“O tema dos refugiados é muito próximo do meu coração. É uma dor imensa ver que essas pessoas que foram maltratadas, violentadas, usurpadas durante essas travessias”.
Nascida em Roma e filha de imigrantes somalis, Idiaba participou de um debate sobre suas obras na noite desta quarta-feira (1º) no teatro da Livraria Cultura, na avenida Paulista. Ela também vai falar nesta quinta-feira (2) no Circolo Italiano, no centro da capital paulista.
Em suas obras, a italiana reflete e procura chamar a atenção sobre temas como identidade, migrações, colonialismo, racismo e gênero, como nos romances “Adua” e “Minha Casa é Onde Estou”. Pensadores como Edward Said e Antonio Gramsci, e escritores como Cervantes e Italo Calvino estão entre suas referências principais.
A escritora italiana Idiaba Scego (ao centro), durante debate na Livraria Cultura, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
“A gente usa uma só palavra, ‘refugiados’, para descrever todas essas pessoas sem pensar que existem professores, músicos, atores, tradutores, pessoas com diferentes histórias que poderiam fazer muitos tipos de trabalhos. E tem uma expressão pior, os ‘imigrantes econômicos’, que expressa que você só está vindo pela questão do clima, por algum conflito ou questão econômica.
Durante o debate, ela recordou um diálogo que teve há quatro anos no norte da Somália com a mãe de um jovem que certa noite partiu para tentar chegar à Europa por meio da travessia pelo Mediterrâneo, mas nunca chegou ao destino final. “‘O navio, com seus dentes de tubarão, despedaçou meu filho’, recordou”.
A partir dessa história, a escritora afirmou que é necessária uma mudança de paradigma sobre os deslocamentos globais para evitar novas tragédias como as as que ocorrem quase que cotidianamente no Mediterrâneo e em outras travessias.
“Vivemos um momento de apartheid dos deslocamentos porque quem tem um passaporte forte, como o meu (italiano, europeu) pode se deslocar, viajar. E quem não tem um passaporte assim, não pode. Nós poderíamos fazer com que as pessoas não fizessem migrações forçadas, mas sim viagens circulares regulamentadas. Quem se aproveita desse sistema atual são as máfias”, ressalta.
No livro “A Minha Casa é Onde Estou”, ela relata um episódio do qual participou pessoalmente, em 2005, que foi um funeral coletivo em Roma de somalis que morreram nessa travessia do Mediterrâneo, contando inclusive com o apoio do então prefeito de Roma. “Agora, quase 15 anos depois, a Europa é um lugar totalmente diferente, e um funeral como esse não poderia ser feito daquela forma”.
Além de “Minha Casa é Onde Estou” e “Adua”, Idiaba também divulga no Brasil uma outra obra, “Caminhando Contra o Vento”, ensaio-depoimento sobre Caetano Veloso. Ela já adiantou que já está escrevendo um novo livro, em conjunto com alguns refugiados.
Mais de 270 refugiados foram resgatados próximos à costa espanhola.
Crédito: F. Malavolta/ACNUR
Guarda costeira do país reclama de sobrecarga de trabalho com aumento das operações, e governo espanhol vive “teste de fogo”de sua liderança dentro da UE
Por Victória Brotto, em Estrasburgo (França)
Nos últimos seis meses, a Espanha ultrapassou a Itália e se tornou o principal destino dos migrantes que cruzam o Mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor. A informação é da Organização Internacional para Migrações (OIM) e do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) (veja aqui as atualizações em tempo real desses números).
A Espanha encabeça a lista de países-destino dos migrantes semanas depois da Itália endurecer a sua política nos portos, fechando-os para a chegada de novos migrantes. Sob o comando do ministro do Interior Matteo Salvini, de extrema-direita, foram ao menos quatro barcos de ONGs de resgate impedidos de desembarcar na costa italiana.
Migrantes são resgatados próximos à costa da Espanha, que se tornou o principal destino dos barcos que atravessam o Mediterrâneo. Crédito: F. Malavolta/ACNUR
É a primeira vez que a Espanha se torna o destino número um da maioria dos migrantes desde a intensificação do fluxo migratório em 2015. Do dia 1º de janeiro até o dia 30 de julho, de acordo com a OIM, foram 23.993 pessoas que tomaram a chamada “rota ocidental do Mediterrâneo”, que liga o Marrocos à Espanha. Já pela rota central, entre países do norte da África e a Itália, registrou-se 18.298 pessoas chegando em solo italiano. Na Grécia, foram 16.142 pessoas chegando pela rota oriental, partindo de países como Turquia e Egito.
Em comparação com os anos anteriores, a Espanha tem hoje quase três vezes mais pessoas chegando em seu território. De acordo com a OIM, em 2017, foram 9.300 chegadas de migrantes e em 2016, 4.900. Já as chegadas na Itália vêm caindo sistematicamente. De acordo com o representante da OIM em Roma, Flavio Di Giacomo, julho foi o mês no qual a Itália viu menos pessoas desembarcando em seus portos vindas principalmente do norte da África.
Sobre o crescimento do número de pessoas se dirigindo à Espanha e não mais à Itália, o presidente espanhol Pedro Sánchez afirmou na semana passada que a preferência pela rota ocidental, que parte do Marrocos e desemboca na Espanha, já havia começado a crescer anos atrás e que não está nada ligada ao que ele chamou “fator específico” – em referência ao fechamento dos portos pela Itália.
O presidente espanhol Pedro Sánchez cutuca países europeus, mas também sofre pressões dentro e fora da Espanha. Crédito: Divulgação
À agência internacional de notícias Reuters, um dos líderes do governo espanhol que não teve seu nome revelado afirmou que o país está “pressionando a Europa para uma política de harmonização”, quando se trata de acolhimento de migrantes.
No mês passado, a Espanha protagonizou a solução para uma crise diplomática entre Itália e a União Europeia depois de aceitar dois barcos com migrantes que foram recusados por Salvini. Ao anunciar que as embarcações seriam recepcionadas na Espanha, Sánchez cutucou os italianos falando que “a Espanha cumpre os valores fundadores da União Europeia, como os da solidariedade”.
Em artigo publicado na influente revista norte-americana Foreign Policy, o economista Gonzalo Fanjul, cofundador do site porCausa Foundation, plataforma de notícias espanhola especializado em migrações, afirmou que o presidente espanhol vive um teste de fogo para provar sua liderança dentro do bloco europeu.
“Quando se trata de migração e políticas de refúgio, a Espanha não é muito diferente do resto da Europa. A única razão pela qual o atual governo espanhol parece estar progredindo é porque o resto da Europa está regredindo. A mostra real da liderança de Sánchez acontecerá se ele conseguir ir além de meros gestos simbólicos e mostrar que ele tem visão e vontade política para promover uma política migratória na UE baseada em ambos, princípios e interesses nacionais”.
Migrantes aguardam resgate no mar durante tentativa de travessia no Mediterrâneo. Crédito: Anistia Internacional
Pressão política
Entretanto, desde as últimas semanas, o governo espanhol começa a sentir a pressão política que chega na mesma velocidade dos migrantes fugindo de guerras na África. Na última sexta-feira (28), a União dos Guardas Costeiros da Espanha pressionou o governo por uma resposta dizendo que os oficiais estão “sobrecarregados” devido ao aumento dramático de operações de resgates. Só na manhã da última quinta-feira, os agentes resgataram 600 migrantes no estreito de Gibraltar. Em uma semana, foram 2 mil migrantes recém-chegados.
No mesmo dia, no final da tarde, o governo espanhol anunciou um orçamento extra de 30 milhões de euros (120 milhões de reais) para as agências que lidam com as questões migratórias no país. A ministra do Trabalho, Migração e Segurança Social, Magdalena Valerio, pediu ajuda à União Europeia no quesito portos e fronteiras, citando o caso de Gibraltar.
Migrantes conseguem chegar em terra firme após arriscada travessia de bote pelo Mediterrâneo. Crédito: ACNUR
“Nós não podemos deixar isso explodir”, afirmou um diplomata europeu, que preferiu não ter o nome revelado, à agência Reuters. “A rota Marrocos-Espanha está sendo mantida sobre controle há anos. O que vemos hoje não é algo dramático, mas nós devemos ficar de olho nesse crescimento”, acrescentou.
À publicação semanal alemã “Die Welt am Sonntag”, o diretor da agência europeia de segurança Frontex, Fabrice Leggeri, afirmou que a sua maior preocupação hoje é a Espanha. “Se os números continuarem a crescer com eles estão, a rota se tornará a mais importante da Europa”, acrescentou.
No final de junho, 28 líderes da União Europeia fecharam um novo acordo em Bruxelas aumentando, entre outras medidas, o número de policiais nas fronteiras do bloco. O previsto é de que até 2020 o número de oficiais aumente para 10 mil.
Entidades montaram estandes para conscientização sobre tráfico de pessoas.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Ação faz parte da Semana Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas; migrantes estão entre as vítimas desse crime
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
O Pátio do Colégio, no coração de São Paulo, teve uma movimentação diferente na manhã desta segunda-feira (30). Aproveitando o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, lembrado sempre em 30 de julho, uma ação foi organizada pela Secretaria Estadual de Justiça para a abertura da Semana Nacional de Enfrentamento a essa temática.
O evento foi aberto por uma breve e improvisada solenidade, que contou com a presença do secretário de Justiça, Márcio Elias Rosa, e do governador Márcio França. Ao longo da manhã, organizações que atuam na prevenção e combate ao tráfico de pessoas junto a diversos públicos e setores da sociedade montaram estandes em frente ao prédio da secretaria e distribuíram material de apoio.
Desta vez, o evento organizado pela Secretaria de Justiça foi do lado de fora do prédio. Divulgação ficou limitada devido à nova legislação eleitoral. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
“O objetivo é abrir a secretaria para que as pessoas a conheçam e não tenham essa barreira institucional. E como nós tinhamos esse evento, definiu-se que a abertura da semana seria no pátio do colégio”, disse Izilda Alves, responsável pelo Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria de Justiça.
De acordo com dados da ONU citados pela Secretaria de Justiça, o Brasil registra 3 mil novos casos de tráfico de pessoas por ano. No total, segundo a secretaria, são cerca de 360 mil vítimas de tráfico humano no Brasil. Ainda segundo a ONU, um terço das vítimas de tráfico de pessoas é formado por menores de idade. As mulheres e meninas representam 71% dos indivíduos que caem nas mãos de traficantes e redes criminosas.
Entidades montaram estandes para conscientização sobre tráfico de pessoas. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
A divulgação do evento ficou limitada pela nova legislação eleitoral. que proíbe a divulgação de atos ou serviços de órgãos públicos, como a Secretaria de Justiça. Para tentar driblar essa barreira, as próprias ONGs participantes ficaram responsáveis por divulgar o ato em suas redes.
Ação em rede e temas interligados
Os migrantes também estão entre os alvos do tráfico humano. O CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), cujo trabalho foca a prevenção e o combate a esse tipo de crime, foi uma das entidades que participaram da ação. Para a assistente social da instituição, Carla Aguilar, o fato de o evento ser no meio da praça, e não dentro do prédio da Secretaria de Justiça, possibilita levar informação e conscientização a um público maior.
“Isso ajuda a mostrar que o tráfico de pessoas existe, que é um crime grave e hediondo, e estamos aqui para fazer prevenção e para combater esse tipo de crime”. Ela crê ainda que a ação em rede entre as diferentes entidades é uma das saídas para fortalecimento mútuo e para um melhor amparo às vítimas. “Aos poucos, vamos nos organizando. Esse tipo de trabalho vai unindo e dando mais força para combate e prevenção a esse tipo de crime”.
Estande do CAMI durante o ato de mobilização contra o tráfico humano, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
O combate ao tráfico humano costuma ser usado por determinados governos como motivo para restrições cada vez maiores aos fluxos migratórios. Para Izilda, que também integra comitês que lidam com trabalho escravo e refugiados na Secretaria de Justiça, os temas estão interligados e precisam ser discutidos dessa forma.
“Os três temas estão unidos. Estamos vivendo um período no mundo de muitas dificuldades econômicas. E de onde vem o tráfico? Do encantamento que traficantes jogam em populações vulneráveis”.
O Coração Azul
Tanto no Brasil como no exterior a campanha de combate ao tráfico humano é simbolizada por um coração azul. De acordo com a ONU, ela reflete a tristeza das vítimas e insensibilidade daqueles que compram e vendem outros seres humanos. Também mostra o compromisso da ONU – cuja cor oficial é o azul – com a luta contra esse crime, que transforma pessoas em mercadoria e representa uma grave violação dos direitos humanos.
Coração Azul foi o símbolo escolhido pela ONU para o combate ao tráfico humano. Crédito: Divulgação
Em mensagem especial para a data, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou que o tráfico de pessoas é um “crime desprezível que se alimenta de desigualdades, instabilidade e conflitos. ” “Estamos falando de exploração sexual brutal, incluindo prostituição involuntária, casamento forçado e escravidão sexual.
“Os direitos das vítimas devem vir em primeiro lugar – sejam elas vítimas de traficantes, contrabandistas ou de formas modernas de escravidão ou exploração”.
Programa vai ao ar três vezes na semana, em três horários, e consiste em entrevistas com convidados que vão debater temas relacionados às migrações
Em São Paulo (SP)
O MigraMundo passa a contar com um programa semanal de entrevistas a partir desta segunda-feira (30) na Web Rádio Migrantes Español, da Rede Scalabriniana de Comunicação. A ação é fruto de uma parceria entre o portal e a Missão Paz, em São Paulo, onde fica sediada a rádio web.
O programa, chamado MigraMundo, será veiculado três vezes na semana (às segundas quartas e sextas) em três horários diários (10h, 15h e 22h). Ele consiste em entrevistas com convidados que vão debater temas relacionados às migrações, tanto no Brasil como no exterior.
Para ouvir a rádio a qualquer momento, basta acessar este link ou usar o aplicativo da Rede Scalabriniana de Comunicação, disponível para celulares Android.
Cada programa tem cerca de uma hora de duração e conta ainda com músicas de diferentes países nos intervalos entre um bloco e outro da entrevista. A apresentação do programa é feita em português pelo jornalista Rodrigo Borges Delfim, editor do MigraMundo, com trabalhos técnicos do jornalista chileno Miguel Ahumada, responsável pela Rádio Migrantes Español.
Na edição de estreia, o entrevistado foi o comunicador boliviano Antonio Andrade, fundador e editor dos portais Bolívia Cultural e Planeta América Latina. Ele falou um pouco sobre a própria trajetória e sobre desafios e conquistas recentes da comunidade boliviana em São Paulo.
Antonio Andrade, do Bolívia Cultural e Planeta América Latina, é o primeiro entrevistado do programa MigraMundo na Rádio Migrantes Español. Crédito: Miguel Ahumada
A estudante sueca Elin Ersson, que impediu deportação de um migrante afegão que teve o pedido de asilo negado na Suécia por meio de um ato de desobediência civil.
Crédito: Reprodução
Mesmo sozinha, Elin Ersson enfrentou hostilidade de passageiros, inclusive de uma brasileira, que afirmou que o homem poderia ter “colocado uma bomba” na aeronave
Por Victoria Brotto
De Estrasburgo (França)
Uma jovem sueca de 22 anos impediu a deportação de um homem afegão, de 52 anos, depois de ter ficado em pé em um voo da Suécia para Istambul, na Turquia. O fato aconteceu na última segunda-feira (23) no aeroporto de Gotemburgo, na Suécia, e o vídeo (assista abaixo) feito pela jovem durante os 14 minutos e 5 segundos em que ela ficou em pé dentro no avião viralizou na internet, tendo mais de 3 milhões de acessos e repercutindo na imprensa do mundo todo.
Elin Ersson, estudante de serviço social na Universidade de Gotemburg , queria, junto com seu grupo de ativistas que protestam contra a política de deportações em seu país, impedir que Ismael Khawari, 21, fosse deportado para o Afeganistão. A ação foi planejada depois que a família de Ismael entrou em contato com o grupo dizendo que o jovem iria ser deportado junto com outro afegão naquele dia.
Após fazer uma vaquinha para comprar a passagem e embarcar no avião, Elin descobriu que Ismael não estava lá, apenas o outro afegão, um homem de 52 anos, acompanhado de um oficial da imigração – Ismael seria deportado no dia seguinte, em um voo direto para Cabul.
Em entrevista ao portal alemão Deutsche Welle, Ismael, que chegou a Cabul na última terça-feira (24), disse que não conhecia Elin Ersson, mas que a agradece pelo esforço.
“Infelizmente não a conheci pessoalmente, mas ela demonstrou ser muito humana”. O jovem nasceu no Afeganistão, mas fugiu de lá quando tinha seis anos. Sua mãe e suas duas irmãs moram na Suécia. “Não conheço ninguém aqui [ no Afeganistão], não sei para onde ir agora”, disse ele.
Em pé no avião por 14 minutos e 5 segundos, Elin ligou o seu celular e entrou ao vivo no Facebook, falando todo o tempo em inglês. “Eu estou dentro de um avião onde um homem será deportado para o Afeganistão e onde ele provavelmente perderá a sua vida”, afirmou ela nos primeiros segundos do vídeo.
Momentos depois, alguns passageiros levantam a voz contra a jovem afirmando que ela deveria sentar se não todos sairiam atrasados. “Sente-se, sente-se, pelo amor de Deus!”, afirma um homem em inglês britânico. “Eu não irei sentar”, continuou Elin, que todo o tempo olha diretamente para a câmera de seu celular e evita filmar os passageiros por causa do direito à privacidade de imagem na Suécia. “Como todos sabem, o piloto não pode decolar se alguém estiver em pé. E eu permanecerei em pé até que esse homem saia do avião. Ele será morto se ele for enviado de volta para o Afeganistão”, afirma a jovem.
A estudante sueca Elin Ersson, que impediu deportação de um migrante afegão que teve o pedido de asilo negado na Suécia por meio de um ato de desobediência civil. Crédito: Reprodução
“Por que você está fazendo isso?”, pergunta um dos passageiros. “Porque existe um homem aqui que perderá a sua vida se esse avião decolar, e eu estou tentando impedir que isso aconteça. Eu sinto muito se vocês estão mais preocupados com o tempo de vocês do que com a vida de uma outra pessoa”, respondeu a estudante.
Um dos membros da tripulação interpela a jovem diversas vezes para que se sente, afirmando que o piloto não tem a autoridade de tirar o homem afegão do voo. “Mas ele tem a autoridade de não decolar enquanto esse homem estiver aqui”, responde. Logo em seguida, um homem se aproxima falando alto em inglês britânico: “Para com isso, vamos embora! Eu não ligo, eu não estou nem ai”, diz ele sobre a situação do afegão. Ele então pega o celular da sueca. “Por favor, não pegue o meu celular”, interpela a moça, que recupera o seu celular depois que alguém da tripulação pega das mãos do homem.
Ao fundo, percebe-se passageiros brasileiros comentando o que está acontecendo. A voz de uma mulher jovem é ouvida dizendo que o homem afegão “pode ter colocado uma bomba” no avião. Ao fim, um dos membros da tripulação informa à jovem que o homem será retirado da aeronave. A jovem, então, também sai, sob os aplausos de parte dos passageiros. Ao sair, ouve-se novamente a voz da passageira brasileira repreendendo sua filha para que ela não dê a mão para Elin. “Não! Não dê a mão para ela, Isaura!”, diz a moça.
O homem afegão foi retirado do avião pelos seguranças suecos que o estavam acompanhando e ele permanece preso no país. De acordo com o governo da Suécia, ele será deportado, mas ainda não se sabe quando. Para as autoridades suecas, a atitude de Elin Ersson foi vista como “desobediência civil”. Por ter desobedecido as ordem do piloto dentro do avião, ela pode pagar uma multa e pegar até seis meses de prisão. “Eu não estou cometendo nenhum crime, estou aqui impedindo a morte de uma pessoa”, afirmou Ersson durante a filmagem.
Algumas cortes de países europeus, como a Suécia, por exemplo, consideram o Afeganistão um “país seguro” e não impõem restrições para a deportação. De acordo com os dados divulgados pelo Ministério do Interior da Suécia (veja aqui os gráficos divulgados em inglês ), foram mais de 160 mil pedidos de asilo feitos em 2015, e grande parte deles por afegãos. Apenas 28% obtiveram o status de refugiado.
Como toda a Europa, a Suécia é perpassada pelo tema migratório, que já toma conta dos debates eleitorais deste ano. No próximo mês de setembro, o país terá eleições gerais.
Repercussão
O caso da jovem sueca ganhou destaque em veículos de comunicação de todo o mundo. O alemão Deutsche Welle, que foi um dos primeiros a divulgar o ao vivo de Elin, destacou que a Suécia é um país que atualmente coloca em questão a aceitação de refugiados no país, sendo que o próprio debate político eleitoral está “em embulição” com o tema.
O jornal norte-americano The Washington Post publicou em sua conta no Twitter, momentos depois do fato vir a público: “Protesto de jovem estudante faz parar a deportação de homem para o Afeganistão”.
A ação de desobediência civil chegou às revistas de moda Elle e Vogue, que destacaram o fato de Elin Ersson ser mulher. “Uma mulher sueca protesta em avião e impede deportação de homem”, destacou a Elle, na reportagem escrita pela jornalista Madison Feller (leia aqui, em inglês). A jornalista ainda destaca as inúmeras hostilidades enfrentadas pela moça, que chegou até a ter o celular arrancado por um homem britânico. “Você poderia ter também ficado frustrada como Ersson se mostra ao longo dos ataques”, afirma a jornalista.
O jornal britânico The Guardian, que conversou com Elin por telefone após o caso no avião, diz que não se sentiu mal, nem exposta pela repercussão. “Eu estava tão envolvida no momento que eu não pude perceber que todos estavam olhando para mim. O meu foco era para [evitar] a deportação para o Afeganistão” (leia aqui o link em inglês),
Ainda no Reino Unido, alguns jornais, como os britânicos The Sun e The Mirror citaram o fato de a jovem ser uma estudante. Já diário The Independent destacou, a partir da ação de Elin, como atitudes individuais efetivas têm poder.
Ao menos temporariamente, a atitude de Elin teve êxito. E pelo menos nessa história, não foi a morte de um migrante que virou manchete.
Repórter do MigraMundo foi recebida por Dahan no quarto improvisado onde a família dorme.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Por meio de ONGs e projetos pessoais, jornalista brasileira iniciou os trabalhos voluntários no Brasil e hoje ajuda famílias e crianças refugiadas pelo mundo
Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)
Enquanto fronteiras se fecham e muros internos são construídos, algumas pessoas buscam as pontes para ligarem-se umas às outras. E vão além, dando atenção e afeto para aqueles que vivem cercados por tragédias e destruição. Uma delas é a jornalista brasileira Alethea Rodrigues Solha, que trabalha como voluntária há 11 anos com questões humanitárias – sendo que os últimos três anos tem sido dedicados às crianças refugiadas.
Natural de São Paulo e com cidadania lusitana, a também estudante de Relações Internacionais trabalhou por oito anos na Record TV e atuou mais três como repórter policial, mas encontrou no voluntariado a paixão e sensação de sentir-se viva. Começou através de uma ação da Cruz Vermelha para ajudar as pessoas atingidas pelas enchentes em Santa Catarina, de 2008, e não parou mais, atuando em diversas ONGs (Organizações Não Governamentais) no Haiti, Peru, Grécia e Líbano. No Brasil, atuou junto às ONGs Adus e OASIS Solidário e também é colaboradora do MigraMundo desde março de 2017.
A jornalista Alethea Rodrigues durante trabalho em campo de refugiados no Líbano. Há três anos ela se dedica a trabalhos com foco em famílias e crianças refugiadas. Crédito: Arquivo pessoal
Em cada parada, coletou aprendizados e a certeza de que estava no caminho certo, inclusive ao “se encontrar” na causa dos refugiados. “Comecei a conhecer famílias refugiadas, não somente sírias, mas de várias partes do mundo; conhecer histórias, escrever reportagens, participar, ajudar, me envolver em projetos”. Alguns desses materiais, inclusive, se tornaram reportagens no MigraMundo.
Alethea sempre esteve envolvida em projetos com crianças, como no Peru, em 2009, onde colaborou na Aldea Yanapay e na Divisão de Investigação Criminal de Cusco, ambos com trabalhos voltados para a educação infantil e juvenil, respectivamente. “Sou apaixonada por crianças e cada momento que vivia tocava meu coração e me fazia uma pessoa melhor”, enfatiza. Sentimento que só aumentou conforme se deslocava para os outros países.
Exposição “Um Sonho e Um Sorriso”, que reuniu mensagens de 30 crianças que vivem em campos de refugiados na Grécia. Crédito: Antônia Souza/Adus
Foi durante passagens por Grécia e Líbano que a voluntária realizou dois projetos pessoais. O primeiro deles é fruto de pouco mais de um mês que esteve em campos de refugiados na capital grega, em maio de 2017, produzindo a exposição “Um Sonho e Um Sorriso” (apresentada em novembro do mesmo ano), com cartazes desenhados pelas próprias crianças sobre as expectativas futuras.
O segundo se tornou realidade neste ano, no Líbano, quando trabalhou com órfãos de pai e mãe que estão no país, por conta da guerra que assola a vizinha Síria desde 2011. Além de conhecer um casal de brasileiros que acolhem crianças e famílias refugiadas, desenvolveu uma atividade em vídeo com jovens sírios, narrando seus traumas, sonhos e esperanças para o futuro.
Trabalhos como esses, como diz Alethea, auxiliam na conscientização da população acerca da temática e ajudam a levar um pouco mais de amor para as crianças que convivem com esses transtornos. Hoje, a jornalista está se estabelecendo na Europa para aprofundar seus estudos com um mestrado, mas não exclui a responsabilidade iniciada anos atrás. “Eu quero continuar voluntariando para o resto da minha vida, (…) quero continuar voluntariando e ajudando pessoas”.
De acordo com mais recente relatório do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), 53% da população deslocada no mundo (refugiados e deslocados internos) é formada por crianças – incluindo as desacompanhadas ou separadas de suas famílias.
A pesquisadora francesa Catherine Wihtol de Wenden (e), que aponta a migração como fenômeno secular e humano.
Crédito: Victória Brotto/Migramundo
Em seminário sobre acolhimento de refugiados, diretora de pesquisas migratórias do Instituto de Ciências Políticas de Paris criticou “política irracional” da União Europeia para um fenômeno “secular e humano”
Por Victoria Brotto de Estrasburgo (França)
Como uma professora em uma sala de aula, Catherine Wihtol de Wenden abre slides, mapas e imagens para explicar o fenômeno da migração, fenômeno que chama de “tipicamente humano e secular”. “O ser humano migra porque é de sua natureza (…). Mas o que existe hoje são desigualdades no direito de migrar. Migrar passou a ser não uma questão humana, mas uma questão de passaporte. Se você tem um passaporte africano, isso é quase uma sentença de morte”.
Dona de um extenso currículo e de uma crítica ácida da atual política migratória da União Europeia (UE), Catherine é diretora do Centro de Pesquisas Internacionais do Instituto de Ciências Políticas de Paris (o famoso SciencesPo) e foi convidada para o seminário “Acolhimento e Integração de migrantes”, realizado na sede do INET (Instituto Nacional para Estudos Territoriais) em Estrasburgo (França), em junho passado.
O evento reuniu especialistas e membros dos governos alemão e francês em torno do tema. De acordo com o Euro Institut, promotor do encontro, a ideia era colocar em perspectiva as ações de integração de refugiados na Alemanha e na França.
A pesquisadora francesa Catherine Wihtol de Wenden (e), que aponta a migração como fenômeno secular e humano. Crédito: Victória Brotto/Migramundo
“O ser humano migra porque é de sua natureza, porque é fundamental para o nosso desenvolvimento. Quanto mais migramos, mais desenvolvidos nós somos”, afirmou Wender em tom didático. E acrescentou: “Mas nós europeus temos problemas com a migração, quando se trata das pessoas do Sul”.
“Para nós é formidável, enquanto europeus, viajarmos, fazermos estágios mundo a fora, colocar nossos filhos para fazer ERASMUS (programa europeu para estudantes universitários). Mas quando se trata das pessoas do Sul do globo nós dizemos “não””, afirmou. “Mas eles também querem viajar, estudar, trabalhar fora, fazer como nós, tentar a vida.”
“O que existe hoje são desigualdades no direito de migrar. As fronteiras não têm o mesmo valor nem a mesma cara. Se você é europeu, por exemplo, você pode visitar mais de 100 países sem nenhum problema ou quase nenhuma barreira. Mas se você é africano, as suas chances de sair do seu país se reduzem a quase zero”, afirmou.
Para a pesquisadora, toda a política europeia precisa ser repensada. “Temos uma crise de valores da Europa, o valor da solidariedade – um dos valores centrais do bloco – está sendo colocado em cheque”, afirmou. E acrescentou: “É uma crise ideológica da Europa com um retorno aos “velhos demônios.”
Migração e aumento populacional
“Se nós hoje na Europa queremos aumentar a população, precisamos considerar que a migração é uma resposta para o crescimento de nossa população”, afirmou Wenden, que já foi membro-consultiva de órgãos internacionais como a Comissão Europeia e o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, além de ser presidente do Comité de Pesquisas sobre migração na Associação Internacional de Sociologia desde 2002.
“A Europa é rica, mas ela está morrendo. Se continuarmos a fechar as nossas portas para os migrantes, não teremos força de trabalho suficiente e nosso PIB será afetado”, afirmou Catherine. E acrescentou: “Há um grande medo hoje entre os economistas de que até meados de 2050 a Europa perca 50 milhões de pessoas economicamente ativas. Se nós nos fecharmos para a migração, sim, nós vamos ter esse problema.”
Seminário em Estrasburgo, com a participação de Catherine, debateu o acolhimento e integração de migrantes no continente europeu. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo
Para ela, o acolhimento e a integração no mercado de trabalho dos migrantes resolveriam, em boa parte, as crises demográficas e econômicas da região. “A Alemanha aumentou 0,3% de seu PIB desde que acolheu um milhão de migrantes desde 2015”, afirmou a cientista política citando estudo de economistas de Oxford, onde previam crescimento de 0,6% até 2020 para a Alemanha por causa da injeção de mão de obra com a integração de refugiados. Porém, o estudo também pondera ao falar que “a entrada de refugiados não resolverá o problema demográfico da Alemanha a longo prazo”. De acordo com previsões da Nações Unidas, o país perderá 11 milhões de pessoas ativas até 2050 – e a União Europeia, 50 milhões.
Em artigo publicado em fevereiro deste ano, a Fundação Robert Schuman, um dos mais importantes centros de estudos sobre a UE, afirmou que a Europa “caminha para um suicídio demográfico, mas que ninguém fala deste problema e menos ainda se prepara para ele.”
No artigo intitulado “Europa 2050: um suicídio demográfico” (leia aqui, em inglês), os economistas Michel Godet e Jean-Michel Boussemart mostram o crescimento do PIB é mais baixo nos países onde o aumento de população é menor.
“Ao final, nós morreremos dentro dos muros que nós mesmos construímos”, afirmou Catherine.
Sem opção e com abrigos lotados, venezuelanos improvisam acampamento na rua em Boa Vista.
Crédito: Natália Scarabotto
Suposta redução no número de venezuelanos vivendo em Roraima é novo elemento no jogo de empurra entre autoridades locais e federais em relação à temática migratória no país
Por Natália Scarabotto, Nayra Wladimila e Rodrigo Borges Delfim
Em Boa Vista (RR) e São Paulo (SP) Atualizada às 11h50 em 23/07/18
O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse nesta semana que mais da metade (54%) dos 128 mil venezuelanos que entraram no Brasil nos últimos 18 meses já saíram do país. Mas será que esses números estão sendo lidos de forma correta?
Para Gustavo da Frota Simões, professor do curso de Relações Internacionais da UFRR e que tem acompanhado a questão migratória venezuelana no Estado e no país, essa leitura é, no mínimo, duvidosa.
“O ministro fala que metade já deixou o país, de acordo com os números de entrada e saída. A questão é que não dá para saber se são os mesmos que entraram ou saíram. É um número total de entradas e saídas, o que pode demonstrar uma migração pendular, por exemplo [algo que sempre foi presente em Roraima, devido à proximidade com a Venezuela]. “.
Vista interna do abrigo Jardim Floresta, um dos que foram abertos em Boa Vista para receber os venezuelanos na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo
Troca de farpas
Tanto o governo de Roraima como as prefeituras municipais alegam que não recebem a devida ajuda da União para lidar com a temática migratória no Estado.
O secretário da Casa Civil Estadual de Roraima, Frederico Linhares, acusa o governo federal de “mascarar a realidade” de que “a crise migratória é do país, e não apenas de Roraima”, e que ele [governo federal] precisa assumir o papel de protagonista para resolver a questão.
“O governo federal não pode simplesmente mascarar dados achando que os imigrantes entram e não permanecem aqui. Esses imigrantes precisam ser acolhidos de maneira digna e precisam ser distribuídos pelo país para que possam ter oportunidades, em vez de transformar a cidade de Boa Vista em um campo de refugiados. Isso é desumano com os imigrantes e também com o roraimense e com o brasileiro que vive em Roraima, que têm os serviços públicos seriamente afetados por esse maciço ingresso de pessoas sem planejamento”.
Um levantamento feito pela Prefeitura de Boa Vista entre os meses de maio e junho indicou que cerca de 25 mil venezuelanos residam atualmente na capital roraimense – seja em casas, nos abrigos administrados pela Força Tarefa Humanitária ou mesmo nas ruas e praças da cidade.
Recentemente foi inaugurado ainda um novo abrigo para venezuelanos em Boa Vista, o Rondon 1, destinado às famílias que estão vivendo ao relento nas redondezas da Rodoviária Internacional de Boa Vista e outros locais na cidade. Com ele, chegam a dez o total de abrigos para os migrantes na cidade, todos eles gerenciados pela Força Tarefa Humanitária e pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).
Teoria e prática distantes
Simões lembra que há, sim, venezuelanos que usam o Brasil como ponto de passagem para outros países, mas acrescenta que a fala do ministro Padilha é mais um elemento do jogo de empurra que as autoridades locais e nacionais estão fazendo com a migração.
“Ao dizer que metade já foi embora, o ministro esvazia os pedidos por recursos vindos principalmente das prefeituras e do governo estadual”.
Enquanto isso, em Boa Vista, a realidade difere do discurso do ministro Eliseu Padilha. Desde dezembro há venezuelanos compartilhando o antigo prédio da Secretaria Estadual de Administração (Segad), interditado após um incêndio. Alguns alugam kitnets quando conseguem uma renda mínima. Ainda há quem more na rua: no quarteirão em frente ao abrigo Jardim Floresta, na zona oeste da cidade, mais de cem pessoas acampavam em pequenas barracas de lona e palete, com espaço para um pouco mais do que um adulto deitado.
Sem opção e com abrigos lotados, venezuelanos improvisam acampamento na rua em Boa Vista. Crédito: Natália Scarabotto
As roupas secam nos muros vizinhos. Os alimentos vêm de uma igreja ao lado e também dos próprios refugiados, que cozinham em latas de tinta apoiadas em pedras e grades de ventiladores, formando um fogão à lenha improvisado. O banheiro é compartilhado pela igreja, mas há uma mangueira na calçada para que alguns deles tomem banho.
Enquanto as autoridades locais e federais continuam o jogo de empurra sobre as responsabilidades em relação à temática migratória venezuelana, os migrantes continuam em situação fragilizada, ainda mais sujeitos a abusos de todo o tipo. Um cenário que também é potencializado pela polarização ideológica que recai sobre a questão no Brasil, e pela proximidade com as eleições estaduais e presidencial neste ano.
Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima. Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil
Contação de histórias do Brasil e da Bolívia para crianças foi uma das atrações do primeiro dia da ocupação Praça Kantuta Expandida.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo
Ocupação artística Praça Kantuta Expandida fica até 4 de agosto na Vila Itororó, promovendo aproximação cultural do público com uma das maiores comunidades migrantes em São Paulo
Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)
A feira que toma a Praça Kantuta aos domingos na região do Pari, em São Paulo, é símbolo da comunidade boliviana na capital, com atrações musicais, gastronômicas e artesanais. E até o dia 4 de agosto a essência dessa feira será levada até o bairro da Bela Vista, tomando uma das casas da Vila Itororó com o projeto Praça Kantuta Expandida. Com visitação gratuita, o projeto consiste em uma ocupação artística que visa contribuir com a visibilidade da população boliviana na cidade, promovendo reflexões por meio de atividades interativas e exposições.
Foi pensando nos bolivianos que vivem em São Paulo e na pouca aproximação da cultura dessa parcela da população, que o professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), Sérgio Régis Martins, se uniu à jornalista e pesquisadora Adriana Marcolini para idealizar e promover a instalação que teve início no último sábado (14), contando mais sobre o que é a Bolívia e as formas como eles vêm sendo retratados na imprensa escrita.
Varal na ocupação cultural Praça Kantuta Expandida traz notícias veiculadas na imprensa sobre os bolivianos. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo
Um dos pontos da ocupação é justamente um clipping dessas narrativas. Reportagens são apresentadas ao longo de dois varais que cortam a casa ocupada, trazendo contrapontos das abordagens na mídia – inclusive com trabalhos realizados pelos bolivianos na capital paulista. “A grande maioria dos paulistanos não sabe nada, então esse panorama que a gente fez, chamado ‘painel da mídia’, mostra várias reportagens (…), é interessante fazer”, ressalta o professor Sérgio sobre a compilação das matérias.
Dados da SPTuris apontam que São Paulo tem pelo menos 60 mil bolivianos vivendo em situação regular, fazendo dela a segunda maior nacionalidade migrante na cidade – atrás apenas dos portugueses. Dados extraoficiais, no entanto, que englobam também pessoas ainda sem documentação, mostram cifras bem maiores.
Sementes para a diversidade
Como pontapé inicial da programação, na tarde do sábado (14), a boliviana e fundadora da Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas, Jobana Moya, e a brasileira bacharelada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Carla Daniele, narraram histórias infantis dos dois povos para as crianças presentes no evento. Uma degustação de alfajores e das famosas salteñas bolivianas encerrou as atividades do primeiro dia.
Contação de histórias do Brasil e da Bolívia para crianças foi uma das atrações do primeiro dia da ocupação Praça Kantuta Expandida. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo
Jobana levou uma lenda e um conto tradicional da Bolívia para partilhar com as crianças, dando continuidade à prática cultural que herdou de seus pais e avós. E ficou feliz com a resultado, ao notar a grande atenção com a qual as histórias eram acompanahdas.
“Durante a contação de histórias foi lindo ver as crianças curiosas e atentas durante a atividade e também aos objetos que tinha levado (instrumentos musicais, enfeites, tecidos). Senti que consegui deixar uma semente neles de abertura para a diversidade cultural e isso é muito gratificante, porque acredito que também ajuda na formação de pessoas solidárias, com uma visão ampla de mundo e que valorizam a diversidade neles e nos outros”.
Já Carla Daniele teve sua primeira experiência como contadora de histórias. Assim como Jobana, ela elogiou o evento e vê os pequenos como sementinhas que podem ser regadas com informação e distribuir o conhecimento entre pais, avós e tios.
Para Carla (d) e Jobana (e), evento deixa uma semente de diversidade a ser cultivada junto às crianças. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo
“Além de concordar que os brasileiros devem saber e entender mais sobre a vida dos imigrantes que aqui chegam, é um meio de também deixar as crianças imigrantes mais confortáveis ao ouvir histórias sobre a sua cultura de origem. Acho que mais trabalhos como estes devem ser feitos”.
Oscilando entre o crítico e o poético, as atividades que serão realizadas aos sábados abrem espaço para o aprendizado dos costumes do país homenageado e contribuem com a integração das duas nações. Uma experiência que terá continuidade em ações como a projeção fotográfica da comunidade boliviana de São Paulo, do sociólogo e fotojornalista Eduardo Schwartzberg; com o quebra-cabeça que brinca com a sonoridade das palavras das línguas oficiais dos dois países; e apreciando a apresentação musical das Lakitas Sinchi Warmis, grupo formado por mulheres migrantes de diferentes origens e brasileiras filhas de migrantes (veja a programação ao final do texto).
Bonecos que simbolizam o deus Ekeko e outros em trajes andinos servem de cenário para a ocupação cultural dedicada à Bolívia. Crédito: Amanda Louise/MigraMundo
Vila Cultural
Construída em meados dos anos 1920, a Vila Itororó serviu como moradia por longos anos. Abandonada e em processo de deterioração, desde os anos 70 a implementação de um centro cultural no local vinha sendo debatida por conta das pessoas que viviam ali. Foi desapropriada para fins culturais, hoje é reconhecida como patrimônio histórico e de utilidade pública e passa por um processo de reparos por intermédio da Lei Rouanet.
A casa 8 foi reformada pelo projeto Goethe na Vila, parceria firmada entre a prefeitura de São Paulo e o Instituto Goethe, e agora é espaço para atividades culturais.A ocupação Praça Kantuta Expandida acontece no âmbito desse projeto.
Adriana Marcolini frisa que as visitas às quintas, sextas e sábados são guiadas por um funcionário da Secretaria Municipal de Cultura. O tour se encerra na casa 8, onde os visitantes podem aproveitar para bater um papo com os idealizadores da ocupação.
A mostra sobre a Kantuta não é o primeiro evento relacionado com uma comunidade migrante a acontecer na Vila Itororó. Em 2016, o local serviu de cenário para a peça Cidade Vodu, que contava a saga dos haitianos no país natal e sua migração para o Brasil.
Programação
14 de julho
15h-17h – Contando histórias infantis
Narração de histórias infantis para crianças do Brasil e da Bolívia pelas contadoras de histórias Jobana Moya (Bolívia) e Carla Daniele (Brasil). Serão narradas duas histórias bolivianas e duas brasileiras. Um lanche brasileiro-boliviano será servido para as crianças após o evento.
21 de julho
10h-13h – Oficina: Introdução ao recorte a laser e impressão 3D
Oficina introdutória ao recorte a laser e impressão 3D, a ser ministrada por Igor Vac, responsável pelo FabLab da Vila Itororó. A Kantuta, flor do altiplano que representa a Bolívia, será utilizada nas amostragens técnicas.
Para esta oficina será necessário fazer inscrição prévia (máximo de 15 participantes). Interessados devem enviar e-mail para fablab.itororó@itsbrasil.org.br
15h-16h –Passeio fotográfico pela comunidade boliviana de São Paulo
O sociólogo e fotojornalista Eduardo Schwartzberg fará uma projeção comentada de seu trabalho fotográfico sobre a comunidade boliviana de São Paulo, fruto de pesquisa de mestrado concluída na USP Leste.
16h-17h – Quebra-cabeça de palavras
O quebra-cabeça linguístico começará com a redação, em uma lousa fixada em um tripé, de uma lista de palavras aimarás, quéchuas e espanholas – os três principais idiomas da Bolívia – e da língua portuguesa. Os participantes receberão folhas de papel sulfite e caneta esferográfica. Serão convidados a escreverem as palavras que mais gostarem e a sugerir novas. Em seguida, vão passar adiante sua própria lista. Ao final, dois deles lerão as listas na frente de todos. Um dos autores do projeto escreverá na lousa as palavras escolhidas, com seus respectivos significados.
4 de agosto
15h30-17h30 – Lakitas Sinchi Warmis
A ocupação será encerrada com uma apresentação do Lakitas Sinchi Warmis, grupo musical andino formado por mulheres imigrantes e filhas de imigrantes. Em seguida serão servidos quitutes bolivianos.
Serviço:
Ocupação Cultural Praça Kantuta Expandida
Data: de 14 de julho a 4 de agosto (vide horários na programação) Local: Vila Itororó – Rua Pedroso, 238 – Bela Vista, São Paulo (próxima ao metrô São Joaquim)
Entrada: gratuita Recomendações: chegar 10 minutos antes do evento e uso de sapato fechado
Ficha técnica
Concepção e coordenação: Sérgio Régis Martins
Concepção e assistência de produção: Adriana Marcolini
Narração de histórias infantis (Bolívia): Jobana Moya
Narração de histórias infantis (Brasil): Carla Daniele de Oliveira
Coordenadora e responsável pelo grupo musical Lakitas Sinchi Warmis: Mariela Loreto Pizarro Sippa
Projeção comentada de fotos: Ismael Eduardo Schwartzberg Arteaga
Mutirão promovido pela Prefeitura de Boa Vista mapeia venezuelanos que vivem na cidade.
Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo
Ao ouvir relatos de venezuelanos que estão em Roraima, é comum escutar casos de exploração laboral aos quais são submetidos
Por Debora Draghi
Em Boa Vista (RR)
Mais de 2 milhões de pessoas decidiram fugir da Venezuela devido às consequências da crise política e econômica, principalmente relacionadas à falta de alimentos e remédios, segundo a OIM (Organização Internacional para as Migrações). Em Roraima, Estado que faz fronteira com a Venezuela e é por onde chegam a maioria dos venezuelanos no Brasil, as dificuldades são evidentes.
Com pouco mais de 300 mil habitantes, Roraima tem oportunidades de trabalho limitadas, o que dificulta a plena integração dos imigrantes venezuelanos. Na capital, Boa Vista, levantamento da prefeitura identificou 25 mil venezuelanos, o que corresponde a 7% do total de habitantes da cidade. Visto que a primeira acolhida tem sido priorizada – de modo que não falte alimentos, atendimento médico e abrigo – , a integração tem sido deixada para um segundo plano, já que ainda faltam vagas para crianças nas escolas e também vagas de emprego. O mercado de trabalho no estado é incapaz de lidar com a quantidade de migrantes, levando a uma severa exploração do trabalho. Os migrantes menos qualificados competem diretamente com os brasileiros, levando ao preconceito e à xenofobia.
Ganhando o mínimo para sobreviver, os venezuelanos querem trabalhar e saem em busca de emprego. Com um mercado repleto e pouca absorção, a situação se complica. Ao ouvir relatos de venezuelanos, é comum escutar casos de exploração laboral, como mulheres que ganham R$ 15 ou R$ 20 por trabalharem 12 horas como diaristas, ou no máximo R$ 50 depois de fazerem uma faxina completa. Ou o caso de vários homens que fazem uma diária como pedreiro, carpinteiro e ganham em média R$ 60, tendo ainda o almoço descontado, geralmente 10 reais. Além disso, o transporte até o local de trabalho nunca é pago pelo patrão, e no caso de trabalho em obras, as condições são inseguras e insalubres. Por conta desse mercado de trabalho incapaz de assimilar a quantidade de pessoas que chegam e que ali estão, muitos querem ser interiorizados, principalmente se tiverem trabalho (clique aqui para entender sobre o processo de interiorização).
Mutirão promovido pela Prefeitura de Boa Vista mapeia venezuelanos que vivem na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo
Desse modo, com poucas oportunidades de trabalho, muitas pessoas, especialmente mulheres, estão se prostituindo a qualquer hora do dia para sobreviver – algo conhecido em inglês como survival sex, ou seja, quando a pessoa se prostitui por razão de extrema necessidade. Há alguns meses atrás, o preço cobrado girava em torno de R$ 80, porém com o aumento de pessoas realizando o trabalho, agora pode-se encontrar por R$ 30. É sabido que uma ocupação assim só oferece riscos à quem a realiza, porém é o único meio encontrado por dezenas de pessoas que não encontram outra saída.
É corriqueiro ver pessoas que tem décadas de experiência, graduados, altamente qualificados, realizando trabalhos que exigem pouco expertise e claramente desperdiçando um potencial que poderia ser melhor aproveitado pelo Brasil. Como é o caso de Javier*, que é engenheiro de manutenção industrial, e na Venezuela trabalhava como chefe de departamento de infraestrutura. No Brasil desde abril de 2018, Javier encontrou um trabalho informal em um lava-car, onde ganha em média 25 reais por dia, trabalhando cerca de 11 horas. De acordo com ele, não há descanso, nem dia livre, e como todos os outros venezuelanos, ele ganha metade do que um brasileiro ganharia, realizando o mesmo trabalho. No entanto, Javier precisa ainda sustentar a família que ficou na Venezuela, e devido ao pouco dinheiro que ganha, às vezes se vê obrigado a pedir dinheiro na rua para garantir o sustento do mês. O caso de Javier ilustra elucida bem o que Haas, Castles e Miller falam: muitos refugiados trazem qualificações, embora nem sempre seja permitido que as utilizem (p.272).
Além disso, o Brasil é carente de mão de obra qualificada em alguns setores, e se houvesse um programa focado em aproveitar essas habilidades, haveria um ganho duplo: para os refugiados, que seriam reintegrados ao mercado formal de trabalho e consequentemente à sociedade, pois conviveriam com brasileiros e aprenderiam português de forma mais fácil, como para o Brasil, que enriqueceria por trazer trabalhadores de outra cultura e por produzirem riqueza ao país.
Apesar disso, ainda que o Brasil esteja aberto a receber esse fluxo de venezuelanos, ainda não está preparado e não sabe como lidar e nem se beneficiar de uma mão de obra qualificada, que só agregaria ao mercado de trabalho brasileiro. Sabe-se que garantir assistência de primeira acolhida, como alimento e abrigo, é essencial para assegurar a saúde e o mínimo necessário. Porém, num segundo momento, é preciso recolocar os refugiados no mercado de trabalho formal, para que possam tem uma vida digna, garantindo assim os próprios meios de subsistência e se reintegrando à sociedade de maneira sustentável.
Barracas no abrigo Jardim Floresta, em Boa Vista, um dos locais criados para alojar os venezuelanos na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo
Para aqueles que possuem pouca qualificação, poderia se pensar em capacitação profissional desses indivíduos, bem como uma facilitação de ingresso no ensino superior ou um ensino técnico profissionalizante, como uma forma de aproveitar esses recursos humanos e fomentar uma integração sustentável, criando um ambiente favorável, onde as pessoas possam se desenvolver e voltar a ter uma vida digna, com seus direitos garantidos e segurança alimentar, algo perdido desde que a situação precária se instaurou na Venezuela e trouxe incerteza aos seus milhões de cidadãos.
Stephen Castles, Hein De Haas and Mark J. Miller, The age of migration: International Population Movements in the Modern World. (New York: Palgrave Macmillan, 2014).