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sábado, junho 27, 2026
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Festival Soy Latino celebra América Latina e coloca o Memorial para dançar

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Público não ficou parado durante o Soy Latino, no Memorial da América Latina. Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo - jun.2017

Evento em São Paulo contagiou o público com shows, música, gastronomia e muita dança latino-americana

Por Antonella Pulcinelli
De São Paulo (SP)

A 5ª edição do Soy Latino – festival cultural e gastronômico que ocorreu sábado (17) no Memorial da América Latina, em São Paulo – mostrou toda a alegria e diversidade cultural que a América Latina tem a oferecer. E claro, da qual o Brasil também faz parte, embora muitas vezes se esqueça.

De acordo com a coordenação, entre 5.000 e 7.000 pessoas passaram pelo evento na edição deste ano. Público que veio de diferentes regiões da capital paulista e até mesmo de outras cidades.

Público não se importou com as filas durante o Soy Latino.
Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

“Eu gosto de tudo que é relacionado a América Latina. Fiquei sabendo do evento pela internet e saí de Ourinhos (no interior de São Paulo), cidade onde eu moro para vir aqui. Eu e minha amiga chegamos aqui as 5 horas e já assistimos duas apresentações, está tudo muito animado”, declarou a estudante Vanessa Santana.

Além das apresentações que foram capazes de levar o público para outros países sem sair de São Paulo, as barracas de comidas típicas de países latinos fizeram muito sucesso e tiveram grandes filas durante todo o evento.

O Soy Latino foi idealizado pelo peruano Ives Berger, diretor do portal El Guia Latino, tem parceria com a ONG PAL (Presença de América Latina) e co-realização da Fundação Memorial da América Latina, do governo do Estado de São Paulo e do GRULAC (Grupo de Cônsules da América Latina e do Caribe).

Bailando o dia todo

O Soy Latino contou com diversas atrações e demonstrações culturais. Uma delas foi o DJ Arturo, do México, que levou o público a dançar com uma mistura de músicas eletrônicas e latinas. Coreografias já conhecidas se misturavam com combinações montadas na hora – e todas cumpriam bem com seu propósito de não deixar o público parado.

Público não ficou parado durante o Soy Latino, no Memorial da América Latina.
Crédito: Antonella Pulcinelli/MigraMundo

Outra atração marcante foi o grupo de salsa e cumbia Quimbará, que começou a se apresentar por volta das 19h, que também tratou de colocar o Memorial para dançar – por todos os lados da festa era possível notar casais, grupos de amigos e até pessoas que se tornaram amigas na hora, dançando juntas.

Pelo que se pode notar, o festival de fato cumpriu sua promessa de agitar o Memorial da América Latina.

Coletivo de mulheres migrantes promove oficinas culturais e debates no CCSP; veja próximas datas

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Oficina cultural no CCSP ensinou cueca chilena. Outras atividades vão acontecer nas próximas semanas. Crédito: Glória Branco/MigraMundo

Eventos acontecem sempre às quintas-feiras; atividades vão de danças típicas a debates relacionados com a temática migratória

Por Glória Branco
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 19/06/17, às 00h05

A melhor forma de se familiarizar com um país é conhecer suas tradições e culturas. Foi com esse propósito que aconteceu no último dia 08, no CCSP (Centro Cultural São Paulo), um workshop de cueca chilena, gênero musical típico dos países andinos. Com instruções dos bailarinos do Conjunto Folclórico QuinchamaLí, do Chile, os alunos puderam aprender um novo ritmo e conhecer um pouco mais da cultura chilena.

O nome pode parecer estranho, mas a cueca é a dança nacional do Chile desde 06 de novembro de 1979, e é comemorada no país no dia 17 de setembro. O ritmo é alegre e as letras nem sempre falam de amor, mas a dança possui na conquista e no galanteio entre uma mulher e um homem o fundamento de sua coreografia.

Oficina cultural no CCSP ensinou cueca chilena. Outras atividades vão acontecer nas próximas semanas.
Crédito: Glória Branco/MigraMundo

Os bailarinos devem olhar um nos olhos do outro durante toda a dança, e com um lenço branco na mão direita devem girar e se cortejar, sem muito contato físico. Com diversos floreios, o casal deve dançar sempre no ritmo da melodia e respeitar as regras essenciais da cueca.

A oficina foi organizada pela Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, coletivo formado por mulheres migrantes (especialmente de países latinos) e que tem tradição em promover atividades ligadas à temática migratória.

Para quem perdeu a oficina de cueca chilena, a Warmis vai realizar outros eventos no CCSP, sempre às quintas-feiras. As atividades são gratuitas e não precisam de inscrição ou retirada de ingressos com antecedência. Basta chegar e participar!

Veja o calendário com as atividades previstas para o fim de junho e para todo o mês de julho, sempre com início às 16h30 e término previsto para 18h:

22/6 – Oficina de Tullmas

29/6 – Oficina de Bordado com motivos latino-americanos

06/07 – Debate: Fronteiras e Comunidades Originárias + Exibição de Curtas e Filmes do Visto Permanente

13/07 – Workshop de danças típicas: Tinku e Jaqas (Bolívia)

20/07 – Debate: Mulheres migrantes e refugiadas: nosso olhar sobre racismo, discriminação e xenofobia

27/07 – Para crianças: Oficina de Criação de Fantoches de Meia Andinos

Proposta que permite voto do imigrante em eleições municipais passa em comissão do Senado

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O senador Antonio Anastasia (à direita) relatou a PEC na Comissão de Constituição e Justiça. Crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Vale lembrar que o Brasil é atualmente o único país da América do Sul a não permitir a participação do imigrante em seu processo eleitoral, seja em nível municipal, regional ou nacional

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou na última quarta-feira (14) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite que imigrantes com residência permanente no Brasil possam votar e serem votados nas eleições municipais.

Atualmente a Constituição brasileira só permite que brasileiros natos e portugueses naturalizados tenham direito ao voto. Por isso, é necessária uma emenda à Carta Magna brasileira para mudar essa determinação.

A iniciativa é de autoria do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), atual ministro das Relações Exteriores e que também foi responsável pelo PLS 288/2013, que deu origem à nova Lei de Migração aprovada recentemente pelo Congresso (Lei 13.445/2017) e que entra em vigor em novembro.

Na comissão, o texto recebeu a relatoria do senador Antonio Anastasia (PSDB-SP), que deu parecer favorável ao projeto, com modificações.

A proposta modifica a redação do artigo 5º da Constituição, que passaria a ser: “Todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo aos brasileiros e aos estrangeiros no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade…”

Também ganham modificações os artigos 12 e 14 da Constituição: o primeiro segundo passaria a estender o direito ao voto também aos migrantes com residência permanente no Brasil; já o artigo 14 permitiria o alistamento eleitoral dos imigrantes, atualmente vedado pela legislação brasileira. No caso dos imigrantes, o voto seria facultativo – ao contrário do que acontece com os brasileiros.

Vale lembrar que o Brasil é atualmente o único país da América do Sul a não permitir a participação do imigrante em seu processo eleitoral, seja em nível municipal, regional ou nacional.

A mudança dessa situação é uma reivindicação antiga da comunidade migrante já residente em solo brasileiro, que tem tomado parte apenas em processos eleitorais extraoficiais e isolados, como o que permite que imigrantes residentes na cidade de São Paulo possam eleger seus próprios representantes para os Conselhos Participativos Municipais de cada regional da cidade – o cargo é voluntário.

Longo caminho e condições

Além de ainda ter um longo caminho no meio legislativo (precisa passar por votação em dois turnos no plenário do Senado e depois pela Câmara dos Deputados, a PEC que permite que imigrantes votem e sejam votados nas eleições municipais dependerá ainda de regulamentação posterior pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Outra ressalva importante é que a concessão do direito ao voto para uma determinada nacionalidade, de acordo com a PEC, depende da reciprocidade em favor dos brasileiros nos respectivos países. Ou seja, se determinado país não permite que brasileiros votem em seu processo eleitoral, o Brasil não permitiria que essa nacionalidade tenha direito de votar e de ser votada em solo brasileiro.

“Aproveitamos para alterar esse dispositivo a fim de abrir espaço à diplomacia brasileira para negociar tratados, bilaterais ou multilaterais, que estendam a estrangeiros residentes — e não mais apenas aos portugueses — certos direitos inerentes a brasileiros. Nesse caso, vislumbramos a possibilidade de, por exemplo, celebrarmos tratados com outros países lusófonos ou com nações inseridas em nosso contexto de integração regional, em especial no que se refere a votar e ser votado nas eleições municipais”, disse Aloysio.

Com informações da Agência Senado

México e Estados Unidos jogam refugiados da América Central no limbo, denuncia Anistia Internacional

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EUa México muro anistia internacional
Barreira na fronteira entre México e EUA, entre Tijuana e San Diego. (Crédito: Anistia Internacional)

Relatório aponta restrições dos dois países aos fluxos migratórios ao mesmo tempo em que cresce a violência no chamado Triângulo Norte da América Central, que gera mais deslocamentos forçados

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

Nesta semana (15 e 16/06), os governos do México e dos Estados Unidos se reúnem em Miami com o intuito de definir políticas para restringir o fluxo de migrantes e refugiados que chegam de países da América Central. Ao mesmo tempo, a região – mais exatamente o chamado Triângulo Norte, que reúne Guatemala, El Salvador e Honduras – vive uma crise humanitária qualificada como “sem precedentes” por organismos internacionais.

De acordo com a Anistia Internacional, em 2016 o Instituto Nacional de Migração do México deteve 188.595 migrantes irregulares – 81% destes de países da América Central – e retornou 147.370 para seus países de origem. No total, 96% das pessoas deportadas eram de El Salvador, Honduras e Guatemala – que formam o chamado Triângulo Norte. Muitos não foram informados do seu direito de pedir proteção internacional através de um pedido de refúgio.

A violência é causada especialmente pelas “maras” – como são conhecidas as gangues nos três países, que mantêm seu poder por meio de sequestros, assassinatos, torturas e estupros. A recusa em entrar para alguma dessas organizações criminosas pode ter a morte como preço. Por isso, a fuga para outros países, em especial México e Estados Unidos, cada vez mais se converte não em uma alternativa, mas na única saída possível.

É em meio a essa situação que a Anistia Internacional lança o relatório Facing Walls: USA and Mexico’s violation of the rights of asylum (Diante do Muro: a violação dos direitos dos requerentes de refúgio nos EUA e no México, em tradução livre). Como o próprio nome já indica, o estudo trata das medidas recentes adotadas pelos dois países em relação ao fluxos migratórios a partir da América Central.

Foram entrevistados 120 migrantes e solicitantes de refúgio, além de 25 agentes governamentais e 40 integrantes da sociedade civil, além da consulta a documentos oficiais. O relatório mostra os efeitos nocivos dessas políticas e da falta de um olhar mais humano sobre as migrações na região – afetando famílias, crianças, mulheres e minorias que tentam a jornada em direção à América do Norte.

Muro na fronteira entre México e EUA, entre Tijuana e San Diego. Barreiras físicas e imateriais dos dois países têm colocado em risco a vida de milhares de refugiados da América Central
Crédito: Anistia Internacional

Pelo lado de Washington, destacam-se a Ordem Executiva de 25 de janeiro de 2017 sobre “Melhorias na Segurança das Fronteiras e da Execução das Leis de Imigração” e uma série de outras medidas que permitem o regresso forçado de pessoas às condições que ameaçam suas vidas e aumentam a detenção obrigatória ilegal de requerentes de refúgio e suas famílias por meses a fio. O relatório aponta ainda para movimentos da gestão Trump de aumento da capacidade dos centros de detenção para migrantes – de acordo com o Departamento de Segurança Nacional, há planos para alocar até 33.500 mais espaços para camas, quase dobrando a capacidade diária de detenção do país.

Já o governo mexicano também tem aumentado as detenções de migrantes que passam pelo seu território, o que levou a Anistia Internacional a questionar se o México não estaria atuando como uma espécie de “porteiro” do vizinho do norte.

“Os Estados Unidos e o México são parceiros no crime de preparar uma crescente catástrofe de direitos humanos. Os EUA estão arquitetando um sistema cruel e impermeável para impedir que pessoas desprovidas recebam proteção internacional e o México está mais do que disposto a desempenhar o papel de guardião do acesso aos EUA”, critica Erika Guevara-Rosas, diretora de Américas da Anistia Internacional.

Os dados do relatório e o encontro bilateral entre México e Estados Unidos mostram que, pelo menos por esse momento, a polêmica em torno da expansão do muro na fronteira entre os dois países foi deixada de lado. Enquanto isso, situações como a do jovem de 23 anos que fugiu de Honduras para não ser morto por uma das “maras” continuam a se repetir.

“Eu fui deportado 27 vezes do México. Os agentes de migração mexicanos não se importam com o motivo de alguém querer sair de seu país. Eles o ridicularizam”.

 

 

 

 

 

ONG formada por imigrantes luta por uma nova imagem da África no Brasil

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África do Coração, ONG, formada por brasileiros, migrantes e refugiados. Crédito: Divulgação

Conheça a história e o trabalho da ONG África do Coração, organizadora da Copa dos Refugiados no Brasil. E seu trabalho vai além do futebol

Por Lya Amanda Rossa
Coluna Fronteira Aberta
Em São Paulo (SP)

Imagine um coração que vibra e é tão vasto quanto o segundo continente mais populoso do mundo, cabendo nele 54 nacionalidades e inúmeras culturas. Um coração assim é um coração africano, que pulsa em São Paulo em diferentes cores, idiomas e paixões pelo trabalho da ONG África do Coração, mais conhecida por ser a organizadora da Copa dos Refugiados. Mais do que dividir com os brasileiros o amor pelo futebol, a organização quer passar a sua mensagem e mostrar novas visões sobre a África.

“Algumas pessoas perguntam ‘lá na África tem avião?’ e eu respondo sim. ‘E tem aeroporto?’ Não, o avião joga uma corda e subimos (ironiza). Outro me perguntou se eu morava em uma árvore e eu disse sim, o embaixador do Brasil na África também mora em uma árvore”. Bom humor e tolerância, isso Jean Katumba tem de sobra. O congolês que está há 4 anos no Brasil e é coordenador e representante da organização tem também muitas mensagens para transmitir, pois intolerância se combate com informação. “Estou em situação de refúgio, não sou refugiado, porque tem a confusão dessa palavra refugiado que você é, mas você não pode sair.”

A África do Coração foi fundada em 2013 e sua gênese partiu da troca de idéias por três africanos que residiam em São Paulo e se surpreenderam ao se sentirem mais africanos aqui do que lá, chocados com as imagens distorcidas e o desconhecimento sobre o seu continente no Brasil. “Temos que visibilizar a África e mostrar mais sobre a nossa cultura, mostrar que a África é grande. Nossa visão é de trabalhar sobre a comunicação, a comunicação entre nós para conhecer nossos direitos, nosso papel. As pessoas pensam que os refugiados são pessoas que fugiram pela fome. É importante trazer essa informação para a sociedade brasileira saber e conhecer a cultura da África, saber que a África não tem uma cultura única, mas uma diversidade de culturas”, pondera Jean.

Hoje, a organização conta com uma diretoria de 20 nacionalidades e cada representante cuida de uma área diferente. Além dos preconceitos vivenciados por serem negros e africanos, muitos se deparam também com a xenofobia no Brasil, o preconceito contra pessoas de outras nacionalidades, e também quanto a serem refugiados. As informações disponíveis aos brasileiros sobre migrantes e refugiados, especialmente através da mídia, noticiam que os deslocamentos de sírios são provocados por guerras, mas é comum a associação de países africanos com os casos de migrantes que cruzam o mar mediterrâneo em embarcações perigosas e sobrecarregadas, sem conhecimento dos inúmeros conflitos e guerras presentes no continente.

assembleia da África do Coração dá uma ideia da diversidade presente na ONG.
Crédito: Divulgação

“Algumas pessoas dizem ‘ele está fugindo de fome’, mas se eu fosse fugir de fome eu iria morrer! Porque ninguém foge de fome para outro país! No meu país, se eu estivesse com fome eu tinha meu cunhado, meu tio, minha família. Outros dizem que estão fugindo por dinheiro, mas para vir de lá para cá tem que pagar visto, passagem. As pessoas precisam entender que muitos refugiados tinham uma vida estabelecida em seus países, que nunca vão ter aqui, e não teriam trocado tudo para vir para cá se não fosse para salvar suas vidas. Quem conseguiu chegar até aqui para salvar sua vida é porque teve condições, e nós não somos vitimas. Um refugiado é uma pessoa que sai sem se preparar. Se você quer ir para França, você pega sua mala e se pergunta: eu vou comer o que, onde vou dormir? Você se planeja. Mas esse não é nosso caso, a gente vem para o Brasil para salvar a nossa vida. E para mostrar tudo isso a gente pensou no projeto da Copa dos Refugiados, pois os refugiados não são somente os sírios. O Brasil abriga refugiados de 87 nacionalidades”, comenta Jean.

Coordenadora de projetos da ONG, a moçambicana Lara Santos lamenta que tudo o que se divulgue sobre a África sejam informações sobre fome, doenças e ajuda humanitária, ainda que a maioria das pessoas ignorem o fato de que existem conflitos armados em diferentes partes do continente.

“Passam comerciais na televisão e mostram isso, mas quem falou que não existem países fora da África nessa situação? Queremos mostrar que a África tem um outro lado, tem muitas coisas bonitas. O fato de você sair de seu país para salvar a sua vida não significa que não tenha coisas boas, mas a televisão só vê o lado feio, para que as pessoas sintam pena. Saí de lá e deixei minha família, minha casa, minha vida boa. Não foi porque lá eu dormia na rua, senão eu nem estaria aqui. A África do Coração quer buscar mostrar para os brasileiros que somos um continente e não um país, somos 54 países e em cada um deles você encontra mais de 10 línguas, quanto mais culturas”.

Com o objetivo de difundir a cultura africana e informações sobre os diferentes países, além de auxiliar a adaptação de refugiados e migrantes no Brasil, a organização conta com diferentes projetos e uma agenda de eventos na cidade de São Paulo. Veja abaixo quais as próximas atividades da ONG:

Por uma visão diferente da África no Brasil

“A África do Coração está com muitos projetos de integração, principalmente para os recém-chegados, que tem dificuldades de comunicação, conseguir um emprego e se inserir na comunidade. Estamos com um projeto de tradutores para mandar para os hospitais e outros serviços. Temos essa demanda de pessoas que vão ao atendimento e os enfermeiros não falam inglês, ou não conseguem se comunicar e isso cria um choque”, comenta Lara.

A coordenadora da ONG diz ainda que parceiros são bem-vindos para ajudar na organização dos eventos, divulgação ou até mesmo lanches para as atividades das crianças. Se o provérbio brasileiro diz que gentileza gera gentileza, certamente para esse caso é verdade. A ONG tem um coração de mãe: atendem também pessoas da Síria, Afeganistão e Iraque. “Se eu tenho um irmão que precisa de ajuda, vamos buscar de todas as maneiras ajudar. Qualquer um de nós pode estar nessa situação.”

São também oferecidos cursos de idiomas para interessados em geral. Jean conta sobre os cursos de línguas, que atualmente tem duas turmas de inglês e francês apenas com alunos brasileiros. “Queremos ensinar nossas línguas também para os brasileiros, essa é a nossa cultura, a maioria dos africanos fala pelo menos quatro línguas. Vimos que os brasileiros tem essa busca por conhecimentos, e podemos contribuir com esse processo. Temos também cursos de português para os migrantes que acabaram de chegar”, afirma Lara. O curso de línguas é chamado Malaika, palavra em suaíli (idioma presente em vários países africanos) que significa ‘anjo’, nome escolhido pois os anjos falam todas as línguas do mundo.

A chegada de imigrantes e refugiados no Brasil também tem muito a contribuir para um resgate da identidade Brasileira: “Podemos ensinar os brasileiros a viver um pouco da cultura africana, porque afinal o povo brasileiro saiu da cultura africana”, propõe Lara, que recorda muitos dos pontos dessa cultura que foram se perdendo na tradição brasileira, como o respeito aos mais velhos e a importância da oralidade na transmissão de ensinamentos, sabedoria e estórias. “Quando a gente quer aprender sobre qualquer coisa, vamos falar com os mais velhos. Os anciãos são pessoas que carregam uma biblioteca e tem a sua história de vida. São muito respeitados lá, porque viveram a história deles e hoje vivem a nossa.”

A educação e informação tem um valor muito grande nas sociedades africanas, o que muitas vezes os motiva a virem estudar ou trabalhar no Brasil. Lara conta que muitos dos africanos no Brasil são formados, mas enfrentam grandes dificuldades para o reconhecimento de diplomas e títulos. “Aqui na ONG nós temos advogados, temos contadores, temos administradores, temos engenheiros. A gente cresce ouvindo uma única palavra: estudem. Isso é o que vai dar o seu futuro. Muitas famílias não tem condições para dar mais do que escola, então é difícil. Muita gente nos procura com essa demanda”, observa a coordenadora.

Bola no pé e cidadania na mente

Apesar das diferenças de nacionalidade, culturas e idiomas, a Copa dos Refugiados está em sua 4ª edição – e neste ano foram realizados jogos pela primeira vez em Porto Alegre, na Arena do Grêmio, tradicional time gaúcho. Além de reunir e propor uma confraternização entre migrantes e refugiados no Brasil – o evento é aberto a times de variadas nacionalidades de dentro e fora do continente africano – o maior objetivo é a visibilidade para a causa dos refugiados e migrantes, com uma temática diferente a cada ano.

Pênalti batido pela Nigéria que garantiu o título para a seleção na final da Primeira Copa dos Refugiados (2014).
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O campeonato, que teve como tema principal de 2014 o lema “O valente não é violento”, retorna com a temática de gênero na edição de 2017 com o título “Os Desafios Sócio-econômicos da mãe refugiada para ser cidadã”.

“Falar de futebol é pensar em vários times masculinos, num esporte onde as mulheres tem pouco espaço. A cada ano, a edição tem um tema que acompanha, no ano passado foi ‘Refugiado: espaço e oportunidades‘. O refugiado não está aqui para pegar o trabalho, a casa, a mulher do brasileiro. Estamos aqui para somar. E se o Brasil cresce, cresce com mais um de nós”, comenta Jean.

A programação da ONG de 2017 já contou com um desfile de moda e atividades de lazer e esporte para mulheres e crianças e o tema deste ano será discutido em um debate na Câmara Municipal de São Paulo no dia 23 de junho, às 14h.

Jean conta que será promovido o debate para mapear os vários desafios de mulheres que chegam no Brasil com seus filhos, muitas vezes sem seus companheiros. “Como essa mãe vai lidar com uma vida com muita dificuldade, com uma cultura nova que não é fácil de se adaptar? Aqui a mulher precisa ir atrás de tudo, e lá ficava em casa com os filhos. Sabemos que o Brasil não é fácil para os brasileiros, mas quais são as ferramentas para auxiliar as mulheres terem mais cidadania no Brasil?”

A chamada da Copa no site da ONG convida para os jogos que ocorrerão em São Paulo em 2 e 3 de agosto, e irão reunir pessoas de pelo menos 16 países diferentes. O evento conta com o apoio da Cáritas Arquidiocesana São Paulo, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), ONU Mulheres, UNAIDS e da ONG IKMR – Eu conheço meus direitos. Os jogos ocorrerão das 8h às 17h na Comunidade Novo Glicério – Rua Frederico Alvarenga, 391, Sé.

Para mais informações, acesse:

ONG Africa do Coração: http://africadocoracao.org/ e https://www.facebook.com/Africora/

Copa de Integração dos Refugiados: https://www.facebook.com/copadosrefugiados/

Cursos de Idiomas Malaika School: https://www.malaikaschool.com/about-us

Festival Soy Latino promete agitar o Memorial da América Latina no fim de semana

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O Prof. Cubano Andres Martinez, que será uma das atrações da festa. Crédito: El Guia Latino/Divulgação

Evento promete ter até aula de “Despacito”, hit que tem feito sucesso no mundo todo

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

O Memorial da América Latina, em São Paulo, vai ficar um pouco mais latino neste sábado (17). O local, que já é ponto tradicional de eventos e debates ligados à temática latino-americana, vai receber mais uma edição do Festival Soy Latino.

Das 12h às 21h, o evento tem entrada gratuita e apresentará atrações da comunidade latina atuante em São Paulo, de países como Cuba, Peru, Colômbia, Chile, Bolívia, México e Paraguai.

O Prof. Cubano Andres Martinez, que será uma das atrações da festa.
Crédito: El Guia Latino/Divulgação

O evento, que chega à sua 5ª edição, é idealizado por Ives Berger, diretor do Portal El Guia Latino, tem parceria com a ONG PAL (Presença de América Latina) e co-realização da Fundação Memorial da América Latina, do Governo do Estado de São Paulo e do GRULAC, Grupo de Países da América Latina e Caribe.

Entre as atrações do evento está o professor de dança cubano Andres Martinez, que dará uma aula ensinando os passos do hit “Despacito”, que vem fazendo sucesso no mundo todo.

Veja abaixo a programação do Soy Latino, que terá cobertura do MigraMundo:

Festa do Imigrante, um encontro entre o passado e o presente das migrações

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Alojamentos do Arsenal da Esperança acolhem alguns dos migrantes de hoje no espaço da antiga Hospedaria. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Espaço que recebeu migrantes de todo o mundo continua ligado à temática, trazendo cultura, história e reflexão

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

Em que lugar do mundo o Chile poderia ser vizinho de Moçambique e do Vietnã ao mesmo tempo? Ou que bastariam alguns passos para ir da Coreia do Sul à Alemanha, passando por Bolívia, Síria, Camarões, Índia, Armênia, Congo e Polônia?

Para mim, essa volta ao mundo possível dentro de poucos metros quadrados é uma das grandes atrações da Festa do Imigrante, que termina neste domingo (11) em São Paulo.

Cerca de 50 nacionalidades estiveram representadas na edição deste ano, entre comunidades estabelecidas há décadas em São Paulo e outras que ainda dão seus primeiros passos.

Festa do Imigrante reuniu expressões culturais de dezenas de nacionalidades.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Uma diversidade que podia ser sentida ainda pelos aromas das barracas gastronômicas e pelos sons que saem do palco. Uma combinação possível durante a festa era ouvir música lituana, comer um mafé (arroz com galinha ao molho de amendoim) na barraca de Camarões, saborear um waffle belga e beber um chica morada peruana para acompanhar. A combinação, claro, muda de acordo com o momento e com o gosto do freguês.

Teve espaço também para o debate sobre as migrações atuais e sobre o necessário e urgente combate à xenofobia, que insiste em marcar presença no cotidiano global.

Tudo isso no espaço da antiga Hospedaria do Brás, que recebeu cerca de 2,5 milhões de pessoas de todo o Brasil e de outros países enquanto esteve em funcionamento oficial entre 1887 e 1978. E esse complexo de edifícios, pátios e jardins continua a respirar migrações graças ao Museu da Imigração e ao Arsenal da Esperança, que ocupam esse espaço histórico e atual ao mesmo tempo.

Enquanto o Museu da Imigração se propõe a discutir as migrações no passado e no presente, por meio de suas exposições e eventos que promove, o Arsenal da Esperança mantém o caráter de acolhida da antiga Hospedaria. Cerca de 1.200 pessoas dormem todas as noites nos alojamentos do Arsenal, mantido pela fraternidade católica italiana Sermig.

Alojamentos do Arsenal da Esperança acolhem alguns dos migrantes de hoje no espaço da antiga Hospedaria.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Será que quem passa pelos alojamentos do Arsenal consegue imaginar que todas aquelas camas disponíveis e devidamente arrumadas serão o local de descanso de centenas de pessoas em situação de rua? E será que imaginam que entre 25% e 30% dos ocupantes do Arsenal atualmente são migrantes, de países como Mali, Senegal, República Democrática do Congo e Togo?

Ou ainda, quem se serve da deliciosa culinária italiana no refeitório da Festa do Imigrante – que está no espaço do Arsenal – imagina que ainda na madrugada essas milhares de pessoas estão tomando seu café da manhã?

Em anos anteriores, sempre que passava para dar uma olhada nos alojamentos, me via dando explicações a outros visitantes que aquelas camas não eram instalações do Museu que recriavam a Hospedaria da época, mas sim camas, cobertores e colchões usados todas as noites. Até chegavam a pensar que eu era voluntário do Museu ou do Arsenal… Mas neste ano, pelo menos, tinha um voluntário que explicava pacientemente aos visitantes da Festa do Imigrante sobre aquele espaço cheio de histórias de dificuldades, mas também de sonhos e esperanças.

Ou seja, a Festa do Imigrante é uma oportunidade rara ao longo do ano de estar em contato direto com o ontem e o hoje das comunidades migrantes que fizeram e ainda ajudam a fazer a cidade. Para os que ainda não entendem essa complexidade e se apropriam de discursos xenófobos e discriminatórios, é um convite a se despir de uma vez por todas de seus estereótipos.

Para os que já entendem e valorizam essa diversidade, a Festa do Imigrante – assim como outros eventos do gênero – é uma oportunidade de rever amigos e recarregar as energias para as lutas diárias e constantes de quem acredita e sabe que a migração é um direito humano, um fenômeno social que transforma as sociedades ontem, hoje e sempre.

E que venha a edição de 2018! Eu já vou reservar na minha agenda assim que sair a data.

Formatura de curso de empreendedorismo para imigrantes vai além da entrega de certificados

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Voltado para imigrantes donos de oficinas de costura, curso Tecendo Sonhos capacitou mais uma turma de empreendedores. Crédito: Antonella Pulcinelli

Formatura do Tecendo Sonhos, curso organizado em São Paulo pela Aliança Empreendedora e focado no público empreendedor migrante, uniu aprendizado, momentos de interação cultural e muita emoção

Por Antonella Pulcinelli
De São Paulo (SP)

Após 11 encontros, muitos desafios e muitas vitórias, chegou o dia da formatura da quinta edição do curso Tecendo Sonhos. O evento ocorreu no último dia 3 de junho, no prédio da Ação Educativa, na região central de São Paulo, e contou com atividades durante todo o dia.

Após a abertura do evento os empreendedores fizeram a apresentação de seus trabalhos (os chamados pitches), e as melhores foram premiadas com um cheque simbólico com o valor a partir de R$ 250, pago pela Aliança Empreendedora em forma de melhorias na empresa do migrante empreendedor.

Ao todo, 56 imigrantes se formaram nessa edição, todos de países latino-americanos. Os empreendedores receberam orientações de mentores voluntários que se colocaram a disposição para tirar dúvidas de formalização da empresa, como fazer empréstimos e financiamentos, formas de precificação de produtos entre outros.

Grupos de mentoria, compostos por voluntários, apoiam os migrantes que se formam no curso.
Crédito: Antonella Pulcinelli

“Eu trabalho com contabilidade, sempre gosto e gostei dessa questão de trabalho voluntário, no ano passado participei de uma oficina de costura para auxiliar os imigrantes que estão em São Paulo, é interessante a gente acolher eles porque eles fazem parte da economia, falando em questão de economia global, então nada melhor que os imigrantes que vem ao Brasil tenham acesso a informação, a formalização e entrar na economia formal, eu acho que com isso todo mundo ganha”, afirmou o mentor Marcelo Arakelian, que pela segunda vez presta atendimento voluntário aos empreendedores do curso Tecendo Sonhos.

A entrega dos certificados começou às 15h30 e foi um momento de muita emoção tanto para os empreendedores quanto para os facilitadores que dedicaram seus finais de semana voluntariamente para ensinar.

Voltado para imigrantes donos de oficinas de costura, curso Tecendo Sonhos capacitou mais uma turma de empreendedores.
Crédito: Antonella Pulcinelli

“Eu gostaria de agradecer a todos que dedicaram seu tempo para nos ensinar, foi um grande desafio mas vocês estiveram com a gente e só tenho a agradecer”, declarou o empreendedor boliviano Carlos Canaza Cuba, da turma de Ermelino Matarazzo, após a entrega dos certificados.

O curso é aplicado em diferentes regiões de São Paulo, com a ajuda das chamadas organizações aliadas. Em Ermelino Matarazzo, por exemplo, a instituição parceira foi a ONG Presença da América Latina (PAL). Também atuaram como aliadas no Tecendo Sonhos o coletivo Si, Yo Puedo e o Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI).

Para encerrar o evento, o grupo de dança folclórica boliviana Tinkus San Simon fez uma apresentação repleta de alegria; em em seguida, o grupo de rap Santa Mala, formado por três irmãs bolivianas, levou palavras de força e coragem para todos os presentes.

Ainda não há confirmação da abertura de novas turmas do Tecendo Sonhos para o próximo semestre.

Grupo boliviano Tinkus San Simón foi uma das atrações culturais da formatura.
Crédito: Antonella Pulcinelli

O que é o Tecendo Sonhos?

Voltado para imigrantes donos de oficinas de costura, o curso Tecendo Sonhos é organizado pela Aliança Empreendedora, empresa que apoia empresas e organizações sociais com o objetivo de desenvolver modelos de negócios inclusivos e apoio a microempreendedores de baixa renda.

O curso, que acontece desde 2014, ensina desde a formalização da empresa até a precificação dos produtos que serão vendidos. A ideia foi desenvolvida após ter sido identificada a necessidade de trabalhar a questão do trabalho mais justo. E dentro da cadeia da moda existe uma questão muito forte de trabalho indigno principalmente com imigrantes, já que muitos não conhecem as leis do Brasil e nem sabem quais são seus direitos.

De acordo com a coordenadora de projetos da Aliança Empreendedora, Tatiana Rogovschi Garcia, a intenção não é que o empreendedor aprenda apenas as questões de gestão. “Nós começamos a trabalhar com eles não só o empreendedorismo, mas também o quanto eles conhecem das regras brasileiras que falam de trabalho análogo ao escravo, de trabalho digno, pra ver o quanto eles conseguiriam aplicar dentro do seu negócio”, afirma.

Este material é parte de uma parceria entre o MigraMundo e a ONG Presença da América Latina (PAL), com noticiário relacionado às comunidades latino-americanas no Brasil

Estudantes além das fronteiras

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Estudantes circulam pelo campus da USP, em São Paulo. Universidade é uma das que recebem intercambistas, mas ainda não conta com processo de seleção voltado para refugiados. Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

O Brasil tem recebido cada vez mais alunos do continente africano no ensino superior. As dificuldades enfrentadas por eles não diminuem o sonho do diploma internacional

Por Glória Branco e Géssica Brandino
De São Paulo (SP)

Realizar um intercâmbio estudantil é o sonho de muitos jovens no mundo todo. Há registro de estudantes intercambistas no Brasil desde os anos 70, mas nos últimos anos tem aumentado a presença de estudantes do continente africano no território brasileiro. Desde 2004, iniciativas de programas de ajuda e cooperação entre Brasil e África servem de estímulo para que alunos de países lusófonos (Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe) encontrem no país uma oportunidade para imigração e intercâmbio estudantil.  Entretanto, estudantes de outros países africanos também veem no Brasil uma oportunidade de desenvolver estudos e pesquisas científicas, no intuito de uma melhor qualificação profissional e também na troca de informações entre países.

Entre 2010 e 2013, havia em torno de 6.000 alunos africanos estudando em universidades públicas brasileiras. No Censo da Educação Superior de 2015, divulgado em outubro de 2016, mais de 30% dos estudantes estrangeiros matriculados no Brasil eram provenientes do continente africano. O Censo apurou que, das 2.263 matrículas, os angolanos eram maioria. Dos países africanos, Guiné-Bissau vinha na sequência com 931 matrículas.

Estudantes circulam pelo campus da USP, em São Paulo. Universidade é uma das que recebem intercambistas.
Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

Do Senegal para o Brasil

O Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) é uma das ações que melhor exemplificam a união do Brasil com o continente africano. Com mais de cinquenta anos de duração, o programa é administrado pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Educação, em parceira com instituições de Ensino Superior. Os cursos de graduação com o maior número de vagas oferecidas no país são Letras, Comunicação Social, Administração, Ciências Biológicas e Pedagogia.

Desde os anos 2000, foram mais de 9,7 mil alunos selecionados, dos quais 76% vieram de países do continente africano, que tem 25 países dentre os 59 participantes do programa. Também é de lá o país com maior número de bolsistas no período: Cabo Verde, de onde já vieram mais de 3 mil bolsistas.

O jovem Maxime Ndecky, 24 anos, veio do Senegal para estudar Relações Internacionais na Universidade de São Paulo. Pesquisando na internet sobre o programa de bolsas de estudo de graduação para estrangeiros, Maxime viu no PEC-G uma chance de viver uma experiência única de aprendizado. Com o apoio dos pais, especialmente da mãe brasileira, decidido a tentar uma bolsa Maxime foi à embaixada do Brasil no Senegal para saber os procedimentos.

Para participar do programa, que seleciona alunos estrangeiros entre 18 e preferencialmente até 23 anos, com ensino médio completo, é preciso provar capacidade de custear as despesas no país durante o período de estudos, ter certificado de conclusão do ensino médio ou curso equivalente e proficiência em língua portuguesa. O exame, Celpe-Bras, substitui o tradicional vestibular. Entretanto, Maxime foi informado que a prova seria aplicada no Rio de Janeiro, em outubro do ano seguinte.  

Era fevereiro de 2013 quando o jovem desembarcou na capital fluminense. Maxime falava poucas palavras em português e tinha como desafio atingir a proficiência em poucos meses. Para isso, iniciou o curso preparatório para o Celpe-Bras e aos poucos foi aprimorando os conhecimentos.

Burocracia, legislação e preconceito

Para os estudantes africanos de países não lusófonos, o idioma pode se tornar um grande entrave na conquista de uma bolsa de estudo. Outra dificuldade encontrada pelos estudantes é a moradia. Nos oito meses que Maxime se preparou para o exame de proficiência em português, morou numa república para estudantes evangélicos no Rio de Janeiro, cuja estadia foi garantida por meio de contato dos pais do estudante, que também o ajudavam com as despesas extras.

No final de 2014, o estudante acessou o sistema de notas e teve a feliz notícia que conseguira a bolsa no curso de graduação que desejava. Mudou-se para São Paulo e, nos primeiros anos de estudo, morou com uma família contatada por sua mãe no bairro da Saúde. Em 2015, com o aumento do custo do aluguel Maxime procurou o núcleo de apoio ao estudante estrangeiro da USP na tentativa de conseguir moradia no CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo). Contudo, como os pais do jovem trabalham de forma autônoma, não tinham como encaminhar os comprovantes de renda exigidos para ter direito à moradia no campus. A solução foi morar com um tio, em Perus, bairro da zona norte de São Paulo, aumentando o tempo em uma hora o tempo de trajeto para o Campus.

Vista do CRUSP, o Conjunto Residencial da USP.
Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

Outra dificuldade é com o sustento mensal. Muitos bolsistas têm dificuldades para trabalhar, já que o visto de estudante no Brasil não permite que os alunos tenham vínculo de trabalho formal por aqui. Além de percalços com moradia e sustento, os estudantes ainda precisam lidar com a discriminação, que não acontece somente fora, mas também dentro do ambiente acadêmico. “As manifestações de racismo dentro das universidades com alunos africanos são uma reprodução do racismo na sociedade brasileira”, afirma José Ailton Rodrigues dos Santos, sociólogo e professor vinculado ao Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Para o sociólogo, o Brasil ainda não resolveu suas próprias questões internas sobre raça e discriminação, e isso se reflete no tratamento oferecido aos estudantes africanos, que é o mesmo tratamento oferecido ao negro brasileiro. “Enquanto o país não fizer as pazes com sua própria negritude, haverá discriminação racial e preconceito”, enfatiza José Ailton.

Nesse contexto, Maxime representa uma exceção, por ser bem acolhido pelos colegas e professores da universidade. O professor José Ailton lembra de ocasiões em que precisou intervir tanto na universidade quanto fora, em abordagem policial, para esclarecer a origem dos alunos e apaziguar situações discriminatórias.

De qualquer forma, Maxime não está insensível ao fato. No Instituto de Relações Internacionais da USP, conheceu o trabalho desenvolvido pelo Coletivo Educar para o Mundo, programa de extensão no qual atuam estudantes do curso de Relações Internacionais e que tem tradição em trabalhar com a temática migratória. Uma das ações do coletivo é atuar junto aos demais estudantes na conscientização sobre migração e contra a xenofobia. Fora do Campus, o estudante sempre se depara com algum conterrâneo na região central de São Paulo, vendendo relógios e outras mercadorias. Por meio desse contato, o estudante percebe as dificuldades enfrentadas no país pelos migrantes.

Para Maxime uma das grandes dificuldades – não somente dele, mas de outros alunos do PEC-G e de outros programas estudantis como a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) – é conseguir acompanhar o conteúdo das aulas. Mesmo falando português, francês, inglês e wolof (um dos idiomas presentes no Senegal), Maxime levou tempo para se familiarizar com o vocabulário do curso. A dificuldade maior foi nas disciplinas de economia e direito internacional, mas não teve nenhuma reprovação.

Em nome de um sonho

Todavia, os desafios possuem um peso menor diante do sonho de estudar em outro país e conseguir o grau de nível superior. É o vislumbre do porvir que faz com que os estudantes africanos não desistam frente às dificuldades. Maxime não se arrepende da escolha que fez e, inclusive, já recomendou o programa para um amigo de Guiné que deseja cursar a universidade no Brasil, assim como ele.

Para o jovem, o aprendizado de um novo idioma foi uma grande conquista. Maxime começou o primeiro estágio no país e pretende continuar no Brasil depois de formado, trabalhando em empresas multinacionais ou em agências internacionais, confiante no país que lhe proporcionou a oportunidade de alcançar os objetivos traçados.

Com ajuda de voluntária, criança síria com deficiência consegue vaga em escola em São Paulo

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Além das necessidades especiais da menina, preconceito contra muçulmanos foi um dos obstáculos vencidos pela família, que busca recomeçar a vida no Brasil

Por Alethea Rodrigues
Em São Paulo (SP)

A família de Neshren* é só mais uma que encontrou dificuldades na hora de conseguir colocas as crianças na escola no Brasil. Ela, o marido e dois filhos fugiram da guerra da Síria e vieram morar em São Paulo há um ano e quatro meses, em busca de paz. Mohamad é o filho mais velho e tem 13 anos. A caçulinha é a Haya, que nasceu sem a habilidade de enxergar. Ela completou dez anos de idade exatamente no dia da entrevista, e foi durante a pequena festinha, feita no apartamento da família, que conhecemos a história da voluntária Neusa Toledo, que lutou por três meses para conseguir matricular a pequena na escola.

Haya vive com a família no Cambuci, centro de São Paulo. A Mesquita Brasil cedeu um apartamento até que eles conseguissem se estabilizar no país. A renda da família é R$ 1.300, salário que o pai consegue trabalhando em um restaurante. Já Neshren não trabalha porque precisar dedicar seu tempo integralmente à filha deficiente. Além de não enxergar, Haya tem problemas motores devido ao tempo que ficou longe da fisioterapia e sentada em uma cadeira de rodas praticamente 24 horas por dia. A pequena adquiriu a chamada atrofia por desuso, que ocorre por falta de atividade física.

“Saímos da Síria desesperados e moramos no Líbano durante três anos, mas naquele país não conseguimos tratamento para ela, por isso a saúde dela piorou. Além disso, os dois ficaram sem ir pra escola e isso também prejudicou muito. Quando cheguei no Brasil fui atrás disso para que eles pudessem estudar, mas não falo quase nada de português e com uma filha deficiente parece que ficou mais impossível ainda”, contou a mãe.

Passaportes da família de Haya, que deixaram a Síria por causa da guerra e buscam recomeçar a vida no Brasil.
Crédito: Alethea Rodrigues

A família de Neshren recebeu apoio de ONGs que trabalham com a causa do refúgio. Foi em uma delas, durante a entrega semanal de cestas básicas, que a voluntária Neusa conheceu a pequena Haya. Neusa tem 60 anos de idade, é pedagoga e enfermeira, e nas horas vagas trabalha como voluntária em instituições que assistem imigrantes. Em uma breve conversa com Neshren, se sensibilizou e prometeu tentar conseguir escola para os dois filhos dela. “Escola é um direito básico da criança e não importa se ela é deficiente. Depois que me inteirei do caso, comecei a correr atrás. O idioma ainda é uma grande barreira para a família e eles também sofreram bastante preconceito no tempo em que procuraram sem o meu auxílio”, contou a voluntária.

Foram três meses contatando semanalmente a Secretaria de Educação. Neusa, Neshren e as crianças visitaram quatro escolas. A intenção era conseguir colocar os dois para estudar no mesmo local, para facilitar a vida da mãe e poupar os gastos da família. “Foi difícil porque não encontrava uma escola que tivesse acessibilidade para deficiente. Consegui matricular o Mohamad pertinho da casa deles e já foi uma grande vitória. Ele já está se comunicando muito bem o português e adorando conviver com os novos amiguinhos. A batalha para conseguir algo para a Haya foi mais difícil”, confessou, um pouco decepcionada.

O preconceito com a família muçulmana foi algo que a voluntária destacou durante as visitas e contou um dos episódios em que sentiu na pele essa discriminação. “A inclusão está escrita na lei, mas não é praticada. Uma das escolas que eu fui, a diretora questionou o porquê essa família não voltava para a Síria já que estava tão difícil conseguir que a Haya estudasse no Brasil. Tive que me conter para não falar alguma besteira e respondi apenas para ela não questionar e cumprir a lei”.

A voluntária Neusa, que ajudou a família de Haya a conseguir escola para a menina e o irmão.
Crédito: Alethea Rodrigues

Depois de muito trabalho, Neusa conseguiu um local que acolhesse a garotinha, a Escola Estadual Gomes Cardim, no bairro da Aclimação, também no centro de São Paulo, como a de Mohamad. Haya finalmente começou a estudar em novembro do ano passado. A pequena está começando a entender português, tem acompanhamento de um professor especial e alguns dias da semana aprende a ler e escrever em braille. “Minha filha nunca estudou. Quando estávamos na Síria matriculei a Haya na escola e poucos meses depois a guerra começou. Tivemos que fugir e no Líbano foram mais três anos perdidos até conseguirmos nos mudar para o Brasil”, confessou Neshren um pouco mais aliviada.

Com mais uma batalha vencida, Neusa pretende continuar auxiliando a família síria e ajudar outros refugiados que também necessitam. “Qualquer tipo de trabalho voluntário é muito importante, mas quando se trata da causa do refúgio toca ainda mais meu coração. Eles precisam de tudo, até de ajuda para se comunicarem. Eles não precisam só de comida, precisam de um empurrãozinho para recomeçarem suas vidas e foi isso que eu tentei fazer quando consegui matricular as crianças na escola”. Sobre o futuro de Haya ela concluiu: “Quero vê-la caminhando por aí, independente e feliz”.

Além da vida de estudante, Haya começou a fazer fisioterapia gratuitamente no Hospital Santa Cecília e já dá os primeiros passos sozinha. A entrevista feita com dificuldade através de mímica, poucas palavras em português e o uso de um tradutor não impediu que Neshren deixasse claro a sua felicidade de ver seus filhos estudando e a pequena Haya vivendo como uma criança normal.

“A ajuda da Neusa foi muito importante, se não fosse ela nada disso teria acontecido. Não sabíamos o caminho e ela nos mostrou, sou muito grata por tudo que fez por nós. Em um futuro próximo quero ver minha filha trabalhando e realizando todos os sonhos dela. Vamos continuar batalhando para isso”, finalizou agradecida.

*O sobrenome da família síria foi omitido para preservar a identidade, assim como fotos que mostrassem a menina de frente