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terça-feira, junho 30, 2026
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II Pedal Humanitário une lazer e consciência em Florianópolis

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Pedal Humanitário reunirá atividades esportivas e culturais em prol de pessoas migrantes e refugiadas. Crédito: Divulgação

Evento que acontece no próximo dia 29 na capital catarinense unirá atividades esportivas e culturais em prol da população refugiada e imigrante

Por Bruna Kadletz
Do Círculos de Hospitalidade*, em Florianópolis (SC)

Ao redor do mundo, milhões de pessoas passam pelo inimaginável: têm suas vidas destroçadas por guerras, violência e catástrofes naturais. Além de terem suas histórias marcadas pelo deslocamento forçado e vida em exílio, muitas comunidades refugiadas e imigrantes encontram hostilidade ao invés de hospitalidade. Diante desta realidade, entendemos que, alinhado a políticas públicas humanizadas, se faz necessário a construção de espaços de conexão e integração, aproximando a sociedade de acolhida e comunidades refugiadas e imigrantes.

Afinal, a partir do momento que humanizamos nosso olhar e enxergamos o desconhecido outro, que vem buscar refúgio e novos começos em nossas cidades, como um ser humano provido de agência e capacidade de contribuir para o desenvolvimento social, cultural e econômico de nosso país, desconstruímos a narrativa que hostiliza a presença dessas pessoas entre nós.

Foi a partir desse movimento de sensibilização que, em junho de 2018, o Programa Bem Viver, do Ministério Público Federal em Santa Catarina (MPF/SC) em parceria com a organização Círculos de Hospitalidade, a Comissão de Direitos Humanos da Polícia Rodoviária Federal e o Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante (CRAI/SC), resolveu organizar a primeira edição do Pedal Humanitário.

Logo da segunda edição do Pedal Humanitário, que acontece no próximo dia 29 de junho.
Crédito: Divulgação

A manhã de atividades esportivas e culturais em prol de pessoas refugiadas e imigrantes no estado de Santa Catarina contou com a participação de 127 ciclistas, que doaram leite e fraldas para famílias refugiadas e imigrantes. O evento, que aconteceu no mês em que se celebra o Dia Mundial do Refugiado (20/06), trouxe visibilidade para a causa, com mais de 40 inserções na mídia local e redes sociais.

Movimentos e eventos como este são um convite para ressignificar o olhar a respeito de comunidades forçadas a migrar. Principalmente no estado de Santa Catarina, que apesar de acolhedor, observa um aumento expressivo da violência xenofóbica e racismo contra refugiados e imigrantes negros. É preciso entender que o processo de migração e integração difere de pessoa para pessoa, e que determinados grupos, como os negros e as mulheres, por exemplo, são comumente despidos de sua humanidade e colocados em zonas de vulnerabilidade.

Neste ano, vamos repetir a dose no dia 29 de junho. O II Pedal Humanitário traz a mesma intenção da primeira edição, unir a sociedade de acolhida e pessoas refugiadas e imigrantes no movimento pela humanização daqueles que buscam novos começos em nossas sociedades. E seguindo a proposta inclusiva do evento, a Yellow Bikes disponibilizará 30 bicicletas para que a comunidade migrante esteja presente no passeio.

O trajeto será do prédio da Justiça Federal/SC, passando pela bela Beira-Mar e indo até o Parque de Coqueiros, onde os ciclistas encontram uma Feira Multicultural e apresentação cultural de pessoas refugiadas e imigrantes. Para inscrição no Pedal, será necessária a doação de 3 quilos de alimentos não perecíveis (Arroz, feijão e farinha de trigo), que serão destinados às famílias dos refugiados, atendidas pelo CRAI/SC e pela organização Círculos de Hospitalidade.

O evento ainda conta com o apoio do artista Luciano Martins, que assinou a logomarca da camiseta, da Guarda Municipal de Florianópolis, Yellow Bikes, Cicles Hoffman, JF/SC, Eletrosul, Rotary e GAIRF (Grupo de Apoio a Imigrantes e Refugiados em Florianópolis).

Se você quiser apoiar a realização do evento, pode adquirir a camiseta do Pedal. Para mais informações, formas de apoio e inscrições, entre em contato pelo e-mail: prsc-bemviver@mpf.mp.br.

*O Círculos de Hospitalidade é um movimento pela humanização de refugiados e imigrantes. Como organização, desenvolvemos iniciativas culturais, educacionais e sociais com a intenção de facilitar o processo de integração de comunidades refugiadas e imigrantes a sociedade de acolhida. Nossa missão é resgatar a cultura da paz e hospitalidade em tempos de intolerância e xenofobia. Mais informações: circulosdehospitalidade@gmail.com e redes sociais @circulosdehospitalidade.

”On parle de nous, mais on ne nous donne pas la parole”, dit réfugié auteur de lettre au Parlement

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' ' Réfugié' c'est un terme juridique, mais en Europe il est devenu identitaire.'' /Archive Personnel

Le soudanais Hamad Gamal, 27 ans, étudiant au Master 2 Sociologie a vu sa lettre aux politiciens viraliser en ligne; Il denonçait la précarité de l’accueil des personnes issues de migration en Europe. Interviewé par MigraMundo pour la Journée Mondiale du Réfugié, Gamal parle de la peur des réfugiés de se manifester et aussi d’une ”diabolisation” faite par les politiciens.

Pour Victória Brotto
À Strasbourg (France)

Une semaine après les elections européennes, Hamad Gamal a envoyé une lettre au Parlement Européen qui demandait le changement des politiques d’accueil des migrants en Europe. Ce serait une simple lettre d’un étudiant bien engagé si ne s’agissait pas d’un étudiant réfugié de 27 ans qui a fuit son pays, le Soudan, à cause de la guerre. Gamal a vécu en Libye (où centaines de migrants sont vendus comme esclaves) et en Italie (après un voyage de trois jours dans un bateau) avant d’arriver en France.

Hamad Gamal est consideré par le Droit International comme réfugié, un status que lui a été conféré par le gouvernement français en 2017. ”En Europe, le terme réfugié n’est plus simplement juridique, mais il est devenu une identité”, dit-il au MigraMundo depuis Lyon (au Sud de la France) oú il désormais habite et étudie.

Dans cet entretien, il parle du devoir des réfugiés et des demandeurs d’asile de lutter pour leur droit, compare les précarietés véicues à Paris et à Tripoli (la capitale de la Lybie) lors de son arrivée, et ainsi il problématise l’ascension des groupes anti-immigration dans la politique européenne aux élections du 26 mai:

MigraMundo: Comment a surgit l’idée d’écrire une lettre au Parlement Européen?


Hamad Gamal: En Europe, on parle beaucop des réfugiés et je me suis dit que il faudrait que les réfugiés prennent la parole pour se battre pour nos droits face aux situations horribles dans lesquelles nous vivons. Donc, J’ai écrit la lettre, mais personne au Parlement m’a répondu. Par contre, j’ai eu pas mal de réponse sur les réseaux sociaux des gens qui soutenait les droits des réfugiés.

MigraMundo: Qu’est-ce que c’est être réfugié aujourd’hui dans le monde (et en Europe, dans votre cas) ?

Hamad Gamal:C’est une question que je me pose tout temps…des fois c’est positif , des fois negatif. Le côté negatif c’est que les politiciens ont diabolisé, ont criminalisé les réfugiés. Et donc c’est dur d’en être un parce que les personnes pensent que soit que tu es le diable soit que tu es un criminel.

Après il y a le problème avec le terme même: en Europe, il est devenu une identité. Mais être réfugié c’est une situation juridique, c’est un terme juridique, mais en Europe il n’est plus juridique, il est identitaire. Si je fais quelque chose, c’est parce que je suis réfugié, entre les amies je suis réfugié, entre les collègues, je suis réfugié. Le terme est beaucoup sensible et les politiciens en utilisent pour gagner des votes avec leur discours contre l’étranger.

MigraMundo: Avec mon expérience comme journaliste, j’ai pu avoir pas mal de contact avec plusieurs demandeurs d’asile et réfugiés en Europe. Alors, j’ai remarqué que la majorité d’entre eux questionnait les violations de leurs droits chez eux, dans leurs pays, mais pas les violations commises dans le pays d’accueil. À votre avis, pourquoi cela arrive-t-il?

Hamad Gamal: C’est une très bonne question. Alors, elle est liée à trois choses: la première c’est la question d’intégration. Les réfugiés arrivent en Europe et ils se sentent dehors du système et quand on est dehors du système on ne comprend rien qui se passe autours de nous. La deuxième chose c’est l’image que les personnes des nos pays ont de l’Europe: à la télé, au cinéma, l’Europe est montrée comme un paradis…et tout ces images restent dans la tête des gens. Mais quand ils arrivent ici, même avec les situations precáires véicues, tous ces images les empêches de voir la réalité.

Quand on écoute sur l’Europe, on voit pas les details, la vie réelle des personnes, la vie quotidienne…on la voit juste comme un rêve.

La troixième chose c’est que la psyché, le côté psycologique. Quand nous avons grandi dans un pays avec un régime dictatorial, nous prennons l’habitude de guarder le silence de tout ce que se passe devant nous. À l’époque dont j’étais à Paris,j’ai dormi dans la rue pendant trois semaines. J’ai appellé donc mes amies (tous demandeurs d’asile) pour leur demander s’ils veulaient se manifester contre telle situation, pour se batter pour nos droits d’être hébergés et etc. Mais quand j’ appelle , ils m’ont dit non: ”Ah non, c’est dangerous, tu vas être attrapé par la police, tu vas perdre ton processus de demande d’asile et tout.” Je leur avais dit que non, que ici ce n’est pas comme dans notre pays. Ici, en Europe, c’est différent, nous pouvons dire ”non” aux injustices, nous pouvons manifester. Mais ils avaient tous peur…

MigraMundo: Quell’est la responsabilité ( ou les responsabilités) de l’Union Europèenne auprès de migrants aujourd’hui?

H.G.: Les responsabilités de l’UE sont, premièrement, de ne pas arrêter les bateaux et non plus les ONGs qui font le sauvetage ( comme fait l’Italie), car cela signifie la mort de beaucoup de migrants. La deuxième chose c’est simplifier les politiques migratoires en Europe qui sont trop compliquées…il faut amener des politiques de protection aux gens qui n’ont pas leurs papiers pendant 4, 5, 10 ans…ils sont complètement dehors de la vie dans les pays d’accueil pour cela. Ils ont peur d’essayer de régulariser leur situation et peur d’être emprisonnés.

Troisième chose: l’Europe a ses responsabilités vis-à-vis des migrants vendus comme esclave au Lybie, par exemple… les migrants vivent ajourd’hui des situations horribles. Moi, je suis resté en Lybie pendant six mois…c’était une situation très horrible. Vous n’imaginez même pas ce qu’arrive là-bas, les personnes sont vendues comme esclave pour un SMIC , il y a des migrants emprisonnés pendant deux, trois ans qui n’ont rien fait pour être en prison.

MigraMundo: Dans votre lettre au Parlement, vous avez cité toutes les difficultés véicues à Paris en tant que demandeur d’asile. Et vous avez également parlé des enormes difficultés rencontrées à Tripoli, la capitale de la Lybie. Pouvons-nous faire quelque sort de comparaison entre les precarités véicues dans les deux villes?

H.G.: La situation en Lybie est très difficile, il y a des guerres partout. Après que j’ai fuit mon pays, le Sudan, je suis allé à Tripoli et c’était une période trop difficile. Je suis allé à Lybie pour échapper de la guerre dans mon pays, en pensant que serait plus tranquille là-bas, mais quand j’y suis arrivé j’ai bientôt compris que non…que c’était plus horrible, que c’était pire à Tripoli.

Donc, j’en ai fuis à l’Italie en prennant un bateau. Et là il a commencé l’aventure la plus horrible de toute ma vie: un beateau remplis de personnes, il y avait des corps aussi des personnes qui n’ont pas resisté au voyage…on a resté trois jours à la mer avant d’arriver à Sicilie ( Sud d’Italie).

À Paris, je suis arrivé, je suis allé à la Chapelle (Nord de Paris) où je dormais à la rue parce que n’y avait pas de logement disponible…et je n’étais pas seul, il y avait plus de 2,000 personnes comme mois à la rue.

Alors, quand on fait la comparaison… en France je me sentais en securité car il y a la paix ici, il n’y pas les ménaces de morts ni la guèrre. Par contre, au niveau d’accueil à Paris c’était très difficile….très difficile même. Même en Libye, malgré le caos, l’accueil et la condition de vie c’etáit mieux. J’avait où dormir, je dormais tout le jour chez moi, j’avais le droit de travailler que m’a permis de trouver un travail dans un magasin où j’ai été aussi logé.

Mais quand j’arrive à Paris j’ai dû passer pour pas mal de choses: pour prendre la douche, par exemple, il fallait faire la queue pour 2 heures , après pour manger, une heure d’atteinte et en plus à la fin de la journée on dormait à la rue.

MigraMundo: Vous avez écrit que l’avenir des réfugiés dépend des élus au Parlement. Quel est votre avis de l’avenir des réfugiés face aux résultats des éléctions marquée par l’ascension des groupes populiste et contraires aux migrations?

H.G: Je le regrette beaucoup car je connais bien le discours de l’extrême droite, de Marine Le Pen, de Salvini…Ils sont une grande ménace pour notre avenir. Je me soucis plus aujourd’hui de l’avenir des réfugiés en Europe qu’en Afrique.

MigraMundo: Est-ce que les résultats des européennes ne montrent pas l’arrivée d’une mentalité contraire aux migrants, surtout les réfugiés, chez les européens?

H.G: Je ne peux pas dire que c’est une mentalité européenne parce qu’il a beaucoup des personnes qui sont engagées auprès des réfugiés, beaucoup même. Mais il y a une partie des personnes en Europe qui n’aime pas l’arrivée des personnes réfugiées. Les résultats des eléctions au Parlement montre que l’extrême droit est, politiquement, bien plus forte aujourd’hui. Et cela est quelque chose de vraiment grave.

MigraMundo: Dernièrement il y a eut des discriminations dans plusieurs universités en Europe vers les étrangers. Avez-vous véicu quelque situation discriminatoire à l’université pour le fait d’être étranger et réfugié?

H.G: Franchement…pas trop, sauf certaines situations qu’il n’a été vraiment clair si s’agitait d’une discrimination ou bien d’autre chose…Mais à part cela, non, rien. Les personnes à l’université sont plus ouvertes, plus savantes et bien cultivées.

MigraMundo: Aujourd’hui vous étudiez Sociologie à niveau Master 2. Pourquoi avez-vous choisi la Sociologie?

H.G: Au Sudan, j’ai fait des études de Sciences et Statistiques, mais j’ai eu toujours envie d’aller vers quelque chose de plus engagée. Aujourd’hui, au tant qui réfugié, je veux contribuer pour le bien être des autres. Les questions de migration j’en connais bien, car cela a devenu mon identité, je suis dedans. Les études me permettent d’avoir la théorie pour analyser certains phenomènes qui sont plus proches de moi.

J’ai du respect pour la France, toutes les opportunités d’étude trouvées ici m’ont vraiment enrichissit. J’ai essaie le maximum de ne prendre que du positif dans tout ce que m’est arrivé. Sans faire cela, c’est vraiment impossible d’avancer.

MigraMundo: Est-que vous souhaiteriez ajouter quelque chose?

H.G: Premièrement, merci pour m’avoir contacté. C’est très importante votre iniciative de nous donner la parole. Comme j’avais dit avant, même face aux plus grands problèmes, très peu des réfugiés ou des demandeurs d’asile prennent la parole pour s’exprimer et pour se battre pour leurs droits.

A importância da Semana do Migrante

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Bandeiras unidas na durante a Marcha dos Imigrantes, tradicional ato das comunidades migrantes em São Paulo. Crédito: Filipe Dias/MigraMundo - dez.2017

“Migração e Políticas Públicas” é o tema, dialogando com a Campanha da Fraternidade deste ano

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

De 16 a 23 de junho será celebrada em todo o Brasil a 34ª Semana do Migrante. Não se trata de um evento localizado no tempo e no espaço, e sim de um processo em que se promovem diversas manifestações em prol da causa dos migrantes. Entre elas, destacam-se simpósios, seminários, cursos de formação, romarias, celebrações especiais, encontros, atos públicos, e assim por diante. A Semana do Migrante deste ano tem como tema Migração e políticas públicas, procurando dar continuidade, no vasto campo da mobilidade humana, à reflexão e ação da Campanha da Fraternidade de 2019.

Todo processo de debates e atividades da Semana é promovido pelo Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), em comunhão com os padres, irmãs e missionárias Scalabrinianos. Vinculado à dimensão sócio-transformadora da CNBB, juntamente com outras Pastorais Sociais, o SPM prepara o material e articula, em nível nacional, as ações de caráter pastoral, social e político. O lema –Acolher, proteger, promover, integrar e celebrar. A luta é todo dia – reúne os já famosos quatro verbos do Papa Francisco, associados à necessidade de celebrar os avanços obtidos, bem como de empenhar-se por novas formas de luta.

Desnecessário ressaltar a importância e a pertinência da temática para os tempos que correm. Como vem denunciando com insistência o Papa Francisco desde sua eleição, em março de 2013, os deslocamentos humanos de massa fazem parte de um cenário internacional onde predominam, de um lado, leis cada vez mais restritivas ao direito de ir e vir e, de outro, a globalização da indiferença. Daí a palavra de ordem do pontífice: na contramão da “economia que mata” e que gera milhões de “trabalhadores descartáveis”, promover uma globalização da acolhida, do encontro, do diálogo e da solidariedade.

O xadrez perverso da economia globalizada, porém, apresenta desafios que vão além dos alertas morais e da preocupação das lideranças religiosas. A nova onda do nacionalismo marcadamente populista, ligado à extrema direita, avança por todo o planeta. Com ela, crescem igualmente a discriminação, a xenofobia e a intolerância diante do estrangeiro. Do ponto de vista político, manipula-se e instrumentaliza-se o clima de medo, ameaça e insegurança da população, com vistas à obtenção do poder. A partir de então, a recita anti-imigração reproduz-se de forma quase invariável dos Estados Unidos à Hungria, da Áustria à Dinamarca, da Turquia à Itália, da Eslováquia ao Brasil, para citar apenas alguns países.

Eis os ingredientes de tal receita: legislação migratória cada vez mais dura, rígida e exigente; queda brutal na aprovação ao número de vistos solicitados; fechamento das fronteiras, com ou sem soldados e arame farpado; diminuição do orçamento destinado à acolhida, à assistência e à inserção de imigrantes; deportação crescente dos indocumentados, como se vê agora em Lisboa e há mais tempo nos Estados Unidos. Tudo isso profusamente recheado com uma retórica do risco que o “outro, diferente e estranho” pode trazer à nação. Em vários países, ganha força o mote “primeiros os nossos, depois os outros”. Daí ao rechaço, à perseguição, ao sentimento de supremacismo ou nazi-fascismo – a distância é muito curta.

Mesmo navegando contra essa onda bravia e enfrentando ventos contrários, os migrantes se movem. Não podem deixar de fazê-lo. Atrás são expulsos pela violência, pela guerra e por confrontos armados, sejam estes étnicos, religiosos, ideológicos ou políticos. Empurram-nos também a pobreza, a miséria, a fome e a falta de trabalho. À frente são atraídos pela chance de novas oportunidades para si e para a família, pela construção de um futuro menos doloroso e mais promissor. Conclui-se, com isso, que a migração consiste em um verdadeiro “sinal dos tempos”. Enquanto denuncia a falta de condições de vida nos países de origem, anuncia a abertura de horizontes novos nos lugares de destino.

Restaurantes franceses abrem suas cozinhas para chefs refugiados

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Idealizado por casal francês durante volta ao mundo, Festival acontece em dezenas de cidades na Europa, África do Sul e EUA. Crédito: Divulgação/ Refugee Food Festival.

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Durante uma semana, quase 200 restaurantes ao redor do mundo cedem suas cozinhas para mais de 150 refugiados cozinharem para os seus clientes. É isso que acontece em 16 cidades de nove países diferentes no mês de junho durante a semana do Refugee Food Festival, organizado pela associação Food Sweet Food.

A semana, que varia de cidade para cidade, é marcada normalmente em dias próximos ao 20 de junho, quando é lembrado o Dia Mundial do Refugiado.

Em Estrasburgo (França), o Festival vive a sua 4ª edição, que acontecerá de 13 a 22 de junho, com quinze refugiados cozinhando em mais de dez restaurantes espalhados pela cidade que abriga diversas instituições europeias, entre elas o Parlamento Europeu. Confira aqui a programação

”A comida é uma das formas mais poderosas de compartilhar com o outro a nossa cultura”, afirmou ao MigraMundo a coordenadora do Festival e da Associação Food Sweet Food em Estrasburgo, Hélène Berrier. A Food Sweet Food é apoiada pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) para formar a equipe quanto à temática do refúgio afim de melhor comunicar com o público – e com os próprios refugiados.

Diretora da Food Sweet Food e coordenadora do Festival, Hélène Berrier: ”Comida é uma das formas mais poderosas de compartilhar a nossa cultura.” Crédito: Refugee Food Festival.

”O objetivo da Associação, tanto durante quanto depois do Festival, é ajudar na inserção profissional desses refugiados que querem fazer da cozinha a sua profissão.”

Entre os chefs refugiados que conseguiram se destacar por meio do Festival, está a georgiana Daredjan Pkhadze, selecionada pelo ‘Des Étoiles et Des Femmes’. O curso, um dos mais renomados da região, forma e treina mulheres para integrarem os melhores restaurantes da França, o país com uma das cozinhas mais refinadas do mundo.

De acordo com uma pesquisa feita pelo Ministério do Trabalho francês, o refugiado encontra mais dificuldade de achar um trabalho do que um estrangeiro detentor de outro tipo de visto no país.

18 países ao redor da mesa

A ideia de um Festival de comidas feitas por migrantes veio dos franceses Marine Mandrila e Louis Martin depois de uma viagem ao redor do mundo. Após visitar 18 países e compartilharem a mesa com dezenas de homens e mulheres, os franceses perceberam que ”a comida e a mesa são uma incrível arma para se conectar com o outro”.

”Em plena ‘crise de refugiados’, eles pensaram então engajar a tradicional cozinha francesa na temática do refúgio, chamando assim os franceses a pensar sobre o assunto – começando pelo paladar”, conta a equipe do Food Sweet Food, em seu site.

”A comida é um dos maiores elementos de união que cruzam toda e qualquer cultura”, afirma a jornalista Amy S. Choi, em seu artigo para o TED intitulado” O que os americanos podem aprender com outras culturas culinárias” – leia aqui a versão em inglês.

Projeto Refugee Food Festival ajuda refugiados ao redor do mundp que atuam com gastronomia. Crédito: Divulgação

De acordo com Jennifer Berg, diretora do centro de estudos culinários da Universidade de Nova York, ”a comida se torna algo particularmente importante quando você faz parte de um movimento de diáspora (migração) e foi separado da sua cultura materna.

”É o último vestígio de cultura que restou”; afirma. ” Existem alguns aspectos da cultura materna que nós não perdemos logo que deixamos o nosso país (…) A comida é algo que nós nos engajamos pelo menos três vezes ao dia abrindo então diversos momentos durante o nosso dia de nos reconectarmos com memórias, família e lugares. E, portanto, resta uma das coisas mais difíceis esquecer ( e de abrir mão).”

Strasbourg, à lá Table!

A cidade sede de importantes instituições europeias, Estrasburgo vive sua 4a edição do Festival ”feito por chefs refugiados”, com 15 chefs e 10 restaurantes participantes. Crédito: Divulgação/ Refugee Food Festival.

De acordo com os dados do Escritório de Integração e Acolhimento de Refugiados do governo francês ( OFPRA, sigla em francês) , a França acolheu 20.940 refugiados até o ano passado. E uma delas é a georgiana Daredjan Pkhadze, uma das chefs participantes do Refugee Food Festival em Strasbourg. Como ela, outros 14 refugiados e refugiadas, vindos de países como a Síria, Armênia, Iraque e da África subsaariana participam do evento.

Com a ajuda do Food Sweet Food e sua experiência na edição de Natal do Refugee Food Festival, em dezembro de 2018, Daredjan foi selecionada para estudar na prestigiosa formação Des Etóiles et des Femmes (Sobre Estrelas e Mulheres, tradução livre do francês). O curso é aberto a mulheres que querem virar grandes chefs de cozinhas. Uma vez selecionada, a estudante estagia nos melhores hotéis e restaurantes da região (a Alsácia, onde fica Estrasburgo, possui 31 restaurantes que possuem ao menos uma estrela no guia Michelin). Depois do estágio, as mulheres começam a trabalhar ao lado de grandes chefs durante meio período enquanto terminam o curso.

Chef georgiana participante do Festival é hoje formanda de um dos centros de formação culinária mais renomados da França. Crédito: Divulgação/ Refugee Food Festival.

Daredjan fugiu da Geórgia quando tinha 11 anos, quando sua mãe, jurista, começou a ser perseguida por causa de seu trabalho. Daredjan aprendeu a cozinhar com a sua avó, que, na cidade natal da família, tinha uma padaria. Hoje, suas especialidades são bolinhos georgianos recheados com carne e queijo típico de sua região – que ela mesma faz. Segundo a chef, a cozinha de seu país é muito variada e farta.

”Nesse pequeno país do Cáucaso, descobre-se uma grande variedade de pratos”, afirmou ela à equipe da FSF. Para Daredjan, com rigorosas técnicas de feitura de pratos como Khachapuri (pão típico da Géorgia) e Kharcho (sopa tradicional), a cozinha faz parte da cultura e da história de seus ancestrais e é por isso também que ela a prepara com tanto cuidado.

”É uma alegria muito grande para nós vermos esse pessoal encontrar trabalho ou uma formação, como Daredjan”, conta Hélène, do Food Sweet Food. ”O que queremos é justamente a inserção profissional dos refugiados na região”, acrescenta a coordenadora, que aceitou encontrar a reportagem em um típico café francês no centro da cidade.

”É importante promover um evento como esse porque é preciso aproximar as pessoas, as culturas, as histórias. Quando comemos algo, nós interiorizamos não só a comida, mas a história e a cultura que aquela comida traz”, conta Berrier, que voltou à Estrasburgo, sua terra natal, para tocar o projeto localmente. Por dois anos, Helena foi uma das organizadoras da associação–matriz em Paris.

”[Para criar a versão em Estrasburgo da Food Sweet Food e do Festival] foi preciso muito conhecimento em duas áreas: a de restaurantes e do meio associativo”. Mas por justamente já ter vivido em Estrasburgo, o caminho de Hélène estava, pela metade, andado. ”Eu contei com a ajuda de muitas associações que acolhem refugiados. Aos poucos, fui conhecendo esses refugiados, entrando em contato e o Festival começou a ganhar forma”, afirma.

Sobre o contato com os restaurantes, a coordenadora explica que foi preciso ganhar a confiança dos donos e entender os valores de cada estabelecimento. Em dois anos, o Festival dobrou o número de refugiados e de restaurantes participantes – os cinco chefs refugiados viraram 15 em apenas dois anos.

”Alguns donos de restaurantes, ao se disporem a empregar a tempo parcial alguns de nossos chefs refugiados, vinham me perguntar : Ah, mas como eu faço o contrato então, preciso chamar alguma organização ?’ E eu respondia que não, que era, em termos de lei, como se ele estivesse empregando um francês. ‘Você vai precisar da carta de identidade, CPF etc…”, conta. E acrescenta: ”Ainda falta informação para o empregador no que diz respeito ao refugiado.”

Palestina, quando a terra natal se torna uma amada intocável

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Senhora refugiada segura a chave de sua antiga casa na Palestina. Foto está em um centro comunitário no campo de refugiados de Shatila, no Líbano (out/2017). Crédito: Bruna Kadletz

O aspecto mais cruel de deslocamentos forçados prolongados é cair em zonas de esquecimento coletivo, em locais onde a injustiça social e abandono político são normalizados

Por Bruna Kadletz
Em Beirute (Líbano)

No outono de 2017 eu conheci três anciãos palestinos no Campo de Refugiados Shatila, em Beirute, no Líbano. Os três eram sobreviventes do Al-Nakba, que significa ‘desastre’ ou catástrofe’. A expressão em árabe refere-se ao período do nascimento violento do Estado de Israel em 1948, quando centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas vilas e forçados a uma existência em exílio. Muitos dos sobreviventes e seus descendentes ainda vivem como refugiados no Líbano, sem o direito de retornarem a sua terra-natal.

Para os anciãos, memória, história oral e tradição são pilares essenciais que sustentam a identidade palestina. De outra forma, dada as dificuldades de uma existência em exílio em campos de refugiados, as gerações nascidas expatriadas correm o risco de esquecerem não somente quem são, mas também sobre a terra de seus ancestrais.

Para os milhões de refugiados ao redor do mundo, a terra-natal é uma amada intocável, imaginada na doçura e dor de memórias, e visitada somente nos imaginários da contação de histórias e fotografias. Muitos palestinos carregam consigo as chaves das suas antigas casas na Palestina, simbolizando o desejo inabalável de retornarem para o seu lar. O sonho da casa é o ar que respiram.

Anciãos palestinos sobreviventes do Al -Nakba que vivem no campo de refugiados de Shatila, no Líbano.
Crédito: Bruna Kadletz

Segurando um misbaha em uma de suas mãos, enquanto move as contas da oração pelos seus dedos, Abu Mahmoud e os outros anciãos contam sobre as feridas profundas da ocupação e o trauma transgeracional, assim como sobre comunidade e laços com a terra. Nas antigas vilas na Palestina, compartilhamento e senso de comunidade eram valores centrais integrados nos relacionamentos pessoais e no sistema econômico.

Para os moradores das vilas, a terra tinha um significado profundo – envolvendo devoção para o solo por onde as figueiras, oliveiras, trigo e outras plantações cresciam – e não era vista como algo destituído de valor e puramente com preço financeiro. Antes de venderem os frutos da colheita, a tradição ditava que parte da colheita deveria ser reservada para a comunidade da vila. Esta prática garantia que todos os moradores tivessem acesso a comida de qualidade e suficiente para todos.

Este campo, onde os anciãos residem, fica longe das doces memórias da infância. Shatila, junto com outros dez campos de refugiados em território libanês, foi erguido em 1949, em resposta ao êxodo palestino. Hoje, existem aproximadamente 450 mil palestinos registrados nos campos. Desde o início da guerra na Síria em 2011, com chegada dos refugiados sírios, os campos vivenciam um incremento expressivo na sua população.

Como brasileira, quando eu entrei pela primeira vez num campo de refugiados urbano no Líbano, pensei nas nossas favelas. A estrutura e condições de vida nas favelas e campos urbanos são muito semelhantes: superpovoamento, construções precárias, falta de saneamento básico e pobreza extrema permearam meus pensamentos. Favelas e campos urbanos são bolsões de abandono político e social, zonas de exclusão e punição, onde os direitos humanos mais fundamentais e condições dignas são, muito frequentemente, inatingíveis.

Na minha mais recente visita ao Líbano, em abril de 2019, minha prima Mariana estava comigo. Como era sua primeira viagem para a região, eu a aconselhei a não beber água da torneira, nem mesmo tocar a água do campo. Mas, num momento de esquecimento, ela lavou sua boca com água da torneira e sentiu na pele o sabor salgado e nauseante da água. Refugiados usam esta mesma água para tomar banho, escovar os dentes e lavar as mãos. Eu já queimei meus olhos com a água do campo.

Segundo um morador local, a água distribuída nos campos é altamente contaminada. Com a intenção de mascarar a poluição, estações de tratamento injetam grandes volumes de químicos que deixam a água salgada.

Alguns campos de refugiados têm outra característica singular: o sistema de distribuição de água não é subterrâneo. A água é distribuída por meio de tubulações que se trançam com fios elétricos, formando um telhado mortal que cobre grandes porções dos campos. Quando ocorre vazamentos, os morados ficam expostos a choques elétricos, que em muitas ocasiões são mortais.

Emaranhado de canos de água e fios elétricos no campo de refugidos Bourj el-Barajneh, no Líbano (out/2017).
Crédito: Bruna Kadletz

Como os palestinos que vivem no Líbano não possuem o direito de adquirirem imóveis e são negados o exercício de mais de 70 profissões, sua existência como refugiados é obscura. Eles também não podem construir novas casas além dos muros dos campos. A única opção que lhes resta é a expansão vertical e aproveitar cada metro quadrado do território do campo. Esta restrição resulta em construções muito próximas e ventilação deficiente. Nas ruelas estreitas que formam as vias de passagem, o sol nunca brilha.

Ao caminhar por essas ruelas, sempre me lembro da expressão popular o sol nasce para todos. Essa otimista visão de vida é sustentada pelo entendimento que todos desfrutam de oportunidades semelhantes. Contudo, ao testemunhar a exclusão de refugiados palestinos no Líbano e as privações que são submetidos no seu dia-a-dia, me parece que, o sol não nasce para aqueles que vivem nos guetos e ruelas, no sentido literal e figurativo da expressão. Tristemente, um número crescente de deslocados ao redor do mundo também habitam locais escuros de destituição e injustiça.

Para agravar a situação, em agosto de 2018, a administração do presidente americano Donald Trump anunciou cortes financeiros para a UNRWA, Agência das Nações Unidas que presta assistência aos cinco milhões de refugiados palestinos. Por muitos anos, o Estados Unidos contribuiu com cerca de um quarto do orçamento da agência. Esta decisão faz parte de uma estratégia para submeter o povo palestino em posições de mais vulnerabilidade política e econômica. É uma tentativa de silenciá-los e deletá-los do território global. Os cortes no orçamento já impactam os projetos de proteção e integração, principalmente os relacionados à educação e assistência médica.

Ainda assim, apesar de toda as adversidades, palestinos permanecem resilientes. Quando eu penso neste povo, eu vejo as oliveiras que eles tanto amam. Oliveiras são árvores resistentes a seca prolongada e crescem em solos precários. Esta imagem reflete a força do povo palestino. Oliveiras e palestinos nos ensinam a oferecer frutos mesmo em condições áridas.

Plantações de oliveiras em uma vila perto de Ramallah, na Palestina, em outubro de 2017. Crédito: Bruna Kadletz

Raheem Sterling e sua luta contra o racismo

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O atacante inglês Raheem Sterling, do Manchester City, que luta contra o racismo no futebol. Crédito: Manchester City

Negro e de origem migrante, jogador é a principal voz contra o racismo no futebol inglês

Por Guilherme Freitas
Em São Paulo (SP)

Nascido no dia 8 de dezembro de 1994 em Kingston, capital da Jamaica, Raheem Sterling é hoje um dos melhores jogadores do futebol inglês, brilhando nos gramados e com uma importante tarefa fora dele.

Dentro das quatro linhas o jogador de 24 anos fez uma temporada irretocável (2018-2019) anotando 25 gols em 51 jogos pelo Manchester City, conquistando quatro títulos nacionais (Campeonato Inglês, Copa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa e Supercopa da Inglaterra) e sendo eleito o melhor jogador jovem do Campeonato Inglês.

Fora dos gramados este atacante, que imigrou aos cinco anos da Jamaica para a Inglaterra com a mãe solteira, tornou-se a principal voz contra o racismo no futebol inglês. Nos últimos meses, Sterling foi vítima de atos racistas dentro e fora da Inglaterra.

Tudo começou na derrota do Manchester City para o Chelsea em dezembro do ano passado. Quando ia se preparar para bater um escanteio, ouviu ofensas racistas de um torcedor que estava próximo do gramado. Ao fim do jogo além de lamentar a conduta do agressor, criticou a forma como parte da mídia inglesa trata os jogadores negros.

Em suas redes sociais expôs a forma depreciativa que parte da imprensa trata os atletas negros. Sterling questionou o tratamento pejorativo do jornal Daily Mail quando a publicação noticiou de forma diferente a mesma história. Os jovens Phil Foden e Tosin Adarabioyo, ambos revelados pelo Manchester City, compraram mansões de 2 milhões de libras em um condomínio para suas mães. O jornal fez uma matéria em tom positivo a Foden, o definindo como “estrela do Manchester City”. Já Adarabioyo foi destacado negativamente, soando ser um absurdo um jogador reserva comprar uma casa tão cara para a mãe. Foden é branco. Adarabioyo, negro.

Sterling questionou a forma pejorativa de como a publicação noticiou os dois casos, dando a entender que o atleta negro não merecia ter comprado a casa. Alguns não enxergaram racismo e disseram que o jornal quis apenas polemizar para o fato de um reserva ter tanto dinheiro para comprar uma mansão. Porém, o histórico da relação entre imprensa e jogadores negros na Inglaterra pesa a favor de Sterling.

Tendo disputado sua primeira partida oficial em 1872, a Inglaterra demorou mais de um século para ver o primeiro negro ser convocado para defender a seleção nacional. Em 1978, o lateral-direito Viv Anderson teve a honra de vestir a camisa da seleção em uma partida amistosa contra a Tchecoslováquia.

Anderson superou este tabu, mas sofreu. Foi bastante ofendido e perseguido por torcedores racistas, principalmente pelos hooligans e pelos adeptos do Front National, movimento supremacista branco que aterrorizava jogadores e torcedores negros nos estádios entre as décadas de 1960 e 1980. Cânticos racistas, ameaças de agressão e bananas atiradas em campo eram, infelizmente, atos normais quando Anderson estava em campo pela Inglaterra. Mas ele superou tudo isso e disputou duas Copas do Mundo.

Porém, antes de Anderson outro negro poderia ter mudado a história do futebol inglês. Em 1925 não havia imagens de TV e nem todos conseguiam ter imagens das partidas de futebol. Dessa forma conheciam-se apenas os nomes, mas muito pouco da fisionomia dos atletas. O Plymouth Argyle, clube localizado no sudeste do país, tinha um atacante chamado Jack Leslie. Artilheiro, chamou a atenção da Federação Inglesa que resolveu convocá-lo. Mas havia um problema. Leslie era negro. Ao tomar ciência que o filho de um imigrante jamaicano não atendia aos princípios do regimento resolveram vetar sua convocação alegando que ele era um “homem de cor”.

Um histórico pesado e conturbado que Sterling vem enfrentando com muita coragem. O jogador afirmou que jamais deixará o campo quando o ofenderem e que vai encarar os agressores de cabeça erguida. Seu companheiro de seleção Danny Rose, que também é negro, apoiou o amigo e cobrou da Federação Inglesa e da UEFA punições mais duras contra o racismo. Longe dos gramados quem também se solidarizou com Sterling foi Lewis Hamilton, negro e pentacampeão de Fórmula 1.

Sterling é hoje a principal voz contra o racismo no futebol inglês, buscando encorajar a nova geração de atletas ingleses a se tornarem cidadãos mais críticos contra os racistas e intolerantes.

Efeitos do ódio e da intolerância contra os migrantes

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Cartaz abre caminho pela Paulista para passagem da 12ª Marcha dos Imigrantes. Crédito: MigraMundo

A busca pelo “pão nosso de cada dia” debilitou a luta pelo chão, pelos direitos pela dignidade humana e pela cidadania

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

Quatro fatores, entre outros, têm contribuído para o aumento dos deslocamentos humanos em termos globais. O primeiro deles está vinculado à crise prolongada da economia capitalista, desencadeada a partir das últimas décadas do século XX e início do século XXI. A crise trouxe desemprego e subemprego em massa, instabilidade socioeconômica, além de espalhar medo, ameaça e insegurança. As pessoas tendem a imergir numa inércia, marasmo, paralisia. Ou então, para boa parte delas, as energias vitais e potenciais, em lugar de concentrar-se sobre as forças da organização trabalhista, voltaram-se contra o próprio vizinho ou companheiro, que se torna um concorrente das migalhas que o capital deixa cair da mesa. Às vezes tais energias se abatem sobre os que amamos ou pensamos amar. A busca pelo “pão nosso de cada dia” debilitou a luta pelo chão, pelos direitos pela dignidade humana e pela cidadania.

Em segundo lugar, à medida que a crise se aprofundava, crescia simultaneamente a diferença social e econômica entre as diferentes classes sociais e categorias de trabalhadores. Daniel Duque, pesquisador do IBRE-Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas, publicou recentemente um estudo sobre a evolução negativa do Índice de Gini, que mede o nível de concentração de renda (Jornal o Globo, 26/05/2019, pág. 2). Verifica-se que nunca tão poucos se tornaram tão ricos em tão pouco tempo, enquanto a maioria da população sofreu perdas progressivas de poder aquisitivo, gerando exclusão social. Trabalhos e publicações em abundância, ilustrados por números e estatísticas, mostram bem o crescimento generalizado da desigualdade social, tanto em nível nacional quanto regional e planetário. A incerteza quanto ao futuro associada à grande massa de sobrantes – “descartáveis e descartados” – contribui poderosamente para a busca de uma cidadania justa e digna fora do lugar de nascimento.

Nesse clima de instabilidade, nasce e cresce o terceiro fator. Os políticos oportunistas e sempre de plantão, oriundos em particular da extrema direita e ligados ao nacionalismo popular, souberam manipular e instrumentalizar o medo, a ameaça e a insegurança para eleger-se. Os casos são numerosos e variados: Hungria, Áustria, Itália, Estados Unidos, Filipinas, Dinamarca, Eslováquia, Inglaterra do Brexit, Brasil… Tanto é verdade que a realidade das migrações, em geral, aparece entre os primeiros temas de suas campanhas eleitorais. Politizar as migrações era uma forma de criminalizar os migrantes como intrusos, invasores, perigosos. O “outro”, seja quer for e venha de onde vier, é nosso inimigo, vem roubar nossas oportunidades, deve ser combatido. Os nossos antes de tudo! – eis o lema. Seguiram-se o fechamento das fronteiras e a elaboração de leis mais rígidas para a entrada de estrangeiros, por um lado e, por outro, os cortes no orçamento público para acolhida, assistência e inserção de novos imigrantes. Diminuiu também a aprovação para os requerentes de asilo.

Por fim, em quarto lugar, restringiu-se por toda parte a migração legalizada. Não somente os fluxos que se direcionavam aos países centrais provenientes dos países periféricos, mas também o vaivém entre estes últimos. Com isso, os movimentos de população, sejam eles devido à violência ou à pobreza, começaram a pressionar as fronteiras entre os países, como se pode verificar entre Estados Unidos e México, entre este último e Guatemala, entre Venezuela, Colômbia e Brasil, entre Turquia e Europa, entre Líbia e sul da Itália e Espanha, entre tantos outros. A migração ganha maior visibilidade. E mesmo a partir da fronteira bloqueada, os migrantes convertem-se em novos “bodes expiatórios” da desordem social. Daí a intolerância, a discriminação, o rechaço e, no extremo, a perseguição e deportação em escala crescente. Para piorar, no imaginário popular e às vezes na mídia ou nas redes sociais, o tráfico de seres humanos, drogas e armas, o terrorismo e o crime organizado – aparecem vinculados à migração. Nessa atmosfera, também não é difícil detectar uma onda de ódio e agressividade com sérios elementos de um supremacismo racial que já havia sido jogado na lata de lixo da história.

Museu da Imigração completa 5 anos de reabertura e nova abordagem das migrações

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Fachada do Museu da Imigração, em São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - out.2017)

Enfrentando desafio da reaproximação com o público, o museu se recria por meio da interação social

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

Nesta sexta-feira (31), o Museu da Imigração comemora cinco anos de reabertura – foi fechado em 2010, para obras de restauração do patrimônio – e de uma nova forma de se abordar as migrações no Estado de São Paulo e no contexto nacional e global.

O fechamento do então Memorial do Imigrante foi feito para preservação do local, durante o mandato do governador José Serra (PSDB), que em seu plano de governo, da época, havia mencionado sua preocupação com a precariedade dos museus nacionais.

As obras duraram por volta de quatro anos, apesar da nota do site de Cultura do Estado de São Paulo ter divulgado apenas um ano para o encerramento. Ao final da restauração, em 2014, o patrimônio retomou suas atividades com nova gestão, o Instituto de Preservação e Difusão da História do Café e da Imigração (INCI) – selecionado em 2011 pela Secretaria de Estado da Cultura.

“Os principais desafios da reabertura foram driblados por meio da manutenção da relação com as comunidades, aproximando-as da instituição, estabelecendo uma confiança mútua e realizando trabalhos em conjunto”, afirma a diretora executiva do museu Alessandra Almeida, ao explicar como reestabeleceram a credibilidade após anos de fechamento.

Além de manterem-se como referência histórica e patrimonial, os gestores do Museu atentaram para medidas de aproximação a população – por meio de atividades e conteúdos sobre o direito de migrar, a fim de sensibilizar o público com questões históricas e sobre o cenário atual dos movimentos migratórios.

Modernidade e interatividade

Na visão da diretora, essa nova fase do museu é marcada pela modernidade e interatividade, por mostrar com suas atividades como o processo migratório é um fenômeno permanente e tem forte papel na formação de São Paulo.

As ações do museu têm intensificado nesses cinco anos e renovado as táticas de trabalho. Oferecendo exposições – temporárias e fixas -, experiências temáticas, abordagens educacionais pelo Núcleo Educativo, serviços gratuito de auxilio ao Acervo Digital pelo Centro de Preservação, Pesquisa e Referência (CPPR), entre outras.

Entre as principais características delas está a tentativa de interação com a comunidade. Como o exemplo da exposição “O Caminho das Coisas”, composta por objetos emprestados pelo público após campanha nas mídias sociais.

“O Museu da Imigração vem, há um tempo, buscando trabalhar com processos colaborativos, permitindo ações de relacionamento com os públicos, novas formas de pensar a curadoria, a participação e o engajamento, contribuindo para a gestão e programação do museu”, explica Alessandra.

Os esforços com o envolvimento tem tido resultados. Desde a reabertura até o fim do ano passado, o museu já teve 663.681 visitantes.

Exposições

As exposições são divididas em: longa duração, temporária, itinerante e virtual. A escolha do conteúdo para exibição é realizada pela equipe técnica do museu, de acordo com seu calendário.

“A avaliação é feita com base na política de exposições da instituição, sempre privilegiando projetos que discutam a questão patrimonial das migrações, a partir das próprias coleções, ou que problematizam as experiências contemporâneas”, explica Alessandra.

Museu aposta na interatividade para tocar o público e trazê-lo para o debate da migração. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mai.2014

A diretora admite que o público tem preferência por exposições que envolvam a imigração histórica, a memória e a herança, por acreditar que estejam relacionadas às trajetórias dos visitantes ou seus familiares. “Afinal, essas curadorias intensificam a afetividade do público com essa temática”.

Já “Cartas de Chamada de Atenção”, um compilado de histórias de imigrantes e refugiados no Brasil, foi a exposição que mais marcou a diretora em seu tempo de trabalho – especificamente por ter retratado a questão contemporânea do fluxo migratório, de forma que a fez imergir no processo de construção, graças à colaboradores, inclusive imigrantes e refugiados abrigados na cidade.

Exposição Temporária “Cartas de Chamada de Atenção”, fruto da parceria entre o Museu da Imigração e o Arsenal da Esperança. Crédito: Divulgação/Museu da Imigração

Acervo Digital

O acervo disponibiliza registros de imigrantes que passaram pelas instalações de São Paulo no século XX. O recurso é uma ferramenta de consulta para pesquisadores e o público em geral que procura informações de familiares, comumente exigidas na solicitação de documentos de cidadania e afins.

A consulta pode ser realizada online e gratuitamente. Para facilitar a pesquisa, o museu lançou um manual em forma de e-book.

O projeto iniciou em janeiro de 2011, demandando esforços da equipe do Arquivo Público do Estado de São Paulo, responsáveis por organizar os documentos, realizar intervenções para conservação e preservação daqueles em estado de deterioração devido o tempo, digitalizar e tratar as fotos digitalizadas. Para somente assim, estar disponível para consulta.

Por causa da quantidade de documentos e a fragilidade que se encontram alguns deles, parte do acervo do Arquivo Público ainda não está disponível no Acervo Digital do Museu. Lembrando que toda a versão física está sob a guarda e responsabilidade do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Festa do Imigrante

A Festa do Imigrante é a atividade do museu com maior engajamento das comunidades migrantes, consolidado no calendário cultural de São Paulo.  Na edição deste ano, serão 80 grupos representando 48 nacionalidades.

A programação da 24ª edição está disponível no site para consulta. Entre as novidades, estará a expansão do empório com a participação de 15 expositores. O evento também contará com novos grupos de apresentação artística e inclusão da Venezuela e Tailândia na oferta gastronômica.

Integrantes do grupo folclórico lituano Rambynas, uma das atrações culturais tradicionais da Festa do Imigrante – que também estará presente na edição 2019. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – jul.2014

As medidas inclusivas estreadas no ano passado serão retomadas nesta edição. A infraestrutura da festa foi planejada com recursos de acessibilidade, para que todos possam aproveitar e compartilhar deste grande câmbio cultural.

A diretora relembra que desde a tomada do Instituto de Preservação e Difusão da História do Café e da Imigração (INCI) na organização do evento, a festa passou por diversas mudanças. A ampliação da duração para três dias, a interação das comunidades com o público com workshops de dança, oficinas de culinária e artesanato. Além da criação do espaço “Faz e Conta”, programação infantil responsável por abordar a temática de maneira lúdica.

História do Museu

A Hospedaria de Imigrantes, inaugurada em 1887, abrigava a maioria dos imigrantes recém-chegados à São Paulo, na época. Ela exerceu sua função até 1978, com algumas interrupções ao longo desse tempo – como mostrou uma das exposições temporárias do Museu, a Hospedaria 130.

O prédio já foi usado como hospital improvisado, presídio político, abrigo para enchentes e até escola técnica de aviação da Aeronáutica.

Em 1983 se tornou o Centro Histórico do Imigrante, que futuramente viria a ser o atual Museu da Imigração.

Refugiados no Brasil têm escolaridade alta, mas sofrem com desemprego, aponta relatório

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Feira dentro de shopping em São Paulo reuniu refugiados que puderam mostrar um pouco do trabalho de cada um. Crédito: Debora Rodrigues - mar.2017

Pesquisa inédita do ACNUR e da CSVM traçou o perfil dos refugiados no país; empreendedorismo tem sido uma das saídas buscadas na questão laboral

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Eles têm escolaridade maior do que a média brasileira, mas em geral atuam fora de suas áreas de formação e com baixa média salarial – isso quando conseguem trabalho formal.

Este foi um dos resultados obtidos a partir de uma pesquisa inédita lançada nesta quinta-feira (30) pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), sobre o perfil dos refugiados residentes no Brasil. As entrevistas foram conduzidas por pesquisadores da CSVM (Cátedra Sérgio Vieira de Mello), que incentiva estudos sobre deslocamentos forçados.

Acesse aqui o resumo da pesquisa

Os pesquisadores conduziram entrevistas com 487 pessoas refugiadas reconhecidas pelo Conare (Comitê Nacional para Refugiados), entre junho de 2018 e fevereiro de 2019, em 14 cidades de oito Estados que concentram 94% dos refugiados que hoje residem no Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina, Minas Gerais e Amazonas. São Paulo, sozinho, concentra 57,7% desse total.

A amostra é representativa do total de refugiados no Brasil. De acordo com o Conare, o país já reconheceu 10.522 pessoas nessa situação desde 1997 – quando entrou em vigor a legislação atual sobre refúgio. Destas, segundo o levantamento, 5.314 permanecem com esse status ativo.

Dos entrevistados, 71,13% são de quatro países: Síria, República Democrática do Congo, Angola e Colômbia – de acordo com o Conare, há 105 nacionalidades representadas entre os refugiados já reconhecidos pelo Brasil.

A pesquisa mostrou que os refugiados entrevistados possuem qualificação profissional acima da média da população brasileira – 34% possuem ensino superior, ante 15,7% dos brasileiros. Porém, 19,5% deles estão desempregados (a taxa no Brasil atualmente é de 12,7%). Entre os que informaram ter uma renda mensal, 79,5% têm renda inferior a R$ 3.000.

Feira dentro de shopping em São Paulo reuniu refugiados que puderam mostrar um pouco do trabalho de cada um. Crédito: Debora Rodrigues – mar.2017

“É notório a qualificação das pessoas refugiadas que vivem no Brasil, reforçando o quanto essa população chega para somar conhecimentos e capacidades que tem o potencial de tornar nossa economia mais dinâmica, diversificada e capacitada, transformando positivamente nossa sociedade”, destaca Miguel Pachioni, assessor de informação pública do ACNUR.

A revalidação de diplomas é um desses gargalos. A pesquisa encontrou apenas 14 refugiados que conseguiram revalidar seus diplomas (em todos os níveis de ensino e em formações profissionais diversas) no Brasil, contra 133 refugiados que não conseguiram.

Também contribuem para esse cenário questões como burocracia e falta de informação. Levantamento feito junto a profissionais da área de Recursos Humanos de empresas – divulgado em primeira mão pelo MigraMundo em junho de 2018 – indicou que a desinformação é um fator que dificulta a inserção de refugiados no mercado de trabalho formal.

Saída pelo empreendedorismo?

Com a dificuldade na revalidação dos conhecimentos profissionais, uma saída buscada ou cogitada pelos refugiados é o empreendedorismo. Dos entrevistados, 17,9% declararam trabalhar por conta própria e 79% manifestaram interesse em empreender.

“É notório que muitos deles tenham predisposição em empreender. Pelo conhecimento que possuem, mas também pela capacidade de adaptação, contribuem para que nossa economia se torne mais dinâmica”, aponta Pachioni.

O estudo não detalha em quais áreas os entrevistados empreendedores atuam, mas projetos com refugiados e solicitantes de refúgio em diferentes cidades dão uma pista: gastronomia, aulas de idiomas e artesanato estão entre as atividades exercidas. Neste caso, novamente a burocracia é citada como um entrave por Pachioni.

“O perfil empreendedor é notório, mas sentimos na outra ponta que há uma dificuldade em fazer com que essas pessoas refugiadas tenham acesso a microcrédito”, exemplificou Pachioni, que vê os negócios tocados pelos refugiados como potenciais geradores de empregos.

Dos entrevistados, 78,2% se queixaram justamente da falta de recursos financeiros para empreender.

Fazer parte do país

Outro destaque apontado pela pesquisa é o desejo dos refugiados em fazer parte da sociedade brasileira. Três quartos dos entrevistados disseram participar de atividades com cidadãos locais, enquanto

A pesquisa aponta ainda que 96,3% dos entrevistados desejariam obter a cidadania brasileira e 80,6% manifestaram interesse em votar. O direito a voto no Brasil é restrito a brasileiros natos e naturalizados e as possibilidades de participação política estão restritas a processos de caráter consultivo.

Imigrante vota durante eleição para os Conselhos Participativos Municipais de São Paulo, em 2014. Crédito: Fórum Social pelos Direitos Humanos dos Migrantes

“Percebe-se aqui o imenso potencial integrativo que, combinado ao desejo de participação política, indica a confiança na integração definitiva à sociedade brasileira”, aponta a pesquisa.

“Uma vez estando no Brasil e tendo acesso aos serviços públicos em geral e a garantia de seus direitos, há a clara perspectiva de que elas pretendam obter a cidadania brasileira”, complementa Pachioni, apontando a persistência das situações de conflito e de perseguições às quais os refugiados estariam expostos em seus países de origem.

“Em síntese, o Brasil, nesse momento, apresenta-se como uma opção difícil, porém definitiva para a população refugiada analisada”, conclui a pesquisa.

E os venezuelanos?

Por englobar apenas os refugiados reconhecidos pelo governo brasileiro, ficam fora da pesquisa os cerca de 96 mil solicitantes de refúgio que ainda aguardam parecer do Conare – o que deixa de fora os venezuelanos, que respondem sozinhos por 77% dos pedidos.

Em nota divulgada no último dia 21 de maio, o ACNUR apelou à comunidade internacional – Brasil incluso – que reconheça os venezuelanos como refugiados. A agência da ONU estima que cerca de 3,6 milhões de venezuelanos já deixaram o país – a projeção é que esse número chegue a 5,3 milhões até o final do ano.

Refugiados são pessoas em situação de migração internacional que deixaram seus países de origem fugindo de conflitos armados ou por perseguição e grave violação de direitos humanos devido a motivos religiosos, étnicos, políticos, de gênero, entre outros.

Barracas no abrigo Jardim Floresta, em Boa Vista, um dos locais criados para alojar os venezuelanos na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo

Após Brexit, onda populista anti-imigração chega ao Parlamento Europeu

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Uma das sedes do Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

”Eles minarão a União Europeia por dentro”, afirma analista político e colunista do jornal El País ao MigraMundo.

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Nem a massiva presença dos pró-União Europeia (incluindo o crescimento atípico dos Verdes), nem a participação recorde dos eleitores nas eleições para o Parlamento europeu evitaram análises mais sombrias: a política europeia já está contaminada pelo chamado populismo de extremos, regido principalmente pela extrema-direita.

”O fator mais relevante dessas eleições é a ascensão do populismo (principalmente o de extrema-direita e menos o de esquerda) de uma maneira nunca antes vista desde a década de 30”, afirmou o colunista do jornal espanhol El País, Gonzalo Fanjul ao MigraMundo. Fanjul é também economista, colaborador do Center for Global Development e co-fundador do site espanhol PorCausa.org especializado em migrações. ‘O grupo de euro-céticos populistas ”aprenderam com o Brexit a não sair da UE, mas miná-la estando ainda dentro dela”, acrescentou.

Um recente estudo publicado pelo PorCausa.org revela que a xenofobia está no cerne deste populismo, disseminado em maior ou menor grau em diversos países, como Brasil, Hungria, Itália, Estados Unidos, Reino Unido, França e etc.

Para especialista Gonzalo Fanjul, uma nova Era chegou na Europa, de ataque às forças tradicionais intermediárias (políticos, imprensa e ONGs). Crédito: Divulgação

É o chamado ”Franquicia Antimigración” (Franquia Antimigração, em tradução livre do espanhol) e ”tem por objetivo central o poderio do Parlamento europeu, através de uma coligação entre partidos, para vetar propostas progressivas”, afirma o relatório.

”Poucas frentes desta guerra são tão prioritárias como a frente na Europa. Para a Franquia Anti-migração, o ideal de globalização e integração da diversidade que propõe a UE representa tudo o que deve ser combatido”, afirma o relatório.

”Os movimentos nacional-populsitas estão conseguindo se estabelecer com força em governos e Parlamentos de quase uma dezena de Estados-membros (desde o Executivo da Hungria, Itália e Áustria até o controle da oposição na Alemanha e Suécia), determinando os debates fundamentais, como o debate migratório”, acrescenta o relatório.

O novo Parlamento

A nova composição do Parlamento europeu mostra a ascensão deste populismo de direita, com a eleição de 172 deputados euro-céticos,
tornando-se o segundo maior grupo político dentro da Casa.

Os euro-céticos são os partidos que gostariam de retirar seus países da UE e que são perpassados por discursos (mais ou menos) nacionalistas e extremistas, principalmente em relação à imigração.


”A extrema-direita chegou para ficar”, afirma colunista do The New York Times. (Divulgação)

Para o colunista do The New York Times Ivan Krastev, ”a extrema direita chegou para ficar”. ”A extrema-direita não é a dominante, mas deve ficar claro para todos nós que ela não vai embora tão cedo. Dos cinco partidos individuais com maior representação político no novo Parlamento Europeu, quatro são anti-União Europeia”.

Tal grupo é composto pelos seguintes movimentos: Europa das Nações e da Liberdade (ENL, da francesa Marine Le Pen e do vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini, ambos de extrema-direita) os Conservadores e Reformadores Europeus (ECR, composto principalmente por poloneses e britânicos ), o Europa da Liberdade e da Democracia Direta (EFDD, do britânico Nigel Farage – pró-Brexit – e do Movimento 5 Estrelas).

Com isso, eles estão atrás apenas do grupo dos conservadores do Partido Popular Europeu (179 cadeiras) e à frente dos sócio-democratas (150 cadeiras).

”A questão agora é saber se essas formações nacionalistas (euro-cética) aceitarão trabalhar juntas e se os partidos pró-Europa saberão se unir para os barrar”, afirmou a correspondente do jornal francês Le Monde em Bruxelas, Cécile Ducourtieux .

Forças obscuras

Em entrevista exclusiva à rede de televisão norte-americana CNN, a chanceler alemã Angela Merkel alertou para o ”crescimento de forças obscuras na Europa.”

”Existem forças obscuras em crescimento na Europa (…). Há muito o que se fazer para combatê-las aqui e em outras partes do mundo”, afirmou a chanceler, ressaltando que os alemães tomam a sua parte nesse trabalho.


”Existem forças obscuras em crescimento na Europa”, afirmou Angela Merkel à CNN um dia depois das eleições europeias.
Crédito: Reprodução/CNN

”Na Alemanha, obviamente, elas [forças obscuras] precisam sempre serem vistas à luz do nosso passado, o que quer dizer que nós devemos ser mais vigilantes do que os outros (…) Nós temos que contar aos jovens o que o nosso passado nos causou e causou aos outros.”

Em seu editorial publicado na manhã da segunda-feira (27), com os resultados quase inteiramente divulgados, o jornal francês Le Monde afirmou que com o Parlamento dividido entre forças completamente opostas, uma nova Era se instaura na Europa, onde decisões seriam mais difíceis de serem tomadas e onde o tradicional jeito de fazer política não teria mais espaço.

Para o economista Gonzalo Fanjul, esta nova Era já começou de fato, não apenas com a divisão do Parlamento, mas com o que ele chamou de ”ataque às forças intermediárias legítimas”.

[Essa nova Era] está presente em cada arena política atualmente. Os intermediários legítimos e tradicionais (os jornais, as grandes ONGs e os partidos tradicionais ) estão sob ataque e isso reflete no voto.’

Eleitor italiano Fabrizio Provenzano posa com a bandeira da UE após votar em Estrasburgo (França). ”Não devemos temer os anti-europeístas, porque os pró-UE ainda são maioria (…) a UE é ainda muito mais forte do que aqueles que a tentam destruir.”
Crédito: arquivo pessoal.

Resultados

Com menos assentos do que nas últimas eleições parlamentares, o bloco de centro direita (constituído pelo Partido Popular Europeu, PPE) e o bloco dos sócio-democratas perderam a sua maioria no Parlamento pela primeira vez desde 1979.

Na Itália, a Liga de Matteo Salvini venceu com 33,6% votos, em uma folgada vantagem em relação às outras listas concorrentes. Para o cidadão italiano Fabrizio Provenzano, 27, Salvini só ganhou por conta de uma maioria italiana que é contrária à União Europeia por falta de informação.

”Se eles se informassem sobre o que a UE trouxe de benéfico para a Itália, não teriam votado por Salvini”, afirmou ele, que é formado em Relações Internacionais e Diplomacia.

Na França, o partido de extrema-direita, de Marine Le Pen, o Rassemblement National (RN), ganhou a maioria com 23,4% dos votos – uma derrota política para o seu adversário, o atual presidente francês, Emmanuel Macron.

”Ela ganhou a maioria, mas apenas com 2 pontos de vantagem sobre o partido de Macron e com menos votos em comparação à 2014”, ponderou Fabrizio com otimismo.

No Reino Unido, o Partido do Brexit, de Nigel Farage, ganhou em primeiro lugar com 31,7% dos votos. Na Hungria, o partido soberanista Fidesz, de Viktor Orban, obteve uma vitória esmagadora com 56% dos votos. Para o italiano Fabrizio, o importante é a ainda grande presença dos grupos pró-Europa, inclusive os Verdes (em inesperado crescimento).

”Eu não acredito que devemos ter medo dos partidos anti-europeístas, porque os europeístas ainda são maioria e, portanto, a União Europeia é ainda muito mais forte do que àqueles que a tentam destruir”, afirmou Fabrizio.

Uma luz Verde no fim do túnel?

Uma das grandes novidades destas eleições foi o ressurgimento do Partido Verde, conquistando 78 cadeiras no Parlamento e crescendo em países como Alemanha e França.

O jornalista brasileiro Clóvis Rossi, do jornal Folha de S. Paulo chegou a afirmar, em sua otimista coluna do dia seguinte às eleições ”Voto na Europa equivale a novo milagre”, que os Verdes ajudaram a estancar os tormentos causados pela ascensão dos extremistas.

O Partido Verde alemão, quase esquecido no cenário político há tempos, dobrou seus assentos no Parlamento com 20,7% dos votos válidos, assim como na França, os Verdes se tornaram a terceira maior força política no país, com 13,4% dos votos ao Parlamento europeu. Na Finlândia, os ecologistas foram os que mais progrediram em relação ao passado, com 15% dos votos conquistados.

”Eu estou muito contente com a esperança trazida pelo partido Verde na Alemanha e na França. É uma vitória muito importante (…). O resultado das eleições para mim é positivo, porque todos os partidos europeus ganharam [posições significativas no Parlamento]”, afirmou o italiano Fabrizio Provenzano. ”O resultado nos mostra que a maioria é e será sempre europeia”, acrescentou.

O que faz o Parlamento Europeu?

Como a Câmara e o Senado brasileiro, o Parlamento europeu é, junto com a Conselho da Europa (formado por 20 Estados-membro) , um órgão do legislativo europeu, ou seja, ele cumpre a função de aprovar ou não as leis vindas da Comissão Europeia (o Executivo).

É responsabilidade do Parlamento votar o orçamento da União Europeia e controlar a Comissão Europeia, a qual ele pode dissolver em casos extremos, por meio da chamada menção de censura – o que nunca aconteceu.

É papel também do Parlamento sancionar um país-membro que desrespeitar os direitos fundamentais, assim como de estabelecer acordos com os países vizinhos.

Desde as eleições do 25 de maio de 2014, o Parlamento conta com 751 euro-deputadas(os). Com a saída do Reino Unido da UE, os 73 euro-deputados britânicos deverão deixar o Parlamento e então 27 cadeiras serão redistribuídas entre os países-membros – as outras 46 ficarão guardadas para caso de novos membros no bloco.

O número de deputados representantes de cada Estado varia em função do número de habitantes. Quanto maior a população de um país-membro, maior o total de representantes que ele terá direito.