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domingo, junho 28, 2026
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“Não sou o Outro”: Falas de Mulheres Imigrantes no SESC-SP

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Mulheres migrantes protagonizaram discussões no SESC-SP ao longo da semana. Crédito: Divulgação

Mulheres de diferentes nacionalidades foram protagonistas em programação especial voltada aos Direitos Humanos

Por Beatriz de Barros Souza
Em São Paulo (SP)

Nos dias 13, 14 e 15 de dezembro, o Centro de Pesquisa e Formação (CPFor) do SESC-SP recebeu mulheres imigrantes latino-americanas residentes em São Paulo na condição de palestrantes sobre temas afetos aos Direitos Humanos.

A história do SESC contabiliza numerosos eventos com refugiados. Eventos protagonizados por pessoas imigrantes, mesmo que em situação migratória regular, entretanto, são raros nos centros de excelência em produção do conhecimento, como o CPFor. Oriana Jara, que palestrou ao lado de Clara Politi, clamou por mais ocupação desses espaços compostos, em sua maioria, por mulheres “brasileiras ativas e solidárias”, as quais, a seu ver: “realmente podem ser apoios importantes na Democracia de Gênero que nós, mulheres, procuramos”.

Além do público, o evento chamou a atenção pelo formato de mesas temáticas que não levavam o tema das migrações em seu título. Como externou em sua fala de abertura Veronica Yujra, outra palestrante,: “Antes de eu ser chamada como pós-graduanda, sou com frequência convidada a falar nos espaços sobre migração porque faço parte do coletivo ‘Sí, Yo Puedo’, na Kantuta…”. No evento em questão, ao contrário, a questão migratória emergiu de forma transversal, uma vez que os debates foram tematizados segundo as experiências do ativismo dessas mulheres imigrantes.

Mulheres migrantes protagonizaram discussões no SESC-SP ao longo da semana.
Crédito: Divulgação

Rocío Shuña, por exemplo, centrou sua fala nos desafios de tornar o Sistema Único de Saúde (SUS) em um modelo verdadeiramente universal, pois, segundo a própria, esta universalidade consiste em “uma bandeira que a gente levanta junto com os brasileiros”. Jobana Moya levou a discussão da saúde mais para o campo da obstetrícia, afirmando sua opinião de que: “O parto humanizado em São Paulo é elitizado (…), precisa ser levado a todos os espaços.”

O título desta matéria, selecionado de uma fala de Clara Politi, enfim, ilustra a razão pela qual deve-se estimular eventos nas intersecções que, como entre gênero e imigração, normalmente são invisibilizadas na nossa sociedade. Como lembrou Nataly Puente, ao imigrar, muitas vezes: “(…) você está sujeito a ser morto; e muitos imigrantes foram, mas nunca vi isso no jornal.”

Este ano, marcharam os imigrantes na Avenida Paulista pelo fim da invisibilidade. Que ela acabe em todos os espaços, sobretudo naqueles onde menos se nota a sua pesada capa de silenciamento de todas as vozes.

Programação:
13/12. Participação Social x Mulheres Imigrantes em SP
Com Clara Politi (Argentina) e Oriana Jara (Chile).
14/12 – Saúde Pública x Mulheres Imigrantes em SP
Com Jobana Moya (Bolívia) e Rocío Shuña (Peru).
15/12 – Cultura e Educação x Mulheres Imigrantes em SP
Com Veronica Yujra (Bolívia) e Nataly Puente (Peru).

Mediação: Beatriz de Barros Souza (Brasil).

Serviço: http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/encontro-de-mulheres-migrantes

Veja quem são os imigrantes eleitos para os Conselhos Participativos em São Paulo

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Imigrante vota durante eleição para os Conselhos Participativos Municipais de São Paulo, em 2014. Crédito: Fórum Social pelos Direitos Humanos dos Migrantes

Pela terceira vez, imigrantes integram os conselhos consultivos que visam dar maior transparência à administração municipal e funcionar como um canal de participação política e cidadã

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

A cidade de São Paulo conheceu nesta quinta-feira (14) os novos integrantes dos Conselhos Participativos Municipais, incluindo os que vão ocupar as cadeiras especiais para migrantes. Os nomes constam na edição do dia do Diário Oficial do município (clique aqui para acessar).

A eleição foi realizada no último dia 3 de dezembro em todas as 32 Prefeituras Regionais da cidade. A posse dos conselheiros (brasileiros e migrantes) está marcada para 20 de janeiro, no auditório do Anhembi – em horário a ser definido. Os migrantes eleitos vão exercer a função de conselheiros ao longo do biênio 2018-2019.

Treze das regionais contaram com imigrantes candidatos às cadeiras especiais e dez elegeram representantes – para ser eleito, mesmo em caso de candidato único, era preciso receber ao menos um voto.

Imigrante vota durante eleição para os Conselhos Participativos Municipais, em 2014.
Crédito: Fórum Social pelos Direitos Humanos dos Migrantes

Entre os imigrantes, ao todo foram 21 candidatos nas 13 regionais, com 14 deles eleitos. Veja abaixo os nomes de cada um, organizados de acordo com a Prefeitura Regional na qual vão atuar:

Campo Limpo
Yptah Vita

Ermelino Matarazzo
Daniel Colque Andrade

Freguesia do Ó/Brasilândia
Lurdes Entierrez Vargas

Lapa
Elena Olaszek (Argentina)

Mooca
Adhemar Fuantes Terrazas
Neidy Dorado Takana

Penha
Manzambi Panzo Geraldo

Pinheiros
Sergio Alexandre Sanguessuga da Rocha

Santana/Tucuruvi
Daniel Teddy Espinoza Garcia


Moussa Diabate
Obrilfido Quispe Rimachi

Vila Maria/Vila Guilherme
Willma Vega Pereyra

Vila Mariana
Marcela Carolina Cerda Munoz
Andrea Veronica Carabantes Soto

Imigrante vota durante eleição para o Conselho Participativo Municipal, em março de 2014.
Crédito: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

Criados em 2013, os Conselhos Participativos Municipais possuem o intuito de ajudar a fiscalizar o trabalho das Prefeituras Regionais – cada uma tem o seu – e de servirem como instância de representação da população. Eles são compostos por conselheiros eleitos pela própria comunidade, que exercem o cargo de forma totalmente voluntária.

A inclusão dos imigrantes nos Conselhos Participativos Municipais é parte da Política Municipal para a População Imigrante de São Paulo, pioneira e ainda única no Brasil. Esses colegiados são considerados pela Prefeitura de São Paulo e por antigos conselheiros como “organismos em construção“.

A eleição em dezembro foi a terceira na qual os imigrantes puderam tomar parte – as anteriores ocorreram em março de 2014 (biênio 2014-2015) e dezembro de 2015 (biênio 2016-2017).

Conhecer e levar à frente as demandas

Cabe ao conselheiro, seja brasileiro ou migrante, se inteirar das reivindicações da comunidade onde vive e levá-las à Prefeitura Regional correspondente. É o que pretende fazer a chilena Andrea Carabantes Soto, eleita conselheira por Vila Mariana, antes de começar a agir.

“Gostaria de começar conhecendo um pouco das necessidades dos migrantes na região, os problemas que enfrentam. Sou da Praça da Árvore e o que percebo é que se trata de uma região que, embora seja muito diversa, não se reconhece como tal. É uma região que tem muita imigração japonesa, por exemplo. Vejo a diversidade na rua, mulheres muçulmanas, ouço diversos sotaques e idiomas quando ando. Mas por não ter uma comunidade muito forte região e sermos muitos indivíduos de diferentes origens, isso fica diluído”, explica a futura conselheira, que também é integrante da Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas – coletivo formado por mulheres migrantes com longo histórico de lutas em favor das comunidades migrantes, em questões de gênero e do combate às diversas formas de discriminação e violência.

Como migrante residente no Brasil, único país sul-americano que não permite qualquer tipo de participação do imigrante em eleições oficiais, Andrea vê no conselho uma importante ferramenta para dar visibilidade às comunidades. “É importante pelo fato de termos representatividade em espaços comuns, não restritos aos migrantes. E também porque podemos incidir diretamente no cotidiano das regiões onde habitamos”.

Apesar da proibição em eleições oficiais, uma negociação da Coordenação de Políticas para Imigrantes (CPMig) da Prefeitura com outras secretarias municipais e com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) permitiu a extensão do Conselho Participativo Municipal aos imigrantes.

 

Cresce número de universidades públicas com acesso para migrantes e refugiados no Brasil

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Refugiados que vivem no Brasil podem se inscrever em vestibular específico para graduações em determinadas universidades. Crédito: Cáritas Arquidiocesana de São Paulo

Instituições brasileiras têm acesso por seleção documental ou através de processos seletivos especiais; veja a relação das universidades que já contam com programas específicos

Por Amanda Rossa
Em São Paulo (SP)

A educação é elemento  fundamental para a cidadania e inserção no mercado de trabalho, a que todos deveriam ter direito conforme a Constituição Federal de 1988. Embora tenhamos no Brasil a obrigatoriedade de frequência escolar a crianças e adolescentes dos 4 aos 17 anos, o acesso ao ensino superior, além de ser uma escolha, é um direito acessado por poucos. Segundo relatório da OCDE de 2016, apenas 14% dos adultos brasileiros chegam  à universidade. Esse quadro fica ainda mais restrito quando consideramos a população de migrantes e refugiados no Brasil e no mundo.

Uma pesquisa realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2015 sobre o acesso a serviços e políticas públicas no Brasil para migrantes e refugiados esboçou o retrato das dificuldades encontradas em relação a vários direitos, e entre eles, o acesso à educação de nível superior.  Tal situação se articula também com os números sobre migração e infância: dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) de 2016 apontam que 51% dos refugiados, deslocados internos e solicitantes de refúgio do mundo são crianças e adolescentes.  Crianças, adolescentes e adultos, muitos migram em busca de melhores perspectivas de vidas, e tem na educação um caminho para alcançar seus sonhos.

Maravilha é uma dessas pessoas. No Brasil há 4 semanas, ela tem 18 anos e veio da República Democrática do Congo com o sonho de estudar computação. “Tem muito problema de guerra no meu país, deixei minha mãe, meu pai e muita coisa lá… Eu vim pro Brasil e preciso estudar e quero fazer um trabalho decente. Eu acabei meu ensino médio e agora quero entrar na universidade. Falo muitas línguas e adoro São Paulo, posso ajudar o Brasil e espero que o Brasil possa me ajudar também”.

Maravilha tem 18 anos e sonha estudar computação no Brasil. Crédito: Amanda Rossa/MigraMundo

Nos últimos anos, algumas universidades têm criado programas especiais de acesso para refugiados reconhecidos, solicitantes de refúgio e portadores de visto humanitário, impulsionados pelas trabalhos de pesquisa e extensão de professores e alunos, e também pela articulação de redes como a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, vinculada ao ACNUR.

Até o momento são 11 as instituições públicas federais que ofertaram vagas, com mais três instituições com programas em implementação até dezembro de 2017. Dentre as universidades há diferentes critérios de seleção: parte realiza o acesso apenas pela apresentação de documentos, como declaração da condição de refúgio e comprovação de escolaridade, e parte realiza processos seletivos especiais parecidos com vestibulares. Dentre as universidades com processos seletivos especiais, há formas variadas de avaliação, como provas de português e entrevistas, provas de conhecimentos específicos dos cursos pretendidos ou exames vestibulares com questões de múltipla escolha sobre os conteúdos do ensino médio no Brasil. Há também as que aceitam o certificado de participação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como comprovação de escolaridade e método de seleção por nota.

A lista das universidades (veja abaixo) e seus critérios descrevem esses elementos, que levam em consideração editais anteriores e portanto estão sujeitos a alteração. (Se você é migrante, fique atento para a abertura dos chamados “editais”, que contém as regras para cada exame e são lançados com antecedência nos anos com seleção).

Tabela traz as universidades públicas que, até o momento, oferecem processos de seleção especiais para refugiados.
Crédito: Amanda Rossa/MigraMundo

UFTM lança edital para 2018

Dentre as universidades listadas, a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) lançou edital para 2018 com a oferta de 23 vagas adicionais para o primeiro semestre letivo nos campi de Uberaba e Iturama.

A inscrição será efetuada exclusivamente pela internet e poderão ser usados os resultados obtidos pelos estudantes no Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM dos últimos cinco anos, em 2012, 2013, 2014, 2015 ou 2016. O edital está disponível neste link.

As inscrições para o processo de seleção serão recebidas de 3 a 24 de janeiro de 2018, em duas etapas: preenchimento integral das informações solicitadas na ficha de inscrição por meio do link a seguir (goo.gl/cUKwmt), disponível também no site da universidade, e envio de documentos digitalizados para o email ingresso@uftm.edu.br. Dentre as vagas ofertadas, há disponibilidade para os cursos de Agronomia,  Ciências Biológicas, Física, Química, Engenharia Ambiental, Engenharia Mecânica, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Produção, Engenharia Química, Engenharia Civil, Terapia Ocupacional, Serviço Social, Psicologia, Medicina, Letras Português/Inglês e Português/Espanhol, História e Geografia.

O resultado da seleção será divulgado por número de inscrição no dia 5 de fevereiro de 2018, no portal da UFTM.

Refugiados que vivem no Brasil podem se inscrever em vestibular específico para graduações em determinadas universidades.
Crédito: Cáritas Arquidiocesana de São Paulo

Este artigo é resultado da pesquisa realizada para elaboração do paper apresentado no X Encontro Nacional sobre migração da ABEP, intitulado “Imigração e Refúgio no Brasil e os programas de acesso ao ensino superior: levantamentos iniciais dos programas implementados até 2016”

 

As redes globais passam pelos nós das lutas locais

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Fronteiras livres (muito além das físicas), uma das reivindicações da Marcha dos Imigrantes 2017, em São Paulo, com temas locais e globais. Crédito: Filipe Dias

O desafio para a temática das migrações está no equilíbrio entre a atuação local, porém, conectada a uma perspectiva mundial

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
Em Roma (Itália)

Um dos estudos clássicos de Ferdinand Tonnies, Comunidade e Sociedade, vem à luz no final do século XIX, mais precisamente em 1887. De acordo com o título de sua obra, o sociólogo alemão afirma que “enquanto na comunidade os seres humanos permanecem essencialmente unidos, não obstante os fatores que os separam; na sociedade, permanecem essencialmente separados, não obstante os fatores que os unem”. O contexto dessa afirmação é o auge da Revolução Industrial, onde emerge com força o contraste entre o universo rural, de um lado, e, de outro, o universo urbano em franca expansão.

No mesmo período, os estudiosos falam em “século do movimento”. Movimento de navios, trens e carros, mas também deslocamento sem precedentes de pessoas. Produtividade e velocidade são duas grandes inovações dos temos modernos. Enquanto as fábricas vomitam fumaça e produzem bens em série, aqueles que dispõem de recursos podem viajar como nunca. Primeiro, trocando a zona rural pelo mundo urbano, onde “o ar da cidade torna o homem livre”, segundo o provérbio. Depois, com dificuldade de emprego para todos, cruzando os oceanos em busca de pão, paz e pátria nas terras de além-mar. Segundo o historiador alemão radicado nos Estados Unidos, Peter Gay, entre 1820 e 1920, mais de 60 milhões de pessoas deixaram o velho continente europeu em direção às Américas e à Austrália ou Nova Zelândia.

Fronteiras livres (muito além das físicas), uma das reivindicações da Marcha dos Imigrantes 2017, em São Paulo, com temas locais e globais.
Crédito: Filipe Dias

Hoje os deslocamentos humanos só fizeram aumentar. Talvez por isso, em plena modernidade tardia ou pós-modernidade, o tema da convivência comunitária frente à “sociedade racionalizada” (Weber) ressurge tendo como base outro cenário e outro enfoque. O novo cenário é o do neoliberalismo e da mobilidade humana, com fluxos migratórios cada vez mais numerosos, complexos e diversificados. O novo enfoque é o contraste crescente entre o processo de globalização e a emergência das identidades locais. Diz um estudioso italiano em obra recente: “Se a distância do tempo passado podia encorajar uma genérica vizinhança ideal com os «condenados da terra», a vizinhança física dos dias atuais engendrou uma nova distância, sublinhada pelas barreiras, reais ou simbólicas, que muitos Estados se apressam a erguer. Nunca como hoje o cosmopolitismo proclamado pela velha sociedade liberal tornou-se experiência de massa, e todos coexistimos com culturas, religiões e modos de vida diversos” (BREVINI Franco, Così vicini, così lontani: Il sentimento dell’altro fra viaggi, social, tecnologie e migrazioni, Ed. Baldini&Castoldi, Milano, 2017).

Constata-se-se que a globalização não representa um percurso linear e nem sequer de todo irreversível. Em sua expansão, de fato, verificam-se avanços e recuos, resistências inesperadas e imprevistas, como também lutas clamorosas para manter a cultura e os valores dos diferentes lugares de nascimento. Na verdade, ainda seguindo o pensamento de Brevini, “há algumas décadas o mundo caminha em duas velocidades: a homogeneidade e o particularismo, o cosmopolitismo e as reivindicações étnicas, os grandes “esperantos” e os dialetos locais” (Idem). A “aldeia global” não acabou com as ilhas e arquipélagos locais. Ambas as realidades subsistem e se entrelaçam. O risco de uma globalização com cheiro de neo-colonialismo corresponde ao risco oposto, isto é, de uma visão localista que conduza ao nacionalismo populista, fundamentalista e intolerante para com o “outro” e estrangeiro. O desafio está no equilíbrio entre a atuação local, porém, conectada a uma perspectiva mundial.

Do ponto de vista dos movimentos sociais, em geral, e da Pastoral Migratória, em particular, vem à tona uma pergunta: como conjugar as lutas e reivindicações locais com uma visão global das organizações em rede? E vem à tona, de forma espontânea o clássico slogan das campanhas internacionais: “agir localmente e pensar globalmente”. O resgante da própria cultura tende tende ao confronto, ao diálogo e à comunhão com os demais valores engendrados por outros percursos humanos. A busca da justiça, da solidariedade e da equidade em termos universais passa, necessariamente, pelos temas particulares. Na economia que se globaliza de forma cada vez mais acelerada, bem como nos esforços conjuntos para preservar o meio ambiente e defender o planeta Terra – cultivar “nossa casa comum”, como escreveu o Papa Francisco na Carta Encíclica Laudato Si’ – não podem ser esquecidas as identidades localizadas e fundamente enraizadas no solo pátrio.

App e site feitos por migrante ajudam a ir “além das fronteiras” da burocracia

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Tela inicial do app Além das Fronteiras, disponível para celulares com sistema Android. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Disponível em quatro idiomas, app e site Além das Fronteiras reúnem informações úteis e auxiliam em questões relacionadas à regularização migratória

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Entender a documentação exigida pelos organismos públicos e obter informações sobre regularização migratória e acesso a direitos é uma barreira para os migrantes que vivem no Brasil. Foi pensando em ajuda a transpor essa fronteira que surgiu o aplicativo “Além das Fronteiras“, no ar desde outubro e que pode ser acessado tanto na web como em forma de aplicativo para celulares Android.

O aplicativo e o site foram criados por Wilbert Rivas, nascido no Peru e criado na Bolívia, com recursos da segunda edição do VAI TEC, programa da Prefeitura de São Paulo que fomenta a elaboração de soluções tecnológicas e inovadoras para promover desenvolvimento, geração de renda e empoderamento social.

“A ideia surgiu a partir da minha experiência de trabalho na área de imigração e querer compartilhar meus conhecimentos com os imigrantes (quando falo imigrantes me refiro a imigrantes econômicos, solicitantes de refúgio e refugiados) e pessoas que trabalham dando suporte aos imigrantes com informações sobre regularização migratória e acesso aos direitos de um jeito mais dinâmico”, explica o idealizador do projeto, que já trabalhou na capital paulista em instituições como o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), CDHIC (Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante) e o CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante).

Tela inicial do app Além das Fronteiras, disponível para celulares com sistema Android.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Disponível em quatro idiomas (português, espanhol, inglês e árabe), o Além das Fronteiras consiste em disponibilizar (tanto na web como pelo celular) os modelos de formulários a serem preenchidos pelos migrantes, além de reunir uma série de informações úteis ao público migrante sobre serviços nas esferas municipal, estadual e federal.

Assim, por exemplo, o migrante consegue economizar tempo e recursos (como o que gastaria para se deslocar de onde mora até o local de atendimento), obtendo de antemão os formulários básicos para serem preenchidos.

“Eu via pessoas de bairros muito distantes [de São Paulo] e até mesmo de outras cidades que vinham para as instituições aonde já trabalhei à procura de informações. E muitas vezes eles tinham que retornar apenas para pegar uma folha com uma declaração ou data de agendamento”, lembra Wilbert.

Tela de opções do app Além das Fronteiras.
Crédito: Reprodução

Incerteza e esperanças

Até o momento, Wilbert está sozinho no desenvolvimento do projeto e busca parceiros para manter o projeto de pé – o apoio do VAI TEC termina ao final de 2017. “Além das Fronteiras é um sonho que eu perseguia há mais de seis anos e pelo apoio do VAI TEC se fez realidade. O principal desafio vai ser ter apoio financeiro para poder manter o app e o site atualizados no dia a dia.

Uma vez conseguindo esse apoio, Wilbert espera dar o passo seguinte na consolidação do projeto, feito por um migrante e voltado para o público migrante.

“O próximo passo é tornar o app e site como uma referência de prestar serviço para imigrantes e pessoas que trabalham prestando serviço aos imigrantes. E também implementar um atendimento pelo WhatsApp em vários idiomas online) prestar serviços para cada realidade das comunidades de imigrantes de forma gratuita e profissional.

Apesar das dificuldades, Wilbert mantém o otimismo e crê que já conseguiu fazer o mais complicado, que é iniciar o projeto. “O importante é que o app e o site já estão em andamento, já deram o primeiro passo para subir os degraus que vê pela frente”.

Lisanga Awards reconhece organizações e pessoas ligadas aos migrantes

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Premiação do Lisanga Awards, na Galeria Olido, em São Paulo. Crédito: ‎Tifani Ndangi Tyfsnow

Em lingala, “lisanga” significa “união”; nesta edição foram 15 categorias contempladas

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Você sabia que há um prêmio organizado por imigrantes que vivem em São Paulo e que reconhece o trabalho feito por instituições, coletivos e pessoas engajadas na temática migratória?

Essa é a função do Lisanga Awards, que chegou à sua segunda edição e ocorreu no último dia 1º de dezembro na Galeria Olido, em São Paulo. Em lingala, idioma falado principalmente na República Democrática do Congo e em Angola, “lisanga” significa “união”.

A segunda edição do Lisanga Awards premiou pessoas, grupos e instituições em 15 categorias – foram ao todo 54 candidatos. Veja abaixo a relação de ganhadores:

Premiação do Lisanga Awards, na Galeria Olido, em São Paulo.
Crédito: ‎Tifani Ndangi Tyfsnow

Troféu prêmio da pena ou caneta da esperança 
João Pedro Kanda (Angola)

Troféu prêmio das artes tradicionais
Palanca Negra (Angola)

Prêmio da assistência social
África do Coração

Prêmio da integração 
Adus

Prêmio da integração social 
Caritas Arquidiocesana de São Paulo

Prêmio da criatividade 
Rádio sucata

Prêmio do ativismo 
Missão Imigrantes (MIM)

Prêmio da esperança 
CAMI – Centro de Apoio e Pastoral do Migrante

Prêmio da música gospel 
African Boy

Prêmio do elenco Lisanga Awards 2017
Maycon namib prod

Troféu Premio da iniciativa
Coordenação Lisanga Awards

Prêmio revelação do ano
Tyfsnow Ndangi

Prêmio da força 
Muxima Diaspora

Prêmio da moda 
Mama nossa cultura

Premio da música 
Titi lion

Prêmio de empreendedorismo
Cheick

Festival de Direitos Humanos em SP tem programação voltada às migrações; veja

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Atividades acontecem entre os dias 10 e 16 de dezembro em diferentes regiões da capital paulista; todas são gratuitas

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 15/12/17, às 15h17

Aproveitando datas importantes do mês de dezembro, como o Dia Internacional dos Direitos Humanos (10/12) e o Dia Internacional do Imigrante (18/12), a cidade de São Paulo terá uma programação especial com eventos culturais, debates e mutirão de serviços voltados para a população migrante e para interessados na temática.

As atividades acontecem entre os dias 10 e 16 de dezembro e fazem parte do Festival de Direitos Humanos, que chega à sua quinta edição neste ano e é organizado pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), em conjunto com suas diversas coordenações. Entre elas está a Coordenação de Políticas para Migrantes e Refugiados (CPMig), que é responsável pelas atividades focadas na temática migratória.

Veja abaixo maiores informações sobre cada uma, também disponíveis no evento criado no Facebook. Todas elas são gratuitas:

10 de dezembro
Exibição de filme Global Migration Films Festival da OIM (Organização Internacional para as Migrações)
Realização: OIM e CPMig/SMDHC
Horário(s): 14h30 – 18h
Endereço: Galeria Olido – Sala Cine Olido
Av. São João, 473 – Centro, São Paulo – SP, 01034-001
Plus: Conversa com convidados especiais pós filme.

A OIM organiza anualmente um festival de cinema sobre migrações, o Global Migration Film Festival (GMFF)., no qual cineastas de todo mundo concorrem com seus trabalhos audiovisuais. Neste ano a mostra conta com 34 filmes que estão sendo exibidos em cerca de 100 países entre os dias 5 a 18 de dezembro. A cidade de São Paulo recebe o festival da OIM em meio à programação especial de dezembro, com a exibição do filme “Era o Hotel Cambridge”, o único longa brasileiro que compõe a mostra. Em seguida, haverá uma conversa com convidados especiais.

11 de Dezembro
Comemoração do 1º Semestre do Portas Abertas: Português para Imigrantes
Realização: CPMig/SMDHC e SME
Horário(s): 19h – 22h
Endereço: CEU Jambeiro, situado à Av. José Pinheiro Borges, 60 – Vila Moreno – Guaianases

O evento promove uma confraternização aberta ao público e celebra os resultados dos primeiros meses do Projeto Portas Abertas: Português para Imigrantes, com o objetivo de propiciar o ensino da Língua Portuguesa para alunos imigrantes matriculados na Rede Municipal de Ensino, seus familiares e comunidades. Foram 17 salas abertas e 360 inscritos no programa no total em 10 escolas das zonas norte e leste da cidade.

12 de Dezembro
Seminário do II Mostra Cultural Dezembro Imigrante 2017
Realização: CPMig/SMDHC e SME
Horário(s): 08h – 17h
Endereço: UNINOVE – Campus Barra Funda
Av. Dr. Adolpho Pinto, 109 – Barra Funda, São Paulo

Seminário traz boas práticas de educação para a inserção de imigrantes nas escolas. Serão tratados temas como políticas públicas, práticas pedagógicas, além de boas práticas de promoção da diversidade, de direitos e integração na rede pública municipal de ensino.

14 de Dezembro
Exibição de documentários da ONG Repórter Brasil: “Escravo, Nem Pensar!”
Realização: CPMig/SMDHC e Repórter Brasil
Horário(s): 17h – 18h
Endereço: Praça do Patriarca – Feira Gastronômica do FDH – Tenda Multiusos

Serão exibidas animações com a temática do Trabalho Escravo (ciclos do trabalho escravo contemporâneo; trabalho escravo no setor têxtil; trabalho infantil no Brasil hoje; tráfico de pessoas). Após a exibição dos curtas, haverá um bate-papo com a coordenadora do projeto “Escravo, Nem Pensar!” da Repórter Brasil, Natalia Suzuki, sobre o trabalho escravo contemporâneo no país.

16 de Dezembro
E eu, onde fico? – Ação Social do Islam
Produtor: FAMBRAS (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil)
Apoiador(es): CPMig/SMDHC
Horário(s): 13h – 18h
Endereço: Vale do Anhangabaú

Promovido em parceria com a FAMBRAS, a Fundação de Ajuda Humanitária (IHH) e o Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI), o evento vai oferecer um mutirão de serviços voltados aos imigrantes. Entre eles estão: atendimento especializado gratuito como exames médicos (hipertensão, diabetes, colesterol, hepatite C); instruções para o autoexame de mama; orientação nutricional e odontológica; corte de cabelo; e assessoria jurídica especializada. Haverão também atividades voltadas para crianças, como pintura de rosto, escultura de bexigas, distribuição de doces, entre outras.

Cartaz de divulgação do mutirão voltado para imigrantes e refugiados que acontece em 16/12 em SP.
Crédito: Reprodução

Projeto destaca sorrisos e sonhos de crianças refugiadas

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Exposição "Um Sonho e Um Sorriso" reúne mensagens de 30 crianças que vivem em campos de refugiados na Grécia. Crédito: Antônia Souza/Adus

Colaboradora do MigraMundo desenvolveu trabalho com crianças em campos de refugiados na Grécia

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Voluntária há dez anos em questões humanitárias e relacionadas à questão dos refugiados, a jornalista e estudante de Relações Internacionais Alethea Rodrigues sonhava em desenvolver uma ação própria dedicado à temática do refúgio. Neste ano, ela conseguiu.

Colaboradora na área de comunicação do Instituto Adus (que atende e orienta refugiados e solicitantes de refúgio) e também do MigraMundo, Alethea foi à Grécia em maio passado, onde trabalhou em um campo de refugiados na triagem de doações que chegavam de todo o mundo (leia aqui o relato feito por ela para o MigraMundo). Também vistou squads (ocupações não reconhecidas pelo governo grego) que também servem de abrigo para pessoas de diferentes origens.

Foi a partir do contato com essa realidade que ela desenvolveu o projeto “Um sonho e um sorriso”, que reuniu 30 crianças e adolescentes, entre refugiados e solicitantes de refúgio, que atualmente vivem em solo grego.

“Quis compartilhar o que senti em uma das experiencias mais legais e importantes que tive até hoje no meu trabalho como voluntária que já realizo há dez anos”, explica a autora.

Mostra “Um Sonho e Um Sorriso”, de Alethea Rodrigues, exposta no bazar do Adus, em São Paulo.
Crédito: Antônia Souza/Adus

Durante encontros com Alethea, eles compartilharam um pouco sobre seus sonhos e futuro em corações de papel. Além da mensagem, cada coração tinha uma foto da criança e a tradução do texto em português.

A primeira apresentação pública do projeto aconteceu na abertura do bazar fixo do Adus, em São Paulo, nos dias 25 e 26 de novembro. Para 2018, Alethea estuda outros locais para apresentar o projeto, dentro ou fora do Brasil. De qualquer forma, ela acredita que conseguiu deixar uma mensagem.

“Reclamamos muito da vida, por pequenas coisas e vendo essas crianças falarem sobre sonhos mesmo depois de terem perdido praticamente tudo é uma lição de vida”, opina Alethea sobre a experiência. “A foto das crianças sorrindo também é uma mensagem para pessoas que, por muito menos, deixam de sorrir”, completa a voluntária.

Exposição “Um Sonho e Um Sorriso” reúne mensagens de 30 crianças que vivem em campos de refugiados na Grécia.
Crédito: Antônia Souza/Adus

Dados do mais recente relatório do ACNUR, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Global Trends 2016), embasam a realidade presenciada por Alethea na Grécia e que se repete em outras regiões do mundo. Dos 65,6 milhões de refugiados e deslocados internos, de acordo com a agência, 51% são crianças e jovens. Só no ano passado, 75 mil solicitações de refúgio foram feitas em todo o mundo por crianças que viajavam sozinhas ou desacompanhadas dos pais.

Mutirão em Curitiba cadastra currículos e orienta migrantes sobre mercado de trabalho

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Evento Curitiba Integra para migrantes e refugiados, no Engenho da Inovação. Crédito: Brunno Covello

Projeto piloto teve ainda workshops e assessoria voltados para o público migrante e com objetivo de auxiliar na busca por informação em relação ao mercado de trabalho brasileiro

Por Debora Draghi
Em Curitiba (PR)

No último sábado (02/12) ocorreu no Engenho da Inovação, em Curitiba, o primeiro mutirão na cidade de cadastro de currículos específico para imigrantes e refugiados. Chamada de Curitiba Integra, a ideia da ação é aumentar o acesso dessa população a diferentes oportunidades no mercado de trabalho.

Evento Curitiba Integra para migrantes e refugiados, no Engenho da Inovação.
Crédito: Brunno Covello

O evento contou com a presença de dezenas de pessoas, como voluntários, organizadores, parceiros  e imigrantes. Entre eles estava Jean*, 32, que veio do Haiti há 4 anos e gostou muito do evento, pois “dá mais oportunidades para quem busca se inserir no mercado de trabalho brasileiro.” Jean trabalhou com CNC (Controle Numérico Computadorizado) e procura uma recolocação profissional. Desde que chegou no Brasil, Jean trabalhou com contabilidade, e não conseguiu um emprego relacionado ao que trabalhou antes.

“O mutirão foi uma forma de conhecer profissionais estrangeiros qualificados e possivelmente conectá-los com empresas com vagas disponíveis, de forma que as instituições tenham conhecimento do potencial existente na cidade e do quanto esses trabalhadores agregam ao trazerem experiência de outro país, com outra cultura e idiomas, enriquecendo o ambiente com diversidade e tornando-o mais plural e rico para os que desconhecem o país de origem do estrangeiro”, destaca Marcela Milano, diretora e coordenadora do Linyon Global Workers, um dos principais realizadores do evento.

Evento Curitiba Integra para migrantes e refugiados, no Engenho da Inovação.
Crédito: Brunno Covello

A ação conseguiu unir pessoas em busca de um novo emprego e também especialistas na área de trabalho e empreendedorismo. Além do cadastro de currículos, o mutirão teve também dicas, assessoria e workshops para que um ambiente mais profissional fosse estruturado para melhor atender os imigrantes lá presentes.

“Os workshops puderam aprofundar o conhecimento a respeito das leis trabalhistas, formatação de currículos e dicas para entrevistas, de maneira que os imigrantes e refugiados saibam mais a fundo sobre o mercado de trabalho brasileiro e se reinsiram. Também, as oficinais de empreendedorismo possibilitaram que os estrangeiros aprendessem mais a respeito de abrir seus próprios negócios e cogitassem essa possibilidade”, completou Marcela.

Para Rossana*, 26, o evento foi muito bom, porque os imigrantes precisam conhecer os benefícios, seus direitos e deveres. “Porque muitas pessoas chegam ao Brasil e não tem conhecimento das leis para o trabalhador, e o mutirão foi interessante, pois consegue ambientar o estrangeiro para que esse sinta-se mais confiante na busca por trabalho.” Rossana está no Brasil há apenas 2 meses, oriunda da Venezuela. É formada em arquitetura e com 2 anos de experiência na área, mas ainda não conseguiu um emprego.

Evento Curitiba Integra para migrantes e refugiados, no Engenho da Inovação.
Crédito: Brunno Covello

O mutirão contou ainda com a parceria da empresa Corsh, de recrutamento e seleção, e com a Agência Curitiba, que é um braço da prefeitura municipal para incentivar as ações de inovação e empreendedorismo na cidade, além do Linyon Global Workers.

*Atendendo a um pedido dos migrantes entrevistados, seus nomes foram alterados no texto

 

O que representa a saída dos EUA do pacto mundial para migrantes e refugiados?

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Trump durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York (set.2017). Crédito: Mark Garten/UN Photo

Para especialista ouvida pelo MigraMundo, migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade vão sofrer mais com os efeitos da decisão do governo Trump

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 06/12/17, às 02h25

O governo dos Estados Unidos não faz mais parte do Pacto Mundial das Nações Unidas para os Migrantes e Refugiados. O motivo, de acordo com a diplomacia estatunidense, é o acordo ser “incompatível” com a política migratória do país.

Bandeira dos EUA no Empire State Building, em Nova York, em noite de nevoeiro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim – mai.2013/MigraMundo

O anúncio foi feito no último sábado (02) pela embaixadora do país na ONU, Nikky Haley. De acordo com a revista Foreign Policy, ela própria era contrária à saída dos Estados Unidos do pacto, mas acabou vencida por Trump e seus conselheiros.

“Nenhum país fez mais que os Estados Unidos e a nossa generosidade vai manter-se. Mas as nossas decisões sobre políticas de imigração devem sempre ser tomadas pelos americanos e apenas pelos americanos. Decidiremos qual é a melhor maneira de controlar as fronteiras e quem será autorizado a entrar no nosso país”, diz trecho do comunicado.

Em setembro de 2016, os 193 membros da Assembleia Geral da ONU aprovaram a Declaração de Nova York, com o propósito de melhorar a proteção e a gestão dos movimentos de migrantes e refugiados. O acordo concedeu ainda um mandato ao ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados) para propor à Assembleia Geral, em 2018, um pacto mundial que teria dois eixos: definições de respostas diante do problema e um programa de ação.

Trump durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York (set.2017).
Crédito: Mark Garten/UN Photo

A ONU lamentou a decisão dos Estados Unidos de deixar o acordo. O presidente da Assembleia Geral, Miroslav Lajčák, disse que a migração é um fenômeno global que demanda uma resposta global, enquanto o multilateralismo permanece como a melhor forma de enfrentar desafios. “As Nações Unidas não deveriam perder esta oportunidade de melhorar as vidas de milhões de pessoas no mundo inteiro”.

A saída dos Estados Unidos do acordo global sobre as migrações não é a primeira – e provavelmente não será a última – da política externa do governo Trump, que já se retirou do Acordo de Paris (sobre a questão climática) e da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Ao mesmo tempo, no ano fiscal de 2017 (de outubro a setembro), autoridades migratórias do país prenderam 143.470 pessoas, um aumento de 30,3% em relação ao ano anterior.

O que isso pode significar?

Para Carolina de Abreu Batista Claro, professora de migração e refúgio no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IRel/UnB), a decisão não chega a ser uma surpresa para um governo que tem no rechaço às migrações uma de suas principais bandeiras. Mas que, certamente, os migrantes que já estão nos Estados Unidos serão os mais afetados.

“Pode-se entender a saída dos EUA do Pacto como um ato político que terá consequências retóricas perante os demais Estados, mas que continuará a impactar a forma como o país tem tratado os imigrantes que estão ou que pretendem ingressar no seu território”, aponta a professora, que lembra medidas como o fim do DACA (programa que beneficia menores migrantes indocumentados), as restrições de entrada válidas para praticamente todas as nacionalidades (e em especial as de países islâmicos) e a retórica de construção de muro na fronteira com o México.

Donald Trump, presidente dos EUA, em discurso na Assembleia Geral da ONU (set/2017).
Crédito: Cia Park/UN Photo

Carolina aponta ainda que tais fatos mostram que assuntos entendidos como sensíveis à política de Washington serão exclusivamente tratados na esfera doméstica, numa expressão de desprezo aos esforços internacionais sobre o tema. No entanto, mesmo se colocando à parte no cenário internacional, os Estados Unidos continuam a ter responsabilidade sobre os migrantes em seu território e deve cumprir com elas.

“Dentro ou fora das negociações e dos acordos resultantes do Pacto Global, os EUA continuarão a ter responsabilidade caso violem normas, princípios ou costumes de direito internacional aplicáveis para migrantes e refugiados. Mas, na prática, quem mais sentirão os efeitos dessa medida serão os migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade”, finaliza.