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sábado, junho 27, 2026
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Brasil recebe mostra de cinema relacionada à temática dos refugiados; veja programação

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Cena do filme Eu Estou com a Noiva, que faz parte da mostra Olhares Sobre o Refúgio

Mostra “Olhares sobre o Refúgio” faz parte dos eventos organizados no Brasil por conta do Dia Mundial do Refugiado; entrada é gratuita

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

Cidades brasileiras estão recebendo a mostra “Olhares sobre o Refúgio”, com produções do Brasil e de outros países focadas na questão dos refugiados. A entrada para todos os filmes é gratuita.

A programação faz parte dos eventos promovidos pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) por conta do Dia Mundial do Refugiado, lembrado anualmente em 20 de junho.

Realizada pelo ACNUR, a mostra de filmes “Olhares sobre o Refúgio” trará aos cinemas de cinco cidades diferentes perspectivas sobre a temática do refúgio.
Crédito: : Sebastian Rich/ACNUR

A mostra já passou por Curitiba (entre os dias 1 e 4 de junho), está em curso no Rio de Janeiro (começou no dia 4 e vai até dia 11) e estreia nesta quinta-feira (08) em Porto Alegre. As próximas cidades a receber o evento são Brasília (somente no dia 17) e São Paulo (de 22 a 27 de junho), fechando a programação.

Veja a programação da mostra Olhares sobre o Refúgio, por cidade

Porto Alegre:
Período: de 08 a 11 de junho, sempre às 19hs
Local: Cinemateca Paulo Amorim, Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736)

· 08/06: “Bem-Vindo ao Canadá”

· 09/06: “Estou com a Noiva”

· 10/06: “Exodus: de onde eu vim não existe mais”

· 11/06: “Era o Hotel Cambridge”

 

Rio de Janeiro:
Período: dias 06, 13, 20 e 27 de junho, sempre às 19hs
Local: Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo)

· 06/06: “Bem-Vindo ao Canadá” e “Exodus: de onde eu vim não existe mais”

· 13/06: “Era o Hotel Cambridge”

· 20/06: “Estou com a Noiva”

· 27/06: “A Casa de Lúcia”

Cena do filme Eu Estou com a Noiva, que faz parte da mostra Olhares Sobre o Refúgio

Brasília:
Período: somente em 17 de junho (a partir das 14hs)
Local: Museu da República (Setor Cultural Sul)

14hs: Abertura

· 17/06: “Bem-vindo ao Canadá” (15:30hs)

· 17/06: “Era o Hotel Cambridge” (16:30hs)

· 17/06: “Estou com a Noiva” (18:30hs)

· 17/06: “Exodus: de onde eu vim não existe mais” (20:15hs)

 

São Paulo:
Período: de 22 a 27 de junho, sempre às 19hs
Local: CineSesc (Rua Augusta, 2.075)

· 22/06: “Bem Vindo ao Canadá”

· 23/06: “Estou com a Noiva”

· 24/06: “Exodus: de onde eu vim não existe mais”

· 25/06: “A Casa de Lúcia”

· 26/06: “Terra Firme” (apenas em São Paulo)

· 27/06: “O Pacote Completo” (apenas em São Paulo)

 

Veja sinopses dos filmes em cartaz na mostra “Olhares sobre o Refúgio”

“Bem-vindo ao Canadá” (Canadá, 2016)
Curta metragem fala da história de um jovem refugiado sírio que vive naquele país e ajuda outros refugiados recém-chegados a reconstruírem suas vidas.

“Casa de Lúcia” (Brasil, 2017)
Documentário retrata a inesperada viagem de uma refugiada síria que vive no Brasil ao Kuwait, onde ela reencontra seus familiares e evidencia a dificuldade de retornar para um local ao qual já não pertence mais.

“Era o Hotel Cambridge” (Brasil, 2017)
Ficção documental dirigida por Eliane Caffé, debate os dilemas da moradia para populações vulneráveis – inclusive refugiados – nos grandes centros urbanos. Produção já foi exibida em circuito comercial no Brasil.

“Estou com a Noiva” (Itália/Palestina, 2014)
Produção ítalo-palestina dirigida por Antonio Augugliaro, Gabriele Del Grande e Khaled Soliman Al Nassiry mostra a saga de refugiados numa viagem de 3.000 quilômetros entre Milão (Itália) e Estocolmo (Suécia), tendo como pano de fundo um casamento fictício

“Exodus – De Onde Vim Não Existe Mais” (Brasil/Alemanha, 2016)
O documentário revela a história de seis pessoas refugiadas que buscam reconstruir suas vidas em desafiadoras circunstâncias, inclusive no Brasil.

Cena do filme Exodus, que faz parte da mostra Olhares Sobre o Refúgio

 

Veja lista com mais de 80 documentários e filmes relacionados direta ou indiretamente com migrações, refugiados e deslocamentos em geral

 

Sobre o Dia Mundial do Refugiado

O Dia Mundial do Refugiado é uma homenagem à resistência e perseverança de milhões de pessoas que foram forçadas a deixar seus locais de origem por causa de guerras e perseguições, buscando em outro país a proteção necessária para reconstruir suas vidas. Em todo o mundo, existem mais de 65 milhões de pessoas forçadas a se deslocar por diferentes tipos de conflitos, sendo que 21,3 milhões são reconhecidas como refugiados.

Além da mostra de cinema, as celebrações do Dia Mundial do Refugiado no Brasil terão seminários, exposições, divulgação de estatísticas globais sobre a refúgio no mundo e feiras culturais e gastronômicas – sempre com a participação de refugiados que vivem no país.

Segundo dados do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE), vivem atualmente no Brasil cerca de 10 mil pessoas reconhecidas como refugiadas, de diferentes nacionalidades, sendo a maioria proveniente da Síria, Colômbia e República Democrática do Congo.

Com informações do ACNUR

 

Conheça um dos locais responsáveis por dar assistência aos refugiados que vivem na Grécia

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Armazém em complexo abandonado após a Olimpíada de 2004 recebe doações para refugiados. Crédito: Alethea Rodrigues

Armazém que funciona desde outubro de 2015 e atende cerca de 3.000 refugiados e pessoas em situação de rua em Atenas; trabalho é feito totalmente por voluntários

Por Alethea Rodrigues*
Em Atenas (Grécia)

*O nome de alguns dos entrevistados foi alterado a pedido dos mesmos

Depois de mais de oito anos convivendo com uma catástrofe financeira, a Grécia também procura uma solução para a questão migratória. Devido à sua posição geopolítica, nos últimos dois anos ela foi usada como um ponto de passagem para milhares de pessoas que tentavam alcançar o norte da Europa, através da travessia do Mediterrâneo ou via terrestre pela Turquia, para sobreviverem à miséria, à guerra e às perseguições políticas e religiosas. Hoje, depois do fechamento das fronteiras, quase 60 mil pessoas tiveram que permanecer no país. Como são proibidos de trabalhar, praticamente todas as famílias sobrevivem de doações e moram em squads (ocupações não reconhecidas pelo governo grego) e acampamentos considerados oficiais, que recebem apoio do exército da Grécia e são monitorados pelo ACNUR, a agência da ONU para refugiados.

A maioria das doações chegam semanalmente através de contêineres de países europeus, principalmente da Espanha. Tudo que é recebido fica estocado em um espaço cedido pelo governo. Esse chamado Armazém, faz parte do Campo de Elliniko, em Atenas, um complexo que reúne um antigo aeroporto e dois estádios abandonados que foram palcos de jogos das Olimpíadas de 2004 – e que hoje também abrigam imigrantes.

Armazém em complexo abandonado após a Olimpíada de 2004 recebe doações para refugiados.
Crédito: Alethea Rodrigues

Para contar como todo esse trabalho começou, conversamos com a coordenadora e voluntária do Armazém, Negia Milián. Ela é cubana, mas vive na Grécia há trinta anos. Tem 67 anos, é aposentada, mas deixou de lado o cansaço de todos esses anos trabalhados para se dedicar integralmente ao trabalho com refugiados, que começou agosto de 2015, quando os imigrantes começaram a chegar no país.

“Centenas de famílias chegavam em Atenas todos os dias, no porto de Pireus. O povo grego se desesperou com aquela situação, pessoas machucadas, somente com a roupa do corpo, muitos dias sem comer e começou a ajudar. Uma amiga que já estava ajudando me convidou a participar do trabalho e a partir daí nunca mais parei. Sou refugiada. Com 11 anos minha mãe me mandou pra Miami e depois vivi boa parte da minha vida escondida em Porto Rico. Minha família sofreu perseguição após a Revolução Cubana. Sei muito bem o que eles sentem”, desabafou a coordenadora.

Negia Milián, de Cuba, é a coordenadora do Armazém.
Crédito: Alethea Rodrigues

Negia conta que devido à repercussão do que estava acontecendo na Grécia, outros países europeus iniciaram uma arrecadação de doações e enviavam através de contêineres. Voluntários de todas as partes do mundo também se sensibilizaram e viajaram para colaborar. Foi a partir daí que ela, juntamente com outros colegas, abriram a associação Pan Piraeus Initiative to Support Refugees and Migrants para receber os donativos e distribuir entre as famílias que não paravam de chegar. “Recebíamos tanta coisa que não tínhamos mais onde colocar. Em outubro de 2015, conseguimos que o governo cedesse um salinha do prédio que chamamos de Armazém e fomos estocando tudo lá”. Conforme as semanas foram passando, apenas uma sala não já não era suficiente e o governo cedeu mais um espaço do edifício que é o local onde trabalham até hoje.

O armazém recebe voluntários de todos os continentes e tem uma parceria com a ONG espanhola SOS Refugiados, que indica voluntários e é responsável por arrecadar doações em cidades da Espanha que são enviadas a Grécia e estocadas no local. Segundo Negia, desde que o trabalho começou, já foram recebidos 70 contêineres somente desse país.

Armazém concentra doações que chegam para os refugiados na Grécia.
Crédito: Alethea Rodrigues

O trabalho dos voluntários é realizado cinco dias por semana, cerca de sete horas por dia. Eles recebem os produtos e fazem uma triagem rigorosa de tudo que chega. São roupas, calçados, roupas de cama, fraldas, brinquedos e produtos de higiene. As tarefas são bem divididas e consistem em separar tamanhos, avaliar se realmente há condições de uso, retirar alimentos fora do prazo de validade, encaixotar, organizar e separar os produtos que são enviados aos 12 squads cadastrados, famílias que já conseguiram alugar um local para morar, mas ainda passam dificuldades e alguns moradores de rua tanto imigrantes, quanto os nativos.

Negia confessa que a parte mais complicada do trabalho é a distribuição. Os coordenadores dos locais cadastrados enviam listas do que as famílias necessitam e é necessário um controle rigoroso do que sai do Armazém. Hoje são cerca de 3.000 refugiados assistidos. “Temos que checar quantas famílias são, se o que estão solicitando é o ideal para essas pessoas consumirem, se há desperdício, se tudo está sendo repartido igualmente entre eles. É algo muito mais complexo do que parece. Já tivemos até problemas com algumas pessoas que venderam as doações para conseguirem algum dinheiro”.

Vans fazem o transporte das doações às pessoas atendidas pelo armazém.
Crédito: Alethea Rodrigues

Há outros problemas que o armazém enfrenta. A distribuição acarreta gastos com gasolina e manutenção das vans. “Tudo que conseguimos é através de doações e nem sempre elas chegam. Não temos nenhum apoio financeiro do governo”, conta a coordenadora. Além disso, ela afirma muitas vezes durante a conversa a importância dos voluntários. Nem sempre há pessoas suficiente para trabalhar. “Não temos voluntários fixos. Algumas semanas temos muitos, outros não temos quase ninguém. É complicado porque sem eles não podemos desenvolver nosso trabalho”.

O francês Olivier* vive em Atenas há onze meses e trabalha como voluntário no Armazém. Foi para a Grécia com o intuito de conhecer melhor a religião ortodoxa, principal crença no país, e talvez se tornar monge. Mas, conheceu o trabalho através de um colega espanhol, mudou seus planos e abraçou a causa. Aos 32 anos, conta com a ajuda dos pais para se manter no país. “Eles apoiam a minha escolha de vida. Me sinto bem aqui. Como não tenho muito jeito para desenvolver um trabalho com crianças, resolvi ajudar os voluntários no Armazém, que considero tão importante quanto. Temos que fazer o que gostamos para que o serviço saia bem feito”, contou.

O francês não sabe quanto tempo permanecerá em Atenas, mas pretende continuar como voluntário até o último dia. “Talvez mude de área. Tenho interesse em participar da distribuição de alimentos e roupas para imigrantes e gregos que vivem nas ruas. Tenho vários projetos aqui, estou até estudando grego duas vezes na semana”.

Quanto ao futuro do Armazém, Negia afirma que enquanto as doações existirem o trabalho vai continuar. “Infelizmente, o problema dessas famílias está longe de ser resolvido. Não está fácil se legalizar na Grécia. Seria ideal para que eles pudessem tentar recomeçar suas vidas. Vamos continuar fazendo a nossa parte, sempre com a esperança de dias melhores”.

No final da entrevista, a coordenadora surpreendeu com a notícia que o complexo de Elleniko foi vendido e o armazém será desativado nesta semana. O próximo desafio será conseguir um novo prédio.

*A colaboradora Alethea Rodrigues trabalhou por três semanas no Armazém

Curso em São Paulo leva público às comunidades e espaços balcânicos na cidade

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Oficina Comunidades e Espaços Balcânicos em São Paulo, realizado pelo SESC São Paulo. Crédito: Glória Branco

SESC São Paulo promove oficinas sobre história e expressões culturais de países como Sérvia, Croácia e Bulgária

Por Glória Branco
De São Paulo (SP)

Começou com música e dança as oficinas “Comunidades e Espaços Balcânicos em São Paulo”, realizado pelo Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo. No primeiro dia, em 05 de junho, os participantes mergulharam no mundo das Canções Étnicas Croatas e aprenderam sobre as raízes dos ritmos peculiares da região, originárias dos ritmos bizantino, grego e otomano.

Com palestra da cantora e diretora musical do Grupo Mawaca, Magda Dourado Pucci, foram citados nomes da cena musical da península balcânica como Esma Redzepova, grande rainha da música dos Bálcãs falecida em dezembro de 2016, o compositor Krasimir Kyurkchiiski e o grupo musical cigano Taraf de Haidouks, que tiveram grande expressão mundial nos anos 80, principalmente na Europa.

Vindo da Bulgária, um jeito especial de cantar com sonoridade mais gutural e diafônica, harmonias dissonantes e eterofônia também ganhou o coração do continente nas vozes de mulheres camponesas conhecidas como O Mistério das Vozes Búlgaras. Originalmente, foi criado como Coro Vocal Feminino da rádio e televisão estatais do país em 1952, por Philip Koutev. Em 1986 e 1988, o selo alternativo inglês 4AD lançou coletâneas já sob o nome que marcou o timbre inequívoco pelo mundo todo.

Oficina Comunidades e Espaços Balcânicos em São Paulo, realizado pelo SESC São Paulo.
Crédito: Glória Branco

Nos anos 90, os Balcãs ganharam destaque também no cinema com o filme Time of The Gypsies (Vida Cigana), do premiado Emir Kusturica, cineasta e músico sérvio, e com trilha sonora de Góran Bregovich, músico e compositor sérvio-bósnio que se destacou por modernizar a música tradicional sérvia com ritmos pop. Ederlezi, uma canção em homenagem a chegada da Primavera e ao dia de São Jorge, foi adaptada e ganhou novo arranjo pelas mãos de Góran, eternizando uma das cenas icônicas do filme.

Recentemente, grupos de músicos jovens, DJ’s, instrumentistas ligados ao rock e a música eletrônica começaram a usar elementos da música balcânica na composição de suas canções. Os principais exemplos do estilo são os Balcan Beat Box, Beirut e Gogol Bordello. Grupos pop que chamam a atenção do público e que, muitas vezes, tem o papel de despertar o interesse para conhecer outros gêneros e artistas da música balcânica.

No Brasil existe um grande movimento de grupos ligados à musica étnica balcânica, como: o já citado Mawaca, que canta canções em mais de 20 línguas; o Grupo Mutrib, gipsy band voltado para o repertório dos Bálcãs e do Mediterrâneo Oriental e que tem em sua formação alguns integrantes do Mawaca como Gabriel Levy; o Grand Bazaar, grupo que faz um passeio pela música dos Bálcãs, Leste Europeu, cigana, entre outras; e a Orkestra Bandida, ligado à Fundação Tarab.

Na dança também existem grupos atuantes no Brasil, encabeçados por Betty Gervitz e Mariana Paunova que trabalham com esse repertório há muito tempo. Em 2013, organizado pela Betty aconteceu um festival de danças e músicas dos Bálcãs que trouxe ao país vários artistas da região para ministrar oficinas e apresentações musicais. Mariana é búlgara e produz muitas oficinas de danças do Leste Europeu pelo Brasil.

Depois foi a vez da cantora da Istria, Elis Lovric palestrar sobre a história e a cultura do lugar e suas relações com o passado e com o presente, por meio do uso de dialetos regionais. A Istria é dividida entre três países (Croácia, Eslovênia e Itália), incrustada no mar Adriático, e tem a maior parte de seu território na Croácia. Elis chegou aos Brasil para algumas apresentações e premiará o público de São Paulo com seu último show, nesta quarta-feira (07), na Praça Benedito Calixto a partir das 20h.

A cantora Elis Lovric em apresentação durante oficina no SESC São Paulo.
Crédito: Glória Branco

A oficina terminou com todos os participantes dançando um Horo Kolo, uma coreografia especifica das danças em rodas tradicionais da península balcânica.

A próxima aula será no dia 07 de junho e contará um pouco da história, arte e cultura da Sérvia. As atividades se estendem até o dia 19 e devem incluir visitas à sede da SADA (Sociedade Amigos da Dalmácia), que promove a cultura croata, e uma apresentação sobre a Feira Temática do Leste Europeu, que acontece mensalmente na região da Vila Prudente. A programação completa pode ser vista neste link.

Central America lives a “human catastrophe of maximum level”, UNCHR says

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Crianças de países centro-americanos brincam em centro de apoio do ACNUR no México. Violência na região tem aumentado o número de refugiados, mas crise segue ignorada. Crédito ACNUR

Gang violence in Guatemala, El Salvador and Honduras caused 175,000 people to flee over the last five years. The majority being women and children. To MigraMundo, the UNCHR in Mexico said that the crisis hits “level 10”

By Victória Brotto
From Italy
Portuguese version: click here

Why so many migrant niños? , asks Irma Deras a Savadoran grandmother to three, one of whom was murdered a few metres from her house by the Maras. Maras is the name of the gangs in Honduras, El Salvador and Guatemala. And the murders, kindnappings and rapes committed by them are the reason why, in the last five year, 175,000 people – majority of women and children – ran from the so-called Northern Triangle of Central America (NTCA) to countries as Mexico and United States.  

This number, according to United Nations, has increased ten-fold between 2011 and 2016.  “The number of people fleeing violence in these countries has rise to unprecedented levels”, said to MigraMundo  by Francesca Fontanini, Public Information Officer of UN Refugee Agency (UNCHR) in Mexico.

“Bang, bang, bang.I knew that it was my boy”, tells Deras putting her arms up in the air, with anger.  With her grandson’s body in her arms, she shouted to the drug dealers: “God will judge you by what you have done to my niño”. Deras’s niño  was not a member of the gang, so they murdered him.

The gangs’targets are mainly women and children. Children because they, by the law, cannot be put into prison and women because first they use them as “girlfriend”, which means they sexually abuse them and then kill them after.  According to UNCHR figures, more than 66,000 unaccompanied children sought asylum in the US in 2014. In Mexico, in one year (2015-2016), the number of child asylum-seekers without parents increased 65% – in three years, 2013-2016, the growth was more than 416%.

According to the Children on the Run research, in 2014, as many as 48.6% of the children in Mexico displaced from NTCA countries cited criminal and gender-related violence as the leading cause for their displacement.

Maria snaps her fingers as she speaks of her sister Isabel. Isabel disappeared when Maria was only 6 – and she was never seen again. “We are sure that it was the Maras”, says the girl, who fled from El Salvador to Mexico with her family. “My mother was so sad for Isabel that Melody, her unborn child, was born premature, she was the size of a bird and we all were afraid she would die.” Maria’s mother “never gave up” on Isabel. She has been looking for her for three years, but we know that she will never come back”, told the girl to one of the UNCHR’s team.

Not only are their children persecuted, tortured, kidnapped and abused, but the parents also are obligated by the Maras to pay  “war taxes”. In Honduras, Priscilla’s neighbour refused to pay. Days after, she was found dead with her five children. According to the Crimes and Drugs UN Office, the percentage of murders in Honduras is the highest in the world with 90.4 murders per 100,000 people.

“On a 1-10 scale, what is the level of the human catastrophe in these NTCA countries?”, MigraMundo asked Francesca Fontanini, UNHCR’s officer. “Ten”, she stated.

But despite the maximum level of this catastrophe, tens of thousands of women and children are fleeing and are in danger for their lives, Fontanini says that this “unfolding disaster in Central America has failed to attract anything like the global attention given to the refugee crisis in Europe” The UN calls the NTCA situation a “silent and ignored crisis”.

“Closing borders and imposing restrictions only leads to more complicated and dangerous migration routes, increasing the risk for many being kidnapped, trafficked, raped, or killed”, Fontanini adds.

INTERNATIONAL COOPERATION

The brutal violence and the number of refugees coming from NCTA countries caught the former north American president Barack Obama’s attention. In June 14, he called the situation a “humanitarian crisis”.

On 4th August 15,  the San Jose Action Statement was signed by Canada, US, Mexico, Belize, Costa Rica and Panama – the destination countries of those refugees from NTCA. The Statement talked about improvement of the local asylum system and regional cooperation.

In 2017, the scenario changed with the new American president, Donald Trump. According to the newspaper The Guardian, Trump’s administration has cut the annual number of refugees by half, from 110, 000 to 50,000. “Entering the US as a refugee is the most difficult way oBut despite the maximum level of this catastrophe, tens of thousands of women and children are fleeing and are in danger for their lives, Fontanini says that this “unfolding disaster in Central America has failed to attract anything like the global attention given to the refugee crisis in Europe” The UN calls the NTCA situation a “silent and ignored crisis”.

“Closing borders and imposing restrictions only leads to more complicated and dangerous migration routes, increasing the risk for many being kidnapped, trafficked, raped, or killed”, Fontanini adds.

f entering the country – the process can take up to 36 months and [already] involves screenings from 12 to 15 agencies including the Department of Homeland Security, the Department of Defense and CIA,” said Jennifer Sime, head of US programmes at the International Rescue Committee, which helps resettle refugees.

Another country that has seen the scenario being changed was Mexico. Before, Mexico was a country where the refugees just pass to reach the US, but now, Mexico has turned their final destination. According to UNCHR statistics, the number of children and women seeking international protection in Mexican territory has been exponentially growing. Between 2011 and 2016, the number of asylum-seekers has grown 1050%. Now, according to Fontanini, they expect more people in Mexico. “UNHCR estimates that by the end of 2017, nearly 20,000 people will apply for refugee status in Mexico, based on the current trend of a 8.3% monthly increase in asylum-seekers in Mexico since January 2015.”

COYOTES, PRISONS AND DEPORTATIONS

After having fled from deadly violence, these refugees still have faced the struggle to find money to pay the coyotes and also to survive the border crossing. Ivan had “many children”, three of whom were murdered by the local gangs. “Do you want to hear my story? Unfortunately, it is a good one”, he says, ironically. One of his children, the eldest, was murdered after finishing his night shift. The another one received a call asking him to get out the house otherwise all the family would be killed. He went outside and was shoot. “He had said the he would come back soon”, say Ivan, in tears. Another son was run over by a truck. “The police said it was an accident, but I know it was the Maras.” The three sons of Ivan refused to be part of the gang, then they too were murdered.

After all this tragedy, he and his Family needed to face journey from Guatemala to Mexico – “we do not want the other to be killed.” On the way to Mexico City, they were robbed. So they only had money to get them in Tapachula, a city on the border of Mexico. There, they were thrown into prison.  “The prison time was a torture for us, because we were fleeing from the Maras and now we were in their territory. They could easily find us.”

The situation of refugees being put into prison is a number which hits in the thousands. According to UN, 214,000 refugees were put into prison in Mexico and the US and then sent back to their countries in 2016.

“After surviving perilous and traumatic journeys to finally reach a safe country, refugees and asylum seekers must find a welcoming environment in which their rights are respected, and aid to meet their basic needs”, states Fontanini.  All governments in the region and beyond must keep their borders open, to ensure access to safety for people in need of international protection, and provide open asylum systems and livelihood initiatives for asylum seekers and refugees.”

Maria also lives in Mexico and goes to a centre which supports refugee children. She likes drawing in her notebook that she brought from El Salvador – one of the few things that she took from her home. The girl, now 14 years of age, dreams to live in Japan,  study graphic drawing and be an architect. About the serious business of life, Maria wants an aquarium and to collect blue crabs.

Migrações ambientais, uma consequência das mudanças e desastres naturais

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Refugiados somalis seguem em direção à fronteira com o Quênia. É lícito relacionar a temática da preservação do meio ambiente com a causa da migração. Crédito: OIM

Nos últimos anos, milhões de pessoas foram deslocadas por desastres ambientais, muitos relacionados diretamente com as crescentes mudanças climáticas

Por Bruna Cristina
De São Paulo (SP)

De acordo com dados do artigo publicado na nova edição do Boletim Desafios da CEPAL em parceria com o UNICEF, entre 2005 e 2015 ocorreram 380 desastres naturais no mundo, a região da Ásia foi a mais afetada (44,4%), seguida pelas Américas (25,5%), África (16,5%), Europa (7,2%) e Oceania (6,4%).

Além dos diversos problemas econômicos ocasionados com a ocorrência de desastre ambientais e mudanças climáticas, em muitas regiões do mundo a situação se torna tão extrema que as pessoas são obrigadas a deixar suas casas para se deslocar à procura de um novo lar, seja internamente no país ou cruzando fronteiras.

Este cenário se torna cada vez mais frequente no âmbito mundial porque as populações se tornam as principais vítimas das alterações climáticas.

O relatório do IDMC (Internal Displacement Monitoring Cetre) apresenta que as principais causas de deslocamentos são por conflitos, violência e desastres e no ano de 2016, 31,1 milhões de pessoas se deslocaram – o equivalente a uma pessoa forçada a fugir a cada segundo. Desse total, 24,4 milhões foram por desastres, casos que não se restringem somente aos países insulares, mas em diversas regiões do mundo, principalmente na Ásia.

Por inundações ou seca, milhões de pessoas mundo afora são obrigadas a se deslocarem por conta das mudanças climáticas.
Crédito: OIM

As complicações enfrentadas pelos migrantes por razões ambientais, vão além das dificuldades de abandonar suas casas. Há desconhecimento sobre o termo adequado para designar essas pessoas que em muitos casos, são usados termos distintos como, refugiados ambientais.

Não há um consenso conceitual para designar os indivíduos que se deslocam por motivos ambientais. A expressão “refugiado ambiental” não é reconhecida pelo direito internacional. Àqueles que se manifestam contrariamente, argumentam que o termo “refugiado ambiental” poderia gerar confusão com relação aos refugiados denominados como tal pela Convenção Relativa ao Estatuto do Refugiado de 1951.

“O termo ‘refugiado”’ teria uma maior carga simbólica, chamaria atenção dos governos e da mídia para a necessidade de proteção dessa categoria de pessoas”, afirma Lilian Yamamoto, pesquisadora da Rede Sul-Americana para as Migrações Ambientais (RESAMA). Mas o termo ‘’migrante ambiental’’ ainda seria o mais adequado por evitar possíveis confusões, segundo ela.

É grande a insuficiência em designar essas pessoas a uma determinada categoria, uma vez que a Convenção das Nações Unidas para Refugiados não considera estes migrantes por razões ambientais como refugiados. Sem reconhecimento, as vítimas de deslocamentos resultantes de mudanças e catástrofes ambientais não tem marco legal que os ampare fazendo com que haja um vazio jurídico que prejudica diretamente essas pessoas.  ‘’(…) há uma carência de pesquisas empíricas que comprovem de maneira precisa o nexo causal entre os desastres ambientais, mudança climática e mobilidade humana’’ e o desconhecimento sobre essa relação dificulta os procedimentos para que essas pessoas tenham seus direitos garantidos no lugar para onde se descolocaram.

‘‘A maior parte da pesquisa na área é realizada no âmbito normativo, desenvolvida a partir da argumentação na ótica de direitos humanos. Ou seja, a de criar um novo instrumento global para essa categoria de pessoas, uma visão de multiplicação de direitos. Quando se trata de desastres repentinos, como os terremotos e ciclones não há dúvidas sobre os motivos de deslocamentos, mas comprovações empíricas teriam um peso maior no caso da desertificação do solo ou elevação do nível do mar uma vez que são processos de degradação do ambiente, que ocorrem geralmente de maneira silenciosa’’, explicou Lilian.

O relatório do IDMC aponta que os novos deslocamentos associados a desastres ambientais superaram os de conflitos e violência. Desde de 2008 em média 25,3 milhões de pessoas se deslocaram por motivos ambientais.

Os dados apresentados no relatório se referem a ‘‘um aparecimento brusco hidrometeorológico e climatológico; perigos como inundações, tempestades, incêndios florestais e condições extremas de inverno e geofísico perigos como terremotos, erupções vulcânicas e deslizamentos de terra. Eles não incluem deslocamentos associado a desastres de início lento, tais como a seca e degradação ambiental.’’

Vulnerabilidade de países pobres

Os países mais pobres são os mais vulneráveis com a ocorrência de desastres ambientais, o relatório do IDMC aponta que ‘‘A maioria dos novos deslocamentos em 2016 ocorreu em ambientes de alto risco caracterizados por baixa capacidade de enfrentamento, altos níveis de vulnerabilidade socioeconômica e alta exposição a riscos naturais e humanos’’

Apesar da Ásia ser o continente mais afetado por desastres ambientais, na África a pobreza extrema tem aumentado as consequências das catástrofes e mudanças climáticas. A região conhecida como ‘‘Chifre da África’’ é a que mais sofre em decorrências da seca.

De acordo com dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), mais de 75 mil pessoas foram deslocadas direta ou indiretamente em relação à seca na Somália no mês de abril de 2017, das quais grande parte foram para cidades de Baidoa e Mogadíscio – no total, entre novembro de 2016 e abril de 2017, 615 mil pessoas se deslocaram em decorrência e em relação à seca.

Refugiados somalis seguem em direção à fronteira com o Quênia.
Crédito OIM

A região da América Latina e Caribe também é fortemente afetada. As inundações ocorridas no Peru este ano deslocaram 151 mil pessoas e destruíram centenas de casas, obrigando a população a procurar abrigos em outras regiões do país.

Medidas que contribuem para soluções

Segundo Lilian Yamamoto, diante da ausência de um instrumento global que proteja a categoria, há convenções e declarações regionais que preveem a proteção dos migrantes ambientais. “Alguns exemplos são a Convenção da União Africana para a Proteção e a Assistência de Deslocados Internos na África e as Declarações na região do Pacifico. Estas mencionam o deslocamento climático, apesar de não oferecerem propostas concretas que viabilizem a proteção dos indivíduos afetados pelas mudanças climáticas.’’

Além disso, Lilian conta que em 2015 foi criada a Agenda para a Proteção para Pessoas Deslocadas através de Fronteiras no Contexto de Desastres e Mudança Climática, endossado por 109 países e oferecendo ‘‘ (…) ferramentas aos Estados para que possam se preparar para os deslocamentos antes da ocorrência de desastres, e também responder às situações em que as pessoas são forçadas a procurar abrigo.’’  As recomendações dessa Agenda de Proteção foram criadas pela Plataforma sobre Deslocamentos por Desastres, em 2016, abordando as necessidades de proteção de deslocamento transfronteiriço de pessoas no contexto de desastres e mudança climática. A RESAMA faz parte do Comitê Consultivo dessa Plataforma, oferecendo expertise em migrações ambientais na América do Sul.’’

No contexto atual onde as mudanças climáticas e desastres ambientais aumentam ocasionando em consequências sérias as populações. O reconhecimento acadêmico do tema é fundamental para gerar conhecimento e convicção sobre sua importância no meio científico.

“Nesse sentido, é importante ouvir as comunidades afetadas sobre suas dificuldades, necessidades e capacidades para que elas possam colaborar na geração de informação de qualidade e, futuramente, nos processos de participação e tomada de decisão, e também, a sensibilização de atores relevantes como as organizações internacionais, regionais e subregionais, governos nacionais e locais, ONGs e sociedade civil organizada, inclusive das comunidades afetadas que muitas vezes não se reconhecem como titulares de direitos, bem como a participação desses atores nas consultas públicas que visam a construção de normas, políticas e planos relacionados ao tema.  A RESAMA vem trabalhando com essas ferramentas, contribuindo para a construção de um sistema de proteção integral e adequado para essa categoria de pessoas.’’ conta Lilian.

No site da RESAMA estão disponíveis publicações e informações importantes sobre o tema das migrações ambientais, além conhecer sobre a iniciativa e sua atuação que se torna cada vez mais necessária para proteção de pessoas e comunidades afetadas ao redor do mundo pelas mudanças e desastres ambientais.

 

Em crise ignorada, número de pessoas fugindo de gangues na América Central aumenta quase dez vezes em cinco anos

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Crianças de países centro-americanos brincam em centro de apoio do ACNUR no México. Violência na região tem aumentado o número de refugiados, mas crise segue ignorada. Crédito ACNUR

Violência de gangues na Guatemala, El Salvador e Honduras colocou 175 mil pessoas em fuga entre 2011 e 2016, sendo maioria de mulheres e crianças; para ACNUR, situação é limite

Por Victória Brotto
Na Itália
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“Por que tanto niño migrante?” , pergunta, gritando, a salvadorenha Irma Deras. Avó de três meninos, um deles foi assassinado a poucos metros de sua casa por um dos maras – nome dado às gangues em Honduras, El Salvador e Guatemala. E é pelos assassinatos, sequestros, torturas e estupros cometidos por eles que, nos últimos cinco anos, 175 mil pessoas – maioria mulheres e crianças – fugiram do chamado Triângulo Norte da América Central (NTCA, sigla em inglês) para países como México e Estados Unidos.

Esse número, segundo as Nações Unidas, aumentou quase dez vezes nos últimos cinco anos. “O número de pessoas fugindo da violência nesses países cresceu a níveis sem precedentes”, disse ao MigraMundo Francesca Fontanini, oficial do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) no México. “Essa é uma situação de refúgio, não apenas um fenômeno migratório”, acrescentou.

Bang, bang, bang. E eu sabia que era o meu menino”, conta Deras empunhando os braços para cima. Com o corpo do neto nos braços, ela gritou aos traficantes: “Deus vai julgar vocês pelo que fizeram ao meu niño”. O niño de dona Deras não aceitou fazer parte dos maras, por isso o mataram.

Os alvos dessas gangues são principalmente crianças e mulheres: crianças porque não podem ser presas por tráfico de drogas; e mulheres para serem suas “namoradas” – uma vez capturadas, elas são violentadas e mortas.  De acordo com dados do ACNUR, foram 66 mil crianças desacompanhadas a requerer asilo nos Estados Unidos em 2014. No México, em um ano (2015 para 2016) o número de pedidos de asilo por parte crianças sem os pais aumentou 65% – já em três, de 2013 a 2016, o aumento foi de 416%. De acordo com a pesquisa Crianças em Fuga (Children on the Run, em inglês), feita pelo ACNUR em 2014, 48.6% das crianças requerentes de refúgio no México alegaram intimidação, ameaças e abuso sexual como causas de terem deixado seu país.

Crianças de países centro-americanos brincam em centro de apoio do ACNUR no México. Violência na região tem aumentado o número de refugiados, mas crise segue ignorada.
Crédito ACNUR

Maria estala os dedos ao falar de sua irmã, Isabel, que desapareceu quando Maria tinha 6 anos – e nunca mais a encontraram. “Temos certeza de que foram os maras”, diz a menina, que fugiu de El Salvador para o México com sua família. “A minha mãe estava tão triste pela Isabel que Melody nasceu prematura, ela tinha o tamanho de um pássaro e nós tínhamos medo que morresse.” A mãe de Maria, segundo ela, “nunca desistiu de Isabel”.  “A minha mãe nunca desistiu de Isabel. Ela procurou por ela durante três anos, mas nós sabíamos que ela nunca voltaria”, disse a menina a uma das equipes do ACNUR.

Além de terem filhos e filhas violentados, perseguidos, torturados ou capturados, os pais se veem obrigados a pagar os altíssimos “impostos de guerra”. Em Honduras, a vizinha de Priscila não pagou. Dias depois foi encontrada morta junto com seus cinco filhos.  De acordo com o Escritório da ONU para Crimes e Drogas, o percentual de assassinatos em Honduras é o maior do mundo, com 90.4 homicídios para cada 100 mil.

“De uma escala de 1 a 10, qual o nível da catástrofe humana nesses países?”, perguntou a reportagem à Francesca Fontanini, do ACNUR no México. “Dez”, ela responde. Mas apesar do nível máximo de catástrofe, com dezenas de milhares de mulheres e crianças em fuga e em perigo de vida,  Francesca diz que “tal situação não conseguiu atrair tanta atenção quanto a dada à crise de refugiados na Europa”.  Em nota, a ONU chama a situação na América Central de “crise silenciosa e ignorada.”

“Fechar fronteiras e impor restrições apenas complicam mais a situação e produzem rotas ainda mais perigosas para esses migrantes.  O risco de serem sequestrados, traficados, estuprados ou mortos aumenta”, complementa Francesca.

Cooperação internacional

A brutalidade da violência e dos números  de refugiados vindos dos países do NCTA  chegaram aos ouvidos do ex-presidente norte-americano, Barack Obama. Em junho de 2014, ele foi à televisão chamar a atenção dos americanos para a “situação de crise humanitária” na região.

Em 4 de Agosto de 2015, foi assinado o Acordo de São José, onde os países-destino desses migrantes, tais como Canadá, EUA, México, Belize, Costa Rica e Panamá, se comprometiam a combater a violência nos países da NTCA, a melhorar seus programas de asilo e refúgio tanto nos países de trânsito como nos de destino e a promover cooperação regional.

Mas, em 2017, o cenário mudou após a eleição de Donald Trump nos EUA. De acordo com o jornal The Guardian, o governo Trump cortou pela metade o número de refugiados a serem aceitos por ano pelos EUA, de 110 mil para 50 mil. “Entrar nos EUA como refugiado é o meio mais difícil de entrar nesse país – o processo pode levar até 36 meses e já incluí uma passagem para checagem por 12 a 15 agências de segurança, incluindo Departamento de Segurança Interna, Departamento de Defesa e CIA”, diz Jennifer Sime, diretora do programa norte-americano do Comitê Internacional de Socorro, que ajuda no reassentamento de refugiados.

Com uma mudança de cenário, o México passou a não ser mais país de trânsito, mas sim de destino. Segundo dados do ACNUR, o número de crianças e famílias em busca de proteção internacional no México já vinha crescendo exponencialmente. Entre 2011 e 2016, o número de requerentes de refúgio e asilo cresceu 1050%. “O ACNUR prevê que mais 20 mil pessoas pedirão asilo no México, com base no percentual de 8,3% de aumento que temos por mês no número de requerentes de asilo que temos desde janeiro de 2015.”, aponta Francesca.

Coiotes, prisões e deportações

Depois de terem fugido de violências de morte, esses refugiados ainda precisam ter dinheiro para pagar os coiotes e sobreviver à travessia de fronteiras cada vez mais fechadas. Ivan tinha “muitos filhos”, três foram assassinados pelo MS e o Mara 19 (gangues locais). “Você quer ouvir a minha história? Infelizmente, é uma das boas”, diz ele.  O seu filho mais velho foi assassinado com dez tiros ao sair às 06h30 do trabalho depois do turno da noite em uma fábrica de papel. O outro filho recebeu uma ligação ao chegar em casa, pediram que ele saísse de casa se não todos seriam mortos. Ele saiu e foi assassinado. “Ele disse que voltava logo”, disse Ivan, arrasado. O outro filho de Ivan foi atropelado pelos maras. Os três foram mortos depois de recusarem ingressar nas gangues locais.

Ivan e sua família fugiram da Guatemala depois de três dos filhos mais velhos terem sido assassinados por se recusarem a fazer parte das maras, como são chamadas as gangues no país.
Crédito: ACNUR

Depois disso, ele e a família deixaram tudo o que tinham – “para que não matassem nossos outros filhos” – e enfrentaram outra tragédia, a travessia até o México.  No caminho para a Cidade do México, eles foram roubados e só conseguiram chegar até Tapachula, cidade fronteiriça da Guatemala com o México. Ao chegarem ao México, foram presos, ele e a família toda. “O período em que ficamos detidos foi uma tortura”, conta Ivan. “Nós que estávamos fugindo dos maras agora estávamos num território onde eles mais poderiam estar, na prisão”.

As situações de prisões de refugiados atingiu a casa das centenas de milhares. De acordo com o ACNUR, 214 mil refugiados foram presos no México e EUA e mandados de volta em 2016. No mesmo ano, 34 mil crianças desacompanhadas foram deportadas.  “Depois de sobreviverem a situações traumáticas e a viagens perigosas, ao finalmente chegar a um país seguro, os refugiados precisam encontrar um ambiente acolhedor onde os seus direitos são respeitados e onde ele terá ajuda em suas necessidades básicas”, defende Fontanini, complementando. “Todos os governos da região devem manter suas fronteiras abertas para assegurar a essas pessoas um acesso seguro.”

Ivan e sua família foram encontrados pelo ACNUR e hoje vivem em um quarto de hotel no México, onde aguardam a resposta a seus pedidos de proteção internacional.

Maria, 14, tinha apenas 6 anos quando sua irmã mais velha Isabela desapareceu. Agora no México, ela sonha com dias melhores.
Crédito: ACNUR

Maria, que estala os dedos ao lembrar de sua irmã Isabel desaparecida, hoje vive também no México e frequenta um centro de apoio à criança na região. Ela gosta de desenhar no caderno que trouxe de El Salvador – um dos poucos pertences que salvou em sua fuga desesperada.  A menina, com 14 anos agora,  sonha em viver no Japão, se formar em desenho gráfico e ser arquiteta.  Sobre os assuntos mais sérios,  Maria diz querer ter um aquário e colecionar caranguejos azuis.

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Documentário “Residente” derruba muros com viagem por regiões, povos e ritmos

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Produção dirigida e protagonizada por ex-integrante do grupo Calle 13 destaca diversidade de origens que formam parte de nós

Por Maria Villarreal
Coluna Fronteira Aberta
Do Rio de Janeiro (RJ)

“Sou residente. Decidi fazer música baseada no meu DNA. Viajei a diferentes partes do mundo recolhendo sons e encontrando histórias. Todos somos residentes do espaço que ocupamos e, no nosso espaço, as fronteiras não existem”.  Assim começa a descrição oficial do documentário “Residente” que descreve a travessia introspetiva de dois anos de René Pérez Joglar, mais conhecido no meio artístico como “residente”, ao redor de 4 continentes, 10 países e 13 regiões. Seu intuito: conhecer os próprios ancestrais, um pouco mais de si mesmo e de fazer música a partir da diversidade de ritmos e expressões artísticas.

Na heterogeneidade de imagens, sons e formas de vida mostradas no projeto, o fio condutor é a música de cada destino, livre e capaz de romper as barreiras culturais ou linguísticas. Assim, o documentário parte da mistura, realiza misturas e mostra misturas, evidenciando pontos em comum, mas também divergências e não apenas entre Oriente e Ocidente.

O documentário, gravado ao longo de dois anos, foi apresentado recentemente no Festival South by Southwest (SXSW) em Texas (EUA) e em diversas universidades estadunidenses, europeias e latino-americanas e, em breve, estará disponível gratuitamente na sua página oficial, em vários circuitos alternativos e em diversas plataformas online como iTunes e Netflix. Contudo, o documentário forma parte de um projeto mais amplo que prevê a construção de um site para descrever a experiência e diversas iniciativas sociais, a gravação de um disco (que pode ser escutado aqui) e a publicação de um livro que será lançado no final de 2017.

O rapper René Pérez Joglar, mais conhecido como “Residente”.
Crédito: Reprodução/Instagram

Protagonista e diretor do documentário, René é também um rapper, compositor e produtor porto-riquenho nascido na cidade de San Juan em 1978. Ex integrante do Grupo Calle 13, com o qual ganhou 25 prêmios Grammy, René é conhecido no meio artístico pela produção de letras musicais de denúncia e forte conteúdo social e político. No Brasil, a canção provavelmente mais conhecida é “Latinoamérica”, fruto de uma longa viagem que levou os integrantes do grupo por diversos países latino-americanos e que foi registrada no documentário “Sin Mapa”.

Seguindo alguns dos princípios dos seus trabalhos anteriores, mas querendo ir além destes, o documentário “Residente” sai das origens regionais com o intuito de encontrar alguns dos elementos que nos fazem simplesmente humanos e, portanto, membros da mesma espécie. Nas palavras do diretor e protagonista, o trabalho é uma forma de dizer que: “Formamos parte de um mesmo mapa, de um grande momento e que, dentro dos grandes momentos, todos somos igualmente pequenos”.

Indo além da experiência concreta do cantautor, o documentário é um convite a descoberta da diversidade que habita em nós e constitui um antídoto ideal perante as reivindicações atuais sobre a “pureza de sangue”, identidades únicas e de barreiras não só físicas, mas também mentais.

Com informações de El Tiempo e The New York Times

Fontes:

Presentación del Documental en la Facultad de Ciencias Políticas y Sociología de la UNAM: https://www.youtube.com/watch?v=aJYk7UhFfkc

Mapa interativo detalha caminho percorrido por migrantes do Norte da África até a Itália

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"Um mapa contado pelos migrantes". Assim é Êxodo, que descreve as jornadas dos migrantes pelo norte da África antes dos barcos que atravessam o Mediterrâneo. Crédito: Reprodução/Êxodo

Lançado pela ONG Medici Per Diritto Umani, o mapa leva o nome de “Êxodo” (Esodi, em italiano), em citação ao livro da Bíblia

Por Victória Brotto
Da Calábria (na Itália)
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Um jovem de 26 anos foge de sua pequena cidade natal no interior da Eritreia. Com pavor de servir um exército ligado a maus-tratos ou de ser preso por sua religião, o jovem decide ir até o porto de Mersa Gulbud, no litoral, para pegar um barco até a cidade de Suakin, no Sudão.  Ele escolheu a rota pelo mar porque, por terra, a travessia é muito mais perigosa, podendo ser capturado por milícias, vendido como escravo ou expatriado por autoridades sudanesas.

Do Sudão, o jovem tentará ir até o Egito e de lá pegar um barco para Pozzallo, na Itália. Ao final, se ele conseguir manter-se vivo ao longo dos 20 meses que durará a sua migração, não for capturado, expatriado e tiver mais de 2.800 euros para pagar os coiotes, talvez  ele consiga chegar à Itália. Mas se no barco o jovem sentar do lado errado ou se os coiotes não tiverem previsto bem as condições do clima – o que normalmente não fazem – e o barco naufragar, as chances do jovem diminuirão.

Este migrante representa um terço da população – ou  400 pessoas todo mês – que foge da Eritreia por perseguição política, estupro ou trabalho forçado, segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR).  Os migrantes eritreus, depois de sírios e afegãos, representam, segundo a Anistia Internacional,  a maioria dos 790 mil migrantes que já tomaram as mais diversas rotas no Norte de África para chegar à Itália via Mar Mediterrâneo nos últimos 15 anos. Essas rotas nunca foram traçadas num mapa;  até domingo passado (28) quando a história dos caminhos de cerca de mil desses migrantes viraram mapa nas mãos da ONG italiana Medici Per Diritto Umani, a MEDU, (Médicos pelos Direitos Humanos, em português).

O mapa está disponível online nas versões em inglês e em italiano. Para acessá-lo, clique aqui.

A ONG, então, depois de ouvi-los por três anos (2014-2017) na Itália (Sicília, Roma e Ventimiglia) e Egito, colocou os migrantes do Norte da África no mapa, traçando suas diferentes rotas, atalhos e histórias. O mapa, o primeiro do mundo a falar sobre os caminhos dos migrantes da região africana Subsaariana, leva o nome de “Êxodo” (Esodi, em italiano), em citação ao livro da Bíblia, que conta a história da migração de 40 anos do povo hebreu no deserto até chegar à terra prometida por Deus. “Durante a sua jornada pelo Norte da África, você não é mais considerado  um ser humano”, diz um dos migrantes à ONG.

Imagem que abre o site com mapa interativo criado a partir dos relatos dos migrantes.
Crédito: Reprodução/Exodi

De acordo com os idealizadores do projeto, o mapa interativo foi criado para aqueles que querem “aprofundar o entendimento” sobre o assunto. “O mapa interativo foi criado para que as pessoas conheçam, de uma forma mais profunda,  a experiência desses seres humanos que estão marcando nossa era com suas histórias”, diz a ONG.

O mapa

O mapa detalha o caminho percorrido pelos migrantes do Norte da África até a Itália. Com o depoimento de 870 homens e 130 mulheres com média de idade de 26 anos, oito rotas são traçadas para que as pessoas conheçam “as dificuldades, a violência, a tragédia e as esperanças encontradas por seus protagonistas durante a viagem”, diz a ONG.

As rotas vão desde o extremo oeste até o Chifre da África. Setas vermelhas ligam os principais pontos de fuga, que são representados no mapa como pontos vermelhos. Ao passar o mouse sobre ele, o visitante pode ver o nome da cidade e o que ela é, se é uma “cidade de passagem”,  um “ponto de embarque via mar”, uma prisão ou um campo de refugiados. Em cada um desses pontos vermelhos, é possível ler testemunhos dos migrantes que passaram, viveram ou ficaram presos por lá,  ver números, estatísticas, informações sobre o país e até saber  quanto de dinheiro o migrante precisará para viajar com os coiotes até a próxima cidade mais próxima do Mar Mediterrâneo.

Mapa revela o longo caminho percorrido por milhares de migrantes antes da chegada aos barcos que cruzam (ou não) o Mediterrâneo.
Crédito: Reprodução

É o caso de Cartum, capital do Sudão. Ela é a principal cidade para migrantes do Chifre da África que queiram chegar até a Europa. Por ela, passam milhares de migrantes como o eritreu descrito pela reportagem, que terão de pagar entre 600 e 1000 dólares por uma viagem até a Líbia – e de lá, para a Itália.

“Eu cruzei a fronteira da Eritreia com o Sudão me arrastando pelas moitas”, conta B.O,  migrante de 40 anos da Eritreia em um dos tantos relatos colhidos pela ONG e disponibilizados no mapa. B.O não tinha dinheiro o suficiente para fazer a viagem até a Líbia, mas acertou com os coiotes que trabalharia de graça na Líbia, uma vez lá, até conseguir pagar a travessia.

“Fiquei dois meses preso em Ishlavia, trabalhava no deserto e eles me davam apenas uma porção de arroz e pedaços de abacaxi por dia para comer (…) Eles me pediam 1000 dólares, mas eu não tinha”, conta ele, que pegou emprestado 300 dinares líbios (moeda local) e pagou outros coiotes para levá-lo até a costa, escondido. “Vieram à noite e pegaram 90 de nós. Viajamos 12 horas numa picape até Trípoli (capital da Líbia), lá fiquei com mais 400 pessoas numa sala sem água nem comida por seis dias, até que nos obrigaram a entrar num barco no meio do mar”.

Histórias como a de B.O são o foco da iniciativa, conta a ONG. “Êxodo não é apenas um mapa mostrando data e estatísticas, mas, acima de tudo, é uma testemunha que conta histórias de vida”, dizem os idealizadores logo na apresentação. E o mapa não está encerrado, ele será ampliado com mais histórias. “É um mapa online e interativo que será periodicamente atualizado com novos testemunhos de quem compartilhar conosco a história de sua viagem”.

G7 endurece discurso contra fluxos migratórios; MSF chama cúpula do grupo de “fracasso”

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Operação de resgate conduzida por MSF a bordo do barco Aquarius. Crédito: Kevin McElvaney/dez.2016

Países ricos defendem “direito soberano de controlar” as fronteiras; enquanto isso, deslocamentos humanos se convertem cada vez mais em “loterias”

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

Até o último dia 24 de maio, 60.521 migrantes e refugiados tinham entrado na Europa pelo mar Mediterrâneo neste ano. No mesmo período, outros 1.530 não tiveram a mesma sorte e acabaram ficando pelo caminho, aumentando o número de sepultados pelas águas.

Esses dados, divulgados na última sexta (26) pela OIM (Organização Internacional para as Migrações) continuam a aumentar e não devem demorar muito para bater 2016, quando o total de chegadas à Europa foi de 387.739, além de 5.098 mortos. Ou seja, atravessar o Mediterrâneo, especialmente, continua sendo uma verdadeira “loteria” para os migrantes que se arriscam.

Chegadas à Europa via Mediterrâneo e mortes até entre 1º de janeiro e 24 de maio deste ano.
Crédito: Arte OIM

Diante desse quadro nas costas europeias, organizações internacionais têm cobrado visão e políticas mais humanitárias e humanas dos governos. No entanto, a predominância de um discurso cada vez mais conservador e avesso aos grandes deslocamentos humanos no continente tende a aumentar o já extenso fosso existente entre a demanda dos migrantes por acolhida e a disposição dos governos em acolhê-los.

Braços e olhos fechados

Essa distância ficou ainda mais evidente com a declaração final da cúpula do G7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo (Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, França, Itália e Alemanha), que aconteceu na cidade italiana de Taormina. Os líderes do G7 exigiram “esforços coordenados a nível nacional e internacional” para a gestão do fluxo migratório, ao mesmo tempo em que defenderam “o direito soberano de controlar” as fronteiras.

Os líderes do G7 também ressaltaram “a necessidade de apoiar os refugiados para que retornem aos seus países de origem na medida do possível”, de forma segura e impulsionando a reconstrução de suas comunidades – embora uma rápida busca na internet ou uma simples checada no noticiário internacional mostre que os fatores que causam deslocamentos forçados mundo afora continuam em plena atividade.

A questão migratória, aliás, foi determinante para a escolha do local da reunião do G7, atualmente presidido pela Itália. O país é o que mais recebe migrantes a partir do mar Mediterrâneo (foram 50 mil até agora neste ano) e escolheu uma cidade na ilha da Sicília para o encontro. E por conta das medidas de segurança impostas para a reunião, o desembarque de migrantes e refugiados esteve proibido na Sicília durante os três dias do evento.

Ao mesmo tempo, inseridos no G7 estão o plano de Trump, presidente dos Estados Unidos, de expandir o já existente muro na fronteira com o México, além dos discursos cada vez mais duros de Reino Unido e França contra imigrantes.

Estudos em diferentes países e instituições mostram que a maior restrição aos fluxos humanos cria um círculo vicioso que tende a fomentar atividades de tráfico humano, que se tornam mais lucrativas para os criminosos e mais arriscadas para os migrantes que a elas recorrem.

Reação

A ONG Médicos Sem Fronteiras, que em geral opta pela neutralidade em suas ações e discursos, fez uma manifestação dura contra a cúpula do G7, que considerou “um fracasso”.

“Vemos em primeira mão as consequências dessas políticas para pessoas que assistimos em todo o mundo – no Mediterrâneo, que se transformou em um cemitério gigante; nas condições terríveis de detenção na Líbia; nas necessidades humanitárias dos refugiados sírios; ou no nível extremo de violência na rota centro-americana de migração e refúgio. O fracasso da cúpula do G7 na Sicília só pode causar mais sofrimento, aumentar as mortes no mar, perpetuar condições de recepção terríveis para migrantes e refugiados, e justificar acordos desumanos que terceirizam a migração para países inseguros. Isso está acontecendo diante dos olhos do mundo inteiro, e em total desrespeito aos direitos humanos e aos princípios humanitários básicos”.

Operação de resgate conduzida por MSF a bordo do barco Aquarius.
Crédito: Kevin McElvaney/dez.2016

Dias antes, a organização tinha feito um apelo aos líderes do grupo para que assumissem “compromissos sólidos com políticas de migração humanas e de longo prazo”. A declaração final da cúpula passou anoz-luz disso.

A reação dos Médicos Sem Fronteiras é reforçada ainda pelo resgate de 1.446 pessoas no Mediterrâneo pela organização, neste fim de semana, próximo à costa da Líbia. O desembarque, em geral feito na Sicília, estava proibido justamente por causa do encontro do G7 na ilha, e só foi autorizado em Nápoles, que ficava a 48 horas de barco do ponto de resgate – a Sicília ficava a 30 horas do local.

Com informações de OIM e Médicos Sem Fronteiras