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segunda-feira, junho 29, 2026
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Separação de famílias: uma face da política imigratória dos Estados Unidos

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Imagens na TV dos EUA mostram crianças imigrantes em centros de detenção. Crédito: Reprodução/CBS

A imigração de crianças sozinhas para os EUA está ligada ao aumento da violência nos países de origem, mas também com uma política imigratória que cria pessoas indocumentadas e separa famílias

Por Patrícia Nabuco Martuscelli
Em Durham (Carolina do Norte, EUA)

Em uma sexta-feira há cerca de 2 meses, eu saí para jantar no centro de Durham, cidade na Carolina do Norte. Quando estava saindo da área de restaurantes e indo para o ponto de ônibus, passei por um menino que segurava uma placa com os dizeres Te quiero, Papá (Eu te amo, papai). Ao lado dele, estava uma mulher que parecia ser sua mãe. Ambos tinham características que pareciam ser de nacionais do México ou da América Central. Do outro lado da rua, um centro de polícia de Durham onde ficam pessoas detidas. Aquela criança estava realmente feliz ao pensar que seu pai estaria lendo sua placa, mesmo estando em uma cela.

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Não sei exatamente a situação daquela família, ou o se aquele pai cometeu algum crime, mas não consigo tirar da cabeça a hipótese de que aquela era uma família imigrante indocumentada e que o pai foi pego pelas autoridades imigratórias (ICE – Immigrations and Customs Enforcement) e muito provavelmente seria deportado, talvez pelo único delito de estar indocumentado na terra do Tio Sam. A política imigratória dos Estados Unidos foi pensada para separar famílias, mesmo em situações quando as crianças nasceram nos Estados Unidos e possuem a cidadania daquele país.

Imagens na TV dos EUA mostram crianças imigrantes em centros de detenção.
Crédito: Reprodução/CBS

Mas não só os EUA adotam políticas que separam famílias, vários países desenvolvidos têm dificultado a reunião familiar de imigrantes e refugiados, principalmente se as pessoas forem recipientes de proteção temporária. Uma organização sueca fez uma campanha para chamar atenção da população do país sobre a situação de separação de famílias imigrantes. Em um comercial, uma mãe leva sua filha para a escola e diz para ela que retornará para buscá-la 3 anos depois. Essa situação parece trágica quando pensamos na vida familiar da maior parte das pessoas do mundo, porém pessoas portadoras de proteção temporária tinham que esperar 3 anos para poderem ser reunidos com suas famílias na Suécia. Em diversos outros países, política de reunião familiar envolvem processos custosos, exames de DNA e longos anos de espera.

Um dos argumentos utilizados por políticos para limitar a reunião familiar de imigrantes e refugiados é o medo da “migração em cadeia”. Esse conceito é uma falácia baseado na ideia de que se um imigrante estiver documentado, ele poderá garantir a entrada de vários outros imigrantes que garantem a entrada de outros o que levaria a uma reação em cadeia. Isso justificaria políticas mais restritivas para trazer familiares o que resulta em separação das famílias. Contudo, pesquisas sobre reunião familiar em países desenvolvidos mostram que cada refugiado em seu território traz menos de uma pessoa para ficar com ele, ou seja, discursos sobre invasões de famílias de imigrantes e refugiados não se sustentam na prática.

É notório o fato de que fronteiras separam famílias há muitos anos. Dentre os fatores que explicam o aumento do número de crianças sozinhas imigrando para os EUA, além da pobreza e violência de gangues nos países de origem na América Central, está o fato de familiares (principalmente pais e mães) terem emigrado para os EUA para trabalharem e, como não existe possibilidade de regularização migratória e nem de trazer seus filhos de maneira segura, familiares ficam anos separados de seus filhos até conseguirem juntar dinheiro para pagar um coiote ou até que as crianças decidam por si mesmas ir para o Norte.

Nesse sentido, é preciso entender o processo migratório dentro das lentes de um projeto familiar, em que um parente emigra para poder garantir a sobrevivência dos demais. Contudo, famílias não dependem apenas de meios econômicos. Relações familiares são baseados em relações emocionais e afetivas, ou seja, não tem como uma mãe exercer o papel de mãe há milhares de quilômetros de distância, ainda que ela esteja fornecendo os meios para sustentar os seus filhos. A imigração de crianças sozinhas para os EUA principalmente depois de 2011 está intimamente ligada com o aumento da violência nos países de origem, mas também com uma política imigratória que cria pessoas indocumentadas e separa famílias, forçando crianças a embarcarem em jornadas perigosas com o sonho de reencontrarem seus pais. O livro de Sonia Nazario, Enrique’s Journey: The Story of a Boy’s Dangerous Odyssey to Reunite with His Mother (2006) ilustra exatamente essa situação.

Manifestação contra Trump na frente do Parlamento Europeu, em Estrasburgo França).
Crédito: GUE/NGL/Fotos Públicas

Finalmente, a política de “tolerância zero” do governo Trump anunciada pelo Advogado Geral dos EUA em abril é apenas a nova fronteira de políticas migratórias que separam famílias. De acordo com dados oficiais do governo estadunidense, entre 19 de abril e 31 de maio de 2018 cerca de 2000 crianças foram separadas de suas famílias nas fronteiras. Isso ocorre porque o governo Trump optou por processar penalmente adultos que cruzam a fronteira de maneira irregular. Assim, adultos são enviados para prisões e crianças para centros de detenção teoricamente pensados para esses menores. Imagens de ao menos 20 crianças colocadas em uma jaula refletem o fato de que os EUA estão produzindo artificialmente crianças sozinhas que enfrentarão processos judiciais de remoção individuais. Para as organizações que atendem menores desacompanhados, isso significa um aumento enorme da carga de trabalho em processos judiciais que estão ficando cada vez mais difíceis. Ao mesmo tempo, crianças não possuem direito à representação judicial gratuita nos EUA.

Conclusão: grande parte dessas crianças separadas poderão ter que aparecer em cortes sem a ajuda de um advogado. Para aquelas que conseguirem alguma representação gratuita (pro-bono) ou de baixo custo, isso pode significar que advogados terão que representar crianças de 6 meses de idade. Como esses profissionais conseguirão construir um caso de refúgio que seja sustentável se o bebê não consegue nem falar? Ademais, temos que considerar que o Advogado Geral dos EUA publicou uma jurisprudência justificando que violência de gangues e violência doméstica não são argumentos válidos para que pessoas sejam reconhecidas como refugiadas nos EUA. Essas situações são o que motiva grande parte das migrações de famílias e crianças de países do Triângulo Norte da América Central para os Estados Unidos da América.

Ainda que a política de separação de famílias tenha sido criticada por diversos políticos e personalidades nos Estados Unidos e também pela Organização das Nações Unidas, a administração Trump justifica (inclusive com menção à Bíblia) que apenas está aplicando uma lei criada pelos democratas. Há de fato espaço na lei para que pessoas sejam criminalmente processadas por cruzarem fronteiras de maneira irregular, porém não existe nenhuma legislação que demande a separação de famílias nas fronteiras e crie crianças desacompanhadas. A separação de famílias tem dois objetivos políticos: o primeiro é tentar passar uma mensagem para as famílias que estão atravessando as fronteiras e tentando entrar nos EUA como uma maneira de desencorajar essa migração. Isso não vai funcionar porque as famílias estão fugindo de situações de violência em que o risco de imigrar para os EUA é menos pior do que a certeza de sofrer ou até morrer. O segundo objetivo é criar um tipo de chantagem para que os legisladores passem legislações anti-imigração do governo Trump, incluindo a construção do muro.

Além disso, temos que considerar que os EUA possuem eleições parciais de representantes para o Congresso (midterm elections) ainda esse ano. Uma política mais dura contra imigrantes que está sendo amplamente divulgada é uma forma de mostrar para os apoiadores de Trump que, ainda que ele não tenha conseguido construir o muro, ele está “acabando” com a imigração irregular. Resta agora saber como os demais norte-americanos se posicionarão nas urnas em relação a essa nova política de separar famílias.

A família é um importante valor na cultura dos EUA, porém não estamos falando da separação das famílias americanas, mas de famílias estrangeiras. A separação de famílias dentro da política de zero tolerância do Trump é apenas a última fronteira de políticas imigratórias que separam famílias há muito anos seja forçando pessoas a migrarem indocumentadas e deixarem suas famílias para trás, deportando pais indocumentados com filhos que são cidadãos ou dificultando a reunião familiar de imigrantes e refugiados.

PS: a reflexão acima continua válida mesmo com o anúncio na última quarta-feira (20/06) de que o governo Trump deixaria de separar as famílias imigrantes detidas

Refugiados e deslocados no mundo sobem para 68,5 milhões, aponta ACNUR

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Vista aérea do campo de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh, que abriga parte da população rohingya deslocada de Mianmar. Crédito: Roger Arnold/ACNUR

Evento em SP que apresentou os dados atualizados sobre refugiados e deslocados no mundo foi questionado pela ausência de refugiados na discussão

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Persistência do conflito na Síria, a questão dos rohingya no Sudeste Asiático, conflitos que se arrastam há anos na África e Oriente Médio que empurram pessoas para travessias perigosas no Mediterrâneo ou por terra. Esses são alguns dos motivos que levaram o mundo a ganhar 2,9 milhões de novos refugiados e deslocados internos no último ano.

Essas são algumas das informações presentes na mais recente edição do relatório Tendências Globais (Global Trends), feito anualmente pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) e apresentado sempre às vésperas do dia 20 de junho, quando é lembrado o Dia Mundial do Refugiado.

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Com dados consolidados de 2017, o relatório aponta que o mundo terminou o ano com um total de 68,5 milhões de refugiados e deslocados internos – uma média de 1 a cada 110 pessoas -, sendo:

  • Refugiados (que se deslocaram para outro país): 25,4 milhões (sendo 19,9 milhões sob mandato do próprio ACNUR e mais 5,4 milhões de palestinos, que estão sob mandato de outra agência da ONU, a UNRWA
  • Deslocados internos (que não conseguiram sair das fronteiras do país): 40 milhões
  • Solicitantes de refúgio: 3,1 milhões

Clique aqui para acessar o relatório Global Trends/Tendências Globais 2017

Devido ao êxodo de refugiados rohingya de Myanmar para Bangladesh, o país asiático saltou para o quarto lugar entre os países que mais geram refugiados no mundo (1,2 milhão) – a lista ainda é encabeçada por Síria (6,3 milhões), Afeganistão (2,6 milhões) e Sudão do Sul (2,4 milhões); em quinto, está a Somália (986,4 mil). Juntos, esses países respondem por dois terços do total de refugiados no mundo sob jurisdição do ACNUR.

Infográfico do ACNUR mostrando a proporção de refugiados e deslocados no mundo. Crédito: ACNUR

Ao mesmo tempo, a Turquia (3,5 milhões) permanece como o país que mais recebe refugiados no mundo, seguido de Paquistão (1,4 milhão), Uganda (1,4 milhão), Líbano (998 mil), Irã (979 mil), Alemanha (970 mil), Bangladesh (932 mil) e Sudão (907 mil).

Exceto pela Alemanha, as nações que costumam receber mais refugiados são aquelas vizinhas às regiões de conflito – de acordo com o ACNUR, 85% dos refugiados estão nos países em desenvolvimento, muitos dos quais são vizinhos, extremamente pobres e recebem pouco apoio para cuidar dessas populações.

Duas outras realidades que o relatório Tendências Globais traz são que a maioria dos refugiados vive em áreas urbanas (58%), não em acampamentos ou áreas rurais; e que a população deslocada global é jovem – 53% são crianças, incluindo muitas que estão desacompanhadas ou separadas de suas famílias.

Vista aérea do campo de refugiados de Kutupalong, em Bangladesh, que abriga parte da população rohingya deslocada de Myanmar.
Crédito: Roger Arnold/ACNUR

Em São Paulo, a apresentação do relatório foi feita por Federico Martínez, representante-adjunto do ACNUR no Brasil, durante o I Encontro Internacional e II Encontro Estadual Sobre Migração e Refúgio, que ocorreu no auditório da Secretaria Estadual de Justiça, região central da cidade.

“Com essa discussão, com dados e informações corretas, é fundamental não só para discussão, mas também para adoção de políticas públicas em benefício dessa população”, disse Martinez.

Para Carolina de Abreu Batista Claro, professora do curso de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o que surpreende não é apenas o fato de que nesses países a quantidade de refugiados e deslocados internos continua a aumentar, mas também que crianças e jovens representaram mais da metade da população refugiada em 2017.

“Ao mesmo tempo em que grupos vulneráveis e vulnerabilizados buscam proteção internacional, as políticas migratórias dos principais países de destino continuam a desrespeitar sistematicamente os direitos humanos dessas pessoas assim como as normas, costumes e princípios do direito dos refugiados, a exemplo dos episódios recentes de separação e detenção de crianças nos EUA e da recusa de recebimento, por Itália e Malta, de cerca de 630 refugiados e migrantes resgatados no Mar Mediterrâneo”.

E o Brasil?

Embora o relatório do ACNUR tenha dados mundiais sobre refúgio e deslocados, o representante da agência também foi questionado sobre os venezuelanos no Brasil, que lideram as solicitações de refúgio no país. Citando dados que disse ter obtido recentemente com a Polícia Federal, Martinez apontou que foram 32 mil pedidos de refúgio de venezuelanos feitos nos últimos três anos.

Segundo dados consolidados de 2017 e apresentados em abril passado pelo Ministério da Justiça, o Brasil já havia reconhecido um total de 10.145 refugiados – destes, somente 5.134 pessoas ainda estavam vivendo no país sob essa situação. Por outro lado, só em 2017 um total 33.866 pessoas solicitaram o reconhecimento da condição de refugiado no Brasil, com os venezuelanos representando 52,75% do total (17.866).

Por outro lado, o Conare (Comitê Nacional para Refugiados), que recebe e avalia os pedidos de refúgio no Brasil, possui uma fila total de 86 mil solicitações em trâmite – que dura em média dois anos, mas há casos que chegam a se arrastar por cinco anos ou mais. Essa situação é creditada a limitações na estrutura do comitê, que tem apenas 13 profissionais dedicados diretamente à análise das solicitações.

Onde estão os refugiados para falar de refugiados?

Um fato que chamou a atenção durante o encontro na Secretaria de Justiça foi a ausência de refugiados e solicitantes de refúgio na programação, que foi criticada por refugiados que assistiam ao evento.

“Será que temos espaço para falar também ou vamos apenas decorar a sala? Fica como sugestão para a organização do evento, porque também temos boca para falar e nos expressarmos”, questionou o congolês Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração e um dos organizadores da Copa dos Refugiados.

O congolês Jean Katumba, da ONG África do Coração e da Copa dos Refugiados, que questionou a falta de refugiados nas discussões sobre refúgio no encontro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Após a intervenção, Katumba foi chamado a compor uma mesa final no encontro, que respondeu a perguntas do público presente, entre pesquisadores, agentes públicos, integrantes da sociedade civil e jornalistas.

Já na mesa, o congolês chamou a atenção para a situação dos solicitantes de refúgio – que embora recebam proteção semelhante a dos refugiados no Brasil, ficam numa espécie de limbo enquanto aguardam um parecer sobre seus pedidos e não possuem acesso a determinadas políticas, aplicadas somente para os que já possuem o status de refugiado. “Se você não é reconhecido como refúgio, é muito difícil”.

 

Desinformação dificulta inserção de refugiados no mercado de trabalho, mostra pesquisa

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Levantamento inédito feito junto a profissionais de RH (Recursos Humanos) mostra que barreiras culturais e estereótipos ainda prevalecem, mas também caminhos possíveis para superá-los

Por Rodrigo Passoni
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 19h42 de 19/06/18

Na semana em que é lembrado o Dia Mundial do Refugiado (20/06), a falta de informação continua sendo uma barreira para um melhor entendimento da questão do refúgio. Uma situação que também tem seus reflexos no mercado de trabalho.

Essa foi uma das constatações obtidas a partir da pesquisa inédita “Caminhos para o Refúgio: Inserção Produtiva e Social de Refugiados”, coordenada pelo professor Leandro de Carvalho, pesquisador doutor da Universidade de Brasília, que será apresentada durante audiência pública nesta quarta-feira (20), às 11h, no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Rua General Jardim, 522 – 7º andar)

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Com recorte na região metropolitana de São Paulo, que concentra cerca 52% das pessoas reconhecidas como refugiadas no Brasil, a pesquisa indagou diretamente 386 profissionais de recrutamento e seleção das empresas, por meio de um questionário enviado durante os meses de fevereiro e março deste ano. O objetivo era entender como a imigração e a questão do refugiado estavam inseridas no ambiente empresarial.

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E as conclusões, embora fossem esperadas pelo pesquisador, surpreenderam pela dimensão: 64,7% dos profissionais de RH que responderam a pesquisa confundem o status de refugiado [gerada por perseguições e violações de direitos humanos] com a situação de imigrante empobrecido. Além disso, 91,2% dos que responderam ao questionário declararam não dominar os procedimentos para contratação de refugiados – ou seja, desconhecem que se tratam dos mesmos para contratação de brasileiros.

Pesquisa com profissionais de RH apontou barreiras no entendimento sobre a questão do refúgio.
Crédito: Marcello Casal Jr/ABr

Outro dado que espantou o pesquisador foi a associação dos recrutadores a determinadas qualidades e barreiras de acordo com a origem do indivíduo. Enquanto “força física” e “aceitar menores salários no início” apareciam associados a profissionais da África e América Central, menções à “capacidade de liderança” e “criatividade” eram relacionadas a profissionais de origem europeia.

“Ficava evidente que, por mais que existisse um debate sobre o tema e houvesse sensibilidade das pessoas, a informação se restringia às tragédias e a alguns casos de recomeço, mas circulava pouca informação sobre como apoiar de fato uma pessoa, ou família, que chega ao Brasil em busca de refúgio”, ressalta o pesquisador.

Em entrevista exclusiva ao MigraMundo, Carvalho dá maiores detalhes sobre o estudo e de que forma os dados nele contidos podem ajudar em uma mudança de olhar sobre os refugiados no mercado de trabalho. “Espero que as informações disponibilizadas sejam capazes de provocar uma reflexão profunda nos profissionais de RH e na população em geral. E que essa reflexão se transforme em mudança de atitude e, quem sabe, em engajamento para essa causa”.

MigraMundo: Como surgiu a ideia de fazer essa pesquisa junto aos setores de RH sobre refugiados?
Leandro de Carvalho: No segundo semestre de 2017 fui contratado por um grupo de empresas para ajudá-los a direcionar seus investimentos sociais e tinham como foco as organizações que atuavam junto aos refugiados e imigrantes mais vulneráveis. Nos meses que se seguiram e por meio das relações que foram construídas, um dos pontos principais das conversas com as organizações envolvia criar novos modelos para inserção produtiva dos imigrantes. Foi nessa busca por novos modelos que sentimos falta de informações que pudessem basear novas ideias: eram produzidas informações sobre o perfil dos imigrantes (suas origens, condição socioeconômica etc), mas não havia informações sobre como as empresas enxergavam esse grupo de pessoas.

Nos primeiros contatos com as associações de profissionais de recursos humanos, pude confirmar que não havia nenhuma outra iniciativa que tivesse como foco entender como os profissionais de recrutamento e seleção, a primeira porta das empresas, enxergavam os imigrantes mais vulneráveis. Havia o interesse, soube de uma tentativa de enquete no site de uma das associações de profissionais, mas nada que pudesse levantar o debate com dados mais rigorosos e nada com a extensão da pesquisa que estamos apresentando.


Por que exatamente o foco em refugiados, em vez de contemplar também pessoas em outras situações migratórias?

Para sustentar essa opção, dois pontos foram levados em conta: em primeiro lugar, o debate mais amplo sobre a questão migratória usa muito o termo “refugiado”, então a aproximação com os respondentes seria mais direta. Inclusive, percebemos na pesquisa que esse uso corriqueiro do termo gera muitas confusões sobre quais as condições para concessão do status de refúgio.

Outro ponto dessa opção está relacionado com os questionamentos que queríaamos fazer sobre o nível de conhecimento sobre os procedimentos de contratação. A hipótese era: se o profissional de RH não soubesse como contratar um refugiado  – que, como sabemos, já recebe todos os documentos necessários -, por consequência não saberia como fazer qualquer outra contratação que envolvesse um imigrante em outras condições. Se o recorte fosse imigrantes em geral, não poderíamos fazer essa extrapolação porque poderiam dizer, posteriormente, que entenderam se tratar da contratação de profissionais residentes em outros países ou de contratar alguém sem a regularização migratória concluída. No caso do refugiado, ou do solicitante de refúgio, essas controvérsias não caberiam e conseguiríamos produzir a informação rigorosa que precisávamos.

Imigrantes aguardam atendimento no CIC do Imigrante para cadastramento de currículos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – 26.jun.2015


À medida que a sua pesquisa evoluía, que tipo de impressão te saltou aos olhos com as respostas dos entrevistados?

Desde os primeiros testes do questionário e ao longo da pesquisa, o que mais me surpreendia era o desconhecimento dos profissionais sobre procedimentos que deveriam ser bastante simples. Ficava evidente que, por mais que existisse um debate sobre o tema e houvesse sensibilidade das pessoas, a informação se restringia às tragédias e a alguns casos de recomeço, mas circulava muito pouca informação sobre como apoiar de fato uma pessoa, ou família, que chega ao Brasil em busca de refúgio.

Poderia falar um pouco mais a respeito desse desconhecimento notado?
Como dado muito prático, ficou demonstrado que 62,5% confundem o status de refugiado com a situação do imigrante empobrecido. Para essas pessoas, refúgio tem relação com pobreza, tragédia, busca por emprego e não necessariamente com a questão da perseguição ou violação de direitos humanos. E esse primeiro dado repercute em todo o restante: por não compreender as razões para a chegada dessas pessoas, acabam por classificá-las como profissionais de baixa qualificação (atribuindo as dificuldades econômicas a esse fato imaginado) e afloram ai também diversos outros preconceitos que estão relacionados as origens desses imigrantes.

Um ponto chave na sua pesquisa é a associação que os entrevistados fazem entre regiões de origem e habilidades. Esse dado te surpreendeu? O que ele revela sobre a visão dos migrantes e refugiados no mercado de trabalho?
Confesso que tive especial interesse por essa questão enquanto ela era respondida. Queria consolidar logo os dados e encarar os resultados que viriam. E quando pude analisar os dados, já consolidados, foi assustador! Não era assustador por ser uma surpresa, mas justamente por ver ali materializado as situações que a gente presencia no dia a dia. Por mais que seja velado, sabemos que existe o preconceito étnico no país, e que esse preconceito evolui para a discriminação principalmente contra a população de pele negra, mas é assustador perceber como se manifesta. Foi ainda pior imaginar que esses preconceitos podem ter relação direta com as condições de trabalho que esses imigrantes poderão acessar.

Sabemos que se trata de uma situação mais complexa, que envolve outros fatores. Mas se um determinado grupo nunca é visto como capaz de liderar uma equipe, o que pode se esperar para a carreira dessa pessoa no Brasil? Se outro grupo é entendido como disposto a aceitar salários menores, como se dão essas negociações de salário para os imigrantes dessas regiões? Tudo isso a gente vê no cotidiano do nosso trabalho nas organizações, atendendo as pessoas que denunciam trabalho precarizado, quebra de contratos de trabalho etc.

Imigrantes e refugiados participam de mutirão de cadastro de currículos em Curitiba (dez/2017).
Crédito: Brunno Covello – dez/2017


Haverá uma continuidade do trabalho iniciado a partir dessa pesquisa? Qual a expectativa a partir de agora?

Em meio a tantas informações para refletirmos, uma que é bastante positiva tem relação com a vontade dos profissionais em buscar treinamento sobre os procedimentos de contratação de imigrantes: mais de 85% dos entrevistados manifestou interesse por treinamentos nessa temática. Uma das expectativas envolve conseguirmos criar os meios para capacitar esses profissionais e, quem sabe, transformá-los em aliados para essa causa. A Missão Paz, em São Paulo, está formatando um curso específico para esse fim, gratuito e com certificação, e os profissionais de recursos humanos já podem fazer sua pré-inscrição.

Outra expectativa é a mudança de comportamento. Espero que as informações disponibilizadas sejam capazes de provocar uma reflexão profunda nos profissionais de RH e na população em geral. E que essa reflexão se transforme em mudança de atitude e, quem sabe, em engajamento para essa causa.

Corumbá é nova Brasileia? Haitianos enfrentam dificuldades em MS

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Sem dinheiro, haitianos vivem situação precária em Corumbá (MS). Crédito: Leandro Barbosa

Fluxo invisibilizado no Centro-Oeste repete situações precárias vividas na fronteira do Acre, entre 2010 e 2015

Por Leandro Barbosa
Em Corumbá (MS)
Atualizado às 09h05 em 18/06/18

Foram cinco dias de viagem do Chile ao Brasil, em um trajeto que adentrou a Bolívia até o Mato Grosso Sul. Lugar que o casal de haitianos Daphne Ylozier (24) e Louis Artiste (26) esperavam encontrar descanso, para em seguida ir para São Paulo. Mas o desejo se tornou frustração e medo quando chegaram ao país e se depararam com a ausência de assistência pública local que os impediu de seguir o percurso planejado, a fim de encontrar seus familiares.

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O percurso até a cidade foi difícil devido aos enjoos constantes da jovem que está grávida de dois meses, situação que a impossibilitava de comer. O único recurso que o marido encontrou para amenizar a situação foi um abraço, uma vez que os 700 dólares que o casal tinha foram extorquidos pela polícia boliviana no caminho até a fronteira. Sem dinheiro, ambos se encontram vulneráveis buscando formas para pagar os 60 reais da diária no Hotel Corumbá, local que abriga cerca de 100 haitianos.

Hotel Corumbá, que abriga cerca de cem haitianos.
Crédito: Leandro Barbosa

“A viagem foi muito difícil. Achei que ia chegar aqui e tudo ia passar, mais ainda estou sofrendo”, afirma Daphne. O sofrimento para ela se consolida em duas situações cruéis que afligem os dias dos haitianos em Corumbá: a fome e a falta de abrigos. Muitos haitianos têm dormido no quintal do hotel e no entorno da rodoviária cidade, que nos últimos dias encarou uma frente fria com mínima de 13ºC.

O município possui apenas um albergue com 20 vagas, divididas em partes iguais entre mulheres e homens, destinadas à população em situação de rua. De acordo com a Secretária de Assistência Social, Gláucia Fonseca Iunes, a prefeitura chegou ao seu limite de atuação. “Eu entendo que a situação é emergencial, mas estamos fazendo o que fomos orientados a fazer. Temos um lugar que comporta apenas 20 pessoas, e não temos na cidade outros equipamentos disponíveis para atender as pessoas que têm chegado”.

A situação dos haitianos foi identificada pela Defensoria Pública da União (DPU) em uma das atividades do programa Ação Global para Prevenir e Combater o Tráfico de Pessoas e o Contrabando de Migrantes (GLO.ACT), iniciativa conjunta da União Europeia (UE) e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), que está na região a fim de garantir aos imigrantes o acesso à justiça e a proteção de seus direitos em território nacional.

Segundo o Defensor Público Federal João Freitas de Castro Chaves, o Brasil terá que se preparar para um novo fluxo de haitianos. “Eles são vítimas de todo tipo de crime durante o trajeto até o Brasil, e chegam aqui em uma situação extremamente vulnerável. Eu acredito que a maneira mais prática para diminuir a retenção deles em Corumbá seria facilitar ao máximo a regularização [migratória] para que eles possam sair daqui rumo ao destino, já que a grande maioria deles têm parentes no país”.

A nova rota feita por cerca de 1000 haitianos que chegaram a Corumbá, no decorrer deste ano, levou os imigrantes a serem a terceira maior população estrangeira a cruzar a fronteira na região, ficando atrás apenas dos países vizinhos Bolívia e Peru. No momento, aproximadamente 150 haitianos estão retidos no município em situação de estadia precária e com poucos recursos para se alimentarem.

O cenário é similar ao que ocorreu no Brasil, entre 2010 e 2014, quando milhares deles chegavam à cidade de Brasileia, no Acre, após um longo trajeto terrestre passando por Equador, Peru e Bolívia. As condições de emergência na qual se encontravam fizeram com que a prefeitura da cidade improvisasse locais de abrigamento e o Governo Federal disponibilizasse transporte para outros Estados do país. Na ocasião, a saída viável para se regularizarem era a solicitação de refúgio.

Abrigo foi improvisado para haitianos em Corumbá (MS).
Crédito: Leandro Barbosa

Acolhida humanitária

A partir de 2015, a estratégia governamental passou a ser o visto de acolhida humanitária. Embora a nova Lei de Migração, que entrou em vigor em novembro de 2017, tenha incorporado tal prática em seus princípios e garantias, dois critérios inacessíveis colocam os haitianos vindos do Chile, em fluxo recente, em um limbo jurídico: o fato de o visto ser emitido exclusivamente pela Embaixada do Brasil em Porto Príncipe ou aos que chegaram no Brasil até 9 de abril de 2018. Sendo assim, a solicitação de refúgio tem sido a única alternativa de registro e acesso a direitos básicos.

Na última quarta (13), o Senado Federal aprovou a Medida Provisória 820 sobre a acolhida de imigrantes que fogem de crises humanitárias, que agora segue para sanção presidencial. A legislação dispõe sobre medidas de assistência emergencial como a situação que está identificada no Mato Grosso do Sul.

“O ato do presidente Temer só ganhará concretude quando ações forem tomadas frente a situações como a dos 150 haitianos que estão retidos em Corumbá. O terremoto que assolou o Haiti em 2010 resultou em uma crise humanitária que se arrasta até os dias de hoje e empecilhos burocráticos têm sido impostos pela Polícia Federal para garantir a acolhida deles. O presidente precisa agir imediatamente para não correr o risco de tornar sua própria Medida Provisória já uma letra morta”, afirma Letícia Carvalho, da Missão Paz, entidade da Igreja Católica que acolhe imigrantes e refugiado no Centro de São Paulo, e que acompanhou a ação da GLO.ACT.

Haitianos e outros migrantes foram atendidos por ação da DPU.
Crédito: Leandro Barbosa

Iniciativa popular

Diante da mínima assistência oferecida pelo município, a ajuda veio da sociedade civil através da Pastoral da Mobilidade Humana, que tem se esforçado para oferecer aos imigrantes ao menos uma refeição por dia. Além disso, a organização tem buscado alternativas de abrigo ao contingente que tem crescido diariamente e àqueles que não possuem mais recursos para pagar as diárias nos hotéis da cidade.

De acordo com Padre Marco Antônio Ribeiro, coordenador da pastoral, que está na região há quatro anos, todo esforço dispensado ainda não foi suficiente para tirar essas pessoas da invisibilidade. “Temos feito tudo o que está ao nosso alcance, mas nossas ações não têm sido suficientes diante da demanda. Precisamos urgentemente que o poder público busque alternativas para o que está acontecendo aqui”.

Daphne e Louis fazem parte do grupo que está sendo atendido pela Pastoral. O casal já está devendo ao lugar que está hospedado R$380. Sem recursos, dependem do que a Pastoral oferece para comer. Apesar de tanta dificuldade, os futuros pais sonham em oferecer ao bebê que está para nascer o mínimo de condições para viver em território brasileiro. “A gente sabe que aqui a vida pode ser muito melhor”, afirmam.

Literatura brasileira fora do país, ganhando o mundo

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Festa do Livro em Barcelona, com a participação do Coletivo Brasil Catalunha.

Por Flávio Carvalho. @1flaviocarvalho. @quixotemacunaima.

O dia de Sant Jordi (São Jorge) em Barcelona (23 de abril) é a grande festa da literatura. O dia do livro, dedicado a Cervantes. Neste dia, há nove anos, a associação Coletivo Brasil Catalunha (CBC) realiza apresentação de livros, saraus poéticos musicais e vende livros, novos e doados, sobre o Brasil ou em língua portuguesa no Passeio de Gracia, a mais luxuosa avenida da cidade.

Pelo Sant Jordi do CBC passaram, somente para ter-se uma ideia dos últimos anos, Giselle Macedo, apresentando seu livro Dom Quixote: poesia, crítica e tradução; Taíza Brito apresentando seus livros A confissão do Padre Hosana e sobre o Cantinho Brasileiro, o barzinho pernambucano catalão mais antigo de Barcelona; e Eliana Macedo, escritora do livro Ajudeu-me! (Ajudem-me!, em catalão), sobre o seu processo de migrar e aprender a conviver com ajuda da língua local. Em outros anos, apenas para ficar em poucos exemplos, apresentou-se Desenrolando a língua, o livro infantil de Anna Ly, cantora, compositora e educadora, criado em conjunto com as crianças da APBC, a Associação de Pais de Brasileirinhos na Catalunha. E Andreia Moroni, ex Presidenta da mesma APBC, falou sobre a publicação do seu livro e do assunto pelo qual se tornou uma das principais especialistas em todo o mundo: o Português como Língua de Herança.

Festa do Livro em Barcelona, com a participação do Coletivo Brasil Catalunha.

Não podemos deixar de prestar atenção que a imensa maioria de escritoras, mulheres, representa um fato evidente: elas são maioria quantitativa e, ao mesmo tempo, demonstram a qualidade do associativismo, empreendedorismo e da promoção das culturas e língua do Brasil no exterior. No 8 de março do Coletivo Brasil Catalunha, cada ano, premia-se brasileiras com o Prêmio Nélida Piñon.

Mas não somente. Compartilharam mesa importantes catalães como Enric Larreula, autor de Terres Verges (Terras Virgens, em catalão), sobre uma experiência anarquista de utópica vida em sociedade alternativa por parte de exilados e migrantes catalães no Brasil. Também Pep Valenzuela, autor do livro ¿Lula, donde vás? (Lula, aonde vais?), juntamente com o professor Pere Petit, da Universidade Federal de Belém do Pará. E está sendo programada apresentação do livro Samba per a un difunt (Samba para um defunto), do premiado escritor catalão Salvador Casas, sobre uma trama de mistérios e assassinato envolvendo a vida de um catalão em cidades como São Paulo e Brasília. Pra não ficar no gueto (somente entre brasileiros ou sobre o Brasil), basta dizer que também participaram David Monteagudo, o escritor galego catalão que entrou na lista dos mais vendidos em toda a Espanha (Fin é o nome do seu Bestseller, que até virou filme de cinema) e Josep Pimentel apresentou-nos Barricada, uma história da Barcelona revolucionária.

Tudo isso, principalmente, no Maloca, espaço cultural e gastronômico de duas brasileiras empreendedoras e criativas.

Ano passado, o escritor e professor da Sorbonne Leonardo Tonus veio à Barcelona juntamente com escritores como Rodrigo Ciriaco, Marta Barcellos, Simone Paulino, Susanna Busato e Marcelo Maluf, entre outros, para realizar o festival Printemps Literari, na Livraria Altaïr, a maior livraria de viagens da Europa – eleita por publicações especializadas. Este ano o Sarau Literário, com o músico Walmir Palma, promoveu o Dia da Língua Portuguesa e o Sarau Viva Jorge em bares e restaurantes como Panela de Barro, Rio DOC, Beijo de Moça e Cantinho Brasileiro. Todos excelentes representantes dos empreendimentos gastronômicos da comunidade brasileira em Barcelona, em plena efervescência cultural e aproveitando que a poesia voltou a estar de moda em diversas cidades da Europa.

E não é um fenômeno restrito a esse lugar.

Gustavo Behr, músico, advogado, assessor político e escritor gaúcho, ex Presidente da Casa do Brasil de Lisboa, é um dos muitos brasileiros que se dedicam, há anos, a expressar sua marca literária em blogs próprios. Por sua excelente qualidade autoral, publicou Cidade Alta, Cidade Baixa, estabelecendo paralelismos entre Porto Alegre e Lisboa, num exercício leve e empolgante de narrar suas experiências e fantasias. Outras como Mara Parrela (autora de Hierr en Daar; Aqui e Lá) e Danielli Cavalcanti nos convidam a entrar em suas vidas migrantes, pelo prazer de lê-las. São escritoras que já estão no segundo livro. Daniele, por exemplo, depois do êxito de Flor de Linz, a deliciosa narrativa de vivências da cafeteria que montou na Áustria, agora nos surpreende (muito positivamente) com o livro de poesias Quando eu outono, tu primaveras.

Não poderíamos concluir a viagem literária desse texto sem mencionar que Gustavo, Danielli e tantos outros apresentaram suas obras no que hoje é considerado o templo sagrado da literatura brasileira ou em língua portuguesa na Europa. A Livraria, do pernambucano Edney Melo, em pleno coração de Berlim, é o espaço cultural mais ativo e antigo, aberto aos novos e não tão jovens talentos. O Livreiro de Berlim, como Edney tem ficado conhecido em diversos meios de comunicação, já trouxe para sua Livraria nomes como Mia Couto, João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Antunes, Ruy Castro, Cristóvão Tezza, Paulo Lins, Heloísa Seixas, Daniel Galera, e uma longa lista que não caberia no final desse escrito.

Viva as letras brasileiras, Aqui e lá. Não é, Mara?

Recusa italiana a barco com migrantes gera crise e troca de farpas na Europa

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Migrantes resgatados pelo barco Aquarius. Crédito: Karpov/S.O.S. Mediterranee

Ao fechar os portos a navio humanitário com 629 migrantes africanos, Itália reclama da política migratória europeia e entra em crise com Paris

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)
Atualizado às 09h48 em 18/06/18

Um barco superlotado com mais de 600 africanos fugindo de guerras elevou a tensão entre as nações europeias nesta semana e abriu uma crise diplomática entre Paris e Roma. Isso porque o novo ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, de extrema direita, elevou o tom contra a Europa ao recusar receber o barco humanitário.

“A Itália não vai virar um campo de refugiados enquanto Malta não se mexe, a França descansa e o resto da Europa não quer nem saber”, afirmou Matteo em sua conta no Facebook no domingo, horas após dar ordens para fechar os portos ao navio Aquarius, da ONG francesa S.O.S Mediterranee.

Era sábado (09) à tarde quando a ONG encontrou uma embarcação vinda da Líbia no mar Mediterrâneo – mais exatamente há 27 milhas náuticas da ilha de Malta e há 35 do porto de Messina, na Sicília. A ONG pediu autorização para atracar em Malta, a qual foi negada. À Roma, também negada.

De acordo com as normativas internacionais das Nações Unidas para o Direito Marítimo, a embarcação é de responsabilidade do país mais próximo – ou seja, Malta.

Migrantes resgatados pelo barco Aquarius.
Crédito: Karpov/S.O.S. Mediterranee

“Mas o problema foi que o barco passou a noite de sábado para domingo em uma zona comum à Itália e à Malta”, afirmou Thibault Fleury-Graff, professor de direito público e especialista em direito internacional e migrações pela Universidade Rennes-I.

Consultada pelo jornal Le Monde durante o que a publicação chamou de “crise de nervos”, a Organização Internacional para Migrações (OIM) afirmou que os dois estados “precisavam chegar em um acordo”. “Os Estados são obrigados a cooperar para chegar a um acordo, a fim de proteger a vida desses migrantes resgatados”, afirmaria o seu porta-voz Leonard Doyle.

Horas se passaram, reuniões de urgência foram marcadas no Conselho da Europa, em Bruxelas e em Estrasburgo, mas sem nenhuma resposta concreta. “Um silêncio sepulcral e embaraçoso vinha de Bruxelas”, afirmou a publicação norte-americana ‘The New York Times.” Até que a Espanha deu sinal verde e, em discurso solene de seu ministro do interior, afirmou que “por respeitar seu engajamento internacional” o país acolheria os migrantes em Valencia.

Após a decisão espanhola, o governo francês comentou o caso, criticando a decisão italiana de fechar os portos.

O presidente Emmanuel Macron chamou de “irresponsável e cínica” a atitude da Itália. “Vindo da França, tal fala foi como um tapa na cara com luva de pelica”, afirmou o jornalista Adam Nossiter, correspondente do New York Times em Paris. Horas depois viria o contra-ataque: “Nós não aceitaremos lições de moral hipócritas”, afirmou o primeiro-ministro italiano, criticando o governo francês por acolher apenas 20% dos migrantes africanos que desembarcaram na Itália em 2017 – 120 mil no total. Na quarta-feira, Salvini afirmaria, em tom heroico, em artigo no Corriere della Sera: “Nós re-acordamos a Europa. E ironicamente, um dia nós vamos nos dar conta que fomos nós aqueles que a salvamos”.

Em resposta às críticas da Itália, nas últimas horas da noite desta quinta-feira, o Ministério dos Assuntos Estrangeiros da França anunciou em comunicado que acolherá os migrantes do navio Aquarius que “responderem aos critérios do direito de asilo”, após um exame de sua situação na Espanha. De acordo com o ministro francês Jean-Yves le Drian tal proposição foi acolhida favoravelmente pelo governo espanhol.

Crise de nervos e tapas de luva de pelica

Após o que chamou de “crise de nervos”, o jornal francês Le Monde estampou em seu editorial da última quinta-feira  (14) que “A Europa se vê obrigada a repensar sua política migratória”.

Um dos principais jornais da França atacou alvini, chamando a sua recusa em acolher de “chocante”, mas decidiu não atacar a Itália, dando-lhe crédito – e respeito – pelo “socorro e acolhimento dado aos migrantes que recebeu desde 2014. “Todo o socorro e acolhimento dado aos migrantes não pode ser de responsabilidade apenas da Itália. É bem verdade que ela, Itália, recebeu sozinha, em 2014, 600 mil requerentes de asilo, sem obter de seus colegas europeus nada mais do que palavras bonitas”, afirmou o Le Monde. “É tempo dos parceiros europeus da Itália passar das palavras para a ação e dividir o fardo migratório antes que esse ‘medir forças’ vire a norma.

A chanceler alemã, Angela Merkel afirmou na terça-feira que o “problema da imigração” deve ser resolvido a nível europeu. E foi disso que, segundo o jornal norte-americano The New York Times, a Itália estaria reclamando. “A recusa italiana quis mostrar seu grande descontentamento que vinha de longa data com o desnível europeu na questão migratória.” Na manhã à recusa italiana, o porta-voz do governo em Berlim, Steffen Seibert, afirmou em conferência à imprensa que “países sobrecarregados como a Itália não podem ser deixados sozinhos.”

O italiano Corriere della Sera chamou o caso Aquarius de “Odisseia” e enfatizou o descontentamento do povo italiano e a crescente adesão ao discurso extremista diante da crise de resposta europeia à migração, especialmente vinda da África.

Vidas em jogo

No último domingo (17), o Aquarius finalmente chegou à Espanha, atracando no porto de Valência. Além de celebrar o desembarque dos migrantes, a ONG Médicos Sem Fronteiras – que integra a equipe a bordo do Aquarius – criticou os governos europeus, que “escolheram colocar a tentativa de obter ganhos políticos acima da necessidade de salvar vidas no mar”.

Equipe do MSF no Aquarius comunica aos migrantes sobre o desembarque em Valência (Espanha).
Crédito: Lauren King/MSF

“Os governos europeus não veem o salvamento da vida de migrantes vulneráveis ​​e refugiados no mar como uma prioridade. Em vez disso, eles restringiram as fronteiras e fecharam as portas. Eles têm apoiado ativamente a guarda costeira da Líbia para devolver as pessoas resgatadas em águas internacionais para a Líbia, onde serão forçadas a suportar tratamentos desumanos e abusivos”.

Apesar das críticas às operações de salvamento, a Médicos Sem Fronteiras reafirmou que vai manter as ações no Mediterrâneo. “Valência é o fim de uma terrível provação para 630 pessoas. Agora, é preciso um sério compromisso europeu para salvar vidas e desembarcar pessoas resgatadas adequadamente. Enquanto os governos não cumprem suas responsabilidades, a equipe a bordo do Aquarius continuará a conduzir operações de busca e salvamento no Mediterrâneo Central ”.

 

Casal de refugiados sírios vive desafio de criar 17 crianças no Líbano

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Om Daham, 44, vive o desafio de criar 17 crianças e adolescentes, entre filhos e parentes. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

São sete filhos do casal e mais dez de parentes que perderam a vida na guerra, que se arrasta desde 2011

Por Alethea Rodrigues
Em Bar Elias (Líbano)

Em um país devastado pela guerra, milhares de crianças perderam seus pais para os ataques aéreos, bombardeios e assassinatos em cidades da Síria desde março de 2011, quando o conflito começou. De acordo com Salwa Jooma, vice presidente da Humanitarian Foundation for Social Welfare and Education, mais de 10 mil crianças e adolescentes refugiados órfãos vivem no Líbano hoje. Só nessa ONG, são 1250 famílias cadastradas e todas elas possuem uma criança ou adolescente que não tem pai, mãe ou ambos os familiares.

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A maioria dos refugiados sírios que estão no Líbano moram em barracas, sobrevivem de doações e recebem menos de 200 dólares por mês das Nações Unidas. Os relatos da perda dos pais dessas crianças e como elas chegaram no país vizinho são comoventes.

Om Daham, 44, vive esse drama e tem uma história muito peculiar. Ela cuida de 17 crianças e adolescentes, sete dela e o restante de parentes que morreram durante os bombardeios na Síria.

Om Daham, 44, vive o desafio de criar 17 crianças e adolescentes, entre filhos e parentes. Na foto, parte da família que vive em uma casa simples no Líbano.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Por muito tempo todos viveram em um campo, moraram em tendas em uma situação precária, mas com a ajuda do marido que faz alguns serviços temporários conseguiu alugar uma casa humilde por 200 dólares mensais em Bar Elias, uma vila do tradicional Vale do Bekaa.

É nessa casa de três cômodos que o casal cria, desde 2013, os sete filhos (o oitavo, que tinha dezenove anos, morreu durante o conflito), mais três do cunhado e sete de um outro cunhado.

Porta de entrada da casa de Daham no Líbano.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

A mudança de país

Om Daham conta emocionada e bem baixinho, para que os filhos não revivam esses momentos tristes, que as famílias viviam juntas em uma cidadezinha no interior da capital Damasco e a casa foi atacada por um bombardeio aéreo. Depois da morte dos parentes, ela nem pensou duas vezes: pegou todas as crianças e partiu de ônibus para o Líbano.

“Meu mundo acabou. Um dia eu tinha tudo e no outro não tinha nada. Sabia que a responsabilidade era grande, mas não podia deixar as crianças abandonadas. Consegui a permissão e fui embora de lá com todas elas”.

A vida na Síria era tranquila, a família tinha casa própria e o marido trabalhava com compra e venda de terras. “Não faltava nada, eu amava meu país, até que a guerra começou e não tivemos mais paz”, concluiu.

Em casa humilde, a síria Daham cria 17 crianças e jovens em vila no Líbano.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

O dia a dia da família

Em um cômodo, a mulher dorme no chão com 10 crianças. No outro, dormem os mais velhos com o marido dela. Os menores não lembram exatamente o que aconteceu e a maioria nem tem recordações dos pais. Daham é chamada de mãe pelos pequenos e de tia pelos jovens. As duas garotas mais velhas, de 16 e 17 anos, ajudam na criação dos irmãos. “Não é fácil cuidar de todos, mas já temos a nossa rotina e funciona muito bem. Temos poucas roupas, a comida é limitada, mas conseguimos comer, dormir e graças a Deus consegui escola para todos”, contou aliviada.

Os mais velhos, que presenciaram a morte dos pais ainda sentem os traumas, passam mal quando ouvem barulhos de bombas e sofrem pela falta dos familiares. “Para eles é mais difícil, mas tento conversar bastante para que nunca desistam dos seus sonhos. Não tem muito o que fazer a não ser termos força, esperança, batalhar muito e pensar no futuro”, ressaltou a mãe.

A rotina de Daham se resume em levar e buscar os filhos na escola, cozinhar e orar. A muçulmana praticamente não sai de casa, o custo é muito alto para passear com todos e ela não deixa os filhos sozinhos nem um minuto. “Anulei a minha vida, eles são hoje meu maior motivo para não desistir. Quero que todos estudem, trabalhem e consigam ter uma vida digna”.

Família síria se vira com instalações humildes para criar filhos e parentes no Líbano.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Quando começou a guerra, o Líbano tinha cerca de 4 milhões de habitantes. Desde então, recebeu mais de um milhão de moradores do país vizinho. Ao todo, de acordo com o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), são cerca de 5,5 milhões de sírios vivendo como refugiados em outros países – especialmente em nações vizinhas, como Líbano, Jordânia e Turquia.

Adoção de crianças sírias por brasileiros?

Diante dos horrores da guerra – entre eles, os órfãos que produz – há pessoas no mundo inteiro que se manifestam interessadas em adotar crianças sírias. No entanto, esse desejo é mais complicado do que o ato dá a entender.

No Brasil, a adoção de crianças sírias não é permitida por duas razões. A primeira é que a Síria não é signatária da Convenção de Haia, o que é primordial para que adoção internacional aconteça; a segunda é que existe uma determinação da ACAF (Autoridade Central Administrativa Federal), ligada ao Ministério dos Direitos Humanos, que proíbe a adoção de crianças de países que estão enfrentando problemas como guerras, catástrofes, ocupações, qualquer situação de conflito.

“Isto ocorre por conta da segurança jurídica que fica prejudicada, pois nessas condições não há como saber se as crianças em tela, estão apenas separadas de suas famílias, se as famílias estão procurando por elas, não há documentos nem registros e isso facilita e muito o sequestro internacional”, esclareceu Marcelle Vasconcelos, técnica de atividade judiciária da através da CEJAI (Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional).

Hoje, a única maneira de adotar uma criança síria é contatar diretamente o governo do país, mas a burocracia é grande e até o momento nenhum caso foi concretizado no Brasil.

Repórter do MigraMundo foi recebida por Dahan no quarto improvisado onde a família dorme.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

E não é somente a lei que impede que as crianças vivam em outro país. Em geral elas acabam acolhidas e adotadas por algum parente que sobreviveu ao conflito – como o caso das dez crianças sob os cuidados de Om Dahan e do marido. Além do amor pelas crianças, a religião muçulmana não aceita a adoção.

Questionada se ela permitiria que um de seus filhos saísse do país para viver com outra família, Dahan foi direto ao ponto. “Nem dormir com meu marido eu durmo mais. Há cinco anos passo a noite abraçada com meus filhos. Aqui eles não têm luxo, não têm uma vida maravilhosa, mas tem amor, somos unidos e vamos continuar assim até o final”, concluiu.

Festa do Imigrante leva público a viagem cultural sem sair de São Paulo

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Ballet Folclórico Boliviano foi uma das atrações no palco do primeiro dia da 23ª Festa do Imigrante. Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

Evento mescla dezenas de nacionalidades, histórias e emoções de quem é imigrante, descendente ou simplesmente adotou para si uma nova cultura

Por Antonella Vilugrón Pulcinelli
Em São Paulo (SP)

Ir da Rússia a Camarões ou da Bolívia à Coreia do Sul em poucos passos. Começar o dia ouvindo e assistindo apresentações da Ilha da Madeira e terminar com uma dança polonesa. Ou degustar um almoço congolês, uma sobremesa peruana e beber um chope típico alemão ou uma cerveja lituana.

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Essas e outras combinações mirabolantes são possíveis na Festa do Imigrante, que chegou à sua 23ª edição e teve início neste final de semana (dias 09 e 10/06) em São Paulo. Assim como em 2017, cerca de 50 nacionalidades estiveram representadas por imigrantes, descendentes e admiradores de culturas diversas – do Chile ao Vietnã, da Itália a Moçambique, da Noruega à Síria.

A Festa do Imigrante estava prevista para começar em 3 de junho, mas precisou remanejar suas datas devido à paralisação de caminhoneiros no final de maio, que causou atrasos na entrega da infraestrutura do evento e de produtos usados pelos expositores. Com isso, a data final da festa foi estendida para o próximo sábado (16).

Opções gastronômicas de dezenas de países estão disponíveis na Festa do Imigrante.
Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

A festa conta com 49 barracas de comidas típicas e outros 29 estandes com artesanatos de diversos países. Neste o evento contou com atrações como o espaço “Sabor Paulista” – onde foram dadas oficinas de culinária ministradas por cozinheiros de comunidades imigrantes. Aconteceram também workshops de dança e música, como a Ciranda à Moda Grega e a Dança do Dragão Chinês.

Uma novidade da edição deste ano é o espaço denominado Empório, idealizado para oferecer produtos artesanais como pães, vinhos, queijos, cervejas e sucos preparados por imigrantes e descendentes.

Ballet Folclórico Boliviano foi uma das atrações no palco do primeiro dia da 23ª Festa do Imigrante.
Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

Assim como nos anos anteriores, a Festa do Imigrante contou com o espaço “Faz de Conta”, criado para ensinar as crianças sobre outras culturas de uma forma bem divertida. A apresentação fica por conta dos grupos As Clês, Agrupamento Teatral e Teatro por um Triz.

Aprendizados e emoções

Em cada apresentação, barraca e espaço dentro da festa era possível ver a alegria das pessoas que estavam ali mostrando a cultura de seus antepassados e/ou que adotaram uma cultura migrante para si.

“É extremamente gratificante participar da festa porque a gente acaba expandindo um pouco mais da cultura, as pessoas tem oportunidade de conhecer outros lugares”, contou a professora de dança Gisele Cortez, do Espaço Artístico e Terapêutico Malaika, que levou danças de países árabes ao evento – especialmente a famosa dança do ventre.

Espaço Artístico e Terapêutico Malaika, que levou dança do ventre à Festa do Imigrante.
Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

“Para mim o museu é acima de tudo uma emoção grande. Desde muito pequeno, a primeira vez que eu dancei aqui foi primeira ou segunda edição da festa. Nós fazemos a barraca, na barraca eu tenho a receita de vodka da minha família que meu avô trouxe para o Brasil, as comidas também, o artesanato… São coisas que gente via como intangível quando meu avô era vivo. A gente faz questão de tanto na alimentação quanto no artesanato tornar isso acessível para todo mundo conhecer”, conta um emocionado Daniel Petrika Pasicznik, descendente de russos e integrante da Cia. Balalayka de Dança e Folclore da Rússia. “Quem me vê aqui na barraca contanto história o tempo inteiro, o que eu aprendi aqui em vários anos, sobre tradição, sobre família, sobre juntar uma colônia, sobre tudo. Eu cresço aqui todo ano”, completa ele, que também ajudava em uma das barracas representando a Rússia na festa.

O Arsenal da Esperança

Além do Museu da Imigração, o espaço da antiga Hospedaria do Brás também é ocupado pelo Arsenal da Esperança – que é justamente onde ocorre a maior parte da festa.

O Arsenal da Esperança é uma casa criada em 1996 pelo SERMIG – Fraternidade da Esperança, que acolhe nas mesmas instalações onde funcionou a Hospedaria cerca de 1.200 homens em situação de vulnerabilidade social todas as noites. Nesses seus anos de funcionamento já foram acolhidas mais de 58 mil pessoas, 5 milhões de atendimentos realizados e 15 milhões de refeições servidas.

Um dos dormitórios do Arsenal da Esperança, que recebe a Festa do Imigrante junto com o Museu da Imigração e abriga cerca de 1.200 homens em situação de rua por noite.
Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

Durante a Festa do Imigrante os dormitórios do Arsenal ficam abertos para visitação, e o refeitório é utilizado pelas pessoas que comem no evento. Quem quiser colaborar com o trabalho feito na casa pode comprar itens de artesanato vendidos em uma barraca dentro da festa ou visitar o bazar, que fica aberto todos os dias.

Como a Festa do Imigrante só termina no próximo sábado, ainda dá tempo de fazer (ou refazer) sua volta ao mundo sem precisar sair da antiga hospedaria.

Imigração japonesa é homenageada em evento na Paulista Aberta

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Evento na Paulista celebrou os 110 anos da imigração japonesa no Brasil. Crédito: Amanda Louise

Celebração aos japoneses no Brasil se soma a outras manifestações culturais de migrantes que tem ocorrido na avenida aos domingos

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 12h30 em 11/06/18

Neste ano completam-se 110 anos da imigração japonesa para o Brasil, que teve como ponto de partida a chegada do navio Kasato Maru no porto de Santos em 18 de junho de 1908. Por esse motivo, uma série de eventos tem sido promovidos ao longo deste ano para celebrar esse marco.

Uma dessas atividades aconteceu na Paulista Aberta, no último domingo (10), mais exatamente em frente à Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), no qual o Centro Cultural da Fiesp promoveu sua homenagem à presença japonesa no Brasil e no Estado de São Paulo.

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O evento foi marcado por diversas atividades para animar os presentes – de lutas a danças tradicionais japonesas, enaltecendo a história e cultura nipônica.

Evento na Paulista celebrou os 110 anos da imigração japonesa no Brasil.
Crédito: Amanda Louise

Vitor Kobayashi, presidente de honra do Instituto Paulo Kobayashi – dedicado a projetos de educação, inclusão e cidadania – é um dos coordenadores do evento. Ele explica que é uma homenagem da Fiesp aos imigrantes, e destaca a importância da comunidade nipônica receber esse carinho.

“Se hoje, a gente recebe aí diversas influências e de diversas culturas, a cultura vem bem representada pelos seus imigrantes”, completa.

A YouTuber Débora Hudz, que nasceu no Brasil e mora há 18 anos no Japão, também esteve presente no evento para falar sobre o trabalho que desenvolve no canal. É a primeira vez que pisa em terra tupiniquim após anos e diz estar muito animada e surpresa com a quantidade de nikkeis no país.

Ela enfatizou que 90% dos seguidores são brasileiros, que acompanham seus vídeos sobre sua experiência no Japão.

Entre Taikôs e danças folclóricas, o público que lotou a frente da Fiesp, manteve-se animado e participativo durante toda a celebração – inclusive quando a bateria da escola de samba Águias de Ouro subiu ao palco como exemplo de união entre as culturas brasileira e japonesa.

Em 2015, a escola de samba paulistana levou ao Carnaval daquele ano um enredo sobre a imigração japonesa.

Migração e Paulista Aberta

Além do evento dedicado à migração japonesa, a Paulista Aberta já recebeu outras atividades relacionadas às migrações.

Grupos folclóricos bolivianos já marcaram presença na Paulista aos domingos, como na programação que antecedeu o Fórum Social Mundial de Migrações, que aconteceu em julho de 2016 na capital paulista. E também já ocorreu uma roda de conversa sobre migrações, dias depois de um protesto xenófobo ter ocorrido na mesma avenida.

A Paulista Aberta também foi palco das duas últimas edições da Marcha dos Imigrantes, tradicional manifestação das comunidades migrantes de São Paulo – tudo leva a crer que o ato volta à avenida neste ano.

Contra “chutes”, Boa Vista faz mutirão de cadastramento de venezuelanos

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Mutirão promovido pela Prefeitura de Boa Vista mapeia venezuelanos que vivem na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo

Ação vai continuar ao longo da semana; resultados devem ser apresentados ainda neste mês

Por Nayra Wladimila e Rodrigo Passoni
Em Boa Vista (RR)

Quantos venezuelanos estão em Boa Vista atualmente? Mesmo as cifras oficiais atualmente são consideradas confusas, o que dificulta a adoção de políticas públicas e gera ainda mais desinformação e preconceito contra os migrantes.

É com o objetivo de responder a essa pergunta da forma mais próxima possível da realidade que uma força-tarefa organizada pela Prefeitura de Boa Vista foi realizada neste sábado (09) em 34 escolas municipais da capital roraimense.

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Segundo Elisabete Soares, coordenadora do Braços Abertos, programa municipal que encabeça a ação, a ideia é mapear todos os venezuelanos que estão na cidade: os que moram de aluguel, os que estão na rua, e os que estão em abrigos. E dessa forma, entender melhor as necessidades dessa população para melhor atendê-la.

“A gente sabe que alguns estão aqui de passagem para outra cidade ou país, outros querem juntar dinheiro e voltar para a Venezuela. Queremos entender os motivos deles estarem aqui para que possamos fazer planos melhores de trabalho, para q a própria Prefeitura possa trabalhar melhor naquilo que é obrigação dela que é a saúde básica, a educação básica”, explica.

Mutirão em Boa Vista mapeia venezuelanos que vivem na cidade.
Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo

A própria coordenadora do Braços Abertos concorda que a informação dos 40, 50, 60 mil venezuelanos em Boa Vista se trata de “um chute”, já que a conta é feita a partir das entradas e saídas pela fronteira em Pacaraima.
“Só que nem todo mundo que entrou, saiu pela mesma fronteira ou ficou em Boa Vista. Passaram 40 mil pessoas por lá, mas não necessariamente elas estão aqui, elas podem até mesmo terem voltado para a Venezuela por outra fronteira”, completa.

Luís Alexis Otamendys, 24, foi um dos migrantes que participou da ação. Vivendo em Boa Vista há um mês, mora na rua (mais precisamente a avenida Ataíde Teive, uma das mais movimentadas de Boa Vista) com a esposa, que era quem fazia o cadastro pela família. Ele trabalhava em padarias na Venezuela e ainda não conseguiu trabalho no Brasil. A ambição do casal e chegar até o Peru, mas estão achando caras as passagens de avião.

A prefeitura recomendava que somente um de cada família fizesse o cadastro de todos, para ficar mais rápido. Também orientava a trazerem o máximo de documentos brasileiros e venezuelanos possível, mas apenas para facilitar o atendimento. Eles poderiam ir sem, desde que trouxessem pelo menos uma identificação com foto.

Na escola municipal Pequeno Polegar, no bairro Treze de Setembro, zona oeste de Boa Vista, onde a reportagem do MigraMundo esteve, eram três as salas onde os imigrantes estavam sendo atendidos. Não havia filas nem tumultos. Todas as escolas contavam com uma sala de espera com um intérprete que explicava em espanhol sobre os motivos do cadastramento de hoje, e sala de recreação para as crianças e adolescentes. Na escola Pequeno Polegar, um filme infantil era exibido em um datashow para entreter as crianças.

Luís Alexis Otamendys, 24, foi um dos venezuelanos atendidos pelo mutirão.
Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo

Próximos passos

A partir de segunda-feira (11), o atendimento aos venezuelanos será feito no Centro de Informação, localizado na Avenida Brasil, em frente à Polícia Federal. Os abrigos também serão alvo do mapeamento ao longo da semana.

A previsão da Prefeitura de Boa Vista é que os dados do mapeamento sejam divulgados na segunda quinzena de junho.

Essa ação municipal destoa de outras recentes, como o fechamento das praças Simón Bolívar e Capitão Clovis, locais nos quais a população venezuelana em situação de rua se acumulava. Entidades da sociedade civil na cidade criticaram o formato da intervenção, embora boa parte dos que vivam nas praças terem sido levados para os abrigos administrados pelo ACNUR e pelo Exército brasileiro.