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segunda-feira, junho 29, 2026
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Brasileiros migrantes sentem vergonha do Brasil e aliviados de estarem longe do cenário político

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(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Brasileiros que vivem na Europa contam como é estar há milhares de quilômetros do país natal, hoje dividido entre os presidenciáveis Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT)

Da redação

O MigraMundo ouviu alguns brasileiros migrantes que vivem na Europa sobre o cenário politico no Brasil e como se sentem estando há mais de 10 mil quilômetros de sua terra natal em um momento de ascensão da extrema direita no país – representada pelo candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Eles se dizem envergonhados e decepcionados, mas ao mesmo tempo aliviados de não estarem no Brasil.

“Tudo virou emocional. Não há espaço para o diálogo”, afirma a advogada Camila Nobling, 45, moradora de Potsdam, cidade próxima a Berlim.

Da Inglaterra, os apoiadores do candidato da extrema direita defendem o projeto liberal de Jair Bolsonaro. “Há um projeto liberal eficaz para o Brasil”, afirmam Marina e Lucas Carnelós Fonseca.  “Não concordamos 100% com as falas do candidato, mas ele tem o melhor projeto para o Brasil.”

Todos eles falaram um pouco sobre os desafios de explicar para o estrangeiro o que se passa hoje no Brasil e relatam a indignação de alguns deles diante do candidato favorito, Jair Bolsonaro.

“Quando falo dos delitos que estão acontecendo contra as mulheres, a comunidade LGTB, os negros, sobre as fake news, todos assimilam isso com a subida de Hitler. Aqui na Alemanha se fala muito sobre o passado nas escolas, para que isso não se repita. Por isso a maioria é muito consciente nesse assunto”, afirma Julia Nobling Souza, estudante em Berlim. “Nós sabemos as consequências de tudo isso”.

Bandeira do Brasil e céu nublado em Brasília. Cenário político atual indica tempos difíceis à frente para pautas de direitos humanos no país.
Crédito: Rodrigo Veronezi/MigraMundo

Um “Trump dos trópicos”

“Um Trump dos Trópicos” é como o principal portal de noticias da Letônia , “Delfi”, descreve Bolsonaro em um pequeno perfil publicado dias antes das eleições.

“Parece ser a melhor analogia”, afirma o paulistano Tales Rosa, 33 anos, consultor e que mora em Riga, capital de um país que vê o Brasil como uma “terra distante e exótica”.

Morador há cinco anos do gélido país báltico, Tales diz que seu termômetro politico em relação ao debate politico no Brasil é tao frio quanto o país em que vive. “Estou dissociado do calor do debate. Vivo num país frio e meu termômetro político está igualmente frio”.

Ele acompanha as notícias e fala com familiares nas redes sociais, mas diz não ser a mesma coisa do que se estivesse in loco. “Acompanho diariamente as principais notícias em portais brasileiros e nas redes sociais, mas não estou com a turma na padaria, não ouço comentário do taxista, não sei qual é a última piada sobre o Bolsonaro.

Sobre estar longe do Brasil em um momento delicado e importante, ele diz se sentir aliviado. “‘Que bom que não estou aí’ é uma frase que usei algumas vezes em conversas via WhatsApp nos últimos meses”, afirma. “É um sentimento muito egoísta, mas visceralmente verdadeiro. Estou eternamente ligado ao futuro da minha terra natal mas, neste momento, é um tremendo alívio não fazer parte da discussão política”.

Revolta

Tales não pode votar no primeiro turno, nem votará no próximo domingo (28). Mas o consultor, que se declara de centro-esquerda, faz duras criticas ao PT e também repudia o discurso de Jair Bolsonaro.

“País nenhum merece Bolsonaro como presidente, e a ideia de ter outro poste eleito pelo Lula, que comandaria o país da cadeia é repugnante”. E acrescenta. “Considero o Haddad tolerável como político, mas a bagagem que ele carrega como representante de Lula e do PT é tao inaceitável quanto a de Bolsonaro”.

Tal revolta é compartilhada pelo casal Marina, 27 anos e administradora financeira, e Lucas Carnelós Fonseca, 30 anos e veterinário. Eles moram há mais de 1,6 mil quilômetros de Riga, na cidade inglesa de Bournemouth, e deixaram o Brasil há pouco mais de um ano. Para Marina, “o PT se mostra hoje como salvador da Pátria culpando o atual presidente da República, Michel Temer pela situação precária e absurda do Brasil”.

Marina diz ter lido as propostas de ambos os candidatos, e hoje declara o seu apoio ao candidato Jair Bolsonaro. “O plano de Bolsonaro é um plano democrático liberal, com base, estrutura e dizendo como fará para atingir os objetivos propostos. Digo que se ele fizer 50% do que está em seu plano, já fará uma diferença gigante no país”, afirmou ela em post em sua página no Facebook.

“As opiniões dele como pessoa também não me agradam, porém não preciso de uma pessoa no governo, preciso de uma equipe, inteligente, focada e administradores no governo. Essa equipe o Sr. Bolsonaro já montou”, acrescentou.

Marina e Lucas conversaram com o MigraMundo sobre algumas declarações feitas pelo candidato contra migrantes no Brasil, como os refugiados que foram chamados de “escória do mundo” pelo candidato de extrema direita. Marina e Lucas não concordam 100% com as declarações do candidato e citam o Brexit como uma resposta democrática à questão migratória.

“Porém, uma única pessoa não consegue criar leis e excluir pessoas de um país. Vivo hoje na Inglaterra, onde os mesmos também com o Brexit gostariam de evitar migrantes a seu próprio modo. Meu voto é do Bolsonaro porque acho que nele teremos mudanças para melhor no país”.

O futuro

Face à probabilidade do candidato Bolsonaro obter o poder no Brasil, o paulistano Tales, há 10.533 quilômetros de sua terra natal, ainda se mostra esperançoso.

“Veja os EUA com Donald Trump. O país não explodiu em chamas, as pessoas continuam vivendo suas vidas e a economia vai bem. Apesar de odiar Bolsonaro e o que ele representa, quero acreditar que nossa democracia, minorias e meio-ambiente vão sobreviver a ele”.

Já Camila não tem tantas certezas assim. Como Tales, ela deixou o Brasil definitivamente nos anos 2000 e já está há 15 anos na Alemanha com sua família. “Eu me pergunto o tempo todo, com essa hostilidade entre as pessoas, como vai ficar a situação do país depois das eleições, independente do candidato vencedor”.

Ela conta que acompanhou de perto, como todos os anos, as eleições no Brasil. “Mas dessa vez foi diferente. Senti um clima pesado e de certa forma hostil desde o início, especialmente em relação aos partidos envolvidos nos escândalos de corrupção e uma certa descrença de pessoas que não acreditam mais na política.”

Camila conversou com seu marido alemão sobre a ascensão da extrema direita e de seu discurso radical, e ele teria respondido: “As pessoas não estão pensando”. E ela ressoa com o marido: “Tudo é regido pela emoção no debate político no Brasil, algo difícil para um alemão compreender”.

A Alemanha viu nascer no começo do século XX no seio de seu debate politico um discurso extremista de direita que ficou conhecido como Nazismo. Abalado em sua identidade e em sua economia após a Primeira Guerra Mundial, o país deu espaço e apoio a um dos personagens mais cruéis da História Contemporânea, Adolf Hitler, que pregava o ódio e o extermínio de minorias como judeus, ciganos e homossexuais. No poder, Hitler operou uma máquina de perseguição e extermínio de mais de 10 milhões de seres humanos que não se enquadravam no que ele chamaria mais tarde de supremacia da raça ariana.

“Eu moro em Berlim, uma cidade que passou por ambos extremos do Nazismo e do Comunismo e até hoje nós podemos ver as consequências disso”, diz Julia, filha de Camila, que mora em Berlim, onde estuda a cultura e a língua chinesa na Universidade Livre de Berlim. Julia deixou o Brasil ainda adolescente, há 15 anos.

“O sentimento que tenho sobre a ascensão do radicalismo de direita no Brasil é de tristeza, ver tanta gente votando com ódio, as pessoas estão cegas. A história no mundo inteiro mostra quantos erros foram cometidos pelo ódio, e as pessoas ainda não aprenderam, isso me decepciona muito”, afirma ela.

“Eu já conheci alguns idosos que viveram a Segunda Guerra Mundial, assim como a época do Muro de Berlim, e elas sempre me contaram histórias. Fico muito triste ao ver que os brasileiros intencionam votar em um senhor com ideias loucas e sem proposta apenas por ódio ao PT”, afirma Julia, que se sente envergonhada com a ascensão de Jair Bolsonaro, candidato que para ela tem “uma agressividade absurda”.

Tristeza e decepção

Camila se diz indignada pela desinformação do brasileiro e por discursos da extrema direita, que “colocam nazismo, fascismo e comunismo no mesmo saco e que tolera a tortura”. Camila diz também estar confusa em um misto de tristeza e decepção.

“Tristeza por ver um país dividido e fechado ao diálogo e decepção por ver pessoas inteligentes e preparadas, que pensei que teriam a clareza necessária para analisar o momento com objetividade, se deixarem levar por emoções.”

Ambas, filha e mãe, vão votar no próximo domingo, 28. “Bolsonaro bate de frente em muitas coisas que acredito e considero fundamentais, direitos humanos, por exemplo. Além de ter um discurso agressivo, nada conciliador. Meu medo em relação a ele não é somente o que ele pode fazer – até porque ainda temos um Congresso. Mas antes de tudo aquilo que seu discurso já faz: despertar o pior nas pessoas”, acrescenta Camila.

Para Júlia, sua filha, Bolsonaro não estaria na política se fosse alemão. “Vejo suas entrevistas e fico pensando, se um politico alemão falasse certas coisas, não poderia nem estar se candidatando na Alemanha. Se o politico aparecesse em vídeos, mesmo que antigos, em qual banaliza estupro, violência, é homofóbico etc acho que ele já até estaria preso ou pelo menos afastado da política”, afirma. “Eu vi um vídeo, em que Bolsonaro fala que quer “fuzilar a petralhada”. Para mim isso é ameaça, e isso aqui seria crime.”

Como explicar o Brasil?

Camila, na Alemanha, conta que muitos alemães a questionam sobre o que estaria acontecendo em seu país. “E é claro que os alemães estão atentos. Não sei quantas vezes já ouvi a pergunta: “o que está acontecendo no seu país?” A repercussão não é boa”, afirma.

“A imprensa (tanto de direita quanto de esquerda, veja aqui o FAZ, Zeit, Süddeutschezeitung) fala na possível eleição de um político de extrema direita que faz comentários contra minorias: comunidade LGTBQ, negros, índios, mulheres. Extrema direita aqui tem uma conotação péssima pois é um termo usado para partidos como a AFD, um partido extremamente radical, e também para movimentos nazistas”, afirma ela, que acrescentou que se envergonhou com as declarações de alguns militantes brasileiros de que o Nazismo de Hitler foi um movimento da esquerda e não da direita. “Alguns vieram me dizer: “mas as pessoas não sabem que os primeiros a serem presos e assassinados foram os comunistas?”

Tales, na Letônia, discute limitadamente com seus clientes letos o cenário politico brasileiro. “Letos em geral enxergam o Brasil como um país muito distante e exótico, por isso poucas pessoas têm consciência da situação politica e suas nuances”, afirma. “Ouço dizer que há pouca consciência inclusive em relação ao que está acontecendo com os nossos vizinhos, Polônia e Hungria. O Brasil, portanto, passa longe da mente da população local.

Em conversas com seus amigos alemães, Julia diz falar dos prós e dos contras de Haddad e Bolsonaro. “Não se fala muito disso aqui na televisão, mas quando conto como Bolsonaro e o PT são, ficam horrorizados. Mas todos dizem que preferem votar em um partido corrupto em qual possa depois ser livre, protestar etc. ao invés de votar em um fascista, no governo do qual não terão liberdade nem direitos se não for da elite branca°, afirma Júlia.

Exclusão do debate

Alguns deles também retraram a exclusão que sofrem de brasileiros no Brasil quando tentam falar sobre política. “Tenho que ouvir várias vezes amigos e familiares falando que por morar longe e desconhecer a situação do país, eu não tenho direito de opinar sobre política”, afirma Julia. “Mas exatamente por este motivo é que acho que, quem mora fora tem uma cabeça mais aberta, mais clara para enxergar essa situação delicada”, acrescenta. “A sensação que eu tenho, quando falo sobre o Brasil, é que sou uma terceira pessoa, uma observadora.”

Paula D´Ávila também já ouviu de brasileiros que ela não poderia opinar por morar longe. “Esse argumento não faz sentido nenhum, pois tudo o que eu tenho, meus amigos, meus familiares, meus investimentos, estao todos no Brasil.” Paula hoje mora em Dublin, na Irlanda, onde é supervisora de hospitalidade.

Como Tales, seu vizinho de pouco mais de 872 quilômetros morador na Letônia, Camila e Júlia se sentem aliviadas de não estarem no Brasil. “ Pelo que ouço o clima está muito tenso no Brasil e as pessoas, quando não se ofendem descaradamente, pisam em ovos. Por outro lado gostaria muito de estar lá participando mais ativamente de tudo o que está acontecendo”, afirma Camila.

O mesmo acontece com Paula. “Eu não queria estar lá, mas sinto falta de participar ativamente como fazia quando morava no Brasil”, afirma a carioca, que saiu há 1,7 ano do Brasil. Mas apesar de não estar no Rio de Janeiro, seu estado natal, para protestar ela afirma que já declarou “sua oposição ao candidato Jair Bolsonaro” nas redes sociais. “Antes eu discutia com meus familiares e amigos, mas comecou a dar muita briga e decidimos que nao se falava mais nisso.” Paula se descreve como alguém que sente um “profundo desespero” ao pensar no futuro do Brasil. “Eu tinha planos de voltar, mas agora esses planos foram postergados para no minimo quatro anos.”

De acordo com dados consulares, os brasileiros residentes na Alemanha e Letônia, onde moram Camila, Julia e Tales, votaram em sua maioria em Ciro Gomes no primeiro turno. Já na Inglaterra, principalmente em Londres, alguns quilômetros próxima da cidade onde moram Marina e Lucas, 53% votou em Bolsonaro no primeiro turno.

Migrantes e refugiados são destaque em projeto contra o trabalho escravo na moda

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Parte de instalação interativa temporária em São Paulo, onde mensagens de vítimas de trabalho escravo foram anexadas às linhas usadas na costura. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo - out.2018

Evento Não Somos Escravos da Moda, realizado pelo MPT, contou com palestras, exposições e instalação interativa para conscientizar a população sobre os trabalhadores em situação análoga à escravidão

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)

Entre os dias 20 e 23 de outubro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) promoveu uma ação como parte do projeto de erradicação do trabalho escravo no Brasil. Em parceria com o Somos Livres e apoio da UNICAMP – Cátedra Sergio Vieira de Mello, o “Não Somos Escravos da Moda” tomou o Casarão Paulista 1811 com palestras, exposição fotográfica e instalação interativa simulando uma fábrica têxtil como forma de conscientizar a população quanto a temática. Imigrantes e refugiados foram lembrados pela vulnerabilidade ao trabalho escravo.

O projeto aconteceu concomitante à Semana da Moda em São Paulo, contrastando as faces dessa indústria de consumo.

No evento, peças de roupas e acessórios confeccionados por migrantes ficaram expostos no estande do Deslocamento Criativo.

Como parte da exposição, painéis traziam informações sobre trabalho escravo. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo.

O trabalho escravo fere condições básicas de direitos humanos. Em situações análogas à escravidão, pessoas são submetidas a horas laborais exaustivas, degradantes, sem o mínimo de respeito quanto às normas de saúde, higiene, segurança, alimentação e outras condições.

De acordo com levantamento feito pelo The Global Slavery Index, que fornece uma classificação do número de pessoas na escravidão moderna por país, a indústria têxtil é uma das áreas de escravidão moderna que mais cresce no Brasil. Tudo para alimentar o consumo de grifes e varejistas, enquanto maltrata parte da população que foge da fome ou busca melhores condições de vida.

O indicador também aponta que, em São Paulo, há casos de migrantes que são explorados, bem como aqueles que foram trazidos com documentos falsos.

Combate ao trabalho escravo é um dos desafios da indústria têxtil. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Gustavo Tenório Accioly, procurador do Ministério Público do Trabalho, e responsável pela organização do evento, disse que parte dos trabalhadores de oficinas de costura são migrantes, sejam eles nacionais ou internacionais, e que “diante da situação de vulnerabilidade e invisibilidade, não conseguem denunciar aos órgãos públicos”. Por isso, foram desenvolvidas uma série de atividades com a finalidade de empoderar essas pessoas, tanto brasileiros quanto imigrantes e refugiados.

O espaço reservado à exposição de itens foi ocupado por produtos confeccionados por imigrantes: designer de moda, bolsas feitas em couro, bonecas feitas à mão e acessórios, como colares e adereços para a cabeça. A roupa comercializada era feita com tecidos africanos – uma forma de gerar oportunidade de renda, fortalecendo a autoestima no sentido da percepção de que este é um mercado que eles também podem atuar e viver.

Outra atração do evento era a exposição “Costurando Dignidade”, do fotógrafo Chico Max. Ele trouxe retratos de mulheres que já foram exploradas em oficinas de costura, sendo a maioria bolivianas. Ligado à causa humanista, Chico Max já realizou uma mostra com fotografias de imigrantes em 2016.

Boa parte das mulheres retratadas na exposição são bolivianas, que vêm ao Brasil pela promessa de emprego. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo.

 

Exposição fotográfica de Chico Max traz mulheres que já foram expostas ao trabalho escravo na área têxtil. Crédito: AmandaLouise/MigraMundo.

Preocupados em fazer com que o público imergisse na realidade vivida por essas pessoas, uma instalação interativa foi montada simulando os trabalhadores presos ao ofício de condições precárias.

“O que está por trás da roupa que você veste?”,é a provocação direcionada ao público ao passar pela instalação.

Mulher com boneco na instalação interativa, fazendo menção às mães que trabalham até mesmo com os filhos ainda no colo. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

 

Mensagens de vítimas de trabalho escravo foram anexadas às linhas de costura. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo.

 

Por trás das roupas prontas há pessoas que colocam a vida em risco. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Aproveitando o dia de domingo (21), muitos entravam no Casarão da Paulista curiosos com a fachada: #NãoSomosEscravosdaModa. Sem nenhum momento em que permitisse tranquilidade entre os corredores.

A estudante de Farmácia Samantha Pires dos Santos, 21, foi fisgada pelo tema e se surpreendeu com o projeto, dizendo ser um tema atemporal e de emergência.

“A gente consome tudo de forma tão desenfreada, e não sabemos das vidas envolvidas por trás de uma roupa ou aparelho celular”.

“Deslocamentos globais, compromissos locais”: pensando soluções

Durante todos os dias do evento, palestras e mesas de conversa foram organizadas para que o diálogo fosse aberto sobre os variados temas dentro do tema, sempre com pontuações a imigrantes e refugiados. No domingo, dia 21, o assunto tratado entre os presentes foi “Deslocamentos globais, compromissos locais”, abordando o compromisso de receber as “pessoas que vem de fora” nos países de destino.

Diálogo sobre as responsabilidades dos países de destino ao receber imigrantes que pretendem começar projetos. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Foi pensando na forma como imigrantes podem obter espaço para comercializar seus produtos no local em que escolhem ir, quando podem escolher, que se propôs uma palestra sobre os desafios e responsabilidades na inclusão dessas pessoas no mercado da moda. Existem migrantes atuando na área e são poucos conhecidos pela falta de valorização, ou mesmo, por não saberem como atuar na divulgação dos trabalhos.

Maria Nilda Santos, coordenadora do Deslocamento Criativo, conta que quem atua nessa área quer revelar no que pode contribuir, além de chamar a atenção das empresas maiores para criarem meios de apoiar os migrantes.

“Para isso, é preciso valorizar os pequenos produtores, aqueles que não possuem grande estrutura, mas que produzem peças excelentes e com características interculturais. Acreditamos na contribuição da diversidade, na valorização da mão de obra mais artesanal como meio sustentável de ser e existir”.

“A tendência de todos os Estados modernos é afastar o diferente, é afastar a alteridade, é expulsar o outro. Por meio do discurso de ódio, de violência e tudo mais”. A fala é do filósofo e escritor Brunno Almeida Maia, em provocação aos presentes em como pensar na dinâmica em que se propõe o universalismo ao mesmo tempo em que há políticas e discursos excludentes.

Ele é taxativo ao afirmar que não adianta só “sonhar” em rodas de conversas, propondo respostas, sendo que a qualquer momento pode haver uma medida provisória ou uma lei que proíba a entrada de estrangeiros no país.

Filósofo Brunno Almeida Maia fala sobre relação da globalização com a construção de muros, na falsa sensação de universalização. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo.

“O desafio de pensar globalmente, pensar localmente, não é só um desafio para uma roda de conversa ou para o coletivo, é um desafio também individual. O compromisso tem que ser afirmado das duas pontas. Tem esse momento de acolhimento, daquele que vem de fora, mas, também, pressionar para que essas estruturas se modifiquem, e aí essa pressão, tem que ser pressão em todas as formas possíveis; desde a indústria até a política em termos de Estado”, enfatiza.

Em contrapartida, alguns grupos, como a TexPrima, do Bruno Henrique Medeiros Souza, procuram dar um espaço acessível a pequenos produtores. Não só pelos tecidos e ambientes para costura, mas, também, no marketing.

“A gente precisa valorizar a galera que tá começando, o novo, o pequeno. Com o deslocamento criativo, com apoio, nossa intenção é, realmente, além da matéria-prima, estarmos presente em outras etapas, de vocês, estilistas. Por exemplo, como é que a gente pode criar meios de comercialização para quem está começando e não tem um meio de comercializar? Como a gente pode unir você a pessoas que sabem costurar e outros meios de produção?”. E conclui: “Quando a gente tá falando de acolher o imigrante, acolher o pequeno, fica parecendo que a gente tá falando apenas de algo assistencial. Não é”.

Bruno Henrique faz parte de um dos grupos que facilitam o acesso à matéria-prima a pequenos produtores de moda, entre eles, imigrantes e refugiados. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo.

Morando no Brasil há cinco anos, o refugiado Sírio Nour Koeder é estilista e figurinista. Assim como alguns refugiados e imigrantes, veio ao Brasil na busca de oportunidade. Saiu do país pela guerra que assola a Síria desde 2011. Ele comenta que a chegada é difícil, por ter que recomeçar num país com outra língua, outra cultura. “Fazer contatos, trabalhar e achar oportunidade. Projeto da Nilda ajuda a dar oportunidade para recomeçar, sem oportunidade não consegue começar”, explica ao falar sobre o Deslocamento Criativo. Além da dificuldade em achar tecidos específicos e de importar produtos da Síria, fora os preços altos, menciona a adaptação que precisa fazer pelo clima brasileiro, trazendo características dos cortes do Oriente Médio. “Alguns refugiados que chegam no Brasil, às vezes, não precisam de ajuda financeira, precisam de oportunidade para fazer parte da economia criativa”.

O estilista sírio Nour Koeder: “Fazer contatos, trabalhar e achar oportunidade”. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo.

Oportunidade é a palavra. Para que pessoas não sejam mais vítimas de uma indústria que escraviza. Como mencionou o filósofo Brunno Maia: “a dignidade humana tem que vir em primeiro lugar”.

 

Imigrantes ou expatriados? Cinquenta tons de significados

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Crédito: Pixabay

Novos movimentos migratórios criam hierarquias de imigrantes que são usadas como tema político

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

Com tanto movimento migratório ao redor do mundo, definições sobre imigração e suas diversas classificações tomam forma. Uma dessas definições – notoriamente ambígua – é “expat” (ou expatriado).

O que é um expatriado? E quem pode ser chamado de expat? De acordo com a Wikipedia, “um expatriado é uma pessoa que reside temporária ou permanentemente em um país diferente da sua origem”.

Definido dessa forma, espera-se que qualquer pessoa que vá morar fora de seu país por um período de tempo seria um expatriado, independentemente de sua cor de pele, profissão ou país. Mas esse não é o caso na realidade; expat é um termo comumente utilizado para um seleto grupo de pessoas que vão trabalhar no exterior – geralmente do mundo ocidental, brancas e com bom poder aquisitivo.

Enquanto isso, o termo imigrante está numa posição bem menos privilegiada. Por exemplo, uma empregada filipina nos Emirados Árabes Unidos ou um colombiano na construção civil na Espanha são imigrantes, enquanto profissionais britânicos da área financeira são certamente expats. Engenheiros alemães? Expats. Marqueteiros americanos? Ultra expats.

Expatriado é um dos termos usados na temática migratória. Seu uso, em determinados casos, traz um significado excludente.
Crédito: Pixabay

Mas o que caracterizaria um indiano na área de TI nos Estados Unidos ou um engenheiro chinês? E os brasileiros ao redor do mundo? Seriam eles imigrantes ou expats?

O Wall Street Journal, a principal revista de informação financeira do mundo, tem um blog dedicado à vida dos expatriados que publicou história “In Hong Kong, Just Who Is an Expat Anyway?” (Em Hong Kong, Quem Afinal É um Expat?). O autor traça algumas conclusões: “Algumas pessoas são descritas como expatriadas; outros como imigrantes; e alguns simplesmente como migrantes. Depende da classe social, país de origem e status econômico. É estranho ouvir algumas pessoas em Hong Kong descritas como expatriadas, mas não outras. Qualquer pessoa com raízes em um país ocidental é considerado um expat… Ajudantes domésticos filipinos são apenas convidados, mesmo se eles estão aqui há décadas. Chineses chineses que falam mandarim raramente são considerados expatriados … É um duplo padrão entremeado na política oficial. ”

Por que essas definições importam? Porque tais classificações com significados ambíguos podem, em alguns casos, serem usadas para desumanizar certos grupos migratórios, fazendo deles alvos fáceis para propagandas políticas.  Porque podem denegrir pessoas, numa espécie de hierarquia de imigrantes – alguns valem mais, outros menos. Os imigrantes são alvos mais fáceis para objetivos eleitoreiros, como no caso de Donald Trump (que é seguido por milhões que acreditam ser um muro entre os EUA e o México a solução de todos os problemas) e o Brexit (que usou a imigração como principal tema para sair da União Europeia). Na Alemanha, imigração e principalmente a questão dos refugiados foi o ponto principal de discussões nas eleições para chanceler em 2017. Recentemente alianças políticas estão caindo justamente nesse ponto, como se a Alemanha não tivesse outros problemas.

Os refugiados então – os últimos na hierarquia de migração – são o alvo mais fácil (e mais frágil) no circo político. É claro, é predominantemente uma questão de quantidade de gente que atravessa a fronteira, mas é também uma preocupação de que países como a Alemanha serão “invadidos” por refugiados e imigrantes – mas não por expats, cuja presença não incomoda ninguém (apesar de serem essas pessoas que tomam cargos mais qualificados).

Por isso, tantos tons em significados são importantes de notar – e questionar. Existe uma hierarquia ambígua que distorce a discussão migratória e que é muitas vezes utilizada para fins políticos. Nos diversos tons de cinza que constituem a questão de imigração, paradoxalmente não são os expats com seus empregos mais qualificados que constituem uma ameaça, mas os imigrantes e refugiados que fogem de guerras e fome. Assim caminham as contradições da humanidade.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. Seu primeiro livro, Ventos Nômades, é uma coleção de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e do exótico, os desafios e maravilhas de relacionamentos multi culturais e imigração. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no Facebook, Instagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.     

Brasil autoriza concessão de residência provisória para cerca de 5.200 haitianos

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Haitianos em São Paulo participam da Festa da Bandeira, principal data cívica do país. Crédito: Rodrigo Borges Delfim - 18.mai.2014/MigraMundo

Os migrantes beneficiados pela medida devem se apresentar à Polícia Federal o quanto antes, com toda a documentação necessária, para concretizar o processo

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 16/11/18, às 23h30

O Departamento de Migrações (Demig) do Ministério da Justiça deferiu nas últimas semanas a autorização de residência temporária para cerca de 5.200 haitianos que pediram refúgio no Brasil.

Uma primeira lista com 1.000 nomes foi publicada no último dia 15 de outubro no Diário Oficial da União. Uma segunda lista foi divulgada no dia 25 de outubro, com a concessão em favor de outros 3.000 haitianos. E no último dia 16 saiu uma nova lista, com os nomes de mais 2.242 pessoas do país caribenho.

Os nomes contemplados em qualquer uma das chamadas podem ser consultados por meio do portal do Ministério da Justiça neste link.

Haitianos em São Paulo participam da Festa da Bandeira, principal data cívica do país.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim – 18.mai.2014/MigraMundo

Para que a autorização de residência seja efetivada, os migrantes devem se apresentar à Polícia Federal no prazo de 30 dias, a contar da publicação no Diário Oficial – ou seja, até 14 de novembro – com os seguintes documentos:

  • documento de viagem ou documento oficial de identidade;
  • duas fotos 3×4;
  • certidão de nascimento ou casamento ou certidão consular, desde que não conste a filiação no documento mencionado no item “a”;
  • certidão de antecedentes criminais dos Estados em que tenha residido no Brasil nos últimos cinco anos;
  • declaração, sob as penas da lei, de ausência de antecedentes criminais em qualquer país, nos últimos cinco anos;
  • comprovante de solicitação de refúgio.

Os beneficiados por esta medida estão isentos de taxas de regularização migratória.

Os três pedidos que geraram as listas de contemplados atendem a pedidos coletivos da DPU (Defensoria Pública da União), para que o grupo tivesse acesso à acolhida humanitária. No começo do mês de outubro, a DPU enviou o requerimento ao Demig argumentando que os haitianos já aguardavam há tempos uma definição das autoridades brasileiras, e que têm dificuldade para compreender a legislação migratória do país.

Entre 2010 e 2015 estima-se que entre 70 mil e 80 mil haitianos tenham entrado no Brasil, impulsionados pela situação pós-terremoto que atingiu o Haiti em janeiro de começo de 2010, pelo bom desempenho da economia brasileira no período e pelas redes de contato criadas pelos próprios migrantes.

Desse total, uma parte se estabeleceu no Brasil, enquanto outros partiram para outros países – há também aqueles que retornaram ao Brasil depois de passarem por outras nações sul-americanas.

Com informações da DPU

Você sabe o que o seu candidato a presidente propõe sobre migrantes?

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Palácio do Planalto, em Brasília, sede da Presidência. Crédito: Eduardo Coutinho/Wikimedia Commons

Temática é abordada por apenas 4 dos 13 presidenciáveis nesta eleição, e de forma superficial

Por Pâmela Vespoli
De São Paulo (SP)

As eleições acontecerão neste domingo e muitos critérios têm sido discutidos e avaliados para a escolha do candidato – cuidados com o meio ambiente, educação, segurança, saúde, entre outros. Mas você sabe se seu candidato tem algum posicionamento diante das questões migratórias?

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Conforme o portal de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 13 candidatos à presidência apenas quatro mencionam em sua propostas de governo alguma medida relacionada à migração: Fernando Haddad (PT), Guilherme Boulos (PSOL), Jair Bolsonaro (PSL) e Vera Lúcia (PSTU).

Palácio do Planalto, em Brasília, sede da Presidência.
Crédito: Eduardo Coutinho/Wikimedia Commons

Fernando Haddad (PT)

No parágrafo 2.10 do documento apresentado pelo Partido dos Trabalhadores, Haddad se compromete com o direito dos migrantes por meio de uma política nomeada por ele Política de Nacional de Migrações, afirmando “reconhecer, de forma ampla, os direitos de refugiados”.

Apesar de não especificar como seria esta política, quando questionado no debate da TV Aparecida, transmitido no dia 20 de setembro, o candidato citou medidas implementadas durante sua gestão na Prefeitura de São Paulo (2013-2016).

Entre elas estão a inauguração do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI), a criação da Política Municipal para a População Imigrante e mutirões de inscrição de imigrantes e refugiados no Cadastro Único – que permite o acesso dos migrantes aos programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida.

Guilherme Boulos (PSOL)

Boulos propõe ampliar, equipar e aperfeiçoar os serviços dos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), a fim de melhorar a qualidade de vida de seus usuários, entre os quais são mencionados imigrantes e refugiados.

Além disso, Boulos se compromete a “promover a proteção aos refugiados e a garantia dos direitos humanos de migrantes, incluindo a sua não criminalização e a integração social, por meio da regularização migratória e do amplo acesso a direitos”.

Jair Bolsonaro (PSL)

A única menção feita na proposta de Bolsonaro é a respeito dos familiares de médicos cubanos do programa Mais Médicos. “Nossos irmãos cubanos serão libertados. Suas famílias poderão imigrar para o Brasil. Caso sejam aprovados no REVALIDA, passarão a receber integralmente o valor que lhes é roubado pelos ditadores de Cuba!”, diz o documento.

Revalida é o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos, Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira. No entanto, não há nenhuma especificação ou desenvolvimento a mais sobre o assunto na proposta.

No entanto, o candidato do PSL é crítico notório da Lei de Migração aprovada em abril de 2017 pelo Senado e que está em vigor desde novembro do mesmo ano. Ele também já se referiu no passado aos refugiados como “a escória do mundo” e sugeriu a criação de campos de refugiados para venezuelanos na fronteira norte do Brasil como forma de lidar com fluxo migratório que vem do país vizinho.

 

Vera Lúcia (PSTU)

Já a candidata Vera Lúcia, em seu programa de governo, se compromete com a obtenção de documentos para os trabalhadores imigrantes. Também diz que assegurar direitos iguais aos dos trabalhadores brasileiros.

 

Sem direito a voto

De acordo com o artigo 14, § 2º da Constituição Federal estrangeiro não pode alistar-se como eleitor. Apenas portugueses que habitam o país há pelo menos um ano e imigrantes naturalizados brasileiros podem requisitar direito a voto ao Ministério da Justiça.

Fazendo do Brasil o único país da América do Sul a restringir tal direito aos imigrantes. No entanto, mesmo que a pessoa queira se naturalizar, o que é delicado por sentir abandonar suas origens, ela precisa aguardar o período de quinze anos para realizar a solicitação. Sendo impedida de eleger alguém que a represente e atenda suas necessidades.

Com o objetivo de amenizar este impacto, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) criou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 25/2012 que permite imigrantes terem direito de voto e a se candidatar na esfera eleitoral municipal. Segundo reportagem publicada em fevereiro passado no jornal Folha de S.Paulo, estima-se que a aplicação desta emenda aumentaria em 3 milhões o número de eleitores.

A PEC foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em junho do ano passado e no momento está em processo de tramitação no Senado.

“Eu gostaria que as pessoas ficassem um pouco alertas sobre o que os candidatos pensam em relação aos imigrantes e refugiados”, clama a síria Joanna Ibrahim que está no Brasil há quatro anos e está entre a parcela da população brasileira que, por ser migrante, não tem direito ao voto. Seu destino, no entanto, continua a depender das decisões de brasileiros natos e naturalizados.

Decreto Segurança e Migrantes: segurança para quem?

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Enquanto governos como o italiano fecham suas fronteiras em nome da segurança, migrantes continuam entregues à própria sorte. Crédito: Marina Militare

Pe. Alfredo J. Gonçalves

O Conselho de Ministros da Itália apresentou, no dia 24 de setembro de 2018, as normas sobre o “Decreto sicurezza e migranti” (Decreto segurança e migrantes). O texto segue agora para a aprovação do Congresso e do Presidente Sergio Matarella. A pergunta emerge de forma imediata e espontânea: segurança para quem?

Certamente não para os imigrantes, refugiados e prófugos – ou para os requerentes de asilo. O que está em jogo é antes a expressão viva e concreta de uma espécie de “ideologia de segurança nacional”. Esta ideologia, bem conhecida na América Latina e Caribe desde os tempos das ditaduras militares, tornou-se o fundamento da política migratória dos governos fortemente conservadores, com fortes ingredientes de nacionalismo populista. Semelhante atitude de intolerância e rechaço constitui hoje a marca registrada de numerosas autoridades governamentais, num avanço da ultra-direita por várias regiões do planeta, com especial acento para o Ocidente de tradição democrática.

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Nas entrelinhas da “proteção humanitária”, conforme o véu retórico do Decreto, e por trás do rosto sorridente do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, e do Ministro do Interior, Matteo Salvini, escondem-se, entre outros, três formas de restrição à imigração na península italiana:

a) novas e rígidas exigências para os requerentes de asilo (o que praticamente impossibilita a migração pelas vias legais);
b) possibilidade de cancelamento da cidadania em casos de antecedentes suspeitos (o que abre espaço para múltiplas e duvidosas interpretações);
c) diminuição do orçamento para a acolhida e a assistência aos recém-chegados (o que representa uma forma dissimulada de fechar as fronteiras do país especialmente aos estrangeiros que vinham da África e do Oriente Médio).

De fato, há alguns meses vem diminuindo a entrada de imigrantes na Grécia e na Itália (nesta última a queda chegou a 80% ). Ao mesmo tempo, cresce o número dos que se dirigem às costas da Espanha, com destaque para Ceuta, território espanhol no continente africano.

Enquanto governos como o italiano fecham suas fronteiras em nome da segurança, migrantes continuam entregues à própria sorte.
Crédito: Marina Militare

Mais grave, porém, é dar-se conta que tal resposta do governo responde às expectativas de amplos setores da população. O medo e a ameaça do “outro” (estrangeiro, diferente e estranho) expande-se como uma doença contagiosa. Contra os estrangeiros multiplicam-se grupos e ações de caráter neofascista e neonazista. As pessoas, individual ou coletivamente, tendem a fechar o coração, as portas e o acesso à comunidade por parte dos imigrantes. A perseguição e a violência têm atingido não poucas pessoas na Itália e na Europa. Racismo, intransigência, discriminação e xenofobia passam a ser vistas como atitudes normais, ao mesmo tempo que a acolhida e a solidariedade podem ser passíveis de punição. Enquanto as campanhas eleitorais manipulam negativamente a politização das migrações, os cidadãos e boa parte da mídia naturalizam a a criminalização dos migrantes. Daí a instrumentalização do risco que esses últimos podem representar, por um lado, e, por outro, o uso do fenômeno migratório como trampolim para o acesso ao poder.

A Itália, a União Europeia e as democracias ocidentais em geral revelam-se cegas e míopes diante dos fluxos migratórios atuais. Estes adquirem um caráter estrutural e planetário, tornando-se cada vez mais numerosos, diversificados e complexos. De acordo com os dados do ACNUR, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, em 2001 existiam no mundo 18 milhões de “desplazados” (deslocados). Hoje, devido às tensões, conflitos e guerras disseminadas, à violência em suas mais diversas formas e às perseguições políticas, religiosas e ideológicas, esse número chega a 68,5 milhões. Isso significa que, em menos de duas décadas, o aumento atingiu a marca impressionante de 280%. Em lugar de buscar soluções para as crises em curso, as autoridades internacionais somente as fizeram aumentar. Ainda segundo as estatísticas do ACNUR, o ano de 2017 representou um novo recorde negativo pelo quinto ano consecutivo: 2,9 milhões a mais com respeito a 2016, que havia alcançado a cifra de 65,6 milhões. Trata-se do maior aumento registrado pela ONU em apenas um ano. Além disso, outros 13,3 milhões viram-se constrangidos a escapar novamente, numa média de 44.000 pessoas por dia (Cfr. Jornal Corriere della sera, 18 de setembro de 2018).

Na contramão das inúmeras tentativas do Papa Francisco, a indiferença diante da violência, da pobreza e da fuga desesperada de milhões de pessoas, em todo o mundo, vem imprimindo um caráter marcadamente xenofóbico à legislação migratória. Fala-se de “regular o fenômeno migratório”, através de “corredores humanitàrios”, em vista de uma “governabilidade (ou governança) da mobilidade humana”. Tais expressões, aparentemente voltadas para a proteção dos migrantes, na verdade ocultam a ideologia da segurança nacional. Mais do que favorecer canais de acesso aos refugiados, impossibilitam todo e qualquer tipo de migração regularizada, aumentando assim a pressão sobre as fronteiras. Em última instância, visam responder não às necessidades de quem está a caminho de uma nova pátria, e sim ao medo de quem habita as fortalezas construídas pelos benefícios da técnica e do progresso.

Roma, 25 de setembro de 2018

Migrantes recorrem ao empreendedorismo contra falta de oportunidades

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Pessoas de diferentes nacionalidades investem em suas particularidades culturais em busca de inserção no mercado de trabalho no Brasil   

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

No Brasil os imigrantes em situação de refúgio passam por diversas dificuldades para conseguir emprego formal. As dificuldades são diversas e incluem falta de fluência do idioma, barreiras culturais e trâmites burocráticos com documentações. Por isso, para muitos deles, criar seu próprio negócio é a alternativa mais viável.

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Como é o exemplo da imigrante guianense Renee Ross, 46, e seu esposo, cujo a identidade não pode ser revelada por questões políticas. Produtora e dona das bonecas Renabes Artes, Ross não imaginava lucrar com uma atividade de seu lazer. Quando chegou ao Brasil, em 2011, se inscreveu num curso de artesanato e aos poucos adaptou as técnicas a seu gosto. “Eu pensei, quero algo mais da minha cultura. Quero trabalhar com tecidos africanos, com bonecas negras, para me representar”. Percebeu que sua arte poderia ser comercializada e hoje suas vendas são a principal fonte de renda da casa.

Além de acompanhar a administração do negócio, seu marido também leciona aulas particulares de inglês. Saiu, há 9 anos do Congo por causa da guerra, onde deixou familiares, costumes e o resultado de anos de estudo. Falante de cinco idiomas, ele ainda possui o título de mestre e, mesmo com o diploma em mãos, não consegue emprego em sua área. “É difícil um estrangeiro trabalhar aqui como expert. Eu gostaria de fazer a minha profissão, mas como não tem, fico em casa lendo e lendo para manter”, menciona sobre as leituras técnicas de sua formação.

Renee Ross conta que aprendeu a manter sua identidade cultural através de seu trabalho e se sente realizada com o que faz.
Crédito: Divulgação

O marido de Ross faz parte dos 18,7% refugiados que possuem pelo menos o ensino superior completo, de acordo com a pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em setembro do ano passado. Enquanto 28,8% têm o Ensino Médio concluído e 19,3% finalizaram o fundamental. Sendo que, apenas 20,7% dos refugiados trabalhavam em seu país de origem no ramo do comércio e das artes, áreas que no Brasil são as alternativas para muitos deles.

É também o caso do jovem sírio Nour Koeder, 27, por quase cinco anos. Apesar de seu diploma de estilista e sua experiência com alta costura, para sobreviver trabalhou como atendente em bar, vendedor em lojas e até mesmo como camelô irregular no centro de São Paulo. Quando reencontrou uma amiga síria no Brasil, Hiam Kasem, e juntos abriram seu negócio de costura sob medida, Brocar Ateliê, retomando a carreira de Koedor.

No entanto, ainda enfrentam muitos desafios para se estabilizarem, um deles é o recurso financeiro para investimento. Atualmente alugam um espaço para a criação e produção das peças, mas segundo ele não é um ambiente propício para receber o público e a região é muito barulhenta. “É muito difícil essa situação, o Brás é muita bagunça. Nossa área precisa de um lugar mais quieto para a gente conseguir criar”, explica.

Após cinco anos no Brasil, o sírio Nour Koeder retoma sua carreira como estilista.
Crédito: Pâmela Vespoli / MigraMundo

Para Wagner Oliveira, economista da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP), o Brasil deveria tomar medidas que permitam a liberdade de escolha do refugiado, para que ele não se veja obrigado a fazer atividades fora de sua qualificação ou até mesmo na informalidade. Oliveira cita o exemplo da Alemanha, que possui entidades responsáveis por avaliar as habilidades do imigrante e permitir que ele exerça a profissão, independente da validação de seu diploma.

“Há diversos estudos mostrando que o impacto das migrações tende a ser positivo para o país de destino, mesmo para casos em que os países receberam ondas massivas de refugiados. No caso dos empreendedores especificamente, o impacto positivo ocorre não só por meio da geração de emprego e renda como também pela via da inovação”, afirma o economista. Ele menciona como referência de seu argumento as patentes de ideias e invenções dos países desenvolvidos, que em sua grande parte foram criadas por pessoas originárias de outras nações.

Deslocamento Criativo

Com a falta de medidas governamentais diante dessas problemáticas, algumas empresas e instituições criam iniciativas na expectativa de oferecer auxílio aos imigrantes empreendedores no novo país.

A plataforma Deslocamento Criativo é um desses casos. Promovido por diversas parcerias, tem por intuito dar visibilidade à produção criativa realizada por refugiados na cidade de São Paulo. O projeto, inaugurado em julho passado, cede espaço em seu site para os imigrantes divulgarem seus produtos e serviços, promovendo a ascensão visual de suas marcas.

Além disso, ele tem a intenção de mapear a produção criativa deste público e revelar seu perfil, expondo seus objetivos, obstáculos e realidade. Os resultados da pesquisa paliativa estão disponíveis no site para consulta, enquanto a pesquisa quantitativa permanece em apuração.

O termo economia criativa é comumente usado para referir-se a atividades econômicas relacionadas ao capital intelectual e cultural, como as áreas da música, gastronomia, artesanato, moda, entre outras. Para Maria Nilda, criadora e coordenadora do projeto Deslocamento Criativo, “a economia criativa é muito importante para amenizar o impacto emocional que a pessoa trás quando ela se muda para um país. Lidar com a própria cultura é muito importante para a estrutura psicológica, está ligado a alguma identidade própria”.

Migraflix

O Migraflix é uma organização que trabalha com empreendedorismo cultural. Eles oferecem cursos gratuitos na área da gastronomia – e em breve, de artesanato – visando disponibilizar ferramentas para que os imigrantes alcancem sua autonomia financeira no Brasil.

Além disso, oferecem a empresas e pessoas físicas palestras, workshops e outros serviços culturais, a fim de gerar renda aos imigrantes participantes do produto e compartilhar a cultura de suas nações.

Desde a inauguração do Migraflix, em setembro de 2015, cerca de 170 refugiados e imigrantes de 24 países já foram integrados pelo projeto. Entre eles está a terapeuta ocupacional venezuelana Yilmary de Perdomo, que se formou em novembro do ano passado no curso Raízes da Cozinha.

Chegou ao Brasil em 2016, devido a situação política e econômica de seu país. Como é solicitante de refúgio ainda não possui os documentos necessários para validar seu diploma, por isso passou um ano fazendo diferentes tarefas para pagar as contas. Casada e mãe de três crianças, começou a cozinhar para fora ao atender o pedido da filha, mais nova, que queria presentear a professora da escola. Meses depois conheceu o Migraflix, onde aprendeu a aperfeiçoar o seu serviço e resultou nas Tentaciones da Venezuela.

Tequeños de queijo são aperitivos servidos, por Perdomo, em festas e em momentos de socialização entre amigos. Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

O projeto ajudou a conectá-la a novos consumidores. “Eu, sozinha não teria mostrado meu trabalho para uma empresa como a Monsanto”, exemplifica Yilmary. Ela menciona que compartilhar seus pratos com os brasileiros é muito mais do que uma questão de obter renda ou valorização de seu trabalho. “É humanidade. Acho que o maior prazer de se relacionar com as pessoas é que somos iguais, sem distinção”.

Bab Sharki

A startup Bab Sharki, criada pela síria Joanna Ibrahim, 30, é uma plataforma marketplace, onde imigrantes podem oferecer seus produtos e serviços.

Desde abril deste ano a startup criou o projeto Open Taste, em que Ibrahim aluga semanalmente um restaurante na região de Pinheiros, onde uma das nove famílias colaboradoras do programa preparam os pratos de sua terra natal. “Queremos mostrar a cultura da pessoa. Não quero que comprem só porque é refugiado, mas porque é uma cultura legal, a comida é muito boa e gostosa”.

Segundo a cliente Maria Suguiyama, 65, assessora de artes e brasileira, a qualidade e o câmbio cultural não são os únicos motivos que a atraiu, “acho interessante a proposta e a forma como foi pensada a cozinha colaborativa”.

Ibrahim conta que antes do Bab Sharki, tentou implementar algumas iniciativas sem sucesso, entre elas um aplicativo que, ao realizar sua pesquisa de mercado, percebeu que não seria viável. Após entrevistar mais de 200 pessoas, notou que “o brasileiro não confia muito no serviço de um estrangeiro por aplicativo”, afirma ela. Além disso, o investimento seria muito alto para o retorno ser a longo prazo.

CDHIC

Diante de dificuldades como as enfrentadas por Ibrahim e outros imigrantes, o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) oferece o curso “Co-criando Inovação” para orientá-los diante das fases que estão lidando em seus empreendimentos, a ideia é dividir grupos entre pessoas que já têm seus negócios em andamento e outro que estão em projeto, para focar nas diferentes técnicas de cada etapa.

Segundo Itamar Olimpio, professor do curso e diretor de marketing da Co-viva, o segredo para o imigrante investir é conhecer a cultura do Brasil e aproveitar os problemas dele para criar novas oportunidades de negócio. Segundo ele, o estrangeiro pode trazer inovação e utilizar de seus conhecimentos culturais para agregar um diferencial no mercado, menciona como exemplo o oferecimento de serviços em seu próprio idioma para atender públicos distintos.

“A maioria das microempresas no Brasil tem um tempo de vida curto, porque tem vários fatores que acabam desanimando, levando a pessoa não acreditar mais no seu negócio”, comenta Bruno Lopes, coordenador de projetos do CDHIC. Pensando nesse desestímulo, a organização dedicou o último dia do curso para tratar sobre resiliência e autoestima, para que negócios promissores não deixem de existir ao longo do caminho.

As aulas ocorrerão nos dias 05, 10, 11 e 21 de novembro, e as inscrições devem ser feitas por meio de formulário até o dia 19 de outubro . Para mais informações, visite o site da organização.

Entidades lançam carta-compromisso para candidatos sobre direitos dos migrantes

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Nenhum direito a menos, nenhum ser humano é ilegal. Essa mensagem está presente em todo e qualquer evento que dê visibilidade para o migrante, direta ou indiretamente. Crédito: Tatiana Waldman

Em 12 pontos, instituições ligadas direta ou indiretamente à temática migratória cobram dos futuros governantes e legisladores uma postura de defesa dos direitos dessas populações

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 18h12 de 05/10/18

Dezenas de entidades ligadas à temática migratória divulga a partir desta segunda-feira (1) uma carta na qual na qual pedem que os candidatos às eleições deste ano se comprometam com o direito de acolhimento “seguro e sustentável” para migrantes, refugiados e apátridas.

O documento elenca 12 pontos que incluem o comprometimento dos futuros governantes e legisladores com a defesa das leis de Migração e de Refúgio no Brasil, com os direitos assegurados pela Constituição de 1988, além de compromisso com a formulação de uma política nacional migratória, entre outros pontos.

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“A iniciativa de propor aos candidatos a carta-compromisso é de pautar o tema na lógica dos direitos humanos, num contexto de disputa eleitoral no qual em várias ocasiões não tem referências explícitas a este fenômeno social. Ou pior ainda, nos deparamos diante de instrumentalizações populistas”, aponta o padre Paolo Parise, um dos diretores da Missão Paz – entidade referência no atendimento e orientação a migrantes e uma das signatárias do documento.

Além da Missão Paz, a carta é assinada inicialmente por mais 15 entidades, envolvidas de forma direta ou indireta com a temática migratória no Brasil, de acolhimento e orientação a migrantes ao combate a situações de trabalho escrevo e tráfico humano – das quais os migrantes em situação vulnerável são vítimas em potencial.

A organizações propõem àqueles que assumam esse compromisso que encaminhem cópia digitalizada da carta – podendo ser, ou não, acompanhada de imagens – para o e-mail contato@missaonspaz.org .

O documento também está aberto a apoios de outras entidades.

Nenhum direito a menos, nenhum ser humano é ilegal. Essa mensagem está presente em todo e qualquer evento que dê visibilidade para o migrante, direta ou indiretamente.
Crédito: Tatiana Waldman

As reivindicações visam evitar ainda que se repitam episódios como os dos ataques contra venezuelanos em Roraima, em agosto passado. Também visa estabelecer um contraponto a discursos xenofóbicos e preconceituosos contra minorias que vivem no Brasil – entre elas, migrantes em diferentes situações.

“Ao assinar a carta, teremos a possibilidade de acompanhar e cobrar a atuação da pessoa eleita que assumiu publicamente este compromisso”, completa Parise.

*Este texto será atualizado conforme a chegada de novas adesões de entidades e candidatos. Veja abaixo quem já aderiu

Candidatos que aderiram à carta-compromisso (em ordem alfabética)
Bruna Furlan – candidata a deputada federal pelo PSDB em São Paulo
Carlos Bezerra Jr. – candidato a deputado federal pelo PSDB em São Paulo
Cheila Olalla – candidata a deputada federal pelo PT em São Paulo
Dirceu Dresch – candidato a deputado federal pelo PT em Santa Catarina
Eduardo Suplicy – candidato do PT ao Senado por São Paulo
Mara Gabrilli – candidata do PSDB ao Senado por São Paulo
Orlando Silva – candidato a deputado federal pelo PC do B  em São Paulo
Patrícia Bezerra – candidata a deputada estadual pelo PSDB em São Paulo

 

Carta-compromisso:

Caros Cidadãos;

Eu, _______________________________________________, integrando o processo legislativo e concorrendo ao cargo de ______________________________ assumo, no exercício de mandato público, este compromisso, que resulta da mobilização social das organizações proponentes, considerando que tais diretrizes têm como fundamento o cumprimento de normas e princípios constitucionais e internacionais de direitos humanos e considerando ser a mobilidade humana um fato social, econômico, político e cultural intrínseco a todos os povos no mundo:

1. Orientar minhas decisões para aprovar leis e implementar ações necessárias à garantia de direitos ao acolhimento e integração de migrantes, refugiados e apátridas;

2. Apoiar e executar, dentro de minha competência e mandato público, o disposto nos artigos 1° a 5° e de todos os direitos sociais, políticos e culturais da Constituição Federal de 1988, na Lei Federal n° 9.474 de 22 de julho de 1997 (Lei sobre Direito ao Refúgio), no Decreto Presidencial 678 de 06 de novembro de 1992 (Convenção Americana de Direitos Humanos, em especial, o disposto no artigo 22 – direito de circulação e residência), bem como a Lei 13.445/2017 – Lei de Migração;

3. Apoiar a criação de estruturas administrativas nacionais e descentralizadas, destinadas a desenvolver ferramentas de informatização e modernização de processos de acolhimento, tendo como base a não militarização das iniciativas do poder público, voltadas à gestão pública da política migratória, refúgio e apátridia;

4. Apoiar a criação de uma política pública bianual de avaliação e implementação de regularização migratória (anistia), evitando que os migrantes se vejam forçados a viver irregularmente no País por falta de possibilidades de se documentarem e
de viverem e trabalharem regularmente no território nacional;

5. Apoiar a ratificação e o cumprimento de tratados e convenções internacionais, bem como a criação de pactos regionais relativos à garantia de direitos para migrantes, refugiados e apátridas;

6. Articular diálogo com instituições do poder público, nas três esferas de poder, para garantir a atenção e implementação do disposto em tratados e convenções internacionais ratificadas pelo Brasil;

7. Apoiar iniciativas visando a autonomia e a inclusão econômica, laboral e social de migrantes, refugiados e apátridas por meio da geração de renda, emprego e empreendedorismo, bem como o desenvolvimento de políticas públicas de incentivo a organizações e empresas sociais de migrantes e refugiados ou iniciativas privadas neste sentido;

8. Apoiar e fortalecer ações para erradicar o trabalho escravo e infantil e enfrentar o tráfico de pessoas migrantes ou refugiadas, comprometendo-me a criar e fortalecer políticas públicas nacionais e locais com capacidade técnica, orçamento e interação institucional voltada a enfrentar estas questões que violam gravemente os direitos e a dignidade das pessoas;

9. Destinar recursos e garantir apoio político para a manutenção, ampliação e inovação de ações e políticas públicas, bem como projetos de leis, regulamentações e compromissos normativos, voltados à proteção dos direitos de migrantes, refugiados e apátridas no âmbito municipal, estadual e federal;

10. Apoiar a criação, monitorando e avaliando a execução, de políticas públicas de atendimento, acolhimento e cidadania em áreas de fronteira terrestres e aeroportuárias, garantindo aos migrantes, refugiados e apátridas condições de acesso ao País e a processos de regularização documental;

11. Apoiar, destinar recursos e monitorar políticas públicas que garantam o acesso à informação e ao desempenho e atividades de Comitês e Conselhos Nacionais, tais como Comitê Nacional para Refugiados (CONARE/Ministério da Justiça), Conselho Nacional de Imigração (CNIg/Ministério do Trabalho), Comitê Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (CONATRAP);

12. Rechaçar veementemente, coibir e abster-se de tomar medidas como deportações em massa, fechamento de fronteiras, práticas xenófobas ou qualquer outro tipo de discriminação ou atitudes restritivas que impeçam ou dificultem o acolhimento digno e humanizado a pessoas migrantes, refugiados e apátridas.


Entidades signatárias da carta (em ordem alfabética):
27 Million Brasil
Aliança Empreendedora
Asbrad
BibliASPA
CAMI
Cáritas Brasileira
Compassi
Conectas Direitos Humanos
Fashion Revolution
IMDH (Instituto Migração e Direitos Humanos)
Migraflix
Missão Paz
OAB – São Paulo (Comissão para Erradicação do Trabalho Análogo ao de Escravo)
Serviço Jesuíta para Migrantes e Refugiados – SJMR
Serviço Pastoral dos Migrantes
Signis Brasil – Associação Católica de Comunicação

 

O Brasil deve parar de tratar a questão da migração como um problema

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Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima. Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

Essa mudança de postura precisa ir dos termos empregados para falar do assunto às políticas públicas

Por Bruna Cristina
Em São Paulo (SP)

Segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM), apenas 2% das 2,3 milhões de venezuelanos que deixaram o país desde 2015, vieram para o Brasil. Então por que cotidianamente nos deparamos com notícias que veem essas pessoas como um problema grave que afeta os brasileiros e a economia?

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A crise econômica, política e social assola a Venezuela desde 2013, quando o governo de Nicolas Maduro passou a enfrentar uma forte oposição e protestos nas ruas, ocasionou em centenas de mortes e aumento do número de prisões no país. A base da economia nacional, o petróleo, sofreu uma forte queda, a inflação atinge os 800% e a dívida externa ultrapassa US$120 bilhões. Com isso, faltam itens básicos para a sobrevivência da população venezuelana, falta emprego, falta comida e falta dignidade… E dessa forma quem mais sofre com a crise no país é a própria população dele.

Infelizmente este quadro não se altera para muitos dos que migram em busca de melhores condições de vida. Ao chegarem a outro país, como o Brasil, muitas pessoas continuam nas mesma condições, pois são vistas como um problema a ser enfrentado e não como pessoas com direitos iguais.

Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima.
Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

O problema é que consideremos um problema, quando são cidadãos com todos os direitos.

Quando nos deparamos com noticias sobre a vinda de venezuelanos ao Brasil, grande parte caracterizam a situação como a responsável por colapsar as infraestruturas locais e ser responsável por gerar surtos de xenofobia, já que há relatos de tensões entre moradores locais e migrantes e a falta de capacidade para o acolhimento.

Entretanto, deve-se considerar que a culpa desses dois fatores, xenofobia e infraestrutura, não são das pessoas que chegam ao país, e sim, da carência de políticas públicas voltadas à migração, que possam não somente proporcionar meios necessários para o recebimento como também, possam proporcionar educação adequada voltada a informação sobre a temática, algo que parece muito distante para a maioria dos brasileiros.

Infelizmente, migrantes ainda são vistos por grande parte da população como ‘‘o outro’’, aquele que por não ser nacional do determinado país, não deve ter os mesmo direitos, não por acaso, alguns países da América do Sul anunciaram regras mais rígidas para a entrada de venezuelanos pois, a ‘‘invasão de migrantes’’ é algo que passou a ser tratado com urgência, retórica muito presente nos meios midiáticos e pelo Estado quando se trata do número de pessoas que cruzam a fronteira para o Brasil.

Isto faz parte do processo de criminalização do migrante, como argumentado no artigo Eduardo Domenech (2015), não raramente os sistemas legislativos são aplicados, por vezes de forma arbitrária, para atingir determinados grupos de pessoas consideradas indesejáveis ou prejudiciais para os interesses do país ou de alguns segmentos sociais. Produz-se dessa forma a “ilegalidade migratória” a fim de gerenciar a imigração, e dessa forma os migrantes são criminalizados. Por essa razão a urgência, não deve ser usada para se referir ao número de pessoas que estão cruzando a fronteira para o Brasil e sim, para a necessidade de ajuda para que elas possam se instalar adequadamente.

O fato é que, deve-se considerar primordialmente, independentemente do número de pessoas que chegam ao país, se são muitas ou poucas, essas devem receber a devida atenção do Estado para que possam recomeçar suas vidas seja no Brasil ou em outro país que escolherem, e não devem ser tratadas como uma anomalia. Se utiliza muito o termo ‘‘crise’’ para se referir as migrações, segundo o dicionário Aurélio crise seria um “Momento perigoso ou difícil de uma evolução ou de um processo; período de desordem acompanhado de busca penosa de uma solução.” ou ainda “Momento crítico ou decisivo’’. Dessa forma, a utilização desse termo aponta para uma má interpretação do que seria as migrações, que não devem ser tratadas como um perigo que ocasiona em desordem ao Estado a ponto de serem tomadas medidas extremas para dificultar a entrada de migrantes ao país, mas sim, como pessoas que deixaram tudo para trás para recomeçar suas vidas novamente e que devem ter seus direitos garantidos e não restritos.

Dessa maneira voltemos a pergunta inicial: por que migrantes são vistos como um problema para o país?

O Brasil deve parar de tratar a questão da migração como um problema

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Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima. Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

Essa mudança de postura precisa ir dos termos empregados para falar do assunto às políticas públicas

Por Bruna Cristina
Em São Paulo (SP)

Segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM), apenas 2% das 2,3 milhões de venezuelanos que deixaram o país desde 2015, vieram para o Brasil. Então por que cotidianamente nos deparamos com notícias que veem essas pessoas como um problema grave que afeta os brasileiros e a economia?

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A crise econômica, política e social assola a Venezuela desde 2013, quando o governo de Nicolas Maduro passou a enfrentar uma forte oposição e protestos nas ruas, ocasionou em centenas de mortes e aumento do número de prisões no país. A base da economia nacional, o petróleo, sofreu uma forte queda, a inflação atinge os 800% e a dívida externa ultrapassa US$120 bilhões. Com isso, faltam itens básicos para a sobrevivência da população venezuelana, falta emprego, falta comida e falta dignidade… E dessa forma quem mais sofre com a crise no país é a própria população dele.

Infelizmente este quadro não se altera para muitos dos que migram em busca de melhores condições de vida. Ao chegarem a outro país, como o Brasil, muitas pessoas continuam nas mesma condições, pois são vistas como um problema a ser enfrentado e não como pessoas com direitos iguais.

Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima.
Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil

O problema é que consideremos um problema, quando são cidadãos com todos os direitos.

Quando nos deparamos com noticias sobre a vinda de venezuelanos ao Brasil, grande parte caracterizam a situação como a responsável por colapsar as infraestruturas locais e ser responsável por gerar surtos de xenofobia, já que há relatos de tensões entre moradores locais e migrantes e a falta de capacidade para o acolhimento.

Entretanto, deve-se considerar que a culpa desses dois fatores, xenofobia e infraestrutura, não são das pessoas que chegam ao país, e sim, da carência de políticas públicas voltadas à migração, que possam não somente proporcionar meios necessários para o recebimento como também, possam proporcionar educação adequada voltada a informação sobre a temática, algo que parece muito distante para a maioria dos brasileiros.

Infelizmente, migrantes ainda são vistos por grande parte da população como ‘‘o outro’’, aquele que por não ser nacional do determinado país, não deve ter os mesmo direitos, não por acaso, alguns países da América do Sul anunciaram regras mais rígidas para a entrada de venezuelanos pois, a ‘‘invasão de migrantes’’ é algo que passou a ser tratado com urgência, retórica muito presente nos meios midiáticos e pelo Estado quando se trata do número de pessoas que cruzam a fronteira para o Brasil.

Isto faz parte do processo de criminalização do migrante, como argumentado no artigo Eduardo Domenech (2015), não raramente os sistemas legislativos são aplicados, por vezes de forma arbitrária, para atingir determinados grupos de pessoas consideradas indesejáveis ou prejudiciais para os interesses do país ou de alguns segmentos sociais. Produz-se dessa forma a “ilegalidade migratória” a fim de gerenciar a imigração, e dessa forma os migrantes são criminalizados. Por essa razão a urgência, não deve ser usada para se referir ao número de pessoas que estão cruzando a fronteira para o Brasil e sim, para a necessidade de ajuda para que elas possam se instalar adequadamente.

O fato é que, deve-se considerar primordialmente, independentemente do número de pessoas que chegam ao país, se são muitas ou poucas, essas devem receber a devida atenção do Estado para que possam recomeçar suas vidas seja no Brasil ou em outro país que escolherem, e não devem ser tratadas como uma anomalia. Se utiliza muito o termo ‘‘crise’’ para se referir as migrações, segundo o dicionário Aurélio crise seria um “Momento perigoso ou difícil de uma evolução ou de um processo; período de desordem acompanhado de busca penosa de uma solução.” ou ainda “Momento crítico ou decisivo’’. Dessa forma, a utilização desse termo aponta para uma má interpretação do que seria as migrações, que não devem ser tratadas como um perigo que ocasiona em desordem ao Estado a ponto de serem tomadas medidas extremas para dificultar a entrada de migrantes ao país, mas sim, como pessoas que deixaram tudo para trás para recomeçar suas vidas novamente e que devem ter seus direitos garantidos e não restritos.

Dessa maneira voltemos a pergunta inicial: por que migrantes são vistos como um problema para o país?