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segunda-feira, junho 29, 2026
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Time formado por diferentes nacionalidades vence edição nacional da Copa do Refugiados

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Malaika, time sub-20 formado por refugiados de diferentes nacionalidades, venceu a edição nacional da Copa dos refugiados 2018. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Com o lema “Não Me Julgue Antes de Me Conhecer”, evento em São Paulo reuniu representantes das edições regionais do torneio que mobiliza refugiados desde 2014

Por Amanda Louise
Em São Paulo

Depois de reunir cerca de mil refugiados, imigrantes e brasileiros ao longo das edições regionais, o Estádio do Pacaembu, em São Paulo, recebeu na última terça-feira (20) a final da etapa nacional da Copa dos Refugiados.

O evento, organizado pela ONG África do Coração em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), reuniu os campeões ou representantes das edições de Porto Alegre (Líbano), Rio de Janeiro (Angola) e São Paulo (Níger), além do Futebol Clube Malaika, uma equipe sub-20 formada por refugiados de diferentes nacionalidades – em suaíli, idioma comum em parte da África, Malaika significa “Anjos”.

Ao todo, considerando as etapas regionais, foram 41 seleções com pessoas de 27 nacionalidades que disputaram a Copa neste ano, cujo lema foi “Não Me Julgue Antes de Me Conhecer” – que também estará na Marcha dos Imigrantes, marcada para 2 de dezembro.

No último jogo da Copa, Angola e Futebol Clube Malaika disputaram o título. Para chegarem à final, os campeões da etapa carioca precisaram dos pênaltis para superar o Níger, enquanto o time Malaika venceu o Líbano por 3 a 0.

A exemplo de edições anteriores, a partida de 20 de novembro foi marcada por fortes emoções, com manifestações dos presentes nas arquibancadas a cada drible. Depois de Malaika conseguir um gol no final do segundo tempo, os angolanos conseguiram o empate no último lance do jogo, que foi decidido nos pênaltis. E os jovens do Malaika ficaram com o título inédito por 4 a 2.

Campeã no Rio de Janeiro, Angola foi vice na edição nacional da Copa dos Refugiados.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Com início em 2014, a expectativa é que a competição seja cada vez melhor, numa reunião que vai além de bolas na rede, em prol de uma causa humanitária. “Nossa expectativa do Brasil, que o governo brasileiro e o povo brasileiro reconheçam nossa chegada aqui, não discrimine e ajude para se manter esta vida. Porque precisamos desse apoio especial”, conta o sírio Abdulbaset Jarour, coordenador da Copa e vice-presidente da ONG África do Coração. Ele explica que essa é a maior felicidade e diversão de refugiados e migrantes: levantar a bandeira de seus países de origem e dos estados brasileiros em que vivem.

Foi o que Julson Luwawa, que reside no Rio de Janeiro e liderou a equipe angolana em sua primeira participação no campeonato. Luwawa não jogava futebol profissionalmente em Angola, e não tinha noção da grandiosidade que seria participar de um campeonato como o da Copa dos Refugiados – ainda mais no Estádio do Pacaembu, que já recebeu jogos profissionais históricos. “Ideia é participar das edições futuras”, afirmou o jogador.

“O evento mostra a capacidade deles de se organizarem, de identificar as próprias necessidades, de interagir em rede e de conseguir articulações nesse nível. Juntando em São Paulo prefeito, Secretarias e organismos internacionais e autoridades diversas num só lugar para prestigiar”, expõe Maria Beatriz Nogueira, chefe do escritório da ACNUR em São Paulo. Ela ainda enfatiza que os talentos dos refugiados são infindáveis, além das habilidades esportivas apresentadas nos últimos dias da competição.

Chegar ao final do ano não foi fácil. Uma das dificuldades veio após uma empresa que financiaria os uniformes das equipes declinar do patrocínio, fazendo a Secretaria de Esportes e Cultura solicitar orçamento emergencial à prefeitura da capital paulista. Mesmo assim, a Copa dos Refugiados deste ano chegou ao fim e já anunciou a sede da edição nacional de 2019: o Rio de Janeiro.

Final da Copa dos Refugiados foi decidida nos pênaltis.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

Do Pacaembu para o Corinthians

A vitória do Futebol Clube Malaika não foi o único motivo para fazer Conda Yacouba sorrir. O garoto de apenas 18 anos, conhecido como Pipoca recebeu um convite para participar de testes e compor a equipe de futebol 7 do Corinthians. Nascido na Guiné-Conacri, o jovem está no Brasil há pouco mais de um ano e não acreditou quando ouviu o chamado que esperava há três meses do time paulista. “Estou sem palavras”, expressou com um sorriso que cobria seu rosto.

Sobre o que esse convite representa para as pessoas que estão em situação de refúgio, disse sentir-se uma chave: “Tem jogador que sabe jogar mais que eu, mas que não tem oportunidade. Acho que tenho muita coisa para fazer para abrir a porta para os outros. Eu vou passar, mas tem que passar outra pessoa também depois de mim”.

Saldo de imigrantes no mercado formal fica positivo em 2017

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Protagonistas dos dois principais fluxos recentes em direção ao país, haitianos e venezuelanos são os destaques do relatório do OBMigra

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

Entre 2010 e 2017 o Brasil teve 707.438 imigrantes com registro formal, sendo 449.174 imigrantes de longo termo, e 245.110 imigrantes temporários. Os dados fazem parte do mais recente relatório do OBMigra (Observatório de Migrações Internacionais), ligado ao Ministério do Trabalho, com informações inéditas sobre a migração no Brasil e a inserção do migrante no mercado de trabalho formal.

Os dados mostram que, pelo menos em relação aos imigrantes, o índice de emprego formal teve uma recuperação tímida. O Brasil terminou 2017 com um saldo de 122.069 imigrantes formalmente empregados, um crescimento de 8,33% em relação ao ano anterior – que teve uma queda de 13% na comparação com 2015.

Ao mesmo tempo, as autorizações concedidas pela Coordenação Geral de Imigração (CGIg), também ligado ao Ministério do Trabalho, somaram 25.937 ao longo do último ano – uma redução de 14,4% em relação a 2016.

Haiti e Venezuela

São Paulo e os três Estados do Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – são os que contam com a maior presença de mão de obra imigrante. Eles foram os principais destinos da migração haitiana, cuja nacionalidade segue como a mais presente no mercado de trabalho formal no país desde 2010 – 101,9 mil pessoas.

Em seguida aparecem bolivianos (79,4 mil), colombianos (48,2 mil) e argentinos (40,9 mil), reforçando o caráter Sul-Sul dos principais fluxos migratórios para o Brasil. Em seguida aparecem os estadunidenses (39,9 mil).

O relatório também já destaca a presença da migração venezuelana no mercado de trabalho formal brasileiro. Só no primeiro semestre deste ano o OBMigra apontou um saldo positivo de 1.287 venezuelanos no mercado de trabalho – 2.315 admitidos e 1.028 demitidos – , ficando apenas atrás dos haitianos no período.

Mais da metade desses venezuelanos com emprego formal (56,10%), segundo o levantamento, atuam como atendentes de lanchonete. A maior parte das admissões ocorreu nos Estados de Roraima e Amazonas, onde estão concentrados.

Leonardo Cavalcanti, coordenador do OBMigra, destaca que essas duas nacionalidades potencializaram a necessidade de um novo marco legal para lidar com as migrações no Brasil – obtido com a Lei de Migração, que completou um ano em vigor no mesmo dia do lançamento do relatório.

“O marco normativo deve sempre funcionar como instrumento e nunca como um fim. Por isso as políticas migratórias devem ser continuamente atualizadas para acompanhar um fenômeno que é dinâmico e multifacetado”.

Sobre o OBMigra

Vinculado ao Ministério do Trabalho, o OBMigra obteve os números a partir do cruzamento de cinco bases de dados geridas pela pasta e pela da Polícia Federal:

– Ministério do Trabalho: Relação Anual de Informações Sociais (Rais), Coordenação Geral de Imigração (CGIg)/ Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e Cadastro Geral de Empregados e Desempregados/ Carteira de Trabalho e Previdência Social (Caged/CTPS);
– Polícia Federal: Sistema de Trafego Internacional (STI) e Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros (Sincre).

Sou D’África Filho da Realeza – poema de Moisés António

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Residente em Curitiba (PR), o poeta angolano Moisés Tiago António, ou simplesmente Moisés António, tem na condição de migrante e negro duas de suas principais inspirações literárias.

Uma das suas mais recentes obras é o poema “Sou D’África Filho da Realeza”, enviado pelo próprio Moisés ao MigraMundo. De forma literária, ele resgata um pouco dos povos e reinos que já ocuparam a África antes da escravidão e da partilha do continente entre países europeus

Além dele, o MigraMundo já publicou outros dois poemas escritos pelo angolano: “Sou Imigrante” e “Carta do Refugiado às Nações“.

Moisés mantém ainda uma página no Facebook chamada Moisés E A Poesia, onde estes e outros poemas podem ser encontrados.

Montagem representa os reis e rainhas da África celebrados pelo poeta angolano Moisés António.
Crédito: Montagem/Arquivo pessoal

 

Sou D’África Filho da Realeza

Sou Africano
Sou da África o começo da Arte
Da planta papiro
Deste Egito, da escrita numerais hieróglifos.
Da ciência mais exata
A Matemática
Indispensável daquilo que é mais exata
                           Concreta que nos completa!

 

Tenho a força audaz na cor da pele negra
Preta da Pantera Negra
Ou da Palanca Negra Gigante, D’Angola!


Escorre-me nas veias
O sangue negro dos Grandes do Solo Negro!
Dessa realeza que faz de nós o grande berço
Dessa humanidade, o princípio do Planeta terra!

 

Sou filho d’África lendária
De Nzinga Mbandi,
Rainha do Reino do Ndongo-Matamba, Angola!
Sou Filho da África da Mãe CALIFIA,
Rainha da África,
que em homenagem sua nasceu o Estado da CALIFÓRNIA.
Sou da realeza, filho da Rainha Cleopatra,
De Etnia grego-Egípcia!
Nasci de Queen Mother – Rainha de Sabá
Esposa do Rei Salomão!
Sou da Realeza filho da África
Da mãe Shanakdakhete,
Rainha Negra Africana de Kush – do Reino de Moroé
Governante de Núbia!


Sou da realeza Africana
De reis potentes
Destemidos
Existentes e inquestionáveis!

 

Escorre-me nas veias a ousadia lendária do Rei Faraó
Sou Filho real ousado que a nada se Rende
Como fez Mandume Ya Ndemufayo
Rei dos Kwannyamas-dos Povos Ovambos
Do Sul de Angola e Norte da Namíbia!
Sou Bakongo de Mbanza-Kongo
Reino do Kongo de Nzinga Nkuwu
Do povo Bantu;
Escorrem-me nas veias…


O sangue de Nzinga a Nkuwu e Ngola Kiluanje Kia Samba
Reis d’Angola!


Sou poderoso quanto ao Leão
Rei da Selva;
Sou da cor Preta da Palanca Negra Gigante, filho d’Angola!
Carrego no coração
A mais que pura simplicidade humanitária do homem!
Descrevo-me como uma Águia real
De visão aguçada
Que sempre quis se juntar às pessoas
Assim como fazem os pardais, andorinhas.
Voando em bandos,
Mas o destino sempre me deu o ser singular!
                        Assim como fazem as Águias…

                       Moisés António

Marcha dos Imigrantes vai à Paulista para enfrentar medos e retrocessos

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Com otimismo e espírito de resistência, imigrantes e refugiados mostrarão suas bandeiras. Crédito: Pâmela Vespoli/ MigraMundo.

Com o lema “Não me julgue antes de me conhecer”, ato deste ano ganha mais importância devido ao contexto nacional e internacional de discriminação e xenofobia

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

Em uma aconchegante sala, com grandes almofadas coloridas para quem quisesse se acomodar, diferentes dialetos se misturavam a calorosas risadas. Foi nesse clima de intimidade que representantes de entidades e cidadãos independente iniciaram na tarde do último sábado (17), na sede da BibliASPA, em São Paulo, a última reunião para organizar a 12ª Marcha dos Imigrantes.

Os presentes confirmaram o tradicional evento para o dia 02 de dezembro na avenida Paulista, reunindo imigrantes, refugiados e simpatizantes a fim de combater a discriminação e xenofobia, e reivindicar por acesso à justiça e políticas públicas.

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Entre eles estavam: Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), BibliASPA, Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante (CAMI), ONG África do Coração, Além das Fronteiras, Centro de integração e cidadania do imigrante (CIC), Associação Folclórica Cultural Bolívia Brasil (ACFBB) e imigrantes representando suas diferentes nações.

Representantes de diversas nações e organizações fazem últimos ajustes para o tradicional ato.
Crédito: Pâmela Vespoli/ MigraMundo

Resistência

Apesar do clima amistoso, falas de anseio e preocupação pairaram no ar. Segundo a comissão, a marcha tem um papel essencial neste ano diante de posicionamentos políticos nacionais e internacionais discriminatórios e xenofóbicos, tendo por objetivo desconstruir rótulos e defender a dignidade dessas pessoas. Foi inspirado neste pensamento que o lema deste ano será: “Não me julgue antes de me conhecer!”

Conforme mencionou Carla Aguilar, assistente social do CAMI, a ação não tem somente o papel de sensibilizar os brasileiros, mas também realizar o debate com os imigrantes sobre o que eles esperam do país nesta atual fase. “Nós temos quatro anos aí pela frente que não vão ser fáceis para os imigrantes. Então a gente tem que ver como lidar com toda essa situação e o imigrante tem que estar muito consciente também”.

Para Roque Patussi, coordenador do CAMI, nas manifestações anteriores havia uma garantia da liberdade democrática de expressão que agora eles ficam receosos de não existir. Refletindo sobre o futuro da marcha, comenta:

“Olhando para o panorama que é a nova gestão que está assumindo o país, dado o contexto, como escolha de ministros e quais países estão tendo o primeiro contato com essa nova gestão do Brasil, países que olham para o imigrante e refugiado como criminosos. Por isso, o contexto é de medo e talvez perda de continuidade desse movimento aqui no país”.

“A Paulista também é nossa”

A Marcha dos Imigrantes é uma ação internacional decretada pela Organizações das Nações Unidas (ONU), em 1990, com o propósito de dar visibilidade aos imigrantes do mundo. No Brasil ela ocorre desde 2007, apenas em São Paulo. Este ano ela acontecerá pela terceira vez num dos pontos mais conhecidos da cidade, a famosa Avenida Paulista, às 14h, no vão do MASP.

“A Paulista também é nossa, essa é a mensagem da marcha ir para a Paulista. Por que o imigrante tem que ficar nas periferias? Por que ele não pode se manifestar num espaço que é de todos? ”, questiona Roque.  Segundo a organização, a região ter se tornado um local de lazer aos finais de semana, permitindo que a marcha ganhe mais apoiadores e transmita sua mensagem para um maior público.

Entre o ano retrasado para o ano passado o número de aderentes dobrou de 2 mil para 4 mil manifestantes, segundo estimativas do CAMI. “A marcha não é minha. É de todos aqueles que estão na marcha e também aqueles que não estão”, diz Carla ao recordar de manifestantes que foram à Paulista com outro propósito, porém ao depararem com o ato agregaram à causa.

Cartaz que conduzia a 11ª Marcha dos Imigrantes, já realizada na Avenida Paulista.
Crédito: Filipe Dias

No entanto, o itinerário ainda está em aberto por receio de encontrarem manifestantes contrários aos princípios da manifestação e assim evitar possíveis transtornos. “No ano passado tínhamos dois grupos se manifestando lá, eram grupos anti-imigrantes. Então, fomos ver qual era o menor para seguir”, comenta Roque. Pensando nisso, a organização analisará o melhor percurso para evitar confrontos, já que este não é o objetivo da ação.

Ao preparar os pormenores, a equipe toma o máximo de cuidado para que o maior número de nações esteja presente e assim possa ser representada. Além disso, há uma atenção voltada a intérpretes, para que os passantes da avenida possam entender do que se trata e abstraírem a mensagem que esses povos estão dispostos a transmitir.

Falta de incentivo financeiro

Apesar do comprometimento dos envolvidos, os preparos são dificultados pela falta de retornos diante apoios financeiros e estruturais, entre eles o fornecimento de água potável para consumo, confecção de camisetas e outros recursos. Mesmo assim, os organizadores não se mostram abalados e procuram alternativas.

Para a questão da água decidiram divulgar que cada um leve sua própria garrafinha. “Essa marcha é mais uma marcha em que a gente tem que reafirmar a nossa existência, que estamos aqui para resistir”, diz Alexandre Divul, representante da comunidade de Angola.

Roque reforça que a marcha não funciona se as instituições não organizam seus grupos. “O que vai fazer ter gente lá é o boca a boca, convidar os amigos, discutir o tema com grupos e assim vamos levar gente para a Paulista”.

Com otimismo e espírito de resistência, imigrantes e refugiados mostrarão suas bandeiras.
Crédito: Pâmela Vespoli/ MigraMundo.

Para ele, a principal dificuldade é mobilizar os imigrantes, porque muitos deles estão concentrando suas energias e preocupações em necessidades básicas para sobrevivência, como moradia e comida. O que os restringem de voltarem suas atenções aos demais direitos.

A organização do evento já confirmou presença na final da Copa dos Refugiados, no dia 20 de novembro, para ajudar na divulgação da Marcha e apoiar a Copa Brasil, mostrando como as diferentes organizações unem forças em prol dos imigrantes e refugiados. “A marcha é mais um de nossos eventos que temos que divulgar, porque a Marcha é nós e a Copa é nós”, afirma o congolês Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração, responsável pela Copa dos Refugiados.

12ª Marcha dos Imigrantes – Não me Julgue Antes de me Conhecer
Data e hora: 02 de dezembro de 2018, a partir das 14h
Local: avenida Paulista (concentração em frente ao MASP)
Contato: tel. (11) 3333-3847, cel. 96729-4238 e marchadosimigrantes@gmail.com
Mais informações: evento no Facebook

 

A língua portuguesa para brasileirinhos no exterior: uma aventura tupiniquim

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Capa do material didático "Português Como Língua de Herança", utilizado no Centro Cultural Brasil-Itália, em Roma. Crédito: Divulgação

O português como língua de herança (POLH) surge como força da cultura brasileira no exterior

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

Morar no exterior pode nos levar para muito longe de nossos costumes e cultura, além de criar novos hábitos e formas de ver o mundo. Mas para a maioria dos brasileiros vivendo fora do Brasil, é de extrema importância manter contato com nossa cultura e dividi-la com nossos filhos. Em lugares onde uma comunidade brasileira existe, não faltam comemorações carnavalescas e juninas, comidas típicas, feijoadas e forrobodós. Como consequência, imigrantes tentam que seus filhos crescendo fora do Brasil se sintam brasileiros como nós, mal sabendo que eles carregarão sua dupla identidade para sempre no peito.

Transmitir brasilidade, a cultura de onde viemos, pode se tornar concreta com o aprendizado do português. Apesar de ser mais fácil aprender uma língua na tenra idade, nem todas as crianças têm o estímulo para se comunicar numa segunda língua. Muitas vezes não existe apoio de profissionais de saúde e de educação para que famílias eduquem seus filhos de forma bilíngue. Nesse âmbito, cresce o fenômeno do português como língua de herança (abreviado como POLH), um novo campo de ensino do nosso idioma para crianças multiculturais para ajudar famílias nesse processo.

Capa do material didático “Português Como Língua de Herança”, utilizado no Centro Cultural Brasil-Itália, em Roma.
Crédito: Divulgação

O POLH tem como objetivo usar o desenvolvimento do idioma como chave para explorar a cultura brasileira. Como consequência, é o acesso a quem nós somos, os valores com os quais crescemos, a afinidade e afeição com familiares, amigos, comidas, paisagens, e tudo o mais que engloba o nosso Brasil. É o idioma como meio, e não como fim.

Mas nem sempre será fácil. Às vezes não será suficiente falar com os filhos em português e esperar que eles automaticamente respondam sem erros ou fortes sotaques. Dividir e ensinar o idioma é um trabalho que cabe aos pais e não aos educadores, posto que a língua é aprendida sem a estrutura de sala de aula ou dever de casa. Existe a pressão familiar para a criança aprender a língua, mas pode existir também uma resistência natural da criança em falar, já que falar em duas línguas é obviamente mais complicado que falar uma. Transmitir a língua de forma “limpa”, ou seja, sem misturar a língua nativa e a adquirida, requer disciplina. Evitar de falar com a criança na língua do país que nos acolhe nem sempre é possível.

As recompensas são inigualáveis, todavia.

Primeiramente, porque uma criança com culturas diferentes, aprendendo dois – ou mais – idiomas, terá para sempre a dualidade de culturas no coração. Entender o idioma de onde o pai e/ou a mãe faz com que a criança se sinta parte da cultura brasileira, dando uma noção de raízes e pertencimento. Afinal, identidade não é só um documento, mas uma forma de entender e sentir, e o idioma é a chave para cultivar esse sentimento. Além disso, é claro, de dar a possibilidade da criança de relacionar-se com a família que, na grande maioria das vezes, não fala o idioma estrangeiro com o qual a criança se acostumou.

Hoje muito se fala em termos de bilinguismo e de suas consequências positivas. De fato, aprender um idioma quando criança é uma bênção. Entretanto, cabeças mais conservadoras sustentam o argumento que aprender uma segunda língua apenas causa confusão. Pode até ser que a criança demore mais para avançar no quesito da linguagem, mas no longo prazo os benefícios são óbvios. E não falo apenas de colocar uma língua a mais no currículo, mas de criar os laços com a nossa cultura, com a família, com o Brasil. E nesse aspecto, o POLH dá as ferramentas para que crianças de diferentes culturas se sintam bem consigo mesmas, que a dualidade de identidades não se torne um conflito que exploda na vida adulta, mas uma convergência de culturas que molda cidadãos do mundo com um relacionamento multicultural mais saudável e pacífico.

Para entender mais sobre o POLH, visite:

ELO Europeu: mais dedicado para profissionais da área, mas a organização está colocando uma lista de iniciativas no site.

BRmais: iniciativa privada de divulgação do POLH e cultura brasileira.

Brasileirinhos pelo Mundo: BPM Kids é uma plataforma colaborativa escrita por  brasileiras pelo mundo, mães e profissionais da área de Educação, Pedagogia e Psicologia com especialização em ensinar Português como Língua de Herança.

Mala de Herança: iniciativa voluntária que começou em Munique e se espalhou para diversos cantos da Europa, a Mala de Herança foca na contação de histórias e leituras, canções e teatro, para dividir o português e a cultura brasileira com crianças.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. Seu primeiro livro, Ventos Nômades, é uma coleção de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e do exótico, os desafios e maravilhas de relacionamentos multi culturais e imigração. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no FacebookInstagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.     

Venezuelanos pelo mundo chegam a 3 milhões, segundo ONU; Brasil recebeu 85 mil

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Migrantes atravessam ponte na fronteira entre Venezuela e Colômbia. Crédito: J.P. Cohen/Colprensa/Picture Alliance

Sozinha, Colômbia recebe um terço dessa diáspora; também vizinho à Venezuela, Brasil é o sétimo destino na América Latina

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

A crise humanitária que afeta a Venezuela já provocou a saída de 3 milhões de pessoas do país desde 2015. É o que apontam estimativas da OIM (Organização Internacional para as Migrações) e ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), divulgadas nesta quinta-feira (8).

Segundo dados de autoridades nacionais de imigração e outras fontes, os países da América Latina e do Caribe abrigam cerca de 2,4 milhões desse total de migrantes e refugiados, enquanto outras regiões do globo receberam o restante.

Praticamente um terço dessa diáspora se encontra na vizinha Colômbia (mais de 1 milhão), com a qual a Venezuela compartilha uma fronteira de cerca de 2.219 km. Em seguida vem Peru, (mais de 500 mil), Equador (220 mil), Argentina (130 mil) e Chile (mais de 100 mil).

Migrantes atravessam ponte na fronteira entre Venezuela e Colômbia.
Crédito: J.P. Cohen/Colprensa/Picture Alliance

“Os países da América Latina e do Caribe mantiveram uma louvável política de portas abertas para os refugiados e migrantes venezuelanos. No entanto, sua capacidade de recepção está severamente comprometida, exigindo uma resposta mais robusta e imediata da comunidade internacional, para que essa generosidade e solidariedade possam continuar”, disse Eduardo Stein, Representante Especial Conjunto ACNUR/OIM para Refugiados e Migrantes da Venezuela.

Com o intuito de oferecer uma resposta em nível internacional a esse fluxo, está sendo articulado o Plano Regional de Resposta Humanitária para Refugiados e Migrantes da Venezuela (RMRP). Com lançamento oficial previsto para dezembro, ele inclui tanto governos locais como representantes de organizações internacionais.

O RMRP deve se concentrar em quatro áreas estratégicas: assistência emergencial direta, proteção, integração socioeconômica e cultural e capacitação para os governos dos países de acolhida.

No Brasil

Também vizinho à Venezuela, o Brasil é o sétimo país que mais recebeu venezuelanos desde 2015, segundo as agências, com 85 mil – atrás ainda do Panamá, na América Central, que tem atualmente 94 mil venezuelanos.

O número é semelhante ao total de haitianos que, segundo o governo brasileiro, entraram no Brasil entre 2010 e 2015 – boa parte, no entanto, já migrou para outros países ou mesmo retornou ao Haiti.

Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O principal ponto de entrada dos venezuelanos no Brasil é a fronteira com o Estado de Roraima, entre as cidades de Santa Elena de Uairén (Venezuela) e Pacaraima (Brasil). A maioria segue para Boa Vista, cerca de 200 km ao sul e onde está a maior parte dessa migração – dados de junho indicam cerca de pelo menos 25 mil pessoas.

Embora sejam motivo de uma série de ações humanitárias organizadas por entidades não governamentais do Brasil e internacionais, os venezuelanos são transformados em “bodes expiatórios”  – vistos por parte da sociedade local e pelo poder público como responsáveis pelos problemas em serviços como saúde e educação, embora eles sejam anteriores à migração.

Esse discurso, reforçado por uma cobertura negativa que o fenômeno recebe da maioria dos meios de comunicação, cria um terreno fértil para ações como as de agosto deste ano, quando a população de Pacaraima expulsou e queimou os pertences de um grupo de venezuelanos que estavam acampados nas ruas.

Tal situação também já levou o governo de Roraima a pedir o fechamento da fronteira do Estado com a Venezuela, o que é considerado inconstitucional e viola acordos internacionais firmados pelo Brasil e já foi negado pelo Supremo Tribunal Federal.

Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista.
Crédito: ONU

A questão venezuelana no Brasil também conta com um fator ideológico que complica ainda mais o debate. Enquanto parte da esquerda defende o governo de Nicolás Maduro e evita uma postura mais incisiva em relação aos problemas enfrentados pela população daquele país, a direita defende uma política xenófoba e protecionista.

Embora sejam os que mais pedem refúgio no Brasil, seja por perseguição política ou mesmo como uma forma mais rápida de obter documentação, o governo brasileiro não tem uma posição clara sobre reconhecer ou não os venezuelanos como refugiados, o que cria novos entraves para lidar com o tema.

Além do processo de interiorização, que tem encaminhado venezuelanos de Roraima para outras regiões do Brasil, não há nenhuma outra política pública de fato dedicada à temática no país. E especialistas defendem que a melhor saída para lidar com o atual fluxo venezuelanos – e outros que vierem – é a adoção de uma política nacional migratória, que defina exatamente as responsabilidades de cada esfera de governo em relação à migração.

No entanto, apesar dessa política constar na Lei de Migração, em vigor desde novembro de 2017, ela ainda precisa de regulamentação por parte do governo, o que ainda parece bem distante de ocorrer.

 

Seminário no oeste de SC traz desafios e troca de experiências sobre migrações

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Evento acontece no próximo dia 28 de novembro em Chapecó (SC), cidade com expressiva comunidade migrante

Por Ana Risson
Em Chapecó (SC)

Os espaços de discussão e troca de experiências contribuem para a qualificação do debate, desconstrução de preconceitos construídos contra o tema migratório recente  e amplia o conhecimento frente os imigrantes recentes na região na busca da compreensão do cenário contemporâneo das migrações no Brasil.

Com o objetivo de fomentar a discussão do tema das migrações, de nível local, regional, estadual e nacional é que o Grupo de Estudos sobre Imigrações para a Região Oeste de Santa Catarina (GEIROSC), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Centro de Referência, Direitos Humanos e Igualdade Racial( CRDHIR), Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó) e Secretaria da Assistência Social de Chapecó (SEASC) realizarão com parceiros o Seminário Migração Interculturalidade e Direitos Humanos na Universidade Federal da Fronteira Sul.

O evento é destinado a agentes públicos, voluntários no acolhimento dos imigrantes, a população imigrante de Chapecó e região e demais membros da comunidade em geral interessados na temática.

Dentre os objetivos do evento estão: divulgar e fortalecer a rede de atendimento aos imigrantes em Chapecó e região; promover um diálogo intercultural entre os vários atores sociais e culturais; mapear e integrar a Rede de atendimento e acolhimento de imigrantes em Chapecó e região; compreender as possibilidades legais de acolhimento aos imigrantes; e, fortalecer os vínculos institucionais.

O evento contará com a participação de Irmã Rosita Milesi, coordenadora o Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), e de Emanuelly Gestal, integrando do Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante (CRAI). Ambas irão compartilhar suas experiências no acolhimento a imigrantes.

Ao final do evento, será discutido e composta a rede de atenção aos imigrantes na região e Chapecó.

Localizada no oeste catarinense, Chapecó recebeu migrantes de diversos países nos últimos anos, como haitianos e senegaleses, que foram trabalhar nos frigoríficos da cidade e da região.

A programação do evento pode ser vista na imagem abaixo:

Sobre o Geirosc:

O Geirosc surgiu em 2014 com a finalidade de estudo sobre as migrações recentes em Santa Catarina. O grupo reúne voluntários, militantes e pesquisadores sobre a temática. Deste seu ano de criação desenvolve ações de intervenção social e de pesquisa junto a comunidade imigrantes na cidade de Chapecó e região. Atualmente o Geirosc está vinculado a Diretoria de Políticas de Graduação, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus de Chapecó. O Geirosc possui uma cadeira de representação no GT Imigração na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) e compõe a rede solidária de atendimento ao imigrante e refugiados no IMDH.


Seminário Migração Interculturalidade e Direitos Humanos na Universidade Federal da Fronteira Sul

Data e hora: 28/11/2018, das 8h às 17h
Local: Auditório da Unidade Bom Pastor – Reitoria da UFFS
Av. Fernando Machado, 108E – Centro, Chapecó – SC
Inscrição: no local e dia do evento
Entrada: gratuita
Mais informações: geirosc.br@gmail.com

Como o jornalismo pode melhorar a percepção sobre refugiados? Jornalista explica em workshop

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Migrantes e refugiados a caminho da Europa. Crédito: Manu Gomez/ Fotomovimiento - 14.mar.2016

Oficina de Jornalismo Humanitário que vai acontecer durante congresso sobre refugiados em Fortaleza defende novos olhares sobre a questão

Por Eldo Pereira*
Em Fortaleza (CE)

Será realizado em Fortaleza, de 12 a 14 de novembro, o minicurso “Jornalismo Humanitário”, ministrado pela professora e jornalista Cilene Victor. A atividade faz parte da programação do I Congresso Internacional de Direito, Economia, Educação e Geopolítica – Refugiados, Transformações Globais, que discute a quantidade crescente de refugiados no cenário internacional. A ideia é colocar em pauta os temas políticos, religiosos, culturais e econômicos que entrelaçam o assunto. A atividade é gratuita e as inscrições podem ser feitas pela internet neste link.

Jornalista de larga experiência, Cilene Victor é atualmente professora titular da Universidade Metodista de São Paulo, onde leciona no Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Como jornalista, foi comentarista do Jornal da Cultura, da TV Cultura, e da TV Gazeta. Tem ministrado palestras e oficinas para diversas instituições sobre cultura de paz e comunicação, assuntos que abrem margem para elucidar questões sobre os fluxos migratórios nacionais e internacionais.

Migrantes e refugiados a caminho da Europa.
Crédito: Manu Gomez/ Fotomovimiento – 14.mar.2016

A importância do Jornalismo Humanitário

Para Cilene, a dimensão humana da cobertura jornalística sobre a crise humanitária pode melhorar a percepção que a população brasileira tem dos refugiados. “Quem são os rostos? Quem é a voz?”, indaga. De acordo com ela, esta crise foi fortemente apoiada por uma construção midiática falha, tendo como base apenas as notícias das agências de notícias internacionais e a ausência de compreensão do jornalista como um dos responsáveis pela manutenção dessa imagem.

“É trazer o jornalista para a responsabilidade”, aponta. “O que a notícia vai produzir na opinião pública? Opinião lúcida ou alucinada? Temos que ter cuidado, porque, se já existem os direitos humanos violados, temos que tomar cuidado com a imagem das vítimas para que essa violação não seja transformada numa espetacularização”. Como explica Cilene, é neste ponto que entra o jornalismo humanitário, não uma editoria, mas uma abordagem. “Ele cobre as questões humanitárias e seus atores, amparado numa ética humanitária. O jornalista tem noção do papel social do seu trabalho”, afirma.

A professora Cilene Victor, que vai ministrar o workshop de Jornalismo Humanitário.
Crédito: Divulgação

Livro Posições diante do terrorismo: religiões, intelectuais, mídias

Durante o Congresso, será também lançado o livro “Posições diante do terrorismo: religiões, intelectuais, mídias”, organizado por Cilene, Mustafa Goktepe, Yusuf Element e Roberto Chiachiri, este também professor da Universidade Metodista.

A coletânea é resultado da conferência sobre terrorismo promovida pelo Centro Cultural Brasil-Turquia na Faculdade Cásper Líbero em 2016. A obra discute a construção do terrorismo por meio de temas como religião e política, numa abordagem multidisciplinar que ajuda a entender a complexidade do assunto.

“Quando o refugiado está lá, eu desenvolvo empatia. Quando ele está aqui, ele vai provocar essa ideia do pânico moral. Nós estamos discutindo um terrorismo midiaticamente construído e representado”, ressalta Cilene, citando também a seletividade da imprensa. O critério de optar pela cobertura de um atentado de Paris em vez de um no Cairo que matou um número maior de pessoas é uma problemática que deve ser questionada, por exemplo.

Capa do livro Posições Diante do Terrorismo, que será lançado durante o Congresso em Fortaleza.
Crédito: Divulgação

“Não é colocar em balança quais vidas valem mais ou valem menos, em hipótese alguma. Mas entender que existe uma construção midiática do terrorismo e que muitas vezes nós estamos discutindo esse terrorismo, e não baseado numa realidade que está sendo acompanhada por estudiosos, pesquisadores, mais independentes do que as fontes oficiais”, pondera.

O workshop “Jornalismo Humanitário” tem início já no primeiro dia do Congresso Refugiados, Transformações Globais, que, em sua primeira edição, contará com mais de vinte atividades. Com expectativa de mais de 1.500 pessoas, o evento tem apoio do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia, do Viés, da Comissão de Direitos Humanos da OAB e do Observatório das Nacionalidades, rede de pesquisa da Uece.

SERVIÇO

Workshop – Jornalismo Humanitário ministrado por Cilene Victor
Data: 12 a 14 de novembro
Local: Faculdade de Economia da UFC (FEAAC); I Congresso Internacional de Direito, Economia, Educação e Geopolítica – Refugiados, Transformações Globais
Endereço: Av. da Universidade, 2431 – Benfica, Fortaleza – CE, 60020-180
Inscrições e mais informações: www.refugiadosglobais.com.br/ – (85) 3366-7827

*O MigraMundo é um dos parceiros do Congresso e vai disponibilizar, nos próximos dias, reportagens especiais produzidas a partir do evento

Evento no CE discute situação de refugiados à luz de conflitos políticos, religiosos e culturais

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Banner oficial do evento, que acontece neste mês de novembro na UFC. Crédito: Divulgação

Palestrantes nacionais e internacionais compõem a programação; expectativa é atrair cerca de 1500 pessoas, entre estudantes, professores e a comunidade em geral

Por Eldo Pereira
Em Fortaleza

Acontece na Universidade Federal do Ceará (UFC), nos dias 12, 13 e 14 de novembro, a primeira edição do Congresso Internacional De Direito, Economia, Educação e Geopolítica. Com o subtítulo “Refugiados, Transformações Globais”. A proposta é discutir a quantidade crescente de refugiados no atual cenário internacional, marcado por conflitos políticos, religiosos, culturais e econômicos. A programação será realizada na Faculdade de Economia da UFC.

Clique aqui para acessar a programação

O Congresso foi idealizado por Karine Garcêz, 44, estudante de Relações Internacionais e ativista cearense. Ela percebeu que eram poucos os debates relacionados ao campo e a sua própria expansão, atentando para o fato de que “nós mesmos somos pessoas que migram”, citando a população retirada de suas casas devido às guerras entre facções. Como ativista humanitária, realiza palestras em escolas públicas do Ceará e possui trabalho fotográfico sobre crianças refugiadas. Hoje, ela decidiu chamar atenção ao tema com a realização de um congresso internacional.

A ativista Karine Garcês, idealizadora do evento.
Crédito: arquivo pessoal

Desmistificar olhares

“Eu falei com o Fábio, porque muitas perspectivas são pouco abordadas, inclusive a econômica”, justifica. Fábio Sobral foi a primeira pessoa a ouvir a ideia. Ele é professor do Curso de Economia da UFC e abraçou o debate com empolgação. Ele fala do viés econômico da globalização, que tem muitos efeitos sobre os fluxos migratórios, e explica a importância da nuance econômica. “Muitas regiões foram empobrecidas, atacadas especulativamente. Ações geopolíticas jogam nações inteiras no caos. É o que causa o fluxo migratório de pessoas que lutam por suas vidas”.

“A principal solução é a possibilidade das pessoas se moverem sem barreiras”, ele conta. “Mas não pode haver desregulação social”. Fábio argumenta, ainda, que é preciso desmistificar as visões existentes sobre os refugiados. “Eles não tiram emprego de ninguém. O que tira emprego é uma atividade econômica baixa”.

Karine Garcêz reforça a ideia. “Poucos dos refugiados do Oriente são desqualificados, por exemplo. E é uma mão-de-obra pela qual um país não paga nada para tê-la”.

O professor Fábio Sobral, que está entre os apoiadores do evento.
Crédito: Instituto Nordeste de Cidadania

O papel do Ceará e do Brasil nas discussões

Para aproximar estas discussões do Ceará e do Brasil, também foram incluídos os debates sobre a situação dos indígenas e quilombolas. Dentre as atividades do evento estão um ciclo de palestras, apresentações de trabalhos, mini-cursos e eventos culturais. Há cinco grupos de trabalho envolvendo desde a linha das migrações como refúgio até direitos internacionais e islamofobia, para os quais os estudantes podem enviar trabalhos. A expectativa é atrair cerca de 1500 pessoas, entre estudantes, professores e a comunidade em geral.

Também atividades que compõem a programação estão agendados o lançamento do livro de João Brígido, Perfil SócioDemográfico dos Refugiados no Brasil, e a participação do representante do Humanitarian Relief for Development, Ahmad Kayed, do Libano. O Congresso tem apoio do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia; do Viès; da Comissão de Direitos Humanos da OAB e do Observatório da Nacionalidades, rede de pesquisa da Uece.

Banner oficial do evento, que acontece neste mês de novembro na UFC.
Crédito: Divulgação

I Congresso Internacional de Direito, Economia, Educação e Geopolítica
Data: 12, 13 e 14 de novembro de 2018
Local: Faculdade de Economia da Universidade Federal do Ceará
Endereço: Av. da Universidade, 2431 – Benfica, Fortaleza – CE, 60020-180
Inscrições e mais informações: www.refugiadosglobais.com.br/ – (85) 3366-7827

*O MigraMundo é um dos parceiros do Congresso e vai disponibilizar, nos próximos dias, reportagens especiais produzidas a partir do evento

Migração e movimento profético

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A Bíblia cristã tem ensinamentos sobre o tratamento a ser dado a imigrantes e refugiados que cabem em qualquer crença. Crédito: Márcia Passoni

As referências ao contexto da mobilidade humana, a exemplo da própria experiência do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora, se cruzam e se entrelaçam nos rostos, nomes, histórias, horizontes e sonhos dos migrantes

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

De acordo com o comentário da edição Bíblia de Jerusalém, e especialmente a partir da “doutrina do movimento profético”, são três as linhas fundamentais que distinguem a religião do Antigo Testamento: o monoteísmo, o moralismo e a esperança da salvação . Poderia ser um percurso fecundo confrontar semelhante comentário com as três advertências básicas que, em maior ou menor grau, implícita ou explicitamente, recorrem praticamente em todos os escritos proféticos: lembra-te, denúncia e anúncio. Depois, cruzar as observações obtidas com o contexto das migrações no mundo atual, um mundo em franco e crescente movimento. As referências ao contexto da mobilidade humana, a exemplo da própria experiência do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora, se cruzam e se entrelaçam nos rostos, nomes, histórias, horizontes e sonhos dos migrantes, prófugos e refugiados. Mas vamos por partes.

1. Monoteísmo e lembra-te

Monoteísmo tem a ver com a adoração de um único Deus, criador e Senhor dos céus e da terra e de todas as pessoas e coisas, associada à negação de qualquer outro Deus. Javé, de fato, reclamava com vigoroso ciúme o culto exclusivo. Podiam conviver vários deuses, mas era Javé o mais potente e valoroso entre todos. Emerge aqui uma aparente, e até estridente, contradição: como falar nos tempos atuais de “culto exclusivo” frente a uma realidade onde se verifica uma crescente exigência de abertura ao migrante, o qual, por seu turno, carrega sobre os ombros distintas experiências culturais e religiosas? Numa palavra, como conciliar o monoteísmo restrito e moralista do antigo Israel com o pluralismo religioso que costuma caracterizar a população migrante? Concretamente, como resolver tal desencontro?

Frente a isso, faz-se necessária de imediato uma distinção onde, de alguma forma, se desfaz a aparente contradição. A verdade é que o monoteísmo do Antigo Testamento se contrapõe à existência e ao domínio de outros deuses, particularmente ligados à trajetória dos povos e impérios vizinhos. Mas não impede nem invalida outras experiências e expressões religiosas que convergem para a adoração e o senhorio do mesmo Deus. Observação tanto mais oportuna quando está em jogo, por exemplo, a trilogia das chamadas religiões do livro: ebraísmo, cristianismo e islamismo. Nos três casos, se trata do mesmo Deus que “viu a miséria do seu povo escravo no Egito, ouviu o seu clamor, conhece o seu sofrimento e desceu para libertá-lo” (Ex 3,7-10) – uma vez que os três caminhos se originam na mesma “experiência religiosa fundante”.

Detenhamo-nos por alguns instantes sobre este aspecto: são três riachos de uma única fonte e que, por outro lado, correm para o mesmo oceano da misericórdia divina. Como conhecido e notório, Abraão, juntamente com outros patriarcas e os povos nômades do deserto, tornou-se uma espécie de referência comum. Retornando ao tema da misericórdia, tanto a partir do trecho já citado do Livro do Êxodo (Ex 3,7-10) quanto a partir do chamado “credo histórico” do Povo de Israel, no Livro do Deuteronômio (Dt 26,5-10), esse sentimento da misericórdia se revela de uma forma não apenas terna e compassiva, mas extremamente bela e plasticamente poética.

Convém ter presente, e jamais deixar de sublinhar, que tais verbos colocados na boca do Senhor, todos na primeira pessoa do singular e voltados à condições do povo oprimido, manifestam um Deus marcadamente atento, sensível e solidário à condição do povo escravo e oprimido sob o peso da tirania, seja ela socioeconômica, político-cultural, ideológica ou religiosa – no caso uma teocracia, à imitação do que ocorria nos impérios vizinhos. Todos os que têm a vida e a dignidade humana ameaçadas podem ver nessas expressões – vi, ouvi, conheço e desci – o coração mesmo da misericórdia do Pai. Pai que, nao obstante amar a todos os filhos e filhas, mantém uma atenção especial pelos pobres e excluídos, débeis e indefesos, os mais abandonados e últimos, como diria o Papa Francisco. Vale lembrar, ainda, que os termos “clemente e misericordioso” constituem a chave de abertura de cada uma das suras do Alcorão.

Com efeito, é em nome de Javé que os profetas se levantam para recordar os “prodígios e portentos” de Javé aos antepassados, por um lado, e para prevenir contra novos tipos de humilhação e opressão, por outro. Lembra-te que foste escravo na terra do Egito, e por isso mesmo não deves repetir essa nefasta experiência que atenta contra os desígnios do Senhor e contra a dignidade humana. Não deves reteti-la, em primeiro lugar, com os teus conterrâneos, submetidos a diversas formas de exploração, com destaque para o período da monarquia. E é justamente em tal contexto que nasce igualmente a preocupação com os estrangeiros que vivem em meio ao povo de Israel. Ou seja, tampouco deves repetir os danos e consequências dessa experiência de escravidão com o forasteiro que habita junto a teu povo. “Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito” (Ex 22,21).

Semelhante memória profética voltada a um passado de tirania e opressão e, ao mesmo tempo, a um presente e futuro mais promissor, de convivência pacífica e de construção conjunta, ocorre hoje em dia com os milhares e milhões de migrantes, prófugos e refugiados, tanto em relação às origens quanto em relação às promessas do amanhã? Disso resulta a necessidade de um salto qualitativo, no sentido de empenhar-se pela passagem do multiculturalismo ao interculturalismo, mas também deste último ao transculturalismo. Em outras palavras, não se trata apenas de boa coexistência entre distintas culturas; tampouco de trata somente de escuta e mútua compreensão. Tudo isso permanece relevante e necessário.

Mas é preciso avançar, dar um passo adiante: além da convivência e da troca recíproca de saberes, como chegar a uma constelação de valores que sirvam para todos os povos, nações e culturas, justamente porque as ultrapassam a todos e todas? Entendemos valores transculturais, não no sentido de que se encontram fora, acima ou para além da história, e sim no sentido de que se revelam válidas independentemente desta ou daquela expressão cultural precisa e determinada. No contexto cada vez mais imenso de migrações de massa, o pluralismo cultural e religioso em que vivemos e nos movemos convida a romper barreiras, efetuar experiências de aproximação, criar espaços de encontro, confronto e diálogo. Construir “pontes em lugar de muros”, repete com insistência o Pontífice.

Ato na Praça da Sé para o lançamento da Lançamento da campanha mundial “Compartilhe a Viagem”.
Crédito: Miguel Ahumada – set.2017

Valeria aqui uma pausa para refletir mais detidamente sobre a proliferação de Casas e Centros de Acolhida e Orientação aos imigrantes, de paróquias multiculturais ou pluriétnicas, de pontos de convívio com o “outro, estrangeiro e diferente”… Refletir também sobre as centenas e milhares de iniciativas para ampliar os espaços de encontro, confronto e diálogo profundo de culturas e saberes distintos… E refletir, ainda, sobre a matemática do próprio encontro: neste, de fato, mais do que a soma das experiências vividas, o resultado é o acúmulo fértil e fecundo, uma espécie de progressão geométrica do próprio saber da humanidade como um todo. Experiências e saberes distintos abrem horizontes novos, desafiadores e inéditos. Não melhores nem piores – apenas diferentes! Trata-se, ao mesmo tempo, de um risco e de um desafio. Vale a penas correr o risco, enfrentar o desafio, para contemplar a “Jerusalém recriada” (Is 65,17-25).

2. Moralismo e denúncia

Moralismo e denúncia caminham de mãos dadas. De fato, é em nome de uma série de princípios morais e éticos que costumam erguer-se as denúncias contra determinadas situações, realidades ou formulações de ordem social, econômica, política, cultural ou religiosa. Não é diferente o caso do movimento profético do Antigo Testamento, como também não é diferente a situação de penúria precariedade e desolação da realidade migratória. Desde Isaías até Malaquias, passando por Jeremias, Ezequiel, Oséias, Amós, Sofonias, e outros, os exemplos poderam multiplicar-se à exaustão. Limitar-nos-emos a dois exemplos, os quais, se não representam os mais significativos de toda a constelação bíblica, ao menos têm a vantagem de contribuir para o desenvolvimento do tema em questão. A partir deles, trataremos de fazer algumas observações referentes à temática da mobilidade humana no contexto atual.

Comecemos pelo profeta Miquéias. E vamos diretamente ao capítulo terceiro. Diz literalmente o texto: “Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso, não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês esfolam o povo e descarnam os seus ossos; vocês são gente que devora a carne do meu povo e o esfola; quebra seus ossos e o faz em pedaços, como carne na panela, como um cozido no caldeirão. Depois vocês gritam a Javé, mas Ele não responderá. Nesses tempo, Ele escondera a sua face, por causa da maldade que vocês praticam” (Mq 3, 1-4). Como se vê, o dedo em riste do profeta tem em mira os poderosos que governam nao em nome do povo, mas explorando de forma fraudulenta suas forças e potencialidades, irrigando seus caminhos de suor, lágrimas e sangue. Não necessitamos de muito jogo de imaginação nem de muitas pesquisas para tomar emprestadas as expressões “vocês esfolam o povo e descarnam seus ossos”, “como carne de panela” – e aplicá-las à realidade concreta de tantos migrantes, refugiados, prófugos, trabalhadores temporários, marinheiros, itinerantes, população nômades, e assim por diante.

Igualmente profética e veemente é a expressão do camponês Amós, em linha com o texto acima: “Escutem aqui, exploradores do necessitado, opressores dos pobres do país. Vocês ficam maquinando: ‘quando vai passar a festa da lua nova, para podermos pôr à venda o nosso tripo? Quando vai passar o sábado, para abrirmos o armazém, para diminuir as medidas, aumentar o peso e viciar a balança, para comprar os fracos por dinheiro, o necessitado por um par de sandálias, e vender o refugo do trigo’?” (Am 8,4-6). Homens críticos, tenazes, destemidos – homens de Deus e defensores dos pobres. A denúncia, como se pode constatar, põe em evidência o contraste estridente entre o projeto de Deus, de um lado, e o status quo do desequilíbrio socioeconômico, mantido a todo custo pelos poderosos e tiranos do momento.

Disso resulta que as classes que detêm o poder, a renda e a riqueza deixam-se guiar por suas próprias paixões, desejos, instintos e interesses. Longe deles as exigências imperativas ligadas à Palavra de Deus. Além disso, usam de sua posição privilegiada para exercer influência, controlar os grupos rivais e aniquilar os pobres e indefesos até o desespero. Não é o que fazem o governantes dos países de origem de tantos imigrantes, abandonando-os à própria sorte, mantendo-nos acorrentados à pobreza, à miséria e à fome – forçando-os cedo ou tarde a deixar a terra natal, numa aventura incerta pelo deserto, pela fronteira, pelo mar ou pelo ar? Isso quando não são obrigados a escapar da intolerância e da guerra, da perseguição e da violência, sem qualquer possibilidade de retorno, consistindo este último uma verdadeira condenação à morte!

Não é o que fazem também os traficantes de seres humanos (“mercadores de carne humana”, para usar as célebres palavras de Scalabrini), vinculados ao crime organizado em nível internacional, os quais consomem até o último centavo os pertences desses infelizes, para depois abandoná-los e muitas vezes atirá-los à solidão e ao desespero, quando não ao desaparecimento puro e simples? E não é o que fazem, ainda, as autoridades dos países de destino, fomentando o preconceito e a discriminação, a xenofobia e o rechaço, tantas vezes jogando a imprensa e a opinião pública contra os imigrantes? Que resta? Um imenso exército de desterrados, deserdados, errantes, mutilados no corpo, na mente e na alma! Do ponto de vista da sociedade em geral e das organizações civis, para voltar às palavras proféticas e inspiradas do Papa Francisco, prevalece a “cultura da indiferença, em lugar da cultura da solidariedade”.

A ética como critério do bem comum deu lugar a uma ordem mundial centrada nos interesses privados, especialmente controlados pelos conglomerados do capital financeiro, das grandes industrias, das gigantescas redes de comércio, do poder das telecomunicações e até da concorrência desleal e frenética pela produção de roupas, carne, outros alimentos e bens em geral. Os próprios serviços públicos de saúde, educação, transporte, segurança, etc. acabam sendo geridos pela mesma lógica férrea do capital. Daí a obrigação moral da denúncia, seja esta no cotexto da monarquia do Antigo Israel, seja na economia globalizada de nossos dias. Em ambos os casos, os pobres ser os mais penalizados, e entre estes os que desconhecem outra alternativa além de desenraizar-se do solo que os viu nascer, e onde enterraram seus ancestrais, para fazer do mundo a sua pátria.

Ilustração na Casa do Migrante, em São Paulo, que ilustra bem o ato de migrar.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

3. Esperança da salvação e anúncio

O Povo de Israel caminha entre a queda e a promessa da Terra Prometida e de uma descendência numerosa. Estimula-o a aliança feita entre o Senhor Javé e os patriarcas Segue pelas estradas do êxodo, do deserto, do exílio e da diáspora em uma perspectiva escatológica de salvação. A exemplo dos povos vizinhos, debate-se continuamente pela conquista e posse da terra. Diferentemente deles, porém, a arca da aliança serve de orientação para seus passos tortuosos e duvidosos. Avança no escuro na noite e nos embates do cotidiano, mas, como se verá no caso dos reis magos, guiado pela luz da fé representada pela estrela.

Pesa-lhe sobre os ombros todas as implicações de um povo a caminho, um povo migrante. Em semelhante contexto de idas e vindas, de fracassos e vitórias, levanta-se a voz dos profetas. Como já tivemos ocasião de ver, são mensageiros do Deus único e verdadeiro, defensores dos pobres e oprimidos. Representam também a memória da aliança, apontado com inusitado vigor o contraste entre as vissicitudes e desvios do povo, de uma parte, e os desígnios de Deus, de outra. Alarga-se aqui o leque de profecias veterotestamentárias, mas não podemos deter-nos sobre um estudo aprofundado do tema. Falta-nos espaço e competência para um percurso dessa grandeza.

Na contigência de fazer uma escolha, tomamos em mãos o capítulo 37 do profeta Ezequiel, versículos de 1 a 14. Trata-se do episódio do “vale de ossos”. O profeta, com efeito, é conduzido pelo “espírito de Javé a um vale de osssos” (v. 1). E Javé faz questão de precisar: “esses ossos são toda a casa de Israel. Os israelitas andavam dizendo: ‘nossos ossos estão secos e nossa esperança se foi. Para nós tudo acabou’” (v. 11). Basta um voo de pássaro sobre os países destruídos e devastados pela guerra e a violência, a pobreza, a fome e a falta de oportunidade. Que vemos? Cinzas, ruínas, escombros – para nao falar de cadáveres e ossos, ocultos ou expostos. Em consequência disso, a multidão simultaneamente em fuga e em busca. Multidão de números e estatísticas, sem dúvida, mas sobretudo de nomes, rostos, famílias, com grande quantidade de mulheres e crianças. Ao final de 2015, por exemplo, a ACNUR estimava em mais de 65 milhões a quantidade de refugiados espalhado por todo o mundo. Quanto ao número dos que residem fora do país em que nasceram, deve andar por volta de 250 milhões de seres humanos, uma vez mais, com crescente aumento de mulheres e crianças desacompanhadas.

Mas o episódio do “vale de ossos” narrado pelo profeta Ezequiel, apesar de apresentar uma imagem um tanto quanto macabra, transpira uma tonalidade de forte esperança. Aponta para o horizonte da promessa e sublinha a força oculta para além dessa visão de morte, e mesmo a possibilidade de uma nova vida. “Então Javé me disse: ‘criatura humana, será que esses ossos poderão reviver?’” (v. 3). Mas tal oxigênio de esperança está subordinado a uma dupla condição: ao poder da palavra e à ação do profeta. Diz-lhe o Senhor em continuidade: “Profetize, dizendo: ossos secos ouçam a palavra de Javé! Assim diz o Senhor Javé a esses ossos: vou infundir um espírito e vocês viverão” (v. 4 e 5).

Qual mensageiro fiel e atento, Ezequiel assim o fez: “Profetizei conforme ele havia mandado. E espírito penetrou neles e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso” (v. 10). No confronto com o contexto atual dos deslocamentos humanos de massa – “exército de reserva”, na expressão de Marx – o volume dos deserdados da terra cresce a cada dia. Cresce paralelamente o número de seus cadáveres, às vezes em plena flor da infância ou adolescência, não poucos para sempre desaparecidos nas águas bravias do oceano ou nas areias do deserto. Também este exército é tão imenso quanto aquele do episódio bíblico. E também ele, apesar dos olhos apagados, dos ossos quebrantados e da alma ressequida, poderá reviver sob dupla condição: a fé na palavra e na presença de Deus, de uma parte, e a solidariedade traduzida em gestos concretos para com as vítimas da história, por outra.

Semelhantes gestos concretos espalham-se hoje simultaneamente em múltiplas nações e em múltiplas ações. De fato, não obstante a atitude de intolerância e rechaço por parte de muitos grupos intransigentes, são incontáveis as iniciativas de acolhida, de suporte à documentação, de assistência social, jurídica e psicológica. Proliferam igualmente os esforços de sensibilização cada vez mais fortes e convincentes, os quais envolvem diversas Igrejas, setores do podere público, partidos, associações, entidades e movimentos, bem como uma série de organizações não governamentais. Daí a multiplicação de reuniões, encontros, seminários, cursos, fóruns – na tentativa de manter a tema das migrações na ordem do dia e na agenda das instâncias decisórias. Daí ainda, a disponibilidade de espaços físicos e virtuais onde os migrantes possam encontrar-se por etnia e cultura, intercambiar experiências, efetuando dessa maneira uma inserção menos traumática nas sociedades de destino.

Nessa perspectiva, não será exagero afirmar que a parte do capítulo do Livro de Ezequiel que estamos seguindo vislumbra no horizonte o anúncio e a esperança da salvação. Diz textualmente o final do trecho escolhido: “Assim diz o Senhor Javé: ‘vou abrir seus túmulos, povo meu, e vou levá -los para a terra de Israel. Povo meu, vocês ficarão sabendo que eu sou Javé, quando eu abrir seus túmulos, e de seus túmulos eu tirar vocês. Colocarei em vocês o meu espírito, e vocês reviverão. Eu os colocarei em sua própria terra, e vocês ficarão sabendo que eu, Javé, digo e faço – oráculo do Senhor’” (v. 12-14).

Exatamente a partir do “vale de ossos” e dos “túmulos” – imagens de desespero e morte – vem anunciada a realização da promessa: “terra onde corre leite e mel”, vida nova, expectativa de salvação. O mesmo enfoque positivo irá acompanhar, por exemplo, a visão de J. B. Scalabrini – pai e apóstolo dos migrantes – quanto ao tema da mobilidade humana. O bispo de Piacenza via nas migrações a mão invisível de Deus, o qual, da mesma forma que as aves e o vento transportam os germes de vida nova, através de tais movimentos migratórios fecunda povos e culturas de valores sempre novos. Apesar de tantos dramas e infortúnios, os deslocamentos humanos fazem nascer novas civilizações. “A migração amplia o conceito de pátria, dando ao homem o mundo como casa”, dizia o prelado. E mais: “para o migrante, a pátria é a terra que lhe dá o pão”.

A Bíblia cristã tem ensinamentos sobre o tratamento a ser dado a imigrantes e refugiados que cabem em qualquer crença.
Crédito: Márcia Passoni

Conclusão

O mesmo se pode dizer do Documento Final da V Conferência Episcopal da América Latina e Caribe – chamado Documento de Aparecida, bem como das mensagens do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado e, ainda, de uma série de documentos publicados pela Igreja ao longo dos séculos. Sem deixar de mergulhar os pés no chão úmido e escuro de suor, lágrimas e sangue, versados por milhões de migrantes, a Doutrina Social da Igreja alerta para as sementes e potencialidades escondidas nesses movimentos, onde a crise da mudança costuma ser ao mesmo tempo dolorosa e fecunda. Neste campo, o migrante jamais aparece somente como vítima de uma ordem mundial injustiça, desigual e perversa. Ele é também sujeito e protagonista da sua história, da história de seu povo e da história da própria humanidade. O ato de pôr-se a caminho, por si só, e de fazê-lo em massa, faz marchar os rumos da trajetória humana sobre a face do planeta. E não é só isso! Além de protagonista, o migrante pode ser profeta de novos tempos e da nova evangelização. Ao mesmo tempo que denuncia as condições precárias do país ou região em que nasceu, incapaz de o manter e à sua família como cidadãos dignos de respeito, anuncia a necessidades de mudanças profundas, seja nos relacionamentos internacionais, seja na política econômica globalizada, simultaneamente concentracionista e excludente.

Migrar não deixa de ser uma forma de protestar. Pode-se efetivamente resistir no solo pátrio, apesar de todas as adversidades. Mas pode-se igualmente ir ao encontro de alternativas. Em uma série de casos, a fuga se converte em uma nova busca. Se, na hora sa saída, a pobreza e/ou a violência, pressionam pela fuga, na hora da chegada ao novo destino, potencialidades novas tendem a desencadear um processo de busca, pleno de iniciativa e criatividade. No percurso da humanidade sobre o solo terrestre, não poucas vezes a contribuição dos imigrantes tornou-se decisiva para a construção de uma nova nação ou povo.