

A abertura do Paraguai para a imigração foi possibilitada com a abertura jurídica e promoção de fluxos de imigração no fim do século XIX e início do século XX. O fato se deve ao término da Guerra do Paraguai (1864-1870), durante a gestão do presidente Francisco Solano López, que envolveu Brasil, Uruguai e Argentina. O Paraguai, que se refere ao conflito como “Grande Guerra”, acabou derrotado pelos países vizinhos, que formaram a chamada Tríplice Aliança. Em consequência veio uma pesada recessão econômica.

Foi com o intuito de reconstruir a economia e repovoar o território, que acabou perdendo centenas de milhares de vidas, que o país recorreu à abertura de suas portas aos imigrantes como política de Estado.

O artigo 6 da Constituição Nacional de 1870 do Paraguai estabelece que “se fomentará la inmigración americana y europea y no podrá restringir, limitar, ni gravar con impuesto alguno la entrada en el territorio paraguayo de los extranjeros que traigan por objeto mejorar las industrias, labrar la tierra e introducir y enseñar las ciencias y las artes”. Ele se complementa com o artigo 18, que concede o direito de “entrar, permanecer, transitar y salir del territorio paraguayo, libres de pasaporte”.

Traduzindo, os artigos tratam do estímulo à imigração, em livre trânsito, sem restrições nem cobranças de impostos. Isso desde que os imigrantes tenham como objetivo melhorar as indústrias, trabalhar sobre as terras agrícolas e desenvolver as áreas de ciência e arte.

Presença imigrante

Com a nova política, pouco a pouco, Paraguai atraiu seus primeiros imigrantes europeus e asiáticos. A princípio, com um número reduzido, mas que, contudo, contribuíram significativamente para o desenvolvimento econômico, social e territorial do país.

Não há números precisos oficiais, embora estimativas extraoficiais indiquem que ao menos 450 mil pessoas ingressaram no Paraguai pós-guerra.

Alemães, russos, ucranianos, poloneses passaram a se fixar em diferentes regiões, desenvolvendo as atividades rurais e criando pequenos povoados. Hoje em dia é possível identificar a instalação de empórios e centros urbanos frutos do trabalho das primeiras gerações de imigrantes. Sírios, libaneses, japoneses e coreanos também passaram a se estabelecer em áreas tanto urbanas quanto rurais.

Primeiros imigrantes alemães que se estabeleceram na cidade de Hohenau. (Foto: Prefeitura de Hohenau)

Imigrantes asiáticos, como os japoneses e sul-coreanos, também viram no Paraguai uma oportunidade para fugir da crise econômica que assolava suas terras.

Nos primeiros anos da década de 1950, no período pós-Segunda Guerra Mundial, começava a surgir uma onda de japoneses saindo de suas terras porque o Paraguai abria suas portas para receber imigrantes de países devastados pelos conflitos.  Na ocasião, o governo paraguaio assinou um Acordo de Imigração com o governo do Japão, possibilitando a entrada de 85.000 agricultores japoneses entre 1959 e 1989, tendo verifico um grande potencial para desenvolver a agricultura regional.

Já o fluxo migratório de sul-coreanos em destino ao Paraguai ganhou mais evidência após a Guerra da Coreia, que terminou no fim de julho de 1953. Em situação de extrema pobreza, muitos coreanos notaram o Paraguai como uma porta de esperança para o recomeço de uma vida decente – com possibilidades de conseguir empregos nas áreas rurais e fábricas têxteis, além de ter melhor acesso à alimentação. 

Imigrantes japoneses no Paraguai. (Foto: Discover Nikkei)

E no caso dos alemães? Desde 1903, após a implantação da política da abertura para imigrantes, o governo paraguaio tinha como foco os países que adotavam a língua alemã. Os alemães eram considerados “bons imigrantes” sendo eles estereotipados como disciplinados e industriosos, tanto que auxiliaram no desenvolvimento de países como os Estados Unidos, Argentina e Brasil. Além disso, a iniciativa paraguaia era bem aceita porque, naquela época, a Alemanha não era vista como uma potência imperialista, ao pé de países como Reino Unido e França.

Brasileiros no Paraguai

Os brasileiros chegaram ao país no início da década de 60, multiplicando por três o número da população imigrante no país, Segundo a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, houve um êxodo de milhares de camponeses brasileiros ao Paraguai principalmente entre 1975 e 1979.

Essas pessoas eram atraídas pelas “promessas de terras férteis e baratas no Paraguai e as mudanças ocorridas na agricultura brasileira, sobretudo com a implementação de uma política agrícola de modernização, que privilegiou a média e grande propriedade, provocando a desestruturação da pequena propriedade”.

O Paraguai é o país com a maior comunidade brasileira no exterior, atrás somente dos Estados Unidos. Estimativas da representação brasileira na capital, Assunção, contabilizam em torno de 300 mil pessoas. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro, no entanto, alega não ter dados atuais sobre a comunidade brasileira no país vizinho.

Até a realização desta reportagem, não houve retorno das autoridades paraguaias em relação ao perfil atualizado de imigrantes no país. Dados referentes a 2018, divulgados pela imprensa paraguaia à época, indicaram a presença de 420.905 imigrantes.

De acordo com os dados paraguaios, a comunidade brasileira é a maior no país (cerca de 200 mil), seguida pela argentina, coreana, taiwanesa, chilena, boliviana e colombiana.


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Sin nombrar a los migrantes, los medios de comunicación contribuyen más a un entorno hostil que las noticias falsas”, dice el investigador

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Nameless, jobless and genderless, migrants are told in a deshumanised way by stream media. Crédito: ACNUR

Myria Georgiou, directora del Centro de Comunicación y Medios de Comunicación de la Escuela de Economía de Londres, descubrió en un estudio de 1.200 informes europeos publicados en 2015 que los migrantes rara vez estaban representados por nombre, género o profesión

Por Victória Brotto
Traducción Natália Valverde Jatobá
Version en inglés
Verison en portugues

“¿Por qué tenemos que seguir discutiendo cómo cambiar la percepción de la gente sobre los migrantes que llegan si hoy en día las organizaciones que se ocupan del tema están mucho más desarrolladas que hace décadas?”. La provocación es de Myria Georgiou, profesora y directora del Centro de Comunicación y Medios de Comunicación de la London School of Economics, en el puesto 49 del ranking mundial de universidades, durante una conferencia promovida por la Comisión de Cooperación Internacional y Desarrollo de la Unión Europea. 

El evento, celebrado en Estrasburgo (Francia), atrajo a más de 500 personas, entre las que se encontraban el informe de MigraMundo y otros equipos periodísticos, así como agentes humanitarios de todo el mundo.

Llega en un momento en que el Reino Unido, donde enseña Georgiou, así como la Unión Europea, han visto llegar a sus fronteras un importante flujo de migrantes, más recientemente en el Canal de la Mancha desde principios de este año. El objetivo de la actividad, según la Comisión, era “reflexionar sobre la forma de elaborar proyectos sobre la migración para contrarrestar las historias negativas sobre los migrantes”.

“¿Pero por qué tenemos que seguir discutiendo el mismo tema?”, insistió, retóricamente, Georgiou, que nació en Grecia.

Myria Georgiou habla de cómo tener un impacto positivo al hablar de la migración en un evento promovido por la Unión Europea.

Ambiente hostil

Según el experto, después de analizar 1.200 artículos publicados por los principales medios de comunicación europeos en 2015, año de intensa corriente migratoria hacia el continente, se constató que el entorno del continente es hostil a los migrantes. Y no sólo al surgimiento del populismo en las entrañas de Europa, sino también al hecho de que los principales medios de comunicación desinforman sobre la migración y que, por otra parte, los tabloides difunden las “noticias falsas”. 

Sin embargo, contrariamente a lo que se imagina, el estudio señala que el impacto en la opinión negativa de los ciudadanos europeos sobre el tema se debe mucho más a los grandes medios de comunicación, que desinforman, que al periodismo sensacionalista, que difunde noticias falsas o distorsionadas.

Eso es porque, según Georgiou, la mala información no aporta el elemento principal para comprender el fenómeno de la migración: el factor humano. 

“Lo que identificamos en el 74% de las historias es que, cuando estaban representados, los migrantes no tenían nombre, ni género, ni trabajo”, dice. “Lo que vemos es una deshumanización del migrante, se hace cada vez más difícil identificarlo como ser humano, por lo que tendremos dificultades para simpatizar con él”, resume el investigador.

Otro elemento identificado en el proceso de “desinformación” es la ausencia casi total de la voz del migrante. “Sólo el 15% de los 1200 sujetos contenían trazos migratorios”. El profesor añade que no escuchar al migrante ayuda a deslegitimar su voz.

“Lo que identificamos en el 74% de las historias es que, cuando estaban representados, los migrantes no tenían nombre, ni género, ni trabajo.”

En cambio, la investigación reveló que la mayoría de los periódicos escuchaban a expertos y autoridades políticas europeas, “personas que saben muy poco sobre la experiencia de la migración en sí, que nunca han vivido lo que vive esa población, lo que vive un solicitante de asilo, por ejemplo”.

Así pues, cuando los medios de comunicación principales no escuchan al migrante, dejan de transmitir a sus lectores la experiencia de la migración y dejan de llevarla a lo que Georgiou denominó el “nivel humano de la experiencia”.

“Lo que se dice sobre la migración es algo muy académico o politizado, lejos del nivel de experiencia, lo que hace difícil que el lector se muestre solidario con la persona migrante”.

Darle voz a los migrantes y difundir historias positivas sobre ellos mejoraría la percepción de la población local sobre la migración, dice un experto en eventos con una audiencia de 500 personas.

Poca calidad periodística

Otro elemento identificado fue el tratamiento recurrente de los migrantes como “vulnerables”. “Si uno se refiere constantemente a ellos como vulnerables, trayendo raramente historias positivas sobre tal población, se envía el mensaje de que tales personas sólo merecen ser mencionadas porque son de alguna manera inferiores a nosotros”, explicó.

Pero, según el investigador, los grandes medios de comunicación no informan mal porque sean hostiles al migrante, sino porque estarían “condicionados a un entorno digital en el que los periodistas necesitan publicar rápidamente, lo que perjudica la calidad del material”.

El impacto de este deficiente material periodístico, que deshumaniza a los migrantes, fue clasificado como “fuerte e importante” por la profesora. Ella citó datos de la fundación francesa para la investigación de Ipsos, que muestran las percepciones infladas negativamente de la población en los países de acogida de migrantes.

Una de las principales conclusiones de la encuesta fue que en la mayoría de los países de América del Sur, las poblaciones pensaban que tenían un 30% más de migrantes en sus territorios de lo que realmente tenían.

En países europeos como España, Italia, Francia y Alemania, la población afirmaba tener 19%, 18% y 15% (respectivamente) más solicitantes de asilo en sus respectivos territorios nacionales de los que realmente tenía.  En Brasil, la sociedad indicó una cifra 30% más alta que la realidad. Cuando se le preguntó sobre la presencia de los musulmanes, la población europea tuvo una opinión inflada en 15%.

Los tabloides británicos llaman a la llegada de inmigrantes a través del Canal de la Mancha una “crisis”, lo que hace que el ambiente sea hostil al tema, dice el experto.

“Las frecuentes noticias falsas empobrecen el debate y relativizan temas importantes, que ahora se ven como una cuestión de opinión.”

Notícias falsas

Aunque no son tan influyentes como los medios de comunicación tradicionales, según el profesor, los tabloides sensacionalistas también contribuyen a relativizar cuestiones como los derechos humanos y la justicia social.

“Las frecuentes noticias falsas empobrecen el debate y relativizan temas importantes, que ahora se ven como una cuestión de opinión”.

Según Georgiou, esta relativización de todo es considerada cada vez más como algo normal por todos, incluso por la parte más moderada de la población y los agentes políticos, que son responsables de pensar en las políticas públicas y las leyes que rigen sus países. Este proceso es lo que ella llama “la poderosa dinámica de la desinformación”, en la que hay “muchas voces que compiten con la voz del migrante en un asunto que le conviene plenamente”.

Salidas

Además de señalar las lagunas en la cobertura de los medios de comunicación sobre la migración, el investigador de la LSE también indicó las vías que debían adoptarse para ayudar a invertir esta situación. Y también para “concienciar a la gente del peligro de la desinformación.

  • Tener en cuenta la opinión de la persona migrante en los informes;
  • Aumentar el diálogo entre las autoridades públicas y todos los tipos de medios de comunicación (tradicionales y alternativos);
  • Compartir de forma sencilla y didáctica los datos sobre la migración de la población;
  • Llevar el tema al “nivel humano, hablando a los humanos historias sobre otros humanos”.

“Sabemos que cambiar la percepción de la población sobre la migración es algo complejo porque es un tema delicado, pero es posible si cambiamos la forma en que hablamos de ello, si hacemos que las historias de los migrantes sean más humanas y reales, más cercanas al lector, si escuchamos a los migrantes, si no los tratamos sólo como personas vulnerables, si desarrollamos proyectos de acceso público a información pertinente y seria, y si creamos espacios de encuentro entre la población local y los migrantes”, concluye Georgiou.

“Without naming migrants, media contribute more to hostile environment than fake news,” says LSE professor

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Nameless, jobless and genderless, migrants are told in a deshumanised way by stream media. Crédito: ACNUR

Myria Georgiou, director of the Communication and Media Centre at the London School of Economics, found in a study on 1,200 European reports published in 2015 that migrants were rarely represented by name, gender or profession

By Victória Brotto, in Strasbourg (France)
Translation by Natália Valverde Jatobá

Read the Portuguese version here.
Read the Spanish version here.

“Why do we still have to discuss how to change people’s perception of arriving migrants if today organizations to treat the subject are much more developed than they were decades ago? The provocation is from Myria Georgiou, professor and director of the Communication and Media center of the London School of Economics, 49th in the world ranking of universities, during a conference promoted by the Commission for International Cooperation and Development of the European Union. 

The event, held in Strasbourg (France), attracted more than 500 people, among them the report of MigraMundo and other journalistic teams, besides humanitarian agents around the world.

It takes place at a time when the United Kingdom, where Georgiou teaches, as well as the European Union, sees an important flow of migrants reaching its borders, most recently in the English Channel since the beginning of this year. The aim of the activity, according to the Commission, was to “reflect on how to develop projects on migration to counterbalance negative stories about migrants”.

“But why do we still have to discuss the same subject?”, insisted, rhetorically, Georgiou, who was born in Greece.

Myria Georgiou talks about how to positively impact talking about migration in an event promoted by the European Union.

Hostile environment

According to the expert, after analyzing 1,200 articles published by the major European media in 2015, a year of intense migratory flow towards the continent, it was found that the environment on the continent is hostile to migrants. And not only to the emergence of populism in the bowels of Europe, but also to the fact that the big media misinforms about migration – and that, on the other hand, the tabloids spread the fake news. 

However, contrary to what is imagined, the study points out that the impact on the negative opinion of European citizens on the subject is due much more to the big media, which misinforms, than to sensationalist journalism, which spreads false or distorted news.

This is because, according to Georgiou, bad information does not bring the main element to understand the phenomenon of migration: the human factor. 

“What we identified in 74% of the stories is that, when represented, the migrants had no name, no gender, no work,” he says. “What we see is a dehumanization of the migrant, it becomes more and more difficult to identify them as human beings, so we will have difficulties to sympathize with them”, summarizes the researcher.

Another element identified in the process of “misinforming” is the almost total absence of the migrant’s voice. “Only 15% of the 1200 subjects contained migrant lines”. The teacher adds that not listening to the migrant helps in the delegitimization of their voice.

In contrast, the survey found that most newspapers heard European experts and political authorities, “people who know very little about the experience of migration itself, who have never lived what that population lives, what an asylum seeker lives for example”.

Thus, when the mainstream media doesn’t listen to the migrant, it would stop passing on to its reader the experience of migrating, no longer bringing it to what Georgiou called the “human level of experience”.

“What is said about migration is something very academic or politicized, far from the level of experience, which makes difficult the solidarity of the reader with the migrant person”.

Giving voice to migrants and spreading positive stories about them would improve the local population’s perception of migration, says an event expert with an audience of 500 people.

Poor journalistic quality

Another element identified was a recurrent treatment of migrants as “vulnerable”. “If you constantly refer to them as vulnerable, rarely bringing positive stories about such a population, it sends the message that such people are only worth mentioning because they are somehow inferior to us,” she explained.

But, according to the researcher, the great media doesn’t inform badly because it is hostile to the migrant, but because it would be “conditioned to a digital environment where journalists need to publish fast, which damages the quality of the material”.

The impact of this poor quality journalistic material, deshumanizing migrants, was classified as “strong and important” by the professor. She refered to the data from the French foundation for Ipsos research, showing the negatively inflated perceptions of the population of the host countries towards migrants.

One of the main findings of the survey was that in most South American countries, populations thought they had 30% more migrants in their territories than they actually did.

In European countries like Spain, Italy, France and Germany, the population claimed to have 19%, 18% and 15% (respectively) more asylum seekers in their respective national territories than they actually had.  In Brazil, society indicated a figure 30% higher than the reality. When asked about the presence of Muslims, the European population had an inflated opinion by 15%.

British tabloids call the arrival of migrants through the English Channel a “crisis”, which makes the environment hostile to the subject, says the expert.

Fake news

Although not as influential as the traditional media, according to the professor, sensationalist tabloids also contribute to the relativization of issues such as human rights and social justice.

“Frequent fake news impoverishes the debate and important issues are relativized, which become a matter of opinion.

According to Georgiou, such relativization of everything is increasingly seen as something normal by everyone, including the more moderate part of the population and political agents, responsible for thinking about public policies and the laws that govern their countries. Such a process is what she calls “powerful dynamics of misinformation,” where there are “many voices that compete with the voice of the migrant on a matter that is entirely suited to them.

Outputs

In addition to pointing out the gaps in media coverage on migration, the LSE researcher also indicated avenues to be taken that could help reverse this picture. And also to “make people aware of the danger of misinformation.

  • Take into account the opinion of the migrant person in the reports;
  • to increase the dialogue between public authorities and all types of media (traditional and alternative);
  • to share in a simple and didactic way the data about migration for the population;
  • bring the subject to the “human level, speaking to humans stories about other humans”.

“We know that changing the perception of the population about migration is something complex because it is a delicate subject, but it is possible if we change the way we talk about it, make the stories of migrants more human and real, closer to the reader, if we listen to migrants, if we do not treat them only as vulnerable people, if we develop projects of public access to relevant and serious information, in addition to creating spaces for meetings between local population and migrants,” concludes Georgiou.

‘Sem dar nome a migrantes, mídia contribui mais para ambiente hostil do que fake news’, afirma pesquisadora

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Nameless, jobless and genderless, migrants are told in a deshumanised way by stream media. Crédito: ACNUR

Por Victoria Brotto
De Estrasburgo (França)
Leia o artigo em inglês
Leia o artigo em espanhol

“Por que será que ainda temos que discutir sobre como mudar a percepção das pessoas sobre os migrantes que chegam se hoje as organizações para tratar do sujeito são muito mais desenvolvidas do que há décadas atrás?” A provocação é de Myria Georgiou, professora e diretora do centro de Comunicação e Mídia da London School of Economics, 49ª no ranking mundial de universidades, durante conferência promovida pela Comissão para a Cooperação Internacional e Desenvolvimento da União Europeia.  

O evento, ocorrido em Estrasburgo (França), atraiu mais de 500 pessoas, dentre eles a reportagem do MigraMundo e outras equipes jornalísticas, além de agentes humanitários ao redor do mundo.

Ele ocorre em um momento em que o Reino Unido, onde Georgiou leciona, assim como a União Europeia, vê chegar às suas fronteiras um importante fluxo de migrantes, mais recentemente no Canal da Mancha desde o comeco deste ano. O objetivo, da atividade, segundo a Comissão, era de “refletir sobre como desenvolver projetos sobre migração para contrabalancear com as histórias negativas sobre migrantes”.

“Mas por que ainda temos que discutir o mesmo assunto?”, insistiu, retoricamente, Georgiou, que nasceu na Grécia.

Myria Georgiou fala sobre como impactar positivamente falando de migração em evento promovido pela União Europeia.

Ambiente hostil

Segundo a especialista, depois de analisar 1,2 mil matérias publicadas pela grande mídia europeia em 2015, ano de intenso fluxo migratório em direção ao continente, constatou-se que o ambiente no continente é hostil ao migrante. E não somente à emergência do populismo nas entranhas da Europa, mas também pelo fato de que a grande mídia informa mal sobre a migração – e de que, do outro lado, os tabloides divulgam as “fake news”.  

Porém, ao contrário do que se imagina, o estudo aponta que o impacto sobre a opinião negativa dos cidadãos europeus sobre o assunto se deve muito mais à grande mídia, que informa mal, do que ao jornalismo sensacionalista, que divulga notícias falsas ou distorcidas.

Isso porque, segundo Georgiou, a má informação não traz o principal elemento para entender o fenômeno da migração: o fator humano.  

“O que identificamos em 74% das histórias é que, quando representados, os migrantes não tinham nome, nem gênero, nem trabalho”, afirma. “O que vemos é uma desumanização do migrante, fica cada vez mais difícil de identificá-los como humanos, então teremos dificuldades de nos solidarizar com eles”, resume a a pesquisadora.

Outro elemento identificado no processo de “informar mal” é a ausência quase total da voz do migrante. “Apenas 15% das 1200 matérias continham falas de migrantes”. A professora acrescenta que não ouvir o migrante ajuda na deslegitimação da sua voz.

Em contrapartida, a pesquisa constatou que a maioria dos jornais ouviam especialistas europeus e autoridades políticas, “pessoas que sabem muito pouco sobre a experiência da migração em si, que nunca viveram o que essa população vive, o que vive um requerente de asilo por exemplo.”

Assim, quando a grande mídia não ouve o migrante ela deixaria de passar para o seu leitor a experiência do migrar, deixando de trazê-la para o que Georgiou chamou de “nível humano da experiência”.

“O que se fala sobre migração é algo muito acadêmico ou politizado, longe do nível da experiência, o que dificulta a solidariedade do leitor com a pessoa migrante.”

Dar voz a migrantes e difundir histórias positivas sobre eles melhoraria percepção,da população local sobre migração, afirma especialista em evento com público de 500 pessoas.

Qualidade jornalística deficiente

Outro elemento identificado foi um tratamento recorrente dos migrantes como “vulneráveis”. “Se referir constantemente a eles como vulneráveis, raramente trazendo histórias positivas sobre tal população, passa a mensagem que tais pessoas só são dignas de serem mencionadas porque elas são, de alguma forma, inferiores a nós”, explicou.

Mas, segundo a pesquisadora, a grande mídia não informa mal porque é hostil ao migrante, mas sim porque ela estaria “condicionada a um ambiente digital onde os jornalistas precisam publicar rápido, o que prejudica a qualidade do material.”

O impacto desse material de má qualidade jornalística, desumanizando migrantes, foi classificado de “forte e importante” pela professora. Ela citou dados da fundação francesa para pesquisas Ipsos, mostrando as percepções negativamente infladas da população dos países de acolhimento de migrantes.

Uma das principais constatações da pesquisa foi de que na maioria dos países da América do Sul, as populações achavam que tinha 30% a mais de migrantes em seus territórios do que o que de fato tinha.

Em países europeus como Espanha, Itália, Franca e Alemanha, a população afirmou ter 19%, 18% e  15% (respectivamente) a mais de requerentes de asilo em seus respectivos territórios nacionais do que o que de fato tinha.  No Brasil, a sociedade indicava um número 30% maior do que a realidade. Quando questionada sobre a presença de muçulmanos, a população europeia tinha uma opinião inflada em 15%.

Tabloides britânicos chamam chegada de migrantes pelo canal da Mancha como “crise” o que torna ambiente hostil ao assunto, afirma especialista.

Fake news

Apesar de não serem tão influentes quanto a mídia tradicional, segundo a professora, os tabloides sensacionalistas também contribuem para a relativização de assuntos como direitos humanos e justiça social.

“A divulgação frequente de fake news empobrece o debate e assuntos importantes são relativizados, que passam a ser vistos como uma questão de opinião.”

Segundo Georgiou, tal relativização de tudo é visto cada vez mais como algo normal por todos, inclusive pela parte mais moderada da população e por agentes políticos, responsáveis por pensarem políticas públicas e as leis que regem os seus países. Tal processo é o que ela chama de “dinâmicas poderosas da desinformação”, onde há “muitas vozes que competem com a voz do migrante em um assunto que lhe condiz inteiramente”.

Saídas

Além de apontar as falhas na cobertura da mídia sobre migrações, a pesquisadora da LSE também indicou caminhos a serem tomados que podem ajudar a reverter esse quadro. E também para “conscientizar as pessoas sobre o perigo da desinformação”.

  • Levar em conta a opinião da pessoa migrante nas reportagens;
  • aumentar o diálogo entre poder público e todos os tipos de mídia (tradicional e alternativas);
  • compartilhar de maneira simples e didática os dados sobre migração para a população;
  • trazer o assunto para o “nível humano, falando para humanos histórias sobre outros humanos”.

“Sabemos que mudar a percepção da população sobre a migração é algo complexo pois é um sujeito delicado, porém é possível se mudarmos a maneira sobre a qual falamos dele, tornar as histórias de migrantes mais humanas e reais, mais próximas do leitor, se ouvirmos os migrantes, se não o tratarmos apenas como pessoas vulneráveis, se desenvolvermos projetos de acesso público a informação relevante e séria, além de criarmos espaços de encontros entre população local e migrantes”, finaliza Georgiou.


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Congolais à São Paulo protestent contre le génocide en République Démocratique du Congo

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Congoleses em ato em São Paulo pedem o fim do genocídio no país de origem e lembram o movimento global Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) Foto: Alex Vargem

Pour Alex André Vargem*
Lisez ici la version en portugais

“Nous devons montrer à la face du monde et surtout au peuple Brésilien la situation réelle de la République Démocratique du Congo. Ça fait 22 ans que nous comptons à ce jour plus de 6 millions de morts, un véritable carnage.

Nous disons non au génocide congolais, la paix est fondamentale. Nous exigeons une justice pour toutes les victimes souligne l´activiste congolais Prosper Dinganga du collectif A Voz do Congo, Organisateur de l’événement.

À l’après-midi du dimanche (06/09/2020), un groupe de plus de 80 Congolais résidant dans la ville de São Paulo au Brésil ont participé à un acte de solidarité à l’égard de la situation politique et sociale dans leur pays d’origine. Certains Brésiliens et ressortissants d’autres pays ont également participé à l’instar de l’Angola, de la Bolivie, du Sénégal, du Nigeria et du Pérou. L’événement a eu lieu à Largo da Batata, quartier ouest de la ville, espace traditionnel dans lequel les mouvements sociaux réalisent leurs activités. 

La grande représentation de la militance Congolaise vivante à São Paulo (Brésil) ont marqué leur présence: Pitchou Luambo, Prudence Kalambay, Sylvie Mutiene, Hortense Mbuyi et Claudine Shindany. (Photo : Alex Vargem)

En raison de la pandémie de Covid-19, les mesures sanitaires ont été prises et respectées par les organisateurs – les masques de protection et le gel hydroalcoolique étaient offerts aux participants avec la recommandation constante de maintenir la distance nécessaire. Tout le monde vêtus des t-shirts noirs en signe de deuil.


La manifestation politique intitulé “Le coût du silence” a dénoncé en portugais, en français, en Lingala, en swahili ainsi qu’en tshiluba (les langues parlées en République démocratique du Congo) les fréquentes violations qui ont lieu depuis des décennies : Nous, Congolais résidant au Brésil, sommes ici aujourd’hui pour commémorer et honorer plus de 6 millions de personnes qui ont été tuées et des millions de Congolais victimes de viols systématiques, de mutilations et d’autres formes de violence qui leur ont été infligées. Bien que la guerre ait officiellement pris fin en 2003, les Congolais continuent d’être tués, enlevés et violés par des milices à l’est du pays. Nous sommes ici pour montrer à la face du monde ce qui se passe dans notre pays, dit un extrait du manifeste lu pendant l’événement.

Prosper Dinganga, du collectif “A Voz Do Congo” lors de son discours de remerciement aux militants pour avoir participé à la manifestation. (Photo: Alex Vargem)

Performance Artistique

Un des points marquants (touchants) de la manifestation a été la performance de lartiste plastique Congolais Shambuyi Wetu, illustrant le sang versé et l’exploitation de minéraux, dont le coltant, le cobalt,… utilisé pour la fabrication de téléphone portables, ordinateurs, jeux vídeos et autres appareils électroniques, qui étaient exposés à la fois sur le pavé de la place et sur son propre corps couvert de sang.

Un autre artiste dépeint les injustices avec les morts, son visage couvert du drapeau congolais en tenue d’avocat, il tenait dans ses bras le Mapping Rapport, rapport élaboré par le Haut-Commissariat des Nations unies aux droits de l’homme, publié en 2010, qui met en évidence les décès et plus de 600 crimes( crimes de guerre, crimes contre l´humanité), graves violations de droit de l´homme, entre 1993 et 2003.

L’artiste plastique Shambuyi Wetu. (Photo: Alex Vargem)

Discours de dénonciation

L’un des faits marquant a été la dénonciation des viols systématiques utilisés comme arme de guerre, On ne peut pas se taire face à cette tragédie, ils tuent et violent à l’est de mon pays, il y a beaucoup d’enfants orphelins, c’est inacceptable”Prudence Kalambay, militante des droits de l’homme. 

Artiste congolais déguisé en avocat couvrant le visage avec le drapeau congolais tient le rapport de les Nations Unies sur les crimes comis
au pays entre 1993 et 2003.( Photo: Alex Vargem)

De même, l’avocate Hortense Mbuyi souligne que le monde doit savoir ce qui se passe en République Démocratique du Congo, la justice internationale, les organisations supranationales et le Brésil doivent avoir une position. Beaucoup meurent à cause de ce conflit, y compris des femmes, des enfants, … Ce sont des pertes de millions de vies. Un vrai génocide.

Pitchou Luambo, Hortense Mbuyi e Prudence Kalambay ont tenu des discours importants durant la manifestation. (Photo : Alex Vargem )

La journaliste Claudine Shindany a dénoncé les viols commis contre les femmes et a également interprété la manière dont la violence répandue dans certaines régions du pays cause des dommages aux familles.

Chaque jour, quelque chose se passe dans mon pays qui est en guerre. Qui est responsable de tout cela? Nous manifestons aujourd´hui ici pour apporter l’information à travers le monde, dit l’avocat et chef de cuisine, Pitchou Luambo. 

Les congolais chantent l’hymme nationale et demandent que justice soit faite à travers l’installation d’un tribunal international pour le Congo. Dénonçant le Génocide congolais inaperçu, Claudine Shindany au micro . (Photo:Alex Vargem)

Le médecin congolais Junior Kiakesa a lu un document contenant des points importants sur les conséquences de la colonisation européenne sur le continent, l’historique du conflit et le déplacement forcé qui se traduit par un flux massif des réfugiés congolais à travers le monde.

Black Lives Matter: les Congolais à travers cette acte ont rendus hommage à des millions de morts en République Démocratique du Congo. (Photo : Alex Vargem)

À la fin, les militants ont fait des révérences au mouvement Black Lives Matter , tous agenouillés et aux poings levés, ont observé une minute de silence en hommage aux millions de victimes du conflit dans leur pays d’origine. Tous ont chanté l’hymne nationale en français et ont chanté des chants successifs demandant justice.”

*Alex Vargem est docteur en sciences sociales à Unicamp, membre de la chaire Sérgio Vieira de Mello – Unicamp, avec plus de 18 ans de travail social auprès de divers groupes africains au Brésil.

Em crise ignorada, conflitos em Moçambique geram medo e deslocamentos forçados

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Casas queimadas por ataques de grupos armados em Cabo Delgado, Moçambique. (Foto: Padre Edegard Silva Júnior)

Pouco se fala de um cenário que assola milhares de vidas dia após dia. Na província de Cabo Delgado, no nordeste de Moçambique, milhares de pessoas vivem em uma guerra, com constantes ameaças e ataques brutais que partem de grupos armados do Estado.

O primeiro ataque aconteceu em 5 de outubro de 2017, na cidade de Mocímboa da Praia, por grupos até então desconhecidos. Em novembro do mesmo ano, algumas mesquitas acabaram sendo fechadas por suspeita de que a violência tenha surgido a partir delas. No entanto, a motivação e os mandatórios desses ataques seguem sem um esclarecimento pelo Estado.

Cabo Delgado é uma das províncias mais pobres de Moçambique, localizada no extremo nordeste do país. Sua capital é a cidade de Pemba, distante 2.442 km da capital, Maputo. A província, que conta com 2,3 milhões de habitantes, enfrenta uma guerra que já deixou muitos mortos e milhares de deslocados desde outubro de 2017.

No momento, cerca de 600 mil pessoas têm sido afetadas pelos ataques. A população é formada por pequenos agricultores e artesãos, em sua maioria sem envolvimento ideológico nem conflito religioso. 

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informa que ao menos 100 mil pessoas já foram deslocadas forçadamente desde o primeiro ataque. Segundo o porta-voz da agência Andrej Mahecic, a violência se espalhou para nove dos 16 distritos. “Grupos armados têm como alvo aleatório aldeias locais e aterrorizam a população local” afirma.

Ainda segundo Mahecic, alguns estão envolvidos no banditismo e outros são motivados por razões oportunistas ou ideológicas. No entanto, até o momento, não há informações claras de quem são os responsáveis pelos ataques, nem de um movimento do governo para controlar as ações terroristas. 

Motivação de ordem religiosa ou econômica

O padre Edegard Silva Júnior é Missionário Saletino brasileiro e trabalha na Missão de Muidumbe, na Diocese de Pemba. Acompanhando a rotina do povo em Cabo Delgado, o padre informou que é impossível saber das reais motivações, já que muitas aldeias estão abandonadas e em várias é proibida a entrada.

Segundo ele, o que se tem no momento são apenas hipóteses:

  • Algumas mortes que ocorrem estão sendo associadas à não adesão da proposta religiosa do estado islâmico. Na comunidade de Xitaxi, em 8 de abril deste ano, houve um massacre de 52 jovens que supostamente se recusaram a aceitar as propostas dos terroristas de entrarem em suas fileiras. Também aconteceu a violação e profanação de diversos templos católicos.
  • A província de Cabo Delgado é uma das mais ricas em gás natural. É onde está a ser feito o maior investimento para a construção da “Cidade do Gás”, na Península de Afungi. Os recursos petrolíferos do local são explorados por multinacionais, enquanto a população vive na pobreza, sem acesso à educação, aos cuidados da saúde e ao trabalho. Dessa forma, pode-se dizer que essa desigualdade econômica fomenta os pregadores do fundamentalismo islâmico, que veem um terreno fértil para sua expansão ou até mesmo grupos locais que desejam garantir uma fatia. Fala-se também de um controle da região em vista da riqueza de seu solo e oceano. Consequentemente, atacar as aldeias é uma forma de despovoar a região para se ter um melhor “controle” dessas riquezas. 

Tática de sobrevivência

Os insurgentes chegam nas aldeias e tendem a atacar pessoas inocentes. As vítimas são os pobres que vivem de forma muito simples, em casas de taipa, cobertas de palha. Com os constantes ataques, também foi criado uma estratégia em que alguém da comunidade bate o sino para alertar a população assim que chegam os grupos armados. No entanto, a tática nem sempre funciona. Nessa altura, cada família já sabe que deve fugir em direção ao mato. Os insurgentes queimam casas e tudo o que têm dentro delas. Às vezes, até pessoas são queimadas vivas ou mesmo decapitadas.

População em Cabo Delgado vive sob constante medo pelos frequentes ataques de grupos armados. (Foto: Padre Edegard Silva Júnior)

As aldeias são interligadas e, por isso, mesmo com poucos recursos, a comunicação acontece de forma rápida. O padrão de ataques faz com que toda a população viva modificando seus hábitos cotidianos. O horário das celebrações e das escolas são alterados, as pessoas voltam para casa bem cedo, temem ir sozinhas trabalhar na roça. Todos vivem sob constante medo, esperando como e onde será o próximo ataque.

A ação terrorista parece crescer e manusear armas mais pesadas e modernas. Em um dos ataques ao distrito de Mocímboa da Praia, terroristas entraram por terra e por mar, com forte arsenal bélico. Percebe-se também que o grupo de insurgentes vem aumentando, uma vez que jovens são recrutados em oferta de dinheiro – considerando a realidade de desemprego e de abandono.

Piora da situação

Em abril do ano passado, algumas áreas foram devastadas pelo ciclone Kenneth. A situação tornou a população local ainda mais dependente de ajuda.

O Acnur informa que a situação humanitária na província se deteriora rapidamente e as pessoas precisam urgentemente de ajudas básicas. O padre Edegard afirma que as aldeias se encontram abandonadas, as áreas de cultivo estão completamente destruídas, recursos como roupas e alimentos estão em escassez, as famílias e a vida comunitária estão desestruturadas, e a educação está comprometida.

Mãe observa seu lar destruído. (Foto: Padre Edegard Silva Júnior)

Diante do cenário, a agência de refugiados pede apoio internacional para ampliar a sua operação humanitária.

Impactos da pandemia

Ainda de acordo com Mahecic, “há situações em que mais de 20 pessoas são obrigadas a ficar numa casa com apenas duas camas”.

Como as escolas estão fechadas devido à pandemia do novo coronavírus, as autoridades moçambicanas têm transformado algumas instituições em centros de acolhimento, mas o risco da pandemia levanta desafios em províncias com um número expressivo de casos. No distrito de Metuge, pelo menos 10 mil pessoas estão abrigadas em escolas, segundo Samuel Chakwera, representante do Acnur.

*A reportagem foi realizada em parceria do MigraMundo com a Imprensa das Irmãs Scalabrinianas em São Paulo.


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Em sua 3ª edição, Festival Pangeia aborda cultura Afrodiaspórica nas Américas

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Logotipo Oficial da edição 2020 do Festival Pangeia. (Foto: Divulgação)

Evento voltado à cultura popular brasileira e às influências que partem das conexões com outros povos, o Festival Cultural Pangeia chega à sua terceira edição neste ano. Promovido pelo coletivo MisturArte, ele reúne artistas brasileiros, imigrantes e refugiados, com diversas apresentações e mesas de debate, lives, curtas-metragens, oficinas e exposições com linguagens artísticas variadas e estudos relacionados ao tema.

Neste ano o tema gira em torno da cultura Afrodiaspórica nas Américas. As atividades do evento, aprovadas pela 4ª edição do Fomento à Periferia, são voltadas à promoção de espaço de reflexão acerca de assuntos relacionados às conexões entre os continentes América e África.

Ao todo, são dez workshops e 18 apresentações de artistas de países diferentes, como Haiti, Cuba, Bolívia, Brasil, Venezuela, Colômbia, Costa Rica, Paraguai, Chile, Equador, Argentina e Peru. 

Com a pandemia do novo coronavírus, o evento foi readaptado, com a realização de atividades online. Os cursos abordam linguagens de dança, música, teatro, cinema e produção cultural. Clique aqui para mais detalhes sobre a edição deste ano.

Oficinas do Festival Pangeia 2020 (Arte: Diego Ferreira)

“Este ano tem sido uma nova experiência fazer o Festival Pangeia de forma online. O retorno tem sido bem positivo e motivador. A cada dia, sinto que o festival só tem a crescer e semear novas conexões mundo a fora”, diz Pauliana Reis, organizadora do Coletivo MisturArte.

Festival de curtas

Outra ação importante que passou pelo processo de remodelagem é o FIC Pangeia: a 1ª edição do Festival Internacional de Curtas. Ele é dedicado para a exibição e promoção de curtas-metragens, com assuntos dos mais diversos. O festival busca reunir obras de até cinco minutos de duração com a temática relacionada à produção audiovisual de realizadores residentes nas Américas ou na África.

As inscrições para o FIC Pangeia já estão abertas. O evento aceita filmes que abordem o cotidiano, filmes históricos, de práticas antirracistas, biográficos e muitas outras possibilidades, prezando a criatividade. Podem ser inscritas obras criadas especialmente para o festival ou as que já foram concluídas antes do presente chamamento, desde que sejam inéditas e não tenham sido exibidas ao público.

Inscrições abertas para o FIC Pangeia (Arte: Festival Pangeia)

Lembrando que haverá premiação para os filmes escolhidos. O Festival Internacional de Curtas conta com o apoio cultural das produtoras Play It Again, Nome Filmes e Zalika Produções.

Outras atividades

O coletivo MisturArte também mantém outras atividades online, como:

  • Lives espontâneas: toda semana, a equipe realiza conversas em formato de live por plataformas como Instagram ou Facebook com convidados para discutir temas pertinentes relacionados ao tema do festival. São abordados assuntos como arte, educação, periferia e realidades de outros coletivos próximos ou não do MisturArte;
  • Mesas de debate: mensalmente são realizadas rodas de conversa em formato de live com especialistas de assuntos primordiais para o Festival Pangeia. Já foram feitos debates sobre ‘Pessoas Pretas no Mercado Cultural’ e ‘A Influência da Cultura Afrodiaspórica nas Américas do Século XXI’. 
  • Estudos continuados: semanalmente, todos os integrantes do coletivo MisturArte se reúnem (de forma online) para estudos aprofundados das Américas e da África. Como a reunião é coletiva, todos têm espaço para trazer conteúdos a serem discutidos: desde livros, filmes/documentários, matérias jornalísticas até assuntos factuais.

“Um momento bem importante que gostaria de ressaltar são as nossas reuniões semanais de estudos e pesquisas, que tem fortalecido cada vez mais as ideias e conhecimentos do coletivo. Além disso, as mesas de debates e lives com artistas convidados têm reforçado ainda mais nossas pesquisas e entendimento sobre diferentes assuntos. Espero que o Festival Pangeia alcance pessoas além do oceano e que elas se sintam pertencentes desse momento de troca, conhecimento, felicidade, representatividade, cultura, estudos e informação que o Pangeia nos traz”, ressalta Pauliana.

Edições anteriores

Em 2016 foi realizada a 1ª edição, reunindo representantes da América do Sul. O evento aconteceu no Centro Cultural do Grajaú com o patrocínio do Programa VAI I, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. O festival contou com a participação de várias entidades. Dentre elas, o Centro Cultural Grajaú, o coletivo Quebramundo de audiovisual, a ONG Presença da América Latina (PAL), o Sarau das Américas e o coletivo The Paint Crew.

Apresentação Tinkus San Simon na 1ª edição do Pangeia. (Foto: Thamara Laje)

No total, foram seis workshops de linguagens diferentes; mesa de bate-papo com o tema ‘Políticas Públicas Culturais na América do Sul’; exposição ‘Origens’ com 14 artistas de diversas linguagens; quatro atrações musicais; 12 apresentações artísticas; um sarau e exibição de curtas ao ar livre. Além destas, destaca-se a exibição da curta-metragem ‘Por que o Brasil é o país que mata transexuais’, da diretora Bianca Vasconcelos, do Canal Brasil. 

Em 2017, mais uma vez em parceria com o Programa VAI I, a 2ª edição abordou a temática que envolve as Américas, no CEU Vila Rubi. Mantendo as parcerias do ano anterior, o eventou contou com workshops no CEU Quinta do Sol. O festival discutiu a noção de latinidade sob a perspectiva dos brasileiros. Houve, também, uma edição do Sarau das Américas, Live Paint, apresentações de DJs, exposição ‘Origens’, exibição do curta ‘Cracolândia, o caminho das pedras’, da diretora Bianca Vasconcelos, barracas de artesanatos e alimentação.

Apresentação do grupo Alma Guarani na 2ª edição do Pangeia.
(Foto: Bia Onofre)

O Festival Pangeia ainda está em curso e internamente no coletivo MisturArte. A ideia principal é sempre expandir, seja de forma concreta com pesquisas, parcerias com novos coletivos, ações e plataformas.


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Como a prorrogação de regularização de imigrantes em Portugal beneficia a comunidade brasileira

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O Largo de São Domingos, em Lisboa, acolhe um comércio informal marcado pela participação de diferentes nacionalidades - e que ajuda a refletir a atualidade migratória de Portugal. (Foto: Alana Moreira/MigraMundo)

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Em decisão publicada no último dia 02, o governo português prolongou até meados de 2021 a regularização de todos os migrantes com processos correndo no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) desde antes do dia 18 de março. Foi nesse dia em que o governo local declarou estado de emergência por conta da pandemia do coronavírus.

É o que informou o jornal português o Público após divulgação exclusiva ao jornal pelo gabinete da Presidência. A medida favoreceria até 300 mil pessoas, de acordo com as estimativas divulgadas pelo veículo.

Dados divulgados pelo governo português em janeiro indicavam a existência de cerca de 580 mil imigrantes vivendo no país europeu.

De acordo com texto, permite-se a autorização de residência onde se refere que, até que haja uma decisão final, “continua a considerar-se ser regular a permanência destes cidadãos em território nacional, beneficiando dos direitos ali referidos, por exemplo, para o efeito de acesso a serviços públicos”.

Medida ‘extremamente importante’

O MigraMundo conversou com a Casa do Brasil de Lisboa, associação que presta serviços à comunidade brasileira e outros migrantes em Portugal, que chamou a medida de “extremamente importante”.

“Ela evitou uma situação de precariedade ainda maior durante a pandemia de uma população que já era vulnerável em tempos normais, além de ter “colocado o migrante como sujeito no discurso político”, afirmou Cyntia de Paula, presidente da Casa do Brasil Lisboa, algo que ela considera fundamental em tempos que vê-se crescer os discursos xenófobos.

Estimativas locais indicam que a comunidade brasileira seja a maior entre as de imigrantes em Portugal, formada por pelo menos 150 mil pessoas. Nessa conta não entram os brasileiros que possuem dupla cidadania portuguesa ou de outro país da União Europeia.

“Daqui para frente a preocupação dos imigrantes, além das que ele compartilha com os outros cidadaos como as dúvidas sobre o futuro da economia, da circulação de pessoas, do mercado de trabalho, é saber se essas políticas implementadas agora vão se manter e se serão eficazes a longo termo”, afirmou De Paula.

“Além, claro, de esperar que o governo inclua os outros migrantes, que não tem processos de regularização ou que os tem, mas datados de depois do dia 18 de marco”, acrescentou ela, que estima ser milhares de brasileiros que figurariam entre os que ficaram de fora da medida.

A própria Casa do Brasil em Lisboa viu o número de atendimentos dobrar para 200 atendimentos por mês no período abril-maio deste ano.  “A comunidade brasileira é a maior comunidade estrangeira aqui e ela cresceu muito (…) E são justamente os recém-chegados, que  por não terem conseguido ainda se inserir no mercado de trabalho, os mais frágeis e que ficaram de fora dessa medida do governo.”

Acesso a direitos

Agora em situação regular, os brasileiros, assim como todos os outros migrantes que se encaixam entre os beneficiados pela medida, têm acesso gratuito à saúde, além de poderem se beneficiar de subsídios sociais como o seguro-desemprego.

Em anúncio feito em março, o ministro português da Economia e Transição Digital, anunciou a redução do número de contribuições, de 12 para 6, para pedidos de seguro-desemprego.  

O acesso ao subsídio é algo que pode ser importante para o migrante. “O brasileiro migrante, apesar de ter nível superior, como é o caso de boa parte dos que chegam por aqui, vai acabar trabalhando trabalha no setor de serviços, como em restaurantes, bares etc. E o salário gira em torno de 700 euros por mês, o que não é suficiente para pagar um quarto em Lisboa, por exemplo, que custa entorno dos 400 euros”, explicou De Paula.

“Com a regularização, muitas pessoas saíram do ‘limbo’, pois apesar de estarem trabalhando, estarem contribuindo, elas não podiam ter acesso a esses direitos justamente porque esperavam a decisao final do governo português sobre seus pedidos de regularizacao”, explicou ela.

Antes, a espera pela regularização tomava meses ou até anos. “Parar marcar entrevista tem gente que leva três, quatro meses (…) E o  que acontece muito é que na hora da entrevista, eles podem pedir um outro documento, e ai você precisa ir atrás do documento e tentar agendar uma segunda entrevista”, explica.

Desburocratização e ‘cara na porta’

Ao regularizar automaticamente milhares de migrantes, Cyntia estima que o Serviço para Estrangeiros e Fronteiras tenha ganhado em eficácia. “Hoje um pedido de residência é muito mais rápido para ser atendido do que antigamente. Antes, demorava-se três meses para você ser atendido, depois você tinha que esperar pela decisão e ainda mais tempo para ir retirar a sua carta de residente. Hoje já vemos casos de pessoas que o receberam em 15 dias.”

Apesar da regularização ser automática em termos de lei e registro, muitos migrantes “deram com a cara na porta” em alguns órgãos. “Muitos demoraram para entender que esses migrantes agora estavam regularizados e tinham direitos; muitos brasileiros daqui da associação deram com a cara na porta”, afirmou.


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