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domingo, junho 28, 2026
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Comunicadores migrantes apontam necessidade de investimento em mídias independentes

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Telefone celular, câmera e microfone são as ferramentas de Antonio na rua para suas pautas. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Tanto para temas locais como globais, a comunicação é capaz de mobilizar e informar. MigraMundo começa a trazer mídias migrantes que utilizam essa ferramenta para lutar por direitos; conheça algumas delas

Por Géssica Brandino e Rodrigo Borges Delfim
Colaboração de Debora Draghi
Em São Paulo (SP) e Curitiba (PR)

Nove horas da manhã e o boliviano Antonio Andrade já tem três pautas para tocar ao longo do dia. Na noite anterior, não conseguiu pregar os olhos porque, além de responder pela produção dos sites Planeta América Latina e Bolívia Cultural, também desenvolve marcas e campanhas publicitárias para clientes. É dessa atividade que ganha dinheiro para pagar as contas e manter a família no Brasil, enquanto os portais não trazem retorno financeiro.

Assim como o conterrâneo, Jobana Moya também trabalha em casa fazendo mailings e cuidando de páginas na web enquanto divide o tempo com as atividades como ativista da Equipe de Base Warmis, os cuidados com os dois filhos e os afazeres domésticos. A rotina é cansativa, mas Jobana sabe que o esforço é válido.

“Quando você acredita numa causa, nada é mais importante. Para mim, viver aqui no Brasil tem sentido porque sou ativista e estou na Warmis. Com o passar do tempo, aquilo que temos feito nos fortalece mais. Além disso, construímos um grupo que é uma família, que nos protege e fortalece. Elas te acompanham, te querem, choram com você. Você não está sozinha. Warmis é uma família”, reforça.

Antonio e Jobana produzem comunicação ativista. Em seus canais, lutam contra o preconceito, pela valorização da cultura e da identidade migrante e chamam atenção para as questões de gênero. O público alvo são migrantes que vivem no país, especialmente em São Paulo, mas o alcance vai além. A estimativa de Antonio é que a marca Bolívia Cultural alcance cerca de 3 milhões de pessoas ao dia por meio de campanhas, fotos, posts no Facebook, programa de rádios, postagens no site e vídeos no YouTube, chegando a cidades como Miami, La Paz e Buenos Aires. Criado em 2013, o site da Warmis já recebeu mais de 23 mil visitas e a página no Facebook se aproxima das 4 mil curtidas sem a compra de anúncios.

Trajetória

Migrantes em São Paulo, os dois têm trajetórias diferentes. Antonio chegou em 1994 para estudar publicidade e propaganda na Escola Pan-Americana de Artes e ingressou ainda estagiário numa empresa multimídia. Passou a trabalhar com publicitários e jovens empreendedores do Vale do Silício e a carreira ia bem, quando se deu conta de que havia perdido a identidade. “Eu olhava os bolivianos na rua, dizia oi e as pessoas não me cumprimentavam”, lembra.

A reviravolta veio em 1995, quando a barragem de uma represa se rompeu em La Paz e várias pessoas morreram. Antonio leu os jornais para buscar notícias sobre a família e decidiu deixar uma cópia impressa para que outros bolivianos tivessem acesso à informação, mas as pessoas liam e levavam o papel para casa. Ele decidiu imprimir a informação num jornal, mas a tiragem não foi suficiente e foi então que decidiu fazer algo online. Criou o “Planet Bolívia” para disponibilizar informações sobre mortos e desaparecidos, mas sem pensar num projeto maior. Os colegas lhe diziam que Bolívia não era um tema que venderia.

Antonio amadureceu a ideia e no ano seguinte criou o site Planeta América Latina. Naquela época não tinha programador, por isso desenvolveu a página em html a partir do editor de textos Word. Mesmo sem o nome Bolívia, o conteúdo sobre o país era predominante na página.

Decidido a investir no projeto, buscou orientação de publicitários da Agência África e passou a se dedicar ao site e à busca de formadores de opinião que dessem chancela ao projeto. Shakira e Maná foram alguns dos nomes que integraram a lista dos apoiadores do projeto. Com Evo Morales no poder, a Bolívia adquiria novo status e, em 2009, Antonio cria o portal de notícias Bolívia Cultural, que se consolida como fonte de informações para brasileiros e migrantes. Com uma câmara simples para fotos, um telefone celular para filmar e um microfone, ele capta a maior parte do material usado para alimentar o Bolívia Cultural e também o Planeta América Latina.

Telefone celular, câmera e microfone são as ferramentas de Antonio na rua para suas pautas.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Já a web designer boliviana Jobana Moya se mudou para São Paulo em 2007, depois de se casar com um brasileiro. Passou a acompanhar as atividades da comunidade boliviana na cidade e em 2010, após dar a luz, passou a ter muito contato com o tema da violência obstétrica. Soube por uma amiga que as mulheres migrantes sofriam muita discriminação e resolveu formar um grupo para conscientizar sobre o tema e sobre acesso a direitos na praça Kantuta, espaço de encontro da comunidade boliviana na zona norte de São Paulo. Assim foi criado o coletivo Warmis – que significa Mulheres em quéchua – em julho de 2013.

Ao ser entrevistada pela pesquisadora e professora Denise Cogo, Jobana se deu conta de que não tinha criado um canal para registrar as atividades do coletivo. Assim, criou um blog na plataforma wordpress para documentar as atividades. No final daquele ano, com a chegada de uma nova integrante, a chilena Andrea Carabante, as integrantes decidem adotar os princípios do movimento humanista, nascido na Argentina, lutando contra a discriminação com a metodologia da não-violência ativa. O coletivo passa a se chamar Equipe de Base Warmis Convergência das Culturas e passou a ser aberto a mulheres de todas as nacionalidades e ter um site oficial. Hoje conta com integrantes de países como Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Estados Unidos, além de brasileiras filhas de imigrantes.

Atualmente, 24 mulheres integram o coletivo, que realiza palestras de conscientização e também desenvolve o projeto Lakitas Sinchi Warmis, grupo de música andina que busca resgatar a cultura por meio de canções tradicionais, contemplado duas vezes pelo edital VAI, da Prefeitura de São Paulo, que cobre despesas com transporte para as apresentações. Para realizar reuniões, elas pagam um aluguel simbólico de uma sala do escritório do movimento humanista na cidade.

Para Jobana, pensar na comunicação é essencial para que a luta dos migrantes não fique invisibilizada, além de permitir o debate e a desconstrução de estereótipos sobre os migrantes. “Acreditamos que os imigrantes e ativistas devem colocar na mídia suas pautas porque é importante ter outras vozes, olhares sobre os mesmos temas, para assim ter uma diversidade que permita ter senso critico”.

Lakitas Sinchi Warmis durante a 11ª Marcha dos Imigrantes, em São Paulo.
Crédito: Géssica Brandino

Desafios

A ativista vê a profissionalização como o principal desafio para conseguir realizar uma comunicação eficaz, por meio da criação de conteúdos multimídia que cheguem ao público migrante. Para Antonio, o principal desafio é financeiro, uma vez que a falta de recursos impede a contratação de mais profissionais para a equipe e o investimento na estrutura de trabalho. Hoje, muito do trabalho conta com uma dose de improviso e quando precisa atender os clientes, Antônio não consegue produzir conteúdo para o canal.

Em 2013, criou a ONG Instituto Planeta América Latina para conseguir captar recursos. Já foi contemplado em editais do governo e empresas, mas evita patrocinadores da própria comunidade para não perder a autonomia editorial. Outra fonte de renda são as palestras que realiza para diversos públicos: crianças, professores e autoridades. Neste mês chegou à marca de cem apresentações. A primeira foi há 18 anos, na escola das filhas.

Além de comunicar, Antonio também está envolvido na busca de soluções para os problemas vivenciados na comunidade. Ali, desliga o microfone e ajuda a construir propostas em busca da efetivação de direitos. Foi assim que sugeriu a realização da primeira Assembleia da comunidade boliviana, realizada em outubro, que chegou a conclusão sobre a necessidade de criar uma Federação Boliviana na cidade, colocando as pautas e reivindicações dos migrantes diretamente. Como comunicador, Antonio sabe que falta identificação com as instituições que realizam o atendimento.

“O imigrante não se sente identificado com as ONGs e muito menos com o governo. O imigrante tem um único espaço interlocutor, que são nossos meios de comunicação”, reforça, chamando atenção para a necessidade de preparar melhor os meios para dar conta de uma tarefa que vai muito além de informar.

O comunicador boliviano Antonio Andrade durante pauta para o portal Bolívia Cultural.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Comunicação, cidadania e história

As vivências de Antonio e Jobana, semelhantes a de migrantes de outras nacionalidades que atuam com comunicação, são reforçadas pela professora Denise Cogo, titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Ela também ressalta que iniciativas como a Warmis e o Bolívia Cultural/Planeta América Latina ajudam a romper com uma construção estereotipada que o migrante costuma receber nos grandes meios de comunicação.

“Há a possibilidade dos migrantes também terem nas mãos as mídias para poderem falar sobre suas experiências migratórias, para produzir representações sobre si e os coletivos migratórios, reivindicar por cidadania e até fazer uso dessa mídia para seus processos culturais e de entretenimento”.

Denise é também organizadora do projeto Mídias Imigrantes de São Paulo, uma plataforma lançada em 2016 fruto de uma parceria entre a ESPM, o Museu da Imigração e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Ela conta com pelo menos 119 mídias criadas por migrantes ou dedicadas à temática das migrações, entre sites, blogs, documentários e até mesmo páginas no Facebook – uma variedade que, muitas vezes, acaba invisibilizada, assim como parte da história cotidiana dessas comunidades.

“Essas mídias também nos mostram a grande capacidade de criação e produção em termos de comunicação digital, de estéticas de linguagem, relacionadas a realidade migratória. O quanto esses migrantes tem capacidades de produzir muito bem algumas mídias, se mobilizarem para a produção mesmo sem recursos, de modo até artesanal e também de manter e qualificar o projeto, pois eles começam pequenos e vão buscando recursos e alternativas para aprimorar os projetos de mídias e também mantê-los e atualizá-los o tempo inteiro, pensando que eles precisam falar com muitos públicos sobre sua condição migratória”, aponta a pesquisadora.

Crônicas de um Natal entre sete nacionalidades – ou quando aprendi a dizer ‘figo’ em curdo

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Diferentes nacionalidades e vivências, mas unidos por outros pontos em comum. Crédito: Victória Brotto

Todos ali tinham histórias fortíssimas – e belíssimas – de migração. A rota de cada migrante é pessoal e intransferível

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Nós éramos em sete nacionalidades ao redor da mesa na hora do almoço do dia 25. Portugal, Angola, Curdistão, Brasil, França, Itália e Senegal. “Temos quantos países aqui?”, perguntou Antônio, francês, nascido em Angola, e ‘crescido’ em Portugal. Ele se levanta, começa a contar e olhar para cada um na mesa, enquanto todos caem na risada. “Um mundo inteiro ao redor da mesa!”, digo. Antônio abre as duas mãos para contar: “Sete!”.

Todos ficam maravilhados. “Isso que é uma mesa global”, diz sua esposa, Isabelle, francesa.

Cada um de nós carregava no rosto um outro país, uma outra gente que não era a minha. Quantas vivências diferentes! Shang e Mohamed, curdos, me mostram o quintal da casa da mãe de Mohamed. “Ao redor desse quintal é cheio de uvas e figos! Você está vendo isso aqui, são figos! Não para de dar. Muito, muito!”, me diz Mohamed, com os olhos brilhando. Shang me pergunta: “É ‘fig’ mesmo em inglês?”. “Não lembro, mas eu sei o que é, em português dizemos “figo”, respondo, impressionada com as similaridades entre curdo e português.

” As fronteiras, infelizmente, ainda são de aço, o que faz de cada pessoa que as cruza um revolucionário”.
Crédito: Victória Brotto

Quão próximos estávamos um dos outros, em risos, em conversas, em silêncios e em perguntas. A maioria ali tinha nascido em outro país, mas, antes de sermos estrangeiros e de tropeçarmos no francês, no inglês, no curdo, no português, éramos gente. “Is this….pomme? Yes, it is pomme? Pomme est quai? Apple?”, diz Isabelle, francesa, se aventurando no inglês para falar com Shang. Do outro lado da mesa, Rafael, seu filho do meio, cai na risada. “Mãe, não dá. A senhora no inglês…”, diz ele ficando vermelho de tanto rir. E do outro lado, a mãe rindo mais ainda. “Pare, Rafael, a gente tenta né?”, e os dois riam ainda mais.

A ceia foi passando e eu a pensar na minha gente no Brasil e, ao mesmo tempo, a olhar a minha gente aqui, na França. Minha amada família faz uma imensa falta, especialmente no Natal, mas como fora engraçado olhar para todos ali, me rodeando em conversas, em trocas , tão grandes amigos e companheiros de jornada e pensar que eles nasceram e viveram vidas muito diferentes da minha.

Meus amigos nascidos no Curdistão, por exemplo, nunca ouviram a voz de minha mãe, ou, os meus amigos da França não sabiam o quão prazeroso é caminhar pela Avenida Paulista num domingo à tarde. Ou o quão gostoso é ir numa padaria com sua mãe e irmã e tomar um café com suco de laranja e pão de queijo – inclusive até o pronunciar “pão de queijo” lhes seria completamente estranho.

Meus amigos ali, do meu lado, ao redor da mesa a compartilhar o Natal comigo não fazem ideia que a Linha Vermelha, no metrô de São Paulo, às 18h é uma cilada. Muitos também não fazem ideia que “Noel”, em português, é “Natal”.

Diferentes nacionalidades e vivências, mas unidos por outros pontos em comum.
Crédito: Victória Brotto

Rafael ensinou algumas palavrinhas em português para o seu filho pequeno, Samuel. “Como é bom dia, filho? Fale para Victória o que você sabe”, diz ele para um menininho sorridente, com quase 3 anos, a segurar um mini carrinho de polícia. Samuel me olha envergonhado: “Bom dia!”. E todos riem carinhosamente. Eu dou os parabéns para o pequeno desbravador da língua de Cabral. Um simples ‘Bom dia’ numa língua que me vem tão fácil vira meu coração do avesso, em saudades de um Brasil distante e de um português tão belo, tão doce.

Há quase seis meses me mudei para Estrasburgo, na França – mas já se vai quase um ano que deixei o Brasil. Aprendi o que é migrar: não é um ato em si, somente, de levantar e ir embora, de caminhar, de sair, de chegar. Migrar é um profundo ato humano, um dos mais profundos verbos que colocam a humanidade em estado de reflexão.

Não é fácil migrar; todos ali, na mesa de Natal, tinham histórias fortíssimas – e belíssimas – de migração. A rota de cada migrante é pessoal e intransferível. As fronteiras, infelizmente, ainda são de aço, o que faz de cada pessoa que as cruza um revolucionário. As culturas e a geopolítica se mostram muitas vezes impenetráveis. Mas poucas coisas são mais belas do que se sentar numa mesa de Natal, com pessoas que nasceram há milhares de quilômetros de você, e se sentir profundamente em casa. E todos sorriam…

“Aprendi o que é migrar: não é um ato em si, somente, de levantar e ir embora, de caminhar, de sair, de chegar”.
Crédito: Victória Brotto

O 2017 do MigraMundo, nos bastidores – um relato pessoal

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Apesar da espiral de acontecimentos do ano velho, a chegada de um novo tempo sempre traz a esperança de dias melhores.
Apesar da espiral de acontecimentos do ano velho, a chegada de um novo tempo sempre traz a esperança de dias melhores. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - dez/2015

Quer saber como foi o ano de 2017 do MigraMundo nos bastidores? Alguns detalhes podem te surpreender

Por Rodrigo Borges Delfim

Oi pessoal, tudo bem?

Muitos de vocês acompanharam o MigraMundo ao longo deste ano de 2017. Esse apoio, como leitores e colaboradores de conteúdo, foi fundamental para que o site completasse cinco anos de vida e pudesse vislumbrar novos horizontes daqui em diante.

E aproveitando o final de ano, gostaria de fazer uma reflexão bem pessoal e dividir com vocês um pouco do que foi o MigraMundo para mim neste ano. E começo com uma confissão que pode assustar alguns:

O MigraMundo esteve por um fio praticamente durante todo o ano de 2017…

Sim, justamente no ano em que o site alcançou seu maior patamar em resultados (cerca de 144 mil visualizações e em torno de 75 mil usuários); no mesmo ano que acompanhou in loco assuntos de grande importância na temática migratória – com destaque para a nova Lei de Migração e a cobertura em Roraima sobre a presença dos venezuelanos; no mesmo ano que começou duas ferramentas que tem sido uma grata surpresa para o site: a retomada da newsletter semanal e o começo do envio de notícias por WhatsApp.

A montanha russa de emoções começou mais exatamente em 18 de janeiro de 2017, quando “virei estatística” e fui dispensado do UOL, onde trabalhei por nove anos. E como manter o MigraMundo, que não gerava receita nem para mim, nem para os demais colaboradores, uma vez que eu tinha perdido minha fonte de renda?

E manter o MigraMundo não é nada fácil. Não basta simplesmente escrever um texto e publicar. É preciso pensar no título, nas melhores imagens e vídeos a serem usados, no melhor horário para postar no Facebook e no Twitter, pensar em chamadas legais para o WhatsApp, para a Newsletter… E em vários momentos, mesmo com as colaborações que chegam, é uma tarefa muitas vezes solitária, com pouca ou nenhuma base financeira, e que demanda tempo.

Considerando o mercado complicado do jornalismo atualmente, passei a ver o MigraMundo como um plano A, e não mais uma atividade paralela. Sempre sonhei com isso, mas esperava conseguir alguma gordura no UOL antes desse passo. Na prática, precisei aprender – e ainda estou nesse processo – a trocar o pneu com o carro em movimento.

Contei e ainda conto com a ajuda de muita gente que curte o MigraMundo e o viu nascer e crescer ao longo desses cinco anos, que contribui e dentro das possibilidades de cada um. Mas sem uma base financeira e com a necessidade batendo à porta dos colaboradores, que também precisam pagar as próprias contas, é difícil manter alguém junto ao projeto por muito tempo e de forma constante.

Por isso, fiz uma promessa para mim mesmo, que cheguei a compartilhar com amigos próximos: caso eu não conseguisse estabelecer nenhum tipo de renda a partir do MigraMundo em 2017, o site seria descontinuado em 2018.

E o que fazer para que esse cenário sombrio não se tornasse real?

Primeiro, parti do seguinte pensamento:  se “chegou longe demais para parar agora”.

Então, ao longo do ano lancei algumas medidas e novas ferramentas: atualização praticamente diária, a reativação da Newsletter, o início do envio de notícias por WhatsApp – especialmente para não ficar tão dependente das mudanças de algoritmo feitas por Zuckerberg e Cia – e organizar como um coletivo os colaboradores do MigraMundo espalhados por aí.

Embora essas mudanças tenham trazido um ganho de visibilidade enorme para o MigraMundo, ficou ainda mais complexo manter essa estrutura adicional, tanto técnica como humana; ao mesmo tempo, a rede de colaboradores, mesmo sendo extensa, estava limitada pela situação da própria galera, que também precisava garantir o seu dia seguinte.

Em diversos momentos pensei que tinha criado um monstro que estava prestes a me engolir.

Mas mesmo com essas dificuldades, o MigraMundo continua em 2018?

A resposta é sim.

Mas a confirmação veio, numa metáfora futebolística, aos 45 minutos do segundo tempo.

2017 foi bem intenso e de grandes aprendizados que serão úteis não só em 2018, mas nos anos seguintes.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – dez/2015

Em setembro, às vésperas do MigraMundo completar cinco anos, estava extremamente perdido, desanimado, desgastado. O dinheiro que recebi do UOL e os frilas que fiz estavam no fim; a maioria dos colaboradores não conseguia contribuir como antes (são humanos e também precisam pagar suas contas); e me sentia desprestigiado por pessoas e instituições que me procuravam quando precisavam, mas que pouco ou nada faziam em troca.

Entre o final de setembro e o começo de outubro, em meio a esse turbilhão, surgiram duas luzes no final do túnel: o convite para colaborar na organização do V Seminário Vozes e Olhares Cruzados, em São Paulo, por parte da Missão Paz e da Fundación Avina; e a confirmação do apoio para participar e cobrir o IX Fórum de Migração, no Rio.

O Vozes e Olhares Cruzados – que, aliás, foi uma das inspirações para o lançamento do MigraMundo, em 2012 – deu sobretudo o combustível financeiro para chegar até dezembro;e  o Fórum ajudou a consolidar valores e atributos do MigraMundo que sempre estiveram na frente do meu nariz, mas que eu ainda não tinha percebido em plenitude: o fato de ser um ponto de encontro entre diferentes conhecimentos e atores na temática migratória, por meio do que comunica e produz. E era nisso que o MigraMundo deveria se basear daí em diante.

Com essa proposta cristalina na cabeça, e sempre com a comunicação como ferramenta, comecei a apresentar projetos e a conversar com diferentes atores sobre o que o MigraMundo faz – e pode fazer mais e melhor caso tenha algum tipo de apoio.

Na verdade, se trata do ônus e do bônus de tentar romper com um paradigma há muito presente quando se lida com temas sociais: de que é justo viver financeiramente de algo no qual acredita, não apenas como voluntário.

E no final de novembro, veio o convite para uma parceria institucional (não apenas de conteúdo) com o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), que desde então tem dado mais liberdade para manter a produção do MigraMundo.

Graças a esses três acontecimentos em especial, somada às contribuições providenciais da rede de colaboradores (mesmo com todas as dificuldades que cada um tem vivido), a previsão sombria de ter que encerrar o MigraMundo não se cumpriu. Pelo contrário, o ânimo para 2018 está renovado (pelo menos da minha parte) para um ano que promete ter um contexto muito difícil, mas no qual sempre é possível abrir novos caminhos.

Os desafios continuam: firmar novas parcerias, buscar fontes de recursos, aprimorar as pautas e abordagens do MigraMundo, fazer um “planejamento (também chamado de “roadmap”) para os próximos cinco anos.

Três premissas estarão presentes em cada uma dessas tarefas: a migração como direito humano; atuar como um ponto de encontro entre os diferentes saberes e atores envolvidos na temática migratória; e consolidar o “jornalismo de soluções” – que nada mais é que ir além dos fatos e prezar uma abordagem construtiva e que indique caminhos e sugestões que podem ser aplicadas – ou ao menos testadas para os problemas e desafios existentes.

Antes de encerrar, um pequeno causo do comecinho do ano…

Em fevereiro, vendo de longe o que acontecia em Roraima desde dezembro de 2016, comecei a alimentar a ideia de bancar uma ida para lá. Para tal, criei uma campanha de crowdfunding para ajudar (PS: isso sem ainda ter conseguido honrar com as gratificações de quem doou para que o MigraMundo passasse de blog para site, passo dado em abril de 2016 com a ajuda de dezenas de leitores e apoiadores. Prometo zerar essa pendência de 2015!)

A campanha rumo a Roraima alcançou 60% da meta. Precisei colocar uma grana do meu bolso, mas o apoio que recebi da galera me levou a ir em frente e fazer a viagem. E a experiência de ir a Roraima, além de ter gerado uma série de reportagens no MigraMundo, foi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória como jornalista e também do site.

Esta mensagem é um desabafo, mas sobretudo um agradecimento a todos vocês que acompanham e apoiam o MigraMundo (formal e informalmente), tornando possível sobreviver e aprender com 2017. Também é um exercício de transparência que vai se repetir daqui em diante.

Foi o ano mais duro da existência do site e da minha vida como profissional, mas sem dúvida foi o mais rico de todos. Ao mesmo tempo é um pedido de desculpas por eventuais expectativas não cumpridas. E quem quiser conversar sobre parcerias, projetos e afins, é só chegar junto!

Valeu novamente, galera. E que venha 2018!

Alesp aprova revalidação gratuita de diplomas de refugiados em SP

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Plenário da Alesp durante a última sessão de 2017, na qual foi aprovado o projeto de lei que isenta refugiados da taxa para validação de diplomas no ensino superior. Crédito: Vilma Jacob/Alesp - 27/12/17

Proposta vai para sanção do governador; revalidação de diplomas é um dos maiores obstáculos para a inserção dos refugiados e solicitantes de refúgio na sociedade brasileira

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

No último dia de trabalhos em 2017, a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) aprovou nesta quarta-feira (27) o Projeto de Lei 557/2016, que prevê isenção de pagamento de taxas de revalidação de diplomas de refugiados que vivem no Estado.

A regra vale tanto graduação, mestrado e doutorado para os refugiados no Estado. Com a aprovação em plenário, o projeto segue para sanção do governador, Geraldo Alckmin.

Clique aqui para ver o projeto e como foi a tramitação

A revalidação de diplomas – e o alto custo financeiro que envolve – é um dos maiores obstáculos para a inserção dos refugiados e solicitantes de refúgio na sociedade brasileira, tanto no quesito educacional como profissional.

Plenário da Ales durante a última sessão de 2017.
Crédito: Vilma Jacob/Alesp – 27/12/17

Sem poder exercer a atividade profissional para a qual estão qualificados, os refugiados e solicitantes – assim como outros migrantes que vivem no Brasil – muitas vezes são obrigados a recorrer a empregos de baixa qualificação profissional ou apostar no mercado informal para sobreviver. Ao mesmo tempo, também encontram dificuldade para dar continuidade aos estudos em território brasileiro.

De autoria do deputado estadual Carlos Bezerra Jr. (PSDB), o PL 557/2016 tramitava desde julho de 2016 na Alesp. Em post nas redes sociais, o parlamentar saudou a aprovação do projeto como “uma grande vitória” para o Estado de São Paulo em relação a políticas públicas para refugiados.

“A conquista de hoje é com base no mérito e no direito, mas também nos mostra como promover a justiça através de instrumentos para garantir o pleno acolhimento”.

Outras ações já existentes ou em andamento

Entre as ações estaduais relacionadas à temática migratória nos últimos anos estão a abertura do CIC do Imigrante e da Casa de Passagem Terra Nova, ambas em 2014 e localizados na capital paulista. Também começou a tramitar na Alesp esse ano uma proposta de Política Estadual para a População Migrante, que tem o próprio Bezerra como um dos autores – também assinam o projeto as deputadas Ana do Carmo (PT), Márcia Lia e Leci Brandão, ambas do PC do B.

Na esfera municipal, a cidade de São Paulo conta desde 2016 com uma Política Municipal para a População Imigrante, que tem como objetivo – e também desafio – de institucionalizar e dar continuidade a uma série de ações do poder público municipal nos últimos anos, como a criação do CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante) e a participação dos imigrantes nos Conselhos Participativos das Prefeituras Regionais da cidade.

Com informações da Alesp

O 2017 das migrações no Brasil e no mundo, em frases

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Farmworkers from Mexico’s San Quintin valley gather at the border fence to protest against abuses, low pay and poor working conditions in Tijuana, Mexico on March 29, 2015. After 2 weeks of striking, the farmworkers marched en masse all the way to the border, setting up roadblocks and barricades along the way. The violent demonstrations captured international headlines.

MigraMundo acompanhou eventos relacionados à temática migratória no Brasil e no mundo; algumas frases ajudam a lembrar do que aconteceu neste ano

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

O ano de 2017 foi bem movimentado em relação às migrações, tanto no Brasil como no exterior.

E desta vez o MigraMundo faz sua Retrospectiva 2017 a partir de frases marcantes que ajudam a resumir alguns desses fatos marcantes, todos acompanhados de alguma forma pelo MigraMundo.

Ficou faltando algum fato importante? Basta enviar para algum dos canais de comunicação do MigraMundo: o e-mail blogmigramundo@gmail.com, redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram) e WhatsApp.

E que venha 2018!

Retrospectiva 2017

“Existe um muro entre México e EUA e eu quero mostrar como ele é”

Griselda San Martin, sobre o projeto The Wall, que fez no Friendship Park, na fronteira entre México e EUA – leia mais

Trabalhadores do vale de San Quintin, no México, se reúnem na cerca da fronteira para protestar contra os abusos, salários baixos e condições de trabalho precárias em Tijuana, no México, em 29 de março de 2015. Após duas semanas de golpe, os trabalhadores agrícolas marcharam em massa até a fronteira, criando obstáculos e barricadas ao longo do caminho. As manifestações violentas chegaram às manchetes internacionais.
Crédito: Griselda San Martin

 

“O decreto traz a visão técnica “daqueles que operam a migração no dia a dia”.

Hugo Gallo, presidente do CNIg, sobre a ótica presente no decreto da nova Lei de Migração, apesar de protestos da sociedade civil organizada – leia mais

 

“Estamos diante de um governo que não entende que um ato normativo como um decreto não pode contrariar uma lei”

Camila Asano, diretora de relações externas da Conectas, sobre o decreto da nova Lei de Migração – leia mais

Migrantes querem maior participação e acesso aos debates sobre a Lei de Migração.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

 

“Não é por brincadeira que estamos aqui. Não é legal estar em um país onde você é xingado por falar espanhol. Somos discriminados por seremos venezuelanos”

Merlina Ferreira, psicóloga venezuelana residente em Boa Vista, sobre preconceito sofrido no Brasil – leia mais

 

“Vidas pretas também importam”

Uma das reivindicações levadas pelos migrantes que participaram da 11ª Marcha dos Imigrantes, em São Paulo – leia mais

Imigrantes da Mauritânia se somam à Marcha dos Imigrantes.
Crédito: Amanda Rossa/MigraMundo

 

“O próximo passo é tornar o app e site como uma referência de prestar serviço para imigrantes e pessoas que trabalham prestando serviço aos imigrantes”

Wilbert Rivas, imigrante responsável pelo app Além das Fronteiras, voltado a ajudar imigrantes com documentação e regularização migratória – leia mais

 

“Humanizar a questão do migrante e do refugiado no Brasil não é só humanizar a vida dessas pessoas, mas também é humanizar a nossa sociedade, nosso Estado de direitos”

Gustavo Ambrósio, professor universitário, durante roda de conversa na avenida Paulista sobre a nova Lei de Migração. Evento ocorreu poucos dias após manifestação xenófoba que ocorreu no mesmo local – leia mais

Roda de conversa na av. Paulista foi contraponto às manifestações xenófobas que ocorreram no local dias antes (mai/2017). Também serve como exemplo de inteligência cultural.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

 

“O nome é feio e desnecessário. O bairro é multicultural. Seria o mesmo que ignorar o fato de que os judeus, árabes, italianos, bolivianos, chineses e outras raças ajudaram e contribuíram para que o bairro seja hoje como é”

Natália Pak, brasileira filha de sul-coreanos, sobre a ideia polêmica do prefeito de São Paulo, João Doria, de apelidar o bairro do Bom Retiro de Little Seul – leia mais

 

“Não esqueçam suas raízes. Tentar copiar outras coisas de outras culturas é uma falta de respeito por vocês mesmos, não tenham vergonha! As pessoas gostam de conhecer outras culturas, os artistas imigrantes. Sejam orgulhosos de vocês mesmos, a América Latina está aberta a todos vocês”

Adrian Ilave, artista plástico peruano, sobre a importância do imigrante valorizar sua cultura materna – leia mais

Adrián Ilave promove a mescla entre o contemporâneo e a cultura pré-colombiana em suas criações.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

 

“Para conseguir o voto das pessoas, joga-se com o medo, um medo que não tem base racional. E ao mesmo tempo, por não haver capacidade de criar um sistema de acolhimento e integração e que seja de qualidade, o acolhimento dos migrantes é visto como um problema para a sociedade e para a política”

Simone Andreotti, vice-presidente da Casa Benvenuto (Itália) e ex-ACNUR, sobre a xenofobia presente na Europa – leia mais

 

“É como uma prisão. Alguns de nós vemos isso como uma prisão”

S., que vive em campo de refugiados de Lesvos (Grécia), sobre as condições do local – leia mais

Situação precária é uma das marcas do campo de Moria, que abriga refugiados em Lesvos (Grécia).
Crédito: Herivelto Quaresma

 

“Eu penso o seguinte: eu não quero que você me aceite como eu sou, só quero que você me respeite. É a única coisa que eu exijo, é a única coisa que eu penso que eu tenho por direito, exigir o respeito do outro”

Ana, sobre ser migrante e refugiada LGBTT no Brasil – leia mais

 

“Por que tanto niño migrante?”

A salvadorenha Irma Deras, se perguntando pelo grande número de crianças que migram do Triângulo Norte da América Central – que vive uma crise humanitária ignorada pela comunidade internacional – leia mais

“Nesse momento, o principal é que as instituições se unam. Não é só aqui que as coisas acontecem. Infelizmente fomos mais uma a sofrer esse tipo de coação. Não apenas os migrantes, mas é preciso que as demais instituições vejam umas às outras como parceiras. Lutamos pelas mesmas causas”

Carla Aguilar, assistente social do CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), após assalto sofrido pela entidade. Ação apresentou sinais de ter sido premeditada – leia mais

Uma das salas da sede do CAMI após o assalto.
Crédito: Divulgação/CAMI

 

“Dentro ou fora das negociações e dos acordos resultantes do Pacto Global, os EUA continuarão a ter responsabilidade caso violem normas, princípios ou costumes de direito internacional aplicáveis para migrantes e refugiados. Mas, na prática, quem mais sentirão os efeitos dessa medida serão os migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade”

Carolina Batista de Abreu Claro, professora de relações internacionais da UnB, sobre os efeitos da saída dos EUA do Pacto Mundial das Nações Unidas para os Migrantes e Refugiados – leia mais

 

“Isso é uma verdadeira crise. (…) O acampamento de Kutupalong está além de sua capacidade. Famílias inteiras chegaram, cada espaço disponível está ocupado. Não tenho certeza de quanto tempo podemos aguentar isso”

Mohammad Abul Kalam, Comissário de Repatriação e Assistência para Refugiados em Cox’s Bazar (Bangladesh) sobre os refugiados rohingyas no país asiático – outra das “crises esquecidas” mundo afora – leia mais

Refugiados Rohingya que fogem para Bangladesh precisam urgentemente de assistência médica e humanitária.
Crédito: MSF

“Tantos passos estão escondidos nos passos de José e Maria. Vemos o percurso de famílias inteiras forçadas a fugir nos nossos dias. Vemos o percurso de milhões de pessoas que não escolhem fugir, mas são expulsas de sua terra e deixam para trás seus entes queridos”

Papa Francisco, durante homilia na Missa do Galo deste ano, no Vaticano, defendendo os migrantes – leia mais

Livros retratam histórias de sobrevivência em meio à guerra

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Livros-reportagem e uma história em quadrinho retratam a vida de quem busca o recomeço em meio à guerra Crédito: Géssica Brandino/Caminhos do Refúgio

Para a repórter Patrícia Campos Mello, autora de “Lua de Mel em Kobane”, o jornalismo brasileiro precisa falar sobre aquilo que afeta diretamente os refugiados

Por Géssica Brandino
No Caminhos do Refúgio – link original aqui

Histórias de superação e luta de refugiados dentro e fora da Síria ganharam as páginas de livros-reportagens e uma história em quadrinhos para crianças. “Lua de mel em Kobane”, de Patrícia Campos Mello, e “Uma esperança mais forte que o mar”, de Melissa Fleming, apresentam diferentes ângulos sobre o conflito na Síria e “Um outro país para Azzi”, da escritora e ilustradora inglesa Sarah Garland, conta a saga de uma família para escapar da guerra, histórias que ajudam a aproximar o olhar para a realidade dos refugiados no mundo.

Publicado no mês passado pela Companhia das Letras, “Lua de Mel em Kobane” é resultado de um trabalho de reportagem iniciado em 2015, quando a repórter especial da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello foi à Síria para contar a história da família do menino Alan Kurdi, cuja foto do corpo numa praia despertou o olhar do mundo para as barreiras enfrentadas pelos refugiados.

Prestes a viajar, Patrícia ficou sem fixer (ou arranjador), profissional local com vasto conhecimento e domínio dos idiomas que auxilia repórteres estrangeiros durante a cobertura jornalística. Sem o profissional, as pautas que desejava fazer não seriam possíveis. Recebeu então o contato de um jornalista chamado Barzan para assumir a tarefa. Ao conhecer o rapaz e a esposa Raushan se deparou com uma história que precisava ser contada.

Leia aqui a reportagem completa no portal Caminhos do Refúgio

Livros-reportagem e uma história em quadrinho retratam a vida de quem busca o recomeço em meio à guerra
Crédito: Géssica Brandino/Caminhos do Refúgio

“Questão Social” e Pastoral dos Migrantes: irmãs gêmeas

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Pessoas refugiadas são protegidas pelo princípio de "non refoulement" (não devolução, em tradução livre). Crédito: ACNUR

As migrações atuais tornaram-se mais intensas, mais complexas, mais coloridas e diversificadas; é preciso construir novas pontes, e não muros

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
Em Roma (Itália)

Há 130 anos, mais exatamente em 12 de novembro de 1887, o Bem-aventurado Dom J. B. Scalabrini, bispo de Piacenza, norte da Itália, fundava a Congregação dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos). Quatro anos depois, em 1891, o então Papa Leão XIII publicava a Carta Encíclica Rerum Novarum, documento inaugural da Doutrina Social da Igreja. E outros quatro anos após, em 1895, o Bem-aventurado Dom Scalabrini, juntamente com a Bem-aventurada Madre Assunta e seu irmão, o servo de Deus Pe. José Marchetti, fundavam a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos (Scalabrinianas).

Essas três datas – 1887, 1891 e 1895 – inserem-se no contexto de um grande despertar da Igreja para com a condição socioeconômica e política das pessoas. Estamos no final do século XIX, século do movimento, segundo alguns historiadores. Pessoas, trens, carros e navios se deslocam numa euforia frenética, sem precedentes, no auge da Revolução Industrial. Esta, com efeito, traz avanços tecnológicos e formas inéditas de conforto, além de revolucionar a visão da própria existência humana. Mas também abre feridas, desloca multidões e, numa ampla onda de urbanização, provoca nas grandes cidades bolsões de pobreza e desemprego, miséria e fome. Daí o nascimento de várias Congregações de caráter apostólico, sobretudo na segunda metade do século, para atender, entre outros grupos e categorias, os jovens, os órfão e viúvas, as mulheres prostituídas, os operários e os emigrantes.

Juntando as figuras do Papa Leão XIII e do Bem-aventurado J. B. Scalabrini, constata-se algo que é muito mais do que uma mera coincidência. Ao novo despertar da Igreja para com a “questão social”, tema da encíclica Rerum Novarum, corresponde o despertar de Dom Scalabrini para com os emigrantes que, em massa, deixavam a Europa. Sensibilidade em dupla dimensão: enquanto o Papa se preocupa com a condição dos operários nas fábricas emergentes, o bispo de Piacenza solidariza-se com aqueles que sequer conseguiam emprego em seus países. Por isso, são obrigados a cruzar os mares em busca de novas oportunidades nas Américas. De 1820 a 1920, mais de 60 milhões de pessoas saem da Europa.

Total de deslocados e refugiados no mundo é recorde, aponta ACNUR.
Crédito: ACNUR

Em outras palavras, a intuição de Dom Scalabrini pela acolhida e solicitude diante dos migrantes e prófugos
nasce no interior da nova solicitude pastoral da Igreja para com a condição concreta em que viviam os trabalhadores e trabalhadoras, devido às turbulências da Revolução Industrial. Disso resulta que a preocupação sistemática da Igreja sobre a “questão social”, por um lado, e aquilo que se poderia chamar de “Pastoral dos Migrantes”, por outro, são irmãs gêmeas. Se Leão XIII é o iniciador da Doutrina Social, Scalabrini passará a ser chamado “pai e apóstolo dos migrantes”.

São tempos que se abrem aos novos desafios da sociedade moderna, preanunciando o Concílio Vaticano II.

Hoje, porém, passados 130 anos, as migrações tornaram-se mais intensas, mais complexas, mais coloridas e mais diversificadas. Novos rostos passam a fazer parte dos fluxos migratórios. Mulheres e crianças assumem um protagonismo crescente. O fenômeno envolve atualmente quase todos os países do planeta, como lugares de origem, lugares de destino ou lugares de passagem – quando não os três ao mesmo tempo. A ONU estima em mais de 258 milhões o número de pessoas que vivem e trabalham fora do país em que nasceram, e em cerca de 25 milhões o número de refugiados.

Nesse cenário em movimento, entende-se a insistência do Papa Francisco para com a abertura do coração, das portas e das fronteiras aos migrantes, prófugos e refugiados. “Construir pontes e não muros”, repete o Pontífice diante das pessoas, das nações e dos meios de comunicação social. Ao por-se a caminho, com um futuro incerto, os migrantes fazem marchar a história e a Igreja. Interpelam-nos a sair fora de nós mesmos, sair de casa ou deixar a sacristia. Através deles, o profeta itinerantes de Nazaré, nos chama igualmente ao caminho: tornar-se discípulos-missionários no universo dos migrantes, levando-lhes “o sorriso da pátria e o conforto da fé”, como lembrava Scalabrini.

Sede do CAMI é assaltada em São Paulo

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Uma das salas da sede do CAMI após o assalto. Crédito: Divulgação/CAMI

Crime tem indícios de ter sido premeditado e com objetivo de intimidação; instituição retomou atendimentos e pede “união”

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 25/12, às 22h25

O 18 de dezembro, quando é celebrado o Dia Internacional do Migrante, não foi dos mais felizes no CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), que teve sua sede assaltada na região central de São Paulo no final de semana.

A entidade não chegou a fazer uma estimativa do prejuízo material, mas a lista de itens furtados indica valores na casa dos milhares de reais – computadores, impressoras, televisores, data show, além de equipamentos de áudio usados na rádio web mantida pela entidade, entre outros. Portas e janelas também foram arrombadas ou danificadas pelos criminosos.

O grande prejuízo, no entanto, está nas informações perdidas por conta do assalto. No setor jurídico, que faz acompanhamento de processos contra trabalho escravo, foram levados apenas o disco rígido, o que é apontado tanto pela perícia como pelo CAMI como indício de que o crime foi premeditado, com informações fornecidas por alguém que conhecia a instituição e seu cotidiano. A polícia continua a investigar o caso, que teve Boletim de Ocorrência registrado no 77º DP (Santa Cecília), e procura pelos suspeitos.

Uma das salas da sede do CAMI após o assalto.
Crédito: Divulgação/CAMI

“Entendemos que o que aconteceu aqui não foi simplesmente um furto, mas uma mensagem dada à instituição pelo trabalho que vem desenvolvendo. Provavelmente tinham todas as informações porque foram encontrados detalhes tanto nós como a perícia que só quem conhecia a instituição e seu cotidiano poderia saber”, explica Roque Patussi, coordenador-geral do CAMI.

Atendimentos continuam

Apesar dos estragos causados pelo assalto, o CAMI funciona de forma improvisada ao mesmo tempo que realiza os primeiros reparos. Sistemas de segurança deverão ser implementados já nos próximos dias.

“O atendimento continua normal, vamos nos adequar à situação mesmo que tenhamos de anotar tudo com papel e caneta. O público não vai perder com isso”, reforça Patussi.

Neste final de ano a direção do CAMI informa que a entidade fechará apenas entre os dias 22 e 25/12 e entre 29/12 e 01/01. Nos demais dias do final de ano e a partir de 2 de janeiro de 2018 o funcionamento será normal, das 9h às 16h30.

Portão de acesso ao CAMI, que foi arrombado.
Crédito: Divulgação/CAMI

Como ajudar?

O crime é visto pela instituição como uma forma de intimidação e de divisão. E aponta a união como uma das principais saídas para que não apenas o CAMI, mas outras instituições tenham mais força para evitar situações como essa.

“Nesse momento, o principal é que as instituições se unam. Não é só aqui que as coisas acontecem. Infelizmente fomos mais uma a sofrer esse tipo de coação. Não apenas os migrantes, mas é preciso que as demais instituições vejam umas às outras como parceiras. Lutamos pelas mesmas causas”, afirma Carla Aguilar, assistente social do CAMI.

Além do pedido de união, o CAMI também se coloca à disposição para qualquer pessoa ou grupo que quiser ajudar a entidade. Interessados podem entrar em contato por meio do telefone (11) 3333-0847, pelo e-mail cami.coordenacao@gmail.com ou por meio da página no Facebook.

Sede do CAMI recebe os primeiros reparos após o assalto à entidade.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

A instituição

Fundado em julho de 2005, o CAMI atua na promoção da dignidade dos migrantes, auxiliando com regularização, orientação social e jurídica, além de oferecer cursos profissionalizantes e de português. Além do trabalho na sede, também conta com agentes multiplicadores em bairros das zonas leste e norte de São Paulo, além do município de Carapicuíba.

O CAMI também é uma das entidades organizadoras e apoiadoras da Marcha dos Imigrantes, ato político que ocorre anualmente em São Paulo com migrantes de diferentes nacionalidades, do Grito dos Excluídos Continental e do Festival de Música e Poesia do Migrante.

No último dia 10 de dezembro, 140 de migrantes de diferentes nacionalidades receberam certificado pelos cursos feitos junto ao CAMI – português, modelagem, empreendedorismo, teatro, música, informática e eletricista.

O poder da cultura: migrações como oportunidade intercultural

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Festa do Imigrante reúne milhares de pessoas anualmente no espaço da antiga Hospedaria do Brás. Crédito: Divulgação

Junto com o empenho por uma migração segura, cabe reconhecer que a mobilidade humana é fator de desenvolvimento e de transformação, em todas as dimensões do humano

Por Carmem Lussi
Do CSEM (Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios)

Max Frisch, referindo-se à imigração de italianos à Suíça, afirmou: “queríamos braços, chegaram pessoas”. Décadas mais tarde, os países continuam tratando as migrações internacionais como problema contingente, as políticas ainda balbuciam respostas aos desafios da mobilidade humana e as comunidades multiplicam ações e reações tentando aprender a conviver com as novidades, os aportes e as transformações que as migrações fazem acontecer. Os deslocamentos populacionais incidem sobre os locais onde as pessoas partem ou passam, e especialmente onde chegam, seja naqueles em que fazem uma pausa em suas trajetórias, seja nos que escolhem para construir suas moradas.

Os movimentos migratórios marcam as sociedades, para além das situações emergenciais, que não cessam e que precisam de devida e responsável atenção com intenção de ações e efeitos a médio e longo prazo. O mundo aguarda com expectativa que tenha êxito o esforço a nível das Nações Unidas, onde se trabalha por um Pacto Global sobre Migrações, previsto para ser votado na Assembleia Geral da ONU em 2018. Entretanto, junto com o empenho por uma migração segura, cabe reconhecer que a mobilidade humana é fator de desenvolvimento e de transformação, em todas as dimensões do humano.

Festa do Imigrante reúne milhares de pessoas anualmente no espaço da antiga Hospedaria do Brás.
Crédito: Divulgação

Um dos aportes com os quais migrantes e refugiados contribuem de modo importante para o desenvolvimento e o enriquecimento dos povos é a cultura, nas suas diferentes formas e expressões. A cultura é também um canal particularmente favorável para a integração e a convivência intercultural em contextos nos quais as diversidades culturais muitas vezes são consideradas fatores de ameaça à qualidade de vida, à convivência e à paz. A cultura tem “poder [de] transformar vidas e contribuir para a inclusão e para a coesão social, promovendo o conhecimento, o diálogo, a tolerância e o respeito” .

O poder da cultura é um “poder de criar espaços de encontro, espaços livres, abertos e não ameaçadores, que promovem o conhecimento, que dão a conhecer o “Outro” e a sua humanidade, que ajudam a criar laços…” . Nesse sentido, a campanha da Caritas Internacional COMPARTILHE A VIAGEM vem a ressaltar exatamente um aspecto fundamental do fenômeno migratório, esquecido especialmente pela grande mídia: o desafio da chegada de pessoas de outras culturas e mentalidades, portadoras de outros valores e não raramente também de outras religiões, como uma oportunidade de convivência, de novas relações interpessoais e de encontro.

A arte, a cultura dos povos, a dança e a gastronomia, as cores e os ritmos que as migrações fazem encontrar, partilhar e intercambiar podem melhorar a vida de quem migra e, sobretudo, incidir nos contextos de interação com seu poder transformador e mobilizador, favorecendo o encontro e a valorização da alteridade que os migrantes trazem consigo, assim como a emersão, o respeito e o reconhecimento das particularidades e riquezas de todas as diversidades que as comunidades encerram e transmitem, de geração em geração. A cultura pode ser laboratório de interação, de integração e também de superação dos medos e do desconhecimento do ‘Outro’, que está na raiz de toda xenofobia, discriminação, criminalização, culpabilização e rejeição das pessoas e dos grupos humanos diferentes por tradição, fenotipia, cultura, religião ou origem.

Ato na Praça da Sé para o lançamento da Lançamento da campanha mundial “Compartilhe a Viagem”.
Crédito: Miguel Ahumada

Se por um lado “é preciso reconhecer as diferenças, não apenas como fatores que enriquecem as nossas vidas, mas também como fatores que nos separam e criam tensões” , por outro lado, cabe ressaltar que o medo das mudanças culturais pode fazer com que muitos cidadãos que passam por situações de crise financeira optem por apoiar políticas anti-imigração e alimentar discursos e posturas de desprezo e rejeição de imigrantes e refugiados. Nesse sentido, o intercâmbio que as expressões culturais fazem acontecer se torna uma experiência promissora a partir da interculturalidade que se multiplica de baixo, fazendo brecha através dos encontros e das relações em nível micro, e que podem fazer a diferença na construção de sociedades tolerantes e capazes de gerenciar seus desafios internos.

O poder da cultura requer também que os próprios migrantes valorizem sua bagagem cultural, apreciem sua riqueza cultural e descubram as riquezas das culturas e dos atores que encontram em suas trajetórias. “Compartilhar a própria cultura permite àqueles que se refugiaram no país uma aproximação /…/ livre de estereótipos comuns”. Migrantes e refugiados se assumem, assim, como “protagonistas de uma experiência intercultural” que os empodera e que favorece processos transformadores de mentalidade e de valores, promovendo a convivência intercultural.

A arte, especialmente a habilidade de colher, interpretar e enviar ao mundo imagens do que a mobilidade humana vive, sofre e enfrenta, especialmente em algumas cruciais fronteiras entre nações, vem sendo uma estratégia incisiva de advocacy pela vida e pela proteção da dignidade e dos direitos dos povos em fuga. Fotografias e cinema, em especial, vêm atuando com força internacionalmente. Há realidades e ideias que só conseguem ser interpretadas e transmitidas com silêncios e olhares, palavras não conseguem alcançar sua profundidade nem formular seus significados. Também o teatro e a literatura conseguem fazer ecoar e até denunciar, o que o cotidiano e as políticas, a mídia e os preconceitos não dão conta de abarcar em suas falas e reações.

Enquanto os próprios migrantes e refugiados são os protagonistas nos percursos de interação que as artes e a criatividade da sabedoria e da cultura de seus respectivos povos levam para os países de imigração, o desenvolvimento de mentalidade e de valores de acolhida, o reconhecimento da alteridade como riqueza, o respeito da dignidade de quem é portador(a) de alteridades na convivência humana e social está nas mãos, sobretudo, de quem educa as novas gerações, na família e na escola, não menos nos espaços onde a interação é construída por causa do trabalho ou do lazer. A transmissão da cultura entre gerações se dá por processos intrínsecos ao crescimento das pessoas e ao desenvolvimento, mas a promoção da intercultura como modo inclusivo e respeitoso da dignidade e da riqueza de todos e todas é uma decisão que cada sujeito precisa tomar, para poder contribuir, favorável ou desfavoravelmente.

*Editorial da resenha Migrações na Atualidade, edição 109, publicado também no MigraMundo pela parceria com o CSEM – Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios

Mutirão em SP oferece serviços e atende brasileiros e migrantes no Vale do Anhangabaú

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Mutirão levou serviços a brasileiros e migrantes no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Ação foi organizada pela Fambras, com apoio da Prefeitura de São Paulo e outras instituições; evento fez parte do 5º Festival de Direitos Humanos

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Quem passou na tarde deste sábado (16) pelo Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, teve a oportunidade de acessar um mutirão de serviços, atendimentos e ações culturais aproveitadas tanto por brasileiros como por migrantes.

Aberta ao público, a ação “E eu, onde fico? – Ação Social do Islam” foi promovida pela Fambras (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) – que congrega uma série de entidades muçulmanas de todo o Brasil – em conjunto com a Prefeitura de São Paulo, por meio da SMDHC (Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania) e outras instituições diversas.

Mutirão levou serviços a brasileiros e migrantes no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O mutirão foi uma das etapas do 5º Festival de Direitos Humanos, promovido pela secretaria ao longo do mês de dezembro, e também encerrou uma semana com atividades ligadas à temática migratória, coordenadas pela Coordenação de Políticas para Imigrantes da prefeitura paulistana.

Ao todo foram 17 modalidades de serviços de saúde, ofertados por mais de 250 voluntários, entre médicos, dentistas, fisioterapeutas, técnicos e auxiliares de enfermagem, enfermeiros, nutricionistas e massoterapeutas. Entre os exames disponíveis estavam os de hipertensão, diabetes, colesterol, hepatite C, oftalmológico e de mamas.

Há planos para que a atividade seja realizada novamente em 2018.

Corte de cabelo foi um dos serviços mais disputados no mutirão.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Islã cidadão e solidário

O fato do evento ser conduzido por uma federação ligada ao Islã pode soar estranho de início – e até chegou a gerar comentários negativos de alguns internautas nas redes sociais. Mas o presidente da Fambras, Mohamed Hussein El Zoghbi, cita o mutirão no Anhangabaú como exemplo para mostrar que o Islamismo real nada tem a ver com ódio ou situações violentas.

“A Fambras tem exercido um papel de liderança para desconstruir a imagem negativa sobre o Islã. A federação tem feito esses eventos para mostrar o Islã cidadão, o Islã solidário, que respeita as diferenças e propaga a paz. A violência não caracteriza o Islã nem os muçulmanos”.

Mulheres muçulmanas aguardam vez para massagem durante o mutirão.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

“Local democrático”

A escolha do Vale do Anhangabaú para realização do mutirão foi definida pela Prefeitura de São Paulo por ser um local democrático e com fácil acesso.

“Como os migrantes estão em diferentes regiões da cidade, pensamos em um local que fosse o mais acessível possível”, comenta comenta Andrea Zamur, atual coordenadora de políticas para migrantes da SMDHC.

Ela também ressaltou o fato dos serviços terem sido aproveitados tanto por brasileiros como pelos migrantes. “Esse espaço de compartilhamento entre brasileiros e migrantes é incrível e também desmistifica muita coisa, aproxima a população e sensibiliza os trabalhadores que estão aqui na ação, mostrando que muitas necessidades são iguais”.

Migrantes na área

Além desses serviços, os migrantes que foram ao evento puderam ter acesso a orientações, documentos e cartilhas que esclarecem seus direitos e deveres no Brasil, além da possibilidade de fazer cadastro no CadÚnico, que permite o acesso a programas sociais. O CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Migrante), a DPU (Defensoria Pública da União) e o coletivo ProMigra eram algumas das instituições com atendimento voltado a migrantes no mutirão.

Migrante recebe atendimento de funcionária do CRAI durante o mutirão “E Eu, Onde Fico? Ação Social do Islam”.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Entre os migrantes que aproveitaram o mutirão estava o costureiro haitiano Freguens Jeudy, que soube do evento durante uma das aulas de português que cursa junto à instituição Conviva Diferente. Ele elogiou a existência desse tipo de iniciativa.

“Está muito legal. Aqui temos muitas oportunidades para ter informação e saber como está nossa saúde”, afirmou, em referência aos serviços disponíveis naquela tarde.