OIM e DPU oferecem curso sobre migrações para pessoas que já atuam com o tema.
Crédito: Unicef
Inscrições vão até o próximo dia 8 de julho; aulas têm início em agostoe vão até final de setembro
Estão abertas até o próximo dia 8 de julho as inscrições para a quarta edição do curso de educação a distância (EaD) “Uma Introdução às Migrações Internacionais”, oferecido em conjunto pela OIM (Organização Internacional para as Migrações) e DPU (Defensoria Pública da União).
O curso é totalmente gratuito e será ministrado de 1º de agosto a 30 de setembro, por meio da plataforma da ESPDU (Escola Superior da Defensoria Pública da União). Ele é voltado para pessoas que já atuam diretamente com migrantes em situação vulnerável ou que necessitem de uma introdução sistemática ao tema da migração internacional e da governança das migrações no Brasil.
Ao todo são 300 vagas disponíveis, sendo que 50% delas são destinadas a servidores da DPU – que tem a temática migratória como um de seus eixos de atuação. Os outros 50% serão disponibilizados para integrantes da sociedade civil, poder público e de serviços universitários de assistência a migrantes ou organizações congêneres.
A OIM não aceita candidaturas individuais para esse curso – o candidato precisa estar vinculado a uma determinada organização.
Logo da OIM (IOM, na sigla em inglês).
Crédito: Reprodução
Maiores informações podem ser obtidas por meio do edital disponível no site da OIM – acesse aqui.
O cursos consistem em cinco módulos – cada um com uma avaliação parcial ao seu final e uma avaliação global ao final das atividades.
Módulo 1: Introdução às migrações internacionais e sensibilização para melhor atenção ao público migrante.
Módulo 2: Entendendo a legislação brasileira, parte 1 (nova lei de migração).
Módulo 3: Entendendo a legislação brasileira, parte 2 (legislações conexas: tráfico de pessoas e refúgio).
Módulo 4: Arquitetura da governança migratória no Brasil: principais atores institucionais
Módulo 5: As redes locais de apoio e acolhimento.
As organizações interessadas devem enviar uma mensagem para oimbrasilcursos@iom.int, indicando como assunto “Candidatura Curso EaD: NOME DA ORGANIZAÇÃO”, com as seguintes informações:
1. Nome da organização.
2. Local de atuação (cidade/estado).
3. Âmbito de atuação (municipal, estadual ou nacional).
4. Trabalha na atenção direta a migrantes? Se sim, informar número aproximado de migrantes atendidos anualmente. Se não, citar qual o potencial benefício de participar no curso
5. Citar quantas vagas gostaria de acessar? (mínimo 01, máximo 06, desagregado por gênero).
6. Fazer breve descrição do perfil dos candidatos para as vagas pleiteadas (até 150 palavras)
7. Breve justificativa da necessidade/importância da capacitação para os membros da organização (150 palavras).
Ilustração compara fotos que mostram as mortes do sírio Alan Kurdi e dos salvadorenhos Oscar e Valeria.
Crédito: Javier Marroquin/Prensa Libre
Apesar do impacto gerado pela imagem do pai salvadorenho e sua filha, países seguem com políticas que tornam as rotas migratórias cada vez mais arriscadas
Por Rodrigo Borges Delfim Em São Paulo (SP)
A imagem do salvadorenho Oscar Alberto Martínez Ramírez, 25, e de sua filha Valeria, de um ano e onze meses – mortos por afogamento no rio Grande, que divide México e Estados Unidos -, ganhou os jornais na última semana. E retomou debates quanto ao poder das mídias sobre a questão migratória e a situação cada vez mais precária dos deslocamentos humanos – neste caso, em especial, na América Latina.
Ainda que em menor escala em relação a repercussão e comoção, a foto de Oscar e Valeria tem sido comparada à do menino curdo-sírio Alan Kurdi, encontrado morto em uma praia na Turquia em setembro de 2015. Sua imagem viralizou no mundo todo, gerou debates na mídia sobre seu uso e chamou a atenção para o drama dos refugiados que se dirigiam à Europa na época.
No entanto, as tragédias no Mediterrâneo – e em outras travessias – não cessaram após a foto trágica do menino morto na praia turca. Uma tendência que também deve se repetir no caso envolvendo a família salvadorenha.
“A comparação entre as duas fotos [de Alan Kurdi e do pai e filha salvadorenhos] é válida quando nos perguntarmos o que a superexposição e compartilhamento à exaustão dessas duas imagens pelas mídias digitais ou redes sociais fez ou têm feito pela vida de crianças migrantes e refugiadas que diariamente são impelidas (e, possivelmente, não escolham) atravessar fronteiras – como a do Mediterrâneo para entrar na Europa, ou a do México com os Estados Unidos”, afirma a professora Denise Cogo, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM-SP – que tem a temática migratória na mídia como um dos eixos de pesquisa.
Assim como continuaram os naufrágios e mortes no mar Mediterrâneo após a viralização da foto do menino sírio, a professora tampouco espera por mudanças em relação à situação migratória na fronteira México-Estados Unidos a partir da imagem de Oscar e Valeria.
“Essa predominância de uma ordem visibilidade e do imagético da sociedade digital, que parece ter um alto poder de denuncia e comoção públicas, parece não ter ou não desejar exercer o mesmo poder mobilizador em favor dos direitos migratórios ou de políticas migratórias de Estados nacionais que assegurem esses direitos, incluindo o das crianças”, complementa a professora.
De acordo com a OIM (Organização Internacional para as Migrações), ligada à ONU, pelo menos 32 mil imigrantes – incluindo 1.600 crianças – morreram em jornadas perigosas na busca por melhores condições de vida desde 2014, quando a entidade começou a compilar dados.
ONU tem chamado a atenção para a questão das crianças imigrantes.
Crédito: ACNUR
Triângulo Norte
Em comunicado distribuído à imprensa, o Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, afirmou que as mortes de Oscar e Valeria “representam um fracasso em lidar com a violência e desespero que leva as pessoas a trilharem jornadas perigosas pela perspectiva de uma vida em segurança e dignidade”.
“Isso é agravado pela ausência de caminhos seguros para as pessoas buscarem proteção, deixando-as sem outra opção senão arriscar suas vidas”, completa ele.
Os salvadorenhos, aliás, foram a sexta nacionalidade com mais solicitações de refúgio no mundo em 2018 – cerca de 46,8 mil, segundo o relatório Tendências Globais, do ACNUR. Considerando apenas a América Latina, ficaram atrás somente dos venezuelanos.
Ao lado de Honduras e Guatemala, El Salvador formam o chamado Triângulo Norte da América Central – os três países sofrem com a violência causada por gangues, além dos problemas sociais e econômicos vigentes. A violência é causada especialmente pelas “maras” – como são conhecidas as gangues nos três países, que mantêm seu poder por meio de sequestros, assassinatos, torturas e estupros. A recusa em entrar para alguma dessas organizações criminosas pode ter a morte como preço.
Por isso, a fuga para outros países, em especial México e Estados Unidos, cada vez mais se converte não em uma alternativa, mas na única saída possível. Não é por coincidência que salvadorenhos, gutatemaltecos e hondurenhos estejam entre os principais integrantes das caravanas que caminham pelo continente com objetivo de chegar aos Estados Unidos.
Violência na América Central gera deslocamentos forçados para outros países. Estados Unidos são o principal destino Crédito: Anistia Internacional
Em entrevista ao jornal O Globo, o demógrafo brasileiro Paulo Saad, um dos autores do Atlas de Migração do Norte da América Central, da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), afirmou que somente um plano de desenvolvimento nos países centro-americanos que reduza a pobreza, a violência e consequências das mudanças climáticas, tem potencial para ao menos amenizar os fluxos migratórios na região.
O angolano Moisés António durante evento em Curitiba, no qual declamou o poema "O Viajante".
Crédito: Cáritas Paraná
O poeta angolano Moisés Tiago António, ou simplesmente Moisés António, tem na condição de migrante uma de suas inspirações literárias.
A mais recente é o poema “O Viajante”, que pode ser lido a seguir. Ele o declamou durante um evento no último dia 20 promovido pela Cáritas-PR e pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) em Curitiba, em virtude da Semana do Migrante e do Dia do Refugiado.
Moisés é autor do romance “Clarice” (Editora Travassos) e mantém ainda uma página no Facebook chamada Moisés E A Poesia, onde estes e outros poemas podem ser encontrados.
O Viajante
De repente um barulho ensurdecedor feito trovão, ecoa em meus ouvidos… É uma bomba!
Oh, vida, estou perto da morte Mas não, porque lá dentro bem nas profundezas da minha alma, uma voz silenciosa sussurra em meus ouvidos dizendo:
__ Não, você não pode morrer Prepara-te, levante e ande És um sonhador Você tem um sonho!
Com a minha mala na mão, Eu sou o viajante, preparado estou para chegar ao meu destino!
De repente, um grito ecoa em meus ouvidos Oh vida, é um tiro que vidas levou, deixando em desespero famílias chorando pelos seus entes queridos que a guerra levou ao nada!
Com a minha mala na mão, sou um imigrante em marcha Percorrendo o mundo em busca do meu destino! Nesta mala, Carrego nela muitas coisas Vou vagueando de terra em terra à busca da paz, Liberdade, Justiça, Abrigo, e finalmente um recomeço para viver a vida!
Sou imigrante Feito uma andorinha, em busca da melhor estação! Como quem apenas quer viver De braços abertos estou para um trabalho para sobreviver! Como um ser humano, Estou pronto para contribuir para o crescimento do país acolhedor!
Com a minha mala na mão vou percorrendo o mundo na conquista do meu destino, Eu sou um Sonhador! Sou imigrante a busca da sobrevivência… Sou imigrante a busca de um recomeço!
Sou humano a busca da paz Sou humano a busca de um abrigo Enfim… no final, querendo apenas viver e chegar ao meu destino!
Com a minha mala na mão, Trago nela a determinação Trago nela o amor Trago nela a irmandade E a força para um recomeço e Finalmente chegar com ela ao meu destino!
Refugiada síria que vive na Alemanha durante aula em escola na cidade de Golzow.
Crédito: Gordon Welters/ACNUR
Imigrantes raramente contribuirão com a economia de um país da noite para o dia. A integração é um projeto de longo prazo, como mostra a Alemanha – após receber mais de 1,5 milhão de refugiados nos últimos anos
Por Manuela Marques Tchoe Em Munique (Alemanha)
2015 foi um ano singular na história da Alemanha. Após uma decisão evidentemente difícil de abrir as fronteiras para milhares de refugiados, o país recebeu mais de um milhão de pessoas deslocadas, principalmente da Síria. De início, muitos alemães deram boas-vindas à tantas pessoas que, finalmente, tinham chegado a um lugar relativamente amistoso. Apesar do começo eufórico, a história da maior recepção de refugiados na Alemanha viveu diversos percalços, principalmente quando os meses passavam e os alemães perceberam que seu país não era um mero pit-stop para tanta gente. A Alemanha se tornou refúgio e a única esperança de casa para essas pessoas – e essa nova realidade se fez sentir em aumentos de aluguel e uma competição enorme por serviços básicos como saúde e educação, além de escândalos como o assédio em massa em Colônia.
Os bons sentimentos dos alemães logo sofreram com uma dose de realidade que nem sempre era positiva, e isso fez com que a xenofobia se tornasse mais uma vez manchete de jornal. Muitas questões – válidas, por sinal – perguntavam como o país daria conta de integrar tanta gente. A religião muçulmana da maioria dos refugiados amedrontou os mais conservadores, que passaram a investir na mensagem de islamização não só da Alemanha, como da Europa. Um novo partido político de extrema-direita se formou – o Alternativ für Deutschland (Alternativa para a Alemanha) – e logo abocanhou 10% das cadeiras do Parlamento Alemão. Tudo isso por causa da questão migratória e também da preocupação de gastar tanto orçamento com os refugiados, que para muita gente estava “mamando na teta” do Estado.
A integração de tanta gente jamais seria fácil, principalmente no clima político hostil que colocou a migração como tema central das negociações políticas. No plano micro, as dificuldades se estendiam do aprendizado de um idioma notoriamente complexo e das diferenças culturais – principalmente com relação às mulheres – até a burocracia exagerada com relação aos pedidos de asilo, permissão para trabalhar, etc. Integrar tanta gente era equivalente a escalar o Everest.
Quatro anos após a recepção dos refugiados, começa-se a ver os primeiros sucessos da integração, como reportado pela Folha de S.Paulo. Facilitado pelo clima econômico de baixo desemprego e a busca por talentos para suprir a escassez de profissões técnicas como eletricistas, soldadores, carpinteiros, etc., alguns refugiados veem no sistema de treinamento profissionalizante uma forma de se estabeleceram no país. Para a Alemanha, essa é uma bela notícia: com mais de 1,2 milhão de vagas não preenchidas, a nação germânica precisa desesperadamente de pessoas qualificadas. Até agora, 400 mil refugiados já conseguiram emprego ou treinamento, como registrado até o fim de 2018.
Empresas como o Deutsche Bahn (Trem Alemão) anunciaram um programa de treinamento de refugiados para se tornarem condutores de trem, além de outras profissões relacionadas ao atendimento de passageiros e logística. Essa é mais uma iniciativa que vem abrandar a escassez de mão de obra, ao mesmo tempo que dá oportunidades para que refugiados reconstruam suas vidas.
A expectativa da integração de curto prazo é uma falácia
A cada onda migratória, países que recebem grandes quantidades de migrantes passam por um ciclo de sensações. De início, sentimos pena e tristeza. Com o nível de desconforto crescendo e o tempo passando, o sentimento se torna mais negativo, chegando à xenofobia em alguns casos. As perguntas de integração são importantes, mas não adianta esconder o sol com a peneira: nenhum refugiado ou até imigrante econômico dará sua contribuição para a economia de um país da noite para o dia. São necessários meses – quiçá anos! – para os frutos da imigração aparecerem, pois dependem do aprendizado da língua, das oportunidades oferecidas, da economia e também da receptividade dos nativos.
Bandeira da Alemanha no Bundestag, em Berlim. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Vale ressaltar aqui que imigrantes econômicos, por terem melhores condições de planejamento, provavelmente serão aqueles que contribuirão de forma mais rápida; muitos fazem cursos de línguas antes de embarcar, fazem economias e pesquisam com afinco o país para onde escolheram ir. Refugiados, em contrapartida, estão numa situação menos planejada – no fluxo de 2015, a maioria nem sabia onde iria parar. Uma situação assim tem consequências no tempo necessário à integração, obviamente.
O caso alemão é extremo em diversos sentidos: a quantidade enorme de refugiados, a natalidade baixa e uma economia necessitada de crescimento contínuo são fatores únicos do país nos últimos anos. Apesar de algumas reações negativas, com uma onda neo-nazista sempre à espera do momento certo para ganhar eleitores, em geral os refugiados desfrutam de um contexto positivo na Alemanha. E com primeiros sucessos já vistos, é mais do que possível que a grande maioria dos refugiados que chegaram em 2015 se sintam parte contribuinte para a sociedade germânica nos próximos anos – assim como os trabalhadores turcos do pós-guerra.
De fato, a Alemanha tem vasta experiência no quesito integração – tanto acertos, quanto erros. Após a Segunda Guerra Mundial, o país recebeu milhares de turcos para ajudar a reconstruir o país, mas o esforço dessas pessoas nem sempre foi recompensado com gratidão pelo governo ou pelas pessoas. Desde então, a Alemanha vem recebendo cada vez mais gente de fora – refugiados e migrantes econômicos – mas apesar dos números serem significativos, ainda é difícil para muitos reconhecer que a Alemanha se tornou um país de imigrantes.
Apesar dos pesares, a Alemanha de hoje está proativamente engajada na integração de imigrantes, com uma máquina relativamente eficiente para ensinar a língua e dar condições para que essas pessoas eventualmente se tornarem ativos na vida, economia e cultura alemães. E isso é mais do que possível, principalmente quando vemos imigrantes de segunda ou terceira geração, aqueles cujas famílias vem de países diversos mas nasceram e cresceram na Alemanha. Essas pessoas vivendo entre duas culturas são impulsionadas a mergulharem na cultura alemã como forma de pertencimento. Mesmo vivenciando manifestações culturais diversas – do Ramadã até o Ano Novo chinês – é inevitável que as gerações seguintes se “alemanizem”.
Região central de Bonn, no oeste da Alemanha. País começa a colher frutos da abertura a refugiados, promovida em 2015 Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Vendo essa experiência de migração que perpassa diversas gerações, é inegável que a integração seja um projeto de longo prazo. É apenas aceitando essa premissa e pacientemente investindo em casos de sucesso que a imigração pode ser bem-sucedida – para o imigrante assim como para o país que o recebe.
Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. É autora de “Ventos Nômades”, uma coletânea de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e a vida de imigrante, e do romance “Encontro de Marés”. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no Facebook, Instagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.
O governo do estado lança campanha Imigrante, São Paulo te Acolhe no Centro de Integração da Cidadania (CIC) do Imigrante.
Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
Intitulada “Imigrante, São Paulo te Acolhe”, ação vai contar com mensagens nas redes sociais e em pontos estratégicos como metrôs, rodoviárias e aeroportos
Por Rodrigo Borges Delfim Em São Paulo (SP)
O governo de São Paulo lançou nesta terça-feira (25) – mesma data do Dia Nacional do Migrante – uma campanha que visa conscientizar a sociedade paulista da necessidade de acolhimento e respeito a imigrantes e refugiados que vivem no Estado.
Intitulada “Imigrante, São Paulo Te Acolhe”, a ação foi lançada durante evento no CIC (Centro de Integração e Cidadania) do Imigrante, no bairro da Barra Funda, zona oeste da capital paulista – o local, mantido pela gestão estadual e destinado ao atendimento de migrantes, foi aberto em dezembro de 2014.
Encabeçada pela Secretaria da Justiça e Cidadania, a campanha vai contar com mensagens nas redes sociais e em pontos estratégicos como metrôs, rodoviárias e aeroportos. Ela também apresentará os serviços disponíveis na secretaria para atendimento aos migrantes, refugiados e imigrantes, além de alertar sobre a xenofobia.
Uma das imagens da campanha “Imigrante, São Paulo te Acolhe”, lançada pelo governo paulista. Crédito: Divulgação
“Precisamos estar habilitados para acolher. O início dessa campanha mostra que São Paulo, por meio do Governo do Estado, está de braços abertos para receber os imigrantes”, afirmou o secretário estadual de Justiça, Paulo Dimas Mascaretti.
O lançamento da campanha no CIC do Imigrante contou ainda com um mutirão de serviços ligados a documentação, área jurídica e regularização migratória, entre outros. Também foram oferecidos exames oftalmológicos, de hipertensão arterial e diabetes, além de procedimentos estéticos, como limpeza de pele e corte de cabelo.
O boliviano Carlos Huertado foi um dos imigrantes que aproveitou o mutirão de serviços – checou a visão e o diabetes. . “Aproveitar que é gratuito, porque às vezes sai caro”, comentou ele, que vive há dez anos no país, em entrevista à EBC.
Instituições da sociedade civil que lidam com a temática migratória também acompanharam o evento e elogiaram a iniciativa – a ação contou com a parceria do Islam Solidário – Fambras, ProMigra, ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), Fundo Social de São Paulo, Secretaria de Desenvolvimento Social, Projeto Cerzindo, Defensoria Pública, Núcleo de Estudos Sobre Migrações e Casa de Passagem Terra Nova.
“Agora é apoiar e ao mesmo tempo continuar cobrando ações efetivas por parte do poder público de acolhimento à população migrante e refugiada, assim como de combate à xenofobia”, afirma Bruno Lopes, coordenador de projetos do CDHIC (Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante), em entrevista ao MigraMundo, sobre o lançamento da campanha e seus desdobramentos.
Dados gerais
De acordo com a Polícia Federal, vivem no Brasil atualmente 1,198 milhão de imigrantes – o Estado de São Paulo concentra quase a metade desse total (538 mil). Dados de março de 2018 do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, indicam que há 5.314 refugiados vivendo no país sob essa condição.
Pelas estimativas da ONU, há mais de 258 milhões de imigrantes no mundo, e esse número deve continuar crescendo nos próximos anos. Ainda no campo global, informações do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) indicam que existam hoje 25,9 milhões de pessoas refugiadas no mundo.
Com informações de EBC e Secretaria da Justiça e Cidadania
Registro de migrações do passado em muro na frente do Museu da Imigração, em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Em tempos nos quais a migração é vista como algo negativo, ressaltar as contribuições promovidas por esse movimento é uma forma de resgatar sua importância para entender melhor o mundo em que vivemos
Por Rodrigo Borges Delfim
São Paulo é reconhecida como um dos polos mundiais da gastronomia. Por meio dos paladares é possível fazer pequenas viagens para países distantes. Em determinados bairros e eventos, é possível dar até mesmo mini-voltas ao mundo em poucos passos, bastando atravessar a rua ou ir ao estabelecimento seguinte.
Se a capital paulista – e outras cidades mundo afora – permitem esse tipo de experiência, ela se deve às migrações – do passado e do presente.
Festa do Imigrante, um dos eventos que permitem viagens culturais por meio da gastronomia e que são exemplo das contribuições dos migrantes para a sociedade brasileira. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Essas e outras contribuições das migrações, que englobam aspectos econômicos, sociais e culturais, contrastam com o tratamento cada vez mais negativo que o movimento – e seus executores, os migrantes – recebe na atualidade.
Eis uma das razões de existir de datas como o Dia Nacional do Migrante, lembrado no Brasil nesta terça-feira (25) – há ainda o Dia Internacional do Imigrante (18 de dezembro), instituído pela ONU.
Datas como essas ajudam a resgatar um pouco sobre o que significa de fato estar em uma situação de migração para um outro lugar – dentro ou fora de seu país. E também sobre as contribuições e transformações promovidas pelos movimentos migratórios no passado e no presente – seja no Brasil ou no exterior.
Nunca é demais lembrar que migrar é um ato exercido pela humanidade desde seus primórdios. A exposição permanente do Museu da Imigração, em São Paulo, é bem didática nessa explicação – já fica a dica de passeio para o dia ou mesmo para o final de semana.
Esse ato, contudo, está longe de ser uma decisão fácil. Mesmo os processos mais planejados de migração – alguns até com direito a consultoria – envolvem uma série de renúncias e readaptações sociais, econômicas, culturais, políticas, psicológicas, familiares… Voltar de um processo de migração, então, é ainda mais complexo.
Quando o processo migratório é forçado por questões como perseguições, conflitos armados e violações de direitos humanos, as renúncias e readaptações são potencializadas pela necessidade de preservação da própria vida.
Para o colunista do MigraMundo e missionário scalabriniano Pe. Alfredo J. Gonçalves, a migração é um verdadeiro “sinal dos tempos” – enquanto denuncia a falta de condições de vida nos países de origem, anuncia a abertura de horizontes novos nos lugares de destino.
A pessoa que migra carrega consigo seus valores, sonhos, medos e habilidades, ao mesmo tempo que adquire novos atributos em sua nova morada, criando pontes entre um lugar e outro.
Ilustração na Casa do Migrante, em São Paulo, que ilustra bem o ato de migrar. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Ao mesmo tempo, essas contribuições se juntam a outras – individual e coletivamente e ajudam – no curto, médio e longo prazo – a criar ambientes como o polo gastronômico paulistano. Isso, é claro, só para ficar em um exemplo de legado deixado pelas migrações.
Tais horizontes, contudo, nem sempre ficam claros diante de manifestações -teóricas e práticas – cada vez mais negativas sobre as migrações e os migrantes.
Especialmente em condições adversas, datas como o Dia Nacional do Migrante têm o potencial para ajudar a clarear horizontes e a fomentar visões mais humanas sobre um movimento que é, essencialmente, humano.
Entender os desafios e contribuições trazidas pelas migrações – e por seus agentes, os migrantes – ajudam a compreender melhor o mundo em que vivemos. E assim o fazendo, é possível desenvolver e colocar em prática ferramentas que ajudem a tirar o melhor proveito possível dessa diversidade.
Origens do Dia do Migrante
O dia 25 de junho foi determinado como o Dia do Migrante através do Decreto nº 30.128, de 14 de novembro de 1957, emitido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Esta data foi escolhida por coincidir com o fim das celebrações da semana da Imigração Japonesa, comemorada a partir de 18 de junho.
Há ainda outras fontes que apontam datas diferentes, como 21 de junho e 1º de dezembro. O 25 de junho, no entanto, é o mais aceito.
Mundialmente o Dia do Imigrante é celebrado em 18 de dezembro, instituído pela ONU por conta do aniversário de dez anos da Convenção Internacional para Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias – um compromisso, aliás, que ainda não conta com adesão do Brasil.
Rodrigo Borges Delfim é jornalista, fundador e editor do MigraMundo
''Psicologicamente quando se cresce em um país ditatorial tem-se o hábito de silenciar, de não protestar contra as coisas'', afirma Hamad sobre o medo do refugiado em exigir direitos.
Crédito: arquivo pessoal.
Sudanês e mestrando em Sociologia na França, Hamad Gamal ficou famoso depois que sua carta viralizou na internet denunciando a precariedade do acolhimento europeu. Gamal conversou com o MigraMundo para o Dia Mundial do Refugiado
Uma semana antes das eleições europeias, Hamad Gamal enviou uma carta (leia aqui a versão em francês ) ao Parlamento Europeu, na qual pedia melhoras na política migratória. Seria mais um manifesto engajado de um estudante de Sociologia, se o jovem de 27 anos não tivesse fugido de milícias no Sudão, ido para a Líbia, onde dezenas de milhares de migrantes são vendidos como escravos, e de depois ter viajado por três dias dentro de um barco até a Itália.
Hamad Gamal é considerado pelo Direito Internacional como refugiado, status que lhe fora outorgado pelo governo francês em 2017. ” Na Europa, o termo refugiado virou uma identidade”, afirmou Gamal em entrevista ao MigraMundo. Nela, ele discorreu sobre o dever do requerente de asilo e do refugiado de protestar por seus direitos, compara as precariedades vividas em Paris e em Trípoli (capital da Líbia), além de comentar a ascensão de grupos anti-imigração na política europeia.
“Fala-se muito de refugiados, mas não é dada a palavra a eles. É necessário que os refugiados tenham voz, para lutarem por seus direitos diante das situações horríveis que vivem.”
Confira a entrevista
abaixo:
MigraMundo: Como você teve a ideia de escrever uma carta ao Parlamento Europeu? Hamad Gamal: Na Europa, fala-se muito de refugiados, mas não é dada a palavra ao refugiado. E é necessário que eles tenham voz, para lutar por seus direitos diante das situações horríveis que vivem (…) Sobre a carta, ninguém do Parlamento respondeu, no entanto, muitas pessoas comentaram nas redes sociais.
MigraMundo: O que é ser um refugiado no mundo de hoje (e na Europa, que é o seu caso)? Hamad Gamal: Isso é algo que eu me pergunto o tempo todo. Às vezes significa algo bom, às vezes, ruim. O ruim é que os políticos, sobretudo, diabolizaram e criminalizaram os refugiados. É duro, então, ser um refugiado porque todos pensam que ou você é o diabo ou você é, no mínimo, um criminoso. Também tem o problema do termo ”refugiado”; na Europa, ser refugiado virou a sua identidade. Mas refugiado é um termo jurídico para definir uma situação jurídica, porém na Europa ser refugiado é, antes de tudo, uma identidade.
Se eu faço qualquer coisa, é porque eu sou refugiado, se eu gosto de qualquer coisa é porque eu sou refugiado, entre os colegas, eu sou o refugiado… O termo virou um termo sensível, e os políticos acabaram usando o termo para ganhar voto em cima de um discurso anti-imigrante.
Sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo (França) elege 751 novos deputados; 22% deles são contrários anti-imigração. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo
MigraMundo: Como jornalista cobrindo migrações, eu conheci muitos requerentes de asilo e refugiados. Algo que notei foi uma tendência, entre eles, de criticar as violações de direitos feitas no país de origem, mas nunca questionar as violações cometidas no país de acolhimento. Por que isso acontece? Hamad Gamal: Essa é uma boa questão e ela está ligada a basicamente três coisas. A primeira é a integração; os refugiados que chegam à Europa se sentem fora sistema e, por isso, ficam alheios ao sistema, eles não compreendem o que se passa ao redor deles. A segunda coisa é a imagem de sonho que a pessoa que fugiu de seu país tem da Europa. E mesmo quando chegamos aqui, quando vimos e vivemos situações absurdas, essa imagem de ”terra dos sonhos” fica na nossa mente nos impedindo de ver a realidade.
A terceira coisa é o psicológico: psicologicamente quando se cresce em um país ditatorial tem-se o hábito de silenciar, de não protestar contra as coisas. Na época que eu dormi na rua em Paris, à la Chapelle (região ao Norte de Paris conhecida pelos milhares de migrantes dormindo na rua) , estávamos há três semanas na rua, e eu chamei os meus amigos para protestar. Eles me disseram: ”Ah não, é perigoso, você vai ser pego pela polícia, você vai perder o direito de pedir asilo e etc”. Eu expliquei que esse tipo de coisa não acontece aqui, que aqui não é como no Sudão ou como nos outros países de onde fugiram. Na Europa, podemos dizer não, podemos protestar pelas injustiças, reclamar nossos direitos. Mas eles tinham medo, um medo de protestar que trouxeram de seus países…
Enquanto governos como o italiano fecham suas fronteiras em nome da segurança, migrantes continuam entregues à própria sorte.
Crédito: Marina Militare
MigraMundo: Na sua carta, você chama a UE à assumir suas responsabilidades quanto aos migrantes forçados. Quais seriam elas? Hamal Gamal: Primeiramente a não impedir que os barcos cheguem nem impedir o trabalho das ONGs de salvar essas pessoas no mar, como faz o governo italiano. Segundo: é preciso mudar as leis migratórias, elas são muito complicadas. Precisamos de leis europeias que salvem vidas e que protejam as pessoas e não que botem medo no migrante. Terceiro: a Europa tem as suas responsabilidades quanto aos migrantes vendidos como escravos na África, em países como a Líbia, por exemplo. Precisa-se pensar em políticas para protegê-los. Eu morei na Líbia por seis meses e eu vivi situações horríveis….você não pode imaginar o que acontece lá. Migrantes são vendidos como escravos por um salário mínimo, outros são presos por dois, três anos…
MigraMundo: Na sua carta ao Parlamento, você descreveu algumas dificuldades vividas em Paris como requerente de asilo, bem como as dificuldades passadas na Líbia. É possível fazer uma comparação entre as precariedades vividas em solo líbio e em solo francês? Hamad Gamal:A situação na Líbia é muito difícil, a guerra está em todo o lugar. Eu morei em Trípoli, na capital, e foi um período realmente duro. Eu fui para Libia com o intuito de tentar recomeçar a vida, mas quando eu cheguei logo percebi que era o caos, lá estava muito pior do que no meu país. Então eu decidi ir para a Europa de barco, a aventura mais horrível de toda minha vida: um barco cheio de gente, corpos inclusive de pessoas que não resistiram à viagem…nós ficamos três dias em alto-mar até chegar na Sicília (Sul da Itália).
Em Paris, eu cheguei, fiz meu pedido de asilo e fui para la Chapelle (Norte de Paris), não tinha outro jeito se não dormir na rua porque era muita gente para alojar. Na Chapelle eu fiquei três semanas dormindo na rua com 2.150 pessoas
Quando comparamos as duas situações, na França eu me sentia em segurança porque aqui tem paz, não tem ameaças de morte nem guerra. No entanto, as condições de acolhimento foram muito precárias…muito difícil mesmo. Mesmo na Líbia, apesar de todo o caos da guerra, a condição de vida era melhor; lá eu tinha um trabalho e tinha onde dormir, todo o dia eu dormia debaixo de um teto e na minha cama. Lá eu trabalhava em uma lojinha e dormia na loja mesmo, graças ao meu chefe que me alugou um quarto.
Em Paris, você precisa esperar pelo menos duas horas para tomar banho nos banheiros municipais, uma hora pelo menos nos bandeijões e, no fim do dia, você dorme na rua.
”É necessário que os refugiados tenham voz, para lutar por seus direitos diante das situações horríveis que vivemos” Crédito: ACNUR
MigraMundo: Você escreveu na sua carta que o futuro dos refugiados na Europa dependiam também dos resultados das eleições ao Parlamento. Com os resultados conhecidos, com a ascensão de grupos populistas anti-imigração, ao seu ver, como fica o futuro dos refugiados? Hamad Gamal:Eu lamento muito o resultado porque eu conheço bem o discurso da extrema direita…de Marine Le Pen, de Salvini. Ele é uma grande ameaça ao nosso futuro. Eu me preocupo hoje mais com o futuro dos refugiados na Europa do que com o futuro dos refugiados na África.
MigraMundo: O resultado das eleições europeias não reflete uma nova mentalidade europeia anti-estrangeiro presente nos europeus? Hamad Gamal: Eu não posso generalizar porque existem ainda muitas pessoas engajadas na luta pelo direito dos migrantes e refugiados. Mas existe infelizmente uma parte dos europeus que são contrários. Os resultados mostram, principalmente, que a extrema-direita está mais forte politicamente hoje. E isso é algo realmente grave.
MigraMundo: Aconteceram algumas discriminações contra estrangeiros em universidades portuguesas e francesas. Você chegou a ser discriminado na sua universidade em Lyon? Hamad Gamal: Honestamente não. Tirando algumas situações nas quais não ficou claro se eram atos discriminatórios ou não. Mas geralmente as pessoas nas universidades são mais abertas, mais cultas, mais estudadas.
MigraMundo:Hoje você faz mestrado em Sociologia. Por que a escolha por Sociologia? Hamad Gamal: No Sudão, eu estudei Ciências e Estatística, mas eu sempre tive vontade de me voltar para um campo onde eu pudesse ajudar, com mais engajamento, os outros. Como refugiado hoje, através dos meus estudos, eu quero contribuir para o bem dos outros. As questões migratórias eu conheço bem, elas viraram a minha identidade aqui. E ainda a Sociologia me permite compreender, por meio da teoria, o fenômeno que está mais próximo de mim, que é o migratório (…) Eu respeito muito a França quando penso nos meus estudos, em todas as oportunidades de estudar que encontrei aqui. Eu tentei tirar o máximo de tudo o que vivi, ver o lado apenas positivo de tudo o que me aconteceu. Acredito que sem fazer isso, você não consegue avançar.
MigraMundo:Você tem algo mais a dizer? Hamad Gamal:Primeiramente obrigado por ter me contactado. É muito importante a iniciativa de dar a palavra para os refugiados. Como eu disse antes, mesmo vivendo muitos problemas, são poucos os que se levantam para protestar por seus direitos.
Tendas do ACNUR em abrigo para venezuelanos em Boa Vista (RR).
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Segundo relatório global sobre a questão do refúgio, Brasil é o sexto país que mais recebeu pedidos em 2018, em reflexo da crise na Venezuela
Por Rodrigo Borges Delfim Em São Paulo (SP)
O deslocamento forçado no mundo – que engloba refugiados e deslocados internos – por conta de guerras, conflitos e perseguições diversas atingiu um total de 70,8 milhões ao final de 2018. É o que mostra a edição mais recente do relatório Tendências Globais, elaborado pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) e divulgado nesta quarta-feira (19).
Destes, segundo a agência, 25,9 milhões são refugiados – pessoas que buscaram proteção em outros países; a maior parte (41,3 milhões) é formada por deslocados internos – pessoas que deixaram suas casas, mas não cruzaram as fronteiras de seus países; e outros 3,5 milhões são ainda solicitantes de refúgio. Metade dos deslocados no mundo – internos e internacionais – são menores de 18 anos.
Os números, segundo a agência das Nações Unidas, são considerados ainda uma estimativa conservadora, já que consideram apenas parcialmente a diáspora venezuelana. Apenas 500 mil dos 3,8 milhões que deixaram o país desde 2015 até o final de 2018, segundo dados de países que estão recebendo essa população, fizeram pedidos de refúgio. Atualmente o êxodo venezuelano já supera 4 milhões e pode chegar a 5 milhões, de acordo com projeções de agências da ONU.
Faixa criada por venezuelanos no Rio de Janeiro durante plebiscito simbólico, em julho de 2017.
Crédito: Arquivo Pessoal/Aryadne Bittencourt
O relatório reflete ainda a crescente nos deslocamentos forçados no continente americano e seus impactos. Além da Venezuela, também figuram entre as nacionalidades que mais pediram refúgio no último ano os salvadorenhos (46,8 mil) e os hondurenhos (41,5 mil).
O aumento dos deslocamentos na América Latina se reflete em outros países da região. Mesmo com políticas cada vez mais restritivas em relação à migração, os Estados Unidos aparecem como o país que recebeu mais solicitações de refúgio em 2018. Em seguida aparecem Peru, Alemanha, França, Turquia e Brasil – os venezuelanos respondem por 61,6 mil das 80 mil novas solicitações recebidas pelo governo brasileiro em 2018.
“O número de venezuelanos chegando a outros países também aumentou. Não é uma crise do Brasil. A pressão é geral. Há mais de um milhão na Colômbia”, diz Bernardo Laferté, coordenador-geral do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão do Ministério da Justiça que analisa as solicitações de refúgio no Brasil, em entrevista ao jornal O Globo.
Atualmente, de acordo com informações adiantada pelo jornal, o Brasil já reconheceu um total de 11.327 refugiados. Na espera, o número é dez vezes maior: 152.690 pessoas aguardam resposta de seus processos. Mais da metade é de venezuelanos. No final de 2017, eram 85.700 pendências.
Maiores geradores e receptores de refugiados
A Síria, que sofre com a guerra desde 2011, continua como o país que oficialmente mais gera refugiados no mundo, seguida por Afeganistão, Sudão do Sul, Mianmar e Somália – esses cinco países, juntos, representam 67% do total de refugiados no mundo.
Países que mais geram refugiados no mundo, segundo ACNUR Síria: 6,7 milhões Afeganistão: 2,7 milhões Sudão do Sul: 2,4 milhões Mianmar: 1,1 milhão Somália: 949,7 mil
Entre os países que mais contam com refugiados vivendo em seus territórios, a Turquia aparece em primeiro, seguida por Paquistão, Uganda, Sudão e Alemanha. Exceção feita aos alemães (que pela primeira vez entram no “top 5”), todos os demais são vizinhos de zonas de conflito – ou seja, a tendência da pessoa deslocada é, quando consegue sair do país de origem, buscar proteção em uma nação vizinha.
Países que contam com mais refugiados no mundo, segundo ACNUR Turquia: 3,7 milhões (vizinha à Síria) Paquistão: 1,4 milhão (vizinho ao Afeganistão) Uganda: 1,2 milhão (vizinho ou próximo a países como Sudão, Somália e Congo) Sudão: 1,1 milhão (situação semelhante à de Uganda) Alemanha: 1,1 milhão (exceção à regra, mas destino final de muitos solicitantes de refúgio que buscam a Europa)
O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Filippo Grandi, pede maior solidariedade nas respostas globais às questões do refúgio – os dados do relatório nos últimos anos mostram tendência de alta do deslocamento forçado.
“Em qualquer situação envolvendo refugiados, não importa onde ou há quanto tempo ela está se prolongando, é necessário que haja uma ênfase em soluções duradouras e na remoção de obstáculos para que pessoas possam retornar para suas casas”, afirmou.
O direito ao trabalho possui papel fundamental na garantia da humanidade do indivíduo, independente da nacionalidade ou local de origem
Por Juliana Mary Yamanaka Nakano Do ProMigra, em São Paulo
No Brasil, para um indivíduo ser contratado com vínculo de emprego é necessário que se emita uma Carteira de Trabalho e Previdência Social (“CTPS”) para que sejam anotadas determinadas informações e se garantam os direitos do trabalhador decorrentes do serviço prestado. A CTPS é solicitada perante o Ministério da Economia (extinto Ministério do Trabalho e Emprego).
Na perspectiva dos migrantes, logo ao chegar em um novo país, a busca por um emprego é urgente para que a pessoa se estabeleça de forma digna, com garantia de sustento para custeio de moradia, de alimentação, de transporte, e de outros direitos humanos básicos. Ocorre que, ao solicitar a emissão da carteira de trabalho e conseguir entrar no mercado formal de trabalho, muitos migrantes têm enfrentado sérias dificuldades, principalmente em relação ao agendamento do horário.
Em primeiro lugar, este agendamento é realizado apenas via sítio eletrônico, o que já impossibilita o acesso de quem não tem acesso à internet e/ou a computadores. Além disso, em São Paulo – local de maior concentração de migrantes no país – não há disponibilidade de vagas suficientes (por vezes, o número de vagas é 0) e em data próxima. E, se existem, são disponibilizadas vagas em horário incompatíveis com a realidade dos indivíduos.
Essa dificuldade em realizar a emissão da carteira de trabalho não pode ser considerada “normal”. A situação narrada contraria vários princípios e normas de nosso ordenamento, além de violar diversos direitos como o direito ao trabalho, o direito de igualdade em relação a brasileiros, o direito de regularização documental e a própria dignidade do migrante que chega ao Brasil.
Aos indivíduos em sociedade deve ser garantido o direito ao trabalho. Isto porque, o trabalho é uma das maiores formas de inserção social e deve ser tutelado de maneira a efetivar todas as garantias legais dele decorrentes, com atenção especial às comunidades mais vulneráveis. Pessoas que chegam ao Brasil, seja buscando melhores condições de vida que em seus países de origem, seja fugindo de perseguição requerendo o refúgio, devem ter seus direitos protegidos.
O direito ao trabalho, então, possui papel fundamental na garantia da humanidade do indivíduo. Isto porque, o modelo capitalista é impulsionado pela produção de riquezas pelo labor humano e, portanto, inegável que o labor tem papel central nos arranjos sociais, sobretudo diante de novas formas de marginalização social – como é o caso das geradas pelas migrações.
Em relação ao tema, além de normas brasileiras, existem diplomas internacionais como a Convenção n. 97 da Organização Internacional do Trabalho sobre trabalhadores migrantes – em vigor no Brasil desde 1966 – que prevê especificamente o direito do trabalho em igualdade de condições aos nacionais de cada país, incluindo a questão de salário e jornada.
No campo do ordenamento jurídico pátrio não é diferente. A Constituição Federal, em seu art. 5º assegura aos indivíduos a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. O princípio da igualdade também é expressamente mencionado na Lei de Migração, a qual determina em seu artigo 4º que “Ao migrante é garantida no território nacional, em condição de igualdade com os nacionais, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, bem como são assegurados: I – direitos e liberdades civis, sociais, culturais e econômicos;(…)”
Além dos direitos individuais estabelecidos, também devem ser garantidos aos migrantes no Brasil os direitos sociais, tão importantes para assegurar a igualdade de fato e uma vida digna, dentre os quais se encontra o direito ao trabalho (art. 6º da Constituição Federal).
Em relação à legislação interna brasileira, deve-se fazer uma observação. Houve importante mudança de mentalidade em relação à antiga legislação no país, pois o antigo Estatuto do Estrangeiro – editado em época de regime militar – foi revogado pela nova Lei de Migração (Lei 13.445), em 2017. Agora, em vez de caracterizar o migrante como uma ameaça à segurança nacional, pautou-se pela centralidade dos seus direitos humanos no Brasil.
Dessa forma, a política migratória nacional estabelece caber ao Estado a promoção do reconhecimento do exercício profissional do migrante, não podendo se escusar do cumprimento, muito menos dificultá-lo por meio de burocracias inadequadas.
A Lei de Migração também prevê no artigo 3º, inciso XI como diretriz a ser perseguida o “acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social”.
Ainda como diretriz, o inciso V do mesmo artigo menciona o direito e incentivo à regularização documental, devendo-se considerar incluída nela a possibilidade de obtenção de documentos necessários ao trabalho no mercado formal (CTPS).
Dessa forma, percebe-se que as dificuldades enfrentadas pelos migrantes no agendamento para emissão de CTPS é grande violação aos seus direitos e não pode ser aceita. Em caso de negativa da emissão do documento, inclusive, é possível o ajuizamento de ação perante o poder judiciário, pleiteando o seu direito, por meio de mandado de segurança por violação ou ameaça a violação ao chamado direito líquido e certo (Constituição artigo 5º, inciso LXIX e Lei 12.016/2009).
O que pode parecer algo simples e “invisível”, como a emissão da carteira de trabalho, tem gerado vários problemas na prática e frustrado inúmeras expectativas e direitos.
Nota-se que qualquer empecilho à obtenção de documentos para que o migrante possa exercer plenamente o trabalho no Brasil é situação muito séria, visto que afeta toda a fruição de demais direitos (moradia, saúde, alimentação, educação…). Um indivíduo sem carteira de trabalho não pode realizar qualquer ofício regularmente, ainda que tenha a oportunidade, e isto não se pode admitir na realidade na qual vivemos, principalmente considerando toda a evolução da legislação e da consciência no Brasil, país que se diz democrático e pautado pela valorização social do trabalho e pela dignidade da pessoa humana.
Colagem produzida durante oficina do artista Paulo Zeminian, que divulga a oficina "Vídeo-cartas: conexões migrantes".
Crédito: Valquíria Lage
“Video-cartas: conexões migrantes” acontece às sextas-feiras até 5 de julho no Sesc Carmo, no centro de São Paulo
Por Rodrigo Borges Delfim Em São Paulo (SP)
Unir a tecnologia do audiovisual com o caráter lúdico das cartas para debater e abordar experiências da migração. Esse é o objetivo da série de oficinas “Vídeo-cartas: conexões migrantes”, que está em curso no Sesc Carmo, em São Paulo.
Com encontros gratuitos e semanais às sextas-feiras – as atividades começaram no dia 7 de junho e vão até 5 de julho – o projeto é tocado por três oficineiros: Karina Quintanilha e Daniel Perseguim (Brasil) e Juan Cusicanki (Bolívia). Todos eles são integrantes do grupo de pesquisa Colabor-USP, responsável pelo Fórum Internacional Fontié ki Kwaze – Fronteiras Cruzadas, realizado em 2017 e 2018 na USP.
“Por meio de textos, áudios e vídeos, famílias se reorganizam, se cuidam, trocam afetos, enviam remessas (em geral em forma de ajuda financeira para a família), mantém contato com pessoas próximas para acompanhar a situação do país de origem, conseguem traduzir línguas, enfim, são inúmeros os relatos das formas que migrantes buscam resistir às pressões que levam aos deslocamentos em massa”, explica a oficineira Karina Quintanilha, advogada de formação e coordenadora de projetos culturais.
São essas diversas formas de comunicação que a atividade pretende unir ao longo das oficinas. A próxima acontece neste sexta (21), das 17h30 às 20h, e está com inscrições abertas pelo email cursos@carmo.sescsp.org.br
No último encontro, marcado para 5 de julho, será realizada uma mostra das vídeo-cartas produzidas ao longo das oficinas anteriores.
“Encontramos uma linguagem que também tem se manifestado ao menos desde a década de 80 por meio de artistas que contestavam o circuito de artes da época e abriam novas possibilidades e usos da arte para a sociedade”, completa a pesquisadora.
Para Cusicanki, que também integra outros coletivos culturais dedicados a promover expressões dos migrantes, a série de oficinas é mais uma forma de aproximação entre brasileiros e migrantes, aproveitando a história de formação de São Paulo. “Imigrantes e migrantes, acredito que a grande maioria em São Paulo tem uma historia de migração. Vejo a arte como um veículo de trabalho recíproco [para conectar e contar essas histórias]”.
A expectativa é que o projeto, ao seu final, possa gerar novos processos colaborativos entre os participantes e que possa ser reproduzido em outros espaços.
Vídeo-cartas: conexões migrantes Quando? de 7 de junho a 5 de julho, das 17h30 às 20h Onde? Sala de Oficinas 2 do Sesc Carmo, próximo ao metrô Sé Quanto? Gratuito Como? Inscrições pelo e-mail cursos@carmo.sescsp.org.br