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terça-feira, junho 30, 2026
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Portaria de Moro sobre deportação é inconstitucional e viola direitos

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O ministro da Justiça, Sergio Moro, que assinou portaria que regula deportação de migrantes no Brasil. Crédito: MJSP

Ministério da Justiça diz que Portaria 666 visa proteger o Brasil da entrada de suspeitos de crimes de terrorismo e tráfico; ex-secretário nacional de Justiça e entidades rebatem

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 6h47 de 27.jul.2019

Uma portaria estabelecida pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, e publicada na última quinta-feira (25) no Diário Oficial da União, endurece as regras para entrada de pessoas de outros países no Brasil, assim como de deportação e repatriação. No entanto, especialistas e organismos públicos e da sociedade civil apontam que ela bate de frente com a legislação vigente no país.

Segundo nota no site do Ministério da Justiça, a Portaria 666 (clique aqui para acessar) “pretende proteger o Brasil ao evitar a entrada de pessoas suspeitas de crime de terrorismo ou de tráfico de drogas, assim definidos em lei”.

Seriam também alvo da portaria, de acordo com o texto, estrangeiros que sejam “suspeitos” de ter envolvimento em grupo criminoso organizado, associação criminosa armada, tráfico de pessoas, tráfico de armas e pornografia ou exploração sexual infantil.

Para tal, não precisa haver uma acusação formal e nem condenação por parte da pessoa – basta uma investigação em curso contra a pessoa (dentro ou fora do Brasil) ou que existam “informações de inteligência provenientes de autoridade brasileira ou estrangeira”.

O diretor do Departamento de Migrações da Secretaria Nacional de Justiça, do MJ, André Zaca Furquim, afirma que o texto trata de disciplinar a deportação excepcional prevista na Lei de Migração. “Isso que foi feito. O texto está sendo discutido desde 2017 [a lei entrou em vigor em novembro do referido ano]. É um ano e meio de trabalho. Ela não é uma portaria isolada, faz parte de um contexto”.

Questionamentos

Já Beto Vasconcelos, sócio do escritório XVV Advogados e ex-Secretário Nacional de Justiça, aponta que a portaria pode ser alvo de questionamento judicial, caso não seja revista.

“Ela cria hipóteses genéricas e subjetivas para deportação e outras restrições de direito, fundadas em mera suspeita – o que nosso ordenamento constitucional e legal não permite”.

Em nota, a Defensoria Pública da União (DPU) também critica, entre outros pontos, o cerceamento de direitos previsto pela portaria e suas consequências para os não-nacionais no Brasil como um todo.

” O problema que se detecta é o conteúdo extremamente nocivo da portaria sob comento, que viola os padrões mínimos de devido processo legal segundo a legislação brasileira e os parâmetros internacionais de direitos humanos e traz um grave retrocesso frente ao trabalho construído pelo Estado brasileiro, ao longo de anos, para a consolidação dos direitos de não-nacionais em seu território”.

Entidades que atuam na temática migratória também se posicionaram e apontaram irregularidades na portaria. Para a Conectas Direitos Humanos, a decisão dá margem para decisões arbitrárias.

“Diante de uma acusação, qualquer pessoa, seja brasileiro ou migrante, tem o direito de apresentar sua defesa perante um juiz. Na prática, o que esta portaria faz é restringir este direito, estabelecendo um prazo curto para que o migrante constitua e apresente sua defesa”, afirmou Camila Asano, coordenadora de programas da instituição.

Também por meio de nota, a ABA (Associação Brasileira de Antropologia) repudiou a Portaria 666 e afirmou que ela traz de volta o fantasma do Estatuto do Estrangeiro – legislação migratória da época da ditadura militar, que via o migrante como potencial ameaça à soberania nacional. Essa norma só foi revogada pela Lei de Migração, em 2017.

“Além de restaurar, atualizar e até extrapolar o malfadado Estatuto do Estrangeiro, da época da ditadura, a Portaria 666 – ao evocar as “novas ameaças” estabelecidas pela comunidade internacional, como o narcotráfico, o terrorismo, o tráfico de pessoas e de ilícitos e até a pornografia ou exploração sexual infanto/juvenil – trata a priori migrantes como pessoas perigosas e suspeitas de praticar atos que contrariam a Constituição Nacional, sujeitas à deportação em função do enquadramento seja na lei antiterrorista (no. 12.360/2016), ou naquela referente ao crime organizado (lei no. 12.850/2013)”, diz trecho da nota.

Há também preocupação quanto à imposição de sigilo antecipado sobre todos os processos sob o argumento de preservar informações sigilosas e investigações internacionais.

De acordo com a coordenadora da Conectas, a portaria contraria também a Lei de Acesso à Informação (12.525/2011) e cria entraves para a transparência e análise de atos do governo pela sociedade civil.

“Essa previsão de sigilo enseja preocupações sobre se o deportando e sua defesa terão acesso a todas as acusações e informações do processo para se defender”, finaliza Asano.

“A portaria prevê um sigilo para motivações de restrições que é absolutamente inconstitucional e ilegal”, reforça Vasconcelos.

Glenn Greenwald

A Portaria 666 sai em meio em meio às divulgações do site The Intercept Brasil, que revelou, em trocas de mensagens privadas entre o ex-juiz da Lava Jato e procuradores da força tarefa, ingerência do atual ministro da Justiça sobre as investigações da operação.

Diversos veículos de comunicação associaram a publicação da portaria a uma resposta de Moro ao jornalista Glenn Greenwald, idealizador do portal. Ele é cidadão dos Estados Unidos, mas mora no Rio de Janeiro e é casado com o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), com quem tem dois filhos adotivos – ambos nascidos no Brasil.

“Há um sensacionalismo da grande mídia em associar diretamente a Portaria com a possibilidade de deportação sumária do Glenn, mas ela trata de deportação sumária apenas dentro do escopo de pessoas inadmitidas, que não é o caso do Glenn que reside em território nacional”, pontua o ProMigra, projeto de extensão vinculado à Faculdade de Direito da USP e voltado à promoção, conscientização e efetivação dos direitos de migrantes.

Leia também: Portaria sobre deportação é ilegal e afronta direitos, dizem especialistas (Conjur)

Brasil tem 161 mil solicitações de refúgio aguardando análise

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Funcionário do ACNUR orienta sobre os procedimentos para a solicitação de refúgio e registra casal venezuelano em abrigo em Boa Vista. Crédito: Reynesson Damasceno/ACNUR - jan.2018

Entre os pedidos feitos em 2018, 3 em cada 4 são de venezuelanos, segundo relatório; Conare reconheceu 777 refugiados no ano passado

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

Impulsionado pela migração venezuelana, o Brasil possui atualmente 161 mil solicitações de refúgio aguardando análise do governo. Só em 2018, foram 80.057 pedidos de diferentes nacionalidades, sendo que três em cada quatro delas (61.681, ou 77% desse total) foram feitas por cidadãos da Venezuela.

Estes são alguns dos dados da quarta e mais recente edição do relatório Refúgio em Números, divulgado nesta quinta-feira (25) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, feito a partir de informações do Conare (Comitê Nacional para Refugiados), ligado ao ministério, e do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).

Crédito: Reprodução/Relatório Refúgio em Números

Clique aqui para acessar o relatório completo

De acordo como levantamento, até dezembro de 2018 o Brasil já havia recebido 85.438 solicitações de refúgio de venezuelanos.

Principal porta de entrada dos venezuelanos no Brasil, o estado de Roraima recebeu 63% dos novos pedidos de refúgio no ano passado. Em seguida, aparecem Amazonas (13%), São Paulo (12%) e Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina (2% cada).

Em relação à edição anterior do relatório, as solicitações de refúgio de venezuelanos cresceram 245% – foram 17.865 realizadas em 2017.

A tendência em relação aos venezuelanos no Brasil já havia sido antecipada pelo relatório Tendências Globais, divulgado em junho passado pelo ACNUR. Nele, o Brasil figurou como sexto país que mais recebeu pedidos de refúgio no mundo em 2018, embora a população reconhecida como refugiada no país ainda seja pequena em relação ao contexto global – veja mais no final do texto.

Em maio passado, a ONU pediu à comunidade internacional que reconheça os venezuelanos como refugiados. A diáspora venezuelana é estimada pelas Nações Unidas em pelo menos 4 milhões de pessoas.

Em 14 de junho deste ano, o próprio Conare reconheceu a Venezuela como local de “grave e generalizada violação de Direitos Humanos” – a resolução é válida por 12 meses, podendo ser prorrogada ou revista a qualquer momento.

“A decisão possibilita, a partir de agora, a adoção de procedimento simplificado no processo de determinação da condição de refugiado para nacionais venezuelanos, mas não dispensa os interessados da entrevista de elegibilidade”, segundo a assessoria de comunicação do Ministério da Justiça.

O Conare analisou 13.084 processos em 2018. O comitê reconheceu 777 pessoas como refugiadas – sendo que apenas cinco delas eram venezuelanas – e outros 309 obtiveram reconhecimento por meio de extensão dos efeitos da condição de refugiado. Por outro lado, indeferiu outros 888 pedidos, extinguiu 3.494 solicitações e 2.165 foram arquivadas. E a maior parte deles (4.968) foram indeferidos pelo CNIg (Conselho Nacional de Imigração).

O comitê informa que algumas pessoas solicitaram desistência do pedido de reconhecimento da condição de refugiado, enquanto outras obtiveram residência temporária – gerando a extinção do pedido. E foram arquivadas as solicitações de quem deixou o país sem comunicar o Conare ou por período superior a 90 dias.

Informação obtida com exclusividade pelo portal UOL, no entanto, aponta que neste ano 176 venezuelanos já foram reconhecidos como refugiados – o dado não consta no relatório divulgado nesta quinta-feira porque ele se refere ao balanço de 2018.

Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista. Crédito: ONU

Medidas anunciadas

Além do reconhecimento da situação na Venezuela e da possibilidade de regularização por meio de residência temporária, o governo brasileiro cita o sistema Sisconare, lançado em abril deste ano, como uma das saídas para agilizar a apreciação das solicitações de refúgio e reduzir o passivo.

Por meio da plataforma são apresentadas e tramitadas as solicitações de reconhecimento da condição de refugiado – tanto as novas quanto as já existentes. “Além de otimizar a análise dos processos, o sistema proporciona mais celeridade por parte do Estado às respostas dos interessados, possibilitando mais transparência na tramitação dos processos ao permitir que o solicitante possa identificar em que fase está o seu pedido”, informa o ministério.

Também foi anunciada pelo ministério nesta quinta-feira a Plataforma Interativa de Decisões sobre Refúgio, em parceria com o ACNUR, para analisar e publicar dados referentes às decisões tomadas pelo Conare. A ferramenta permite a visualização de dados em gráficos e tabelas dinâmicas.

“A parceria [entre] ACNUR e Conare para compilação de dados já deveria ter sido formalizada há tempos! Isso vai ajudar a traçar estratégias e um maior diálogo das perspectivas globais e locais de refúgio”, pontua a advogada Carla Mustafa, vice-presidente da Comissão do Direito do Refugiado, do Asilado e da Proteção Internacional da OAB-SP.

O governo também cita como formas de agilizar o processo a realização de parcerias com organismos internacionais e sociedade civil para orientação dos solicitantes de refúgio, e com instituições públicas – como a Defensoria Pública da União e Advocacia-Geral da União – para mutirões de entrevistas presenciais e à distância com os migrantes. A medida também é citada por positiva pela advogada.

“A possibilidade de mutirões, facilitação no agendamento das entrevistas e videoconferência são alternativas viáveis, desde que garantam todos os direitos dos solicitantes”.

Mesmo havendo a regularização via acordo de residência, a solicitação de refúgio ainda é o meio mais usado pelos venezuelanos, mesmo que a pessoa não reúna os requisitos para ser reconhecida como refugiada.

Para Mustafa, além da garantia de proteção do refúgio, a mudança na legislação migratória brasileira e nas portarias específicas sobre a migração de venezuelanos são recentes e nem sempre há informação para essas pessoas de outras formas de regularização.

“A desinformação, o receio de ser expulso e até mesmo a possibilidade de perda da gratuidade para se regularizar ainda motivam a solicitação de refúgio, apesar de nem todos os casos serem elegíveis nas hipóteses de concessão de refúgio”.

Refugiados no Brasil

Desde 1997, quando entrou em vigor a lei brasileira de refúgio, o Estado brasileiro já reconheceu 11.231 pessoas como refugiadas. Atualmente 6.554 indivíduos contam com esse status ativo – não há detalhes no relatório sobre os motivos para o fim de condição de refúgio, mas fatores como falecimento, mudança para outro país e naturalização estão entre as possibilidades.

Entre os refugiados já reconhecidos como tal pelo governo brasileiro, mais da metade (51%) são sírios – que representam também a nacionalidade com maior número de solicitações deferidas pelo Conare. Na sequência aparecem  República Democrática do Congo (17%), Paquistão (5%), Palestina (5%) e Cuba (4%).

Crédito: Reprodução/Relatório Refúgio em Números

Na série histórica, os sírios também foram a maior comunidade de refugiados reconhecidos pelo Brasil (40%), seguidos de congoleses (14%), colombianos (4%), palestinos (4%) e paquistaneses (4%).

Mesmo com o crescimento expressivo das solicitações, o Brasil ainda está longe de figurar entre os países com mais refugiados no mundo – os cinco maiores receptores atualmente são Turquia (3,7 milhões), Paquistão (1,4 milhão), Uganda (1,2 milhão), Sudão (1,1 milhão) e Alemanha (1,1 milhão).

ONGs anunciam retomada de resgates de migrantes no Mediterrâneo

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Barco Ocean Viking, utilizado para operações de salvamento de migrantes à deriva no mar Mediterrâneo. Crédito: Anthony Jean/SOS Mediterranee

Com nova embarcação, Médicos Sem Fronteiras e SOS Mediterranee vão reiniciar operações até o final do mês 

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

As organizações não-governamentais Médicos Sem Fronteiras (MSF) e SOS Mediterranee anunciaram no último domingo (21) a retomada das operações de resgate de migrantes à deriva no mar Mediterrâneo.

“Estamos voltando ao mar porque as pessoas estão se afogando. Estamos voltando ao mar como um ato humanitário para salvar vidas”, disse a presidente internacional de MSF, Joanne Liu, durante pronunciamento em Paris sobre a decisão.

As atividades estavam suspensas desde o final de 2018, quando o navio Aquarius foi privado de sua bandeira de Gibraltar e, mais tarde, do Panamá. Em três anos, a embarcação ajudou a resgatar 3 mil migrantes do Mediterrâneo.

No anúncio do fim das operações do Aquarius, as duas instituições afirmaram que já vinham buscando meios de retomar as operações em 2019.

O substituto do Aquarius é o Ocean Viking, de bandeira norueguesa. De acordo com as entidades, ele foi concebido como uma embarcação de apoio à atividade petrolífera e está preparado para grandes operações de salvamento. Com 69 metros de comprimento e 15,5 metros de largura, o Ocean Viking tem capacidade para abrigar até 200 sobreviventes a bordo.

“Também continuaremos a denunciar e falar sobre o que está acontecendo fora dos olhos do público e as consequências das escolhas feitas pelos governos europeus em nome da gestão da migração. E não estamos sozinhos: a sociedade civil em toda a Europa está se mobilizando, na França e na Alemanha, assim como na Itália”, completou a presidente de MSF.

A retomada das atividades no Mediterrâneo acontece poucas semanas após a prisão e soltura da alemã Carola Rackete, 31, capitã do barco Sea Watch 3, no embate mais recente entre ações humanitárias e as políticas anti-imigração adotada por diversos países europeus. Depois de ficar 17 dias à deriva aguardando uma resposta do governo italiano, que tem fechado seus portos para navios de resgate, Carola decidiu desembarcar migrantes resgatados do Mediterrâneo na ilha de Lampedusa.

O navio humanitário Sea Watch-3, que esteve no centro de outro embate entre ações humanitárias e políticas anti-imigração na Europa. Crédito: Creative Commons

Líderes europeus – especialmente os alinhados com a direita e extrema direita – afirmam que as operações de salvamento servem como incentivo para novas travessias no Mediterrâneo.

“Dizer que são as embarcações de salvamento que incitam as travessias é falso. Mesmo sem os navios, as saídas continuam”, rebate Frédéric Penard, diretor de operações da SOS Mediterranée.

Junto com a volta das atividades, a SOS Mediterranee lançou também uma campanha para arrecadação de recursos a serem empregados nas operações de resgate. Cada dia no mar custa 14 mil euros, segundo a ONG.

“Agora mais do que nunca nós pedimos o apoio dos cidadãos europeus. Nos permita cumprir nossa missão: salvar vidas”, escreveu a SOS Mediterranee em seu perfil no Twitter.

O Mediterrâneo é a rota migratória mais letal da atualidade. De acordo com o Missing Migrants Project, da OIM (Organização Internacional para as Migrações), até esta segunda-feira (22) ele concentrava 47% (683) das mortes em travessias migratórias neste ano (1.434).

8º Festival de Música e Poesia do Imigrante recebe inscrições até 15 de agosto

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Participantes de diferentes nacionalidades se apresentam anualmente no Festival de Música e Poesia do Imigrante, em São Paulo. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - ago.2018

Evento acontece em 1º de setembro, em São Paulo; candidaturas podem ser feitas pessoalmente ou pela internet

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

Imigrantes que vivem em São Paulo e região já podem enviar candidaturas para a oitava edição do Festival de Música e Poesia do Imigrante – o prazo final é 15 agosto.

O evento é promovido pelo CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), em parceria com a Feira Kantuta, e acontece no próximo dia 1º de setembro, a partir das 12h, na Praça Kantuta – próxima à estação Armênia do metrô de São Paulo e ponto bem conhecido das comunidades migrantes da cidade.

O objetivo do festival é abrir espaço para toda a comunidade migrante – seja artistas e poetas já formados, seja pessoas que nunca se apresentaram em em público ou sequer pensavam em escrever uma poesia. O importante é usar a arte para compartilhar sobre sua experiência como imigrante.

As inscrições podem ser feitas pessoalmente na sede do CAMI – Alameda Nothmann, 485, Campos Elíseos, São Paulo – ou pela internet, por meio de formulário disponível neste link.

Para este ano o lema é “Por Direitos Iguais: Não me julgue antes de me conhecer!”, semelhante ao adotado pela Marcha dos Imigrantes de 2018. As poesias e canções inscritas devem ser inéditas e abordar pelo menos um desses temas:

  • Promoção do trabalho digno;
  • Pela igualdade de gênero;
  • Pelo fim da discriminação e da xenofobia;
  • Fronteiras livres

O CAMI informa que, ao se inscrever no festival, o candidato concorda que a obra postulada é inédita e de sua autoria, e também permite o uso de sua imagem para divulgação do evento nas mídias sociais, informativos e veículos de informação da instituição.

O festival distribui prêmios que vão de R$ 100 a R$ 500 para as poesias e músicas mais bem avaliadas.

Banner oficial do 8º Festival de Música e Poesia do Imigrante.
Crédito: Divulgação

Vencedoras de 2018

Em 2018, 23 candidatos apresentaram trabalhos no festival. O prêmio de melhor poesia ficou com Florência Manzoni Roca, transformista representada pelo boliviano Remberto Suárez Roca, que abordou tratou questões como diversidade de gênero e tudo que enfrenta como imigrante e ativista. Foi a sua primeira poesia autoral – veja abaixo um trecho da composição premiada:

“Basta de explotarme!
Basta de humillarme!
De discriminarme! Reclame!
Donde están mis documentos?
Porque no me aceptan?
Porque no me respetan?
O será que es por mi gênero?…
Muchas mujeres son muertas aqui em Brasil por feminicidio!
Son Matratadas! Traficadas! Com crueldad!…
Como artista e transformista quiero dar um grito de visibilidad
que gracias ahora aqui mi ¡transformidad!
Quiero dar amor e alegria y paz para toda mi comunidad”

Florência Roca, transformista vivida pelo ativista boliviano Remberto Roca

Na categoria música, a premiada no ano passado foi a cantora chilena Renata Fernanda Espoz Verez, que falou sobre pertencimento e ter liberdade de cruzar fronteiras.

“Vamos a conversar sobre las fronteras
Tu vives alá… yo vivo acá
Pero yo no naci aqui
Mis raíces estan cruzando la frontera, lejos de aqui
Yo quiero tener la liberdade de poder ama, donde yo quiera estar…”

Renata Verez, cantora chilena
Renata e Florência, as vencedoras do 7º Festival de Música e Poesia dos Imigrantes. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – 26.ago.2018

Livro discute 42 filmes que tratam de migrações transnacionais

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Capa do livro "Guia de Cinema e Migrações Transnacionais", disponível em formato digital. Crédito: Reprodução

Disponível em e-book para download gratuito, “Guia de Cinema e Migrações Transnacionais” reúne colaborações de pesquisadores e ativistas do Brasil e do exterior

Do MigraMundo
Em São Paulo

Como as migrações têm influenciado produções no cinema? O “Guia de Cinema e Migrações Transnacionais”, livro recém-lançado em formato e-book pela editora da UFRR (Universidade Federal de Roraima), ajuda a dar uma ideia.

Disponível para download gratuito (clique aqui para acessar e baixar) no site da editora, a obra reúne textos com comentários e análises sobre 42 produções nacionais e do exterior sobre migrações transnacionais. Ao final, outros 29 filmes também têm seus nomes citados.

Os autores dos textos são pesquisadores e ativistas nacionais e internacionais convidados que atuam no âmbito das migrações. A organização do livro ficou por conta dos pesquisadores Denise Cogo e Rafael Tassi Teixeira, ambos com longo histórico de colaborações em relação à temática.

A escolha dos 42 filmes é fruto de uma pesquisa de dois anos que analisou um total de 1.200 produções sobre a temática migratória. Todos os selecionados se encaixam em um recorte que contempla obras lançadas a partir da década de 1990 e nas quais a migração transnacional seja central na linha narrativa.

Segundo o texto de apresentação da obra, a escolha dos longas para a publicação buscou ainda “evidenciar como diferentes países produzem narrativas no cinema sobre as transformações geopolíticas globais e dinâmicas socioculturais, políticas, econômicas e comunicacionais contemporâneas, em que se articulam passado e presente, próximo e distante, familiar e estranho”.

Muito mais do que momentos de entretenimento, sofá e pipoca, filmes como esses têm potencial para chamar a atenção para a migração, um fenômeno histórico e cotidiano que cada vez mais se faz presente mundo afora.

Parte dos 71 filmes mencionados ou analisados pela obra também constam de uma lista com mais de 80 prduções sobre migrações que está disponível no MigraMundo. Outras produções devem expandir essa lista em breve.

“Coletes pretos” em Paris protestam por papéis e moradia para imigrantes sem documentos

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"Coletes Pretos" ocupam o Panthéon, em Paris, reivindicando direitos para imigrantes indocumentados na França. Crédito: Reprodução/Twitter

Migrantes se reuniram no Panthéon no sábado pela 2ª vez em dois dias; 21 foram presos e a maioria liberada 24 horas depois

Por Victoria Brotto
De Estrasburgo (França)

Um dia antes das comemorações pela Queda da Bastilha (14 de julho), a polícia de Paris prendeu 21 migrantes durante uma manifestação no Panthéon, região central da cidade, em prol da regularização das pessoas sem documentos.

De acordo com o site RFI, o ato do sábado (13) foi organizado pelos coletivos “coletes pretos” – em alusão aos “coletes amarelos” (grupo de franceses contrários ao governo de Emmanuel Macron) – e “A Capela em pé”, que apoiam os imigrantes indocumentados.

A escolha pelo Panthéon se deu, segundo os organizadores, pelo monumento representar a luta contra a escravidão e por ser um símbolo dos grandes pensadores do iluminismo francês.

De acordo com o jornal Le Fígaro, o grupo ficou preso por 24 horas (a chamada ”detenção administrativa”) na delegacia da Quinta Vara de Paris – apenas o migrante detido por violência ficará por mais tempo na delegacia aguardando decisão judicial.

A prisão ocorreu por ”violação dos direitos de estrangeiros”, sendo que um dos migrantes fora preso por ”violência contra as forças policiais”. De acordo com o jornal francês Le Monde, o migrante compareceu perante o juiz na manhã de segunda-feira para esclarecimentos.

Após a prisão dos 21 migrantes, um grupo de manifestantes se reuniu na frente da delagacia com cartazes com dizeres como ”Liberem os coletes pretos” e ”Polícia racista”.

Outros atos

Não é a primeira vez que migrantes sem documentos se organizam para protestar por direitos. Na última sexta-feira, cerca de 700 migrantes – a maioria africanos – ocuparam o mesmo Pantheon até o começo da tarde, quando a polícia chegou, ocasionando tumulto e prisões – 37 pessoas foram presas.

Em nota publicada no fim da sexta-feira, o grupo Coletes Pretos exigiam ”papeis e casas para todos” e descreviam-se como ”os sem documentos, sem voz e sem rosto da República francesa”. Eles pediam também um encontro com o primeiro-ministro Edouard Philippe, que se manifestou na sexta-feira à noite dizendo que ”a França é um país onde as regras devem ser respeitadas.”

”A França é um Estado de Direito, em tudo o que isso implica: o respeito das regras que se aplicam ao direito de permanecer, o respeito aos monumentos públicos à memória a qual eles evocam”, afirmou Philippe.

Imigrantes em SP se tornam embaixadores culturais e promovem diversidade

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Parte dos imigrantes que compõem o projeto Raízes na Cidade, uma parceria entre Airbnb e Migraflix. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Iniciativa conjunta da plataforma Airbnb e da ONG Migraflix busca valorizar diversidade cultural da capital paulista e promover inclusão sócio-econômica dos migrantes

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

“É bom o sabor da liberdade, não é?”, brinca o haitiano Manier Sael ao oferecer a Joumou, conhecida como “Sopa da Liberdade”. O saboroso prato, que era restrito aos colonizadores franceses, se tornou um dos símbolos da revolução haitiana – que levou o país caribenho à independência em 1º de janeiro de 1804 – e costuma ser servido nessa data também como forma de começar bem o Ano-Novo.

Essa e outras experiências que permitem verdadeiras imersões na história e na cultura de diferentes países podem ser prestigiadas em São Paulo por meio do projeto Raízes na Cidade, uma parceria da plataforma Airbnb com a ONG Migraflix.

Ao longo de três meses, 50 imigrantes – incluindo pessoas em situação de refúgio – de 20 países foram selecionados pelo Migraflix e passaram por um curso de capacitação para se tornarem empreendedores culturais e anfitriões da categoria de Experiências do Airbnb, oferecendo atividades culturais relacionadas às suas histórias de vida e de seus países.

Joumou, conhecida como “Sopa da Liberdade”, faz parte da experiência cultural oferecida pelo haitiano Manier Sael.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Ao final do curso, uma nova seleção destacou 20 propostas para integrar a área de Experiências do Airbnb – clique aqui e veja as opções disponíveis. O leque é amplo e contempla áreas como gastronomia, dança, música, pintura, artesanato – e até mesmo dois ou mais desses elementos.

Os valores das experiências culturais variam de R$ 40 a R$ 130 por pessoa – a renda obtida é 100% direcionada para os imigrantes.

Dez dessas experiências culturais foram selecionadas para uma demonstração oferecida para convidados em uma casa preparada pelo Airbnb no último dia 2 de julho, na capital paulista.

Novos olhares, novas conexões

“Acreditamos profundamente no capital humano que essas pessoas representam. A hora que eles fazem convites a outros para vivenciar essas experiências, acima de tudo, estão construindo diálogo e novas formas de se comunicar. Estão construindo uma nova forma de convivência e de construção de sociedade”, afirma a vice-diretora do Migraflix, Camila Batista, sobre as experiências culturais oferecidas pelos imigrantes.

Esse sentimento é compartilhado pelos imigrantes que estão na plataforma. É a partir de um brunch que a venezuelana Yilmary de Perdomo escolheu mostrar um outro lado de seu país e abrir novas portas para seu projeto gastronômico.

“[Estar no Airbnb] Representa uma janela a mais para meu trabalho. E também para mostrar que a Venezuela tem coisas muito boas”.

A venezuelana Yilmary de Perdomo, que fala de seu país por meio da gastronomia.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Com sua oficina, a boliviana Marcia Elizabeth resgata a tradição do bordado em bastidor que é aplicado nos trajes de dançarinos de diferentes danças folclóricas de seu país.

“Você pode ir a qualquer lugar do mundo. Só não pode esquecer de onde veio”, afirma ela, citando um ditado da cultura aymara.

Da República Democrática do Congo, o artista plástico Duchelier Mahonza mostra o design dos tecidos africanos e ensina técnicas de pintura típicas do país. “Falar de tudo isso nos ajuda a mostrar nosso conhecimento e mostrar que nós também existimos”.

Na seara musical, uma das opções é a sul-africana Nduduzo Siba. “Quero levar a dança e música zulu para o mundo”, sintetiza ela sobre sua etnia, uma das diversas que compõem o país natal.

Já a arqueóloga síria Yamam Saad oferece comidas típicas de seu país para mostrar o antes e depois da capital e sua cidade natal, Damasco. “Não quero mostrar um páis destruído, quero mostrar o outro lado”.

Viajar e morar fora do país pode nos transformar, diz autora brasileira migrante

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A escritora braslleira Manuela Marques Tchoe, autora do livro Ventos Nômades. Crédito: Divulgação

Livro Ventos Nômades, da baiana Manuela Marques Tchoe, reflete parte das experiências da própria autora fora do Brasil, além de defender a diversidade cultural

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

Viver choques culturais, se deparar com medos e fraquezas pessoais, desenvolver novas habilidades: estas são apenas algumas das experiências possibilitadas pela vivência no exterior – seja como residente em um outro país, seja como um simples viajante.

Contar essas experiências de um forma leve e poética é o que busca a escritora brasileira Manuela Marques Tchoe por meio do livro “Ventos Nômades” – disponível para e-book e em formato impresso.

Em dez contos, a baiana que nasceu em Salvador e vive desde 2005 no sul da Alemanha – mais exatamente em Munique – mescla experiências que ela própria viveu como migrante com relatos de amigos, além de dar asas à própria imaginação.

“Com esse livro eu quis falar de experiências humanas e de como viajar, morar fora do nosso país de origem, pode nos transformar. Ventos Nômades é apenas uma forma mais poética de contar essas histórias”, conta a autora, que também colabora mensalmente com o MigraMundo como colunista e mantém o blog Baiana da Baviera.

Em entrevista ao MigraMundo, Manuela também cita que usa seus textos para rebater a xenofobia e dar um olhar migrante para as discussões sobre o tema.

“Quando muita gente fala de migração, muitos não têm experiência como migrantes, nem os fatos necessários para uma discussão racional sobre o tema. Com meus textos, eu procuro dar a perspectiva do migrante e mostrar que, no mundo globalizado de hoje, a diversidade cultural é algo a ser intensificado, ao invés de combatido com tanta agressividade”.

Capa do livro “Ventos Nômades”, de Manuela Marques Tchoe.
Crédito: Reprodução

MigraMundo: Por que a escolha pelo nome “Ventos Nômades” para seu livro?
Manuela Marques Tchoe: Ventos são nômades por natureza, estão sempre percorrendo o mundo. Eles não ficam parados, num só lugar. Com todos nós é assim também; viver é movimento, independentemente de onde estejamos. Com esse livro eu quis falar de experiências humanas e de como viajar, morar fora do nosso país de origem, pode nos transformar. Ventos Nômades é apenas uma forma mais poética de contar essas histórias.

De onde veio a inspiração para escrever os contos?
De início eu queria escrever um romance que tivesse como inspiração o meu primeiro ano na Alemanha, que foi repleto de viagens, choques culturais e descobertas. Mas então pensei que num romance seria difícil abordar tantas histórias e lugares, por isso optei por contos, para que a imaginação pudesse fluir. Escrever contos me deu a liberdade de construir histórias completamente diferentes em cenários e culturas distintas.

Você já viveu alguma das histórias descritas nos contos?
Com certeza! Algumas situações vividas foram a base para algumas histórias. “Tempestade de Areia”, por exemplo, foi baseado num relacionamento que tive com um egípcio e todas as diferenças culturais que tivemos. “Olho no Olho, Polvo com Repolho foi criado a partir das lembranças de quando conheci a família coreana de meu marido num restaurante asiático, as reações de minha sogra e seus dilemas. “Milagres na Praça dos Reis” e “Milagres na Terra dos Orixás”, contam da ida para a Alemanha e os choques culturais, assim como o retorno para casa e o choque cultural reverso, que foram sensações reais para mim e muitas das pessoas que eu conheço.

Dos contos, tem algum que te chamou mais a atenção? Qual o seu favorito e  por quê?
O meu preferido seria À Sombra da Cerejeira, que conta a história de uma mulher mais velha que recomeça a sua vida a partir de um novo relacionamento. Não é uma história auto-biográfica, mas penso como é forte essa questão de recomeçar quando se acha que a vida não guarda mais surpresas. A viagem que essa personagem faz a leva a Portugal, a terra de seus ancestrais, num processo de redescoberta.

Viajar e morar fora do país são experiências transformadoras, segundo a autora brasileira. Crédito: Jan Vašek/ Pixabay

Depois de escrever o livro, como foi o processo para encontrar uma editora disposta a publicá-lo?
O mercado literário no Brasil é muito complicado e não foi fácil. Mandei o manuscrito para diversas editoras e… nada. Cheguei a fazer uma autopublicação, porque além de nem receber respostas, queria aprender como esse esquema funciona. Aprendi muito nesse processo.

Eventualmente, como sou uma autora novata, eu vi que seria difícil publicar entre as grandes editoras e apostei numa editora pequena. Apesar de alguns percalços, o livro foi publicado e foi bem recebido pelos leitores. 

Mas não basta publicar e esperar que o livro venda por si só. O escritor brasileiro tem que fazer muito mais que escrever bons livros para ser reconhecido no mercado.

Tem algum autor ou gênero em específico no qual você se espelha para escrever? 
Como leitora sou bastante eclética, mas confesso que tenho uma quedinha por livros que se ambientam em locais fascinantes, relatos de viagem, etc. Mas também gosto muito de clássicos latino-americanos como Isabel Allende, que se tornou um dos ícones do realismo mágico. A Casa dos Espíritos é um dos meus livros favoritos, além de Como Água para Chocolate da escritora mexicana Laura Esquivel. 

A autora brasileira Leticia Wierzchowski para mim é também inspiradora – seus livros são poéticos e impossíveis de largar, como A Casa das Sete Mulheres.

O que significa para você, como migrante, escrever sobre migração – seja em seu blog, seja em sites com os quais colabora, seja em livros?
Migração é um assunto riquíssimo e pelo qual tenho grande fascinação. Mas também é um tema controverso, que para muita gente se tornou uma caça às bruxas. Por isso, é um tema que escrevo não só porque me fascina, mas porque é importante de ser abordado e discutido

Quando muita gente fala de migração, muitos não têm experiência como migrantes, nem os fatos necessários para uma discussão racional sobre o tema. Com meus textos, eu procuro dar a perspectiva do migrante e mostrar que, no mundo globalizado de hoje, a diversidade cultural é algo a ser intensificado, ao invés de combatido com tanta agressividade.

Quais seus projetos futuros para a literatura?
Estou lançando um novo livro – dessa vez um romance – chamado Encontro de Marés. Esse livro conta a história de mãe e filha que se desencontram pela vida. Sempre quis escrever um livro com um caráter social, então explorei o tema da prostituição infantil na obra. Mas também tem a questão da procura pela identidade e a interculturalidade, o misticismo da Bahia, um pouco da violência do Rio. Mostra um pouco das diferenças culturais entre Brasil e Alemanha, também.

Ventos Nômades
Autora: Manuela Marques Tchoe
Editora Pendragon
e-book: R$ 8,90; impresso: a partir de R$ 19,90






Migração já vira tema da eleição presidencial de 2020 nos EUA

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EUa México muro anistia internacional
Barreira na fronteira entre México e EUA, entre Tijuana e San Diego. (Crédito: Anistia Internacional)

Assim como em 2016, fluxo migratório é um dos pontos nevrálgicos do debate entre republicanos e democratas

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá o pontapé inicial no jogo que abre a corrida eleitoral à Casa Branca. E da mesma forma que na campanha eleitoral de 2016, o tema das migrações aparece novamente como um dos pontos nevrálgicos nos debates a serem travados entre os candidatos republicanos e os democratas.

O editorial do Jornal O Globo, na data de 20/06/2019, pág. 2, afirma que “Donald Trump decidiu transformar tarifas alfandegárias em instrumento da política de segurança nacional. Um dos pretextos é tentar inibir o fluxo migratório da América Central aos Estados Unidos, via México. Notável coincidência, essa é uma das bandeiras eleitorais de Trump na sua campanha pela reeleição”. A verdade é que a teimosia insana na construção do famigerado muro na fronteira entre EUA e México, que paralisou por boas semanas a máquina administrativa, já vinha preparando o cenário para o pleito.

De resto, não foi diferente o que ocorreu nas recentes eleições ao Parlamento europeu. Também nesse caso, prevaleceu a retórica nacional-populista dos que, como o vice-premiê da Itália, ministro do Interior e Eurodeputado Matteo Salvini, defendem o fechamento dos portos e das fronteiras. Desde alguns anos, a União Europeia sustenta um pacto com a Turquia e a Líbia, no sentido de que esses dois países retenham o fluxo nutrido de refugiados, migrantes e prófugos, em troca de investimentos europeus. Tais investimentos, teoricamente, deveriam servir para melhorar as condições de vida nos países pobres de origem, evitando assim a sangria da população. Mas, boa parte das verbas ou acaba engordando os cofres dos governos ditadores, ou cai nas mãos de milícias bélicas.

Nos dois casos, o que se verifica é um aumento da violência, seguida de novas fugas em massa. Instala-se, desse modo, um círculo vicioso que só faz aumentar tragicamente a mobilidade humana da África, Oriente Médio e Ásia em direção ao velho continente.

Escreve ainda o mesmo articulista: “A impulsividade de Trump nas ações anti-imigração tem razões eleitorais e um potencial de reflexos negativos duradouros” (Idem). As motivações eleitorais, como é fartamente conhecido e notório, mergulha suas raízes profundas na onda do nacionalismo popular que vem varrendo o planeta. Atualmente as campanhas eleitorais, com a assessoria dos melhores peritos do marketing, sabem como manipular e instrumentalizar o medo, a ameaça e a insegurança que o estrangeiro supostamente representa para o conjunto da nação. Numa primeira etapa, lançam as sementes altamente fecundas do medo, misturando de forma propositada migração e terrorismo. A fórmula é simples e habilmente simplificada: basta tomar alguns casos isolados e localizados, divulgá-los ampla e repetidamente, sempre de forma sensacionalista e espetacular. Uma vez que o medo constitui uma das coisas mais contagiosos e epidêmicas, generaliza-se, dessa maneira, o sentimento de fobia para com o “outro, o estranho, o diferente”. O estrangeiro converte-se em “bode expiatório” de todos os males!

A xenofobia e a discriminação, provocadas, orquestradas e/ou amplificadas, revertem em farta colheita de votos para os candidatos de índole nacional-populista. No caso de Trump (e de outros), porém, a intolerância vai bem mais longe. O artigo citado alerta para “um potencial de reflexos negativos duradouros”. Entre estes últimos, convém sublinhar os riscos embutidos no pacote para a desestabilização da economia mexicana e do Caribe, com evidentes reflexos para os países do sul do continente americano. A nosso ver, porém, outro perigo se expande aberta ou subrepticiamente nas asas dos ventos autoritários e truculentos. Tanto no discurso quanto no comportamento e nas medidas de certos políticos de extrema direita, há fortes indícios de ódio supremacista. Neste caso, a raça branca defende uma superioridade sobre os demais povos e etnias, requisitando ao mesmo tempo o direito ao espaço vital para a sobrevivência dos seres humanos supostamente melhores e mais aptos. Beiramos aqui as águas turvas, torvas e tumultuosas do nazifascismo e da Ku Klux Klan, movimentos que defendiam (e defendem) correntes reacionárias e extremistas, bem como a supremacia branca.

Caso de capitã que resgatou migrantes exemplifica embate contra políticas anti-imigração na Europa

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A capitã alemã Carola Rackete, do navio Sea Watch 3, que bateu de frente com a política anti-imigração italiana. Crédito: Till Egen/Sea-Watch

Carola Rackete foi presa na madrugada do dia 29 – e libertada nesta terça – por ter desembarcado em Lampedusa, sem permissão, 42 migrantes resgatados no Mediterrâneo

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

A alemã Carola Rackete, 31, capitã do barco Sea Watch 3, foi libertada nesta terça-feira (2) pela Justiça italiana. Ela tinha sido presa no último dia 29 depois que desembarcou 42 migrantes resgatados no mar Mediterrâneo no porto da ilha de Lampedusa, na Itália.

A prisão de Carola repercutiu nas redes sociais, com slogans à favor da agente humanitária, e provocou reações de outras ONGs. Oito delas publicaram um manifesto no jornal francês Le Monde na tarde de terça, afirmando que a prisão da alemã seria ”uma infração ao direito marítimo, das convenções de Genebra de 1951 e do direito dos refugiados”.

O vice-premiê e ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, por sua vez afirmou em sua conta no Facebook ”se tratar de uma delinquente, que infringiu as leis italianas e que deve ser julgada pelos seus atos.” E prometeu ainda expulsar a capitã alemã.

Já Carola rebate. “Minha vida tem sido fácil, pude cursar de três universidades, me formei com 23 anos. Sou branca, alemã, nascida em um país rico e com o passaporte certo. Senti a obrigação moral de ajudar aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eu”, contou a capitã, em entrevista ao jornal italiano La Reppublica.

Desde 2015, a Europa já recebeu mais 600 mil pessoas que cruzaram o mar Mediterrâneo fugindo de guerras e outras violências, principalmente no Norte da África e no Oriente Médio. Por falta de rotas regulamentadas, as pessoas são obrigadas a tomar caminhos mais perigosos para fugir de seus países.

Quanto mais fechadas as leis de imigração de um país, maior o lucro de coiotes, é o que mostra um estudo feito pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento de Políticas Migratórias divulgado pelo MigraMundo no mês passado.

A Itália é exemplo dessa postura mais restrita em relação às migrações. Desde o fim de 2017, o governo italiano fechou os seus portos para os navios humanitários de resgate de migrantes, afirmando que o pais estava sobrecarregado com pedidos de asilo, pela regulamentação europeia sobre o tema e pela falta de cooperação entre os países europeus.

Em 2018, de acordo com o relatório Tendências Globais, do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), a Itália recebeu 48 mil solicitações de refúgio – menos da metade do registrado no ano anterior, já como consequência da nova política migratória italiana.

17 dias à deriva

A capitã do barco humanitário Sea Watch 3 decidiu desembarcar depois de ter ficado 17 dias com o barco à deriva esperando uma decisão do governo italiano se poderia ou não atracar em Lampedusa com os migrantes resgatados.

O navio humanitário Sea Watch-3, que esteve no centro do novo embate entre ações humanitárias e políticas anti-imigração na Europa.
Crédito: Creative Commons

Após atracar, ela foi presa por agentes da porto de Lampedusa e encaminhada à prisão domiciliar. Rackete é investigada por supostamente ter desobedecido a navios de guerra italianos, por resistência a estes e por entrar sem autorização em águas italianas, crimes que podem levar a penas de 3 a 10 anos de prisão, noticiou a agência de notícias Efe.

Na tarde de terça, depois de interrogada pelo tribunal de Agrigento (Sicília), Carola foi libertada por ordem da Justiça italiana. Em sua decisão, a juíza Alessandra Vella considerou que Carola estava cumprindo o seu dever de proteger vidas e, portanto, não cometeu ato de violência.

Ainda de acordo com a magistrada, a capitã não tinha alternativa além do porto de Lampedusa, no Sul italiano, porque os portos da Líbia e da Tunísia não são seguros para o desembarque de imigrantes  e refugiados.

Mais uma dentre 158 prisões

A prisão da capitã do barco Sea Watch 3 não é a primeira feita por autoridades europeias contra pessoas que atuam em questões humanitárias que batem de frente contra as políticas de restrição aos fluxos migratórios no continente.

De acordo uma pesquisa feita pela Plataforma Social de Investigação sobre Migração e Asilo (leia aqui o documento), entre maio de 2015 e maio de 2019 foram 158 pessoas presas ou processadas por ajuda ”ilegal a migrantes em 11 países europeus” – os que encabeçam a lista de prisões e processos são Grécia e Itália. Dentre os presos e/ou processados, estão médicos e agentes humanitários, como Carola.

As autoras da pesquisa relatam um aumento no número de prisões, chegando ao dobro em 2018 em comparação com o ano anterior, chegando a 24 casos com 104 pessoas presas.

Apoio à capitã presa

Alguns líderes mundiais expressaram o seu apoio à Rackette, como o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, assim como o seu ministro das Relacoes Exteriores, Heiko Maas e o ministro do interior francês Christophe Castaner . “Quem salvas vidas não pode ser criminalizado”, afirmou Steinmeier.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, afirmou em uma rede social sobre a capitã que “resgatar vidas humanas é uma obrigação humanitária. O resgate marítimo não deve ser criminalizado” e que agora “depende do poder judicial italiano esclarecer as acusações rapidamente”.

O ministro do Interior francês, Christophe Castaner, disse que “o fechamento dos portos é uma violação do Direito do Mar”.