Cartazes feitos pelos manifestantes em frente ao Consulado Geral da Itália, na avenida Paulista, São Paulo.
Crédito: Samantha Neves
Manifestantes colocaram cartazes em repúdio ao leilão de escravos no norte do continente africano em frente ao Consulado Geral da Itália
Por Samantha Neves
Em São Paulo (SP)
Um grupo de manifestantes do movimento negro de São Paulo e imigrantes africanos protestaram em frente ao Consulado Geral da Itália, na Avenida Paulista, na tarde de sexta-feira (18). É o segundo ato do tipo já promovido na capital paulista e contou com a produção de cartazes reivindicando do governo italiano medidas para cessar o tráfico de pessoas.
Cartazes feitos pelos manifestantes em frente ao Consulado Geral da Itália, na avenida Paulista, São Paulo. Crédito: Samantha Neves
A ocorrência do leilão de escravos na Líbia veio a conhecimento público em 15 novembro de 2017, quando a emissora de TV CNN divulgou um vídeo que mostrava imigrantes africanos sendo vendidos como mercadorias por quantias que chegavam a R$ 1,5 mil.
De acordo com a matéria da revista Vice, um acordo firmado entre a Itália e a Líbia garantia a redução da chegada de imigrantes no continente europeu. O governo italiano pagaria US$ 236 milhões ao governo da Líbia para financiar e treinar a Guarda Costeira local. Assim, quando barcos que transportam os imigrantes africanos são avistados pela marinha italiana, esta aciona a Guarda Costeira da Líbia que faz o resgate destes tripulantes e os manda de volta para o norte do continente africano. Como resultado deste acordo, o número de migrantes que conseguem chegar no continente europeu reduziu, o que consequentemente contribuiu para um crescente volume de imigrantes na Líbia.
Ato foi realizado em São Paulo como forma de denúncia à venda de escravos na Líbia. Crédito: Samantha Neves
Os africanos “resgatados” são mandados para centros de detenção de imigrantes irregulares que estão lotados e em condições precárias, conforme mostrado no vídeo da CNN. Sem dinheiro, estes imigrantes acabam se tornando vítimas e mercadoria no tráfico de seres humanos.
Área externa do abrigo provisório para imigrantes, em Boa Vista (RR).
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - mar/2017
Delegação vai visitar cidades em Roraima, Amazonas e Pará e deve dialogar com agentes públicos, da sociedade civil e com os próprios migrantes
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
O CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) fará uma missão nos Estados de Roraima, Amazonas e Pará nos próximos dias para verificar a situação dos migrantes venezuelanos que tem chegado ao Brasil. Serão visitadas as cidades de Manaus (AM), Santarém e Belém (PA), Pacaraima e Boa Vista (RR).
A programação começa já nesta quarta-feira (17), com reuniões em Brasília com o Ministério da Casa Civil e entidades como o IMDH (Instituto Migrações e Direitos Humanos), que está presente na fronteira Brasil-Venezuela. No dia seguinte começam as visitas in loco aos locais onde os migrantes estão sendo alojados, reuniões com a sociedade civil, agentes internacionais e integrantes do poder público envolvidos diretamente com a temática migratória, como prefeituras, governos estaduais e a Polícia Federal. A decisão de se realizar a visita se deu na 33ª Reunião Ordinária do colegiado, realizada nos dias 6 e 7 de dezembro em Brasília.
Também serão identificadas pela delegação situações que configurarem violação de direitos humanos contra os migrantes – como impedimento de acesso e uso de serviços públicos como saúde e educação, violência policial e manifestações de preconceito e discriminação.
A comitiva termina o giro pelo Norte do país no dia 26, com uma audiência pública seguida de coletiva de imprensa.
Área externa de abrigo provisório para imigrantes em Boa Vista (RR). Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar/2017
De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), de 250 a 300 imigrantes venezuelanos passam diariamente pela fronteira com o Brasil. Já de acordo com a Polícia Federal, até 1º de novembro haviam sido registradas 20.137 solicitações de refúgio – sendo 15.643 só em 2017 – e 2.740 solicitações de residência temporária.
Já dados divulgados pelo Conare (Comitê Nacional para Refugiados) no último dia 10 de janeiro mostram que o Brasil recebeu 33.865 solicitações de refúgio em 2017, sendo que 52,75% delas eram de venezuelanos (17.865).
Imigrantes indígenas da etnia warao falam à missão durante visita ao abrigo provisório em Boa Vista. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar/2017
Ainda sobre os warao, o comportamento migratório da etnia também ainda não está claro para as autoridades e organizações no Brasil, o que é representa mais um desafio tanto para a missão do CNDH como para os demais atores que lidam com a temática migratória na região.
A missão de março de 2017
As cidades de Boa Vista e Pacaraima, ambas em Roraima, já foram visitadas por outras delegações destinadas a entender e buscar saídas para lidar com o fluxo de migrantes venezuelanos – o Estado registrou 47,11% das solicitações de refúgio de venezuelanos em 2017, de acordo com o Conare. Elas devem servir como amostra do que a nova missão organizada pelo CNDH deve encontrar na região Norte.
Em março de 2017, por exemplo, uma missão organizada pelo Ministério Público Federal – acompanhada pelo MigraMundo – esteve no Estado para encontros com integrantes dos governos estadual e municipal, com a Polícia Federal, sociedade civil e com os próprios migrantes venezuelanos.
Durante a visita, que terminou também com uma audiência pública na UFRR (Universidade Federal de Roraima), ficaram evidentes pontos como manifestações hostis contra os venezuelanos e a falta de comunicação entre os agentes públicos, o que dificulta a aplicação de políticas emergenciais e permanentes junto aos migrantes.
Representantes da etnia warao também tomaram parte na audiência. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar/2017
O Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Adjunto, João Akira Omoto, que integra a comitiva do CNDH, foi um dos organizadores da missão de março de 2017 em Roraima.
“A missão [de março de 2017] foi a primeira com um olhar com perspectiva de direitos humanos relacionada à migração venezuelana, mais especificamente em Roraima. As informações que chegavam de lá eram muito desencontradas”, recorda ele.
Akira aponta que desde então foram verificados avanços em relação ao atendimento e às políticas direcionadas aos migrantes, mas que são insuficientes diante da persistência da falta de diálogo entre os governos e da presença venezuelana em outros Estados além de Roraima.
“A ideia é ir aos três Estados, fazer contatos com os migrantes e fazer observações in loco. O que mais preocupa ainda e a falta de estrutura que os municípios apresentam. Há uma articulação entre as instituições, mas ainda muito aquém do desejado.
Composição da missão
Camila Asano – CNDH – Conectas Direitos Humanos
João Akira Omoto – CNDH – Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Adjunto – Mistério Público Federal (MPF)
Além deles, a missão deve ser acompanhada pelo chefe da missão da OIM (Organização Internacional para as Migrações) no Brasil, Stéphane Rostiaux, e por representantes do ACNUR no país em momentos específicos.
Operação de resgate conduzida por MSF a bordo do barco Aquarius.
Crédito: Kevin McElvaney/dez.2016
Revista divulga primeira edição neste ano, que teve foco nos fluxos no Mediterrâneo; veja as datas e como participar das próximas publicações
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Já está disponível na internet a mais recente edição da REMHU (Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana), cujo dossiê é “Migrações no Mediterrâneo: entre fronteiras e acolhimento”.
Os textos trazem visões críticas sobre o tratamento que o movimento migratório em direção à Europa tem recebido de governos nacionais e das sociedades, incluindo questões como as crianças que migram desacompanhadas.
Operação de resgate conduzida no Mediterrâneo pela ONG Médicos Sem Fronteiras a bordo do barco Aquarius. Crédito: Kevin McElvaney/dez.2016
Dados do projeto Missing Migrants, da OIM (Organização Internacional para as Migrações), apontam que 3.119 pessoas morreram ao tentar atravessar o Mediterrâneo da África em direção à Europa. E apenas nos primeiros dias de 2018 (até 16 de janeiro) o número de mortos já chega a 194.
Também já estão definidas os temas e datas de entrega dos artigos para as próximas edições da revista (52, 53 e 54). Abaixo seguem as datas e dossiês previstos para cada uma:
Edição 52 – “Migrantes e Refugiados na Cidade”
Data de entrega dos artigos: 31 de janeiro
Previsão para publicação: abril
Edição 53 – “Hostilidade Contra os Migrantes”
Data de entrega dos artigos: 15 de abril
Previsão para publicação: agosto
Edição 54 – “Migração no continente africano”
Data de entrega dos artigos: 15 de agosto
Previsão para publicação: dezembro
Vale lembrar que a REMHU também recebe e avalia a publicação de artigos com temas diferentes do dossiê, desde que referentes a qualquer assunto relacionado com as migrações nacionais e internacionais.
Com bandeira da África do Sul, integrante da tribo Xhosa declama poema durante o VI FSMM, em Joanesburgo. As migrações no continente africano serão tema de um dos próximos dossiês da REMHU Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – dez/2014
Regras para publicação
Os trabalhos devem ser escritos em português, espanhol, inglês ou italiano e devem ser enviados diretamente pelo site da REMHU. Os textos precisam ter entre 35 mil e 45 mil caracteres, incluindo espaços, um abstract e 3/5 palavras chave em inglês. Todos serão avaliados por dois ou mais referees anônimos, sendo o sigilo garantido em todo o processo de revisão.
As normas bibliográficas que devem ser adotadas pelos autores e outras informações encontram-se no site da REMHU (www.csem.org.br/remhu) ou no site da Coleção SciELO (www.scielo.br/remhu). Para qualquer informação basta entrar em contato no e-mail remhu@csem.org.br.
Ligada ao CSEM (Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios), a REMHU tem como objetivo “oferecer ao mundo acadêmico e aos pensadores e articuladores da pastoral e das políticas migratórias análises interdisciplinares, amplas e aprofundadas de temas ligados à mobilidade humana contemporânea”.
Pessoas refugiadas são protegidas pelo princípio de "non refoulement" (não devolução, em tradução livre).
Crédito: ACNUR
Pontífice diz que a tarefa pode não ser fácil, mas que a Igreja não pode fugir da responsabilidade de compreender e colaborar com os migrantes
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Em homilia focada no Dia do Migrante e do Refugiado, lembrado neste domingo (14) pela Igreja Católica, o papa Francisco procurou encorajar os fiéis a superarem o medo e o receio em relação ao outro e a se abrirem para conhecê-lo.
“O seu convite ‘Vinde ver!’ é hoje dirigido a todos nós, comunidades locais e recém-chegados. É um convite a superar os nossos medos para poder ir ao encontro do outro, para o acolher, conhecer e reconhecer. É um convite que oferece a oportunidade de se fazer próximo do outro para ver onde e como vive”, disse o Papa, aproveitando o Evangelho do dia, no qual Jesus convida os discípulos a ver onde vive.
Francisco ponderou que não é uma tarefa fácil fazer essa abertura em relação ao outro (no caso, o migrante, independente do motivo que o levou a se deslocar) e que as dúvidas e medos são normais para os seres humanos. No entanto, ressaltou que o problema é outro.
Total de deslocados e refugiados no mundo é recorde, aponta ACNUR. Papa Francisco tem chamado a Igreja Católica a tomar parte em favor dos migrantes e refugiados. Crédito: ACNUR
“O pecado é deixar que estes medos determinem as nossas respostas, condicionem as nossas escolhas, comprometam o respeito e a generosidade, alimentem o ódio e a recusa. O pecado é renunciar ao encontro com o outro, com o diverso, com o próximo, que de fato é uma ocasião privilegiada de encontro com o Senhor. ”
A missa deste domingo no Vaticano foi acompanhada por 9.000 fiéis de diferentes nacionalidades, incluindo migrantes e refugiados. A animação ficou por conta do coral Hope, da cidade italiana de Turim, e que na ocasião estava composto por diversos migrantes.
Lembrado desde 1913 pela Igreja Católica, o Dia do Migrante e do Refugiado tem um destaque maior sob o pontificado de Francisco, dada a importância que tem destinado aos migrantes desde que assumiu o trono de Pedro, em 2013.
Além dessa data, lembrada pela Igreja Católica sempre no mês de janeiro, a ONU lembra o Dia Internacional do Migrante em 18 de dezembro, e o Dia do Refugiado em 20 de junho.
Importância e desafios crescentes
Em mensagem elaborada especialmente para a edição 2018, divulgada ainda em agosto do ano passado, o papa disse que a Igreja Católica tem como responsabilidade tomar parte em relação à temática migratória e colaborar tanto na acolhida como na busca de respostas para garantir segurança e dignidade para os que se deslocam.
“Trata-se de uma grande responsabilidade que a Igreja deseja partilhar com todos os crentes e os homens e mulheres de boa vontade, que são chamados a dar resposta aos numerosos desafios colocados pelas migrações contemporâneas com generosidade, prontidão, sabedoria e clarividência, cada qual segundo as suas possibilidades”.
Para dividir essa tarefa com os demais fiéis, ainda em 2017 a Igreja Católica, por meio da Cáritas Internacional, lançou a campanha “Compartilhe a Viagem” (Share the Journey, em inglês). Nela, as pessoas são convidadas a compartilhar experiências com os migrantes, proporcionando uma viagem para os dois lados (em suma, se colocar no lugar e se aproximar do outro).
Ato na Praça da Sé para o lançamento da Lançamento da campanha mundial “Compartilhe a Viagem”. Crédito: Miguel Ahumada
“Urge que os Estados-membros determinem uma estratégia referente aos grandes deslocamentos de migrantes. Há sobreposições evidentes entre este desafio e os do pacto mundial sobre migração”. Ele, inclusive, já chefiou o ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.
Enquanto o mundo não toma providências amplas, as mortes de migrantes prosseguem mundo afora. De acordo com o ACNUR, cerca de 160 morreram durante tentativa de chegar à Europa por meio da travessia do mar Mediterrâneo na última semana.
Ao fazer o pedido de refúgio no Brasil, o solicitante recebe um protocolo como esse, que passa a ser seu documento provisório no Brasil até o julgamento do processo pelo Conare.
Crédito: Fellipe Abreu/Pacto Global
Análise dos dados do Conare mostra características importantes do cenário migratório brasileiro atual que vão além dos números
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP) Atualizado em 22/01/18, às 23h25
Venezuelanos, cubanos, haitianos, angolanos e chineses. Essas são as cinco nacionalidades que mais pediram refúgio no Brasil em 2017, de acordo com o Conare (Comitê Nacional para Refugiados). Ao todo foram 33.866 solicitações, quase o triplo do que foi registrado em 2016 (10.308) e que superou o recorde anterior, registrado em 2014.
Ao mesmo tempo, foram analisados pelo comitê apenas 1.179 pedidos de refúgio no último ano, sendo que somente 40,1% deles (473) foram reconhecidos como refugiados pelo governo brasileiro. Assim como nos últimos anos, os sírios lideraram a lista de refugiados reconhecidos pelo Brasil (230), seguidos da República Democrática do Congo (108), Palestina (26), Egito (16) e Paquistão (13). Foram ainda 706 solicitações analisadas e negadas pelo Conare.
Com os novos números, os sírios continuam a ser a nacionalidade com mais refugiados reconhecidos pelo governo brasileiro, seguido de angolanos, congoleses e colombianos (veja números abaixo). Nos dados fornecidos, no entanto, o Conare não informou o total de refugiados reconhecidos no Brasil ao final de 2017.
1 – Síria: 2.746
2 – Angola: 1.564
3 – República Democrática do Congo: 1.102
4 – Colômbia: 708
Ao mesmo tempo, a queda no total de refugiados reconhecidos pelo Brasil mantém a trajetória de queda iniciada em 2015, quando 1.231 pedidos foram aprovados; em 2016, foram 886. O recorde continua sendo de 2014, quando foram 2.288 solicitações deferidas (grande parte delas de sírios, após o Brasil agilizar o trâmite para essa nacionalidade, diante do agravamento do conflito que até hoje afeta o país).
Para ir além dos números
Com os sem cifras fechadas, uma análise rápida desses dados permite enxergar além dos números brutos e visualizar algumas características do atual cenário migratório brasileiro.
“A proximidade geográfica (venezuelanos), o idioma (angolanos) e as redes migratórias (haitianos, cubanos e chineses), combinados com as expectativas econômicas (trabalho, mesmo que informal), jurídicas (regularização migratória) e de melhora na qualidade de vida são atrativos num período em que cresce a xenofobia, o alto controle migratório e criminalização das migrações no mundo”, explica Carolina de Abreu Batista Claro, professora do curso de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), sobre as solicitações de refúgio.
Funcionário do ACNUR orienta sobre os procedimentos para a solicitação de refúgio e registra casal venezuelano em abrigo em Boa Vista (RR). Crédito: Reynesson Damasceno/ACNUR
Outro dado que chama a atenção é que nenhuma das cinco nacionalidades que mais pedem refúgio no Brasil estão entre as que tiveram mais solicitações deferidas ao longo de 2017. A legislação migratória brasileira – apesar da entrada em vigor de uma nova lei, em novembro de 2017 – é uma das explicações (veja mais a seguir).
A questão venezuelana
Uma questão que salta aos olhos em relação aos dados do Conare é a presença dos venezuelanos entre os solicitantes de refúgio – e o fato de praticamente não figurarem entre as nacionalidades contempladas com o refúgio. Dos 33.866 pedidos feitos em 2017, nada menos que 52,75% do total (17.865) vieram de nacionais do país vizinho – 47,11% foram feitas em Roraima, Estado que tem sido a principal porta de entrada dos venezuelanos no Brasil. Números esses que fazem parte de uma realidade bem mais complexa do que parece.
O Brasil é um dos países de destino dos venezuelanos que deixam o país natal, que atravessa pelo menos desde 2014 uma grave crise política, social, econômica e humanitária. Apesar do fluxo migratório acima do normal, outros países aparecem como destinos principais dos venezuelanos antes do Brasil, como Colômbia, Panamá, Equador e até mesmo Estados Unidos e Espanha.
Além disso, há outros fatores a considerar. Há a presença de venezuelanos indígenas da etnia warao entre os migrantes, cujo comportamento ainda não está claro para as autoridades e organizações no Brasil. E também a própria indefinição no Brasil de considerar ou não a situação da Venezuela como de grave e generalizada violação de direitos humanos – o que é um justificador de pedido de refúgio pela Lei de Refúgio brasileira (Lei 9.474/97).
Enquanto permanece esse limbo, o pedido de refúgio permanece como solução encontrada pelos venezuelanos para conseguir uma regularização migratória rápida – ainda que precária e provisória – e poder tirar documentos como CPF e carteira de trabalho.
Ao fazer o pedido de refúgio no Brasil, o solicitante recebe um protocolo como esse, que passa a ser seu documento provisório no Brasil até o julgamento do processo pelo Conare. Crédito: Fellipe Abreu/Pacto Global
A Lei de Migração e as Resoluções Normativas
Uma tentativa do governo de contornar essa situação foi a Resolução Normativa 126, editada pelo CNIg (Conselho Nacional de Imigração) em março de 2017. Ela permite a concessão de residência temporária para migrantes que entraram no Brasil por via terrestre e sejam naturais de nações que tenham fronteira com o país – caso dos venezuelanos. No entanto, a falta de acerto de pontos junto à Polícia Federal e em relação à documentação e taxas exigidas dos migrantes fez com que o pedido de refúgio continuasse a ser a saída mais adotada para regularização.
“Muitas dessas solicitações foram feitas em um vácuo de outra via de regularização migratória para pessoas em situação de vulnerabilidade”, completa Aryadne Bittencourt, agente de proteção legal no Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro. Ela ressalta ainda que a dimensão real dos venezuelanos só pode ser compreendida se os pedidos de refúgio forem unidos com os que estão optando pelo pedido de residência via resolução normativa.
Para Carolina, essa distorção em relação aos venezuelanos pode ser corrigida aos poucos. “A nova Lei de Migração (em vigor desde novembro), combinada com as Resoluções Normativas do CNIg, poderá facilitar a regularização migratória na medida em que altera algumas categorias de visto com relação ao Estatuto do Estrangeiro (agora extinto). Isso significa que, em médio e longo prazo, o refúgio pode deixar de ser utilizado indevidamente como forma de estada no Brasil por imigrantes que não se encontram legalmente protegidos pelo instituto do refúgio”.
Aryadne, no entanto, lembra que os processos burocráticos criados pela regulamentação da Lei de Migração podem dificultar essa correção. “Frente a esse panorama, entidades da sociedade civil, órgãos de justiça e governo estão trabalhando para articular medidas cabíveis para estabelecer outras vias migratórias, especialmente através dos atos ministeriais que ainda devem ser concretizados como decorrência do processo de regulamentação”.
O uso do pedido de refúgio para obter uma documentação mais ágil, ainda que provisória e precária, também está entre as saídas adotadas por outras nacionalidades, como os senegaleses. Eles lideraram o total de solicitações negadas pelo Brasil (156), seguidos por Angola (120), Bangladesh (81), Guiné-Bissau (60) e Líbano (58).
Ensinamentos e desafios
A presença venezuelana no Brasil tem sido alvo de numerosos debates e estudos, tanto na academia como entre governos e organismos internacionais. Mesmo assim, ainda faltam políticas públicas de curto, médio e longo prazo, coordenadas entre as diferentes esferas da administração pública e a sociedade civil.
Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela. Fluxo entre os dois países ganhou destaque no noticiário nos últimos meses. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Além dessas políticas permanentes, Carolina aponta para a importância de haver planos de emergência e para fluxos migratórios de pessoas em situação de vulnerabilidade – caso dos venezuelanos atualmente e dos haitianos em um passado recente.
“Esse “plano”, mesmo que informal, só terá possibilidade de sucesso se houver coordenação das ações entre órgãos públicos de diversas esferas (incluindo o envio de recursos financeiros e humanos para estados e municípios), sociedade civil (cujo papel é fundamental na assistência à população migrante e refugiada) e organismos internacionais – cuja atuação tem sido ampliada e fortalecida no Brasil.
Aryadne também ressaltou a necessidade de uma política junto à população brasileira para evitar preconceitos contra os venezuelanos e outros migrantes. “É preciso avançar em mecanismos para dirimir atos de discriminação, como ocorre no Norte do país ou, por exemplo, em São Paulo em relação a médicos venezuelanos que não conseguem atuar apesar de terem revalidado seus diplomas”.
Bandeira da África do Sul, país que tem o apelido de "nação arco-íris".
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - dez.2014
Situação também pode ser notada em outros países que sofrem com a chamada “brain drain”, ou “fuga de cérebros”
Por Debora Draghi
Em Curitiba (PR)
A migração é um fenômeno social e humano, mas também um componente da alocação de fatores de produção. Como exemplo, pode-se mencionar a fuga de cérebros, ou em inglês, “brain drain”.
Nesse caso, a migração mina ainda mais o desenvolvimento dos países de origem, removendo pessoas que poderiam contribuir para o desenvolvimento. Em contrapartida, nos países receptores, ocorre o “desenvolvimento a partir do subdesenvolvimento”. A migração compromete o progresso nos países de origem, mas por outro lado envia remessas aos que ficaram.
Os emigrantes que possuem mais capital, tanto financeiro quanto intelectual, vão para locais escassos em outros capitais, onde suas habilidades podem aproveitar os salários mais altos. De acordo com Nahm e Tani:
“As questões sobre a inclusão social, a participação e o sucesso dos imigrantes em última análise dependem de quão eficiente é o mercado de trabalho de um país ao conceder acesso a oportunidades e recompensar o capital humano fornecido. Uma política de imigração baseada em habilidades pode contribuir para o bom funcionamento do mercado de trabalho doméstico, mas não pode, por si só, resolver problemas relacionados com a utilização mais eficiente da mão-de-obra qualificada e os recursos disponíveis. (2015) ”
Trabalhadores altamente qualificados de países em desenvolvimento e sua mobilidade internacional são bastante atraentes para países capazes de fornecer os recursos que os migrantes querem, mas não podem encontrar no país de origem. Os altamente qualificados que não recebem qualquer apoio de seu Estado ou que não encontram as mesmas oportunidades tendem a migrar com a finalidade de encontrar melhores condições. No país de origem, eles não são uma fonte que poderia ser usada. Em vez disso, no país receptor (quando eles vêm de locais de recursos limitados), têm a chance de desenvolver suas habilidades e ser melhor pagos. Como exemplo, pode-se citar os sul africanos, que acabam migrando para países que oferecem mais oportunidades.
Um exemplo dessa dinâmica pode ser notado na África do Sul. A mobilidade de sul-africanos dirige-se a países que podem contribuir para o progresso em seus empregos e também para um desenvolvimento no país de origem através das remessas, com foco na migração de trabalhadores altamente qualificados. Entre eles estão locais “tradicionais” como Canadá, Reino Unido ou Austrália, e também “destinos mais novos”, como Dubai – uma das cidades mias multiculturais do mundo. As cidades globais acabam sendo polos de inovação, multiculturalidade e produção altamente qualificada.
Bandeira da África do Sul, país que tem o apelido de “nação arco-íris”. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – dez.2014
Desse modo, esses trabalhadores preenchem as lacunas trabalhistas se as pessoas nos países receptores não tiveram acesso à educação e, portanto, não conseguem competir no mesmo nível de qualificação. Ao mesmo tempo, o que é uma fuga de cérebros do país de origem, é um ganho de cérebro para o país receptor. Neste caso particular, a fuga de cérebros tem um enorme impacto no país de origem, pois impede que esta nação atinja um desenvolvimento maior.
Segundo a OCDE:
“A” fuga de cérebros “é uma questão altamente sensível na sociedade sul-africana contemporânea. Este problema é particularmente agudo hoje desde que o país escolheu, com o fim do apartheid e a introdução de uma política de abertura, para enfrentar a concorrência internacional e produzir, para exportação em particular, bens e serviços que são altamente intensivos em conhecimento.
Numa situação em que a inovação tecnológica constitui um pilar estratégico do desenvolvimento nacional, o trabalho qualificado desempenha um papel fundamental. De acordo com algumas pesquisas parciais, a insegurança crescente parece ser uma das principais causas das partidas. O fim da educação privilegiada e a falta de perspectivas, a depreciação da moeda nacional, o rand e uma situação econômica lenta são apenas algumas das razões dadas. “(2001)
Por mais que as remessas sejam enviadas, os migrantes não podem implementar mudanças estruturais necessárias para que o desenvolvimento desapareça. Por outro lado, os migrantes podem acelerar o desenvolvimento se os processos de desenvolvimento já estiverem em vigor, e esse desenvolvimento pode reduzir a fuga de cérebros.
Quando a “fuga de cérebros” é realizada por profissionais da saúde, agrava ainda mais os problemas da saúde pública nos países subdesenvolvidos próximos a África do Sul, que lutam contra epidemias, como tuberculose, malária e vírus do HIV.
Migrantes altamente qualificados, por outro lado, desestruturam a economia local se tiverem seus estudos apoiados pelo governo local e depois buscarem lugares internacionais onde as condições de trabalho são melhores. De acordo com Thomas Straubhaar e Achim Wolter:
“Empregados com o capital humano correspondente migram para ajustar uma falta temporária de funcionários qualificados” .(1997)
Por outro lado, a fuga de cérebros desequilibra a economia local ao ir para o exterior, mas também há um ganho quando o migrante envia remessas e volta com mais conhecimento.
Quando os sul-africanos se mudam, as redes sociais e a família geralmente fornecem a ajuda necessária no país de destino. Quando não há apoio do governo, é difícil para que esses emigrantes decidam retornar. Sobre isso, Nir Cohen diz:
“Iniciativas mais recentes utilizaram uma trajetória de meritocracia que destaca a contribuição econômica potencial do repatriado (individual), a satisfação profissional, bem como a classe média e considerações familiares de” qualidade de vida “. (2013)
Portanto, para que a África do Sul mantenha seus trabalhadores altamente qualificados, deverá pensar em uma melhoria no bem-estar e segurança, ao mesmo tempo que proporcione aos funcionários um ambiente de trabalho com condições adequadas , afim de impedir que essas pessoas emigrem.
Referências:
Cohen, N. (2013) From nation to profession: Israeli state strategy toward highly-skilled return migration, 1949 – 2012. Journal of Historical Geography. http://www.sciencedirect.com.proxy.uba.uva.nl:2048/science/article/pii/S030574881300056X
Nahm, D & Tani, M. (2015) Skilled immigrants’ contribution to productive efficiency. Journal of the Asia Pacific Economy. http://www-tandfonline-com.proxy.uba.uva.nl:2048/doi/pdf/10.1080/13547860.2015.1045325
Organization for Economic Co-Operation and Development (2001) International Mobility of the Highly Skilled. http://www.oecd-ilibrary.org.proxy.uba.uva.nl:2048/docserver/download/9202011e.pdfexpires=1447143285&id=id&accname=ocid56024160&checksum=811A7D5C1F7F0E274D16F407B7027D91
Straubhaar, T & Wolter, A. (1997) Globalization, Internal Labour Markets and the Migration of the Highly Skilled. http://download.springer.com.proxy.uba.uva.nl:2048/static/pdf/689/art%253A10.1007%252FBF02928431.pdf?originUrl=http%3A%2F%2Flink.springer.com%2Farticle%2F10.1007%2FBF02928431&token2=exp=1447140960~acl=%2Fstatic%2Fpdf%2F689%2Fart%25253A10.1007%25252FBF02928431.pdf%3ForiginUrl%3Dhttp%253A%252F%252Flink.springer.com%252Farticle%252F10.1007%252FBF02928431*~hmac=abda7cdd702f460f5a59391a182659449f62fb53d202c49f4545342091a4bb9f
Migrantes querem maior participação e acesso aos debates sobre a Lei de Migração.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Dados do Google Analytics mostram que a audiência do site mais que dobrou em relação a 2016; Lei de Migração foi o grande destaque do ano
Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Sim, apesar das dificuldades já reveladas neste texto aqui, o ano de 2017 foi o melhor da história do MigraMundo. E os números do Google Analytics embasam aquilo que foi visto em forma de compartilhamentos, comentários e outros tipos de interações online dos leitores e fãs do site.
Em 2017 o MigraMundo atingiu a marca de 76.356 usuários únicos, quase o triplo do registrado em 2016 (26.204). Ao mesmo tempo, o site mais que dobrou o número de visualizações em relação a 2016 (foram 144.656 contra 55.022). Em média, o leitor do MigraMundo passou 3min21s em cada passagem pelo site (em 2016 o tempo médio foi de 2min41s).
Os números podem parecer pequenos em relação a outros portais de jornalismo independente, mas são um indício de que o site está no caminho certo, especialmente quando comparados com o desempenho nos anos anteriores.
O debate em torno da Lei de Migração foi o principal tema do ano no MigraMundo, incluindo as mobilizações e festejos pela sua aprovação e as frustrações e incertezas trazidas pela regulamentação do texto.
Em 19 de abril, a notícia da aprovação da nova lei pelo Senado na noite anterior levou o MigraMundo à sua maior audiência em um único dia – 2.681 visualizações e 1.806 usuários. Também devido à nova lei, maio (quando foi sancionada) foi o mês recordista em audiência no ano (19.875 visualizações e 11.277 usuários).
Migrantes querem maior participação e acesso aos debates sobre a Lei de Migração; tema foi o destaque de 2017 no MigraMundo Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Top 10 do ano
Além da Lei de Migração, a cobertura especial sobre os venezuelanos em Roraima, as notícias sobre políticas públicas, manifestações e expressões individuais e coletivas dos migrantes também tiveram destaque ao longo do ano.
Veja abaixo o Top 10 das notícias mais acessadas pelo público do MigraMundo ao longo de 2017:
Além dos acessos ao site, o MigraMundo (na data de publicação deste texto) contava com cerca de 6.000 seguidores no Facebook, 600 no Twitter, 240 assinantes da newsletter, 120 assinantes via WhatsApp e acabou de chegar à marca de 1.000 seguidores no Instagram.
Funcionário do ACNUR orienta sobre os procedimentos para a solicitação de refúgio e registra casal venezuelano em abrigo em Boa Vista.
Crédito: Reynesson Damasceno/ACNUR - jan.2018
Para Irmã Rosita Milesi, diretora do IMDH, parceria entre a Secretaria Nacional de Justiça e a UnB que vai criar banco de intérpretes para solicitantes de refúgio pode colaborar para que outras universidades façam o mesmo
O acordo para criação do futuro banco de intérpretes foi assinado no final de 2017 entre a Secretaria Nacional de Justiça e a UnB (Universidade de Brasília), que prevê a capacitação de voluntários interessados em ajudar nas entrevistas de solicitantes de refúgio (saiba mais abaixo).
As conversas em torno de um projeto que servisse de suporte para refugiados surgiu ainda em 2015, durante conversas de pesquisadores da UnB com o IMDH (Instituto Migrações e Direitos Humanos), que atende e orienta migrantes e refugiados no Distrito Federal.
Funcionário do ACNUR orienta sobre os procedimentos para a solicitação de refúgio e registra casal venezuelano em abrigo em Boa Vista (RR). Crédito: Reynesson Damasceno/ACNUR
“É uma ideia, um sonho que se tornou realidade. Concretizou-se num serviço, talvez pioneiro, que, além de beneficiar solicitantes de refúgio e refugiados, poderá inspirar outras universidades ou Escolas de idioma a ampliar algo que é tão importante no âmbito das ações e políticas de atenção a imigrantes e refugiados”, recorda a Irmã Rosita Milesi, diretora do IMDH. Ela também é membro observador do Conare.
Segundo a UnB, por enquanto apenas voluntários de Brasília e arredores podem integrar esse cadastro. No entanto, Irmã Rosita espera que o projeto possa inspirar iniciativas semelhantes em outras regiões do Brasil, apoiando tanto os migrantes e refugiados como as instituições que se encarregam de atendê-los.
“Acredito que a divulgação poderá ser muito útil para sua reprodução e quiçá avanços em outras localidades e espaços abertos a oferecer esta colaboração de tradutores e intérpretes para imigrantes e refugiados”.
A seleção
Os interessados (que precisam residir em Brasília e arredores) em integrar o futuro banco de intérpretes devem ter disponibilidade de horário e conhecimento avançado em outros idiomas. Para se inscrever, é preciso enviar uma solicitação de cadastro para o e-mail projetomobilang@gmail.com e aguardar contato para seguir com os próximos passos.
Entre fevereiro e março de 2018 a a UnB realizará reuniões e entrevistas com os inscritos. Depois, o Conare convocará os selecionados para uma preparação para as entrevistas com os imigrantes.
Os intérpretes escolhidos deverão assinar um termo de compromisso e de sigilo das informações. Os voluntários que concluírem o trabalho proposto receberão certificado de atividade de extensão emitido pela UnB.
Marcha pela paz e solidariedade em Joanesburgo (África do Sul) em 2015, como resposta a uma série de ataques xenofóbicos que ocorreram no país naquele ano.
Crédito: Bruna Kadletz
Muito embora tenhamos conhecimento da organização e fortalecimento desses movimentos, o confronto com esta realidade propicia o questionamento de como devemos responder a eles
Por Bruna Kadletz
Em São Paulo (SP)
No último dia 15 de dezembro, participei do II Seminário sobre Imigração, Refúgio e Direitos Humanos, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. À minha frente estava sentado um homem de aparência jovem, devia ter seus trinta e poucos anos, e bem vestido. Mas não foi sua aparência que chamou minha atenção, e sim seu comportamento.
Ele estava fazendo vídeos com seu celular e demonstrava uma certa tensão ao filmar. Olhava constantemente para os lados e para trás, como se estivesse se sentindo perseguido ou algo do tipo. Foram essas constantes olhadas e paranoia que chamou minha atenção e direcionou meus olhos para seu celular. Eu me calei e somente o observei.
Logo descobri a razão para seu receio em ser descoberto. Ele se dizia “infiltrado” em uma de suas conversas pelo WhatsApp. Estava compartilhando as falas dos palestrantes e fotos dos seus slides com grupos de extrema direita, conhecidos pela oposição aos direitos de refugiados e imigrantes.
De uma forma geral, o representante da extrema direita parecia entediado com as apresentações, salvo os momentos em que as falas poderiam gerar oportunidade para conflito. Seu entusiasmo culminou no momento em que um senhor se dirigiu ao microfone para contestar um comentário feito por uma das professoras sobre a opressão a qual palestinos são subordinados pelo Governo de Israel. Seu corpo tornou-se ereto, um sorriso foi desenhado no canto dos seus lábios e ele parecia estar em êxtase.
Obviamente o seminário é aberto ao público em geral, sendo um espaço para compartilhar conhecimento e gerar diálogo sobre o tema de refúgio e imigração. Contudo, pelo seu comportamento e comentários nos grupos de WhatsApp, ficou claro que o “infiltrado” não estava presente no seminário aberto para compreender o universo do outro ou esclarecer suas dúvidas sobre a nova Lei de Migração e quem sabe assim desmistificar o tema em seus grupos de convívio.
Uma das mesas do II Seminário sobre Imigração, Refúgio e Direitos Humanos, na USP (15.12.2017). Ainda não foram notadas imagens do “infiltrado” no evento. Crédito: Bruna Kadletz
O tal sujeito infiltrado buscava polêmica. Dentro da sua lógica, qualquer frase ou comentário poderia ser descontextualizado para confirmar a teoria de que migrantes são ameaças à segurança nacional, ordem social e herança cultural. Pensei nesta possibilidade no momento em que uma das imigrantes bolivianas relatou sua história pessoal, compartilhando que ficou no Brasil por razões profissionais e econômicas. É como se o depoimento que toca o coração de alguns se tornasse munição nas mãos de outros.
O conhecimento que à minha frente estava um homem que se disponibilizou a passar um dia em um auditório somente para semear discórdia e revolta em tais grupos de extrema direita me parecia surreal. Mas esta é a realidade do atual clima tóxico no qual vivemos. Basta ler comentários polêmicos nas redes sociais que desumanizam refugiados e imigrantes, os associando com criminalidade e outras mazelas das sociedades, para perceber o quão tóxica a atmosfera está. Cada vez mais pessoas se disponibilizam a atacar os outros, distorcer a realidade e apresentá-la de uma forma que incite medo, intolerância e violência.
Há pouco mais de um mês estava andando nas ruas de Florianópolis com uma amiga que usava o véu islâmico, quando um homem sussurrou para nós ISIS – fazendo referência ao grupo terrorista autointitulado Estado Islâmico. Infelizmente, este não foi o único episódio no qual testemunhei violência verbal contra grupos refugiados e minorizados. Sobretudo contra mulheres. As mulheres refugiadas muçulmanas se tornam alvos facilmente identificados por sua distinção na vestimenta, sendo mais susceptíveis a ataques xenofóbicos e islamofóbicos.
Muito embora tenhamos conhecimento da organização e fortalecimento de movimentos antirrefugiados e xenofóbicos, o confronto com esta realidade propicia o questionamento de como devemos responder a tais movimentos.
Particularmente, eu não acredito que confrontar, engajar na discussão (principalmente on-line) ou reagir de forma agressiva seja o melhor caminho ou a melhor forma de direcionar nossa energia. Pois a escolha em trilhar este caminho somente perpetua a cultura da violência que desejamos transformar. Mesmo que o primeiro impulso seja xingar de voltar ou tentar convencer o outro de que populações refugiadas e imigrantes enriquecem sociedades e contribuem para o desenvolvimento das mesmas, é interessante nos centrarmos antes de respondermos.
Seguindo esta visão, um dos questionamentos mais relevantes ao se pensar em respostas apropriadas, sejam no âmbito individual ou coletivo, é como devemos ser para responder. Nosso impulso nos leva a ação sem o questionamento sobre qual o estado mental e emocional que move nossas ações. Sem este questionamento, podemos facilmente nos irritar e cair na armadilha do discurso do ódio, que mais parece uma entidade de vida própria que se alimenta do confronto entre os polos.
Marcha pela paz e solidariedade em Joanesburgo (África do Sul) em 2015, como resposta a uma série de ataques xenofóbicos que ocorreram no país naquele ano. Crédito: Bruna Kadletz
Em tempos nos quais a hostilidade parece prevalecer a hospitalidade, a resistência e mudança social devem brotar de um espaço de resiliência enraizada na compaixão, receptividade e autorreflexão. Nesta visão reside o enfoque de qual o estado mental e emocional devemos cultivar dentro de nós para realmente sermos a mudança que desejamos ver no mundo.
Há diversos meios de se expandir os círculos de receptividade e inclusão a comunidades refugiadas e imigrantes. Seja por meio da educação, do cultivo da comunicação não violenta, ou pela criação de espaços para diálogo e conexão de comunidades migrantes e sociedades hospedeiras. Seja por meio de leis e políticas públicas, pela linguagem aplicada pelos veículos midiáticos ou desconstruindo a imagem estereotipada de refugiados e imigrantes. Seja por meio da representatividade e participação de comunidades refugiadas e imigrantes.
Todas estas, e muitas outras, são formas de resposta aos movimentos antirrefugiados e xenofóbicos. Lembrando novamente de sempre ter em mente o seguinte questionamento: como eu deve ser para responder, assim alinhamos a intenção com ação.
"A bondade desarma": mensagem inscrita no pátio do Arsenal da Esperança, em São Paulo. Ligado a uma ordem religiosa católica, essa casa de acolhida abriga cerca de 1.200 pessoas todas as noites - muitas delas, migrantes de outras regiões do Brasil e até de outras nacionalidades.
(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)
Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz 2018
1. Votos de paz
Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra! A paz, que os anjos anunciam aos pastores na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre estes, que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração, quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. Estes últimos, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, “são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz”. E, para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.
Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.
Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar a outros problemas já existentes em grande número, bem como recursos que são sempre limitados. Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar, estabelecendo medidas práticas, “nos limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido, [para] lhes favorecer a integração”. Os governantes têm uma responsabilidade precisa para com as próprias comunidades, devendo assegurar os seus justos direitos e desenvolvimento harmônico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.
2. Porque há tantos refugiados e migrantes?
Na mensagem para idêntica ocorrência no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de “uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, “limpezas étnicas”” que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira viragem: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas.
Todavia as pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero’ de um futuro impossível de construir”. As pessoas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar destes direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato si’, “é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental”.
A maioria migra seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, sobretudo por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.
Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.
Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz.
3. Com olhar contemplativo
A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos “a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha”. Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.
Precisamos de lançar, também sobre a cidade onde vivemos, este olhar contemplativo, “isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça”,[10] por outras palavras, realizando a promessa da paz.
Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Saberá vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos.
Este olhar contemplativo saberá, enfim, guiar o discernimento dos responsáveis governamentais, de modo a impelir as políticas de acolhimento até ao máximo dos “limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido”,[11] isto é, tomando em consideração as exigências de todos os membros da única família humana e o bem de cada um deles.
Quem estiver animado por este olhar será capaz de reconhecer os rebentos de paz que já estão a despontar e cuidará do seu crescimento. Transformará assim em canteiros de paz as nossas cidades, frequentemente divididas e polarizadas por conflitos que se referem precisamente à presença de migrantes e refugiados.
4. Quatro pedras miliárias para a ação
Oferecer a requerentes de asilo, refugiados, migrantes e vítimas de tráfico humano uma possibilidade de encontrar aquela paz que andam à procura, exige uma estratégia que combine quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar.
“Acolher” faz apelo à exigência de ampliar as possibilidades de entrada legal, de não repelir refugiados e migrantes para lugares onde os aguardam perseguições e violências, e de equilibrar a preocupação pela segurança nacional com a tutela dos direitos humanos fundamentais. Recorda-nos a Sagrada Escritura: “Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos”.
“Proteger” lembra o dever de reconhecer e tutelar a dignidade inviolável daqueles que fogem dum perigo real em busca de asilo e segurança, de impedir a sua exploração. Penso de modo particular nas mulheres e nas crianças que se encontram em situações onde estão mais expostas aos riscos e aos abusos que chegam até ao ponto de as tornar escravas. Deus não discrimina: “O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva”.
“Promover” alude ao apoio para o desenvolvimento humano integral de migrantes e refugiados. Dentre os numerosos instrumentos que podem ajudar nesta tarefa, desejo sublinhar a importância de assegurar às crianças e aos jovens o acesso a todos os níveis de instrução: deste modo poderão não só cultivar e fazer frutificar as suas capacidades, mas estarão em melhores condições também para ir ao encontro dos outros, cultivando um espírito de diálogo e não de fechamento ou de conflito. A Bíblia ensina que Deus “ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário”; daí a exortação: “Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito”
Por fim, “integrar” significa permitir que refugiados e migrantes participem plenamente na vida da sociedade que os acolhe, numa dinâmica de mútuo enriquecimento e fecunda colaboração na promoção do desenvolvimento humano integral das comunidades locais. “Portanto – como escreve São Paulo – já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus”.
5. Uma proposta para dois Pactos internacionais
Almejo do fundo do coração que seja este espírito a animar o processo que, no decurso de 2018, levará à definição e aprovação por parte das Nações Unidas de dois pactos globais: um para migrações seguras, ordenadas e regulares, outro referido aos refugiados. Enquanto acordos partilhados a nível global, estes pactos representarão um quadro de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por isso, é importante que sejam inspirados por sentimentos de compaixão, clarividência e coragem, de modo a aproveitar todas as ocasiões para fazer avançar a construção da paz: só assim o necessário realismo da política internacional não se tornará uma capitulação ao cinismo e à globalização da indiferença.
De fato, o diálogo e a coordenação constituem uma necessidade e um dever próprio da comunidade internacional. Mais além das fronteiras nacionais, é possível também que países menos ricos possam acolher um número maior de refugiados ou acolhê-los melhor, se a cooperação internacional lhes disponibilizar os fundos necessários.
A Secção Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral sugeriu 20 pontos de ação como pistas concretas para a implementação dos supramencionados quatro verbos nas políticas públicas e também na conduta e ação das comunidades cristãs. Estas e outras contribuições pretendem expressar o interesse da Igreja Católica pelo processo que levará à adoção dos referidos pactos globais das Nações Unidas. Um tal interesse confirma uma vez mais a solicitude pastoral que nasceu com a Igreja e tem continuado em muitas das suas obras até aos nossos dias.
6. Em prol da nossa casa comum
Inspiram-nos as palavras de São João Paulo II: «Se o “sonho” de um mundo em paz é partilhado por tantas pessoas, se se valoriza o contributo dos migrantes e dos refugiados, a humanidade pode tornar-se sempre mais família de todos e a nossa terra uma real “casa comum”. Ao longo da história, muitos acreditaram neste “sonho” e as suas realizações testemunham que não se trata duma utopia irrealizável.
Entre eles conta-se Santa Francisca Xavier Cabrini, cujo centenário do nascimento para o Céu ocorre em 2017. Hoje, dia 13 de novembro, muitas comunidades eclesiais celebram a sua memória. Esta pequena grande mulher, que consagrou a sua vida ao serviço dos migrantes tornando-se depois a sua Padroeira celeste, ensinou-nos como podemos acolher, proteger, promover e integrar estes nossos irmãos e irmãs. Pela sua intercessão, que o Senhor nos conceda a todos fazer a experiência de que “o fruto da justiça é semeado em paz por aqueles que praticam a paz”.