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segunda-feira, junho 29, 2026
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O Brasil deve parar de tratar a questão da migração como um problema

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Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima. Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

Essa mudança de postura precisa ir dos termos empregados para falar do assunto às políticas públicas

Por Bruna Cristina
Em São Paulo (SP)

Segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM), apenas 2% das 2,3 milhões de venezuelanos que deixaram o país desde 2015, vieram para o Brasil. Então por que cotidianamente nos deparamos com notícias que veem essas pessoas como um problema grave que afeta os brasileiros e a economia?

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A crise econômica, política e social assola a Venezuela desde 2013, quando o governo de Nicolas Maduro passou a enfrentar uma forte oposição e protestos nas ruas, ocasionou em centenas de mortes e aumento do número de prisões no país. A base da economia nacional, o petróleo, sofreu uma forte queda, a inflação atinge os 800% e a dívida externa ultrapassa US$120 bilhões. Com isso, faltam itens básicos para a sobrevivência da população venezuelana, falta emprego, falta comida e falta dignidade… E dessa forma quem mais sofre com a crise no país é a própria população dele.

Infelizmente este quadro não se altera para muitos dos que migram em busca de melhores condições de vida. Ao chegarem a outro país, como o Brasil, muitas pessoas continuam nas mesma condições, pois são vistas como um problema a ser enfrentado e não como pessoas com direitos iguais.

Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima.
Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

O problema é que consideremos um problema, quando são cidadãos com todos os direitos.

Quando nos deparamos com noticias sobre a vinda de venezuelanos ao Brasil, grande parte caracterizam a situação como a responsável por colapsar as infraestruturas locais e ser responsável por gerar surtos de xenofobia, já que há relatos de tensões entre moradores locais e migrantes e a falta de capacidade para o acolhimento.

Entretanto, deve-se considerar que a culpa desses dois fatores, xenofobia e infraestrutura, não são das pessoas que chegam ao país, e sim, da carência de políticas públicas voltadas à migração, que possam não somente proporcionar meios necessários para o recebimento como também, possam proporcionar educação adequada voltada a informação sobre a temática, algo que parece muito distante para a maioria dos brasileiros.

Infelizmente, migrantes ainda são vistos por grande parte da população como ‘‘o outro’’, aquele que por não ser nacional do determinado país, não deve ter os mesmo direitos, não por acaso, alguns países da América do Sul anunciaram regras mais rígidas para a entrada de venezuelanos pois, a ‘‘invasão de migrantes’’ é algo que passou a ser tratado com urgência, retórica muito presente nos meios midiáticos e pelo Estado quando se trata do número de pessoas que cruzam a fronteira para o Brasil.

Isto faz parte do processo de criminalização do migrante, como argumentado no artigo Eduardo Domenech (2015), não raramente os sistemas legislativos são aplicados, por vezes de forma arbitrária, para atingir determinados grupos de pessoas consideradas indesejáveis ou prejudiciais para os interesses do país ou de alguns segmentos sociais. Produz-se dessa forma a “ilegalidade migratória” a fim de gerenciar a imigração, e dessa forma os migrantes são criminalizados. Por essa razão a urgência, não deve ser usada para se referir ao número de pessoas que estão cruzando a fronteira para o Brasil e sim, para a necessidade de ajuda para que elas possam se instalar adequadamente.

O fato é que, deve-se considerar primordialmente, independentemente do número de pessoas que chegam ao país, se são muitas ou poucas, essas devem receber a devida atenção do Estado para que possam recomeçar suas vidas seja no Brasil ou em outro país que escolherem, e não devem ser tratadas como uma anomalia. Se utiliza muito o termo ‘‘crise’’ para se referir as migrações, segundo o dicionário Aurélio crise seria um “Momento perigoso ou difícil de uma evolução ou de um processo; período de desordem acompanhado de busca penosa de uma solução.” ou ainda “Momento crítico ou decisivo’’. Dessa forma, a utilização desse termo aponta para uma má interpretação do que seria as migrações, que não devem ser tratadas como um perigo que ocasiona em desordem ao Estado a ponto de serem tomadas medidas extremas para dificultar a entrada de migrantes ao país, mas sim, como pessoas que deixaram tudo para trás para recomeçar suas vidas novamente e que devem ter seus direitos garantidos e não restritos.

Dessa maneira voltemos a pergunta inicial: por que migrantes são vistos como um problema para o país?

Grupos de imigrantes marcam presença em festival de cultura paulista

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Fraternidad Caporales San Simón, que foi um dos grupos representantes da representantes da Bolívia no Revelando São Paulo 2018. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Evento “Revelando São Paulo” reúne a diversidade cultural presente no estado, que inclui contribuições das comunidades migrantes

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)

Diversos grupos imigrantes participaram no último sábado (22) da 58ª edição do “Revelando São Paulo”, festival cultural que tomou os espaços do Parque do Trote, na Vila Guilherme, difundindo as culturas existentes no estado por meio de apresentações de músicas e danças, exposições de artesanato, expressões religiosas e culinária.

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O evento é uma oportunidade para que as comunidades imigrantes possam praticar, resgatar e expor as manifestações artísticas de seus países. “É fundamental, mostra a todas as pessoas, principalmente às gerações futuras, toda nossa carga, nossa herança cultural; e mostra que, tanto o estado –que é uma dimensão um pouco mais ampla-, assim como a cidade, que é uma grande colcha de retalhos com várias participações”, expõe Jezun Biazi, coordenador da festa e integrante do “Abaçaí Cultura e Arte”, instituição idealizadora do Revelando São Paulo.

Dos estandes de exposição aos espaços para alimentação, os presentes puderam conhecer um pouco mais da cultura nipônica, paquistanesa, boliviana e portuguesa. As danças ficaram por conta dos grupos Ballet Folclórico Boliviano, Ribeira Ryofu Daiko, Mi Vejo Simón, Grupo Apolo de Danças Gregas, Folclore e Etnografia Região Autónoma da Madeira, Companhia Devi Odissi e Fraternidad Capolares San Simón.

Fraternidad Caporales San Simón, que foi um dos grupos representantes da Bolívia no Revelando São Paulo 2018.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

XVII Festival da Amizade

As apresentações artísticas dos grupos imigrantes acontecem no Festival da Amizade, que chegou à sua 18ª edição, para celebrar a diversidade num encontro fraterno das nações. Cada participante preocupou-se em expressar danças e expor trajes e objetos característicos de seus países, explicando o porquê da importância de cada item e movimento corporal.

Um exemplo foi a dança indiana, que hipnotizou os expectadores com a delicadeza da coreografia da Andrea Albergaria, diretora e professora da Companhia Devi Odissi de dança indiana. Brasileira, ela também já foi migrante: morou no Oriente Médio por muitos anos, e também na Índia, onde aprofundou conhecimento na cultura e religião indiana entre idas e vindas ao país. Expôs o que representa o movimento das mãos e a batida dos pés, ligados à religiosidade. O intuito do grupo é difundir a dança e cultura do país asiático.

E as integrantes? São peruanas, sírias e brasileiras.

Companhia Devi Odissi, de dança indiana.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

“É mais que uma apresentação artística, é uma troca, um convívio; a gente vê todos os povos, de todos os lugares do Brasil. (…) Um espaço aberto para todo tipo de manifestação”, expressa a coreógrafa ao falar sobre o evento.

Portugal foi representado pelos integrantes da AFERAM (Associação Folclore e Etnografia Região Autónoma da Madeira), grupo que há 31 anos resgata a cultura portuguesa de cada parte da Ilha da Madeira. Felipe Sardinha Gonçalves, responsável pela tocata do grupo, elogia a iniciativa da festa: “Não tem evento igual, que resgata a cultura mesmo, não só de São Paulo, mas pelo Festival da Amizade, de vários países, também”.

O sul da Europa ficou por conta do Grupo Apolo de Danças Gregas, composto por descendentes de gregos e brasileiros, carinhosamente chamados de “agregados”. O coordenador da equipe, Augusto Cesar Vassilopoulos, mencionou que a diversidade é um tema atemporal e importante, e que é “uma honra dividir o palco com tantas outras culturas, vivendo essa troca, vivendo essa soma. A gente aqui soma, multiplica e troca; só agrega valores”, disse após apresentar danças gregas populares.

AFERAM (Associação Folclore e Etnografia Região Autónoma da Madeira), que representou Portugal no Revelando São Paulo.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Em dois momentos do dia, os bolivianos do grupo “Fraternidad Caporales San Simón”, realizaram um cortejo com sua apresentação oficial, trazendo muita cor em seus trajes vistosos; e os guizos presos às pernas harmonizam-se com a música em cada pisar sincronizado dos dançarinos.  “Nosso intuito maior é sempre divulgar o folclore boliviano”, explicou Cláudia Camacho, coordenadora do grupo composto por bolivianos nativos, filhos, netos e até brasileiros.

Entre um grupo e outro, a fala “mundo novo” foi frequente entre os apresentadores. Em um breve momento, o diretor cultural do Abraçaí Cultura e Arte, Toninho Macedo, subiu ao palco, lembrou que esse “mundo novo” é possível, e que “o caminho é o amor”.

Grupo Apolo de Danças Gregas, uma das atrações culturais do Revelando São Paulo que valorizou a contribuição dos imigrantes para o estado.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Sobre o “Revelando São Paulo”

Realizado desde 1997, o evento “Revelando São Paulo – Festival da Cultura Paulista” foi idealizado pelo grupo “Abaçaí Cultura e Arte” em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Cultura. Cerca de 150 municípios participam do encontro que promove a troca de experiências, sabores e conhecimento – inclusive com a participação das comunidades indígenas e ciganas.

A edição deste ano aconteceu entre os dias 19 e 23 de setembro, permitindo ao visitante conhecer um pouco de cada região do estado e de suas particularidades sem sair Parque do Trote, que tem recebido a festa nos últimos anos. Parte da programação do dia 22 foi reservada para o Festival da Amizade, que destacou as contribuições das comunidades migrantes para a cultura paulista.

Além da capital, a festança também acontece no Vale do Ribeira, Vale do Paraíba, Atibaia e outros.

 

Os descendentes de migrantes e seus desafios na integração

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Xenofobia, discriminação e questões de pertencimento são algumas das barreiras enfrentadas pelos filhos de migrantes mundo afora

Por Debora Draghi
De Curitiba (PR)
Atualizado em 15/09/18, às 18h20

Embora, no geral, a concepção seja de que aqueles que migram por primeiro sempre passam por maiores dificuldades, há de ser levado em conta que seus descendentes, quando nascidos no país de destino escolhido por seus genitores, também tem problemas relacionados à migração. Seus descendentes diretos também são alvo de xenofobia e discriminação, e passam por situações diferentes de seus pais, como o sentimento de pertencimento, por exemplo, que está diretamente relacionado à integração.

Na Academia, um termo bastante usado para descrever esse grupo é o de “segunda geração de imigrantes”. No entanto, é necessária uma importante ressalva: o termo em si carrega uma conotação negativa e traz uma série de problemas, já que os descendentes de pais emigrados não são migrantes – mas sim, nacionais do país onde nasceram.

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Deve-se considerar que também há diferenças “intra grupo”, como a educação dos pais e o motivo que os levou a migrar e o background sócio-econômico. Usualmente os descendentes de migrantes passam por uma “assimilação seletiva”, assimilando apenas certos elementos e mantendo ao mesmo tempo uma forte orientação para a comunidade co-étnica, que protege contra a discriminação e dispõe de recursos. Quem tem pais que nasceram em outro país também passa por uma interação entre estrutura e cultura, como por exemplo, uma pressão para se adequar aos valores da família ou comunidade.

Migrante aluno do projeto Trilhas da Cidadania, que existiu entre 2012 e 2015 e ensinava português para refugiados.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – out.2014No entanto, os níveis de tolerância e condições estruturais mudaram desde a década de 80 em países considerados receptores. Assim, a segunda geração de hoje enfrenta desafios diferentes daqueles de décadas atrás. A educação geralmente aumenta de uma geração para outra, mas varia de acordo com grupos étnicos. Dentre os fatores que explicam isso, pode-se apontar:

– Exclusão social e econômica, como origens da classe trabalhadora, frequentando escolas com um elevado número de crianças;
– Discriminação na educação – seja para habilidades de linguagem ou características étnicas / raciais;
– Coesão e valores étnicos – o respeito pelas aspirações e expectativas dos pais pode encorajar ou desencorajar a educação e,
– O papel de apoio dos membros da família – ter irmãos mais velhos que podem ajudar na educação, mesmo se os pais tiverem baixos níveis de escolaridade.

No caso da Europa, por exemplo, é comum ver que, apesar dos descendentes de migrantes terem acesso à educação de qualidade, nem sempre consegue ter o mesmo sucesso no mercado de trabalho. Quando conseguem um trabalho, é menos provável que assegurem empregos proporcionais ao nível educacional. As tendências não são muito positivas quando se olha para os níveis de desemprego, salários e diferenças entre qualificações e status de trabalho. Evidências empíricas mostram que os descendentes alcançam melhores níveis socioeconômicos do que seus pais e novos imigrantes, mas pior do que colegas que possuem genitores do país receptor. Desse modo, tais herdeiros, muitas vezes, acabam ficando para trás.

Alguns dos fatores que contribuem para isso são oportunidades e expectativas econômicas, já que os descendentes não tem o mesmo conhecimento e know how que seus pais ou não estão dispostos a fazer trabalhos que seus pais fizeram. Um outro motivo seria a coesão étnica, visto que o capital social em comunidades étnicas pode não se traduzir em apoio em contextos mais individualistas. E por fim, pode-se mencionar a discriminação no local de trabalho – racial, étnica, religiosa e sexual, que impede uma integração laboral maior. Ainda assim, o tamanho da comunidade migrante afeta positivamente a incorporação no trabalho, ocorrendo então um efeito positivo do apoio étnico.

Desse modo, com a exclusão, é muito comum ver migrantes empreendedores, que devido à discriminação no mercado de trabalho, decidem trabalhar por conta própria. Esses trabalhadores autônomos comumente empregam membros da família ou da mesma etnia como forma de baixar o custo de trabalho.

Há expectativas na comunidade receptora de que a primeira geração levaria à assimilação de seus descendentes na sociedade e na economia. No entanto, mudanças econômicas mudaram o mercado de trabalho, reduzindo oportunidades para os filhos dos que migraram e havendo uma necessidade maior de níveis de educação superior. Assim sendo, há uma variação na integração na sociedade e no mercado de trabalho de acordo com as condições do país de destino, da sociedade de acolhimento e nas características dos migrantes.

Nota: este texto foi originalmente publicado como “A segunda geração de migrantes e seus desafios na integração” e, a exemplo de outros textos do MigraMundo, tem como intenção elucidar sobre o tema, que ainda não tinha sido abordado diretamente pelo portal.

No entanto, apesar do tema ser amplamente utilizado na Academia para fins esclarecedores (principalmente no que diz respeito à integração), o termo “segunda geração de imigrantes foi descartado – a partir de críticas construtivas de leitores e debate interno – por ter uma conotação preconceituosa e excludente. Por isso, o texto foi atualizado à luz dessas ponderações.

O MigraMundo agradece o feedback de seu público, permitindo um aprendizado mútuo e que visa colaborar para novos olhares sobre as migrações, sempre partindo do ponto de vista da migração como um fenômeno humano.

Refugiados compartilham experiências em série de palestras em São Paulo

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Faculdade de Direito da USP recebeu a segunda edição das Jornadas Caritas: histórias em refúgio. Crédito: Antônia Souza

Atividade é inspirada na campanha Compartilhe a Viagem, lançada pela Caritas Internacional em 2017 e visa aproximar refugiados e solicitantes de refúgio do restante da sociedade

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)

O que acontece no país para que as pessoas sejam obrigadas a se deslocar ou se refugiar em outras partes do mundo? No intuito de levar esse conhecimento à população e, por consequência, sensibilizá-las quanto aos refugiados e imigrantes, que o Centro de Referência para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo promove a “Jornadas Caritas: histórias em refúgio”, com série de palestras gratuitas realizadas por refugiados em diferentes Universidades da capital. A atividade acontece mensalmente, em seis encontros, no âmbito da campanha “Compartilhe a Viagem”, visando a aproximação de imigrantes e refugiados das comunidades locais.

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A atividade foi proposta para que os próprios refugiados contassem o porquê precisar sair do seu país. Em cada evento é apresentado uma história relacionada com os critérios que fundamentam a Lei do Refúgio:  perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas e grave ou generalizada violação de direitos humanos.

Faculdade de Direito da USP recebeu a segunda edição das Jornadas Caritas: histórias em refúgio.
Crédito: Antônia Souza

Cada mês, num ciclo de seis palestras, um refugiado é convidado a falar sobre o que acontece em sua terra natal e a experiência do deslocamento forçado. O primeiro encontro aconteceu dia 20 de junho na UNIFAI (Centro Universitário Assunção), com o depoimento de Prosper Dinganga, da República Democrática do Congo, no qual narrou sua trajetória com perseguições políticas.

A coordenadora do Centro de Referência para Refugiados, Maria Cristina Morelli, diz que o Jornadas Caritas é uma forma das pessoas conhecerem o que acontece nessas nações, diferente de ver fotos e fazer contextualizações sobre o que aconteceu no país. Além de esperar que se sensibilizem.

“Na perspectiva de que a gente abra os braços e receba os imigrantes, e que as pessoas, mais ainda, abram os braços. E aquelas que ainda não abriram, abram e recebam os imigrantes, especialmente no Brasil e em São Paulo”.

Maria Cristina enfatiza que o projeto tem os objetivos traçados pela campanha mundial da Caritas Internacional, Compartilhe a Viagem, onde a intenção é aumentar os espaços e as trocas de experiências.

Perseguição religiosa

Na noite de 15 de agosto foi a vez do auditório da Faculdade de Direito do Largo São Francisco receber o evento. O convidado da vez foi o iraquiano Jamal Jaber Mohammed.

Por meio de intérprete, o artista plástico falou aos presentes sobre a perseguição religiosa no Iraque, e do problema político-religioso que só agrava a situação das minorias no país. Minorias que, segundo Jamal, fazem parte da construção social do Iraque, mas que foram massacradas, obrigando-as a se deslocarem e migrar, desde o estabelecimento do governo iraquiano. Entre essas minorias, pontuou os cristãos, que foram – e ainda são – perseguidos e assassinados desde a formação do Iraque, numa campanha violenta para abraçar o Islamismo.

Sobre perseguição, disse que “é o uso de poder ou autoridade por parte de determinado grupo que busca se consolidar às custas do enfraquecimento e marginalização de outro grupo ou grupos. Ocorre discriminação entre eles, tendo como base planos traçados ou atos organizados. Organizados pelos país ou por organizações de grupos políticos ou milícias que têm apoio do governo. E é considerado um crime contra a humanidade na medida que ocorrem em tempos de paz”.

O artista plástico iraquiano Jamal Jaber Mohammed, convidado para fala sobre sua história durante o Jornadas Caritas.
Crédito: Antônia Souza

Questionado sobre os grupos de perseguição e se acredita na melhora da situação do Iraque, na questão das perseguições das minorias, enfatizou que o problema é estrutural, com conflitos até mesmo dentro do parlamento. E pelo interesse dos países vizinhos de que o Iraque seja enfraquecido, “e não só” pelas nações que fazem fronteira, na continuidade dos conflitos, não é esperançoso.

O próximo encontro acontece nesta quarta (12), às 19h, na Fecap (Fundação Álvares Penteado). Ele terá a participação do casal de venezuelanos Marifer Vargas e Carlos Escalona, que falarão das conexões de suas trajetórias com a situação da Venezuela – clique aqui para mais informações.

Um outro encontro já está agendado para o próximo dia 10 de outubro, no Tuca, o teatro da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Refugiados no Brasil

Até 2017, o Brasil já havia reconhecido um total de 10.145 refugiados. No entanto, no ano passado o país tinha de fato 5.134 pessoas vivendo como refugiados, de acordo com o Conare (Comitê Nacional para Refugiados), em Brasilia. O órgão, vinculado à SNJ (Secretaria Nacional de Justiça), do Ministério da Justiça, é o responsável por analisar os pedidos de refúgio feitos no país.

No entanto, de acordo com a SNJ, o Conare ainda possui uma fila de 86.007 solicitações em trâmite. Essa situação é creditada a limitações na estrutura do comitê, que tem apenas 13 profissionais dedicados diretamente à análise das solicitações.

Só em 2017, de acordo com o relatório, um total de 33.866 pessoas solicitaram o reconhecimento da condição de refugiado no Brasil. Os venezuelanos lideram a lista, com 17.865 pedidos; em seguida, aparecem Cuba (2.373), Haiti (2.362) e Angola (2.036).

Essa e outras informações estão disponíveis no relatório Refúgio em Números, divulgado em abril deste ano pelo Ministério da Justiça – acesse aqui.

Jornadas Caritas: histórias em refúgio (3ª edição)
Data e hora: 12 de setembro de 2018, a partir das 19h
Local: Auditório da Fundação Álvares Penteado (Fecap) – Campus Liberdade: Av. da Liberdade, 532, São Paulo – próximo à estação Liberdade do metrô
Palestrantes: Marifer Vargas e Carlos Escalona (Venezuela); Mediação: William T L da Rosa (advogado de Proteção da Caritas)
Entrada: gratuita
Mais informações: evento no Facebook

Europa e África, tão próximas e tão distantes

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Diariamente, milhares de pessoas se arriscam no mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. O que os espera do outro lado (quando chegam) é incerto. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Se a geografia une os dois continentes, a história os separou de uma forma irremediável

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Em Roma

Os números são reais e ao mesmo tempo simbólicos. Sempre revelam algo a olho nu, sem dúvida, mas costumam esconder o essencial. Rasgam o véu de situações aparentemente ocultas, mas o mesmo véu invisível tenta dissimular a realidade. Por exemplo, o modo como os governos em geral entendem a mobilidade humana e promovem leis anti-migratórias. Descortinam-se os efeitos sociais de superfície, enquanto procura-se encobrir as causas e as correntes econômicas profundas e subterrâneas.

Desta vez foram 177 imigrantes à deriva das águas do Mediterrâneo. Provenientes da Líbia, foram resgatados em águas malteses pela nave U. Diciotti da Guardia Costiera italiana, em 16 de agosto de 2018. Durante 5 dias, próximo à ilha de Lampedusa, os migrantes se viram prensados por uma queda de braço entre o governo de Malta e da Itália, uma nação jogando o “problema” para a outra. O capitão da nave faz apelo à corte de Bruxelas, em vista de um acordo com os países europeus. Estes, porém, limitam-se a um estridente silêncio! Daí a ameaça de reconduzí-los à Líbia, mas easse país não ofrece segurança aos migrantes. No dia 21 de agosto, a nave atraca no porto italiano de Catania para “escala técnica”, mas o Ministro Matteo Salvini proibe o desembarque. Três dias depois, dia 25 de agosto, intervém o Ministério Público: todos os imigrantes devem desembarcar e Matteo Salvini é indagado por sequestro de pessoas.

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Imagem simbólica da política migratória mundial, cada vez mais restrita e intolerante. Um punhado de imigrantes à deriva entre dois continentes tão próximos e tão distantes! Olhando para trás, deparam-se com a África, fazendo vir à tona a lembrança da pobreza, da violência e a da guerra… O medo, a fuga, a família fragmentada, os obstáculos sem fim, o cansaço. Olhando para a frente, vislumbram a Europa, onde, misturada a uma teimosa esperança, batem-se com a intransigência e a indiferença de governos que promovem políticas anti-migratórias. Como o Primeiro Ministro italiano, Giuseppe Conte, o qual, em visita à Casa Branca nos dias 30 e 31 de julho, num encontro com Donald Trump, foi elogiado por este último pela forma como vem conduzindo a questão das migrações na Itália.

Diariamente, milhares de pessoas se arriscam no mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. O que os espera do outro lado (quando chegam) é incerto.
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Os próprios imigrantes temem o retorno à Líbia. Gastaram os últimos centavos que possuíam para a travessia do Mediterrâneo e, além disso, sabem o que lhes espera naquele país. O passado recente persiste sobre suas cabeças como um sombrio pesadelo. Campos de refugiados em condições desumanas e extremamente precárias, maus tratos e serviços que beiram a escravidão pura e simples. Mas, se lá ficou o pesadelo, na Europa restam as ruínas de um sonho ameaçado pela incerteza. E pior ainda, correm notícias da morte de companheiros que os precederam. De fato, no dia 6 de agosto/2018, na região de Foggia, sul da Itália, um furgão repleto de imigrantes bate de frente com um caminhão: 12 mortos. Os “braccianti” (trabalhadores sazonais migrantes que fazem a colheita do tomante) retornavam de um turno de 12 horas diárias. Outros 4 haviam morrido dias antes, num acidente idêntico. Segundo testemunhas, os furgões que transportam os trabalhadores temporários circulam em péssimas condições de segurança.

Europa e África, dois continentes tão próximos e tão distantes. Entre ambos, apenas as águas do mar Mediterrâneo. A distância de uma costa a outra não passa de uns 15 quilômetros no estreito de Gibraltar. Entretanto, se a geografia os une, a história os separou de uma forma irremediável, seja através do colonialismo que traficou enormes riquezas de um continente para o outro, seja através da famigerada escravidão afro-americana que traficou milhões de seres humanos como mão-de-obra para o trabalho do eito e da mina nas terras novas do ultramar. Hoje como no passado, as mesmas águas que os avizinham também os ditanciam. Águas traiçoeiras, onde, de acordo com dados da ONU, somente no ano em curso, 1,5 mil imigrantes se afogaram e foram sepultados.

Em séculos remotos – escreve o historiador Fernand Braudel, no livro Il Mediterraneo, lo spazio, la storia, gli uomini, le tradizioni, Ed. Bompiani, Firenze, 2017 – esse mar serviu de encruzilhada para intercâmbio de mercadorias, costumes, culturas e valores entre povos e nações muito diversos, enriquecendo uns e outros. Serviu igualmente como campo de tensões políticas, confrontos e batalhas, que deixaram milhares de mortos. Não é de hoje que o Mediterrâneo é tido como cemitério. Nos tempos atuais, além de encruzilhada dos povos, suas águas poderíam converter-se em uma “ponte” para a travessia de pessoas e famílias que buscam futuro mais promissor e uma nova pátria. Segue sendo, poém, um “muro” cada vez mais intransponível. Para concluir com o sonho manifestado com insistência pelo Papa Francisco, permanece o desafio de passar da “globalização da indiferença à cultura da solidariedade”, o que exige mudanças profundas e urgentes nas relações internacionais em geral, e em particular na legislação migratória de cada país.

A violência no Brasil e o capítulo dos venezuelanos na fronteira

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Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista. Crédito: ONU

A gramática da violência por aqui é a regra, apesar do sempre louvável espírito altruísta de muitos. O caso de Roraima se insere nessa lógica

Guilherme Mansur Dias*

As cenas lamentáveis da expulsão de venezuelanos por brasileiros ao som do hino nacional em Pacaraima revelam as vísceras de nossa violência e expõem ao mundo um projeto falido de nação. Chegamos a 2018 ostentando índices os mais escandalosos quando o assunto é violência: o país contempla o maior número absoluto de assassinatos no mundo; é o que mais mata travestis, transexuais e defensores de direitos humanos; está entre os lugares com maior número de homicídios femininos; e tem a terceira maior população carcerária do planeta – dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

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Esses dados do presente fazem jus à extensa história de extermínio de povos indígenas e deslocamento forçado de africanos, escravizados nas lavouras de diferentes regiões do país sobre o veio do autoritarismo e da arbitrariedade. Tais fenômenos, que certamente possuem causas complexas e variadas, dão a tônica da constatação evidente de que não fomos e não estamos sendo capazes de lidar com tal passado e com o quadro de violência por ele legado. Ao contrário, a situação parece apenas piorar, e a passos largos.

Pacaraima foi palco de ataques contra venezuelanos.
Crédito: Reprodução/YouTube

As análises sobre o que ocorreu em Pacaraima já foram suficientemente precisas para apontar os vilões da vez: uma mídia irresponsável e parcial, que dissemina o ódio e evita uma reflexão ponderada sobre a chegada de imigrantes ao país; um poder público omisso e ineficiente, que não consegue erigir uma estrutura mínima de abrigamento e assistência às pessoas que saem da Venezuela em busca de um lugar para recomeçarem suas vidas; e a omissão ou interesses miúdos de políticos e autoridades imersos em suas preocupações eleitoreiras mais ou menos imediatas. À reboque de tudo isso vai a população de um município pobre, com infraestrutura precária, e que reage no vernáculo das polarizações que tomaram conta do país.

Por sua vez, as “soluções” propostas para a situação na fronteira de Roraima são usualmente desumanas e repetem o que há de pior na cena internacional, como a xenofobia e o racismo. Além disso, desconsideram uma série de tratados dos quais o país é signatário e que existem justamente para evitar a consolidação do caos e da barbárie. As ideias vão do fechamento da fronteira ao estabelecimento de cotas para imigrantes de diferentes países, passando pela criação de corredores “sanitários” e mecanismos eficientes de deportação. Isso sem falar no clássico apelo ao reforço do contingente militar na fronteira e no equacionamento entre imigração e segurança nacional.

Nada disso, porém, resolverá a fundamental contradição da autoimagem de uma nação que se descreve como receptiva e cordial, mas que segue autorizando o extermínio, a tortura, o massacre e as diversas formas de pilhagem, principalmente dos mais pobres. E onde muitos indivíduos foram convencidos de que os direitos humanos servem para defender bandidos. No caldeirão da intolerância pátria, o episódio da expulsão de pessoas indefesas e fragilizadas apenas reatualiza uma série de brutalidades cotidianas às quais os brasileiros estão mais ou menos expostos em função de seu pertencimento social e da cor de sua pele. O fato de o caso ter ocorrido agora em uma fronteira distante e pouco comunicada com os centros administrativo-financeiros nacionais não minimiza sua relação com nossos problemas e contradições fundamentais. Ao contrário, acaba por corroborar a conclusão de que a gramática da violência por aqui é a regra, apesar do sempre louvável espírito altruísta de muitos.

No caso dos venezuelanos, há questões práticas e urgentes a serem enfrentadas para evitar que episódios ainda mais trágicos aconteçam. Como alertaram Cyntia Sampaio e João Carlos Jaronchinski [em artigo para o portal El País Brasil], o Brasil precisa de uma estratégia que esteja imune a influências políticas e seja considerada fundamentalmente sobre a ótica dos direitos humanos. Além de alojamento, documentação e alimentação, é preciso que se amplie a capacidade de atendimento aos estrangeiros nas áreas de saúde e educação, mas também se considere a questão fundamental do emprego, e do deslocamento seguro e voluntário para cidades que ofereçam melhores oportunidades de trabalho. Discussões aprofundadas sobre a reorganização das políticas públicas para recepcionar imigrantes e refugiados estão na ordem do dia em diferentes cidades e países no mundo, e poderiam ser mais difundidas no Brasil.

Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista.
Crédito: ONU

No momento, tudo o que não precisamos é ecoar uma visão da fronteira associada à segurança e à perspectiva de militarização. O anúncio do envio de policiais da Força Nacional de Segurança Pública para o local aponta nessa direção. Se a manutenção de um ambiente pacífico na região é um preceito, as questões derivadas da chegada de venezuelanos em Roraima dificilmente se encerrarão com esse tipo de atitude emergencial. Apesar de o Brasil ter recebido até agora um número dez vezes menor de refugiados venezuelanos do que a vizinha Colômbia, episódios como o de Pacaraima revelam um fracasso hiperbólico das autoridades nacionais em lidar com a chegada de imigrantes e refugiados ao país.

*Guilherme Mansur Dias é doutor em Antropologia Social pela Unicamp e membro do GT Migraciones: desigualdades y tensiones, da CLACSO (Consejo Lationamericano de Ciencias Sociales). Realiza, atualmente, pós-doutorado no âmbito do projeto “Passagens de fronteira e cidades seguras: questões históricas e contemporâneas” (CAPES/COFECUB)

Copa dos Refugiados marca novos gols contra a xenofobia, mas quer alcançar mais brasileiros

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Organizadores da Copa dos Refugiados pensam em novos meios de sensibilizar as pessoas para a questão do refúgio. Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

Final da edição paulista do torneio é marcada pela disputa dentro de campo e pela confraternização fora dele; organizadores querem mais pessoas sensibilizadas para a questão do refúgio

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

Com animação, o time da Nigéria marca sua chegada no estádio do municipal Jack Marin na manhã do último domingo (02), cantando e dançando em seu idioma nativo, encantando os torcedores e frequentadores do parque da Aclimação. A partida que estava agendada para às 9h, atrasou por volta de uma hora devido a dificuldades que os jogadores enfrentaram para chegar ao estádio.

Mas isso não foi empecilho para quem estava lá para torcer, como foi o caso dos brasileiros Ligia Souza Petrini (31), Sofia Rodrigues (21) e Lucas Vieira (20). Para eles, assistir aos imigrantes jogarem valeu a espera.

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“A gente veio fazer a torcida para os dois lados, para fazer a festa. O objetivo aqui não é nem quem vai ser o campeão da Copa, mas essa integração dos refugiados com os brasileiros e entre eles mesmo”, afirma Lucas. Os amigos participam de grupos antifascistas que produzem camisetas estampadas “refugiados bem vindos”, a fim de mostrar que episódios de preconceitos não são regras. “A gente está brigando contra a xenofobia no Brasil e queremos mostrar pra eles isso”, falou Sofia.

Torcedores simpáticos à questão do refúgio estenderam faixas em apoio aos imigrantes. Em campo, Nigéria e Níger disputaram o título da Copa dos Refugiados SP 2018
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

A final da etapa de São Paulo da Copa dos Refugiados 2018 despertou muitas emoções aos que estavam presentes. Dentro de campo a disputa foi acirrada, com os jogadores das duas equipes mostrando amor a suas camisas e à terra natal, mesmo à distância. No final, o time do Níger, calouro na competição, venceu a bicampeã Nigéria nos pênaltis  (4 a 3), após empate em 2 a 2 no tempo normal.

“Foi uma partida muito disputada, mas leal. Apesar de eles quererem vencer, foi sadia.”, comenta Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza, árbitro do jogo e que participou pela primeira vez da Copa dos Refugiados. O juiz se impressionou com a relação de amizade entre as equipes “rivais”, mencionando como os participantes se ajudam quando havia algum choque de corpos e foram educados com os companheiros.

“Acho importante fazer parte desse momento. Aqui é uma maneira de nós, brasileiros, aproximarmos deles e os acolher. São povos que vem pra cá buscando espaço e a gente tem que abrir as portas, porque eles têm muito o que ensinar pra gente também”.

Equipes da Nigéria e do Níger ficam perfiladas para execução dos hinos nacionais de cada país na final da Copa dos Refugiados SP 2018.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

Mesmo não se despedindo do campo com a mesma alegria contagiante que chegou, o capitão do time da Nigéria Harisson Uche Ogbonna diz que jogadores não jogaram apenas pelo esporte e por seu país, mas também para lembrar a todos sobre a situação dos imigrante e refugiados que moram em São Paulo. “Estamos mostrando a gente pro Brasil”.

Como o principal objetivo é a divulgação da causa e a integração dos povos, Harisson explica que eles são todos amigos e por isso, essa harmonia é refletida em campo. “A gente tem rivalidade de maneira muito sadia. Foi um jogo limpo, não teve briga. Depois, a gente se abraçou e rimos juntos”. Na edição de São Paulo do ano passado, o time da Nigéria havia sentido o gostinho da vitória e neste domingo parabenizou seus companheiros.

Depois de passar um ano inteiro treinando duas vezes na semana para competir no campeonato, é com muita euforia que a nação do Níger recebeu a almejada medalha de ouro, dada por representantes das instituições que colaboraram com o evento. “Estou muito feliz! Muito importante esse momento para gente, refugiado. Fizemos muito esforço para ganhar essa Copa. Estamos muito felizes!”, exclamou o capitão Hector Consider ao ser recebido com abraços por seus colegas.

Conforme conta, já praticava futebol em seu país de origem. Mas acredita que, ao enfrentar os colegas brasileiros durante os treinos, melhorou as jogadas devido à qualidade dos adversários.

Níger conquista troféu da Copa dos Refugiados.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

Próximos desafios

Na expectativa de agradecerem a oportunidade e consideração pela ONG África do Coração, idealizadora do evento, os vencedores ergueram em grito de guerra o coordenador da Copa dos Refugiados, o sírio Abdulbaset Jarour.

“Estou muito feliz e sou muito grato a essa terra brasileira por essa oportunidade”, diz Abdulbaset. Ele explica a importância que o evento é para os refugiados e a dedicação que têm com esse compromisso. “Muitos deles não tem transporte para participar, muitos não estão trabalhando, não tem lugar pra dormir. Só que estão aqui fortes e firmes com muita fé e alegria”.

No entanto, para o congolês Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração, agora é o momento de a organização concentrar forças para pensar em que melhorar para conseguir alcançar e sensibilizar mais pessoas com a causa.

“A felicidade não ficou 100%. O objetivo ainda não foi atingido, que é trazer muitos brasileiros para torcer para os refugiados, porque torcer é dar chance, é acreditar”. A arquibancada do estádio não havia preenchido sua capacidade máxima, tendo um pouco menos de cem torcedores presentes.

Organizadores da Copa dos Refugiados pensam em novos meios de sensibilizar as pessoas para a questão do refúgio.
Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

A dificuldade em atrair público para as partidas não é a única a ser superada. Algumas nacionalidades consideradas expressivas pelos organizadores ainda não aderiram à iniciativa. O chefe geral de projetos Aymane Jalil cita imigrantes do Paquistão, da Índia e de Bangladesh como exemplo.

“São grupos muito fechados. A minha ideia é que o ano que vem tenha algum time que represente esses países”. Para isso, o coordenador está estudando urdu (idioma nacional do Paquistão) para se aproximar desses povos e tentar integrá-los.

O evento foi encerrado com a entrega de troféus para os quatro primeiros colocados no campeonato – Líbano foi o quarto e Gâmbia ficou em terceiro.

Além de ganhar a medalha de ouro e o troféu, Níger também ficará com a taça simbólica da Copa até a disputa da edição nacional da Copa dos Refugiados, que acontece no final de setembro.

Iniciada em 2014, a Copa dos Refugiados é um projeto criado e organizado por refugiados que vivem no Brasil. Em São Paulo o torneio teve sua quinta edição e neste ano já teve disputas no Rio de Janeiro (vencida por Angola) e em Porto Alegre (Senegal se sagrou campeão). Esses vencedores se juntam ao Níger na etapa nacional, que contará ainda com um time formado por refugiados de diferentes nacionalidades.

A realização da competição contou ainda com o apoio das seguintes instituições e empresas: Sodexo, Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de São Paulo, Ponto – Agência de Inovação Social, Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, Conectas Direitos Humanos, Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, Cruz Vermelha e ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).

Por que não é lícito fechar as portas àqueles que buscam refúgio?

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Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia. Crédito: Boris Heger/ACNUR

Ao fechar a fronteira, o Brasil estaria infringindo o princípio da não-devolução ao repelir potenciais refugiados, entre outros motivos

Por Rodolfo Ribeiro C. Marques

No dia 13 de abril, o governo de Roraima ajuizou no STF uma Ação Cível Originária (ACO), em face da União, requisitando, enquanto tutela antecipada, o fechamento da fronteira com a Venezuela e a limitação do ingresso de solicitantes de refúgio venezuelanos. Segundo os autores da ação, os pedidos tinham o objetivo de aliviar a crise migratória que acomete aquele estado, impelindo a União a cumprir “o seu papel administrativo na consecução da proteção, controle e fiscalização das fronteiras de maneira efetiva.” No dia 6 do mês passado, após o tumultuado fechamento da fronteira por determinação do juiz da 1ª Vara Federal de Roraima, a ministra Rosa Weber, relatora da ACO, indeferiu os pedidos formulados pelos autores, alegando, entre outras coisas, que, mesmo em face das dificuldades que o acolhimento a refugiados naturalmente impõe, não se pode partir para a solução mais fácil de “fechar as portas”, equiparável a fechar os olhos, cruzar os braços.

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Afinal, poderia o Brasil, à luz de suas obrigações internacionais, simplesmente fechar as suas fronteiras àqueles que buscam refúgio? Essa é a pergunta que vem sendo feita nos últimos dias, em razão da escalada da tensão na fronteira com a Venezuela e do recente conflito em Pacaraima.

O Brasil é signatário de diversos tratados que tutelam os direitos das pessoas migrantes, entre eles a Convenção de Genebra sobre o Estatuto dos Refugiados, de 1951, a qual prevê, em seu artigo 33(1), o principal limite jurídico ao fechamento das fronteiras: o princípio da não-devolução (também conhecido como princípio do non-refoulement), que proíbe o envio de uma pessoa refugiada a territórios em que sua vida e/ou a sua liberdade possam estar ameaçadas. Este é o seu propósito: não retornar, de maneira alguma, um indivíduo perseguido aos seus algozes.

Para a Convenção, no entanto, refugiada será a pessoa que, temendo ser perseguida por sua raça, religião, nacionalidade, opiniões políticas ou pertencimento a determinado grupo social, seja obrigada a deixar seu país de origem ou de residência habitual em busca de proteção. Além de incorporar essa definição, a legislação brasileira amplia o conceito de refugiado, reconhecendo como tal o indivíduo que, em razão de grave e generalizada violação de direitos humanos, tenha deixado seu país para buscar refúgio alhures (artigo 1º, III, da Lei 9.474/97). Para o governo brasileiro, contudo, os venezuelanos, via de regra, não satisfazem nenhuma das duas definições. Aos olhos do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), a quem cabe decidir sobre os pedidos de refúgio no Brasil, a crise humanitária na Venezuela não se equipara, em sua gravidade, a um conflito armado, não sendo, portanto, hipótese apta a ensejar a aplicação da definição expandida de refugiado.

Acontece que, em razão de sua essencialidade, a aplicação do princípio da não-devolução independe do reconhecimento formal da condição de refugiado, devendo ser observado tão logo o indivíduo manifeste o interesse em solicitar refúgio. Assim, ao solicitante será garantido acesso ao território e o direito de nele permanecer até a decisão final sobre sua demanda (sendo-lhe assegurado o devido processo legal), já que sobre ele recai uma presunção de que seja refugiado e, consequentemente, de que sua vida e/ou sua liberdade possam estar ameaçadas. Caso assim não fosse, bastaria ao Estado expulsar ou repelir solicitantes de refúgio na fronteira para que se visse livre de suas obrigações internacionais. Ademais, a discussão sobre a aplicação – ou não – dessa norma nos postos de fronteira é irrelevante, já que ao se apresentar às autoridades fronteiriças, o indivíduo estará no território do Estado e sob sua jurisdição.

Ainda, o efeito prático da observância do princípio do non-refoulement em situações de fluxos em massa – a exemplo do que acomete Roraima – é o instituto da proteção/refúgio temporário, o qual, por definição, impõe aos Estados um dever de admitir, mesmo que temporariamente, solicitantes de refúgio que fogem em massa de conflitos armados, violência generalizada ou graves violações de direitos humanos.

Portanto, ao fechar a fronteira, o Brasil estaria infringindo o princípio da não-devolução ao repelir potenciais refugiados, uma vez que, em se tratando de um fluxo migratório misto, não é possível assumir que determinados migrantes não possuem fundado temor de perseguição sem antes analisar, de forma individualizada, suas solicitações de refúgio. Ora, mesmo que o governo brasileiro não tenha reconhecido o pleito de boa parte dos venezuelanos, isso não cria, por si só, uma presunção de que todo o indivíduo que deixa a Venezuela será incapaz de se beneficiar da condição de refugiado e que, por isso, não possa requerer refúgio. Também do ponto de vista prático, a medida não traria resultados desejáveis, apenas aumentando o número de entradas clandestinas e agravando, ainda mais, o delicado estado de vulnerabilidade desses migrantes, que buscariam outras rotas.

No contexto atual, uma das soluções mais viáveis seria a intensificação do processo de interiorização dos venezuelanos em outros estados da federação, aliviando a pressão demográfica e econômica enfrentada pelos municípios fronteiriços. O governo brasileiro poderia, ainda, reconhecer àqueles solicitantes de refúgio a condição de refugiado à luz da definição expandida insculpida no artigo 1º, III, da Lei 9.474/97. A sugestão não é absurda, bastando reconhecer, no plano jurídico-administrativo, o que já se reconhece à exaustão no plano político: na Venezuela há uma grave e generalizada violação de direitos humanos. A medida robusteceria a proteção a esses indivíduos, porquanto lhes garantiria o gozo de todos aqueles direitos encartados no Estatuto dos Refugiados, além de permitir a ampliação da assistência institucional do ACNUR e do CONARE.

Qualquer solução, contudo, deverá estar em harmonia com a proteção dos direitos das pessoas migrantes, incluindo-se o princípio da não-devolução e o direito de ser admitido para solicitar refúgio, pois, como bem lembrou a ministra Rosa Weber: “no marco do Estado democrático de direito, as soluções disponíveis à solução de crises restringem-se àquelas compatíveis com os padrões constitucionais e internacionais de garantia da prevalência dos direitos humanos fundamentais”. Ora, não nos esqueçamos que a dignidade da pessoa humana – seja a pessoa humana nacional, seja a pessoa humana migrante – ainda é um dos fundamentos desta República.


Rodolfo Ribeiro C. Marques
é advogado especializado em direito dos refugiados, mestrando em direito internacional no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento (IHEID), em Genebra, e autor do livro “O Princípio do Non-Refoulement no Direito Internacional Contemporâneo: Escopo, Conteúdo e Natureza Jurídica” (Editora Lumen Juris, 2018).

Curso online da OIM sobre migrações oferece 200 vagas para organizações

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Inscrições devem ser feitas até 2 de setembro; aulas começam em 15 de outubro

Por MigraMundo
Em São Paulo (SP)

A Organização Internacional para as Migrações (OIM), em parceria com a Escola Superior da Defensoria Pública da União (ESDPU), promovem entre os dias 15 de outubro e 03 de dezembro a primeira edição do curso à distância “Uma Introdução às Migrações Internacionais”.

O curso é gratuito e tem como foco pessoas que prestam atenção direta a migrantes vulneráveis ou que necessitem de uma introdução sistemática ao tema da migração internacional e da governança das migrações no Brasil. Serão oferecidas 200 vagas.

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As candidaturas devem ser enviadas pela internet e são restritas a pessoas ligadas a coletivos e organizações que lidam com o tema – (não serão aceitas candidaturas individuais). O prazo final é 02 de setembro – veja mais informações abaixo.

“Com o curso, a OIM e a DPU pretendem fortalecer as redes de apoio aos migrantes em situação de vulnerabilidade, aprimorando a capacidade de organizações públicas e privadas que atendem esse público”, explica Marcelo Torelly, coordenador do projeto junto à OIM. “O curso foi formulado a partir de uma série de demandas levantadas internamente com a DPU e em consulta com organizações da sociedade civil”, completa.

Já Tatiana Waldman, conteudista do curso e consultora da OIM, ressalta o caráter introdutório do curso, de forma a qualificar as pessoas e organizações para os desafios que a temática migratória vem trazendo. “A proposta do curso é promover uma reflexão inicial sobre aspectos fundamentais das migrações internacionais no Brasil – incluindo questões relacionadas ao refúgio e ao tráfico de pessoas – para pessoas que trabalham diretamente com a população migrante em diferentes campos (seja saúde, educação etc.) e que não tenham recebido formação específica sobre o tema”.

Como se candidatar?

As organizações interessadas devem enviar uma mensagem para iombrazil@iom.int,
indicando como assunto “Candidatura Curso EaD: NOME DA ORGANIZAÇÃO”, com as seguintes informações:

1. Nome da organização.
2. Local de atuação (cidade/estado).
3. Âmbito de atuação (municipal, estadual ou nacional).
4. Trabalha na atenção direta a migrantes?
4.1. Caso sim: número aproximado de migrantes atendidos anualmente?
4.2. Caso não: qual o potencial benefício de participar no curso?
5. Quantas vagas gostaria de acessar? (mínimo 01, máximo 10, desagregado por gênero).
6. Breve descrição do perfil dos candidatos para as vagas pleiteadas (até 150 palavras). Nesta
etapa, não é necessário indicar o nome dos participantes, apenas descrever seu perfil. Exemplo: (a)
tipo de atividade que desempenha na organização: atendimento ao público, assistente social,
assessor jurídico etc; (b) tipo de formação: média, superior, pós-graduação; (c) tempo médio de
atuação na organização: menos de um ano, 1-5 anos, mais de cinco anos).
7. Breve justificativa da necessidade/importância da capacitação para os membros da organização
(150 palavras).
8. Pessoa de contato (nome, e-mail e telefone).

Maiores informações podem ser obtidas no edital do curso – acesse aqui

Diversidade e clamor por fronteiras livres marcam festival cultural de imigrantes

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A chilena Renata, durante apresentação que rendeu um dos prêmios do festival. Crédito: MigraMundo

7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes abre espaço para discussão de problemas enfrentados diariamente por imigrantes que vivem em São Paulo e levanta questões de gênero e cidadania

Por Antonella Vilugrón Pulcinelli
Em São Paulo (SP)

Mesmo com o frio do último domingo (26) em São Paulo, imigrantes se reuniram na Praça Kantuta para expressar um pouco de suas alegrias, tristezas e cultura no 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes, organizado pelo Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante (CAMI).

O festival tem como objetivo abrir espaço para toda a comunidade migrante, seja artistas e poetas já formandos, seja pessoas que nunca cantaram em público ou sequer pensavam em escrever uma poesia. O importante era usar a arte para compartilhar sobre sua experiência como imigrante.

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Para este ano o lema foi “Um grito pela Liberdade – Pelo fim da Invisibilidade dos Imigrantes”, que deveria ser abordado por meio de cinco temáticas: Lei de Migração, trabalho escravo, tráfico de pessoas, fronteiras livres e igualdade de gênero.

Participantes de diferentes nacionalidades se apresentaram no festival.
Crédito: MigraMundo

“O que nós fazemos é abrir espaço onde os imigrantes possam ir e ser eles mesmos, dizer o que eles pensam, por que diante do patrão, da sociedade brasileira eles nem sempre podem se manifestar. Por isso nós trabalhamos com tema o grito de liberdade, subir no palco é se soltar de todas as amarras”, explicou Roque Patussi, diretor do CAMI.

De acordo com a entidade, aproximadamente 600 pessoas passaram pelo evento durante todo o dia para prestigiar as expressões culturais que estavam acontecendo. Entre os participantes estavam músicos e poetas  – amadores ou não de Bolívia, Chile, Peru, Brasil e Nigéria.

As apresentações dos inscritos eram mescladas com outras atrações culturais. Tiveram participação especial a cantora salvadorenha Celina Castro, o grupo boliviano Salay, o grupo ganês-senegalês Projeto Mundo e a União Nacional Dança de Leão & Dragão, de folclore chinês.

Fronteiras livres

Cada um dos inscritos recebeu um certificado de participação do evento, que foi até o começo da noite de domingo. As apresentações foram avaliadas por uma banca de jurados composta por Soledad Requena (Peru), Rudmira Fula (Angola), Celina Castro (El Salvador) e Hugo Villavicenzio (Bolívia).

Na categoria música o prêmio foi para a cantora chilena Renata Fernanda Espoz Verez, que falou sobre pertencimento e ter liberdade de cruzar as fronteiras. Veja abaixo trecho da letra da música apresentada pela cantora:

“Vamos a conversar sobre las fronteras
Tu vives ala…yo vivo aca
Pero yo no naci aqui
Mis raíces estan cruzando la frontera, lejos de aqui
Yo quiero tener la liberdad de poder ama, donde yo quiera estar…”

A chilena Renata, durante apresentação que rendeu um dos prêmios do festival.
Crédito: MigraMundo

“Eu tô muito feliz de estar participando aqui dessa oportunidade de poder compartilhar minha arte, minha música, de compartilhar com pessoas de tantos lugares do mundo. É importante esse espaço porque geralmente por ser imigrantes não somos tão inclusos nas programações musicais, e como nossas raízes musicais são diferentes também isso não fica tão legal, ainda mais no Brasil que é um país ainda muito fechado musicalmente, agora está se abrindo um pouco mais”, contou Renata, que está no Brasil há dois anos.

É preciso falar de gênero

Já na categoria poesia o primeiro lugar ficou com Florência Manzoni Roca, transformista representada pelo boliviano Remberto Suárez Roca, que vive no Brasil há quatro anos e tratou questões como diversidade de gênero e tudo que enfrenta como imigrante e ativista. Foi a sua primeira poesia autoral.

“Eu faço com que essas pessoas se conheçam entre si, eu falo sobre prevenção de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), distribuo preservativos e explico a importância da mulher usar e ter o controle sobre ter ou não filhos. É uma educação sexual que a gente tem que dar”, contou Florência. Esse evento é uma oportunidade para que a comunidade me conheça ainda mais e que me abra espaço para tratar desses assuntos. Além de muito bom poder falar um pouco sobre o que eu já passei sendo imigrante”.

Leia abaixo trecho da poesia declamada por Florência:

“Basta de explotarme!
Basta de humillarme!
De discriminarme! Reclame!
Donde están mis documentos?
Porque no me aceptan?
Porque no me respetan?
O será que es por mi gênero?…
Muchas mujeres son muertas aqui em Brasil por feminicidio!
Son Matratadas! Traficadas! Com crueldad!…
Como artista e transformista quiero dar um grito de visibilidad
que gracias ahora aqui mi ¡transformidad!
Quiero dar amor e alegria y paz para toda mi comunidad”, declarava uma parte de sua poesia.

Renata e Florência, as vencedoras do 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes.
Crédito: MigraMundo