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quarta-feira, julho 1, 2026
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A situação dos imigrantes na Itália como sinal de declínio de uma sociedade (parte 3)

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Mulheres imigrantes estão ainda mais vulneráveis à violência doméstica em meio à pandemia por conta de diferenças culturais, linguísticas e legislativas. (Foto: Stockphoto)

Por Arnaldo Cardoso

No último dia 30 de julho, Dia Internacional Contra o Tráfico de Seres Humanos, a ONU estimou em mais de 21 milhões de pessoas o número de vítimas desse crime em todo o mundo. Dada a sua natureza, há possibilidade desse número ser bem maior. A organização não governamental de origem britânica, Save the Children – que recentemente foi alvo de ataques de milícias digitais da extrema-direita norte-americana – que atua em mais de 100 países estima ser mais de 40 milhões o total de vítimas de tráfico, dos quais 10 milhões seriam menores de 18 anos.

O tráfico de pessoas é caracterizado como “recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para o propósito de exploração” pela UNODC e assim definido em protocolo específico sobre a matéria e complementar à Convenção de Palermo, de 2004.

Dentre as formas de exploração dessas pessoas, a prostituição está entre as mais numerosas, e a Itália, foco da presente pesquisa, ocupa lugar destacado nessa matéria.

Um importante estudo da OIM (Organização Internacional para Migrações) de 2016 apontou que, estando as redes internacionais de tráfico e prostituição atuando na Itália há mais de três décadas elas estão cada vez mais organizadas, e a demanda é crescente por mulheres cada vez mais jovens.

Nos relatórios do Istat (Instituto Nacional de Estatística) a prostituição figura junto com a produção e comércio de drogas e o contrabando de cigarros, compondo a “economia subterrânea” ou “não observada” do país, na categoria de “bens e serviços ilegais”, totalizando em 2017 o montante de 18,9 bilhões de euros.

No mercado italiano da prostituição as mulheres nigerianas, chinesas e de alguns países do leste europeu são a maioria.

O mencionado estudo da OIM apontou que só no primeiro semestre de 2016 já haviam ingressado na Itália cerca de 3,6 mil mulheres nigerianas sem documentos ou com documentos falsos e cerca de 80% delas foram aliciadas em redes de prostituição.

Em 2019, observadores da OIM que operam na Sicília passaram a registrar um aumento expressivo da chegada por mar de mulheres da Costa do Marfim.

Origens e níveis de exploração sexual

De acordo com a origem e os meios através dos quais se dão o ingresso em território italiano, o(a) imigrante que passa a trabalhar na prostituição no país é submetido a diferentes níveis de exploração/dependência.

Da Nigéria

No auge da crise migratória de 2015-6 a OIM mapeou o tráfico de mulheres nigerianas para a Itália, suas rotas e conexões. Simona Moscarelli, especialista de combate ao tráfico humano da OIM, em entrevista ao jornal britânico The Guardian declarou “Os nossos indicadores apontam que a maioria destas mulheres está sendo deliberadamente trazida [para a Itália] com propósitos de exploração sexual.”

Por ocasião da divulgação dos resultados da investigação de 2016 da OIM o então vice-procurador de Agrigento, na Sicília, Salvatore Vella que realizou em 2014 a primeira grande investigação sobre as redes de tráfico de mulheres nigerianas para a Itália confirmou que “os centros de recepção de migrantes e refugiados estão cada vez mais sendo usados como pontos de recolhimento pelas redes de tráfico humano” e sentenciou “os mafiosos vêm simplesmente ao campo e escolhem as mulheres que querem. Tão fácil como ir ao supermercado”.

Mesmo após essas investidas de autoridades públicas e organizações da sociedade civil esse fluxo não cessou. As viagens clandestinas da Nigéria até a Itália, em sua maioria com escala na Líbia (sobre esse particular trataremos em próximo artigo), chegam a custar 40 mil euros para a migrante.

A maioria dessas mulheres tem entre 19 e 25 anos, são analfabetas e de famílias numerosas e muito pobres. Vindas de uma sociedade onde há um peculiar sincretismo religioso entre o cristianismo, o islamismo e o animismo, muitas dessas mulheres antes da viagem para a Europa são compelidas a um ritual de vodu conhecido como juju, quando é feito um juramento de obediência àquele que a “ajudou” na viagem e compromisso com o pagamento da dívida, que pode significar a necessidade de realização de 4 mil “serviços sexuais”.

Um relatório recente da Save the Children apontou que nos primeiros 6 meses de 2020, cerca de mil novas vítimas de tráfico e exploração de menores de 18 anos foram interceptadas na Itália, das quais 87% eram nigerianas e 5% delas menores de 14 anos.

Agravemento do contexto na pandemia

No contexto de vigência das medidas de  emergência sanitária da Covid-19 a situação dessas imigrantes ganhou traços ainda mais dramáticos como mostrou matéria de Lorenzo Tondo publicada no último 10 de julho pelo jornal The Guardian da qual extraio o seguinte trecho “De acordo com testemunhos de voluntários, assistentes sociais e ongs, durante o prolongado e rigoroso bloqueio de três meses da Covid-19, redes de tráfico abandonaram mulheres e seus filhos, que não puderam sair de casa ou do trabalho e ficaram sem comida e dinheiro para pagar o aluguel. Dado seu status ilegal, elas não tiveram direito a assistência financeira ou auxílios de desemprego concedidos por programas governamentais de emergência.” Em recente matéria do site italiano Internazionale.it com o título “Os dias difíceis das profissionais do sexo” encontram-se duros relatos sobre a prostituição na Itália em tempos de pandemia.

Andrea Morniroli, da cooperativa Dedalus, porta-voz da plataforma nacional de combate ao tráfico avaliou que “A situação é trágica: alguns dias atrás, fomos informados de um caso de quatro jovens mulheres nigerianas vítimas de tráfico que permaneceram trancadas em casa sem comida, porque ‘Madame’ não quer deixá-las sair por medo de ficarem doentes”.

Morniroli conta ainda que “As prostitutas nigerianas desapareceram das ruas: são extremamente frágeis, muitas vezes não sabem ler e escrever, não sabem como acessar ferramentas on-line e não têm clientes regulares procurando por elas. E assim elas não podem ganhar nada: elas não pagam a dívida, e acima de tudo, elas não têm dinheiro para comer. A situação é diferente para as meninas do leste, que costumam ter um ‘protetor’: algumas delas são forçadas a sair para a rua mesmo na pandemia, colocando em risco a si e a seus clientes. Finalmente, há as prostitutas chinesas: elas também receberam ordens de ficar em casa e não ter contato com os italianos”.

Do leste europeu

Nos primeiros dias de junho de 2020 a polícia italiana desbaratou uma organização criminosa com sócios albaneses e italianos que exploravam prostituição e venda de drogas na pequena comuna de Castelnovo ne’Monti, de 10 mil habitantes, província de Reggio Emilia, na rica região da Emília Romagna. A operação antecedida por quatro anos de investigações apurou que dentre outros crimes seus operadores comandavam a exploração sexual de dez jovens mulheres do leste europeu, cujos serviços eram vendidos ao longo da Via Emilia. na fronteira entre as províncias de Reggio e Parma.

A cada rede de prostituição desmantelada mais informações passam a ser disponibilizadas para a orientação de novas operações policiais. É importante frisar que essas operações são reativas, não cobrindo o vazio ou má concepção e implementação de políticas públicas dirigidas para os imigrantes. Em março de 2018, depois de quatro meses de investigações a polícia de Bolonha fechou duas casas de massagem que exploravam seis imigrantes do leste europeu em serviços sexuais, uma em Calderara di Reno e outra na via del Gomito. Uma das unidades já havia sofrido investigações em 2014.

Nas cidades de Bolonha e Milão investigações policiais já identificaram e desmontaram muitas dessas redes de prostituição. Se olhada pelo ângulo da paralisação da ação ilegal de tráfico e exploração de imigrantes o desmantelamento pela polícia dessas redes é positiva, mas o fato da imigração ser controlada pelo aparato policial dos Estados contribui para a criminalização do imigrante, assim como para a corrupção policial e a precarização ainda maior da vida do imigrante irregular.

De acordo com Wermuth & Aguiar (2017) pode-se afirmar que “[…] a Itália, desde a década de 1990, vive mudanças em suas políticas migratórias que transformaram o tratamento e a percepção dos processos migratórios, especialmente no que diz respeito à política de repressão e criminalização dos imigrantes”.

Da China

O crescimento da presença de prostitutas chinesas e das respectivas redes chinesas de prostituição na Itália tem levado pesquisadores, ongs e agentes públicos a se dedicarem à compreensão de seu funcionamento visando intervenções.

Pelo quanto já se sabe sobre essas redes chinesas, elas operam com marcado senso comercial, segmentando o mercado e a oferta dos serviços. Numa primeira segmentação se dá a divisão entre clientes chineses e italianos, atentando para as preferências de cada grupo. Em Roma já se identificou uma rede que operava com central de atendimento, agendamento, anúncios em revistas de publicidade – “massagens completas para homens” – e onze apartamentos disponíveis.

A maioria dessas mulheres chinesas têm em torno de 20 anos e são provenientes da zona rural do norte da China. A entrada na Europa se dá especialmente por Paris, com visto de turista. No mercado do sexo pago as prostitutas chinesas são conhecidas pelo seu alto grau de sujeição.

Em março de 2016 o desmantelamento pelas polícias de Roma e de Bolonha de uma rede de prostituição que se apresentava como “casas de massagem” e que operava em toda a Itália revelou as intrincadas relações que estruturam essas redes. A empresa com sede em Bolonha recrutava garotas na China que depois passavam por triagem em várias regiões da Itália.

Nos últimos anos muitas dessas redes de prostituição chinesa foram desmanteladas. Em novembro de 2019 foi a vez de uma rede com conexões entre as cidades de Modena e Pescara – distantes 400 quilômetros – revelando um esquema que contava com call center, 21 apartamentos, três empresas do ramo de “massagens” e muitas jovens mulheres chinesas que trabalhavam 7 dias por semana, entre 7 h e 2 h da madrugada, com liberdade de circulação e autonomia restringidas.

Em 2007 por iniciativa da administração pública da região da Emilia-Romagna (municípios de Piacenza, Fidenza, Parma, Reggio Emilia, Modena, Bolonha, Ferrara, Cesena, Ravenna e Rimini) teve início um projeto – depois de outros implementados em meados dos anos 1990 – visando o conhecimento e intervenções sobre as redes de prostituição, desta vez as chinesas, operantes na região, com foco nas atividades que ocorrem em espaços fechados (apartamentos e “casas de massagem”). Batizado de Projeto Invisível (Progetto Invisibile) e reestruturado em 2014, visava desde o início desvendar as articulações e o cotidiano dessa teia de relações “invisíveis”, mas que ocorrem sob os olhos de todos.

As intervenções se estruturaram principalmente nas áreas da saúde e segurança, com foco em prevenção de doenças (DST) e assistência jurídica contra “exploração severa”. Os propósitos de regularização da situação de imigrantes irregulares e do enquadramento legal de negócios do “entretenimento e saúde” também integram o projeto.

Como informa a prefeitura de Modena, gestora principal do projeto [...] “um conjunto de princípios e avaliações encontrou expressão plena dada a participação de autoridades locais

e entidades privadas afiliadas, com o apoio de redes locais formadas por órgãos de aplicação da lei, autoridades judiciárias, serviços sociais e de saúde, entidades do terceiro setor e sindicatos”.

Embora o projeto informe a motivação de compreender comportamentos e culturas, a atenção do projeto sempre se voltou para os sujeitos organizadores, operadores e ofertantes do “serviço” e não para os demandantes/consumidores.

Perspectiva do cliente

A prostituição, tradicionalmente encarada como problema para gestores públicos das áreas de segurança e saúde, e que muitas vezes figura na pauta de grupos conservadores, raramente é abordada na perspectiva do cliente, da demanda do mercado do sexo pago.   

Por essa perspectiva uma primeira indagação a ser feita é: por que apesar do fato das relações sexuais antes do casamento – especialmente em países ocidentais –  serem hoje muito difundidas e normalizadas – muito em função dos avanços da liberdade sexual e da maior igualdade de gênero – o sexo pago é um fenômeno crescente e não decrescente?

E o que dizer se juntarmos a essa questão o fato de que em países como a Itália, o mercado do sexo pago é constituído em sua maioria pela oferta de mão-de-obra estrangeira, proveniente especialmente de países pobres?

A socióloga italiana Luisa Leonini, professora e diretora do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Mulheres e Diferenças de Gênero da Universidade de Milão, acompanha com atenção as variações desse fenômeno na Itália desde o final da década de 1990 quando coordenou uma pesquisa sobre o mercado do sexo pago em Milão, aplicando entrevistas em profundidade com os clientes de prostitutas.

Em seu “Partiamo dalla domanda” (Partamos da demanda) de 2007, Leonini nos lembra que são várias as facetas do sexo pago, dentre elas a prostituição feminina, a pedofilia, a prostituição homossexual, a propagação da pornografia, sites e chats de Internet.

Quanto a extensão e a qualidade do fenômeno, sua pesquisa se alinhou com um estudo de 2002 realizado por Ambrosini – conhecido especialista em problemas migratórios – ao estimar em cerca de 30 mil as prostitutas estrangeiras que trabalhavam nas ruas do país naquele momento. Hoje esse número é certamente maior.

De acordo com Leonini “em média uma prostituta atende cerca de dez clientes por dia, o que multiplicado por 30 mil prostitutas na rua o que permitiu estimar a extensão do fenômeno. A esse cálculo é necessário acrescentar o fenômeno do sexo pago em locais fechados, mais difícil de quantificar precisamente porque não é visível. A pesquisadora sentencia que o fenômeno do sexo pago pode ser definido “como um fenômeno de massa que envolve uma enorme quantidade de pessoas”.

Do referido estudo destacamos abaixo seus principais achados:

  • o sexo pago pode ser entendido como um “costume” popular e difundido, que faz parte, de certa forma, “de ser homem na Itália”;
  • é essencial compreender o papel do dinheiro, pois desempenha um papel central na dinâmica relacional desse tipo de consumo: é uma forma de poder que permite ao seu titular estabelecer as regras do jogo; é a certeza, por exemplo, como muitos clientes nos disseram, de poder escolher; é o poder de pagar e conseguir o que se deseja sem ter que explicar, negociar, se envolver;
  • um dos elementos fundamentais na relação entre clientes e prostitutas está precisamente ligado ao desequilíbrio de poder que o dinheiro confere a quem o detém, para estabelecer condições e relações com os outros;
  • os clientes das prostitutas não se interessam pelas pessoas, não procuram uma interação ou relacionamento com o outro;
  • os clientes das prostitutas não pedem o nome, não perguntam a idade, não perguntam de onde vêm, não ligam se são imigrantes regulares ou irregulares, se são menores ou adultas: compram um serviço.

Achados como os acima destacados da inusual abordagem do fenômeno da prostituição na Itália combinados com dados e históricos recentes como os reunidos neste artigo, ao revelarem o entrelaçamento da prostituição com a dinâmica migratória, os papéis estabelecidos e comportamentos/valores que modelam relações socio-políticas, reforçou-se a hipótese principal de que a situação dos imigrantes na Itália torna evidente além das violências, um processo de intensificação de fatores nativos que tem posto em curso um declínio social no país, .

(No próximo artigo dessa série trataremos das implicações de disposições legais sobre migração na Itália, dos efeitos danosos da criminalização da imigração e do imigrante e da disputa política e construção de narrativas acerca dos valores constitutivos do povo italiano.)

Arnaldo Cardoso, cientista político, pesquisador e professor universitário.

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Bolívia confirma que comunidade no exterior poderá votar na eleição de outubro

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Bolivianos e bolivianas protestam em frente ao consulado do país em São Paulo pelo direito de votar nas eleições gerais da Bolívia durante a pandemia. (Foto: Igor Galvão/Divulgação)

Após mobilizações das comunidades no exterior, o atual governo boliviano confirmou a participação dessa população na próxima eleição presidencial, marcada para 18 de outubro.

A informação é do próprio organismo eleitoral boliviano e foi divulgada na última quarta-feira (9), conforme mostrou também o portal Bolívia Cultural.

“Em cumprimento do direito constitucional e democrático, os bolivianos residentes no exterior poderão dar seu voto nas Eleições Gerais de 18 de outubro. Esta modalidade está contemplada em 30 países nos quais Bolívia tem representação diplomática”, diz o informe.

A polêmica teve início no final de agosto, quando vazou um documento da chancelaria boliviana no Brasil. Ele apontava que o governo não via condições de organizar o pleito no exterior por conta do novo coronavírus (Covid-19).

No entanto, Entre pessoas da comunidade boliviana no exterior, como no Brasil, esse ato foi visto como uma manobra política e um ataque à democracia. Isso porque o eleitorado boliviano no exterior corresponde a 4,7% do total, e no qual predomina o apoio ao MAS (Movimento ao Socialismo), partido do ex-presidente Evo Morales. Ele deixou o poder em 2019, após 14 anos de mandato.

Marcada para 18 de outubro, a eleição ocorrerá quase um ano depois do pleito original, anulado por suspeita de fraude, e no qual Morales tinha sido eleito para um quarto mandato. Desde então, o país vive uma instabilidade política com a renúncia de Evo Morales e com a autoproclamação da senadora Jeanine Añez, acusada de golpe.

Desde 2009 a comunidade boliviana que vive no exterior tem direito a voto nas eleições gerais.

No que diz respeito aos votos, segundo a apuração oficial da eleição de outubro de 2019, 70% dos bolivianos que vivem no Brasil votaram pela reeleição do ex-presidente Evo Morales.

Protestos

No último dia 2, cerca de 60 bolivianos e apoiadores se concentraram em frente ao Consulado da Bolívia em São Paulo, mas não foram atendidos pelo cônsul José Luis Bravo Balcázar.

A comunidade participante reivindicava o diálogo sobre o direito à realização das eleições com a autoridade consular que está no cargo temporariamente e foi enviada pelo governo de Añez — que trocou diplomatas no Brasil e em outros países desde que se autodeclarou presidente.

Ocorreram ainda manifestações semelhantes da comunidade boliviana em outros países, o que pressionou o atual governo a se manifestar publicamente.


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Congoleses reforçam Black Lives Matter com ato em SP e chamam atenção contra genocídio no país natal

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Congoleses em ato em São Paulo pedem o fim do genocídio no país de origem e lembram o movimento global Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) Foto: Alex Vargem

Por Alex André Vargem*
Leia também em francês

“Precisamos mostrar ao mundo e aos brasileiros o que acontece na República Democrática do Congo. Já são mais de 6 milhões de mortes em 20 anos. Chega de genocídio! A Paz é fundamental!”, frisa o ativista congolês Prosper Dinganga, do coletivo A Voz do Congo. Ele foi o organizador de um ato que lembrou essa realidade ainda pouco conhecida e que ocorreu no último domingo (6) no Largo da Batata, em São Paulo.

Mesmo com forte sol ao longo da tarde, um grupo de mais de 80 congoleses residentes na cidade de São Paulo participou do ato de solidariedade em relação a situação política e social no país de origem. Alguns brasileiros e nacionais de outros países também deram seu apoio – como Angola, Bolívia, Senegal, Nigéria e Peru.

O evento foi realizado no Largo da Batata, zona oeste da cidade, tradicional espaço no qual movimentos sociais realizam suas atividades. Por conta da pandemia da Covid-19, medidas de segurança foram tomadas pelos organizadores – máscaras de proteção e álcool gel eram ofertados aos participantes com a constante recomendação de distanciamento.  Todos estavam com camisetas pretas em sinal de luto, com dizeres sobre a situação do país.

As grandes representações congolesas que moram em São Paulo marcaram presença. Pitchou Luambo, Prudence Kalambay, Sylvie Mutiene, Hortense Mbuyi e Claudine Shindany.
(Foto: Alex Vargem)

“O Custo do Silêncio”

O ato, denominado “O custo do silêncio”, denunciou em português, francês e Lingala (uma das línguas faladas na República Democrática do Congo) as frequentes violações que ocorrem há décadas no país.

“Nós, congoleses residentes no Brasil, estamos aqui hoje para relembrar e homenagear as mais de 6 milhões de pessoas que foram mortas e milhões de congoleses tornaram-se vítimas de violação sistemática, mutilação e outras formas de violência que lhes foram infligidas. Embora a guerra tenha oficialmente terminado em 2003, os congoleses continuam a ser mortos, raptados e violados por milícias no Leste do Congo. Estamos aqui para dar visibilidade ao que acontece em nosso país”, diz um trecho do manifesto lido durante o evento.

Prosper Dinganga, do coletivo A Voz do Congo, em sua fala de agradecimento a presença dos ativistas no ato. (Foto: Alex Vargem)

Um dos pontos tocantes da manifestação foi a performance do artista congolês Shambuyi Wetu, retratando o sangue derramado, a violência e a exploração de minérios, entre os quais, o Coltan e Cobalto, utilizado para a fabricação de celulares e aparelhos eletrônicos, que estavam expostos tanto no asfalto como no corpo do artista em meio ao sangue.

O artista Shambuyi Wetu. (Foto: Alex Vargem)

Outro artista retratava as injustiças com as mortes. Ele estava com uma bandeira da República Democrática do Congo que cobria o seu rosto, vestido com uma beca de advogado, e segurava o Mapping Rapport. O relatório, elaborado pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU e lançado em 2010 (acesse aqui), evidencia as mortes e os mais de 600 focos de conflitos entre 1993 e 2003.

Artista congolês faz performance com uma bandeira no rosto, beca de advogado e relatório da ONU sobre violações e conflitos na República Democrática do Congo.
(Foto: Alex Vargem)

Participação feminina

Um dos destaques foi a denúncia em relação aos estupros sistemáticos utilizados como arma de guerra, “Não podemos nos calar diante desta guerra, estão matando e estuprando na parte leste do meu país, há muitas crianças órfãs, isso é inaceitável”, aponta a modelo e ativista de direitos humanos Prudence Kalambay.

“O mundo deve saber o que se passa lá, a justiça internacional, as organizações supranacionais e o Brasil tem que ter uma posição. Muitos morrem nesta guerra, inclusive mulheres. São perdas de milhões de vidas. Há um genocídio em minha terra”, acrescentou a advogada Hortense Mbuyi.

A jornalista Claudine Shindany denunciou as violações contra as mulheres e também fez uma interpretação de como a violência propagada em algumas regiões do país produz danos as famílias.

Pitchou Luambo, Hortense Mbuyi e Prudence Kalambay, fizeram falas importantes no ato. (Foto: Alex Vargem)

Referência a Black Lives Matter

“Todos os dias acontece alguma coisa no meu país que está em guerra. Quem é o culpado de tudo isso? Fazemos o ato aqui para trazer a informação para todo o mundo”, indaga o advogado e chefe de cozinha, Pitchou Luambo.

Congoleses cantam o hino nacional e pedem justiça e o fim do genocídio. Claudine Shindany inicia o canto de justiça, entoado por todas e todos os presentes. (Foto: Alex Vargem)

Já o médico congolês Junior Kakiesa, leu um documento com pontos importantes sobre as consequências da colonização europeia no continente, o histórico do conflito e o deslocamento forçado que resulta em fluxo massivo de refugiados congoleses pelo mundo.

Ao final, os ativistas fizeram reverências ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), todos ajoelhados e com punhos levantados, fizeram 1 minuto de silêncio em homenagem às milhões de vítimas do conflito em seu país de origem. Todos cantaram em francês o hino nacional e entoaram sucessivos cantos pedindo justiça.

Black Lives Matter: Congoleses e a homenagem aos milhões de mortos na República Democrática do Congo. (Foto: Alex Vargem)

* Alex Vargem é doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro da Cátedra Sérgio Vieira de Mello – Unicamp, com mais de 18 anos de trabalho social junto a diversos grupos africanos no Brasil.


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Bolivianos no Brasil se mobilizam para garantir direito de voto do exterior e participar de eleição

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Bolivianos protestam em frente ao consulado do país em São Paulo pelo direito de votar nas eleições gerais da Bolívia durante a pandemia. (Foto: Igor Galvão/Divulgação)

Depois que um documento da Embaixada da Bolívia veio a público em 28 de agosto, dizendo que nenhum boliviano em solo brasileiro poderia votar nas eleições presidenciais, a comunidade boliviana se mobilizou para garantir o direito de votar.

A Embaixada, dirigida por Wilfredo Rojo Parada, e o Consulado em São Paulo justificaram a informação alegando dificuldades logísticas e barreiras sanitárias para organizar o pleito; a comunidade, por outro lado, diz se tratar de um ataque democrático.

Marcada para 18 de outubro, a eleição ocorrerá quase um ano depois do pleito original, anulado por suspeita de fraude. Desde então, o país vive uma instabilidade política com a renúncia de Evo Morales, que caminhava para seu quarto mandato, e com a autoproclamação de Jeanine Añez, acusada de golpe.

Eleições anteriores

Bolivianos e bolivianas que vivem no exterior obtiveram direito ao voto em 2009. Desde então, nas quatro eleições realizadas, o Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales, teve uma ampla vitória em relação aos seus opositores.

Em conversa com o portal Opera Mundi, Mirna Chávez, do Movimento Wiphala de São Paulo frisou a importância do voto daqueles que estão expatriados. “O voto no exterior representa 4,7% do eleitorado boliviano, 90% concentrado em quatro países: Argentina (161.057), Espanha (72.602), Brasil (45.793) e Chile (30.943)”, pontuou.

Dos mais de 45 mil nacionais que residem no Brasil, 44.232 (96%) se encontravam em São Paulo nas eleições do ano passado, de acordo com as organizações bolivianas. Os demais estavam nos estados do Acre, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Rondônia.

No que diz respeito aos votos, segundo a apuração oficial da eleição de outubro de 2019, 70% dos bolivianos e bolivianas que vivem no Brasil votaram pela reeleição do ex-presidente Evo Morales.

Protestos

Na última quarta-feira (2), cerca de 60 bolivianos e apoiadores se concentraram em frente ao Consulado da Bolívia em São Paulo, mas não foram atendidos pelo cônsul José Luis Bravo Balcázar. Os participantes reivindicavam o diálogo sobre o direito à realização das eleições com a autoridade consular que está no cargo temporariamente e foi enviado pelo governo de Añez — que trocou diplomatas no Brasil e em outros países desde que se autodeclarou presidente.

O ato sucedeu um de caráter similar que havia acontecido no dia anterior. Em conversa com o MigraMundo, Daniela Cuajera, que faz parte da Federação de Residentes e Associações de Bolivianos no Brasil (FRABB) disse que estava marcada para às 15h do dia 1º de setembro uma conversa com Bravo, mas que o fechamento do consulado e o cancelamento da reunião não foram informados. Segundo ela, o mesmo aconteceu na quarta-feira.

“O consulado que seria o único órgão governamental em São Paulo que representa a comunidade não fez nenhum tipo de posicionamento ao tema, mesmo sabendo que tinha pessoas organizando as manifestações. Podemos ver que não existe o diálogo da parte deles, mas que a comunidade queria e ainda quer dialogar.” explicou Cuajera.

Jobana Moya Aramayo, membra fundadora da Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, coletivo que faz parte do Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano, afirmou ao MigraMundo que a representação consular é a única figura legal que existe para a comunidade boliviana como elo com o governo transitório da Bolívia e, por isso, vê como fundamental a existência de uma mediação.

O debate

Em conversa com o jornal Folha de S.Paulo, o embaixador Parada disse estar esperando a posição dos seis consulados em outras cidades brasileiras para informar ao Ministério das Relações Exteriores boliviano das condições para a realização das eleições. Cabe ao MRE da Bolívia comunicar o Tribunal Supremo Eleitoral, o qual tomará a decisão final.

Segundo o embaixador, situação não é favorável para que ocorra a votação, uma vez que escolas estão fechadas e aglomerações devem ser evitadas. Questionado se a Embaixada avalia outros tipos de espaço para receber os eleitores, ele respondeu que não existe experiência a esse respeito.

Em entrevista realizada em 1º de setembro por Bravo à Honda 10, rádio da comunidade boliviana no Brasil, o cônsul afirmou que das 15 escolas onde se deveria realizar o pleito, 8 estão fechadas, o que dificultou a entrega de cartas de solicitação do espaço pelo consulado. Além disso, uma já teria negado o pedido, enquanto as demais ainda não teriam respondido.

Para a comunidade, a questão das escolas não é motivo suficiente para se cancelar as eleições. “Não vejo como problema , pode ser em pontos estratégicos, como Penha, [rua] Coimbra, Jardim Brasil, Carapicuíba, Guaianases, Itaquaquecetuba”, pontuou o ator Juan Cusicanki que mora há 48 anos no Brasil. Todos os locais citados por ele são bairros de São Paulo e cidades da região metropolitana que contam com população expressiva de bolivianos e bolivianas.

“Há 10 anos os bolivianos que moram fora do país conquistaram o direito ao voto no exterior e as primeiras eleições eram feitas em locais públicos que a comunidade frequentava e não eram principalmente escolas, um exemplo é o memorial da América Latina que fica perto da estação Palmeiras Barra Funda”, complementa Cuajera.

Marcela Farfán Recchia, boliviana-argentina professora e diretora de teatro, trabalhava na Embaixada da Bolívia em Buenos Aires (Argentina) durante as eleições de 2010. Ela recordou que espaços abertos, como centros esportivos, eram usados nos pleitos. Para ela, se a representação consular da Bolívia quisesse dialogar, estratégias e alternativas poderiam ser debatidos com a coletividade boliviana, mas essa falta de diálogo é proposital.

“É uma desculpa, uma estratégia para justificar a não realização das eleições e não votação dos bolivianos e bolivianas que estão no Brasil”, resume a professora, que reside no Rio de Janeiro.

Cuajera também vê interesse político na posição do atual governo boliviano.

“Acredito que tenha um jogo de conveniência política que não quer mostrar sua cara, e por isso utiliza outros meios para tentar impossibilitar o voto dos bolivianos aqui no Brasil alegando o principal problema a pandemia. Sabemos que isso não é totalmente verdade pois as eleições municipais irão acontecer no mês de novembro, e que para isso estão se reforçando as ações para diminuir o índice de contágio no tempo da eleição” comentou Cuajera ao MigraMundo. “Porque por falta de verba não pode ser! Seria absurdo pois imagino que tinha a distribuição dos custos com eleições nos mais de 30 países aptos para o voto dos bolivianos”, completou.

Parada nega que a pandemia esteja sendo usada como meio para impedir o voto da comunidade. “Somos de um governo legítimo e constitucional e valorizamos a democracia e que todo mundo vote. Mas temos que seguir as normas do país anfitrião.”

Para o ex-cônsul boliviano no Brasil e cientista social José Luiz Mendez Chaurara (Lucho), “o objetivo central da autoproclamada presidente Áñez neste momento é fazer com que os bolivianos que se decidiram majoritariamente pelo MAS não votem em países como o Brasil, a Argentina e a Espanha”. “Especificamente em relação à Argentina, que dá todas as garantias para a realização do pleito, e onde 83% dos votantes optou pelo MAS”, explanou Chaurara ao Opera Mundi.

Pronunciamentos

Como maneira de expressar apoio aos bolivianos e às bolivianas residentes no país, o Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe fez a realização de ato virtual e lançamento do “Manifesto do Comitê Brasileiro em Solidariedade Ao Povo Boliviano”. De acordo com o grupo, assim como no Brasil e em outros países da América Latina e do mundo, o avanço da extrema direita é também uma realidade na Bolívia. 

Luis Arce Catacora , o candidato do MAS-IPSP à presidência da Bolívia – Evo Morales vive atualmente na Argentina como refugiado após sua renuncia em decorrência das acusações de fraudes e da realização de protestos violência pelo país -, se posicionou sobre as ameaças ao direito ao voto nas redes sociais:

“Exigimos respeito pelo direito político de voto de nossos compatriotas bolivianos no Brasil e no resto dos países onde a votação está habilitada. O TSE Bolívia deve garantir esse exercício democrático adaptando seus protocolos às normas de biossegurança de cada país.”

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A situação dos imigrantes na Itália como sinal de declínio de uma sociedade – parte 2

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Porta Di Lampedusa, monumento erguido em homenagem aos migrantes que perdem a vida tentando entrar na Europa. Crédito: Reprodução/Global Project

Por Arnaldo Cardoso*

Os dramáticos naufrágios de barcos de migrantes no canal da Sicília, predominantemente provenientes de países do norte da África como Líbia (ex-colônia italiana) e Tunísia (ex-protetorado francês), registrando muitas vezes centenas de mortes,  cristalizaram na percepção de boa parte dos cidadãos italianos e da opinião pública internacional um retrato distorcido da imigração no país, muito em função de uma cobertura midiática inadequada e de uma oportunística exploração do tema por certas lideranças políticas italianas.

A ilha de Lampedusa, pertencente à região da Sicília, está a apenas 200 quilômetros da costa tunisiana e por isso se constitui em destino de imigração. Lampedusa tem uma população de cerca de 5 mil habitantes e vive predominantemente da receita do turismo, além da pesca e da agricultura.

Em 2016 o documentário Fogo no mar (Fuocoammare) do diretor italiano Gianfranco Rosi ganhou o Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim retratando o drama dos imigrantes e refugiados que arriscam suas vidas na perigosa travessia do Mediterrâneo rumo a “ilha da esperança”. O documentário reuniu também uma série de depoimentos de moradores locais que vivenciam o drama dos imigrantes.  O diretor de Fogo no mar ao receber o prêmio dedicou-o a “todos aqueles que não conseguiram chegar” e aos habitantes da ilha que “mostraram grande humanidade em face ao número de refugiados que chegavam”.

Embora o referido documentário tenha mostrado a solidariedade de italianos locais, isso não é a regra. Na penúltima semana de agosto o governador da Sicília Nello Musumeci, político da direita italiana, assinou uma ordem determinando que em 48 horas todos os centros de acolhimento para refugiados e migrantes fossem esvaziados – hoje há cerca de 2 mil migrantes e refugiados nesses centros – e levados de navio ou avião para outras regiões e que fosse proibida a atracação de novas embarcações com migrantes em toda a região. A justificativa para essa medida seria a proteção da saúde dos cidadãos locais diante da ameaça de contágios por coronavírus representada pelos migrantes. Entretanto, as estatísticas locais produzidas pelas autoridades de saúde mostram que os novos contágios na região têm ocorrido em função do fluxo de turistas no verão europeu e que, os migrantes e refugiados abrigados em condições precárias nos “hot spots” estão sendo contaminados pelo vírus.

O governo central em Roma recebeu a notícia com surpresa e manifestou-se lembrando que esse tipo de ordem não é da competência regional, mas sim nacional, a cargo do Ministério do Interior, o que abriu uma crise com o governo da Sicília.

Não tardou para Matteo Salvini – do partido de extrema direita Liga – aproveitar da controvérsia e declarar “máxima solidariedade com Musumeci”, posição seguida também por Giorgia Meloni do FdI – partido neofascista Irmãos da Itália. Diversos analistas italianos sugeriram que a verdadeira motivação para essa sequência de atos são as eleições municipais marcadas para outubro próximo.

Mais uma vez os migrantes são usados no jogo político sem que ações efetivas, de autoridades italianas e europeias se voltem às causas dos deslocamentos forçados.

Os números e as origens dos imigrantes na Itália

Em 2019 havia 5,2 milhões de imigrantes residentes na Itália, o que representa 8,9% da população total do país. A título de comparação, esse percentual na Alemanha é de 13,1%, e na Espanha, 12,2%.  

Os dados mais recentes do Istat (Instituto Nacional de Estatística) sobre países de origem dos imigrantes residentes na Itália mostram que a Romênia é a principal procedência representando 23% do total, seguida por Albânia (9,3%), Marrocos (8,7%), China (5,4%) e Ucrânia (4,5%).

Por regiões pode-se constatar que 50% dos imigrantes residentes na Itália são provenientes de países europeus, 20% de asiáticos, 20% de africanos e 10% de outras origens.

A ISMU (Fondazione Iniziative e Studi sulla Multietnicità) de Milão estimou em 2019 que os irregulares no país eram cerca de 500 mil. Em 2018 as novas chegadas pelo mar foram de 22,5 mil e em 2019 10 mil, portanto com peso bastante reduzido no dinâmico quadro das migrações no país.

Em 2018 foram 112.523 os estrangeiros, com diferentes contextos, que adquiriram cidadania italiana.

Outro dado importante são os vistos de trabalho para estrangeiros que em 2019 foram de 45 mil, incluindo trabalhadores sazonais e uma variedade de casos, entre eles alguns milhares de militares dos EUA das bases da OTAN.

É importante aqui também lembrar que o mercado de trabalho italiano não é muito atrativo, haja visto os números da emigração de jovens italianos em busca de trabalho fora do país.

Os números mostram que é o trabalho não qualificado na Itália que é ocupado por imigrantes, com destaque para o trabalho doméstico e os mais rudimentares na agricultura. Não é muito difícil constatar que é justamente nesses dois setores que a maior parte dos cidadãos irregulares estão desempenhando atividades laborativas.

(A título de observação, imigrantes do Brasil residentes na Itália são cerca de 50 mil e de italianos residentes no Brasil são 280 mil inscritos no Aire (Anagrafe degli Italiani Residenti all’Estero). O Brasil que recebeu no início do século XIX e primeiras décadas do século XX fluxos migratórios de massa provenientes da Itália tem hoje uma comunidade de ascendência italiana estimada em 22 milhões de pessoas.)

A exploração de mão-de-obra de imigrantes na Itália

Búlgaros em Mondragone

Em meio a pandemia as ambíguas relações entre italianos e imigrantes só se agravaram, sendo um exemplo disto a tensão observada na comuna de Mondragone, província de Caserta, na região da Campania que, com 24 mil habitantes, tem na agricultura e turismo suas principais atividades econômicas.

O estopim para uma onda de protestos e ameaças promovida por cidadãos italianos da comuna foi a identificação de um foco de contágio da covid-19 entre imigrantes búlgaros que vivem em Mondragone e trabalham, em sua maioria, no campo.

Em junho passado, um foco de 43 pessoas que testaram positivo foi identificado num conjunto habitacional no centro da cidade composto de cinco prédios dos anos 70, de dez andares, conhecido como Cirio, onde vive uma comunidade de búlgaros estimada em mais de 2 mil pessoas. Nesse lugar pode-se encontrar vagas em apartamentos que custam 100 euros por mês para ter direito a uma cama.

O local foi isolado pela polícia local e os moradores impedidos de sair. Com a notícia de que alguns moradores conseguiram escapar do isolamento e ir ao trabalho no campo, o local foi alvo de protestos de italianos, inclusive com algumas depredações, em repúdio aos imigrantes búlgaros. A imprensa local registrou também relatos de inquilinos búlgaros despejados por proprietários de imóveis.

A precária situação dos búlgaros que trabalham nas plantações de Mondragone não é recente. Em 2018, uma equipe de jornalistas do site italiano Avvenire fez uma reportagem sobre a exploração do trabalho desses imigrantes na comuna de Mondragone.

Na mesma via Razzino em que ficam os prédios do complexo Cirio, antes da emergência sanitária da Covid-19 diariamente se formava uma movimentação antes das cinco horas da manhã com dezenas de pessoas, homens, mulheres, jovens e até crianças aguardando para embarcar em vans rumo a plantações de beringelas, abobrinhas, e outros hortifrutis cultivados nos arredores de Mondragone, em comunas da região do Alto Casertano.

A referida reportagem apurou que os homens ganhavam entre 2 e 4 euros por hora, mulheres entre 1 e 1,5 e menores 1 euro, trabalhando sob sol a pino, sem acesso a banheiros ou alimentação, com jornadas que podem chegar a 12 horas.

É comum que a negociação/contratação ocorra entre um “gerente” búlgaro responsável pelo agenciamento da força-de-trabalho e um “gerente” italiano que representa os proprietários das terras cultivadas. Ambos ficam com parte dos rendimentos da empreitada, cerca de 5 euros por cabeça. E há também os ganhos com a cobrança do transporte pelas vans.

À noite, parte das mulheres são aliciadas em redes de prostituição. Tudo isso é conhecido na cidade, inclusive por sindicatos e a igreja local.

Indianos e africanos em Terracina

E em Terracina, a 75 quilômetros de Mondragone, comuna dedicada a pesca, turismo e agricultura, são os indianos, líbios, nigerianos e bengalis que são explorados no mercado de braços, como mostrou uma reportagem de Antonio Maria Mira, de julho de 2018, com apoio do sociólogo Marco Omizzolo, para o site italiano Avvenire. A reportagem investigativa acompanhou a rotina que se repete todos os dias no centro da cidade, com o embarque de imigrantes em 15 microônibus, às 4 horas da manhã com destino a plantações em Borgo Hermada, Sabaudia e Borgo Sabotino.

A situação desses indianos e jovens provenientes de países da África subsaariana é variada, mas são predominantemente irregulares e requerentes de asilo. Entre eles há uma disputa por trabalho que termina por favorecer os contratantes que aproveitam disto para reduzir o valor da hora de trabalho (em torno de 3 euros) e as condições do trabalho.

O acompanhamento da rotina desses trabalhadores (só nesse circuito são mais de 500) deixou entrever uma rede intricada de interações que envolvem inclusive tráfico de pessoas, subornos e aproveitamento de brechas de leis e portarias que regulam a imigração e que, por fim, asseguram a continuidade e lucratividade dos negócios. A reportagem citada encontrou indícios inclusive de envolvimento da Camorra, máfia que é proprietária de terras na região.

(No próximo artigo serão abordadas a situação de imigrantes explorados em redes de prostituição na Itália, a violência sexual nas rotas da migração, a “economia não observada” na Itália, as implicações de algumas disposições legais sobre migração na Itália, os efeitos danosos da criminalização da imigração e do imigrante e a atual disputa política de narrativas e de valores constitutivos do povo italiano.)

*Arnaldo Cardoso é cientista político, pesquisador e professor universitário.


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Fechado pela Covid-19, Museu da Imigração aposta em conteúdo digital gratuito e mantém agenda cultural

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Fachada do Museu da Imigração, em São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - out.2017)

No lugar das barracas com comidas típicas e das apresentações de música e dança de diferentes países, uma mostra virtual recorda os 25 anos da Festa do Imigrante de São Paulo. Com ações como essa, o Museu da Imigração de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca, procura ao menos minimizar os efeitos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e manter uma agitada agenda cultural.

Desde seu fechamento, em meados de março, o Museu vem transformando exposições temporárias em novas curadorias virtuais. Ao mesmo tempo, disponibilizou materiais educativos para auxiliar no entretenimento das crianças que estão sem aulas nesse período.

O Museu também mantém uma programação de eventos online, como seminários e lançamentos de livros, como o “Migrações Internacionais e a pandemia de COVID-19” (baixe aqui gratuitamente). Outra novidade do período foi o lançamento de um podcast, o Mobilidade Humana e Coronavírus — disponível no Spotify e outros agregadores do tipo.

Além disso, o Blog do CPPR tem divulgado uma série de publicações produzidas pela equipe técnica do Museu. apresentando bastidores, acervo, exposições e debates sobre imigração.

Aprendizado e reinvenção

A atual diretora do Museu da Imigração, Alessandra Almeida, cita que essa “migração temporária” das atividades da instituição para um ambiente online foi um desafio e, ao mesmo tempo, um aprendizado para toda a equipe.

“Foi necessário refletir, repensar e reformular programações, criar séries, escolher diferentes formatos e usufruir de outras plataformas para manter a nossa atuação junto ao público. O desenvolvimento de conteúdos exclusivamente online foi um desafio e, ao mesmo tempo, um aprendizado”.

Essa tarefa é facilitada pelo Acervo Digital do próprio Museu. Com mais de 250 mil imagens, ele ajuda a contar a história da imigração em São Paulo e no país por meio de diferentes registros fotográficos e documentais.

As visitas a exposições virtuais são garantidas por uma parceria entre o Museu e o Google Arts & Culture. Enquanto isso, no canal oficial da instituição no YouTube, estão disponibilizados trechos de depoimentos da coleção de história oral, entrevistas com descendentes e migrantes de comunidades relacionadas à Festa do Imigrante.

Ainda não há uma previsão para a reabertura do Museu. No entanto, segundo a diretora, lições importantes já podem ser tiradas do período, que ajudarão a organizar futuras atividades — tanto presenciais quanto online.

“Nesse período, passamos por um processo de reinvenção com o qual conseguimos, por exemplo, alcançar novas pessoas que, até então, nos acompanhavam, mas não tinham a oportunidade de participar ativamente por conta da distância física”. 

#CulturaEmCasa

O esforço empreendido pelo Museu também entra no escopo da campanha #CulturaEmCasa, organizada pela Secretaria da Cultura e Economia de São Paulo.

A ação tem o objetivo proporcionar diferentes atividades culturais como espetáculos, visitas virtuais a museus, palestras, livros e filmes como forma de estimular a prática do distanciamento social no Estado.

“As pessoas continuam precisando de arte, de cultura e de criatividade”, disse o secretário estadual de Cultura, Sérgio Sá Leitão, ao portal G1 em julho passado. “Vamos disponibilizar todos os conteúdos que a Secretaria dispõe, por meio digital, para que as pessoas que estão em quarentena possam ter acesso a arte de qualidade em suas casas”.

O que está por vir

Veja abaixo as atividades já confirmadas pelo Museu para a primeira quinzena de setembro.

Webinário “Contexto da pandemia: direitos de migrantes e refugiados e temas emergentes”
Data e hora: 04 de setembro, às 14h
Plataforma: YouTube

Live “Acervos: Formação e Relações”
Data e hora: 10 de setembro, às 17h
Plataforma: Instagram

Live “Ponto a Ponto: carteira origami”
Data e hora: 12 de setembro, às 15h
Plataforma: Instagram

*Colaboração de Carolina Guagliano


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Catástrofes agravam situação de migrantes e refugiados mundo afora

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Porto de Beirute em ruínas, devastado após explosão em 4 de agosto. refugiados estão entre as 200 vítimas já confirmadas. (Foto: Houssam Hariri/ACNUR)

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Tomemos como ponto de partida duas notícias convergentes sobre a questão migratória em nível global. Primeiramente, de acordo com uma jornalista de um dos principais periódicos brasileiros, “a explosão que destruiu Beirute (…) atingiu em cheio os milhares de sírios que vivem na cidade. País com maior número de refugiados no mundo, proporcionalmente ao número de habitantes, o Líbano abriga cerca de 1 milhão de sírios, que representam um sexto da população do país. Dos mais de 200 mortos pela explosão no porto, no dia 4 de agosto, pelo menos 34 eram refugiados, segundo a agência da ONU para o tema (ACNUR). O número pode ser maior, já que ainda há sete desaparecidos e 124 ficaram feridos, 20 deles com ferimentos graves. Cerca de 200 mil refugiados vivem na capital libanesa” (Cfr. MANTOVANI, Flávia, Folha de S.Paulo, 13/08/ 2020).

A segunda notícia chega-nos do norte da África. “Em Zuara [Líbia] os migrantes ‘saudáveis’ são levados para a prisão. Os feridos são deixados ‘livres’, mas sem tratamento. A seleção é feita pelo estado de saúde. Os sobreviventes que ainda conseguem ficar de pé vão para a prisão. Aqueles cobertos de feridas e queimaduras, precisando de atenção e cuidados, são largados à própria sorte para apodrecer. Nas imagens que chegaram do sul de Trípoli pode ser vista, entre outros, um menino da Eritreia, único sobrevivente de um grupo de cerca de dez compatriotas, que conseguiu salvar das chamas o documento com o qual havia sido registrado na Líbia, na agência da ONU para refugiados. Com isso no bolso esperava obter na Europa a proteção que o direito internacional oferece a que, como ele, foge da violência e da perseguição. No início eram 85, agora 40 estão vivos. Vivos, mas não salvos” (Cfr. Reportagem de Nello Scavo, publicada pelo jornal Avvenire, em 22 de agosto de 2020, reproduzida pelo portal do IHU, 24/08/2020, com tradução de Luisa Rabolini).

Ambas as reportagens – vindas respectivamente do Líbano e da Líbia – centram o olhar sobre os migrantes e refugiados. De início e de imediato, podemos verificar que uma situação que já era extremamente precária e vulnerável, agrava-se à máxima potência seja com uma catástrofe inesperada, no caso do Líbano, seja com os efeitos pérfidos e perversos da pandemia, como no caso da Líbia. Mas os desastres de caráter natural ou humano poderiam ser repetidos às dezenas, bem como suas consequências nocivas para quem erra pelas estradas do êxodo, do exílio ou da diáspora.

Os que se vêem repentinamente privados de um solo próprio, de um grupo familiar ou de uma terra que possa ser chamada de pátria, toda ameaça contém um duplo risco. Primeiro, o perigo de encontrar fechada a porta que dá acesso ao trabalho e ao sustento da família; segundo, o perigo de expatriação, sempre suspenso sobre a cabeça como uma guilhotina.

Em outras palavras, diante de uma explosão acidental (ou não?!…), como a de Beirute; em meio a uma pandemia que estende por todo o planeta seu rastro de mortos, feridos e enlutados; ou por ocasião de uma estiagem ou inundação – o imigrante tende a ser sempre o primeiro sacrificado. A ameaça será redobrada se o mesmo não estiver em dia com a documentação.

No sentido de salvaguardar a população local, as autoridades, a imprensa e a própria opinião pública não hesitarão em se desfazer do “estranho e intruso”. Por toda a parte, a ideologia da segurança nacional representa o pano de fundo sobre o qual se debatem as leis migratórias. Disso resulta que o migrante ou refugiado serão irremediavelmente escolhidos como os bodes expiatórios do momento.

A situação de desemprego, subemprego e trabalho informal que deverá seguir-se à pandemia pesa duplamente sobre os estrangeiros de todo mundo, a menos que se trate de pessoas que já recriaram suas raízes nos países de destino, ou de técnicos, consultores e altos funcionários das empresas transnacionais.

O contexto da pós-pandemia prevê caminhos áridos e íngremes para todos os cidadãos em condições vulneráveis, mas reserva dificuldades mais graves para as multidões de sem pátria que se movem pelo mundo afora.

Pe. Alfredo J. Gonçalves é vice-presidente do SPM e integra a Ordem Scalabriniana


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Covid-19 vira estigma para venezuelanos que retornam ao país em meio à pandemia

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Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia. Crédito: Boris Heger/ACNUR

Por Ramana Rech Duarte

Principal destino dos venezuelanos que migraram para o exterior, a Colômbia recebeu pelo menos 1,8 milhão de pessoas do país vizinho desde 2017, segundo dados da autoridade migratória local. Com a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), um total de 80 mil desses cidadãos decidiram retornar ao país natal entre março e julho. Mas essa parcela da diáspora venezuelana vem encontrando resistência do governo de Nicolás Maduro para seu retorno.

O sucessor de Hugo Chávez sustenta uma narrativa segundo a qual os casos de Covid-19 da Venezuela são, em sua maioria, importados pelos retornados. Até o dia 26 de agosto, a Venezuela reportava 41.965 casos oficiais de coronavírus e 351 mortes. Já na Colômbia esse número é de 572 mil casos e 18.184 mortes. Apesar dessa diferença, muitos especialistas chamam a atenção para a subnotificação presente na Venezuela.

Em seu Twitter, o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, afirmou no dia 9 de junho que 9 em cada 10 casos de Covid-19 na Venezuela provém de cidadãos que retornaram de países como Colômbia, Peru e Equador. Atacando esses países, acrescentou que isso provava “o péssimo manejo sanitário e o subregistro” dos governos.

Discurso contra ‘trocheros’

No dia 15 de julho, foi a vez do presidente Nicolás Maduro. Por meio de um ato televiso, ele estimulou a denúncia de “trocheros”, venezuelanos que retornam, principalmente do Brasil e da Colômbia, utilizando rotas irregulares — e, por isso, sem cumprir quarentena preventiva.

“Um trochero ou uma trochera infectado é um bioterrorista na sua região que pode acabar com a sua vida, com a vida de sua família”, dizia uma mensagem que Maduro leu na ocasião. Segundo a revista Forbes Colômbia, mais tarde, a mesma mensagem foi replicada por algumas contas do Twitter vinculadas às Forças Armadas da Venezuela.

Maduro acusou ainda o presidente da Colômbia, Iván Duque, de ter um plano para infectar a população venezuelana através dos “trocheros”. Ele comentou ainda que o país está de “braços abertos” para receber aqueles que desejarem voltar e completou: “mas que passem regularmente”.

Antes de ultrapassar a fronteira, é necessário passar pela triagem que é feita sob o controle das Forças Armadas e da polícia. Muitos desconfiam que esse plano sanitário também é uma forma de identificar dissidentes que significariam uma ameaça política para o Estado de Maduro e, assim, mantê-los afastados.

Uma reportagem do diário espanhol El País do dia 9 de junho aponta as diferenças entre as ações do governo venezuelano e seu discurso, dada as medidas de restrições em relação a passagem dos repatriados.

Dentre elas, a autorização da entrada de 300 pessoas pela Ponte Internacional Símon Bolívar, que liga Santander (Colômbia) ao Estado de Táchira (Venezuela), e de somente 100  venezuelanos em Arauca, através da Ponte Internacional José Antonio Páez. Além disso, a passagem legal também ficou restrita aos dias de segunda, quarta e sexta-feira. Nisso, as filas para atravessar a fronteira acumulam gente e causam aglomerações.

Amargo regresso

Outro problema relatado pela oposição na BBC Colômbia são os albergues onde os venezuelanos devem fazer quarentena por 14 dias antes de terem acesso ao resto do país. A oposição afirmou que as situações passadas pelos imigrantes lá são “infrahumanas”.

Os retornos são motivados por questões como xenofobia, perda do emprego ou da renda no país receptor. Conforme os dados do Observatorio de Venezuela de la Universidad del Rosario, 90% dos imigrantes venezuelanos são trabalhadores informais

No portal de notícias R7, uma matéria cita o fato de muitos terem sido despejados de suas moradias na Colômbia. Outros relatam não conseguirem mais achar casas para alugar.

Cerca de 200 venezuelanos se reuniram no centro de Bogotá, na Colômbia, a fim de protestar contra a falta de auxílio para retornarem a seus países de origem em meados de abril. Eles pediam que o Governo Nacional e a prefeitura arcassem com custos de vôos e ônibus de repatriação.

 “Não nos prestam atenção. Aqui somos 200, mas, pelo menos, 1.500 venezuelanos estamos organizados e queremos deixar Colômbia, mas não temos recursos para ir embora”, disse um dos líderes.

Na época, a Migração Colômbia se manifestou em uma nota de imprensa afirmando que coordenaria esse retorno “de maneira controlada e sem gerar risco à saúde de todos os cidadãos”.


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Três anos após limpeza étnica em Mianmar, Rohingya ainda enfrentam perseguição e apatridia

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Refugiados rohingya caminham por uma trilha durante uma forte chuva de monções no campo de refugiados de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh. (Foto: David Azia/ACNUR)
Refugiados rohingya caminham por uma trilha durante uma forte chuva de monções no campo de refugiados de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh. (Crédito: David Azia/ACNUR)

O dia 25 de agosto de 2017 marcou o êxodo de mais de 742 mil pessoas da minoria rohingya, de Mianmar, ao país vizinho, Bangladesh. A data é lembrada como uma das mais traumatizantes da história da migração forçada.

Para os rohingyas, que já abandonavam suas casas desde a década de 90, a história os espantou com um dos episódios mais trágicos. Militares do país realizaram uma operação de “limpeza étnica”, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR), que é quando há vontade parcial em se eliminar um grupo étnico para homogeneizar o povo. 

Quem são os rohingya?

Os rohingya são considerados a etnia mais discriminada do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A comunidade que se concentra no estado de Rakhine, em Mianmar, vem sofrendo ataques há décadas, sendo ela a minoria muçulmana em uma população majoritariamente budista.

Muitos birmaneses alegam que eles são uma etnia implantada durante a colonização britânica, que trouxe milhares de trabalhadores muçulmanos de Bangladesh. Já os rohingya dizem ser indígenas do Estado de Rakhine, anteriormente conhecido como Arakan – um dos mais pobres do país.

Uma lei de 1982 retirou do povo rohingya o direito à nacionalidade birmanesa, tornando-os apátridas. Dessa forma, ficam impedidos de ter acesso a serviços públicos (saúde, educação, etc.) e de ter mais de um filho por casal, entre outras restrições. Também são submetidos a trabalhos forçados.

Vista aérea do campo de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh, que abriga parte da população rohingya deslocada de Mianmar.
(Foto: Roger Arnold/ACNUR)

Atualmente, 130 mil rohingya vivem albergados em campos superlotados. A maior parte se encontra em Bangladesh, compondo mais de 1,2 milhão de refugiados. Desde 25 de agosto de 2017, quase 24 mil foram mortos pelas forças do estado de Mianmar, de acordo com um relatório da Agência de Desenvolvimento Internacional de Ontário (OIDA).

Mais de 34 mil rohingya foram lançados no fogo, enquanto mais de 114 mil foram espancados. Cerca de 18 mil mulheres e meninas rohingya foram estupradas pelo exército e pela polícia de Mianmar, e mais de 115 mil casas da comunidade foram queimadas, enquanto outras 113 mil foram vandalizadas.

Três anos após a tragédia…

Os rohingyas seguem vivendo sob constante medo. Aqueles que permanecem em Mianmar estão em condição de apátridas (sem direito à cidadania), não podem transitar livremente e não têm o direito de votar. Além disso, sofrem de uma série de discriminações quando se trata do acesso à educação e à saúde pública.

Segundo a ONG Save the Children, metade da população rohingya situada em Bangladesh é composta por crianças, fato que preocupa os pais com a precariedade e falta de acesso à educação.

“O povo e o governo de Bangladesh deram as boas-vindas aos refugiados quando eles fugiram da violência em seu país de origem, mas, três anos depois, não estamos mais perto de uma solução sustentável para esta crise de refugiados ”, explica Onno van Manen, diretor de Save the Children em Bangladesh.

Recentemente, a Anistia Internacional também verificou e acusou as autoridades de Mianmar de continuar a ocupar terrenos rohingyas, violando o espaço pertencente inicialmente à comunidade que foi obrigada a abandonar seu lar.

A ONU expressa a necessidade da solidariedade internacional, sendo uma responsabilidade de todos os países.

“Isso não pode durar para sempre. A pressão sobre Mianmar para criar as condições no terreno, que significa um investimento maciço não apenas físico na reconstrução, mas também na reconciliação, para fazer com que as comunidades se respeitem, para acabar com o discurso de ódio que tem sido espalhado em Mianmar contra os rohingya. Nosso objetivo é criar condições para que os rohingya possam voltar de forma digna, segura e voluntária”, pronunciou António Guterres, secretário-geral da ONU, em 2018, em visita a Cox’s Bazar em Bangladesh, cidade com o maior campo de refugiados no mundo.

Por conta do êxido de rohingya, Mianmar consta como o quinto país com mais pessoas deslocadas internacionalmente, de acordo com o ACNUR.

Impactos da Covid-19

As autoridades de Mianmar estenderam o confinamento devido à pandemia da Covid-19 a todo o estado de Rakhine, onde vivem pouco mais de 3 milhões de pessoas. Segundo elas, “os moradores têm que ficar em casa e apenas os poucos veículos autorizados podem circular” com a finalidade de impedir a propagação do novo coronavírus principalmente em campos superpopulosos de rohingyas.

A ONU informou que muitos dos que trabalhavam em Rakhine testaram positivo para a Covid-19. No momento, Mianmar confirma 749 casos de pessoas diagnosticadas com a epidemia, e seis mortes, segundo a Universidade de Johns Hopkins.


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Com imigrantes, seminário em São Paulo debate trabalho ambulante em tempos de pandemia

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Seminário discute atuação de trabalhadores informais. (Foto: Sérgio Silva/Centro Gaspar de Direitos Humanos)

O trabalho como ambulante é uma das saídas mais comuns encontradas por imigrantes para se manter economicamente no Brasil. E discutir essa realidade é um dos objetivos de um seminário gratuito que começa nesta quarta-feira (2) em São Paulo e se estenderá pelas demais quartas-feiras de setembro.

O seminário “Ambulantes e Cidade: cartografias da economia popular, tensões nos territórios, conflitos e práticas de resistência, durante a pandemia da Covid-19” vai acontecer em formato online (via plataforma Zoom) e é gratuito, com emissão de certifcado para os que assim o desejarem. Para se inscrever basta acessar este link.

A formação é promovida pelo Grupo de pesquisa Cidade e Trabalho, da USP, em parceria com o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, o Fórum Internacional Fronteiras Cruzadas, Fórum dos Ambulantes de São Paulo e o Laboratórios de Justiça Territorial da UFABC – LabJuta, entre outras organizações.

Além das limitações impostas pelo cenário de pandemia do novo coronavírus, os trabalhadores informais (independente da nacionalidade) já estão submetidos a uma série de dificuldades em seu cotidiano. Entre elas está a relação conflituosa com o poder público, personalizada em questões como as ações de fiscalização e entraves burocráticos.

Afinal, quem é o morador que nunca pelo centro comercial de uma grande cidade brasileira e ainda não viu trabalhadores informais tendo de correr com seus pertences após o alerta do “rapa” na área?

Trabalho informal imigrante

A questão dos imigrantes no mercado de trabalho informal será abordada mais a fundo na terceira mesa de debates do evento, no dia 16. Embora essa presença seja notada pelo menos desde o início dos anos 2000, pouco se conhece sobre as redes articuladas pelos imigrantes para exercer tais atividades.

A proposta do debate é entender e compreender o modo como os migrantes são afetados pela pandemia e pelas políticas de isolamento social, suas articulações e redes de solidariedade no contexto do comércio popular, driblando a fiscalização e repressão e construindo alternativas ao trabalho.

Entre os expositores haverá a participação da congolesa Hortense Mbuyi, que integra o Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo. O colegiado, criado em outubro de 2017, é ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC). Ele tem caráter consultivo e acompanha, entre outras funções, a aplicação da Política Municipal para a População Imigrante, em vigor na capital paulista desde o final de 2016.

Programação

Todas as quatro mesas do seminário acontecem às quartas-feiras de setembro, das 19h às 22h. Veja abaixo os temas de cada dia e seus debatedores

  • 02/09 – Mesa 1: Controle urbano e de corpos, criminalização dos atores e violência policial
    Expositores: Benedito Roberto Barbosa (Centro Gaspar Garcia, CMP), Kleber (Fórum dos Ambulantes) e Daniel Hirata (UFF); Mediação: Ana Lídia Aguiar (USP); Debatedora: Vera Telles (USP)
  • 09/09 – Mesa 2: Cidade invisível: subnotificação de dados, “desaparecidos” urbanos
    Expositores: Renato Abramowicz (Observatório das Remoções e LabCidade, USP), Mariana Nunes Taguti e Debora Sanches (FAU Mackenzie), Maíra Vanuchi (StreetNet – Unicab); Mediação: Sidney Jard (UFABC); Debatedor: Luiz Kohara (Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos)
  • 16/09 – Mesa 3: Trabalho ambulante na Pandemia e migração
    Expositores: Bruno Durães (UFRB), Cesar Colia (COEBIVECO), Hortense Mbuyi (Conselho Municipal dos Imigrantes); Mediação: Karina Quintanilha (Unicamp / Fórum Internacional Fontié Ki Kwaze – Fronteiras Cruzadas); Debatedor: Lindomar Albuquerque (Unifesp)
  • 23/09 – Mesa 4: Mobilidades urbanas, novos arranjos da economia popular e redes de apoio
    Expositores: Carlos Freire (UFG), Maria dos Camelôs (Unicab – RJ), Luciana Itikawa (FMU – Wiego); Mediação: Francisco Comaru (UFABC); Debatedor: Fernando Rabossi (UFRJ)

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