Migrantes atravessam ponte na fronteira entre Venezuela e Colômbia.
Crédito: J.P. Cohen/Colprensa/Picture Alliance
Migrantes de diferentes origens vivem o desafio de transformar a fuga em uma nova busca, no caminho para uma nova cidadania
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Em São Paulo (SP)
Quantos são os venezuelanos atualmente em fuga da própria pátria? Por que o fazem aos milhares ou até milhões? Até quando a situação econômica, política e social daquele país continuará expulsando os seus cidadãos? Como se explica tamanha hemorragia?
Muitas são as respostas, mas nem todas se revelam convincentes. Fala-se em desabastecimento generalizado dos produtos de primeira necessidade. Fala-se de confisco de bens móveis e imóveis por parte do governo de Maduro. Fala-se de uma aguda polarização entre duas metades da sociedade. Fala-se de eleições manipuladas, sem a presença de observadores estrangeiros. O que há de verdade, de meia-verdade ou de inverdade em tudo isso?
Independentemente da resposta a tais questões, o fato incontestável é que, desde o governo Chávez, a população segue deixando o país em direção à Colômbia, aos Estados Unidos, à Espanha, à Argentina, ao Chile, ao Brasil, ao Panamá, ao Peru, ao Equador… Para não falar dos estrangeiros residentes na Venezuela que retornam aos países de origem, como é o caso dos portugueses. Evidente que a diáspora venezuelana reflete uma série de fatores combinados, os quais vão desde o boicote internacional até as tensões entre diversos setores da população, passando por uma política econômica permeada de dúvidas e pressões internas e externas.
Combinando todos os fatores em jogo, entre outros, o resultado nu e cru aparece nas fronteiras com a Colômbia e com o Brasil, mais particularmente nas cidades de Cúcuta e Boa Vista. Depois estende-se para o interior desses e de outros países vizinhos. Seus rostos são bem conhecidos: jovens solitários de ambos os sexos, alimentando o sonho do trabalho e moradia; famílias completas com crianças, na esperança de um futuro menos penoso; idosos e doentes, à procura de proteção e saúde; consumidores em geral, em busca de produtos básicos inencontráveis na terra natal; sem dúvida, há também os prófugos e refugiados, fugindo de uma perseguição continuada.
Migrantes atravessam ponte na fronteira entre Venezuela e Colômbia. Crédito: J.P. Cohen/Colprensa/Picture Alliance
O mesmo retrato se repete em outros lugares e outras fronteiras do planeta. Contam-se aos milhares os refugiados Rohingyas, que escapam da teocracia de Myanmar em direção a Bangladesh. Não é diferente com os milhões de sírios que se amontoam nos campos de refugiados da Turquia, nem com os prófugos da região subsaariana que superlotam os alojamentos precários ao norte da Líbia. Ambos impossibilitados de seguir para o velho continente, devido a acordos da União Europeia com esses dois países. Outro tanto ocorre com os haitianos agrupados em Tijuana (México), na fronteira com os Estados Unidos, juntamente com os deportados do governo de Donald Trump. Na ilha de Batam, na Indonésia, cruzam-se os migrantes indonésios e filipinos que tentam alcançar o Eldorado de Singapura. A lista poderia continuar com a situação dos curdos, dos palestinos e de outros povos no interior da África.
Os parágrafos anteriores revelam e ao mesmo tempo escondem uma nova forma de guerra fria. Por trás de quase todos esses conflitos, ocultam-se poderosos interesses dos países centrais, como também dos grandes conglomerados transnacionais. Trata-se de uma guerra fria que inclui, de um lado, violência direta, como na Síria e na faixa de Gaza, e, de outro, disputas de ordem comercial, como entre Estados Unidos, Rússia, China e Europa.
Disso resulta uma nova onda de nacionalismo, fanatismo, racismo, xenofobia, discriminação e terrorismo (para não falar de outros “ismos”). Neste caso, além da pobreza, da miséria e da fome, muitos deslocamentos humanos de massa mergulham suas raízes no fundamentalismo, seja ela de caráter religioso, político ou ideológico.
Não raro os migrantes são perseguidos e fogem devido à própria fé, às próprias ideias ou à própria prática política. Somando-se àqueles que fogem de condições subumanas de vida, constituem hoje cerca de 250 milhões as pessoas que residirem fora do país em que nasceram, dos quais em torno de 30 a 40 milhões são refugiados. O desafio é transformar a fuga em uma nova busca, no caminho para uma nova cidadania.
Senegal conquistou o bicampeonato da Copa dos Refugiados no Rio Grande do Sul.
Crédito: ACNUR
Time do Senegal levou o bicameponato no Rio Grande do Sul; outros torneios da Copa vão acontecer ainda este ano
Por Rodrigo Passoni
Em São Paulo (SP) Atualizado em 09/06/18, às 11h20
Para a Fifa, entidade que rege o futebol profissional mundial, a Copa do Mundo acontece a cada quatro anos. Mas os refugiados e solicitantes de refúgio que vivem no Brasil contam com sua Copa anualmente desde 2014. E a competição deste ano teve início oficialmente neste fim de semana, começando por Porto Alegre.
Além Cada ano a Copa dos Refugiados conta com um lema específico – para 2018 é ” Não me Julgue Antes de me Conhecer”. As ações em torno dos torneios vão além do futebol e incluem atividades culturais e de conscientização sobre a pauta do refúgio.
Bicampeão na área
A capital gaúcha recebeu uma edição da Copa dos Refugiados pelo segundo ano seguido, reunindo 120 jogadores distribuídos por oito times formados por imigrantes, refugiados e solicitantes de refúgio que vivem no Estado – Senegal, Líbano, Angola, Peru, Haiti, Venezuela, Colômbia e Guiné-Bissau. Os jogos aconteceram em dois estádios – Passo D’Areia, no sábado (02/06), e o Beira-Rio no domingo (03/06), sediando as semifinais e a final do torneio.
E assim como em 2017, o time do Senegal – formado por senegaleses que vivem em Caxias do Sul – levou a melhor e levou o bicampeonato da etapa gaúcha. O título veio após vencer o Líbano no pênaltis por 3 a 1 – no tempo normal o placar ficou no 0 a 0.
Senegal conquistou o bicampeonato da Copa dos Refugiados no Rio Grande do Sul. Crédito: ACNUR
Com a vitória, os senegaleses de Caxias do Sul estão classificados para um novo torneio, previsto para setembro em São Paulo. As outras vagas serão ocupadas pelos vencedores das outras duas edições estaduais da Copa dos Refugiados que ainda vão acontecer: São Paulo, nos dias 21, 22, 27 e 28 de julho; e Rio de Janeiro, nos dias 4 e 5 de agosto. O quarto time será misto, composto por refugiados de diferentes nacionalidades.
Expansão nacional
Iniciada em São Paulo em 2014, a Copa dos Refugiados vem crescendo ano após ano – seja em número de jogos e edições locais, seja pelas parcerias que consegue firmar. A ideia é usar o futebol, paixão nacional do Brasil e esporte difundido mundialmente, para divulgar a questão do refúgio e levar esclarecimento.
“Nós estamos planejando nas próximas etapas de São Paulo e Rio de janeiro multiplicar nossas forças para buscar os parceiros que possam apoiar a copa e abraçar a causa. Através deste projeto, vamos levar o refugiado a ser protagonista no processo da sua própria integração”, explica o congolês Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração e um dos idealizadores do torneio.
Para o ano que vem, o plano é levar a Copa dos Refugiados para mais capitais brasileiras. Curitiba e Brasília são prováveis sedes regionais, segundo Katumba.
São apoiadores do projeto no Rio Grande do Sul o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), a Prefeitura de Porto Alegre (por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Esporte), Associação Antônio Vieira (ASAV), Sport Club Internacional, gestora do estádio B.RIO, Esporte Clube São José, Federação Gaúcha de Futebol, Associação Buriti de Arte, Cultura e Esporte (ABACE), Beat Conteúdo e Relacionamento, Agência Matriz, Fuerza Studio, Uniritter e Sociedade Libanesa.
Vista geral do campo de refugiados no Vale do Bekaa, no Líbano.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Reportagem do MigraMundo visitou campo no Vale do Bekaa, onde vive parte dos sírios deslocados para outros países devido ao conflito que se arrasta desde 2011 – e segue longe de um desfecho
Por Alethea Rodrigues
No Vale do Bekaa (Líbano)
Mesmo sendo primavera, a temperatura no Vale do Bekaa, na região central do Líbano, girava em torno de 27 graus no último dia 15 de maio. E dentro das barracas de lona do campo de refugiados sírios próximo da pequena cidade de Almarj, o calor é ainda maior – principalmente quando o verão chega por lá.
Vestida com uma abaya, roupa que cobre todo o corpo das muçulmanas, a síria Arkan Aldewan, 37, parece não se incomodar com o clima. São seis anos nessa mesma situação.
Arkan e sua família, que vivem em campo de refugiados no Vale do Bekaa, no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Ela contou ao MigraMundo que vivia com o marido e os filhos em Homs, na Síria, uma das cidades mais castigadas pelos bombardeios das forças do ditador Bashar al-Assad.
Em 2011, mesmo ano do início do combate, os seis filhos de Arkan estavam brincando do lado de fora da casa. Um bombardeio começou e o pai das crianças foi chamá-las e acabou sendo atingido por um tiro que acertou a sua cabeça. A cena foi presenciada pelos filhos, e o mais velho, que hoje tem 15 anos, lembra de tudo: “Meu pai morreu na nossa frente. Uma bala entrou na cabeça dele, ele caiu e não acordou mais”, contou Ahmad Alomar, com lágrimas nos olhos.
Após três meses do assassinato, a população começou a deixar a cidade com medo do que estava por vir. Arkan resolveu ir embora com os filhos para o Líbano. “Pedi para cada um escolher algo que gostava muito para trazer e viemos somente com a roupa do corpo. Meu cunhado já estava aqui e me ajudou a conseguir essa barraca para morar com eles”.
Vista externa de uma das barracas do campo de refugiados no Vale do Bekaa, no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, ONG com sede no Reino Unido, 511 mil pessoas já morreram na guerra civil na Síria desde o início do conflito, em março de 2011.
A vida no Campo
Quando começou a guerra, o Líbano tinha cerca de 4 milhões de habitantes. Desde então, recebeu mais de um milhão de moradores do país vizinho. Ao todo, de acordo com o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), são cerca de 5,5 milhões de sírios vivendo como refugiados em outros países – especialmente em nações vizinhas, como Líbano, Jordânia e Turquia.
Vista geral do campo de refugiados no Vale do Bekaa, no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Nesses seis anos no Líbano, a vida da família de Arkan não mudou praticamente nada. A tenda em que vivem tem apenas dois cômodos, para sete pessoas. Não há camas, uns colchões improvisados são colocados no chão e é ali que todos dormem, amontoados. O mesmo local serve de sala – e foi onde a família recebeu o MigraMundo para a entrevista. Em meio a um cheiro ruim, uma pequena lâmpada e uma janelinha improvisada tentavam iluminar o espaço. Apesar das condições precárias, não faltou simpatia, carinho e um cafezinho, tradicional no mundo árabe.
O banheiro é precário e um cantinho que sobrou a mãe usa como cozinha. Quando chove o terreno alaga e o chão de terra faz com que o trânsito de pedestres por ali fique mais difícil ainda.
Banheiro dá uma ideia da precariedade da vida em campos de refugiados como os do Vale do Bekaa. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Quando não estão na escola (muitos estudam em locais próximos dali) passam o dia correndo pelo terreno, brincando, muitas delas nem sabem o que está acontecendo, foram para o Líbano quando eram muito pequenas. Os jovens, que sabem exatamente o que estão vivendo, impressionam com tanta maturidade – provavelmente um amadurecimento precoce devido ao que passaram nos últimos anos.
As 150 famílias que mora neste campo sobrevivem de doações de ONGs que atuam no local. A maioria recebe um auxílio de US$ 180 mensais das Nações Unidas. “Eu tinha uma vida simples na Síria, mas era tranquila. Tínhamos casa própria, trabalhávamos na roça, vivíamos em paz e a família sempre unida”, lembra Arkan. Ela é analfabeta, e por isso sente dificuldade para encontrar emprego. Além disso, não quer deixar os filhos sozinhos em casa e não permite que eles estudem. “Quero meus filhos perto de mim”, concluiu a mãe superprotetora.
Fora da escola e com brincadeiras, crianças passam o tempo no campo de refugiados no Vale do Bekaa, no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Algumas famílias sírias, muito conservadoras, não permitem que os filhos estudem e isso dificulta ainda mais quando paramos para pensar no futuro dessas crianças. A vida da família de Arkan se resume em rezar e permanecer dentro da tenda. Dificilmente saem dali.
Ao ser questionada sobre futuro, a mulher ainda está indecisa. Após relembrar a morte do marido e tudo que passou durante o tempo em que viveu no meio da guerra, expressa com ênfase que pretende permanecer no Líbano.
“Quero voltar para o meu país, mas não agora, quem sabe quando essa guerra terminar. Sobrevivemos de doações, nossa vida é muito difícil, mas pelo menos não corremos o risco de morrer e posso criar meus filhos com mais tranquilidade”.
Arkan: “Quero voltar para o meu país, mas não agora, quem sabe quando essa guerra terminar”. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Essa indecisão faz parte da vida de praticamente todos que vivem refugiados, querem voltar ao país de origem, mas perderam tudo e temem pela própria vida. “O tédio e a ansiedade são os sentimentos que fazer parte da nossa vida, precisamos aprender a conviver com isso. Muita gente não sabe nem o que aconteceu com tudo que deixou para trás. Fico pensando na minha casa, mas dizem que ela nem existe mais. Nossa vida gente segue assim, vivemos dia por dia, vamos ver até quando”, resume Arkan.
Reprodução do vídeo no qual o malinês Mamadou Gassama salva criança pendurada em prédio em Paris.
Crédito: Reprodução
Caso de Mamadou Gassama, que passou de indocumentado a cidadão francês após salvar uma criança em Paris, levanta uma série de debates sobre humanidade – ou a falta dela – no nosso cotidiano. E também como é possível mudar a narrativa negativa em geral associada às migrações
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Um jovem migrante do Mali chamado Mamadou Gassama, 22, virou notícia mundo afora. No último dia 28 de maio, ele arriscou a própria vida para escalar um prédio em Paris (França) e salvar uma criança que estava pendurada no quarto andar. O fato, no entanto, vai além do ato espontâneo de empatia e compaixão pelo próximo, independente de sua origem ou cultura. Também é uma oportunidade – entre tantas outras – de despir a migração dos estereótipos que em geral são associados a ela.
De ilustre desconhecido e sem documentos para viver na França, Gassama virou herói da noite para o dia – chamado inclusive de “Homem Aranha” por alguns meios de comunicação, do G1 à CNN. O ato espontâneo se transformou em um uma onde de apelos para que sua situação fosse regularizada pelo governo. E o presidente francês, Emmanuel Macron, além de o receber no palácio presidencial, anunciou que ele receberia a cidadania francesa e seria integrado ao Corpo de Bombeiros.
Ao mesmo tempo que Gassama conseguiu a garantia de permanecer na França, milhares de migrantes aguardam sua vez de conseguir autorização para residirem sem medo nos países onde vivem. Muitos, aliás, podem nunca conseguir esse documento que é diferença entre viver minimamente integrado a uma sociedade ou ser colocado à parte dela.
Heróis do cotidiano
“Imigrante tem que ralar em dobro para ser visível, seja na escola, no trabalho… triste motivação”, resume o comunicador boliviano Antonio Andrade, diretor e fundador dos portais Bolívia Cultural e Planeta América Latina, ao fazer um paralelo entre o caso de Gassama e o que vê na própria comunidade em São Paulo, onde vive. “A molecada aqui tem que matar um leão por dia”.
Para a produtora cultural colombiana Vivana Peña, que atualmente trabalha em Boa Vista no IMDH Solidário e foi coordenadora do CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante) em São Paulo, Gassama de fato é um herói – assim como outros migrantes pelo que enfrentam no seu dia a dia. “Acho que a França estava precisando de um herói negro e africano para rever seus contextos e olhares racistas e xenófobos. Ao meu ver quem empreende uma viagem dessas é um herói, porque está cheio de coragem e está salvando a ele mesmo e aos seus. Para mim, todos e todas as imigrantes são heróis! Principalmente os que passam tanta dificuldade para chegar no destino e depois para tentarem ser aceitos”.
A ONG francesa SOS Racisme sublinhou num comunicado que “Mamoudou Gassama lembra-nos que as pessoas em situação irregular são seres humanos, com (…) imensa coragem, da qual fazem prova durante a perigosa viagem com destino à Europa”.
Por uma nova narrativa
Em charge, o jornal francês Le Monde debateu a questão a partir de algo que poderia ser considerado como moralidade da cidadania, na qual somente alguns são considerados aceitáveis, e muitos outros não o seriam – a atitude de Gassama o teria “qualificado” a ser um desses poucos aceitáveis.
Esse pensamento, ainda dominante no imaginário, pode ser traduzido pela postagem do porta-voz do governo francês, Benjamin Griveaux, no Twitter: “Este ato de uma imensa bravura, fiel aos valores de solidariedade da nossa República, deve abrir-lhe as portas na nossa comunidade nacional” (tradução livre).
Mamoudou Gassama a eu un comportement héroïque en sauvant à #Paris la vie d’un enfant sans penser à la sienne. Cet acte d’une immense bravoure, fidèle aux valeurs de solidarité de notre république, doit lui ouvrir les portes de notre communauté nationale. #MamoudouGassamahttps://t.co/SdGIQZhRiP
Apesar da visão moralista que em geral incide sobre questões de direito à cidadania, o ato de Gassama pode ajudar a trazer uma nova narrativa sobre as migrações na Europa e em outras regiões do planeta, rebatendo discursos que colocam o migrante como uma ameaça. E em primeiro lugar, de ajudar a ver o migrante, o diferente, como ser humano que é.
“O que me surpreendeu no caso não foi a atitude do homem de subir e salvar a criança. O que me surpreendeu, sim, foi a reação de surpresa das pessoas com o fato daquele moço fazer aquilo, e ser migrante. Foi o desacostumar de olharmos para o diferente como ser humano também”, reflete a comunicadora Ofélia Ferreira, coordenadora do programa de migrações para a América do Sul da Fundación Avina.
Já a cientista política Patrícia Nabuco Martuscelli, que já colaborou com o MigraMundo em 2017, crê que a história de Gassama ajuda a quebrar o discurso político do imigrante como o criminoso. Para isso, usa o contexto atual do debate sobre migrações nos Estados Unidos, onde vive como pesquisadora sobre o tema.
“Infelizmente, analisando discursos sobre imigração de presidentes americanos, o imigrante tem seu valor reconhecido de três formas: histórica (como criador da nação), econômica (como trabalhador e grandes empresas) e moral (no caso dos americanos, que são descendentes de imigrantes). Fora desse discurso, temos a visão Trump de imigrante como criminoso, membro de gangue, estuprador e animal. Infelizmente não se reconhece o valor humano da migração”.
Mamadou Gassama em encontro com o presidente francês, Emmanuel Macron. Crédito: Reprodução/YouTube
Já Raphael Glucksmann, diretor de redação da Nouveau Magazine Littéraire, acredita que o ato de Gassama deve permitir lançar luz sobre os problemas do tratamento dos migrantes, e não deve escondê-los atrás de uma cortina de fumaça
“Que o ímpeto de generosidade em torno de Mamoudou Gassama se estenda aos invisíveis, aos sem direitos e desabrigados que nossas políticas repressivas produzem. E aí podemos ser felizes juntos. E orgulhosos também”.
Charge compara o ato de Mamadou em Paris com o de milhares de outros migrantes como ele, ao tentar chegar à União Europeia.
Crédito: Reprodução
Caso do malinês transformado em herói na França levanta reflexões sobre os desafios que outros migrantes como ele vivem na tentativa de chegar à Europa – e depois que já estão nela
Por Maria Dantas*
De Barcelona (Catalunha/Espanha)
O Mamadou Gassama é uma das 62.219 pessoas refugiadas que chegaram à Europa pelo Mar Mediterrâneo em 2017, das quais 1.689 estão mortas ou desaparecidas, de acordo com a OIM (Organização Internacional para as Migrações).
O Mamadou fugiu do Mali, um país que sofre uma guerra civil há 6 anos e tem constantes ataques violentos de grupos armados.
O Mamadou, fugindo, procurando refúgio, passou por Burkina Faso, país vizinho onde há 53.512 pessoas no campo de refugiados de Mberra e que somente nas últimas semanas, cerca de 3.000 pessoas fugiram para lá, de acordo com o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).
O Mamadou queria ir à Europa, encontrar refúgio, continuando a sua viagem passou também por Níger, outro país vizinho, onde as pessoas migrantes e refugiadas morrem de sede no deserto, são quase todas subsaarianas ansiosas por chegar à Europa, expulsas e extorquidas pelas máfias, que as deixam na estrada, no meio do nada, perdidas e sendo engolidas pela areia quente do Saara.
O Mamadou queria chegar à Europa dos sonhos, mas tinha que passar pela Líbia, o país inferno para as pessoas refugiadas, e pior ainda depois que a União Europeia fez um pacto com a Turquia para acabar com o trânsito do refúgio em 2016 e conseguiu deslocar o caminho para a perigosa rota do Mediterrâneo central; rota na qual morreram e desapareceram 15.000 pessoas nos últimos 4 anos, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras.
Na Líbia, as máfias tatuam números na pele das pessoas refugiadas, são escravas. As pessoas que querem embarcar da Líbia para a Itália passam por situações terríveis nas mãos das máfias. Quando são encontradas no mar, passam por torturas, abusos, sequestros, são vendidas nas praças públicas como escravas, e quase todas as mulheres que passaram pelo país, com destino à Europa, relatam ter sido estupradas.
Charge compara o ato de Mamadou em Paris com o de milhares de outros migrantes como ele, ao tentar chegar à União Europeia. Crédito: Reprodução
O Mamadou continuou a sua viagem, da Líbia foi para a Itália num barco, que seguramente triplicava o número normal de pessoas à bordo, e que foi perseguido pela Guarda Costeira da Líbia. Ele não sabe, mas a prioridade da Itália e de toda a União Europeia não é resgatá-lo, senão interceptar o seu barco e devolver todas as pessoas refugiadas à Líbia novamente, e para tal, utilizam a força dos barcos da Guarda Líbia para impedir, em pleno mar, a viagem das refugiadas. O Mamadou tampouco sabe que quando a Guarda Costeira Líbia encontra um barco de refugiadas à deriva, aproxima-se e exige que subam à bordo do seu navio, muitas vezes batem nas pessoas refugiadas com as grossas cordas do navio, jogam as refugiadas escada abaixo quando estão tentando subir à bordo (foi tudo gravado por uma ONG).
O Mamadou nem imagina que a União Europeia externaliza a sua política migratória e paga à Líbia e ao Marrocos para que façam esse trabalho sujo, para que ponham freio à entrada de pessoas refugiadas na Europa. A hipocrisia colonial sempre quis “tomar as rédeas” para “salvar” a África dos males que eles mesmos, os europeus, criaram. Neste sentido, nos últimos anos, a França interveio na Costa do Marfim, na República Centro-Africana, no Chade, no Djibuti, na Líbia, no Sudão, na Tunísia, no Egito e no Mali, este último, o país onde nasceu o Mamadou.
O Mamadou conseguiu chegar à França e foi à Paris dos seus sonhos, mas caminhando pela cidade topou com a “calçada da vergonha”: vários campos improvisados de pessoas refugiadas, na calçada, bem na frente da France Terre, umas das ONG que gerencia a acolhida de refugiadas (PADA). Centenas de pessoas da Somália, Eritreia, Etiópia, Sudão, Guiné, Chade, Burkina Faso, Líbia, Mali … dormindo no chão, ao relento, durante muitos dias, até poder entrar no local para ter algum tipo de ajuda.
O Mamadou não sabe que pode ser preso e deportado na União Europeia e pensa “Eu não sou um criminoso, não vão me tratar mal nem me prender!”, mas o que ele pode esperar de um dos principais países responsáveis pelos bombardeios na Síria, no Iêmen e em tantas outras regiões? O que ele pode esperar de um Estado que fumiga campos de refugiados (Calais), denega milhares de petições de asilo e proteção internacional nas suas fronteiras terrestres, que deixa crianças e grávidas refugiadas ao relento, que tem uma das políticas migratórias mais restritas da Europa?
O Mamadou e todas as pessoas migrantes são heróis e heroínas por manter-se vivos após uma longa e terrível viagem, pulando cercas de 8 metros com arame farpado, cabos elétricos, mordidas de cães, cassetetes de policiais, prisões frias e sujas, sem ter papéis de residência ou nacionalidade, sofrendo violências físicas e psicológicas, privações de todo tipo e violações de direitos básicos, que sofrem diariamente na Europa. São heróis e heroínas, obrigados a ganhar a vida clandestinamente como vendedores ambulantes, empregadas domésticas, pedreiros, peões, babás, … que tentam sobreviver nessa Europa onde cada dia cresce ranço racista, xenófobo e fascista.
O Mamadou Gassama não precisa de que um senhor branco europeu lhe conceda uma medalha de herói por ter salvo uma criança. Ele já era um herói.
Hipocrisia
A França acaba de aprovar uma das mais rígidas leis dos últimos anos.
A nova lei de asilo e imigração do Executivo de Emmanuel Macron é um texto que certamente complicará a vida das pessoas refugiadas que procuram asilo, uma lei que endurece, ainda mais, a atual política migratória francesa.
O novo texto legal traz novidades desumanizantes, como por exemplo aumentar de 45 a 90 dias o período de prisão de imigrantes nos Centros Administrativos de Detenção (CRA), inclusive há a possibilidade de que crianças também sejam privadas de liberdade; reduzir de 120 para 90 dias o prazo para apresentar o pedido de asilo; reduzir de onze para seis meses o período de instrução e recurso dos processos, com o objetivo de acelerar a expulsão dos imigrantes; reforçar o “crime de solidariedade”, que julgará e multará à cidadania que ajude as pessoas imigrantes e/ou refugiadas; aumentar de 16 para 24 horas o período de retenção administrativa para verificar se uma pessoa tem uma autorização de residência na França; e outras mumunhas mais.
Ninguém é ilegal!
P.S.: o nome do Mamadou Gassama foi repetido diversas vezes no texto a propósito, porque a mídia em geral não o fez.
Maria Dantas é jurista e ativista social pelos direitos humanos. Vive em Barcelona. O texto foi publicado originalmente em seu blog pessoal – acesse aqui
Ligado ao Ministério da Justiça, o CONATRAP é um comitê nacional de enfrentamento ao tráfico de pessoas e que é integrado por 26 membros, entre entidades da sociedade civil, do poder público, dos ministérios do governo federal e da Defensoria Pública da União. Ele existe desde 2013 e ajuda a propor ações e estudos para enfrentamento ao tráfico de pessoas, acompanha a adoção das políticas destinadas ao tema, se articula e dá apoio a comitês semelhantes em Estados e municípios, entre outras atribuições.
Novos integrantes do CONATRAP, que tomaram posse em maio/2018 em Brasília. Crédito: Divulgação/Ministério da Justiça
“Este trabalho é imenso e desafiador. Do nosso lado, estaremos disponíveis para discutir, conhecer sempre mais e tomar medidas efetivas para evitar que cidadãos sejam vítimas desse crime. O meu aplauso, admiração e apoio a esse trabalho”, disse o ministro da Justiça, Torquato Jardim, durante a posse dos novos membros.
Confiança e responsabilidades
Para as instituições eleitas, a participação em um comitê como esse ajuda a levar o recorte migratório a outros atores envolvidos no combate ao tráfico de pessoas. Também representa um voto de confiança dado pela sociedade – que serve de reconhecimento pelo trabalho realizado, mas também traz novas responsabilidades.
“Por meio da participação nesse comitê será possível levar para uma rede nacional, que é ainda maior, a temática da migração como um direito relevante. E esse direito, quando não recebe o devido cuidado, pode ser distorcido e levado ao trabalho escravo e ao tráfico de pessoas”, destaca o CAMI em nota no site da instituição.
Reunião ordinária do CONATRAP, em Brasília (maio/2018). Crédito: Divulgação/Ministério da Justiça
Para a irmã Rosita Milesi, diretora do IMDH e representante titular da instituição no comitê, trata-se de um espaço privilegiado que deve ser bem aproveitando para contribuir efetivamente no enfrentamento ao tráfico humano.
“Muitas pessoas expressaram confiança no IMDH, o que nos anima, mas também aumenta nossa responsabilidade para corresponder com nossa atuação persistente, efetiva e corajosa, sendo portadores das demandas sociais para enfrentar esse triste mal degradante que é ainda timidamente conhecido e que ocorre, sem escrúpulo, sem pátria e sem fronteiras”.
Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima.
Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil
Retórica sobre os migrantes é impregnada por preconceitos e reforçada pelo senso comum e pela falta de informação das pessoas
Por Nayra Wladimila
Em Boa Vista (RR)
Quando alguém relata um assalto em Boa Vista-RR, as outras pessoas logo perguntam: “O bandido era venezuelano?”. Os imigrantes estão na boca de quem reclama do crescimento da criminalidade e também do aumento da demanda por serviços essenciais, como saúde e educação.
Mas até que ponto esta retórica não estaria impregnada por preconceitos? Para o professor doutor João Carlos Jarochinski Silva, coordenador e professor do curso de Relações Internacionais e professor permanente do Mestrado em Sociedade e Fronteiras, ambos da Universidade Federal de Roraima (UFRR), é muito mais fácil para o poder público culpar os venezuelanos e outros migrantes pelos problemas já existentes em Roraima do que buscar soluções.
“Ainda mais porque é ano eleitoral, o governo do Estado está com alta rejeição, e grupos políticos estão abocanhando parte do seu eleitorado. Então é preciso para eles retomar esta retórica para atrair para si o público mais conservador”, explica.
Em entrevista para o MigraMundo, Jarochinski pontua ainda o impacto das mídias – tanto as tradicionais como as redes sociais – em uma narrativa negativa sobre o fenômeno migratório.
MigraMundo: Quão realista o senhor acha que são esses discursos [sobre os venezuelanos serem culpados pelas falhas em serviços público e aumento da violência? João Carlos Jarochinski: É natural que um aumento populacional, como está ocorrendo em Roraima, gere em tese mais demanda por serviços públicos e aumento da criminalidade. Tem havido um crescimento da violência no Estado por causa do rompimento do acordo entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Amigos do Norte, causando assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios, mas isso é na grande criminalidade. As infrações cometidas por venezuelanos não são a maioria, e geralmente são de menor potencial ofensivo: furtos de pequenas posses, como alimentos e celulares.
O aumento da criminalidade daqui é muito mais uma percepção social, formada pelo que é divulgado nas redes sociais e pelo exagero dos programas policiais. Daí é importante problematizar: estas pessoas estão há quanto tempo no Brasil? Porque se estão aqui há um ano e somente agora começaram a delinquir, pode ter sido porque a política pública relacionada a eles não foi efetiva e eles estariam tendo que buscar a criminalidade. Deixar principalmente os jovens nas ruas, com dificuldade de acesso a alimentos e educação, fomenta um campo bastante fértil de aliciamento por organizações criminosas ou para a criminalidade simples.
Imigrantes venezuelanos em praça próxima ao abrigo provisório da Pintolândia, em Boa Vista. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar/2017
Sobre os atendimentos de saúde, não temos uma base confiável de dados, pois eles são divulgados pelo próprio poder público. Além disso, no Estado sempre houve problemas de acesso a produtos essenciais da rede hospitalar, e se há um aumento de pessoas a serem atendidas, isso acaba potencializando problemas que já existiam. No entanto um estudo de setembro de 2017 feito pela DAPP (Diretoria de Análise de Política Públicas) da FGV (clique aqui para acessar e baixar) apontou que 48,4% dos imigrantes nunca usaram o aparelho público de Roraima. Então é muito mais um discurso usado principalmente pelas autoridades para apagar uma história na qual estes serviços já eram ruins. Cria-se um bode expiatório perfeito, que não é eleitor e não vai reivindicar nas urnas.
Na educação, segue-se o que diz a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional): estrangeiros sem documentos são matriculados no 1ª ano do Ensino Fundamental, e após um ano são avaliados para saber se têm condições de irem para outra série. Então, por causa da dificuldade de se obter estes documentos, crianças de 12 anos estão ficando no 1º ano, o que logicamente vai atravancar o acesso de brasileiros ao 1º ano na rede municipal. É o resultado do poder público não estar conseguindo distribuir estes alunos de forma mais eficiente. Deveríamos ter processos mais dinâmicos para desinchar as salas.
Então há problemas causados pela migração, mas há outros que já eram históricos e ela apenas os potencializou. Mas para o Poder Público é muito mais fácil culpá-los do que resolver a situação. Ainda mais porque é ano eleitoral, o Governo do Estado está com alta rejeição, e grupos políticos estão abocanhando parte do seu eleitorado. Então é preciso para eles retomar esta retórica para atrair para si o público mais conservador.
Como a mídia tradicional contribui na propagação de xenofobia?
Em países como Portugal há jornalistas especializados em migrações, e os próprios órgãos de imprensa padronizaram a maneira de retratar estrangeiros (por exemplo: por que vincular a nacionalidade da pessoa ao crime que ela cometeu?). Já no Brasil não há esta setorização, como acontece com o jornalismo esportivo ou o econômico. A problemática migratória sempre apareceu pouco na mídia brasileira, e quando apareceu foi bem mais por motivo de vinculação pessoal do que por algo profissional.
Desta forma, quando os venezuelanos começaram a chegar, houve um tom negativo nas matérias. Mas os jornalistas de Roraima aos poucos foram participando de cursos de capacitação e se preocupando em abordar a situação de forma mais adequada, abrindo espaço para o diálogo, estando de parabéns. A mídia de fora que, muitas vezes na busca de uma narrativa vendável, acaba reforçando estereótipos e criando mais materiais para as pessoas pensarem a migração como um problema. Faz-se aquele discurso emotivo do migrante que perdeu tudo, teve que abandonar os filhos e vir trabalhar até mesmo como profissional do sexo.
Quando você vai em outra localidade, as pessoas perguntam se aqui só há venezuelanos andando na rua. O que não é verdade. A mídia de fora pouco se preocupa em conhecer a dinâmica social, tendo preferido apenas criticar a Venezuela sem pensar em toda a dinâmica mundial do que acontece aqui.
Venezuelanos esperam no posto da Polícia Federal na cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima. A Polícia Federal é a entidade responsável por receber venezuelanos que buscam refúgio ou permissões para permanecer no Brasil. Foto: Reynesson Damasceno/ACNUR
E as mídias sociais?
Elas são uma ferramenta muito interessante. Mas ela permite que, seja pelo anonimato, seja pela formação de grupos de pessoas que pensam de forma parecida, os discursos de ódio se propaguem. A todo momento eles estão disseminando postagens negativas, generalizando um sentimento que não corresponde ao que toda a população pensa. Muitas vezes eles são postados pelas mesmas pessoas com nomes diferentes para criar volume (os perfis fakes).
A dinâmica de divulgação de mentiras tem sido muito bem construída e toca em pontos sensíveis das pessoas, que nem sempre possuem capacidade de discernimento para saber se aquilo é verdadeiro ou não, terminado por compartilhar aquelas ideias.
Esse discurso é diferente do que foi feito em relação a outras migrações recentes (como de haitianos e bolivianos) e de décadas anteriores (como a polonesa, japonesa, árabe)?
Sim. A migração do final do século 19 e início do 20 foi vista pelos brasileiros como uma possibilidade de desenvolvimento, sendo valorizada em muitos lugares do país, principalmente porque foi dominada por brancos. Há uma associação racista de brancos ao desenvolvimento. Não é à toa que os japoneses e libaneses, por exemplo, permaneceram mais tempo em grupos fechados, pois tiveram mais dificuldade de inserção social.
Na dos haitianos, que chegaram pela região Norte, houve um racismo porque aqui na região a presença negra não é tão forte. Há ainda o julgamento de que eles são pobres, desqualificados e vindos de um país periférico. Com os venezuelanos, o racismo é menor, mas existe essa discriminação social. Obviamente que a vulnerabilidade deles nas ruas amplia a sensação de que são muitas pessoas chegando, reforçando essa retórica de que eles só trazem problemas e custos.
Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima. Crédito: Felipe Larozza/REPAM Brasil
Outro agravante é que hoje é mais fácil manifestar suas opiniões e conhecer as opiniões dos outros, graças às redes sociais. Então racismo e xenofobia existiram antes, mas não ficávamos sabendo de tudo e era mais difícil se formarem grupos contrários aos migrantes.
De qualquer forma, essa é uma visão que se esquece de todos os potenciais que esse movimento oferece: aproveitamento de uma mão de obra com ensino superior custeado em outro país, mas que agora pode ser aproveitado pelo Brasil; aquecimento do setor imobiliário com o aluguel de imóveis por eles; crescimento econômico. O comércio do município de Pacaraima, fronteira com o país de Maduro, hoje é muito maior do que a realidade da cidade comporta, devido justamente a abastecer tanto o povo de lá quanto os venezuelanos.
Além disso, ainda há mais brasileiros em outros países do que imigrantes aqui dentro, de um modo geral. O CNIg (Conselho Nacional de Imigração), que historicamente defendeu os brasileiros no exterior, hoje defende as mesmas coisas para os estrangeiros que vêm para cá. Não é um discurso contraditório. Mas até você conseguir convencer a população disso é preciso divulgar muitas informações. Como as pessoas pouco se informam, o senso comum predomina.
Festa do Imigrante reuniu expressões culturais de dezenas de nacionalidades.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
“Mini-volta ao mundo sem sair de São Paulo” tem “Experimente Novas Origens” como lema e terá cobertura do MigraMundo
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP) Atualizada às 12h42 de 03/06/18
Ir da Itália à República Democrática do Congo em poucos passos? Ou fazer um giro por dezenas de países sem sair de São Paulo? Essas combinações são possíveis na Festa do Imigrante de São Paulo, que chega à sua 23ª edição neste ano e vai acontecer entre os dias 9, 10 e 16 de junho, com cobertura do MigraMundo.
A festa estava prevista para começar em 03 de junho, mas teve suas datas alteradas em virtude da paralisação dos caminhoneiros. De acordo com o Museu da Imigração, que organiza evento, o protesto gerou atraso no recebimento do material para montagem da estrutura e escassez de alimentos.
Festa do Imigrante reúne expressões culturais que representam dezenas de nacionalidades. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – jun.2017
Cerca de 50 nacionalidades estarão representadas no evento, com atrações gastronômicas, apresentações de dança e música, artesanato, oficinas e outras manifestações culturais. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada) e dão direito a conhecer as exposições temporárias e de longa duração do Museu.
Uma das novidades deste ano em relação às edições anteriores é o Empório, um espaço com venda produtos artesanais feitos por imigrantes e descendentes de Itália, Espanha, Japão, Portugal e Síria.
Cartaz de divulgação da 23ª Festa do Imigrante. Crédito: Divulgação
O local do evento
Assim como de costume, a festa acontece no espaço da antiga Hospedaria do Brás. O local abrigou cerca de 2,5 milhões de migrantes de todo o Brasil e de diferentes nacionalidades entre 1887 e 1978, quando encerrou suas atividades.
O local atualmente é ocupado pelo Museu da Imigração e pelo Arsenal da Esperança, uma casa que acolhe 1.200 pessoas todas as noites, especialmente aquelas que estão em situação de rua. Quem circular pela festa, aliás, terá oportunidade de conhecer um pouco sobre essa instituição, que dá continuidade ao uso original do edifício.
A Festa do Imigrante é uma oportunidade rara ao longo do ano de estar em contato direto e facilitado com o ontem e o hoje das comunidades migrantes que fizeram e ainda ajudam a fazer a cidade. Para os que ainda não entendem essa complexidade e se apropriam de discursos xenófobos e discriminatórios, é um convite a se despir de uma vez por todas de seus estereótipos.
Para os que já entendem e valorizam essa diversidade, a Festa do Imigrante – assim como outros eventos do gênero – é uma oportunidade de rever amigos e recarregar as energias para as lutas diárias e constantes de quem acredita e sabe que a migração é um direito humano, um fenômeno social que transforma as sociedades ontem, hoje e sempre.
23ª Festa do Imigrante
Data e horário: 9, 10 e 16 de junho, das 10h às 18h
Local: Museu da Imigração – Rua Visconde de Parnaíba, 1316 – Mooca, São Paulo (SP), próximo à estação Bresser-Mooca do Metrô
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: Evento no Facebook ou no site do Museu Programação: acesse aqui
Mulheres refugiadas aguardam atendimento da ONG criada pelo casal brasileiro-libanês no Líbano.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Driblando falta de recursos, instituição procura dar apoio a famílias de crianças que perderam parentes no conflito na Síria
Por Alethea Rodrigues
De Zahle (Líbano)
Há trinta anos, Salwa Jomaa acompanha e auxilia o marido que é presidente do Centro Islâmico, em São Bernardo do Campo (SP). A arrecadação de alimentos e roupas para moradores em situação de rua e muçulmanos que necessitam de ajuda sempre foi algo corriqueiro no dia a dia deles. Mas, assim que a guerra na Síria começou, sentiram a necessidade de ajudar.
Em 2011, o casal abriu no Líbano a ONG Humanitarian Foundation for Social Welfare and Education, e começou a cadastrar famílias que estavam se refugiando no país para auxiliar de alguma maneira. “Não tínhamos escritório, fazíamos tudo em casa. Aos poucos conseguimos alguns voluntários, as doações foram aumentando e só depois consegui alugar um local para desenvolver melhor o nosso trabalho”, contou ela, que é vice-presidente da ONG.
A libanesa-brasileira Salwa Jomaa, que coordena ONG voltada para famílias e crianças refugiadas no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Libanesa, muçulmana e naturalizada brasileira, Salwa morou no Brasil por quase vinte anos. Hoje, passa maior parte do tempo em Zahle, no Líbano, para cuidar da instituição, que se mantém apenas com doações e conta com 22 voluntários fixos, além de receber pessoas solidárias de várias partes do mundo.
Foco em famílias e crianças
O trabalho começou acolhendo a todos os refugiados sírios. Mas por conta da quantidade de doações preferiu dar prioridade às famílias em que há crianças órfãs de pai, ou que não possuem nem pai e nem mãe. Hoje, o Líbano abriga cerca de dez mil crianças que perderam os pais na guerra. Ao todo, de acordo com a mais recente edição do relatório Global Trends, do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), são 1 milhão de refugiados vivendo no país.
Mulheres refugiadas aguardam atendimento da ONG criada pelo casal brasileiro-libanês no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
“A gente faz o que pode. Depois de oito anos de guerra as doações diminuíram, parece que as pessoas cansaram de ajudar ou o dinheiro está realmente curto devido à crise na Europa. Recebemos ajuda da Inglaterra e do Canadá, nenhum outro país tem ajudado. Oramos todos os dias para que a guerra acabe e essas pessoas possam voltar para a Síria, mas isso não depende de nós”, ressaltou Salwa.
As 1250 famílias cadastradas pela ONG estão espalhadas por diversas cidades do Líbano, mas a maioria vive em barracas, nos acampamentos montados pelas Nações Unidas – que também ajudam dando a cada uma delas 180 dólares mensais para que consigam recomeçar suas vidas. As condições das moradias são precárias, mas com as doações e a ajuda financeira essas pessoas conseguem viver dia por dia, pelo menos com o básico.
Barracas nas quais vivem os refugiados no Líbano. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
No último dia 9 de maio, a instituição distribuiu 750 cestas básicas para as famílias sírias cadastradas. Apesar do calor, centenas de mulheres enfrentaram a fila em um espaço cedido pela prefeitura, e conseguiram levar os mantimentos para casa. “Nosso trabalho é transparente, prestamos conta de tudo que recebemos para que as pessoas saibam que o dinheiro e as doações em geral estão sendo usados de forma correta. Além disso, fazemos visitas regularmente na casa dessas pessoas para saber se elas ainda precisam do nosso apoio”, concluiu a fundadora da ONG.
Doloroso recomeço
Na fila, à espera da cesta básica estavam mulheres que guardam dentro de si histórias de vida que emocionam. Dentre elas estava Mona Omar. Com apenas 25 anos, chegou da Síria no dia anterior da entrevista com quatro filhos, de 9, 8, 6 e um ano de idade. O marido foi morto na guerra durante um bombardeio no momento em que recolhia lenha para vender: “Minha vida acabou depois da morte do meu marido. Vim para o Líbano para encontrar com a minha mãe que já vivia aqui e agora preciso pensar no que fazer”, contou a jovem com lágrimas nos olhos.
Quatro meses depois da morte do marido, Mona ainda teve sua casa atingida por uma bomba e perdeu tudo. “Não queria ter saído do meu país, mas perdi tudo. Eu e as crianças viemos para cá somente com a roupa do corpo, não dava mais para continuar morando lá. Estou perdida. Pelo menos há pessoas que ajudam e essa cesta que estou recebendo hoje é a garantia que meus filhos vão comer amanhã”.
Cestas básicas são distribuídas às famílias refugiadas no Líbano que são cadastradas pela ONG. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
A ONG tem parceria com a Islamic Relief, uma instituição internacional que recebe e repassa doações, inclusive roupas e brinquedos para as crianças. Salwa ressalta que além das arrecadações, ela costuma organizar sessões de terapias para mães e crianças que chegam no país completamente abaladas, atividades de recreação com os pequenos para que eles possam esquecer um pouco do passado: “Muitos lembram perfeitamente de tudo que aconteceu, inclusive presenciaram a morte dos pais. Isso é muito dolorido, por isso tentamos amenizar essa dor. Eu amo todos eles, mas tenho um carinho especial pelos órfãos. Eles são maduros, passaram por situações que nem gente grande aguentaria”, concluiu.
Apesar das dificuldades financeiras enfrentadas nos últimos dois anos, Salwa afirma que não vai desistir: “Já pensamos em encerrar nossos trabalhos muitas vezes, mas como fechar a porta na cara dessas crianças que tanto precisam da gente? Eu não conseguiria fazer isso”.
Como ajudar?
A procura de brasileiros por crianças sírias tem aumentado consideravelmente, mas não é possível concretizar essa adoção porque a Síria não é signatário da Convenção de Haia, não existe acordos para adoção de crianças. Além disso, as leis brasileiras não aprovam adoção de crianças que vivem em países que estão em conflito. Mas, se alguém tiver interesse em ajudar ou ser padrinho de uma dessas crianças é só contatar o Centro Islâmico e obter mais informações:
Centro de Divulgação do Islam para América Latina R Henrique Alves dos Santos, 161 – Jardim Américas – São Bernardo do Campo (SP) – CEP: 09725-730
Tel: (11) 4122-2400, (11) 4122-2732 ou (11) 4124-8032
ONG tem seu atendimento focado em famílias e crianças órfãs entre os refugiados. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Grupo faz selfie em frente aos escombros do prédio que desmoronou no centro de São Paulo.
Crédito: Alex Vargem
Testemunhos de migrantes dão uma outra ideia da devastação, das incertezas e das falhas do poder público que ganharam destaque após a queda do chamado “prédio de vidro” em São Paulo
Por Alex André Vargem
Em São Paulo (SP)
A tragédia do incêndio e desabamento do edifício Wilson Paes de Almeida (ou prédio de vidro, para alguns), no dia 1º de maio, evidenciou as fragilidades da política habitacional na maior cidade do Brasil. Mais do que isso, expôs também as fragilidades de uma política migratória que ainda não logrou êxito referente ao acolhimento, considerando que aproximadamente 30% dos moradores, segundo o poder público, eram de outras nacionalidades, além dos demais imigrantes que moram em diversas habitações precárias na cidade de São Paulo.
Durante as primeiras horas do dia 1º de maio, imigrantes e refugiados que habitam no centro de São Paulo já alertavam do acontecimento com transmissões online em redes sociais. Me dirigi para o local bem cedo imaginando o que encontraria. Durante as primeiras horas, transeuntes e curiosos que estavam na avenida São João junto da grade de proteção que foi instalada, realizavam selfies do ocorrido. Do lado oposto, na avenida Rio Branco, estavam os escombros daquilo que até poucas horas atrás era um edifício de 26 andares, com pequenos focos de incêndio e uma forte fumaça e cheiro que impregnavam o ambiente. Iniciavam-se as chamas nos últimos andares no prédio do lado dos escombros.
Tudo isto dava a dimensão da tragédia, em meio aquele cenário: bombeiros, médicos, policiais, enfermeiros, membros da Defesa Civil, alguns órgãos de assistência social e recém-desabrigados do edifício, compostos por brasileiros e imigrantes, que buscavam entender o que se passava.
Grupo faz selfie em frente aos escombros do prédio que desmoronou no centro de São Paulo. Crédito: Alex Vargem
Ações de solidariedade
Personagem central, Mama África, como é conhecida pela sua comunidade, uma senegalesa de 60 anos de idade, há 10 anos residente no Brasil, representava o espírito maternal e a força da mulher africana. Foi ela que nas primeiras horas, ainda de madrugada, organizou as redes paralelas de cooperação e solidariedade junto ao seu grupo de africanos, alguns dos quais muçulmanos. Eles organizaram um café da manhã para os sobreviventes brasileiros e imigrantes que se aglutinavam no Largo do Paissandu. Eles levaram iogurtes, água e pães com margarina. Falavam que tinham que retribuir a hospitalidade que receberam dos brasileiros.
Como habita há poucas quadras do local, foi ela mesma que levou seu colchão e cedeu para crianças desabrigadas na praça que não tinham onde dormir. Além disso, levou duas malas de roupas no fim daquele dia para distribuir para todos e ofereceu a sua moradia para que alguns pudessem tomar banho.
Voluntariamente, migrantes se mobilizaram em favor dos desabrigados após a queda do “prédio de vidro” do Largo do Paissandu. Crédito: Alex Vargem
Com o passar das horas estávamos na área delimitada em constante diálogo com poder público pensando, sobretudo, nos imigrantes sobreviventes e desaparecidos. Junto de nós, Pierre, liderança haitiana se fez presente e atuávamos na mediação e tradução daqueles que não falavam português e consequentemente não entendiam as orientações dadas pelas assistentes sociais e outros agentes públicos. Uma senhora haitiana residente do prédio desabado foi acompanhada pelo haitiano até a ambulância para os atendimentos primários de saúde. Foi alertada que a pressão estava bem alta. Ela só falava o creole haitiano e um pouco de espanhol por ter residido algum tempo na República Dominicana. Era a segunda vez que tinha sua habitação destruída, pois veio para o Brasil logo após perder sua casa por conta do terremoto de janeiro de 2010 no Haiti. Recordava o drama de ficar novamente sem lar.
Um senhor congolês, sobrevivente de um conflito no interior do seu país, estava transtornado com o ocorrido. Com olhar entristecido, olhava para o horizonte. Não queria comer, fumava apenas um cigarro. Comunicava-se em Lingala (língua falada em algumas regiões do continente africano, incluindo parte da República Democrática do Congo) com outro conterrâneo que ficou feliz de saber que estava vivo. Na parte posterior da sua camiseta os dizeres: “Glória à Deus”, se destacavam. Ele relutou, mas foi convencido pelos africanos presentes a ir para a perua que o transportou até o abrigo provisório da Prefeitura.
Enquanto chegavam brasileiros com mais donativos, representantes da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e da Defesa Civil consultavam a Mama África sobre como acolher os donativos e a melhor forma de distribuí-los para os desabrigados. Foi acordado de ficar na Igreja Católica. No interior do espaço, um numeroso grupo de evangélicos traziam os donativos, no caso, alimentos não perecíveis. Africanos muçulmanos também ajudaram a organizá-los.
Na parte de fora, jornalistas eram criticados por alguns militantes que estavam nas comemorações do dia do trabalho na Praça da República. Africanos e haitianos dialogavam com alguns jornalistas em alguns momentos, queriam conceder entrevistas e dar o ponto de vista deles, mas não obtiveram êxito, não tiveram voz.
Migrantes e refugiados também estiverem entre os afetados pelo desmoronamento do prédio no Largo do Paissandu. Crédito: Alex Vargem
Tensões e incertezas
Da mesma forma que houve solidariedade, houve também hostilidade. Quando a senhora senegalesa e a liderança haitiana pegavam donativos para distribuir para os desabrigados, uma senhora brasileira do edifício desabado expressava o seu ódio: “Polícia, polícia, tira eles daqui….eles saem da África para virem perturbar a gente aqui!”. Ambos não aceitaram as ofensas e se defenderam contra argumentando que, mesmo naquela difícil situação, a brasileira que os agredia verbalmente estava consciente dos seus dizeres. Imediatamente, a Guarda Civil Metropolitana interviu e mediou a situação. Eles foram orientados a ficar do outro lado do Largo do Paissandu.
O tempo passava, e era nítido o olhar de desespero. Uma mulher peruana remanescente da antiga ocupação do Cine Marrocos (prédio próximo ao local do desabamento e que foi reintegrado pela Prefeitura no ano de 2016) estava nas escadas da igreja, desolada, sem saber para onde ir novamente. Manifestava sua indignação perante a ausência do poder público, sobretudo, órgãos públicos relacionados à migração. Um nigeriano buscava notícias do seu irmão que estava na ocupação, ele só falava inglês. Num primeiro momento estava feliz de saber que o software de mensagem do celular do irmão estava online, mas não havia respostas. Com o passar das horas, o desespero tomou conta, pois havia a possibilidade de que seu irmão estivesse desaparecido. Um ônibus vermelho de dois andares que realiza o city tour por alguns pontos da cidade passava pelo local, na avenida São João. Alguns turistas no 2° andar realizavam registros fotográficos do episódio.
Nos dias seguintes, as redes de cooperação continuaram. Camaroneses organizaram um panelão de arroz com frango para distribuir para os desabrigados no Largo do Paissandu. Um outro camaronês, vendo as pessoas dormindo na praça, majoritariamente brasileiros, comentava de se criar uma associação para ajudá-los. Novos transeuntes e trabalhadores da região faziam selfies. Um jovem brasileiro residente do edifício desabado conversava comigo:
“Eu vi você estes dias aqui, fique tranquilo, você vai achar o seu parente, ele está vivo! Ele é de que país?”, perguntava. Em seguida, ele me deu um abraço. Sem saber o que responder ao certo, retribui o abraço e respondi com um simples, “obrigado!”.
Redes de solidariedade se formaram entre migrantes e brasileiros como forma de atenuar os efeitos da tragédia, apesar de atos de hostilidade. Crédito: Alex Vargem
Em um grau inferior
Na escala da tragédia, ainda imigrantes e refugiados ficam num grau inferior, seja por conta da língua, seja pelos serviços diferentes em relação aos brasileiros como obtenção de documentos em órgãos específicos. O drama da busca de sobreviventes era latente. Não havia muitas informações precisas do poder público. O repertório de ideias entre imigrantes é importante, considerando que muitos não têm famílias no Brasil, como fazer o reconhecimento de futuros corpos? Pior ainda se tiver que ser feita comparação genética sem saber a nacionalidade de possíveis restos mortais. Quem vai reivindicar o corpo? Considerando também que para além dos familiares, apenas aqueles com vínculos afetivos mais próximos podem fazê-lo, eram algumas das questões dialogadas nos primeiros dias entre as comunidades migrantes.
Os testemunhos eram vários, de sobreviventes ou dos que conheciam pessoas que moraram no edifício. Um haitiano morador do centro falava que pessoas acenavam com a luz do celular no momento do incêndio, outros falavam que latinos, africanos e haitianos ficavam nos últimos andares. Ativistas imigrantes de diversas nacionalidades se organizavam para tentar encontrar os sobreviventes e desaparecidos, e cobraram uma atitude plausível das autoridades.
Um jovem nigeriano sobrevivente comentava da sua produção cultural: “Eu sou um artista, você tem que ver minhas músicas na internet. Eu vou fazer uma música sobre tudo isso que aconteceu!”, declarava. Num restaurante há algumas quadras dos escombros, alguns imigrantes souberam do fato apenas pelos familiares que estão no país de origem, “Minha família viu na CNN, perguntaram se estou bem”, declarava um imigrante. Outros sequer sabiam do ocorrido pela rotina difícil de trabalho diário e pouca integração no país, um deles dizia: “O prédio pegou fogo? Caiu mesmo? Tinha pessoas lá dentro?”
Muitos dos desabrigados após a queda do prédio ficaram acampados no Largo do Paissandu. Outro aceitaram ir para abrigos da Prefeitura de São Paulo. Crédito: Alex Vargem
O que estava em jogo também é o repertório de crenças, valores e cosmovisões, como muitos imigrantes lidam com tragédias e mortes. Isso me lembrou o caso que acompanhei diretamente do amigo, pastor José Bolayengue, congolês de 51 anos que faleceu em janeiro de 2018 por conta de um câncer nos rins, morador de uma ocupação no centro da cidade de São Paulo. Houve a negociação do luto na diáspora, com a comunidade congolesa na cidade e no país de origem. Mas como vivenciar um luto sem saber que os desaparecidos morreram ou estão em outros espaços? Mais do que isso, se as famílias sabem do fato, considerando que há aqueles que sequer relatam para parentes no país de origem que moram em ocupações no Brasil.
Um imigrante relatava: “Não vão encontrar corpos, Deus quis assim para minimizar o sofrimento das famílias”. Já um angolano residente há muitos anos no Brasil, inclusive, foi um dos primeiros a chegar no local do ocorrido, falava da água que levou e cobertores de madrugada para os sobreviventes. Relatava o acidente: “Você viu? 800 graus! Derreteu tudo, até vidro. Dificilmente vão encontrar alguém vivo. O prédio caiu muito rápido. Sentiu o cheiro horrível de cadáveres? É o cheiro da morte aqui! Vocês brasileiros não sabem o que é uma guerra, por mais que milhares morrem todos os anos no país, isso que aconteceu aqui para alguns de nós africanos nos faz lembrar das guerras, lembra as mortes”, e frisou: “Mortos são mortos, por mais que não haja corpos, estão mortos!”.
*Alex André Vargem é sociólogo, pesquisador sobre migrações e refúgio. Possui diversos artigos publicados. Atua na área há 15 anos.