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segunda-feira, junho 29, 2026
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Milhares vão às ruas em 700 cidades nos EUA contra a política migratória de Trump

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Protesto em Raleigh (EUA) contra a política migratória de Donald Trump. Crédito: Patrícia Martuscelli/MigraMundo

Os protestos do dia 30 de junho de 2018 mostram que muitos americanos não concordam com Trump e sua política migratória

Por Patrícia Nabuco Martuscelli
Em Raleigh (Carolina do Norte, EUA)

Uma coisa é a política conduzida pelos governos; outra coisa é a reação de uma sociedade a essas políticas. Foi o que mostraram centenas de milhares de cidadãos nos Estados Unidos no último sábado (30/06), em protesto contra as políticas de “tolerância zero” em relação às migrações conduzidas pelo republicano Donald Trump desde que chegou à Casa Branca, em janeiro de 2017.

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Cerca de 700 cidades registraram atos – intitulados “Families Belong Together” – contra a separação de famílias de imigrantes e o envio delas para centros de detenção. Os manifestantes pediam também o fim da política de tolerância zero da administração Trump.

Alguns dos maiores protestos ocorreram nas maiores cidades do país. Na capital, Washington D.C., foram 35 mil pessoas que marcharam sob um calor de 35 graus em apoio aos imigrantes – além de 60 mil em Nova York e 90 mil em Los Angeles.

Protesto em Raleigh (EUA) contra a política migratória de Donald Trump.
Crédito: Patrícia Martuscelli/MigraMundo

Um olhar sobre Raleigh

Os protestos também se espalharam por cidades de pequeno e médio porte no país. O MigraMundo acompanhou a manifestação que aconteceu nas ruas de Raleigh, que tem cerca de 460 mil habitantes e é a capital do Estado da Carolina do Norte.

A presença de famílias, mulheres, crianças era notada durante toda a marcha, apesar da temperatura já superar os 30 graus na manhã de sábado. Americanos brancos, negros e imigrantes de diferentes origens fizeram cartazes, bonecos com a cabeça do Trump e diferentes manifestações artísticas para mostrar sua indignação.

Com forte presença de famílias, protesto contra a política migratória de Trump recebeu milhares de pessoas em Raleigh (EUA)
Crédito: Patricia Martuscelli/MigraMundo

A marcha aconteceu no centro da cidade começando na City Plaza. Por fim, um palco montado no final da marcha trouxe depoimentos de imigrantes separados de suas famílias e discursos de ativistas da causa migratória.

Diversas pessoas traziam camisetas com os dizeres “Eu me importo e você?” (I care. Do u?) – uma resposta ao fato de a atual primeira-dama do país, Melania Trump, ter utilizado um casaco com os dizeres “Eu realmente não me importo e você?” (I really don’t care. Do U?) ao visitar crianças separadas de suas famílias.

Cartazes expressam rejeição de ao menos parte da sociedade dos EUA às políticas migratórias de Trump.
Crédito: Patricia Martuscelli/MigraMundo

Um varal com roupas de bebês trazia dizeres como “famílias devem ficar juntas, acabem com a separação de famílias”. Uma mãe e sua filha usavam camisetas combinando dizendo: “Mantenham as famílias juntas e eu não vou ao banheiro sem a minha mãe”. Em muitos cartazes, era possível ver versículos bíblicos que mostravam que receber imigrantes era a coisa cristã a fazer. Vários movimentos religiosos participaram da marcha de diferentes dominações incluindo protestantes e judeus.

Outros cartazes pediam o fim do ICE (Immigration Costums Enforcement), autoridade responsável por deportar imigrantes no país. Muitos eram destinados ao Trump pedindo sua deportação ou prisão. Um dizia que o racismo não pode ser escondido por políticas nacionalistas. Na mesma linha, outro dizia “apoio aos imigrantes, deportação aos racistas”. Um outro dizia que preferia um vizinho imigrante do que um racista.

Milhares de pessoas foram às ruas em Raleigh em apoio aos imigrantes.
Crédito: Patrícia Martuscelli/MigraMundo

Movimentos de mães apareceram em peso para apoiar famílias imigrantes. Outros manifestantes usavam botons que pediam para “tornar a América boa” (Make America Kind). Várias pessoas traziam mensagens que discutiam o papel dos EUA nisso tudo, com dizeres como “Nós somos melhores do que isso” ou “Onde foi que a América errou?”

Eleições a caminho

Apesar de não-partidário, havia uma preocupação grande em registrar eleitores e chamar atenção para a importância do voto. Isso está diretamente relacionado com as eleições para o legislativo que acontecem no segundo semestre desse ano (midterm elections).

Protesto em Raleigh (EUA) contra a política migratória de Donald Trump.
Crédito: Patrícia Martuscelli/MigraMundo

Os manifestantes, em suas faixas, também reconheciam a importância do voto com mensagens como “Eu me importo, Eu voto” ou “Trump, não vamos nos esquecer na hora das eleições”. Por fim, vários cartazes pediam pelo fim da separação das famílias e afirmavam que imigrantes eram bem-vindos e que direitos dos imigrantes são direitos humanos.

Sábado de manhã foi um bonito momento de esperança para aqueles que acreditam que a imigração é o que fortalece as sociedades e defendem o fim de políticas migratórias desumanas. Para aqueles que vivem em um país onde o atual presidente chama imigrantes de animais, estupradores e criminosos, os protestos do dia 30 de junho de 2018 mostram que muitos americanos não concordam com Trump e que os EUA podem ser melhor do que isso. A mensagem final para o país é: há esperança, América.

Cartaz lembra a origem migrante de grande parte da população dos EUA.
Crédito: Patricia Martuscelli/MigraMundo

Em números e gráficos, veja raio-X dos venezuelanos em Boa Vista

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Infográfico produzido pelo MigraMundo resume as principais informações geradas a partir do cadastramento realizado pela Prefeitura de Boa Vista

Por Nayra Wladimila
Em Boa Vista (RR)

Quantos venezuelanos estão em Boa Vista atualmente? Quantos utilizam os serviços públicos e de que forma? Qual o perfil médio dessa população?

No mês de junho, a Prefeitura de Boa Vista promoveu um mutirão de cadastramento de venezuelanos com o objetivo de entender essa parcela da população na capital roraimense.

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Ao contrário dos 40 mil estimados na cidade – o que corresponderia a cerca de 10% da população local – o mapeamento identificou 25 mil venezuelanos, o que corresponde a 7% do total de habitantes. Veja esses e outros dados no infográfico abaixo:

Novo acordo migratório “tira o sono” da UE, mas preocupa organizações

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Após nove horas de reunião noite adentro em Bruxelas, os 28 líderes do bloco se mostram “solidários” à Itália, propondo centros de seleção e plataforma de desembarque fora da Europa

Por Victória Brotto
Estrasburgo, França.

Após nove horas de negociação, a União Europeia, reunida com 28 líderes do bloco em Bruxelas, na Bélgica, fechou um novo acordo sobre a questão migratória. A proposta, colocada na mesa pelo Conselho, prevê centros para seleção de migrantes e plataformas de desembarque fora do continente europeu.

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Desde 2014, com a acentuação de conflitos no Oriente Médio, com o desenrolar da Primavera Árabe e com as crises humanitárias de fome e de extremistas islâmicos no Norte da África, tem aumentado o fluxo de migrantes para a Europa. Em 2017, 60 mil migrantes chegaram ao continente fugindo de seus países, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

“Não soubemos dar uma resposta adequada à migração, um fenômeno extremamente humano e secular”, afirmou Catherine Warhol, ex-conselheira da Agência da ONU para Refugiados e presidente do Centro de Pesquisa de Migrações do Instituto de Ciências Políticas de Paris. “O saldo da política migratória europeia? 30 mil mortos no Mar Mediterrâneo”, acrescentou.

Bandeira da UE em Berlim, Alemanha.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

A reunião, que começou na quinta-feira, terminou só às 4h30 da manhã dessa sexta-feira, 29. O jornal francês “Le Monde” enfatizou, em notícia publicada na sua edição de hoje, que a União Europeia precisou adentrar a madrugada para chegar a um acordo sobre a questão migratória. “Reunidos até às 4h30 da manhã em Bruxelas, os 28 líderes da União Europeia se debruçaram sobre o dossiê migratório.”

Na nova proposta do bloco, estariam o que se chamou de “centros de seleção”. Neles, haveria uma espécie de triagem entre as pessoas que podem receber asilo e as que não podem e que devem, portanto, retornar para seus países.
Os líderes também acordaram com a criação de uma plataforma que seria construída para desembarcar os migrantes dos botes. Com a plataforma de desembarque, segundo o Conselho Europeu, as perigosas travessias do Mediterrâneo seriam evitadas e lá se faria já a triagem dos migrantes, “respeitando plenamente o direito internacional.” As estruturas seriam instaladas em regiões como o norte de África. Na quinta-feira mesmo, o Marrocos rejeitou receber tais plataformas.

A polêmica com o Aquarius

Tal ponto vem como resposta à Itália, que se mostrava descontente com o maior fluxo de migrantes em seu país e que se via “abandonada e amarrada”, segundo seu ministro do Interior, pelo acordo de Dublin. Tal acordo confere a responsabilidade de acolhimento ao país de chegada.

“A Itália não vai virar um campo de refugiados”, afirmou Matteo Salvini, ministro do Interior italiano, de extrema direita, horas após negar o acesso de um barco de resgate com 629 migrantes, entre mulheres e crianças, prestes a desembarcar na Sicília. O presidente francês, Emmanuel Macron, criticou a decisão, chamando-a de “irresponsável”. Salvini então rebateu: “Hipócrita”. Semanas depois, a Itália recusaria mais um barco, o Lifeline. Instaurava-se, portanto, uma crise diplomática entre Roma e Paris – crise esta abafada hoje, pela manhã, por Macron. “A cooperação europeia existe e tem muito a nos ensinar. A solidariedade que nós devemos aos primeiros países de entrada é vista nesse acordo”, afirmou Macron, em um ato de acenar a bandeira branca à Itália.

Migrantes resgatados pelo barco Aquarius.
Crédito: Karpov/S.O.S. Mediterranee

Mas para a ex-consultora da Agência da ONU para Refugiados, a solidariedade que não é mostrada hoje na Europa é justamente em relação ao refugiado. “Vivemos uma crise hoje na Europa, e ela não é diplomática, mas de valores”, afirmou Catherine Wahol, também presidente do Centro de Pesquisas Migratórias do Instituto de Ciências Políticas de Paris. Ao MigraMundo, durante seminário em Estrasburgo, na última semana, ela disse: “Estamos hoje colocando a nossa solidariedade em cheque. Penso que o bloco deve repensar toda a sua política migratória.”

Proteção de fronteiras

A chanceler alemã, Angela Merkel, já havia sinalizado, semana passada, que endurecia as leis de pedidos de asilo e que enfrentaria a questão como uma questão de segurança. “Enviaremos mais reforços financeiros à Frontex para as operações nas fronteiras”, disse Merkel, em encontro com Macron. O francês também já havia sinalizado para o que seria um centro de seleção.

Na noite de ontem, o presidente italiano postou em sua conta no Twitter: “A Itália não está mais sozinha”. Em entrevista publicada no jornal “Libero”, o ministro do Interior Salvini disse que “na Europa, se você não levanta a voz, você não é ouvido”, se referindo às pressões italianas para um novo acordo que desafogaria seu território na questão migratória.

Angela Merkel, após o encontro, afirmou à agência de notícias ‘France Presse que estava “satisfeita” com o acordo, mas consciente da quantidade de trabalho que há para ser feito daqui para frente.

Charge compara o ato de Mamadou em Paris com o de milhares de outros migrantes como ele, ao tentar chegar à União Europeia.
Crédito: Reprodução

Por que devemos refletir sobre a existência de um perfil de migrante desejado?

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Mesmo no Brasil, país entendido no imaginário social como acolhedor, quem migra ou se encontra em uma situação de refúgio é visto como o outro. E por trás disso residem representações que o marcam

Por Samira Frazão
Em Florianópolis (SC)

Os recentes acontecimentos envolvendo fluxos migratórios, seja na Europa e, mais recentemente, nos Estados Unidos, suscitam o debate em torno da existência, mesmo que indireta, de um perfil de migrante desejado. Por mais incompreensível que possa parecer, quais características são consideradas por governos para inserção e integração de pessoas que estão em mobilidade?

Não é de hoje que a questão é discutida por pesquisadores, a citar Lená Medeiros de Menezes e Giralda Seyferth. E continua relevante, uma vez que ainda na contemporaneidade ocorrem situações que envolvem o não acolhimento daqueles que outorgam um direito intrínseco a essência humana: a mobilidade.

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A existência de políticas migratórias discriminatórias e a aplicação de conceitos subjetivos para a aceitação de um migrante em determinada região são uma barreira. Mesmo no Brasil, país entendido no imaginário social como acolhedor, quem migra ou se encontra em uma situação de refúgio é visto como o outro. E por trás disso residem representações que o marcam, seja como vítima do Estado e de situações discriminatórias, alguém que só é visibilizado quando realiza ações consideradas heroicas, ou aquele que está a margem, propenso a práticas ilícitas.

Reprodução do vídeo no qual o malinês Mamadou Gassama salva criança pendurada em prédio em Paris.
Crédito: Reprodução

Quando são atribuídas à população migrante uma suspeita, em razão da incidência de possíveis doenças e práticas consideradas ilegais sob o ponto de vista da Justiça, deixa em cada um deles uma marca indelével. O rótulo de ser migrante pode ser, em determinados casos, um fardo de difícil convivência. Por exemplo, representantes da comunidade muçulmana, sob os quais recaem discursiva e midiaticamente representações ligadas ao “terrorismo”: a mesma suspeita e semântica acionadas não ocorrem quando o acontecimento envolve pessoas de outras nacionalidades e/ou de diferentes práticas ideológicas e religiosas. A citar o caso registrado na Noruega em julho de 2011, quando um atirador branco de origem europeia matou 69 pessoas. Discursivamente, ele foi considerado um “extremista” e “ultradireitista”, não um “terrorista”.

Ainda que haja um contradiscurso promovido, principalmente, por membros de organizações da sociedade civil, destacando a necessidade de refletir sobre o que é migrar e, em âmbito midiático, sobre os cuidados com o uso de palavras e representações estereotipadas, usos de termos como “ilegal” ainda são recorrentes. Ao atribuir tal denominação ao migrante, automaticamente recai sobre ele uma suspeita negativa.

#WordsMatter: Campanha da PICUM pede o fim do uso do termo “ilegal” em relação às migrações. Na imagem, é possível ver até o pedido em português da campanha.
Crédito: PICUM

E como essas questões se relacionam com a ideia inicial deste artigo? Ao analisar discursos midiáticos ou os que são reverberados na sociedade de longa data, determinados grupos formados por pessoas em mobilidade não se tornam tão suspeitos quanto outros. Pesquisadores como Vilna Bashi e Antonio McDaniel (1997) advogam da ideia que a questão está ligada a sistemas raciais, cujo objetivo é classificar os seres humanos e estabelecer políticas migratórias que privilegiam determinados perfis sociais. Essa classificação se baseia na cor e no fenótipo, e em como o migrante pode vir a se ajustar a um perfil considerado ideal.

Esses sistemas raciais impactam diretamente em como uma pessoa será inserida e integrada no lugar para onde migrou. Para Bashi e McDaniel (1997), a estratificação racial também vai manter, consequentemente, uma hierarquia social. Ou seja, a cor e o fenótipo se tornam marcadores da diferença em relação a quem é encarado como o outro, e irá influenciar práticas sociais para com ele.

Por exemplo, no caso do Brasil, durante as políticas migratórias vigentes entre os séculos XIX e XX, o migrante branco originário de países do Norte Global (SANTOS & MENESES, 2009) era considerado livre e industrioso e, por este motivo, apto para a colonização de terras e para a composição de uma sociedade brasileira idealizada. Além da cor, outros aspectos dessas pessoas eram valorizados, como a cultura, o conhecimento da agricultura e, esteticamente, o fenótipo.

Escultura no Museu da Imigração, em São Paulo. Migrar é um direito humano, que precisa ser reconhecido como tal, não importa a origem, crença ou motivo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – out.2014

Esse foi um dos pontos de análise da minha tese, intitulada “A suspeita que marca: o pânico moral na representação jornalística de imigrantes negros no Brasil contemporâneo (2000-2014)”. A partir da análise de reportagens sobre o considerado primeiro caso de suspeita de Ebola no Brasil, em outubro de 2014, associada a entrevistas realizadas com jornalistas e migrantes que aqui vivem desde os anos 2000, notei que discursivamente é comum encontrar no discurso midiático representações que associam o migrante negro à África e, nesse contexto, como potenciais portadores de doenças, como o Ebola. Também foi observado um desconhecimento sobre a África, quando representada no discurso midiático, e sua ligação com o Brasil. Esses equívocos promovem pânicos morais que, por sua vez, são relacionados a práticas sociais de caráter discriminatório, xenofóbico e racista contra essa parcela de migrantes.

Tanto no primeiro caso de suspeita de Ebola como em outros acontecimentos envolvendo pessoas em mobilidade que estejam sob alguma suspeita, dificilmente é possível perceber as histórias pregressas delas, o que eram e o que são. E o que isso implica? A ausência do protagonismo migrante nos discursos pode contribuir na promoção de um pânico moral na sociedade contra eles. O acontecimento em questão evidenciou a persistência de uma hierarquização racial no Brasil, mas que também está presente em outros lugares ao redor do mundo. E essa hierarquia igualmente jaz no imaginário social. Ainda que no senso comum tal questão não seja uma novidade, precisa ser refletida não apenas pela comunidade acadêmica, mas por todos.

* Samira Moratti Frazão é jornalista, doutora em História (PPGH/UDESC) especializada em mídia, migrações e questões raciais, e integrante do Observatório das Migrações de Santa Catarina.

“Delitos de solidariedade”: veja países que criminalizam a ajuda a migrantes

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Acampamentos improvisados além da cerca de arame farpado, vistos do lado húngaro da fronteira com a Sérvia. (Foto: Bruna Kadletz - out.2016)

“Encorajar” um estrangeiro sem documentação pode render punições que vão de multa a prisão, dependendo do país

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)
Atualizado às 15h00 em 12/07/18

A Hungria causou polêmica ao aprovar, no último dia 20 (em pleno Dia Mundial do Refugiado), uma lei que penaliza com até um ano de prisão quem ajudar um imigrante sem documentação. “Ajuda” entende-se por dar informações sobre pedido de asilo, comida ou hospedagem.

Mas a Hungria não está sozinha nesse clube. Outros países, como França, Espanha, Estados Unidos e Niger – país africano localizado em uma intensa zona de trânsito de pessoas na região do Saara –  também criminalizam de forma institucional a ajuda a imigrantes.

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Transportar, alojar, empregar ou “encorajar” um imigrante sem documentação ocasiona em multas que equivalem a milhares de reais e até em prisão, dependendo do país. Veja como é em cada um deles:

Hungria

A lei aprovada pelo Parlamento húngaro, dominado pelo partido nacionalista e eurofóbico Fidesz, do premiê Viktor Orbán, prevê penas de até um ano de prisão para indivíduos e grupos que ajudarem imigrantes irregulares – inclusive se o auxílio for para assessorá-los e informá-los sobre como pedir asilo. O rechaço às migrações, inclusive, é uma das bandeiras do governo húngaro.

Acampamentos improvisados além da cerca de arame farpado, vistos do lado húngaro da fronteira com a Sérvia.
Crédito: Bruna Kadletz – out.2016

A nova norma foi apelidada de “Lei Stop Soros“, em referência ao magnata e filantropo húngaro George Soros, considerado uma espécie de inimigo número um do governo Orbán, reeleito em abril para um terceiro mandato como primeiro-ministro. Soros é financiador de ações de promoção aos direitos humanos mundo afora, por meio da Open Society Foundation, além de uma universidade na capital húngara, Budapeste, que criticou as medidas do governo.

Apesar de protestos da comunidade internacional, o governo Orbán aproveita o embalo das urnas para ir além. Foi aprovada recentemente uma reforma da Constituição para incluir um artigo que explicite a proibição de reassentar “população estrangeira” na Hungria (com exceção de europeus) e declare que a composição da população do país “não pode ser modificada mediante vontade externa”.

Em 2015, a Hungria foi destaque no noticiário internacional como rota de passagem de migrantes e refugiados que chegavam à Europa por meio da chamada “Rota Balcânica“, com destino a países como Alemanha e Suécia.

França

Na França, a chamada “Lei sobre ajuda à entrada ou à permanência irregular”, datada de 2008, prevê penas de cinco anos de prisão e de multas de até 30 mil euros (quase R$ 150 mil) para quem “facilitar, direta ou indiretamente a entrada, circulação ou a permanência irregular de um migrante” (artigo L.622-1 da norma). Tal crime já é chamado pela imprensa e no mundo jurídico ironicamente de “delito da solidariedade”.

Ainda de acordo com a lei, a pessoa que cometer tal “delito de solidariedade” pode perder a carteira de habilitação por cinco anos, ser impedido de trabalhar por um período de cinco anos ou mais e perder o “elemento que utilizou para cometer tal delito” – como, por exemplo, um carro.

Solicitantes de refúgio e outros migrantes fazem fila para distribuição de comida, cobertores e roupas em Calais (França).
Crédito: HRW – ago.2017

Mas esses pontos começaram a ser rediscutidos no Conselho Constitucional na última segunda-feira (25). Isso porque o advogado Patrice Spinosi apelou à corte máxima da França colocando em questão a constitucionalidade de tal normativa, diante do “princípio de fraternidade que faz parte dos princípios do Estado francês”.

Spinosi faz parte do grupo de advogados de Cédric Herrou, de 37 anos, e Pierre-Alain Mannoni, ambos condenados em 2017 a cinco anos de prisão por ajudar estrangeiros. Herrou, habitante da pequena cidade de Saint-Dalmas-de-Tende, ficou conhecido por ter ajudado eritreus, etíopes e sudaneses vindos da Itália, os alojando em sua casa e os transportando “para onde queriam ir”.

Já Pierre também foi condenado pela mesma corte de Aix-en-Provence a dois meses de prisão, cabendo recursos, por ter acompanhado três eritreus dentro de uma estação de trem.

“Nós não podemos falar de penalidades quando simplesmente ajudam-se pessoas que estão na extrema dificuldade. Em primeiro lugar, tem-se o princípio de fraternidade ao qual nós chamamos atenção do Conselho Constitucional para que o reconheça”, afirmou o advogado em apelo à corte. “Este princípio faz parte da existência e da cartilha do Estado francês e que deve impedir a condenação dessas pessoas que não fizeram nada além de ajudar seres humanos, sem jamais tirar vantagem”, completou o defensor.

O advogado ainda afirmou que o governo francês deve, sim, prever punições severas para traficantes de pessoas ou qualquer outra pessoa que tire vantagem de estrangeiros em situações difíceis. “Mas, a partir do momento que essa ajuda é desinteressada e humanitária, essas pessoas não devem ser julgadas nem condenadas”, afirmou. “É bem essa diferenciação fundamental que deve ser contemplada pelo Conselho Constitucional”.

No último dia 6 de julho, o Conselho Constitucional da França (instância jurídica máxima do país, como o Supremo Tribunal Federal brasileiro) descriminalizou a ajuda ao estrangeiro em situação irregular no país, instaurando o chamado “princípio de fraternidade”.

Com isso, todas as ações de ajuda em alojar e à circulação do estrangeiro sem documentação com fins humanitários ficam isentadas de processo penal. No entanto, tal isenção não é dada à ajuda à entrada no território francês – nas palavras da Corte, “uma vez que tal ajuda se configura, por princípio, uma situação ilícita”.

Níger

Sob a falsa noção de que a maioria dos africanos que migram possuem a Europa como destino final, organizações europeias de controle de imigração têm injetado dinheiro e ajudado países como o Níger e a Líbia a controlarem suas fronteiras.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), 80% dos africanos que saem de seu país vão para nações vizinhas. E a maioria deles transita na região do deserto do Saara – o que, segundo a entidade, transformou o Níger em “um intenso reduto de fiscalização e prisões”.

Migrantes no norte do Níger, rota de passagem para outros países africanos da região do Saara.
Crédito: ACNUR

É o caso da cidade de Agadez, ao norte do país.  Por ser, segundo especialistas europeus, a região por onde passam a maioria dos migrantes africanos que cruzarão o Mar Mediterrâneo rumo à Europa, a Missão Europeia para a região do Sahel Niger (EUCAP) abriu um escritório na cidade em 2017. E por meio de colaborações como o programa New Migration Partnership Framework  (NMPF), incentiva o governo do Niger a combater o tráfico de pessoas e a controlar o fluxo migratório.

O problema é que com o endurecimento das normas, guias turísticos e qualquer pessoa que transporte mais de 30 pessoas em uma van podem, potencialmente, ser consideradas contrabandistas de pessoas – os chamados “coiotes”.

“Na região de Agadez (na fronteira com a Líbia e com a Argélia) qualquer um que organize viagem com mais de 30 pessoas, como guias turísticos, por exemplo – pode ser acusado, potencialmente, de participar do tráfico de migrantes ilegais, e pode ser preso e sentenciado”, denuncia o antropólogo da Universidade de Paris 1-Sorbonne Julien Brachet, no último dia 20, no portal theconversation.com, portal de estudos do centro de Pesquisas para o Desenvolvimento da Universidade de Sorbonne.

Pela lei do Níger, transportar ou simplesmente acolher em sua casa um estrangeiro – não importa se ele tenha documentos ou não – pode levar a pessoa à prisão por até 30 anos e ser sentenciada a pagar uma multa de até R$ 163.100.

“E você não precisa ser preso “em flagrante” para ser preso e sentenciado. Pessoas que dirigem vans ou caminhonetes podem ser automaticamente consideradas como coiotes.  Eles podem os prender a dezenas de quilômetros de qualquer fronteira, baseados simplesmente na presunção de culpa”, afirma Brachet.

Espanha

Na Espanha, quem ajudar com abrigo, comida e trabalho um imigrante sem documentos também pode pagar caro – as multas equivalem a valores entre R$ 130 mil e 230 mil.

Datada de 2011, a Lei Orgânica sobre Direitos e Liberdades de Estrangeiros prevê multas para o empregador que der trabalho a um estrangeiro sem permissão para trabalhar, além de deportação do trabalhador.

Já se um espanhol se comprometer a se ocupar de um visitante por meio da chamada “carta-convite” (documento que dá ao visitante o direito de permanecer por três meses em solo espanhol) e se tal visitante decidir estender a sua estadia sem visto, o cidadão espanhol será punido com uma multa equivalente a R$ 23 mil.

Na época da aprovação da lei, o diretor-geral da seção espanhola da Anistia Internacional, Esteban Beltrán, se pronunciou em entrevista à BBC Brasil dizendo que a norma “desrespeitava todos os direitos básicos”. “Está escrita de forma a mostrar os imigrantes como seres descartáveis em vez de tratá-los como pessoas que também têm direitos.”

A Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR) também se pronunciou na época, chamando a lei de “vergonhosa” pois estaria “distorcendo o papel da ajuda humanitária”. “Querem nos transformar de um povo solidário (com os imigrantes) em fiscais de imigração, e isso é inaceitável”, afirmou o então secretário-geral da CEAR, Alfredo Abad em comunicado à imprensa.

Estados Unidos

Datada do começo do governo de Donald Trump, a lei SB1070, do Estado do Arizona, criminaliza quem transportar, alojar ou empregar um estrangeiro que não tenha visto de permanência do país em ordem.  As penas podem ir até seis meses de prisão e uma multa equivalente a R$ 7 mil não só a ajuda, mas também o ato de um imigrante com a documentação em dia de ajudar qualquer familiar que esteja em uma situação irregular.  É chamada “Segurança Pública do Interior dos Estados Unidos”, determinada na seção 6.

Bandeira dos EUA em noite de neblina no Empire State Building, em Nova York.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mai.2013

“Tal lei dá um guia e promove regulamentações que irão assegurar o cumprimento de penas e o pagamento de multas para qualquer estrangeiro ilegal nos Estados Unidos e também para aqueles que facilitarem a sua presença nos Estados Unidos”, afirma a Secretaria dos Assuntos Internos, em comentário no texto da lei.

Entretanto, juristas norte-americanos afirmam que o termo “ajuda” não é claramente explicado na lei, dando margem para o que chamam de “política do medo”.

“O governo faz, com isso, um estoque deliberado do medo: como não se sabe direito o que é ajudar um imigrante, a população não o faz e exclui qualquer imigrante, tenha ele documentação ou não”, afirma Kristie de Peña, conselheira de política imigratórias do Niskanen Center, em artigo publicado no site The American Conservative.

“Usemos a palavra “transportar” como exemplo. Certamente se eu colocar um estrangeiro no meu carro e exigir dinheiro para cruzar a fronteira, uma acusação judicial me parece racional. Mas e se eu oferecer uma carona a imigrante até uma clínica médica do outro lado da fronteira?”, questiona Kristie. “Pela jurisprudência, isso seria visto como uma ajuda acidental, mas mudaria todo o cenário se fosse uma carona para o trabalho”.

Sem um euro no bolso, francês vai de Paris a Moscou recolhendo doações para migrantes

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Contando com a solidariedade, Sasha de Laage, 20 anos, conseguiu arrecadar 11 mil euros em doações para resgate de migrantes no Mediterrâneo. “Quero mostrar que ainda existe solidariedade na Europa”

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)
Atualizado em 18/07/18, às 10h18

Sasha de Laage, antigo estudante do Instituto de Ciência Política em Paris, saiu da capital da França no último dia 17  de junho para ir até Moscou para presenciar a Copa do Mundo de Futebol.  Seria uma viagem como qualquer outra, se não fosse o fato de que o rapaz de 20 anos estivesse sem sequer um euro no bolso e quisesse coletar ao longo do caminho 11 mil euros para doar ao navio Aquarius, da ONG S.O.S Mediterrâneo, que resgata migrantes no mar entre a Europa e a África. O montante equivale a um dia de resgates feitos pela embarcação.

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O navio Aquarius ficou conhecido duas semanas antes, quando teve acesso negado aos portos da Itália depois de ter resgatado 629 migrantes no Mediterrâneo.  “Com essa viagem, eu quero mostrar que ainda existe solidariedade na Europa, e que ela ainda é fiel aos seus valores humanistas”, explicou Sasha em entrevista ao MigraMundo.

Sasha de Laage, 20, percorreu milhares de quilômetros pela Europa recolhendo doações para navio de resgate de migrantes no Mediterrâneo.
Crédito: Divulgação

O jovem ainda acrescenta que dinheiro não é algo essencial para a sobrevivência, mas sim a a solidariedade. “Podemos viver com pouco dinheiro, mas viver bem, se nos unirmos. Mas para isso é preciso que a nossa geração se mexa, porque existem causas e problemas demais no mundo que precisam ser solucionados”.

A viagem

Sasha não escolheu seu itinerário. Viajou em função das caronas e dos locais onde podia ficar, onde amigos ou pessoas solidárias o receberiam – claro que sempre com direção à Rússia. “Até agora as pessoas me acolherem muito bem, claro que eu já tive algumas respostas racistas [quando eu conto para alguns que o meu objetivo é ajudar os migrantes]. Mas, no geral, está sendo uma experiência positiva”.

Logo do projeto incentiva solidariedade europeia aos migrantes.
Crédito: Divulgação

A reportagem o contatou em Estrasburgo (França), quando ainda estava no princípio de sua viagem. Por imprevistos, Sasha não conseguiu marcar um encontro presencial. Mas por mensagem, o rapaz contou ao MigraMundo que naquela altura já tinha conseguido arrecadar mais de 6 mil euros para a ONG francesa. “Nós estamos agora com mais de 6 mil euros arrecadados para ajudar no resgate de migrantes e ainda tenho [cerca de] 20 dias para chegar a Moscou”.

E o objetivo foi alcançado. Sasha de Laage conseguiu chegar a tempo da final da Copa, em Moscou, que aconteceu no último dia 15 de julho – e que contou ainda com a vitória da França, para alegria do viajante francês. Ele conversou com o Migra depois de sua chegada e contou que conseguiu arrecadar o dinheiro para os migrantes. “Estou muito contente!”

As doações à viagem de Sasha podiam ser feitas diretamente a ele por aqueles que o encontrarem ou também online por meio deste link. O projeto tem também página no Facebook e no Instagram, chamadas “Get Him to Moscow” (“Leve-o à Moscou”, em português), além de vídeo explicativo no YouTube (que pode ser visto abaixo). “A ideia é que em cima de 1 euro que ganho em hospedagem, comida ou passagem, a pessoa que quer doar doe 10 euros”, explica.

Inspiração

Mas por que doar à ONG, e dessa forma?

“Eu estava viajando pela América Latina para um projeto de audiovisual sobre o desenvolvimento sustentável na região quando me vi sem dinheiro. Eu precisava ir até o aeroporto para pegar um voo para o México. E as pessoas foram tão gentis comigo que eu fiquei impressionado como a solidariedade pode valer muito mais do que o dinheiro”, explica o jovem.

Foi então que ele quis “refazer” essa experiência, mas “em um cenário mais construtivo”. “Fazia um tempo que eu acompanhava o trabalho da ONG S.O.S Mediterrâneo, que me sensibilizou para a causa dos migrantes.”

E como as pessoas ficam sabendo da viagem de Sasha? Ele posta constantemente em grupos e comunidades nas redes sociais. Com isso, ele já conseguiu ajudas significativas, como de um restaurante na cidade de Reims, no centro da França, que lhe ofereceu refeições e de algumas pessoas que o alojaram por algumas noites. “São pessoas desconhecidas que me ofereceram sua solidariedade”. “Um grupo de estudantes me ofereceu uma passagem de ônibus de Viena (Áustria) até Praga (República Tcheca)”.

Além de registrar os passos da viagem e de agradecer pela ajuda recebida, Sasha também usava as redes sociais para falar de resgates de migrantes no Mediterrâneo.

“Obrigada “My Fabulous” pelo jantar! ótimo começo de jornada!”, agradeceu Sasha ao restaurante em Reims que o ajudou.
Crédito: Divulgação

Além da França, por onde começou sua viagem, o estudante passou por Alemanha, Áustria, República Tcheca, Polônia, Letônia e Estônia até chegar à capital russa, seu destino final – sempre contando com a solidariedade de quem encontrou pelo caminho.

Ao que parece, Sasha conseguiu atingir seus objetivos.

Cara do Mundo: Documentário traz narrativas de imigrantes e refugiados em SP

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Imigrantes e refugiados de diferentes nacionalidades estão presentes na população paulistana. Documentário foi atrás dessas pessoas e suas histórias. Crédito: Divulgação

Com a ideia de conhecer o mundo sem sair de São Paulo, jovens produtores descobrem um globo sem fronteiras e humano

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)

Como estamos recebendo os imigrantes e refugiados? É nesse questionamento que o público é convidado a prestigiar o documentário “Cara do Mundo”, produzido por ex-alunos da Escola de Jornalismo – iniciativa da agência Énóis Inteligência Jovem, que traz narrativas de imigrantes e refugiados que vivem na cidade de São Paulo.

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Oito jovens, à época da produção com idade entre 18 e 24 anos, residentes de diferentes cantos da capital paulista, imergiram no cotidiano de oito pessoas de distintas nacionalidades no intuito de conhecer o mundo por meio de imigrantes e refugiados; para entender as dificuldades, expectativas e relações formadas com o Brasil.

Produzido em meados de 2016, os produtores buscaram personagens que retratassem as peças que constroem a metrópole. “No começo procuramos órgãos e instituições que ajudavam refugiados e imigrantes. Mandamos e-mail para saber se essas pessoas poderiam ser a nossa ponte”, explica Evelyn Oliveira, de 25 anos, uma das envolvidas na construção do documentário. Ela enfatiza a burocracia das organizações nas mediações dos contatos, por nem todo imigrante e refugiado querer se pronunciar. “A ponte, na verdade, não estava dando a ajuda que a gente estava precisando. E aí, começamos a ir a campo. Foi nessa que encontramos todos os personagens”, complementa.

Equipe do documentário “Cara do Mundo”, sobre imigrantes e refugiados em São Paulo.
Crédito: Divulgação

Aos poucos, encontraram alguns dos integrantes da cosmópole: sírio, senegalês, boliviano, chinês, haitiano, malinês e japonês. Entre eles, a cantora moçambicana Lenna Bahule. Erradicada no Brasil desde 2012, Lenna expõe em fala no filme que só soube o que era racismo quando chegou no país.

Se para conhecer as multiculturas presentes em São Paulo basta umas voltas por bairros como o Bom Retiro e Liberdade, ou mesmo uma visita em eventos como a Festa do Imigrante, é com o documentário “Cara do Mundo” que se percebe como é ser um imigrante e refugiado na cidade. Da decisão de deixar a terra natal ao choque de costumes e luta pelo espaço para manter as próprias tradições.

A cantora moçambicana Lenna Bahule, radicada no Brasil e uma das personagens do doc. Cara do Mundo.
Crédito: Divulgação

O que era para ser somente uma forma de percorrer o mundo com toda diversidade cultural dentro da capital, os exploradores ganharam mais que um filme excepcionalmente bem construído: o entendimento sobre empatia. Mary Silva, de 22 anos, foi uma delas: “A gente se conheceu e conheceu o outro, ampliando nossa rede e potencial de conhecer e olhar o outro”, aponta.

Para Evelyn Oliveira, o experimento também valeu para construir a crítica da bolha social que não permite o contato com essas pessoas: “a gente vive aqui, temos os nossos amigos e acabamos trocando só com quem está muito próximo e tem coisas em comum. E quem está distante, a gente se fecha e evita ao máximo, acha que essas pessoas não têm nada a acrescentar na nossa vida”.

Pessoas de diferentes partes do mundo vivem em São Paulo. Doc. foi atrás de algumas delas.
Crédito: Divulgação

Foi o modelo de narrativa escolhida para o documentário que intensificou o contato com os imigrantes e refugiados. Saíram de trás das câmeras e passaram a ser protagonistas da própria história desenvolvida.

“Percebi que com a ideia do doc, estava pensando muito em lugar, viajar o mundo e conhecer lugares. Aí a gente começou a falar com as pessoas, vi que não importa aonde você vá, qual parte do globo esteja, são pessoas como eu e você. É como se eu tivesse indo um pouco para a realidade dela, não só o lugar, mas como pessoa”, clarifica Tiago Luan, famoso entre os colegas como Tuiuiú, de 23 anos.

Com a experiência adquirida com o filme, questiona como ele se portaria no lugar do outro, na mesma situação de precisar emigrar para outro país. Ainda ressalta o fato de pessoas viverem em países que estão em guerra: “Devemos parar de pensar nos lugares só como propriedade e olhar mais para o outro como pessoa.”

De acordo com publicação da página oficial do filme, o documentário já foi assistido por mais de 300 pessoas em salas de cinema, inclusive no Circuito Spcine, desde que estreou em abril deste ano.

Na noite do último dia 13 de junho, o malinês Adama Konate foi prestigiar à derradeira exibição do filme antes da divulgação em plataformas de vídeo. Konate mora no Brasil há cinco anos e é um dos personagens que têm a história contada pelo documentário. Ativista, foi membro do Conselho Municipal de Imigrantes (CMI) no biênio de 2017/2018, e hoje palestra sobre a imigração. Aceitou participar do documentário pela importância de ajudar o próximo, principalmente pelo trabalho com os imigrantes. “Gostei de participar do projeto, gosto dessas coisas, não só para mim. A importância de dar as mãos e um ajudar o outro”.

O malinês Adama Konate, um dos personagens do documentário.
Crédito: Divulgação

Independente do motivo que fizeram os imigrantes e refugiados saírem do país de origem, como mostra o documentário, é no Brasil que eles encontram espaço para ser quem são, para tentar melhorar as condições financeiras ou, como declara Konate no filme, “é no Brasil que encontramos paz”.

Especialmente neste mês de junho, onde a temática acerca dos refugiados vem sendo discutida diante dos novos dados do relatório Tendências Globais (Global Trends), os produtores disponibilizaram o filme para fomentar o debate e lembrar o Dia Internacional do Refugiado (20/06) e Dia do Imigrante (25/06).

Imigrantes e refugiados de diferentes nacionalidades estão presentes na população paulistana. Documentário foi atrás dessas pessoas e suas histórias.
Crédito: Divulgação

Documentário: “Cara do Mundo”
Direção: Raphael Erichsen com Carolina Serrano, Agnis Freitas, Ariane Assunção, Evelyn Oliveira, Tiago Luan, Maryane Silva e Vinícius Cordeiro.
Produção: Brasil, 2016.

Polarização ideológica ignora direitos humanos de venezuelanos

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Marco da fronteira Brasil/Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Embate no Brasil entre setores da direita e da esquerda prejudica busca por possíveis soluções

Por Laura Marcondes, Lorena Trevelin e Victoria Ferreira
Em São Paulo (SP)

De acordo com os últimos dados divulgados pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) em abril de 2018, mais de 52 mil venezuelanos chegaram ao Brasil desde o início de 2017, dos quais 25 mil são solicitantes de refúgio. Apesar do grave problema humanitário, a crise se transformou em pauta ideológica no atual contexto brasileiro de grande polarização. Enquanto parte da esquerda brasileira defende o governo de Nicolás Maduro e evita falar sobre os problemas enfrentados pela população daquele país, a direita defende uma política xenófoba e protecionista.

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“O debate sobre as migrações e seu papel nas agendas políticas é bastante importante e saudável, mas me preocupo com esses posicionamentos”, declara o professor da Universidade Federal de Roraima, João Carlos Jarochinski, que é doutor em Ciências Sociais e cuja pesquisa está focada em Migrações Internacionais. A população de Roraima, que era de 332 mil, cresceu 10% em apenas um ano com a chegada de venezuelanos.

Para Jarochinski, a maneira como esse debate vem sendo abordado até agora no Brasil fará com que a migração venezuelana se transforme em mais um argumento retórico e de ataque no período das eleições, entre os candidatos que disputam a Presidência. Um embate que, de acordo com ele, nos faz esquecer da dignidade das pessoas e das potencialidades que a crise representa.

Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia.
Crédito: Boris Heger/ACNUR

Dentre os países que estão recebendo refugiados venezuelanos o Brasil está em sétimo lugar. São números expressivos, especialmente quando se leva em conta a realidade em Roraima, porém, quando se compara a situação com países como a Colômbia, que só no ano passado contabilizou 600 mil imigrantes com entrada por postos oficiais, eles se tornam baixos. Jarochinski afirma que a chegada de venezuelanos ao Brasil é bem menor que a média mundial. Contudo, os dados não são conclusivos, o que agrava a polarização e impede a discussão sobre possíveis soluções ou auxílio efetivo para os venezuelanos que estão por aqui.

Não são só os direitos dos cidadãos enquanto imigrantes estão sendo ignorados. Comparando a situação da Venezuela com a do Brasil, o jornalista venezuelano Angel Villarroel Lara, que aceitou ano passado uma proposta de trabalho em São Paulo, questiona se seria possível um brasileiro viver na capital paulista com R$ 20,00 mensais. Ele afirma que o jornalismo local está sendo controlado pelo governo: “Não tem censura, pois não tem mídia. Não se pode falar sobre a rejeição dos políticos”.

O jornalista venezuelano Angel Villarroel Lara, atualmente vivendo em São Paulo.
Crédito: Arquivo pessoal

Entretanto, a oposição ao governo de Nicolás Maduro não teve um posicionamento diferente quando assumiu como maioria na assembleia venezuelana em 2015. Na ocasião, eles não reconheceram o lado oposto.

Segundo Fernando Spiritto, professor de Economia e Políticas Públicas da Universidad Católica Andres Bello (UCAB), em Caracas, os problemas que afetam a população são resultantes de uma crise econômica causada pela dependência que a Venezuela tem do petróleo, seu principal recurso, que por sua vez é muito afetado pelos preços internacionais. Para o professor, as políticas econômicas fracas ao longo dos anos determinaram as circunstâncias em que o país se encontra e, consequentemente, o grande fluxo migratório em busca de melhores condições de vida. “Não há uma solução imediata. Seriam necessárias medidas de longo alcance e em todas as frentes. Elas implicam um novo modelo político e econômico”, avalia Fernando, ressaltando que é preciso discutir a política além de lados e partidos.

Para o professor Jarochinski, as ações de natureza antidemocrática têm se tornado recorrentes pelo governo Maduro e setores, como as forças armadas, que acabam obtendo um enorme poder político. Essas ações poderão gerar um quadro ainda mais complicado para a reconstrução do país no futuro. Futuro que parece no mínimo desanimador para vários cidadãos venezuelanos, como Odalis Uribe. “Nosso país está no chão. Então, para que nosso país se levante vai ser preciso passar muitos anos”, lamenta.

Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Mesmo com uma perspectiva ruim ainda lhe resta esperança. Ela veio para a cidade de São Paulo por conta de uma oferta de trabalho feita a seu marido pouco antes da situação na Venezuela se agravar, e atualmente é professora em escolas de idiomas. Diante da necessidade de familiares e amigos, começou no ano passado um projeto que envia remédios, itens de higiene pessoal e roupas para grupos de venezuelanos sem recursos em Roraima. A prioridade para Odalis é olhar para as pessoas, para mais do que suas opiniões, olhar suas necessidades. “Entre venezuelanos e brasileiros, vamos conseguir ajuda para todos que precisam”, finaliza.

Laura Marcondes, Lorena Trevelin e Victoria Ferreira são estudantes do terceiro ano do curso de Jornalismo na Universidade Mackenzie. A reportagem está disponível no MigraMundo por meio de uma parceria entre o portal e a professora Patrícia Paixão, do corpo docente da instituição

Polarização ideológica ignora direitos humanos de venezuelanos

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Marco da fronteira Brasil/Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Embate no Brasil entre setores da direita e da esquerda prejudica busca por possíveis soluções

Por Laura Marcondes, Lorena Trevelin e Victoria Ferreira
Em São Paulo (SP)

De acordo com os últimos dados divulgados pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) em abril de 2018, mais de 52 mil venezuelanos chegaram ao Brasil desde o início de 2017, dos quais 25 mil são solicitantes de refúgio. Apesar do grave problema humanitário, a crise se transformou em pauta ideológica no atual contexto brasileiro de grande polarização. Enquanto parte da esquerda brasileira defende o governo de Nicolás Maduro e evita falar sobre os problemas enfrentados pela população daquele país, a direita defende uma política xenófoba e protecionista.

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“O debate sobre as migrações e seu papel nas agendas políticas é bastante importante e saudável, mas me preocupo com esses posicionamentos”, declara o professor da Universidade Federal de Roraima, João Carlos Jarochinski, que é doutor em Ciências Sociais e cuja pesquisa está focada em Migrações Internacionais. A população de Roraima, que era de 332 mil, cresceu 10% em apenas um ano com a chegada de venezuelanos.

Para Jarochinski, a maneira como esse debate vem sendo abordado até agora no Brasil fará com que a migração venezuelana se transforme em mais um argumento retórico e de ataque no período das eleições, entre os candidatos que disputam a Presidência. Um embate que, de acordo com ele, nos faz esquecer da dignidade das pessoas e das potencialidades que a crise representa.

Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia.
Crédito: Boris Heger/ACNUR

Dentre os países que estão recebendo refugiados venezuelanos o Brasil está em sétimo lugar. São números expressivos, especialmente quando se leva em conta a realidade em Roraima, porém, quando se compara a situação com países como a Colômbia, que só no ano passado contabilizou 600 mil imigrantes com entrada por postos oficiais, eles se tornam baixos. Jarochinski afirma que a chegada de venezuelanos ao Brasil é bem menor que a média mundial. Contudo, os dados não são conclusivos, o que agrava a polarização e impede a discussão sobre possíveis soluções ou auxílio efetivo para os venezuelanos que estão por aqui.

Não são só os direitos dos cidadãos enquanto imigrantes estão sendo ignorados. Comparando a situação da Venezuela com a do Brasil, o jornalista venezuelano Angel Villarroel Lara, que aceitou ano passado uma proposta de trabalho em São Paulo, questiona se seria possível um brasileiro viver na capital paulista com R$ 20,00 mensais. Ele afirma que o jornalismo local está sendo controlado pelo governo: “Não tem censura, pois não tem mídia. Não se pode falar sobre a rejeição dos políticos”.

O jornalista venezuelano Angel Villarroel Lara, atualmente vivendo em São Paulo.
Crédito: Arquivo pessoal

Entretanto, a oposição ao governo de Nicolás Maduro não teve um posicionamento diferente quando assumiu como maioria na assembleia venezuelana em 2015. Na ocasião, eles não reconheceram o lado oposto.

Segundo Fernando Spiritto, professor de Economia e Políticas Públicas da Universidad Católica Andres Bello (UCAB), em Caracas, os problemas que afetam a população são resultantes de uma crise econômica causada pela dependência que a Venezuela tem do petróleo, seu principal recurso, que por sua vez é muito afetado pelos preços internacionais. Para o professor, as políticas econômicas fracas ao longo dos anos determinaram as circunstâncias em que o país se encontra e, consequentemente, o grande fluxo migratório em busca de melhores condições de vida. “Não há uma solução imediata. Seriam necessárias medidas de longo alcance e em todas as frentes. Elas implicam um novo modelo político e econômico”, avalia Fernando, ressaltando que é preciso discutir a política além de lados e partidos.

Para o professor Jarochinski, as ações de natureza antidemocrática têm se tornado recorrentes pelo governo Maduro e setores, como as forças armadas, que acabam obtendo um enorme poder político. Essas ações poderão gerar um quadro ainda mais complicado para a reconstrução do país no futuro. Futuro que parece no mínimo desanimador para vários cidadãos venezuelanos, como Odalis Uribe. “Nosso país está no chão. Então, para que nosso país se levante vai ser preciso passar muitos anos”, lamenta.

Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Mesmo com uma perspectiva ruim ainda lhe resta esperança. Ela veio para a cidade de São Paulo por conta de uma oferta de trabalho feita a seu marido pouco antes da situação na Venezuela se agravar, e atualmente é professora em escolas de idiomas. Diante da necessidade de familiares e amigos, começou no ano passado um projeto que envia remédios, itens de higiene pessoal e roupas para grupos de venezuelanos sem recursos em Roraima. A prioridade para Odalis é olhar para as pessoas, para mais do que suas opiniões, olhar suas necessidades. “Entre venezuelanos e brasileiros, vamos conseguir ajuda para todos que precisam”, finaliza.

Laura Marcondes, Lorena Trevelin e Victoria Ferreira são estudantes do terceiro ano do curso de Jornalismo na Universidade Mackenzie. A reportagem está disponível no MigraMundo por meio de uma parceria entre o portal e a professora Patrícia Paixão, do corpo docente da instituição

Polarização ideológica ignora direitos humanos de venezuelanos

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Marco da fronteira Brasil/Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Embate no Brasil entre setores da direita e da esquerda prejudica busca por possíveis soluções

Por Laura Marcondes, Lorena Trevelin e Victoria Ferreira
Em São Paulo (SP)

De acordo com os últimos dados divulgados pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) em abril de 2018, mais de 52 mil venezuelanos chegaram ao Brasil desde o início de 2017, dos quais 25 mil são solicitantes de refúgio. Apesar do grave problema humanitário, a crise se transformou em pauta ideológica no atual contexto brasileiro de grande polarização. Enquanto parte da esquerda brasileira defende o governo de Nicolás Maduro e evita falar sobre os problemas enfrentados pela população daquele país, a direita defende uma política xenófoba e protecionista.

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“O debate sobre as migrações e seu papel nas agendas políticas é bastante importante e saudável, mas me preocupo com esses posicionamentos”, declara o professor da Universidade Federal de Roraima, João Carlos Jarochinski, que é doutor em Ciências Sociais e cuja pesquisa está focada em Migrações Internacionais. A população de Roraima, que era de 332 mil, cresceu 10% em apenas um ano com a chegada de venezuelanos.

Para Jarochinski, a maneira como esse debate vem sendo abordado até agora no Brasil fará com que a migração venezuelana se transforme em mais um argumento retórico e de ataque no período das eleições, entre os candidatos que disputam a Presidência. Um embate que, de acordo com ele, nos faz esquecer da dignidade das pessoas e das potencialidades que a crise representa.

Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia.
Crédito: Boris Heger/ACNUR

Dentre os países que estão recebendo refugiados venezuelanos o Brasil está em sétimo lugar. São números expressivos, especialmente quando se leva em conta a realidade em Roraima, porém, quando se compara a situação com países como a Colômbia, que só no ano passado contabilizou 600 mil imigrantes com entrada por postos oficiais, eles se tornam baixos. Jarochinski afirma que a chegada de venezuelanos ao Brasil é bem menor que a média mundial. Contudo, os dados não são conclusivos, o que agrava a polarização e impede a discussão sobre possíveis soluções ou auxílio efetivo para os venezuelanos que estão por aqui.

Não são só os direitos dos cidadãos enquanto imigrantes estão sendo ignorados. Comparando a situação da Venezuela com a do Brasil, o jornalista venezuelano Angel Villarroel Lara, que aceitou ano passado uma proposta de trabalho em São Paulo, questiona se seria possível um brasileiro viver na capital paulista com R$ 20,00 mensais. Ele afirma que o jornalismo local está sendo controlado pelo governo: “Não tem censura, pois não tem mídia. Não se pode falar sobre a rejeição dos políticos”.

O jornalista venezuelano Angel Villarroel Lara, atualmente vivendo em São Paulo.
Crédito: Arquivo pessoal

Entretanto, a oposição ao governo de Nicolás Maduro não teve um posicionamento diferente quando assumiu como maioria na assembleia venezuelana em 2015. Na ocasião, eles não reconheceram o lado oposto.

Segundo Fernando Spiritto, professor de Economia e Políticas Públicas da Universidad Católica Andres Bello (UCAB), em Caracas, os problemas que afetam a população são resultantes de uma crise econômica causada pela dependência que a Venezuela tem do petróleo, seu principal recurso, que por sua vez é muito afetado pelos preços internacionais. Para o professor, as políticas econômicas fracas ao longo dos anos determinaram as circunstâncias em que o país se encontra e, consequentemente, o grande fluxo migratório em busca de melhores condições de vida. “Não há uma solução imediata. Seriam necessárias medidas de longo alcance e em todas as frentes. Elas implicam um novo modelo político e econômico”, avalia Fernando, ressaltando que é preciso discutir a política além de lados e partidos.

Para o professor Jarochinski, as ações de natureza antidemocrática têm se tornado recorrentes pelo governo Maduro e setores, como as forças armadas, que acabam obtendo um enorme poder político. Essas ações poderão gerar um quadro ainda mais complicado para a reconstrução do país no futuro. Futuro que parece no mínimo desanimador para vários cidadãos venezuelanos, como Odalis Uribe. “Nosso país está no chão. Então, para que nosso país se levante vai ser preciso passar muitos anos”, lamenta.

Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Mesmo com uma perspectiva ruim ainda lhe resta esperança. Ela veio para a cidade de São Paulo por conta de uma oferta de trabalho feita a seu marido pouco antes da situação na Venezuela se agravar, e atualmente é professora em escolas de idiomas. Diante da necessidade de familiares e amigos, começou no ano passado um projeto que envia remédios, itens de higiene pessoal e roupas para grupos de venezuelanos sem recursos em Roraima. A prioridade para Odalis é olhar para as pessoas, para mais do que suas opiniões, olhar suas necessidades. “Entre venezuelanos e brasileiros, vamos conseguir ajuda para todos que precisam”, finaliza.

Laura Marcondes, Lorena Trevelin e Victoria Ferreira são estudantes do terceiro ano do curso de Jornalismo na Universidade Mackenzie. A reportagem está disponível no MigraMundo por meio de uma parceria entre o portal e a professora Patrícia Paixão, do corpo docente da instituição