The map, the first of the world told by migrants from the North of Africa, carries the name “Esodi”, in Italian, quoting the book of the Bible “Exodus”.
Credit: Esodi
First interactive map in the world about the migration in the Sub-Saharan countries was lauched last Sunday, 28, by the italian NGO Medici Per Diritto Umani
By Victória Brotto
From Calabria (Italy)
Portuguese version – click here
A 26 year old youngster flees from his little town in the countryside of Eritrea. Afraid of engaging in the National Service, he decides to go to the port in Mersa Gulbud, in the coast, take a boat to Suakin city, in Sudan. He has chosen the sea rote because by land it will be too dangerous – he could be captured by the militia, sold as slave or expatriated by the Sudanese authorities.
From Sudan, the youngster will try to reach Egypt and, from there, cross the Mediterranean Sea by boat to Pozzallo, in Italy. At the end, if he manage to survive along these 20 month migration throughout North Africa, does not be expatriated and if he has more than 2,000 euros to pay the smugglers along the journey, maybe he will arrive in Italy. But if he seats in the wrong side of the boat during the journey in the Mediterranean Sea, or if the smugglers haven’t had checked the weather – what normally they don’t do – and the boat sink, the chances to get in Italy will sharply fall.
This migrant represents one third of the population – or 400 people every month – that flee from Eritrea because of political persecution, rape or forced labour, according to the UN Agency for Refugees (UNHCR). The Eritrean migrants, after Syrian and Afghan people, represent the majority of those 790, 000 migrants that have already crossed the Mediterranean Sea over the last 15 years from many different routes inside of Africa. These routes have never been drawn until last Sunday, 28, when a thousand of migrants decided to tell the story of their trips to the Italian NGO Doctors for Human Rights (MEDU, in Italian initials).
The map is available online in English and Italian languages. To get in, click here.
The NGO built an interactive map upon the testimonies of 1,000 migrants from sub-Saharan Africa. They were collected in three years of activity (2014-2017)by the MEDU’S staff in Scily, Rome, Ventimiglia and Egypt. The map, the first of the world told by migrants from the North of Africa, carries the name “Esodi”, in Italian, quoting the book of the Bible “Exodus” that tells the story of the Hebrew people migrating toward the promised land after had been fled from Egypt, where they were slaves. “During your journey, you are no longer considered as a human being”, said one migrant to the NGO.
The map details the way made by the migrants from the North of Africa up to Italy. Credit: Esodi
According to the project creators, the map was created to those who want to deepen thei understanding on the issue. “This map is addressed to all those who want to understand and deepen the human experience marking our time”, said the NGO.
The map
The map details the way made by the migrants from the North of Africa up to Italy. With the testimonies of 870 men and 130 women in an average age of 26 years, eight routes are drawn for people to know “the difficulties, the violence, the tragedy and hopes encountered during the trip by the protagonists”, they say.
The routes go from the Western to the Horn of Africa and all of them reach the top of Africa bounding to the sea side. Several red arrows link the main city-points in different countries. This city-points are showed in red spots and if you pass the mouse on, the name of the city will show up and also what that city is, if it is a “transfer site”, a “boarding point”, a prison or a refugee camp area. In each of this red spots, the reader can check testimonies, figures, statistics, how much a migrant has to pay to travel from there to the next city closer to the sea.
One of these read spots is Khartoum, capital of Sudan. It is the main “transfer city” to migrants from Horn of Africa bound to Europe. Thousands of people pass by it, as the eritrean youngsters described in the beginning of this report. They will have to pay between 600 and 1000 dollars for a trip to Libya – and there, to Italy.
“I crossed the border between Eritrea and Sudan through the bush”, said the migrant B.O from Eritrea, 40 years of age. His money was not sufficient enough to make the trip to Libya, but he arranged with the smugglers that if they crossed he in, he would work for free to pay the debt.
I was detained in Ishlavia for 2 months I was detained in a small house and given few pineapple and rice to eat a day. They asked me 1000 dollars to be released but since I did not have that money, they forced me to cement work in the desert. I felt sick but they beat me on my head”, he tells. “Only later I heard other people speaking about Italy, so I collected 300 Libyans Dinars from my friend and I gave to the Libyan who was managing that detention point. They came one night, took 90 of us and we travelled for 12 hours up to Tripoli. There, I stayed 6 days in a big hall with other 400 persons, with no water and bread. On the 7th day, Libyans came and forced all of us to enter into a boat which was already in the water.”
Stories as B.O’s are the focus of the map, said the Italian NGO. “EXODI is not only a map showing the stages and paths, as well as a report with data and statistics, but above all, a testimony that describes life stories”, the creators of the project say in the introductory part of the map.
“Through updated data EXODI aims also to describe the physical and mental consequences of the journey on the health of an entire generation of young Africans”, they add after had guaranteed that all the migrants heard during the project are well-supported, socially, medically and psychologically, by them. In the map, the visitor can also know how many people are mentally ill because of the journey they have done and what kind of disturbs they are suffering from.
Nova Lei de Migração revoga o Estatuto do Estrangeiro e reconhece o migrante como sujeito de direitos. Medidas recentes do governo, no entanto, colocam tais avanços em risco.
Crédito: Missão Paz
Vetos que ignoraram o debate junto à sociedade civil são sinal de alerta, mas a lei sancionada conserva conquistas históricas
Vinte vetos foram feitos pelo presidente Michel Temer em relação ao texto aprovado pelo Congresso, ignorando as discussões ocorridas junto à sociedade civil e cedendo à pressão de setores mais conservadores do governo. Entre os vetos mais sentidos estão a anistia a migrantes indocumentados, a livre circulação de povos indígenas nas terras tradicionalmente ocupadas em regiões de fronteira, entre outros.
Apesar das pressões contrárias e dos vetos, a sanção da nova Lei de Migração – agora Lei 13.445/2017 – ainda é considerada um grande avanço social, seja pelas legislações que revoga, seja pelo novo paradigma aplicado ao migrante – sujeito de direitos e deveres, e não mais uma potencial ameaça à soberania nacional.
“No balanço, a lei contem inúmeros avanços, revoga duas legislações extremamente arcaicas que causavam profunda insegurança jurídica, o Estatuto do Estrangeiro e a lei 818, de 1949”, aponta o gestor público João Guilherme Granja, especialista em migrações e refúgio.
Nova Lei de Migração revoga o Estatuto do Estrangeiro e reconhece o migrante como sujeito de direitos, ficando de acordo com a Constituição. Crédito: Missão Paz
A mesma ponderação é feita pelo deputado federal Orlando Silva (PC do B-SP), que foi relator do projeto na Câmara – onde foi aprovada em dezembro de 2016. “A Lei foi preservada na sua estrutura principal, inclusive alguns itens que foram vetados podem ser retornados no processo de regulamentação. Eu diria que, apesar dos vetos, devemos comemorar a sanção da nova Lei de Migração”.
A manutenção do espírito da lei, apesar dos vetos, foi destacada também por Carolina de Abreu Batista Claro, professora de migração e refúgio no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IRel/UnB). “Primeiro, saem as perspectiva de segurança e interesse nacionais e entram as óticas dos direitos humanos dos migrantes e da igualdade entre brasileiros e imigrantes. Em segundo lugar, a lei estabelece princípios e diretrizes que guiarão uma futura política migratória brasileira, a ser formalizada por meio de decreto específico, e também prevê proteção para apátridas, asilados e brasileiros no exterior”.
Já Camila Asano, coordenadora de Relações Externas da ONG Conectas Direitos Humanos, lembra ainda o repúdio à xenofobia como um dos princípios norteadores da Lei de Migração. “O novo texto ainda tem o mérito de repudiar a xenofobia e discriminação, desburocratizar o processo de regularização, consolidar a política de vistos humanitários e de acabar com a possibilidade de detenção por razões migratórias – o que significa que ninguém poderá perder a liberdade por simplesmente estar irregular”, disse, em entrevista ao site da instituição.
Veja alguns destaques da nova Lei de Migração, mantidos no texto sancionado
– Lei em consonância com a Constituição de 1988 (ao contrário do Estatuto do Estrangeiro) e com os tratados internacionais assinados pelo Brasil, ao garantir igualdade de tratamento entre brasileiros e migrantes de outros países que residam no país;
Cartaz na Marcha dos Imigrantes de 2016 pede dignidade para os migrantes no mundo todo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
– impedimento de repatriação, deportação e expulsão coletivas, que são vedadas pelo Direito Internacional, além de uma melhor organização dos temas que tratam da retirada compulsória do migrante e das normas de cooperação jurídica internacional;
– ampliação dos tipos de visto temporário, incluindo os de tratamento de saúde, acolhida humanitária (o até então “visto humanitário”, que foi cedido em caráter excepcional aos haitianos, e que agora consta efetivamente na lei) e de reunião familiar;
– garantia à participação e manifestação política, vedadas pelo Estatuto do Estrangeiro e que geravam grande insegurança sobre os migrantes
Vale sempre lembrar que a Lei de Migração é resultado de anos de mobilização e de debate da sociedade civil organizada em torno da temática migratória e dos próprios migrantes, além de ter recebido apoio de políticos de diferentes tendências.
Cartazes no FSMM 2016 pedem aprovação da nova Lei de Migração, e revogação do Estatuto do Estrangeiro. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Próximos passos
A nova Lei de Migração entrará em vigor no final de novembro, mas já começam os movimentos para regulamentação da lei – quando determinados itens necessitam de decretos ou outras leis para entrarem em vigor. Os Ministérios do Trabalho e da Justiça, dois dos mais envolvidos diretamente com a questão migratória, já iniciaram movimentos para formar grupos dedicados a discutir justamente esse processo.
No entanto, os vetos presidenciais ao texto aprovado pelo Congresso representam um sinal de alerta.
“Acredito que o principal ponto de atenção, tendo em vista o próprio conjunto de vetos, está em promover um processo de regulamentação que possa ser acompanhado pela sociedade civil, de modo a garantir que o conjunto de princípios, direitos e garantias – que continua bastante íntegro na nova Lei de Migração – seja concretizado. São seis meses de ‘vacatio legis’ até que entre definitivamente em vigor, mas é pouquíssimo tempo considerando a densidade do novo regime migratório”, aponta Granja.
Camila também ressalta a atenção que a regulamentação deve receber e cobra transparência no processo por parte do governo. “A elaboração do decreto que regulamentará a lei deve ser participativa e transparente. Será inadmissível que a Presidência decida sobre isso da mesma forma como fez com os vetos: a portas fechas e ignorando a longa construção de consensos junto à sociedade civil”.
Escultura no Museu da Imigração, em São Paulo, representa migrantes de todo o mundo, independente da época ou origem.
(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)
Apesar dos cortes, texto ainda é considerado um avanço em relação ao Estatuto do Estrangeiro; nova lei passa a valer em 180 dias
Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)
Mais de um mês depois de aprovada pelo Congresso Nacional, a nova Lei de Migração recebeu a sanção presidencial nesta quarta (24). O ato já consta na edição de hoje (25) do Diário Oficial da União e a lei passa a valer depois de 180 dias da publicação.
De autoria do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), atual ministro das Relações Exteriores, a nova Lei de Migração (agora também Lei 13.445/2017) revoga o Estatuto do Estrangeiro, herança da ditadura militar, e traz uma legislação que tem como princípios ver o migrante como sujeito de direitos e o combate à discriminação e à xenofobia.
No entanto, o texto sancionado apresenta 20 vetos (entre artigos inteiros ou parciais) em relação à versão aprovada pelo Congresso – que foi resultado de longos debates junto a setores da sociedade civil e partidos de diferentes tendências políticas. Os principais vetos foram:
Anistia para migrantes que ingressaram no Brasil sem documentos até 6 de julho de 2016;
Conceito de “migrante” – a lei sancionada conta apenas com as definições de “imigrante”, “emigrante”, “residente fronteiriço”, “visitante” e “apátrida”
revogação das expulsões de migrantes decretadas antes de 1988;
livre circulação de povos indígenas entre fronteiras nas terras tradicionalmente ocupadas por eles;
extensão da autorização de residência a pessoas sem vínculo familiar direto;
dispensa do serviço militar de brasileiros por opção ou naturalizados que cumpriram obrigações militares em outro país;
direito dos migrantes de exercer cargo, emprego ou função pública
concessão de visto ou de autorização de residência para fins de reunião familiar a outras hipóteses de parentesco, dependência afetiva e fatores de sociabilidade
Definição que considera como grupos vulneráveis: solicitantes de refúgio; requerentes de visto humanitário; vítimas de tráfico de pessoas; vítimas de trabalho escravo; migrantes em cumprimento de pena ou que respondem criminalmente em liberdade; menores desacompanhados.
Apesar dos vetos, a nova Lei de Migração ainda é considerada uma conquista dos movimentos sociais, dos migrantes e de entidades da sociedade civil organizada por abolir o Estatuto do Estrangeiro e seu paradigma de ver todo e qualquer não-brasileiro como uma ameaça à soberania nacional. As mobilizações em torno da atualização da legislação migratória brasileira remontam ao começo da década de 1990.
Pressões contra a nova lei
Desde antes da aprovação pelo plenário no Senado, em 18 de abril, a nova Lei de Migração tem sido alvo de constantes ataques e de boatos que circulam nas redes sociais e em meios offline – o próprio MigraMundo, por exemplo, tem recebido comentários xenófobos, discriminatórios e ofensivos tanto no site como na página no Facebook.
Grupos conservadores – dentro do governo e em meio à sociedade – enxergam na proposta uma ameaça à soberania nacional e têm intensificado atos contrários à proposta desde a aprovação da nova lei. Tais pressões, vindas especialmente da Polícia Federal, do Ministério da Defesa e do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) foram determinantes para os vetos presidenciais. Por outro lado, o Itamaraty (nome pelo qual também é conhecido o Ministério das Relações Exteriores) era favorável à sanção sem vetos do projeto, assim como os movimentos e associações ligadas à temática migratória e dos direitos humanos.
Em São Paulo, pelo menos três protestos foram realizados na avenida Paulista, com argumentos de que a proposta seria “perigosa” por “permitir a islamização” do Brasil e deixar o país vulnerável a terroristas e exigiam o veto integral do texto. O discurso xenófobo presente nesse tipo de manifestação já foi alvo de repúdio tanto de especialistas como da própria Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania.
Em um dos protestos, acompanhado pelo MigraMundo, circulou um panfleto com uma tirinha em quadrinhos de gosto no mínimo duvidoso, no qual muçulmanos eram mostrados estuprando uma mulher cristã, além de de uma série de mitos sobre a nova Lei de Migração.
Por meio da música, europeus e refugiados se unem para levar alegria e construir pontes em vez de muros.
Crédito: Neil Walker
A história de um coral em Londres que, pela música, uniu europeus, britânicos, refugiados e requerentes de asilo
Por Victória Brotto
De Verona (Itália)
English Version: click here
Caro leitor, esta não é a história de pessoas que cruzaram oceanos para chegar a uma terra onde não havia lugar algum para elas – nem leis que as protegessem, nem uma política que as acolhessem. Essa é a história de dezenas de migrantes que, por meio da música, já chegaram em casa; de um coral, que no meio de uma Londres eleita uma das piores capitais para refugiados pelo jornal britânico The Guardian, se reúne para cantar e dar fôlego à alegria.
“É maravilhoso ver os nossos membros, muitos que vieram dos campos de refugiados na França, se alegrando através da música”, disse ao MigraMundo Becky Dell, diretora musical do coral. São cinquenta membros “half-half”, como explica Bell. Ou seja, metade de europeus/britânicos e metade de refugiados e requerentes de asilo. E é por isso que são conhecidos como o “Coral dos Cidadãos do Mundo”.
“Nós somos como pássaros quando voam e cantam juntos. Nós estamos dizendo para o mundo: nós somos um, nós somos cidadãos do mundo”, diz a iraniana Sonia. O coral surgiu há apenas três meses, como ideia do político liberal democrata Lord Roberts, defensor dos direitos dos refugiados no Reino Unido. “Nós estávamos no Parlamento trabalhando no ‘the Dubs’ [emenda que dá maior proteção legal a crianças vulneráveis requerentes de asilo no Reino Unido, mas esvaziada por Theresa May no último março] quando conhecemos Lord Roberts”, conta a musicista, que na época foi convidada então por Roberts para assumir a diretoria do Cidadãos do Mundo.
Coral em Londres une europeus e refugiados em torno da música e faz “Ode à Alegria”. Crédito: Neil Walker
O grupo, que se encontra toda a semana, conta com 15 nacionalidades com idades entre 18 a 70 anos. São desde jovens africanos que fugiram de guerras devastadoras, adultos que passaram pelos horrores dos campos na França e na Grécia, senhores e senhoras do Oriente Médio até britânicos e europeus ‘comuns’ – os chamados “amigos dos refugiados”. O anúncio do coral na internet diz: “Coral dos Cidadãos do Mundo – Para refugiados, requerentes de asilos e para seus amigos”. “Nós queremos que os “amigos” também venham e cantem conosco, fazendo assim com que pessoas que nunca iriam se encontrar se encontrem e se conheçam”, explica Bell.
E por causa de tanta diversidade, o repertório foi sendo pensado conforme as pessoas iam chegando. “No começo, nós não sabíamos quem viria, de quais países e em qual nível estariam suas habilidades”, conta Becky. “Aos poucos, fomos trabalhando nas habilidades que eles tinham e na cultura de cada um.” Hoje, o coral conta com seis músicas fixas, dentre elas um folk Zulu africano, uma música árabe, um folk inglês e até uma música cedida pela Coca-Cola para o coral cantar em suas apresentações. Tess, ativista e membro do coral, compôs uma música que também é cantada por todos os “Cidadãos do Mundo”.
E o resto é livre – inclusive a dança. “Se a música faz a sua alma cantar, então porque também não o corpo¿”, complementa Becky. “Nós estamos andando num caminho de luz e paz, nós cantamos e quando Becky nos faz dançar e tirar nossos pés do chão, a atmosfera fica jubilante. No final, todos estão batendo palmas e rindo muito”, diz um refugiado sírio, de 21 anos, que, por motivos de segurança, não quis revelar o nome.
Coral tenta resgatar a alegria em um cenário já muito desgastado pelo ódio. Crédito: Neil Walker
Quem canta os seus males espanta
A reportagem falou à diretora musical Becky do ditado brasileiro “quem canta seus males espanta”. E ela respondeu esfuziante: “Nunca tinha ouvido tal ditado antes. Amei!”. “A música é definitivamente uma força que cura e é maravilhoso ver os nossos membros do coral, muitos que vieram dos campos de refugiados na França e na Grécia, se alegrando através da música”, acrescenta. E, de acordo com Becky, a música não só cura refugiados, mas também os seus amigos europeus ali no coral.
“Isso [ o poder de cura da música] não é só com os refugiados não, eu vejo também os ‘amigos’ se alegrando e se curando através da música.” E continua: “[A música] É realmente o melhor remédio para alma!”
Agenda cheia
Mesmo com apenas 3 meses de existência, o coral dos Cidadãos do Mundo já está superlotado e com agenda cheia para esse verão. Serão sete apresentações, em Londres, Essex e em Cardiff, capital do País de Gales. Mas a mais esperada é a do dia 20 de Junho, na frente do Parlamento Britânico, palco de vozes contrárias à causa dos refugiados no Reino Unido, causa que Becky chama de “cara ao seu coração”.
“Muito tem sido dito sobre a crise de refugiados, mas nós queremos apresentar uma visão diferente, queremos mostrar para a comunidade como integração e coesão podem realmente acontecer e dar certo”, diz Becky.
Sobre o Brexit e a onda contrária a refugiados e requerentes de asilo, a diretora musical diz: “Nossa experiência não reflete o que é dito na mídia nesse país. Todos com que nós conversamos apoiam imensamente os refugiados e querem ajudar. É importante para nós sempre espalhar essa mensagem de unidade e paz.”
Por meio da música, europeus e refugiados se unem para levar alegria e construir pontes em vez de muros. Crédito: Neil Walker
Ao MigraMundo, Becky revelou como será a apresentação a políticos, passantes, turistas, londrinos e tantos quantos estiverem nas proximidades do Parlamento, em Westminster, no próximo dia 20. E isto incluí desde músicas tradicionais árabes, inglesas, africanas até participação do cantor de jazz Ian Shaw e de declamações de versos de seis membros do coral sobre seus sonhos para o futuro. Veja a lista abaixo – e se você estiver por Londres, não deixe de conferir ao vivo o Coral dos Cidadãos do Mundo:
1. Siahamba – Zulu folk song
2. What a wonderful World
3. Scarbough fair – Antiga música folk inglesa [ de 500 anos atrás] mixada com um rap árabe pelo nosso pianista Tom Donald
4. Pachelbel/ I wish That I Knew How It Would Feel To Be Free/ I’d Like To Teach The World To Sing – com a participação do cantor internacional de jazz Ian Shaw
5. Música da Coca-Cola e “Safe Passage” – Música escrita pelo membro Tess sobre os refugiados.
6. Membros do coral cantarão ou declamarão uma frase que representa suas esperanças e sonhos para o futuro.
Curso gratuito de empreendedorismo “Tecendo Sonhos” é voltado para imigrantes donos de oficinas de costura.
Crédito: Antonella Pulcinelli
Projeto Tecendo Sonhos, da Aliança Empreendedora, é voltado para imigrantes que atuam no setor têxtil
Por Antonella Pulcinelli
De São Paulo (SP)
Este material é parte de uma parceria entre o MigraMundo e a ONG Presença da América Latina (PAL), com noticiário relacionado às comunidades latino-americanas no Brasil
A Aliança Empreendedora, empresa que apoia empresas e organizações sociais com o objetivo de desenvolver modelos de negócios inclusivos e apoio a microempreendedores de baixa renda, desenvolveu um curso gratuito de empreendedorismo chamado “Tecendo Sonhos”, voltado para imigrantes donos de oficinas de costura.
O projeto é desenvolvido em parceria com três instituições – PAL (Presença da América Latina), CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante) e Si Yo Puedo – que prestam serviços aos imigrantes. Cada instituição replica o curso em uma região de São Paulo – assim é possível alcançar um público maior. O curso tem duração de 3 meses e é dado aos sábados e domingos.
Curso gratuito de empreendedorismo “Tecendo Sonhos” é voltado para imigrantes donos de oficinas de costura. Crédito: Antonella Pulcinelli
O curso ensina desde a formalização da empresa até a precificação dos produtos que serão vendidos. A ideia foi desenvolvida após ter sido identificada a necessidade de trabalhar a questão do trabalho mais justo, e dentro da cadeia da moda existe uma questão muito forte de trabalho indigno principalmente com imigrantes, que não conhecem as leis do Brasil e não sabem quais são seus direitos.
De acordo com a coordenadora de projetos da Aliança Empreendedora, Tatiana Rogovschi Garcia, a intenção não é que o empreendedor aprenda apenas as questões de gestão. “Nós começamos a trabalhar com eles não só o empreendedorismo, mas também o quanto eles conhecem das regras brasileiras que falam de trabalho análogo ao escravo, de trabalho digno, pra ver o quanto eles conseguiriam aplicar dentro do seu negócio”, afirma.
Curso é aplicado com ajuda de instituições parceiras. Crédito: Antonella Pulcinelli
Todos os empreendedores são incentivados a testar em suas oficinas tudo que aprendem no curso. Assim, podem avaliar o que é viável ou não para sua empresa. “Depois que vimos na aula o quanto guardamos coisas achando que vamos usar depois e não usamos, eu joguei fora vários sacos de retalho que tinha guardado e percebi que agora tenho muito mais espaço”, contou o empreendedor boliviano Sandro Osio.
No dia 3 de junho será a cerimônia de formatura dos empreendedores. Além do certificado do curso, eles recebem um mentor – pessoas de diferentes formações profissionais que oferecerem gratuitamente orientação aos imigrantes empreendedores por 6 meses. Não há data prevista para abertura de novas turmas.
Grupo cultural boliviano Kollasuyu Maya, que traz tradições da cultura aymara, se apresenta na Virada Cultural 2017.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Teve Virada Cultural, festa haitiana, roda de leitura e outras atrações
Por Rodrigo Borges Delfim
de São Paulo (SP)
O último final de semana em São Paulo foi especialmente rico em eventos culturais envolvendo migrantes e refugiados. Mesmo com uma boa organização de agenda era difícil decidir em qual atividade comparecer ou não.
Se você não pode ir ou não ficou sabendo, o MigraMundo listou um pouco do que rolou pela cidade – se faltou alguma atividade, por favor mencione nos comentários para que possamos atualizar o texto
Sábado e domingo
Palco na Virada Cultural
Grupo cultural boliviano Kollasuyu Maya, que traz tradições da cultura aymara, se apresenta na Virada Cultural 2017. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Apesar de o evento ter sido esvaziado neste ano por conta da chuva e pelo menor número de atividades na região central, pela primeira vez a Virada Cultural teve um palco dedicado apenas a atrações culturais formadas por migrantes e refugiados.
Passaram pelo palco grupos e bandas de países como Bolívia, Haiti, Síria, República Democrática do Congo, Togo, Colômbia, Cuba, entre outros. Durante os intervalos entre os shows foram feitas projeções de vídeos do acervo do coletivo Visto Permanente, que tem registrado e divulgado as manifestações culturais de migrantes residentes em São Paulo.
Festival Despedida das Arábias
A Vila Butantan recebeu o Festival De Volta para as Arábias – que nas duas edições anteriores, em novembro de 2016 e abril deste ano, teve o nome de Um Dia nas Arábias. O evento teve como objetivo valorizar a cultura árabe e também arrecadar recursos para refugiados – foi pedida a doação de 1 kg de alimento para entrar na festa.
Quem compareceu – mesmo com a chuva que caiu em São Paulo ao longo do final de semana – teve a oportunidade de experimentar comidas típicas de países árabes e de acompanhar apresentações de música e dança, entre outras atrações.
Apenas no domingo
Festa da Bandeira do Haiti
Almoço haitiano antecedeu as apresentações culturais da Festa da Bandeira do Haiti. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
O domingo (21) teve a celebração do 214º aniversário da Festa da Bandeira do Haiti, principal símbolo do país e marco no processo de independência em relação à França, no auditório da Missão Paz, no bairro do Glicério. A data correta é 18 de maio, mas a festa foi transferida para o domingo para atrair maior público.
A chuva não foi impeditivo para haitianos e demais interessados na cultura do país em acompanhar a programação que se estendeu por toda a tarde, com almoço haitiano e apresentação de diversas bandas que nasceram em meio à comunidade.
Campeonato multicultural
A ONG Adus, que apoia refugiados residentes no Brasil, organizou pela quarta vez um torneio de futebol com seleções formadas por refugiados e solicitantes de refúgio.
O evento aconteceu no Colégio Santa Cruz, em Alto de Pinheiros, e teve o time da República Democrática do Congo, ficando o vice com o Haiti e a terceira posição com o Mali. Além do futebol, o dia teve ainda brincadeiras para crianças, churrasco e música.
Roda de leitura: Histórias que se Cruzam na Kantuta
Perto do Colégio Santa Cruz, mais exatamente no Parque Villa Lobos, aconteceu mais uma roda de leitura do livro Histórias que se Cruzam na Kantuta, que conta histórias de migrantes desde seus países de origem até a chegada ao Brasil. O título é uma referência à praça Kantuta, localizada no bairro do Pari e ponto de encontro dessas histórias e seus protagonistas.
Para quem não pode comparecer desta vez, tem uma nova oportunidade marcada para o próximo domingo (28), a partir das 13h, no Parque da Juventude (próximo à estação Carandiru do metrô).
Congolinária
O projeto culinário Congolinária, lançado pelo refugiado congolês Pitchou Luambo, teve uma nova atividade neste domingo no restaurante Al Janiah, no Bixiga. O local já virou uma referência em eventos culturais e políticos envolvendo a temática migratória e integrados por migrantes e refugiados. Já o Congolinária aproveita a base vegana da gastronomia congolesa e une duas causas em um único projeto: refugiados e veganismo.
Além dos eventos itinerantes, (acompanhe a página no Facebook para saber dos próximos), o Congolinária lançou uma campanha de financiamento coletivo – que está em seus últimos dias – para viabilizar a criação de um restaurante. Clique aqui e veja como você pode apoiar o projeto
Por meio da música, europeus e refugiados se unem para levar alegria e construir pontes em vez de muros.
Crédito: Neil Walker
The story of a London Choir which brought refugees, Europeans and UK citizens together through music
By Victoria Brotto
From Verona (Italy)
Portuguese version – click here
Dear reader, this is not a story of a people who have crossed oceans to arrive in a land that does not have a place for them – neither laws to protect them or a policy that could shelter them. This is a story of dozens of migrants who, through music, now they feel they have a home; a story of a choir in London – a city elected by The Guardian as one of the worst capitals for a refugee – that meets and rejoices together.
“It is wonderful to see our choir members (some of whom we know from the refugee camps in France) enjoying themselves through music”, told to MigraMundo by Becky Dell, the choir’s Musical Director. There are 50 members currently in the choir, “half-half”, explains Dell. That means, 50% of British/EU citizens and 50% of refugee/asylum seekers. That is why they are known as “The Citizens of The World Choir.”
“We are like birds when they fly and sing together. We say to the world; we are one, we are citizens of the world”, says Sonia, from Iran, choir member. The choir was created three months ago as Lord Roberts’ idea. Lord Roberts is a politician from the liberal democratic party politician and a campaigner for refugee rights. “A group of us were working in Parliament on the Dubs scheme (looking after vulnerable refugee children) and through that we met Lord Roberts, a great man and campaigner for refugee rights. It was his idea and knowing I was a musician he asked me to be Musical Director”, explains Dell.
The group, that meets once a week, has 15 nationalities and ages between 18 to 70 years. There are African youngsters that have fled from devastated war zones, adults that have passed through the horrors of refugees camps in France and Greece, old women and men from the Middle East and also ‘common’ British and European citizens, they call them “refugee’ friends”. The ad on the Internet says: “Citizens of the World Choir – To refugees, asylum seekers and their friends”. “We wanted ‘friends’ to come and sing with us too, thereby allowing people to meet who otherwise would not have met”, says the Musical Director.
Based on so much diversity, the repertory was being created as people were coming. “When we started we didn’t know who was coming or what their skill level would be or what countries would be represented”, she says. “I went to the first rehearsal with a few songs prepared and we have worked around what skills people have presented.” Today, the choir sings 6 fixed-songs, “which represent the choir very well”. “Our refugees are half from Africa and half from Iraq/Syria and the surrounding countries, so we have one Zulu folk song, one Arabic song (mixed in with an English folk song) a jazz number, a classical piece, a song that Coca-Cola gave us permission to use from one of their adverts, and a piece that was written by one of our members, Tess, who is also an aid worker and a musician”, states Dell.
The group, that meets once a week, has 15 nationalities and ages between 18 to 70 years. Credit: Neil Walker
The rest of what happens in a rehearsal is as free as you want to imagine, including dance. “Music makes your soul sing, so why not your body too!”, enthuses Becky. “We are walking in the light of peace, we sing, and when Becky gets us to dance and stamp our feet the atmosphere is jubilant. At the end, everyone bursts into laughter and applauds”, says a 21 year old Syrian refugee, also member of the choir.
“WHO SINGS DRIVES ALL THE EVIL OUT”
The reporter told Becky about the Brazilian quote “who sings drives all the evil out”. She replied enthusiastically: “I have not heard that phrase but I love it!”, and she added: “Music is definitely a healing force and it is wonderful to see our choir members (some of whom we know from the refugee camps in France) enjoying themselves through music.”
According to Becky, music does not only heal the refugees, and also their friends in the choir. “This isn’t limited to just the refugees though, I can also see the ‘friends’ letting go and healing through music”, she said and adds: “It really is the best tonic for the soul.”
AN OVER-BOOKED SCHEDULE
Even in its short time of existence, the Citizens of the World Choir has a fully booked schedule for this Summer. They have seven gigs in London, Essex and Wales. But the most anticipated will be on the 20th of June at Parliament, in Westminster. “We started in Parliament, as the brainchild of Lord Roberts, so it seemed appropriate to launch there”, she explains. The politics opposition to the migration issue in the UK, Becky Dells says: There are lots of conversations that are being had around the refugee crisis at the moment, we wanted to present a different point of view and show how community integration and cohesion can happen and work really well.”
About the Brexit and the conservative government has been blocking reforms that could help more refugee and asylum seekers to integrate better into the UK, the Musical Director of the choir says that “the choir experience does not match up with that of the media in this country”. “Everyone we talk to is hugely supportive of refugees and wants to help. It is important for us to keep spreading this message of unity and peace.”
To MigraMundo, Becky revealed how the choir’s presentation will be on the next 20th in the Parliament. Arabic traditional music, English folk music, jazz and even a Coca-Cola music will take place in their repertoire – and to not mention about the verses written by 6 of the members on their hopes for the future. Check the program bellow and if you will be in London on the 20th of June do not miss the Citizens of the World Choir in the Parliament [and make sure that you know how to sing all the lyrics as MigraMundo is showing you now]:
1. Siahamba – Zulu folk song
2. What A Wonderful World
3. Scarbough fair – 500 year old English folk song with Arabic rap and arranged by our pianist Tom Donald
4. Pachelbel/I Wish That I Knew How It Would Feel To Be Free/I’d Like To Teach The
World To Sing – international jazz artist Ian Shaw is singing with us on this track. The Coca-Cola sing is the last one. During the middle track, 6 of our members are going to say or sing one line that represents their hopes and dreams for the future.
5. Safe Passage – Tess’ piece, written about the refugee crisis
Montagem do Arquivo Nacional sobre documentos de imigrantes que chegaram ao Brasil.
Crédito: Arte/Arquivo Nacional
Projeto foi financiado com recursos do BNDES e deve ajudar na demanda crescente por consultas sobre antepassados
Com colaboração de Bruno Nathansohn
Do Rio de Janeiro (RJ)
O Arquivo Nacional disponibilizou uma base de dados para consulta sobre 1,3 milhão de imigrantes que desembarcaram no Porto do Rio de Janeiro entre 1875 e 1910.
O usuário pode também ir no menu do site do Arquivo Nacional, acessar “consulta a acervos”, clicar em “outras bases de dados” e “procura entrada de estrangeiros no Porto do Rio de Janeiro”. Nele, você encontrará uma descrição do projeto, manual de utilização e a base de dados. Cerca de 60 pessoas trabalharam na digitalização dos documentos para a ferramenta.
O lançamento da base ocorreu no último dia 26 de abril, por ocasião do Evento “Brasil de Todas as Gentes”, no auditório do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro e foi resultado de um projeto financiado com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Dentre os participantes presentes à mesa, estavam a professora Ismênia de Lima Martins, da Universidade Federal Fluminense (idealizadora e coordenadora do Projeto), o professor Fernando Souza do CEPESE – Porto, Portugal, especialista em mobilidades geográficas, e Ana Silvia Scott da UNICAMP, especialista em movimentos populacionais.
Durante a cerimônia também apresentou-se um vídeo que, além de abordar a imigração para o Brasil utilizando o acervo da instituição, contou com depoimentos de imigrantes e descendentes que escolheram este país como pátria.
Houve também a premiação de importantes especialistas no tema migratório, como os professores ElHajji Mohamed, da Escola de Comunicação da UFRJ e Helion Póvoa Neto, do IPPUR-UFRJ, idealizador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM), dentre outros.
Base de dados de imigrantes do Arquivo Nacional, exibida durante o evento de lançamento. Crédito: Bruno Nathansohn
Procura crescente
Os documentos disponibilizados ajudam a recompor a trajetória dos imigrantes no país, possibilitando aos brasileiros conhecerem suas origens e solucionar questões concretas, como direitos de cidadania e propriedade, com acesso rápido e fácil à documentação.
Dados do próprio Arquivo Nacional apontam que a consulta a documentos de antepassados, visando procedimentos como obtenção de dupla cidadania de brasileiros que desejam morar no exterior, cresceu 50% em 2016.
O site do Arquivo Nacional traz os passos a serem seguidos para consulta sobre a chegada de antepassados ao Brasil – a nova base é uma das ferramentas disponíveis.
O Arquivo Nacional ressalta, no entanto, que os procedimentos de gestão e de preservação de documentos públicos federais são relativamente recentes. Por isso, há registros que não foram encaminhados ao Arquivo Nacional e/ou se deterioraram parcial ou completamente antes que isto pudesse ser feito. Tenha sempre em mente que o registro do desembarque do imigrante que você procura pode não estar no acervo, já que este não é absoluto.
Em São Paulo, o Museu da Imigração também conta com um sistema de consulta de dados no Arquivo Público de São Paulo sobre imigrantes que passaram pela antiga Hospedaria do Brás entre o final do século XIX e meados do século XX.
Editorial do número 49 da REMHU (Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana), publicado também no MigraMundo pela parceria do portal com o CSEM – Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios. Todos os artigos estão disponíveis no site SciELO Brasil (www.scielo.br/remhu).
Por Roberto Marinucci
editor-chefe da REMHU
Atualizado em 22/05/17, às 12h13
Em muitos países, na atualidade, mudanças nas leis trabalhistas estão sendo implementadas com o objetivo, real ou fictício, de aumentar a competitividade em um contexto de crise econômica. Essas reformas, em geral, visam flexibilizar os contratos de trabalho e, ao mesmo tempo, alterar os processos de negociação coletiva. Na realidade, para além dos discursos oficiais, o que ocorre é uma redução dos direitos dos trabalhadores.
É nesse clima geral que milhões de migrantes e refugiados se inserem no mercado de trabalho dos países de trânsito e de destino. Apesar das legislações de muitos desses países reconhecerem, no papel, a igualdade de direitos laborais entre estrangeiros e nacionais, registra-se com frequência uma maior vulnerabilidade dos primeiros, vulnerabilidade que se acentua quando a condição migratória se intersecciona com questões de gênero, etnia ou religião. Assim sendo, guardadas as devidas exceções, os trabalhadores migrantes são os mais atingidos pelos efeitos da atual conjuntura, sobretudo em termos de desemprego, subemprego e sobrequalificação.
Logo do CSEM (Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios Crédito: Reprodução/CSEM
Mas não é só isso. Mesmo nos países menos afetados pela crise, os trabalhadores estrangeiros – assim como as segundas e terceiras gerações – continuam envolvidos nos nichos laborais mais precários e subpagos. O trabalho,
em muitos casos, deixou de ser um valioso instrumento de incorporação nas sociedades de chegada para se tornar um vetor de discriminação e exclusão social. Um verdadeiro muro para além dos muros das fronteiras.
É bom frisar que a exploração dos trabalhadores migrantes não visa apenas interesses imediatos e contextuais, mas esconde uma intencionalidade muito mais perversa: a precarização de todos os empregos. De fato, na ótica da
racionalidade econômica hegemônica, o trabalhador perfeito é o gastarbeiter, o trabalhador hóspede, temporário, sem os entraves da família e dos sindicatos, com reduzida capacidade reivindicativa e urgente necessidade de dinheiro. A violação dos direitos laborais dos estrangeiros é, portanto, o ponto de partida para a vulnerabilização de toda a classe trabalhadora.
Aprofundando a questão, é importante frisar também a vinculação entre políticas migratórias e trabalhistas. Encurralados entre a rigidez das primeiras e a flexibilidade das segundas, muitos migrantes vivenciam o drama da
precarização do trabalho como risco real de deportação. Dito de outra forma, em muitos casos, é a intersecção entre políticas migratórias e trabalhistas que determina o clima de deportabilidade com todas as suas consequências.
Além disso, as políticas de cotas migratórias que são orientadas pelo assim chamado “princípio de disponibilidade” – a oferta de vistos para áreas do mercado de trabalho carentes de mão de obra – acabam por alimentar clivagens étnicas e raciais, afetando desta maneira aqueles indivíduos, sobretudo de segunda e terceira geração, que ousam aspirar empregos supostamente reservados a grupos étnicos nacionais.
Finalmente, nesse cenário sombrio, é mister atentar também para aquelas abordagens que enfatizam as capacidades de resistência e superação dos trabalhadores migrantes. Mesmo em contextos marcados por exploração e discriminação, há numerosos casos de pessoas em mobilidade que, recorrendo a sólidas redes étnicas, recuperando recursos culturais dos países de origem, aproveitando as oportunidades oferecidas por conjunturas econômicas ou nichos específicos do mercado de trabalho, conseguem trajetórias biográficas exitosas, para si, seus familiares e as sociedades de destino. Essas experiências atestam as potencialidades da agency dos migrantes e apontam para a necessidade de “contrarreformas trabalhistas” que garantam e ampliem os direitos de todos os trabalhadores de modo a valorizar, inclusive, suas habilidades e competências.
Estas são algumas das temáticas aprofundadas no dossiê da Revista REMHU n. 49. No primeiro artigo, Alejandro Canales desenvolve um estudo perspicaz acerca do acirramento da racialização da desigualdade social nos
Estados Unidos, num contexto caracterizado pela polarização dos empregos e por intensas mudanças demográficas. De acordo com o autor, os dados estatísticos do mercado de trabalho norte-americano indicam de forma contundente a “racialización de la matriz social y laboral de los Estados Unidos”, uma racialização que poderá afetar a coesão social de um país que registra uma composição demográfica cada vez mais diversificada.
Capa da edição 49 da REMHU. Crédito: Reprodução
A interseccionalidade entre as desigualdades de classe, gênero, etnia e cultura é aprofundada por Verónica Trpin e Cynthia Pizarro. Conforme as autoras, que focam a temática a partir das migrações circulares de trabalhadores rurais temporários na Argentina, as políticas de identidade tendem, com frequência, a essencializar traços culturais ou raciais com a consequente naturalização das desigualdades sociais. Desta forma, determinados grupos nacionais ou étnicos, por suas supostas características biológicas (genéticas ou fenotípicas), culturais, sociais ou psicológicas são relegados a determinados nichos do mercado de trabalho, geralmente os mais precários e vulneráveis.
Outro aspecto discriminante das políticas migratórias é focado por Laura Zanfrini, que se debruça sobre as políticas de gestão das labour migrations na Europa. Essas políticas tendem a promover o ingresso no território nacional
apenas de trabalhadores “complementares”, que se encaixam em setores do mercado de trabalho carentes de profissionais (o assim chamado “princípio de disponibilidade”). Com o passar do tempo, no entanto, os recém-chegados e seus familiares se tornam cada vez mais relutantes em aceitar “empregos de imigrantes”, rejeitando a condição de eternos gastarbeiter. Uma mudança de rumo é sugerida pela autora, na ótica da criação de economias competitivas e inclusivas ou, melhor, economias competitivas porque inclusivas.
A precarização do trabalho, o impacto sobre os trabalhadores migrantes e o papel da imigração enquanto “taller de experimentación” de novas formas de precarização são temas abordados por Fabio Perocco. O autor aprofunda
a situação da União Europeia e, de forma específica, da Itália, onde existe uma exacerbada segmentação racial no mercado laboral. A capilar difusão dos voucher – recentemente abolidos na Itália – e a crescente prática do trabalho
voluntário gratuito são exemplos nítidos dessa “pedagogía de la precariedad” inerente ao hegemônico modelo econômico, uma pedagogia que visa atingir não apenas a mão de obra estrangeira, mas também a classe trabalhadora nacional.
Carolina Stefoni, Sandra Leiva e Macarena Bonhomme abordam o tema da precarização do trabalho no Chile, numa ótica interseccional. Focando o trabalho no setor da construção, as autoras ressaltam como a inclusão dos
trabalhadores migrantes mais vulneráveis, em situação imigratória irregular, sem ligação com sindicatos, permitiu a criação e o aprimoramento de dispositivos que incrementam a negação de direitos trabalhistas. Sublinha-se, notadamente, os “anexos” do “contrato por obra” com todas as suas nefastas consequências.
E isso não diz respeito apenas à assim chamada mão de obra não qualificada. Telésforo Ramírez García e Fernando Lozano Ascencio examinam o novo cenário mundial acerca da migração de trabalhadores qualificados. Focando sua análise na América Latina e Caribe, os autores sustentam que esse tipo de migração aumentou muito no âmbito dos países da OCDE, envolvendo um grande número de latino-americanos e caribenhos, com destaque pelos trabalhadores de países andinos e pelas mulheres. Cabe salientar que o fenômeno apresenta aspectos negativos que afetam tanto a qualidade de vida dos migrantes quanto o desenvolvimento dos países de origem.
O impacto da crise econômico-financeira entre os trabalhadores migrantes – com foco específico nos brasileiros e brasileiras em Portugal – é o tema do artigo de Sónia Pereira e Alina Esteves. Várias temáticas são abordadas, como o forte desemprego entre os imigrantes, a crescente instabilidade laboral e o retorno. Ainda assim, as autoras inferem que brasileiros e brasileiras mantiveram “nichos de empregabilidade” em áreas do mercado de trabalho menos atingidas pela crise e, ao mesmo tempo, conservaram um alto grau de satisfação em relação à estadia em Portugal, em decorrência da qualidade de vida e dos serviços sociais disponíveis.
María José Martín Herrero, Maite Fouassier Zamalloa e Gorka Moreno Márquez também se debruçam sobre a relação entre crise econômica e mercado de trabalho, tendo como objeto epistêmico as mulheres migrantes no País Basco. Comparando dados estatísticos de 2010 e 2014, os autores realçam a importância das variáveis de gênero e da procedência. De fato, em termos gerais, os homens migrantes foram mais atingidos pela crise do que as mulheres. Por sua vez, as latino-americanas registraram maior empregabilidade do que as mulheres de origem africana. Em ambos os casos, no entanto, cresceu o número de pessoas empregadas no trabalho doméstico que, na ótica dos
autores, se tornou um importante “nicho laboral refugio”.
Esta busca de estratégias de resistência e superação diante de situações adversas é sublinhada por Roberto Benencia e Santiago Canevaro em seu estudo sobre a jornada migratória de trabalhadores bolivianos na Feira La
Salada, em Buenos Aires. Mediante as paradigmáticas histórias de vida de dois entrevistados, os autores ressaltam como, atuando em espaços econômicos intersticiais, esses bolivianos conseguiram trajetórias trabalhistas exitosas, pois souberam aproveitar das oportunidades da conjuntura econômica e política, das sólidas redes étnicas e, inclusive, de práticas culturais aymara. O ser boliviano, desta forma, se tornou um importante recurso para gerenciar os desafios da nova realidade e alcançar o reconhecimento social.
Migrante em oficina de de costura em São Paulo. Crédito: Mário Pimenta/Alinha
A agência do migrante é o foco também do estudo que Bruno Miranda desenvolve sobre os trabalhadores bolivianos em oficinas de costura em São Paulo. Mesmo não menosprezando as formas de coação do trabalho não-livre,
o texto focaliza sua reflexão nos mecanismos de construção de consentimento entre os donos das oficinas e os costureiros. Segundo o autor, existem mecanismos institucionais (derecho de piso, cama caliente e vales) e ideológicos à base de um acordo tácito entre as partes envolvidas, sendo o desrespeito desse acordo – mediante abusos ou enganos – que torna a relação conflitiva, o que, de qualquer forma, não suprime totalmente a agência dos trabalhadores.
Finaliza o Dossiê o artigo de Eduardo Rodríguez Rocha sobre iniciativas econômicas de migrantes chineses e senegaleses em Córdoba, na Argentina. Partindo de uma abordagem “transnacional” e “desde baixo”, o autor descreve o funcionamento de cadeias mundiais de mercadorias e, no caso específico, dos processos que levam mercadorias desde a China até os bazares ou as ruas de Córdoba. O artigo analisa a relação de complementaridade e, ao mesmo tempo, de desigualdade entre chineses e senegaleses, inclusive no interior dos próprios grupos nacionais. Apesar de tudo, esse nicho econômico, nos limites porosos da (i)legalidade, constitui uma estratégia de emprego para quem vive às margens da economia hegemônica.
Na seção Artigos, Martina Pasqualetto apresenta um precioso estudo sobre a recente evolução legislativa italiana no que diz respeito ao assim chamado “voluntariado” dos solicitantes de refúgio promovido pelo governo italiano a fim de fortalecer a integração e a formação dos recém-chegados. Contrariando o discurso oficial, a pesquisadora argumenta que, na realidade, os recém-chegados são pressionados a assumir um “trabalho não-remunerado”
que pouco contribui à integração, relativiza o direito de refúgio, alimenta um imaginário de inferiorização e, no fundo, visa implementar uma pedagogia da precarização com o propósito de introduzir os migrantes a um mercado de trabalho na ótica dos 3D-job (dirty, dangerous, demanding).
Finalmente, Iana dos Santos Vasconcelos e Sandro Martins Almeida Santos abordam a relação entre a noção de família e as dinâmicas de mobilidade em dois contextos bastante diferentes: comunidades de vida “alternativas”
em Goiás e garimpos na Venezuela. Segundo os autores, em ambos os casos existem nexos entre a construção social da noção de família e a mobilidade humana: no primeiro, a noção cosmopolita de família gera comunhão entre os
moradores da comunidade e todos os recém-chegados, enquanto, no segundo, a noção de consanguinidade estabelece laços transnacionais, que permanecem sólidos apesar da distância geográfica. Em ambos os casos, no entanto, os laços familiares devem ser alimentados mediante atos de reciprocidade e troca de
bens simbólicos ou materiais.
A seção Relatos e reflexões disponibiliza um texto de Laura Cristina Yufra sobre migrações, leis migratórias, lei trabalhistas e direitos sociais na Argentina, enquanto Marivane Chiesa, mscs relata sua experiência sócio-pastoral em países africanos junto a migrantes e refugiados. A resenha de Carmem Lussi do livro Sulle onde delle migrazioni encerra este número da Revista.
Desejamos a todos e todas uma boa leitura!
A REMHU – Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana é uma publicação quadrimestral do CSEM – Centro Scalabrianiano de Estudos Migratórios (www.csem.org.br). Seu objetivo é oferecer ao mundo acadêmico e aos pensadores e articuladores da pastoral e das políticas migratórias análises interdisciplinares, amplas e aprofundadas de temas ligados às migrações contemporâneas.
O dia 18 de maio pode ser um dia corriqueiro para os brasileiros, mas é uma data da maior importância para os haitianos. Nela é celebrada o Dia da Bandeira do Haiti, um marco no processo de independência da França, país do qual foi colônia.
Uma das versões mais aceitas é que exatamente em 18 de maio de 1803, durante o Congresso de Arcahaie, Jean Jacques-Dessalines – que seria responsável por proclamar a independência do Haiti – rasgou a parte central da bandeira francesa e e pediu para Catherine Flon costurá-la somente com o azul e o vermelho, como prova de união entre os negros e os mestiços para se engajarem na luta pela libertação e pela independência do país.
Nascia assim a bandeira do Haiti, país que viria a alcançar sua independência oficial em 1º de janeiro de 1804.
O Haiti entrou para a história como a primeira nação negra a se tornar independente no mundo e a primeira a se emancipar na América Latina e Caribe – no continente americano, o primeiro país foi os Estados Unidos, em 1776.
Além do azul e do vermelho, a bandeira haitiana recebeu anos mais tarde o brasão de armas do país, composto por um conjunto de armas que remetem ao desejo do povo haitiano de se libertar da colonização francesa, além de uma palmeira real. Junto com ela, o lema do país, “a união faz a força”.
A bandeira haitiana chegou a sofrer algumas mudanças ao longo da história. Durante a ditadura da família Duvalier (1964-1986), por exemplo, as cores eram o vermelho e o preto. Após o fim do período ditatorial, a bandeira haitiana voltou ao formato anterior, em vigor até hoje.
Bandeira do Haiti usada na decoração da Festa da Bandeira, na Missão Paz, São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mai.2014
Essa união do povo haitiano, mesmo entre os dispersos mundo afora, fica bem evidente nas mobilizações para celebrar a bandeira. No Brasil não é diferente e a comunidade haitiana aproveita o próprio 18 de maio (quando possível) ou uma data próxima para também celebrar a festa da bandeira.
“É a primeira bandeira nacional costurada pelas mãos de uma mulher negra e erguida por pessoas negras. Por meio dela, a negritude se hasteou diante do mundo, olhando o colonialismo horizontalmente e de cabeça erguida, dando uma lição de humanidade, reivindicando a libertação dos povos negros sob o jugo colonial. A grandeza dessa bandeira não está apenas na sua formosura, mas sim na sua profundidade histórica e humana, uma das mais belas lições do ponto de vista do existencialismo negro, a afirmação da existência do ser-negro-no-mundo que precede a essência colonial, além da afirmação do humanismo diante do fracasso do universalismo ocidental”, definiu Handerson Joseph, haitiano e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ), em artigo especial para o MigraMundo sobre a importância da bandeira de seu país natal para os haitianos.
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