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segunda-feira, junho 29, 2026
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Integração de imigrantes é tema de encontro de organizações na Espanha

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A pesquisadora Lucila Rodríguez, da fundação porCausa, durante o Hello Spain, ação que apresentou projetos inovadores para movimentos migratórios. Crédito: Natália de Oliveira Ramos

Iniciativas pelo continente europeu tentam mudar a imagem negativa associada às migrações no contexto global

Por Natália de Oliveira Ramos
Em Madri (Espanha)

“Em 2009, uma holandesa de 14 anos queria velejar pelos oceanos. Mas a justiça a proibiu. Hoje chamamos isso de ‘imigrantes'”, dizia no último dia 10 de abril Georges Belinga, fundador da Koop SF 34, de Bilbao, no lançamento do ‘Hello Spain’, em Madri (Espanha).

A iniciativa da fundação Ashoka reúne relevantes organizações para identificar os obstáculos, os âmbitos de intervenção e soluções inovadoras para os movimentos migratórios.

A analogia com a história de Laura Dekker, que queria ser a pessoa mais jovem a circunavegar o mundo, corresponde ao risco de morte no mar enfrentado pelos mais de 1 milhão de imigrantes e refugiados que realizam a travessia pelo mar Mediterrâneo desde 2015.

Estas pessoas, ao contrário de Dekker que posteriormente entrou para o livro dos recordes, cruzam o oceano com outro objetivo: fugir de conflitos e perseguições políticas e religiosas, especialmente no Oriente Médio.

Aqueles que logram chegar em terra firme têm que encarar outro desafio: a xenofobia que encontrou terreno fértil na Europa nos últimos anos. Pesquisas apontaram que a população segue temerosa com a presença de imigrantes. Seja por receio de que o sistema econômico colapse ou por acreditar que se tratam de pessoas perigosas.

Para Lucila Rodriguez Alarcón, diretora da Fundação porCausa que trabalha com mais de 150 jornalistas especializados em migrações, o ‘caminho das pedras’ para mudar esta percepção negativa é compreender que os movimentos migratórios sempre existiram e, para isso, uma mudança de narrativa é fundamental.

“Se neste momento eu propusesse uma alternativa política que não restringisse a chegada de imigrantes geraria uma tensão e medo social. Não estamos mentalmente preparados para aceitar uma alteração de modelo. Por isso, o que deve mudar é a maneira com que nos referimos à imigração.”, disse Alarcón.

O apelo da diretora de porCausa abriu espaço para a reflexão sobre a frequência com que informações distorcidas ou falsas sobre imigrantes aparecem em discursos políticos. Especialmente contra a população africana, muçulmana e árabe que chega ao velho continente. Segundo ela, o reforçamento de mitos sobre a cultura e costumes dessas pessoas resulta em rechaço e isolamento social.

O evento mostrou ainda algumas iniciativas em curso que procuram colocar em prática essa mudança de olhar sobre as migrações:

Maldita Migração

Com o objetivo de monitorar o conteúdo sobre pessoas em movimento foi criado o ‘Maldita Migración’, uma das áreas do site Maldita.es – um meio sem fins lucrativos que acompanha notícias, discursos políticos e, principalmente, informações que circulam nas redes sociais. O público envia o material por WhatsApp e uma equipe de jornalistas especializada em verificação de dados analiaa a mensagem.

“Um terço das consultas que chegam até nós estão relacionadas com imigrantes, muçulmanos e refugiados”, informou Yuli Jara, coordenadora.

Talentos invisíveis

Camille Ramani, diretora da organização Migrants Venture (Upwardly Global) está rompendo os esteriótipos inserindo mais de 5 mil imigrantes e refugiados de 169 países em trabalhos qualificados e bem remunerados nos Estados Unidos, segundo ela. “É comum nas comunidades de imigrantes que pessoas com educação universitária terminem desempregados ou subempregados. Isso dificulta o processo de adaptação no novo país”, explicou Ramani. Para mudar esse quadro, sua empresa lança, assessora e investe em empresas que oferecem oportunidades.

Na pele de imigrante

A experiência do norte-americano David Lubell quando se mudou para a Espanha para aprender o idioma castelhano lhe serviu de inspiração para o projeto Welcoming USA (América Acolhedora, na tradução literal). A iniciativa ajuda “as comunidades a se adaptarem a chegada de novas pessoas.

Segundo Lubell, tornar comunidades en lugares inclusivos tem sido possível por meio de uma conexão entre entre organizações não governamentais (ONGs) e entidades de governos locais. Em seus 20 anos de existência, o projeto teve êxito em mais de 200 cidades nos Estados Unidos. Também certificou como ‘Welcoming’ Austrália, Alemanha, Nova Zelândia e Inglaterra, importantes destinos de imigrantes.

Todos os projetos apresentados estão em fase de expansão. Segundo a organização do ‘Hello Spain’, a iniciativa visa determinar as soluções de inovação social que melhor contribuem para enfrentar esses desafios. O objetivo é conectá-los a parceiros locais para que possam implementá-los na Espanha e estabelecer uma rede permanente de colaboração entre os setores.

Na avaliação de Pedro Calado, Alto Comisario para as Migrações de Portugal, a união de iniciativas que visam incluir todos os setores da sociedade serão a resposta para os problemas que os movimentos migratoris têm enfrentado. “Em todos os lugares existem comunidades inclusivas, pessoas que empatizam com os imigrantes. Somadas, estas ideias podem mostrar resultados gigantescos”, finalizou o diplomata.




Presença de refugiados angolanos no Brasil carece de atenção em relação a outros fluxos

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Seleção de Angola posa para a foto com o troféu de campeã da etapa Rio de Janeiro da Copa dos Refugiados 2018. Angolanos já foram a nacionalidade mais numerosa entre os refugiados no Brasil. Foto: Miguel Pachioni/ACNUR

No final dos anos 90, angolanos foram a nacionalidade mais numerosa entre refugiados no Brasil

Por Beatriz Santana*

O refúgio da população angolana é um dos fluxos contemporâneos mais antigos do Brasil. Com início nos anos 1990, a vinda desses migrantes foi motivada por longos períodos de guerra e conflitos na Angola. Durante os anos de 1961 a 1974, o país havia passado pela Guerra de Independência e, posteriormente, pelo conflito de descolonização (1974/75). Quando enfim tornou-se independente de Portugal, instaurou-se uma guerra civil, motivada pela disputa de poder entre dois movimentos de libertação: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). O conflito durou 27 anos e gerou cerca de 4 milhões de deslocados internos e 600 mil refugiados para países vizinhos ou em outros continentes.

A vinda de angolanos para o Brasil em busca de refúgio apresentou destaque entre a década de 1990 até o ano de 2004. Segundo uma análise realizada pela pesquisadora Milani Rubio em 2005 a partir de acervos das Cáritas de São Paulo e do Rio de Janeiro, até o ano de criação do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) em 1998, foram identificados 2.068 processos de refúgio deferidos no país. Desse total, 1.191 eram angolanos, sendo esta a nacionalidade mais expressiva do total de reconhecimentos naquele momento.

Entre o período de 1998 a 2006, houve um declínio na relação de solicitações de refúgio por parte desses nacionais, sendo deferido o total de 567 pedidos. Entre os anos de 2006 a 2008, apenas 4 refugiados angolanos foram reconhecidos e, entre 2008 a 2010, apenas 1. Apesar da diminuição, esses migrantes representavam 39,2% do total de refugiados no Brasil em 2010.

No intervalo seguinte (2011-2014), houve uma variação negativa do total de angolanos no país. Tal diminuição deve-se às medidas de repatriação voluntária, concessão de residência permanente ou naturalização, e pela entrada em vigor da cláusula de cessação em julho de 2012, medida adotada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) com base na paz e na estabilidade alcançadas na Angola após o término da guerra civil. A cláusula encerrou uma das mais prolongadas situação de refúgio na África e gerou mudanças no perfil de refugiados no Brasil.

Segundo dados do Conare, entre 2007 e 2017, 39% dos refugiados reconhecidos eram de nacionalidade síria, e apenas 1% de angolanos. No entanto, estes representaram a 4° nacionalidade mais expressiva nas solicitações de reconhecimento de refúgio em 2017, com um total de 2.036 pedidos em tramitação no órgão.

Um rapaz de 33 anos, que preferiu não declarar seu nome, relatou as dificuldades enfrentadas durante os anos de conflito. Natural de Luanda, capital de Angola, ele comentou que os efeitos da guerra não eram fortemente perceptíveis na capital. Porém, conforme a necessidade de militares no exército, ocorriam recrutamentos obrigatórios de jovens fisicamente aptos para servir. Segundo ele, civis de diversas partes do país fugiam para Luanda buscando maior segurança. Ele complementa ainda que caminhões com armamentos eram disponibilizados para a população, a fim de que se protegessem e combatessem as forças da UNITA. Hoje, ele vive na Holanda.

Já G.L. de 27 anos que hoje mora no Brasil, reforçou a maior estabilidade na capital do país durante os anos de conflito, contrastada com o recrutamento forçado de civis para o exército. Segundo ele, homens encontrados nas ruas à noite eram levados para servir na guerra e militares invadiam as casas em busca de jovens para o exército. G.L. destacou também a recente liberdade de expressão conquistada no país. Conforme ele, manifestações contrárias ao governo eram punidas, inclusive por meio de prisões ou assassinatos.

No geral, o conhecimento do Brasil por parte dos angolanos se dá ainda na Angola, onde emissoras de televisão brasileiras veiculam um pouco da realidade local em programas, como noticiários e novelas. Muitos dos que migraram durante os anos de conflito tinham a esperança de que tais informações e imagens apresentadas, somadas às proximidades culturais e à facilidade de comunicação (devido ao idioma oficial de ambos os países ser o Português), garantiriam melhores oportunidades.

Após quase 7 anos do estabelecimento da cláusula de cessação, analisar o contexto da guerra na Angola e suas conseqüências para o perfil de refúgio no Brasil incitam a importância de considerar a vinda de refugiados angolanos – movimento que, muitas vezes, carece de atenção diante de fluxos mais recentes, mas que necessita de um olhar atento, dado o expressivo número desses migrantes no país.

*Beatriz Santana, 23, é bacharel em Relações Internacionais pela Unesp – Franca. Atualmente desenvolve pesquisa sobre o processo de securitização da entrada de refugiados, tendo como foco a Alemanha

É preciso uma nova estratégia para combater o ódio e a xenofobia

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Famílias deslocadas da área rural de Quneitra, sudoeste da Síria, para áreas próximas às colinas de Golã. Famílias estão buscando abrigo em áreas abertas. Crédito: Alaa Al-Faqir/Unicef

O planeta Terra, que deveria ser “nossa casa comum”, nega a cidadania a uma multidão errante, sem raiz, sem pátria e sem destino

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

“Uma praga envenenou o debate sobre os desafios cruciais como a imigração” – disse António Guterres, Secretário geral da ONU, ao abrir o último Conselho de Direitos Humanos em Genebra, Suíça, realizado de 25 de fevereiro a 22 de março de 2019. Segundo ele, o mundo atravessa “uma onda de xenofobia, racismo e intolerância”. E prossegue: “o ódio espalha-se nas democracias e nos sistemas autoritários’. Em lugar da preocupação com uma gestão sobre os fluxos migratórios, “temos visto como o debate sobre a mobilidade humana, por exemplo, foi envenenado com falsas interpretações que misturam refugiados e migrantes com o terrorismo, transformando-os em bodes expiatórios para os males da sociedade”. Daí sua conclusão de que é necessária “uma nova estratégia geral para combater o incitamento ao ódio”.

Semelhantes palavras, como se pode notar, traçam um retrato bastante fiel da prática política do nacionalismo populista que hoje varre uma série de países, que vão desde os Estados Unidos e Hungria, até as Filipinas e a Áustria, passando pelo Brasil e a Itália. O discurso negativo sobre a mobilidade humana, aliás, costuma ser orquestrado desde o processo da campanha eleitoral. Depois, já na direção do governo, os novos estadistas (para não falar de ditadores) aplicam uma receita que se repete com uma frequência espantosa: fechamento das fronteiras com os demais países vizinhos, não faltando os muros com arame farpado ou controle de militares; diminuição do número de concessões para os requerentes de asilo, de modo particular os que provêm de determinados países; cortes substanciais no orçamento público para a acolhida, assistência e inserção de novos imigrantes; incentivo direto ou indireto à discriminação e ao preconceito para com o “outro, diferente, estrangeiro”.

Em território latino-americano, e nos confins com o Brasil, assiste-se à diáspora venezuelana, com quase 3,5 milhões de pessoas em fuga. Numericamente é a segunda maior do mundo, perdendo apenas para os sírios que se encontram fora do próprio país. Os dois casos, de resto, ilustram bem as causas, implicações e consequências da migração. De um lado, um povo empobrecido, sem alimento e sem remédios, remexendo no lixo para catar restos de comida, abandonado e sem as mínimas condições de permanecer na terra natal – e que por isso põe-se em marcha na tentativa de encontrar um refúgio onde recomeçar a vida. De outro lado, um povo há anos bombardeado pelo que existe de mais sofisticado na indústria bélica, refém do fogo cruzado de governo e rebeldes, mas refém igualmente das potencias internacionais e da produção em massa de armamentos cada vez mais pesados e letais – sai à estrada para poupar a si mesmo e às famílias o horror da guerra e de tantas formas de violência.

Em ambas as diásporas, imperam a cobiça, a tirania e a força de um punhado de famílias ricas, abastadas e entrincheiradas no poder. Revestidas pela ideologia – seja ela de caráter ideológico, político ou religioso – não hesitam em sacrificar grande parte da população para garantir os próprios privilégios. Tais tipos de desgoverno, evidentemente, alimentam a onda de intolerância que se alastra pela face da terra. Numerosos emigrantes, de onde saem não podem retornar, sob pena de prisão, perseguição ou morte; outros imigrantes, onde chegam não podem ficar, sob pena de hostilidade e crescente rechaço. O planeta Terra, que deveria ser “nossa casa comum” (como nos tem lembrado com insistência o Papa Francisco), nega a cidadania a uma multidão errante, sem raiz, sem pátria e sem destino.

O quer fazer? Como “combater o incitamento ao ódio”, nas palavras de António Guterres? Um fantasma ronda este tempo de contrastes. Ao mesmo tempo que se desenvolve a revolução dos transportes, das comunicações e da informática, o ser humano tropeça com a dificuldade de ver respeitado o direito de ir e vir. E tropeça com igual dificuldade quanto ao direito correspondente de permanecer com dignidade na terra em que nasceu. Enquanto o mundo se torna uma “aldeia global” para as mercadorias, a tecnologia, o capital, o turismo e as notícias, os migrantes são barrados nas fronteiras, ou como trabalhadores indesejados, ou como braços descartáveis. A miséria e a violência, a fuga e a teimosia os levam até as portas de um futuro possível. Mas ali, às vezes a um passo da meta, têm seus sonhos improvisadamente interrompidos. Restam a fé e a esperança, mas também estas podem esmorecer diante de tamanhas contradições!

O que os dados do ACNUR apontam sobre as solicitações de refúgio de pessoas LGBTI no Brasil?

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Bandeira atual do Orgulho LGBT, que tem seis cores: vermelho (fogo, vivacidade), laranja (cura, poder). amarelo (Sol, claridade, da vida), verde (natureza), azul (arte, amor artístico) e roxo (Espírito, vontade e luta). (Foto: ParadaSP.org)

Por trás dos números há informações importantes que mostram existência de países que criminalizam relações homoafetivas e dinâmicas atuais das migrações como um todo

Por Arthur Fontgaland e Marcela Verdade
Do ProMigra, em São Paulo (SP)

Até o final de 2017 o Brasil registrou 10.145 solicitações de refúgio concedidas e 96.152 solicitações em análise feitas por pessoas de diferentes nacionalidades e que sofreram as mais variadas perseguições em seus países de origem, segundo o Ministério da Justiça [1].

Entre essa população é cada vez mais frequente a presença de LGBTIs. Tratam-se de pessoas que emigraram por serem perseguidas devido a identidade de gênero e/ou orientação sexual que expressam. Ainda que estes motivos não estejam diretamente mencionados como critérios para obtenção do status de refugiado, previstos pela Convenção de 1951 sobre o Estatuto das Pessoas Refugiadas, as interpretações normativas e jurisprudenciais internacionais entendem esta população solicitante como pertencente ao critério de “grupo social”.

Alinhada a este mesmo argumento utilizado pelo Direito Internacional dos Refugiados, o Brasil concedeu, em 2002, suas primeiras solicitações de refúgio a um casal de homens colombianos perseguidos por serem LGBTI. Com a intensificação de ocorrências desse tipo no país, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – ACNUR realizou um levantamento do perfil de solicitantes de refúgio das pessoas perseguidas em função da orientação sexual e/ou identidade de gênero [2]. Publicada no final do ano de 2018, a pesquisa partiu de buscas textuais no bancos de dados do Conare (Comitê Nacional para Refugiados).

Foram considerados no levantamento do ACNUR tanto solicitações feitas por pessoas LGBTI, quanto por pessoas não LGBTI percebidas como tal pelos/as seus/as perseguidores/as, geralmente defensores dos direitos à diversidade sexual e de gênero. A pesquisa não teve o propósito de dar conta do total das pessoas refugiadas e solicitantes de refúgio LGBTI no Brasil, índice  provavelmente amplo e de difícil mensuração.

Este texto, portanto, busca explorar alguns desses dados disponibilizados para consulta pública pelo ACNUR. Discutiremos, mesmo que tangencialmente, alguns possíveis fatores de expulsão/atração dos deslocamentos dessa população LGBTI para o Brasil.

Entre 2010 e 2018 o Brasil registrou 369 solicitações de refúgio cujo motivo do temor de perseguição se refere à orientação sexual e/ou identidade de gênero. Este número é composto por 241 homens gays, 38 lésbicas, 12 bissexuais e 28 pessoas não LGBTI. Além disso, 50 pessoas constam como “sem informação”.

Grande parte dos casos ocorreram entre 2014 e 2015 e muitos deles foram decididos pelo CONARE (indeferidos, arquivados ou reassentados) no ano seguinte. As solicitações se concentraram na região Sudeste, especialmente no estado de São Paulo.

O maior número de solicitações foi realizado por pessoas provenientes de países africanos e, em menor medida, de países latinos vizinhos como Colômbia e Venezuela. Quase a metade das solicitações, cerca de 45%, foi feita por pessoas perseguidas ou percebidas como LGBTI na Nigéria e em Gana, com respectivamente 121 e 45 solicitantes.

Na Nigéria, existe um conjunto de leis que criminaliza as práticas afetivas e sexuais não normativas. Historicamente criou-se um contexto neste país de violências autorizadas pelo Estado que ajuda a explicar, parcialmente, o elevado número de solicitantes de refúgio em função de orientação sexual e/ou identidade de gênero dessa nacionalidade no Brasil.

O Código Penal nigeriano prevê tipos penais que criminalizam as relações sexuais entre homens e entre mulheres. Eles são entendidos como crimes “contra a natureza” e “conhecimento carnal” que possuem pena de prisão, efetivamente aplicada, de 8 a 14 anos. Abarca também a proibição de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e de seus colaboradores (com pena de detenção); de qualquer afetividade homossexual entre homens em locais públicos ou privados; e de formação ou registro de organizações ligadas aos direitos e expressões LGBTI. As penas podem variar entre 3 a 14 anos conforme a infração.

Na região norte do país, diversos estados adotam, ainda, a lei religiosa islâmica “Sharia”. Ela também criminaliza as atividades sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Para homens, a morte é a pena máxima. As mulheres são penalizadas com chicoteamento e/ou prisão.

Já em Gana, o Estado prevê em seu Código Penal o tipo “conhecimento carnal não natural” responsável por criminalizar as relações homoafetivas entre homens. As penas variam entre 3 a 7 anos de prisão. Apesar do entendimento de sua aplicabilidade apenas aos homens, há relatos da mídia local de ataques de milícias contra lésbicas.

A retórica nacional “anti-gay” é encontrada em diversos estamentos do governo, nos discursos de líderes populares e nas instituições religiosas católicas, evangélicas e islâmicas. Estes agentes ganeses desempenham um significativo papel de fomento à estigmatização das expressões de gênero e sexualidade dissidentes. Tais situações motivam e/ou obrigam um número crescente de jovens a se inscreverem em programas de conversão e aconselhamento.

Nos dois países, as penalizações para homens gays tendem a ser mais severas se comparadas às outras orientações sexuais. O que pode explicar, de certo modo, o grande percentual de solicitação de refúgio no Brasil por parte desse segmento identitário se comparado aos demais. O Conare registrou 84 homens gays cisgêneros provenientes da Nigéria e 28 de Gana.

A incidência expressiva de pessoas heterossexuais cisgêneras constatada nos registros oficiais provenientes desses dois países e contabilizadas pelo ACNUR sugere que se tratam de casos de pessoas que em prol do seu ativismo político são percebidas como membros do grupo social LGBTI. Tais ocorrências encontram fundamento nas barreiras civis e criminais que países como a Nigéria institui contra organizações sociais pró LGBTI.

As situações encontradas na Nigéria e em Gana compõem um universo mais amplo: cerca de 70 dos 193 países reconhecidos pela ONU criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo, conforme os dados publicados este ano pela Associação Internacional de Lésbicas Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo – ILGA [3].

Mas estas criminalização, sobretudo em países como Nigéria e Gana, não devem ser tomadas como o único fator que explica o alto índice de solicitação de refúgio LGBTI dessas nacionalidades no Brasil. É preciso considerar outros vetores de atração/recepção relacionadas aos (re)arranjos globais das dinâmicas políticas, econômicas e sociais que incidem nos fluxos desses refugiados e nas solicitações de refúgio no Brasil.

Entre eles, destaca-se o recrudescimento das políticas migratórias do Norte global que modificam rotas e intensificam as migrações Sul-Sul [4]; o maior estreitamento das relações internacionais de caráter político e econômico com países africanos, sobretudo nas primeiras décadas dos anos 2000; e o contexto de estabilidade econômica brasileira até recentemente.

Outros prováveis fatores de atração para o Brasil são as características mais receptivas das nossas políticas para refugiados em contraste com as de outras nações. O que inclui o princípio de não devolução de solicitantes para o país onde foram perseguidos, o acesso à saúde pública e direitos trabalhistas garantidos às pessoas em situação de refúgio.

Pesa, também, o fato de o Brasil não possuir políticas que criminalizam as relações entre pessoas do mesmo sexo. Além disso, no imaginário internacional, o brasileiro costuma ser percebido como um povo que goza de grandes liberdades sexuais, ainda que conviva com intensas desigualdades de gênero, com violenta e letal cultura LGBTIfóbica e com a frágil proteção legal às mulheres e LGBTI.

Referências

[1] Refúgio em números – 3ª edição. Ministério da Justiça. Disponível em: <http://twixar.me/SkdK>.  Acesso em: 17 de março de 2019.

[2] Perfil das solicitações de refúgio relacionadas à OSIG. ACNUR, 2018. Disponível em: <http://twixar.me/qC0K>. Acesso em: 17 de março de 2019.

[3] Sexual Orientation laws in the world, ILGA, 2019. Disponível em: http://twixar.me/RkdK[4] Baeninger, Rosana. Migrações Sul-Sul. Campinas, 2018. Pág. 13. Disponível em: <http://twixar.me/3k0K>. Acesso em: 17 de março de 2019.




O desastre natural nos países do sudeste africano e seus desdobramentos migratórios

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Crianças andam em lamaçal no distrito de Buzi, em Moçambique, onde os efeitos do ciclone Idai ainda são visíveis. Crédito: De Wet/Unicef

Moçambique, Zimbábue e Malauí precisarão lidar com os deslocamentos populacionais causados pelo ciclone Idai

Por Luana G. Silveira
Equipe de Comunicação do CSEM – link original aqui

Há mais de duas semanas, no dia 14 de março, um forte ciclone tropical atingiu a cidade portuária de Beira, quarta maior de Moçambique, e seguiu para os países fronteiriços Zimbábue e Malauí. O ciclone Idai, como foi denominado, afetou mais de 1,85 milhão de pessoas apenas em Moçambique. O número de centenas de mortes continua crescendo, segundo a ONU já passa de 760 ao total, nos três países, e 1,5 milhão de crianças precisam de ajuda humanitária, de acordo com a UNICEF.

As chuvas e ventos, que chegaram a 170 quilômetros por hora, deixaram um rastro de destruição pela região. As estradas para o local foram reabertas somente na última segunda-feira (25), após onze dias do ocorrido, permitindo o alcance do socorro a pessoas que ainda estavam isoladas. A infraestrutura da região atingida já era precária antes do desastre natural, que causou o deslocamento de 483 mil pessoas, segundo estimativas das Nações Unidas.

A Ir. Carla Luisa Frey, missionária Scalabriniana atuante na Casa de Acolhida em Ressano Garcia, vila moçambicana fronteiriça à África do Sul, alerta para a condição de migração causada pelo ciclone. “Todo o país está se mobilizando e solidarizando com o povo da cidade da Beira e do centro do país. Um fator determinante será a migração de muitos para o interior e regiões Sul e Norte de Moçambique, a maioria das pessoas afetadas pelo ciclone possuem familiares nesses locais, principalmente em Maputo, o que irá requerer uma mobilização para o acolhimento, inserção e auxílio a essas pessoas”, finaliza.

Já a Ir. Marinês Biasibetti, também missionária Scalabriniana em Maputo, capital do país, explica que, após o ciclone, os desafios sociais irão aumentar, e conta que as Irmãs estão oferecendo seu trabalho e missão para a população. “Nós estamos disponíveis para prestar nosso apoio e conforto, porém, a falta de energia elétrica está dificultando o deslocamento para chegar aos locais mais afetados. Assim que houver a possibilidade, estaremos lá prestando nosso auxílio a essas pessoas”.

As Irmãs Scalabrinianas, que possuem a Casa de Acolhida em Ressano Garcia, promovem atividades voltadas para pessoas deportadas da África do Sul, que chegam pela fronteira terrestre de Ressano Garcia, e jovens e crianças migrantes de partes mais pobres de Moçambique, que encontram na vila oportunidade para trabalhar e enviar dinheiro para suas famílias. O trabalho com as crianças e jovens migrantes envolve ativistas e voluntários que fazem o possível para garantir seus direitos básicos. Tanto Maputo, quanto Ressano Garcia não foram afetados pelo ocorrido, o que torna os locais possíveis destinos para a migração interna.

O governo brasileiro anunciou uma doação de cem mil euros (R$ 436 mil) ao país para auxiliar no resgate de vítimas e reconstrução do local. Além disso, a pedido do presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, o Brasil enviou a Força Nacional de Segurança Pública, que desembarca no país na tarde dessa segunda-feira (1) com vinte bombeiros especialistas em busca e salvamento, levando botes e equipamentos adaptados ao tipo de resgate necessário na região da cidade da Beira, e 8,9 toneladas de alimentos. A princípio, a equipe permanecerá por trinta dias no país. Ainda, a organização Médicos Sem Fronteiras e uma Central de Apoio criada por entidades moçambicanas, estão recebendo doações.

Abaixo, mais entidades que estão recebendo doações:

ActionAid

Cáritas Brasileira

Fundação Fernando Leite Couto

Fundação Gonçalo da Silveira (FGS)

Missões Mundiais

Unicef



Festival “É Tudo Verdade” inclui 13 documentários sobre migrações; veja quais

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Cena de "Cine Marrocos", documentário de Ricardo Calil, exibido no É Tudo Verdade. Crédito: Divulgação

Dos 66 filmes selecionados para participar da competição, 13 abordam as migrações em diferentes contextos

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)

A partir desta quinta (4) até 14 de abril, quem estiver em São Paulo e Rio de Janeiro poderá prestigiar os filmes selecionados para 24ª edição do festival internacional de documentários É Tudo Verdade, principal evento dedicado ao cinema documental na América Latina, criado e dirigido pelo crítico de cinema Amir Labaki.

Na capital paulista as produções serão exibidas no Centro Cultural São Paulo, Instituto Moreira Salles Paulista, Itaú Cultural e Sesc 24 de Maio; no Rio, as projeções acontecem no Instituto Moreira Salles e Estação NET Botafogo.

Com sessões gratuitas e em horários variados – o ideal é chegar com uma hora de antecedência nos locais de exibição para garantir o ingresso -, a edição deste ano contará com diversos títulos de não ficção em curta, média e longa-metragem.

Das mais de 1.600 obras inscritas para a mostra, 66 foram escolhidas para concorrer nos eixos de Competição Brasileira, Competição Internacional, Competição Latino-Americana e O Estado das Coisas.

Entre eles, 13 filmes conversam, de alguma forma, com assuntos ligados às migrações e refúgio: da origem das mestiçagens que formam o Brasil, passando pelas narrativas sobre pessoas que fugiam da guerra e dos campos de concentração, às problemáticas que norteiam os deslocamentos contemporâneos.

De acordo com os organizadores, os premiados no É Tudo Verdade 2019, nas competições de curtas e longas metragens, estarão automaticamente classificados para serem examinados para a disputa do Oscar do ano que vem.

Abaixo, sinopses e links com informações sobre as salas e horários das 13 produções relacionadas à migração:

As Quatro Irmãs – A Arca De Noé (Dir. Claude Lanzmann, França, 2017), 68”, classificação não adicionada

Sinopse: A advogada Hanna Marton conta como embarcou, com o marido, em um comboio que levava 1.684 judeus que escaparam da deportação na Hungria, num acordo entre os alemães e o advogado e jornalista Rudolf Kastner. Entre maio e julho de 1944, 450 mil judeus húngaros foram mortos.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

As Quatro Irmãs – O Juramento De Hipócrates (Dir. Claude Lanzmann, França, 2017), 90”, classificação não adicionada

Sinopse: Nascida na então Tchecoslováquia, Ruth Elias passou três anos escondida em uma fazenda com a família até ser enviada ao campo de concentração de Theresienstadt. No inverno de 1943, ela descobriu que estava grávida e, em seguida, que seria enviada a Auschwitz. Aos oito meses de gestação, saiu de lá com um grupo de mil mulheres para trabalhar em uma refinaria bombardeada em Hamburgo.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Carta A Theo (Dir. Elodie Lélu, Bélgica, 2018), 63”, classificação não adicionada

Sinopse: Uma homenagem ao cineasta grego Theo Angelopoulos (1935-2012), que morreu ao ser atropelado por uma moto enquanto trabalhava num filme sobre migração e a crise econômica.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Casa Grande & Senzala – O Escravo E O Negro Na Vida Sexual E Da Família Brasileira (Dir. Nelson Pereira Dos Santos, Brasil, 2001), 52”, classificação não adicionada

Sinopse: Destaca as origens negras na história da cultura brasileira. Aborda como o sociólogo [Nelson Pereira dos Santos] tratou das origens negras na história da cultura brasileira e da influência das relações com os escravos na vida sexual e nas relações familiares.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Casa Grande & Senzala – O Português, Colonizador Dos Trópicos (Dir. Nelson Pereira Dos Santos, Brasil, 2001),52”, classificação não adicionada

Sinopse: Enfoca o lado português na mestiçagem que resultou no Brasil. O professor Edson Nery da Fonseca comenta, a partir da perspectiva de Gilberto Freyre, como seu deu a interação entre os colonizadores e os brasileiros.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Cine Marrocos (Dir. Ricardo Calil, Brasil, 2018), 76”, 14 anos

Sinopse: O documentário conta a história de sem-tetos, refugiados africanos e imigrantes latino-americanos que ocuparam o prédio de um antigo cinema do Centro de São Paulo e o processo artístico que os transformou em estrelas de cinema. A equipe do filme reabriu a sala de projeção e exibiu títulos que estiveram em cartaz ali 60 anos antes, como “A Grande Ilusão” (1937), de Jean Renoir, e “Noites de Circo” (1953), de Ingmar Bergman. Os moradores participaram de uma oficina de teatro e reencenaram, como atores, trechos desses clássicos.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Hungria 2018 – Bastidores Da Democracia (Dir. Eszter Hajdu, Hungria, 2018), 84”, classificação não adicionada

Sinopse: O filme acompanha os dois lados da campanha para a eleição presidencial na Hungria no ano passado: o do vitorioso primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán e o do ex-premiê socialista Ferenc Gyurcsány. A imigração está no centro dos discursos que ajudam a entender o crescimento do nacionalismo.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Liberdade é Uma Grande Palavra (Dir. Guillermo Rocamora, Uruguai e Brasil, 2018), 73”, 12 anos

Sinopse: Depois de ter passado 13 anos na prisão americana de Guantánamo, um palestino de 38 anos vai ao Uruguai, em busca de uma nova vida. Durante dois anos, ele tem direito a uma casa e a uma ajuda financeira do governo para tentar se restabelecer. Ele se casa com uma uruguaia, tem filhos, estuda espanhol e tenta conseguir trabalho enquanto lida com a resistência dos empregadores, a burocracia local e as lembranças de tortura e humilhação no período do cárcere.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Lily (Dir. Adrienne Gruben, EUA, 2018), 25”, classificação não adicionada

Sinopse: Ainda adolescente, Lily Renée fugiu sozinha da Viena ocupada pelos nazistas. Já nos EUA, tornou-se uma das primeiras mulheres na indústria dos quadrinhos, nos anos 1940.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Na Nossa Casa (Dir. Iban Colón, Espanha, 2018), 26”, classificação não adicionada

Sinopse: Em Barcelona, duas famílias decidiram abrir suas portas para refugiados: uma recebe uma jornalista ucraniana de 58 anos e a outra, um jovem afegão.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Nome De Batismo – Frances (Dir. Tila Chitunda, Brasil, 2019), 16”, livre

Sinopse: A diretora mergulha no passado de seu pai ao conhecer a freira que ajudou sua família a fugir da Guerra Civil que expulsou muitos angolanos de suas terras nos anos 1970. Eles vieram para Olinda, e, como homenagem, a primeira filha nascida no Brasil ganhou o nome dessa mulher.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Soldado Estrangeiro (Dir. José Joffily e Pedro Rossi, Brasil, 2019), 83”, 14 anos

Sinopse: Três brasileiros vivem diferentes estágios da mesma escolha: ser um guerreiro em um grande exército de uma nação estrangeira. Um aspirante, um combatente e um veterano compartilham suas experiências na Legião Estrangeira, na Cisjordânia e no exército dos Estados Unidos.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Soldados Da Borracha (Dir. Wolney Oliveira, 2019), 82”, livre

Sinopse: Um acordo de cooperação entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos levou cerca de 60 mil nordestinos para a região amazônica para trabalhar na extração de látex destinado à indústria americana de armamentos. Metade deles morreu antes de voltar para casa e muitos outros ainda esperam o reconhecimento como “heróis da pátria” e a prometida aposentadoria equivalente à dos militares. A história dos sobreviventes entre os 60 mil nordestinos que foram à região amazônica trabalhar na extração de látex durante a Segunda Guerra.

Salas e horários (São Paulo e Rio de Janeiro)

Além de “Órfãos da Terra”, lista mostra outras 11 novelas e série brasileiras que falaram de migrações

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Cena da novela Terra Nostra. Crédito: Acervo Globo

Produções já abarcaram recortes como tráfico de pessoas, brasileiros no exterior e migrações históricas

Por Antonella Pulcinelli
Em São Paulo (SP)

Nesta terça (02) estreou “Órfãos da Terra”, nova novela das 18h da Globo, que marcou a volta da temática migratória aos folhetins da emissora.

Sim, porque outras novelas e minisséries nos últimos anos já trataram de diferentes recortes relacionados às migrações – tanto dos movimentos históricos como recortes mais contemporâneos, como o tráfico de pessoas e a vida de brasileiros nos Estados Unidos.

O MigraMundo listou algumas das tramas que trataram, ainda que de forma indireta, questões migratórias. A Globo concentra a maior parte, mas outras emissoras também deram suas contribuições

1 – Nino: o Italianinho (01/05/1969 a 05/07/1970)
Autores: Geraldo Vietri e Walther Negrão
Produção: TV Tupi

Nino é um imigrante italiano, que chegou aos quinze anos ao Brasil com o tio Ângelo e hoje vive no bairro paulistano do Bixiga como um bem-sucedido dono de mercearia. Ele é muito querido por todos e ama Natália que o se interessa por ele, pois ambiciona casar-se com seu rico patrão, Renato, dono de joalheria e filha de Dona Virgínia que é a proprietária da vila onde vive.

Divulgação da novela Nino – O italianinho

2 – Os Imigrantes (27/04/1981 – 01/11/1982)
Autor: Benedito Ruy Barbosa
Produção: Rede Bandeirantes

Com a abolição dos escravos no Brasil, os fazendeiros se viram obrigados a contratar mão de obra importada para suas plantações e com isso diversos imigrantes vieram para o Brasil e ajudaram a construir o pais no inicio do século 20. A novela Os Imigrantes conta a historia dos três Antônios: o De Sálvio, italiano romântico; o Pereira, português namorador; e o Hernandez, espanhol anarquista de sangue quente.

Divulgação novela Os Imigrantes

3 – Minissérie Anarquistas Graças a Deus (7 a 17 de maio de 1984)
Autores: Walter George Durst adaptação do livro de Zélia Gattai
Produção: Rede Globo

Com base nas recordações de Zélia, a caçula da família Gattai, de imigrantes italianos, formada pelos pais Ernesto e Angelina e os irmãos mais velhos Remo, Vanda, Vera e Tito, retrata sua vida na São Paulo das décadas entre 1910 e 1920 e a convivência com a empregada brasileira Maria Negra, os ideais anarquistas e o desejo de viverem na Colônia Santa Cecília, reduto de anarquistas.

4 – Vida Nova (21/11/1988 – 06/05/1989)
Autor: Benedito Ruy Barbosa
Produção: Rede Globo

Retrata a convivência entre imigrantes da Europa, principalmente os italianos que vivem em um cortiço no bairro paulistano do Bixiga dos anos 40. Ali vive Laura (Yoná Magalhães) que é ex-prostituta chamada de Lalá, invejada e desejada é a grande líder do cortiço. É mãe de Marialina (Gabriela de Oliveira) que apaixona Antonio Sapateiro (Carlos Zara) que também é morador do cortiço como Gema (Nívea Maria), que já viúva, casou-se com Pietro (Osmar Prado), até o dia em que foi surpreendida com o reaparecimento de seu primeiro marido, Sebastião (Roberto Bonfim).

5 – O Rei do Gado (17/06/1996 – 14/02/1997)
Autor: Benedito Ruy Barbosa
Produção: Rede Globo

Duas famílias de imigrantes italianos, vizinhos no Brasil, nutrem uma rivalidade há anos por causa de um pedaço de terra. São os Berdinazzi, plantadores de café, e os Mezenga, criadores de gado.

Nesse ambiente, a novela também retrata a paixão entre Bruno Mezenga (Antônio Fagundes), o rico fazendeiro, e a boia-fria Luana Berdinazzi (Patrícia Pillar), o que estimulou ainda a discussão sobre posse de terras e reforma agrária que contagiou a opinião pública na época.

Nos capítulos finais há ainda a viagem de um dos personagens principais à Itália para conhecer de perto as raízes familiares

6- Terra Nostra (20/09/1999 – 02/06/2000)
Autor: Benedito Ruy Barbosa
Produção: Rede Globo

Terra Nostra se passa em 1894 e mostra a chegada dos italianos ao Brasil no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, e sua importância na formação da sociedade brasileira. Fugindo da crise econômica de seu país, veem ao Brasil tentar a sorte. O país naquela época precisava de mão de obra para substituir o trabalho escravo nas plantações de café.

A novela conta essa história a partir do romance entre os jovens italianos Matteo (Tiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio), que resiste a todos os conflitos e desencontros.

Cena da novela Terra Nostra. Acervo Globo.

7 – Esperança (17/06/2002 – 15/02/2003)
Autores: Benedito Ruy Barbosa e Walcyr Carrasco
Produção: Rede Globo

O pano de fundo de Esperança é a realidade de diferentes comunidades imigrantes no Brasil em meio à crise do ciclo do café, reflexo da Grande Depressão de 1929 no cenário sociopolítico mundial.

A novela conta a história de amor dos italianos Toni (Reynaldo Gianecchini) e Maria (Priscila Fantin). Toni vive ouvindo as histórias sobre o Brasil contada pelo tio, o comunista Giuseppe (Walmor Chagas), e ao ver toda a dificuldade do seu país decide ir embora com Maria para São Paulo em busca de uma vida nova.

8 – América (14/03/2005 – 05/11/2005)
Autora: Glória Perez
Produção: Rede Globo

Sol (Deborah Secco), brasileira que teve uma infância miserável no Rio de Janeiro é movida pelo desejo de realizar seu grande sonho que é morar nos Estados Unidos. América mostra através da história da protagonista a realidade de muito brasileiros que optam por atravessar a fronteira do México e chegar indocumentos aos EUA, em busca de uma vida melhor – e se deparam com uma realidade completamente diferente da que imaginavam.

Cena da novela América (2005).
Crédito: Acervo Globo.

9 – Caminho das Índias (19/01/2009 – 11/09/2009)
Autora: Glória Perez
Produção: Rede Globo

Caminho das Indias tem a trama principal dividida entre o Brasil e Índia, a novela começa a partir da paixão proibida entre dois jovens indianos que tem origens diferentes. Maya Meetha (Juliana Paes) é de uma família tradicional da casta dos comerciantes e Bahuan (Márcio Garcia) é da casta dos dalits, que são pessoas consideradas intocáveis, impuras pela sociedade indiana. Mas ele foi adotado ainda menino, pelo brâmane Shankar (Lima Duarte), integrante da casta mais alta da sociedade indiana, e juntos mantém em segredo a sua real origem. A novela gira em torno da descoberta da origem de Bahuan pela família de Maya – e os desdobramentos deste caso.

Cena da novela Caminho das Indias. Acervo Globo.

10- Salve Jorge (22/10/2012 – 17/05/2013)
Autora: Glória Perez
Produção: Rede Globo

Moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Morena (Nanda Costa) recebe uma proposta para trabalhar na Turquia. Ao chegar ao país, se depara com o fato de que foi traficada junto com outras mulheres e passa a lutar para voltar para casa. A trama mostra ainda um pouco dos bastidores das máfias que fazem tráfico internacional de pessoas, como captam e enganam as pessoas e suas famílias.

11 – Sol Nascente (29/08/2016 –  21/03/2017)
Autores: Walther Negrão, Júlio Fischer e Suzana Pires
Produção: Rede Globo

A história se passa em Arraial do Sol Nascente, lugar fictício, onde vivem dois amigos: Mário (Bruno Gagliasso), neto de Gaetano (Francisco Cuocco) e Guiseppina (Aracy Balabanian), que imigraram ao Brasil para fugir de mafiosos italianos, e Alice (Giovanna Antonelli), filha adotiva do japonês Kazuo Tanaka (Luís Melo).

A amizade se abalada quando Bruno se declara apaixonado por Alice, que passa dois anos estudando no Japão, o que obriga Bruno a amadurecer para conquistá-la.

O que se espera de Órfãos da Terra, novela da Globo que falará de refugiados?

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Novela Órfãos da Terra (Globo), que vai abordar a questão do refúgio. Crédito: Divulgação/TV Globo

MigraMundo procurou estudiosos e migrantes que estão ou não em situação de refúgio para saber das expectativas de cada um para o folhetim

Por Rodrigo Veronezi
Colaboração de Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

A temática migratória – mais especificamente a do refúgio – terá um espaço praticamente fixo na TV brasileira nos próximos meses. Nesta terça-feira (2), estreia “Órfãos da Terra”, nova novela das 18h da TV Globo, que terá o conflito na Síria e a questão dos refugiados como pano de fundo.

O assunto ganha importância em nível nacional devido à migração venezuelana, e também se dá em um momento no qual os deslocamentos internacionais em geral são alvo de políticas e ações de rechaço e até de criminalização. O próprio Brasil recentemente entrou para esse clube ao se retirar do Pacto Global para a Migração, em janeiro deste ano.

O folhetim, escrito pelas autoras Duca Rachid e Telma Guedes, conta a história de amor entre a refugiada síria Laila e o libanês Jamil (vividos por Julia Dalavia e Renato Góes, respectivamente) que se conheceram em um campo de refugiados e se reencontram no Brasil. Além dos mocinhos e vilões de toda a novela que puxam a trama principal, outros núcleos abordarão facetas da temática migratória, como a convivência entre diferentes culturas e a revalidação de diplomas – queixa recorrente de migrantes e refugiados no Brasil.

“Órfãos da Terra” é ambientada em São Paulo, cidade que tem uma população de migrantes – incluindo refugiados e solicitantes de refúgio – estimada em pelo menos 387 mil pessoas. Para as primeiras cenas, foi montada uma réplica de um campo de refugiados na zona oeste do Rio de Janeiro, com apoio do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), com barracas que foram usadas em abrigos para refugiados venezuelanos em Boa Vista, Roraima.

Pelas estimativas da ONU, há mais de 258 milhões de imigrantes no mundo, e esse número deve continuar crescendo nos próximos anos. Em relação ao refúgio, dados do ACNUR estimam que existem pelo menos 25,4 milhões de pessoas que buscaram proteção em um país diferente do que nasceram. Os sírios lideram esse ranking global – em torno de 5,6 milhões.

No contexto nacional, o Brasil tem cerca de 750 mil imigrantes – que representam 0,4% da população nacional. E já reconheceu cerca de 10 mil pessoas como refugiados. Em torno de 5 mil ainda vivem sob tal status no país e 94,8 mil ainda aguardam julgamento de seus pedidos de refúgio – em sua maioria, venezuelanos.

Tendas usadas pelo ACNUR em abrigos para venezuelanos em Boa Vista (RR), que foram cedidas para o campo de refugiados fictício da novela Órfãos da Terra (Globo).
Crédito: Victor Moriyama/ACNUR

Expectativas de refugiados e migrantes

Para elaboração do roteiro de “Órfãos da Terra” foram feitas oficinas e pesquisas junto a diversas instituições de apoio e acolhida a migrantes e refugiados, como o próprio ACNUR e a Missão Paz, em São Paulo. Refugiados também atuaram como consultores da novela. Um deles é o sírio Abdulbaset Jarour, 29, que integra a ONG África do Coração – responsável, entre outras ações, pela organização da Copa dos Refugiados.

Abdul foi convidado para atuar como consultor da novela depois que participou de uma conversa com o diretor artístico, Gustavo Fernandes, e as autoras Rachid e Guedes, intermediada pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Pouco depois, participou também de um workshop com o elenco no Rio de Janeiro, ao lado de outros refugiados e do padre Paolo Parise, da Missão Paz – outra entidade que serviu de base e inspiração para as pesquisas e histórias a serem contadas ao longo da trama.

“Acredito que essa novela vai mudar mais o olhar das pessoas, deixá-lo mais solidário, tolerante e gerar empatia. Espero que isso realmente aconteça, porque refugiado e migrante sofre muito com preconceito aqui no Brasil”, afirma Abdul, em um misto de alegria por contribuir com a história e de tristeza pelas situações de preconceito vividas por migrantes no Brasil.

“Estou feliz porque essa novela vai ajudar muito a mudar o olhar das pessoas para nossa causa. Sofri aqui no Brasil de uma parte da população que tem um olhar preconceituoso e xenofóbico. Esse olhar deixa a gente desanimado, irritado. Atravessamos o mundo e aí encontramos pessoas que não aceitam nossa chegada, que nos veem como diferentes. Esse olhar quebra um pouco da nossa dignidade”, completa Abdul.

O sírio Abdulbaset Jarour, que colaborou com a novela e espera que ela possa ajudar a trazer um novo olhar para a questão do refúgio.
Crédito: arquivo pessoal

Essa expectativa positiva é compartilhada pelo compatriota Ali Jeratli, que trabalha na Coordenação Pedagógica do curso de árabe do Abraço Cultural em São Paulo, ONG na qual refugiados atuam como professores em cursos de idiomas e ensinam inglês, espanhol, francês e árabe a partir de suas próprias experiências culturais.

“Eu acredito que é importante destacar o sofrimento que os refugiados passam em sua viagem até o destino final. Além disso, acho muito legal mostrar um pouco da vida dessas pessoas, dos refugiados, que muita gente não conhece e nem havia previamente se interessado”.

Refugiados e migrantes de outros países procurados pelo MigraMundo também demonstraram curiosidade sobre a trama e esperam algo que seja informativo e não reforce estereótipos e vitimização dessas comunidades.

“Gostaria que essa novela representasse a força e a valentia do imigrante e do refugiado, que consegue superar obstáculos que se representasse na vida. Não gostaria de ver uma novela na qual o refugiado seja visto como vítima”, opina a venezuelana Yilmary de Perdomo, 35, terapeuta ocupacional de formação e que no Brasil atua com gastronomia.

“Acho muito da hora uma novela como essa porque vou poder saber mais sobre refugiados. E também para que todo mundo saiba o que é um refugiado”, conta o estudante boliviano Christian Jhoel Aliaga, 19, que pretende acompanhar a novela.

A novela “Órfãos da Terra” deve contar com pelo menos dois refugiados em seu elenco: o sírio Kaysar Dadour, vice-campeão do Big Brother Brasil 2018, e o congolês Blaise Musipere.

Preocupação com estereótipos

Para Roberta Brandalise, professora de teoria da comunicação e coordenadora de ensino de cultura na Faculdade Cásper Líbero, a visibilidade trazida por uma novela pode, de fato, ser positiva para a temática do refúgio no Brasil.

“A visibilidade midiática e o agendamento do tema no cotidiano brasileiro pode ser uma vantagem se contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas, e demais ações que viabilizem a diminuição das condições desigualitárias em que se encontram os imigrantes e os refugiados. É importante que as vozes dos imigrantes e refugiados sejam ouvidas. Melhor ainda, se tivermos a participação deles na produção”.

No entanto, a pesquisadora pondera que eventuais apropriações e usos a serem feitos da trama também podem distorcer a temática.

“Uma telenovela com a proposta de “Órfãos da Terra” pode tanto sensibilizar e esclarecer a opinião pública sobre o tema quanto aprofundar estereótipos e preconceitos sobre imigrantes e refugiados. Afinal, as disputas de sentido sobre a problemática do imigrante e do refugiado se dá dentro e fora de qualquer narrativa”.

A advogada e mestranda em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais na PUC-SP, Carla Mustafa, que também pesquisa sobre migrações e refúgio, endossa a importância de se evitar uma visão estigmatizante, vitimizadora e homogênea dos refugiados.

“Ter a notícia de uma novela que trata de refúgio gera uma expectativa. Se por um lado se faz cada vez mais necessária uma perspectiva humanitária pautada na dignidade humana, por outro lado, é notório que há um crescimento da xenofobia, do racismo e da intolerância religiosa, criando obstáculos para a acolhida e a integração de pessoas em situação de refúgio”, aponta Mustafa, citando como exemplo o ataque contra muçulmanos em uma mesquita na Nova Zelândia, cujo autor é um terrorista supremacista branco.

“O receio está em como isso tudo vai ser representado e qual será a recepção desta abordagem. É importante compreender o que é refúgio e respeitar a identidade e dignidade de qualquer pessoa. Por isso, é fundamental fomentar dinâmicas que valorizem a autonomia, a diversidade, a interculturalidade, a multiculturalidade e a integração”, completa Mustafa.

Documento indica ações de apoio a mulheres migrantes em conflito com a lei

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ITTC lançou carta com sugestões para melhoria da qualidade de vida de mulheres migrantes egressas do sistema carcerário. Crédito: Divulgação/ITTC

Carta do ITTC é voltada aos serviços públicos e visa também combater preconceitos contra as migrantes egressas do sistema prisional

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

Maria* é filipina e foi detida pelo governo brasileiro. Aqui sua vida foi exposta a risco no sistema prisional. Com ajuda de um promotor conseguiu ser transferida para outra unidade, que garantisse sua integridade física. Após o cumprimento de sua penalidade, na liberdade continuou a enfrentar as dificuldades da sobrevivência: sem lar, trabalho ou orientações de assistência. Hoje, depois de superar muitos empecilhos e poucos apoios, trabalha como costureira autônoma.

Sensibilizados por narrativas como essa, o Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC) criou o Projeto Mulheres Egressas em 2017, a fim de coletar dados e mapear as necessidades das mulheres migrantes em conflito com a lei, executando atendimentos de suporte e assessoria que disponibilizam a elas.

Após dois anos de trabalho o ITTC apresentou, na última quarta-feira (27), os resultados do Projeto, baseados nos 1.600 atendimentos realizados durante esse período. A carta “10 Recomendações para Atuação junto a Mulheres Migrantes em Conflito com a Lei” compila sugestões de medidas a serem tomadas diante das necessidades das egressas.

“O maior número de pessoas que lerem isso, que tomem conhecimento de que é um problema, para nós melhor”, diz Michael Mary Dolan, presidente do ITTC. O documento está disponível para acesso de todos, no entanto seu principal destinatário é o poder público.

Os pontos cruciais para assegurar melhorias na vida dessas mulheres, segundo o ITTC, são certificar os direitos à cidadania, permanência, documentação, saúde, moradia, capacitação profissional e trabalho.

Entre outras medidas que podem ser conferidas no próprio documento, eles acreditam que um dos principais caminhos para garantir tais direitos é pela qualificação e sensibilização dos serviços públicos, combatendo a xenofobia e discriminação, efetivando o acesso integral às políticas públicas.

“Por mais que a lei de assistência não fale ‘olha a gente não acolhe pessoas que tenham antecedência’, na prática isso acontece o tempo inteiro”, afirma Viviane Balbuglio, integrante do ITTC, no Projeto Migrantes Egressas.

Viviane comenta que, apesar de atualmente a cidade de São Paulo obter políticas públicas voltadas aos imigrantes, as egressas têm enfrentado algumas barreiras mesmo neste setor. “A gente começou a ter alguns problemas na rede, tanto para os imigrantes acessarem esses serviços quanto quais eram os desafios para a rede entender que as pessoas podem ter antecedentes penais e acessarem esses serviços”.


Michael Mary Dolan, Catia Kim e Viviane Balbuglio, integrantes do ITTC, que atua também junto a mulheres migrantes em conflito com a lei.
Crédito: Divulgação/ITTC

Durante o evento, as imigrantes egressas presentes compartilharam suas vivências com o público. Recorrentemente, elas mencionaram como se sentiram desamparadas pelo Governo e exaltaram a relevância do trabalho de organizações como do ITTC. “É importante ter esses lugares que a gente pode ir procurar ajuda e apoio, a maioria da gente chega ao Brasil sem nenhum conhecido. Então no momento que a gente tenta buscar uma vida aqui, fica muito difícil quando não tem nenhum lugar”, menciona a sul-africana Teresa*.

A nova Lei de Migração foi implementada ao longo do Projeto, transformando o olhar legislativo de “estrangeiro” para “imigrante”. “Essa visão mudou totalmente como o Estado brasileiro e a legislação devem tratar as pessoas que aqui nós conversamos hoje e isso se relaciona diretamente ao direito a permanência, a partir do entendimento que as pessoas são migrantes e não estrangeiras é que o direito a permanência se tornou ainda mais potente, ainda mais importante”, afirma Cátia Kim, integrante do ITTC, no Projeto Migrantes Egressas.

Conforme os depoimentos, a falta de informação e suporto por parte do governo com elas não proporciona o alcance de uma vida autônoma, resultando em relatos de dor e sofrimento.

Ao presenciar esses apontamentos, Cátia tenta confortá-las ao mencionar que o ITTC pretende lançar um documento que esclareça a elas e aos serviços públicos quais são os tipos de serviços disponíveis pelo Governo e como encontrá-los. “Não vai ser o suficiente, os serviços públicos não comunicam entre si e muitas vezes há funcionários que não sabem o que fazer mesmo. Então não é o suficiente, mas é um passo”.

O que significa liberdade?

O debate deu evasão à reflexão a outras necessidades, como a indagação do significado de liberdade. Algumas egressas afirmam ser mais difícil estar fora do que dentro da prisão, levando em consideração os estigmas e preconceitos que têm que enfrentar desde o momento de liberação até a conquista da renda e moradia.

No dia em que saem da detenção, por exemplo, são liberadas por volta das 17h e passam mais de três a quatro horas na Polícia Federal. Somente tarde da noite elas serão liberadas, sem a mínima instrução de onde ir, com suas malas na mão e sem dinheiro.

Algumas dessas mulheres trabalharam em empresas dentro das prisões e aos saírem receberam um cheque pelo serviço. No entanto, esse cheque não é descontado imediatamente, deixando a egressa sem recurso algum para sanear qualquer tipo de necessidade, seja até mesmo de transporte ou dormitório.

Outra questão frisada nos relatos é a falta de capacitação, recursos e oportunidades para trabalho, por causa do estigma que marcam elas. Neste ponto, Michael acredita que a oferta de trabalho deve ser resolvida pelo Governo, mas pode ser amenizada pela própria sociedade civil.

“Se conhecem pessoas, dariam uma chance como a essas mulheres trabalharem ou patrocinaria uma compra de uma máquina de costura, para nós é muito importante. Apesar de ter uma nova portaria dizendo, se tiver contato precisa empregar egressos, mas realmente isso não está acontecendo. Aqui no setor privado, só se eles têm convênio com o governo”.

A cabo-verdiana Marta* compartilhou sua história para encorajar as colegas presentes. “Não abaixei a cabeça nem por nada, nem por ninguém. Eu segui em frente. As pessoas queriam me derrubar todos os dias, por causa do meu passado e da minha origem. Eu queria dizer a todas que estão aqui que por mais difícil que seja segue em frente”, aconselha.

Depois de muitos obstáculos, Marta começou a trabalhar como auxiliar de limpeza e atualmente é chefe de confeitaria de um hotel.

*Os nomes das imigrantes foram trocados para preservação de suas identidades

O que as migrações têm a ver com urbanização e sustentabilidade

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Especialmente grandes cidades - como São Paulo, na foto - precisam encontrar novos modelos de desenvolvimento. E as migrações precisam ser parte desse debate. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Não podemos pensar um desenvolvimento sustentável das áreas urbanas sem debater, ao mesmo tempo, o tema das migrações

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

A “Revolução urbana”, título de uma obra do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, é filha direta da revolução agrícola. Com a domesticação de algumas plantas e animais, a invenção dos meios de irrigação, a descoberta do metal mais perfurador que os objetos de pedra, a invenção da roda, entre outros avanços, o homem passa a dominar o solo cultivável, aumentando assim os níveis de produtividade. Não há mais necessidade de abandonar com tanta frequência o terreno apenas cultivado, para deslocar-se em busca de outro. O caçador, pescador e coletor nômade, aproximadamente 6 milênios antes de nossa era, começa um lento processo de fixação e de sedentarização. A produção supera aquilo que a comunidade é capaz de consumir, tornando-se necessário armazenar o excedente. A armazenagem, por sua vez, requer uma série de serviços ligados a uma estrutura jurídica de segurança, distribuição, administração, etc. Daí a origem dos primeiros povoados, núcleos de futuras cidades, especialmente a partir da Mesopotâmia, no sistema fluvial Tigre-Eufrates. Com o decorrer do tempo, nascem e se multiplicam as cidades-estados, que se espalharão por todo mundo antigo e medieval.

No alvorecer dos tempos modernos, assiste-se então ao longo período de amadurecimento da Revolução Industrial. Diferentes fatores contribuem para isso: o florescimento do comércio em nível mundial, que serve à acumulação de riqueza; descoberta de novas terras para além dos oceanos, o que significa intercâmbio de produtos também novos e exóticos; inventos inéditos e profundas revoluções no campo da filosofia, da ciência, da tecnologia e do conhecimento em geral. Mas é particularmente no século XIX e início do século XX, que toma impulso um grande processo de urbanização. “O ar da cidade torna o homem livre”, dizia um provérbio popular. O êxodo rural adquire proporções jamais imaginadas: os campos esvaziam-se e as cidades incham ao redor das fábricas incipientes. O novo desafio é fazer com que milhões de camponeses se convertam em “soldados da indústria”. Ou seja, em operários “duplamente livres” (conceito marxista): livres dos próprios meios de sobrevivência como servos da gleba, e livres para venderem sua força-de-trabalho na zona urbana. Em outras palavras, o trabalho se converte em uma nova forma de mercadoria.

Na cidade de Manchester, na Grã-Bretanha, considerada o berço da indústria, numa produtividade sem precedentes, supera-se as oficinas artesanais pela produção em massa. Para se ter uma ideia, a cidade passa de 80 mil habitantes no ano de 1801 para 1,5 milhão na metade do século. Igualmente rápido e espetacular será o crescimento de Londres. Sua população pula de 1 milhão de habitantes no início do século XIX para a marca de 2,3 milhões na metade do mesmo século. Do lado oposto do canal da Mancha, o mesmo se verifica com a cidade de Paris. Na data de 1806, contava com pouco mais de 600 mil habitantes, saltando para a cifra de 4 milhões nos albores do século XX (Cfr. MARCHAL, Hervé & STÉBÉ, Jean-Marc (org.), Traitè sur la ville, Presses Universitaires de France, Paris, 2009, pág. 91).

Do outro lado do oceano Atlântico, as cidades de Detroit, Chicago e New York, nos Estados Unidos, seguirão a mesma trilha da industrialização, migração e urbanização. Um pouco mais tarde, no que se refere ao oeste americano, a obra prima de John Steinbeck, The Grapes of Wrath (traduzida para o português como As vinhas da ira), ilustra bem esse processo. Publicada em 1939, e pela qual o autor merece o prêmio Nobel de literatura em 1962, retrata de forma magistral a saga da família Joad, a qual, juntamente com milhares de conterrâneos, vê-se obrigada a migrar dos campos de Oklahoma, transformados em fazendas de algodão, para a região da Califórnia em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Retornando aos mesmos autores citados mais acima, no início do século XXI, ou de maneira mais precisa, em 2009, pela primeira vez em termos planetários, a população urbana supera a população rural. “A metade da população mundial é constituída de cidadãos urbanos: mais de 3 bilhões de seres humanos, sobre 6,6 bilhões, vivem na cidade” (Cfr, idem, pág, 91). Outros estudos confirmam essa passagem histórica: “Pouco mais de 55% dos 7,6 bilhões de habitantes do planeta vivem em áreas urbanas. Em 2050, serão 66%. Antes disso, em 2030, 41 megalópoles no mundo terão mais de 10 milhões de moradores.

No Brasil, os centros urbanos concentram 85% da população e chegarão a 90% em 2030. Esses indicadores mostram como as cidades estão submetidas à pressão da migração, com demandas cada vez mais intensas por infraestrutura, serviços, emprego e recursos naturais – em resumo, qualidade de vida. Há um consenso na maior parte dos países que, para atender às necessidades crescentes da população e preservar o planeta, as cidades terão de encontrar um novo modelo de desenvolvimento, ancorado na sustentabilidade, integrando aspectos sociais, econômicos e ambientais” (LAFETÁ, Raphael Rocha, in artigo Protagonistas da mudança, Revista Época, Ed. Globo, nº 1079).

Vista do bairro de Inácio Monteiro, em Cidade Tiradentes (extremo leste de São Paulo), a partir do prédio do CFCCT (Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes)
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – set.2017

Conclui-se que a mobilidade humana, ontem como hoje, encontra-se numa encruzilhada que se estreita e se entrelaça com a luta pela preservação do meio ambiente e pela qualidade de vida a ser legada às gerações futuras. De um lado, ao longo dos séculos, a aglomeração maciça dos trabalhadores na zona urbana, devido à necessidade de braços para a indústria, levou a repensar os níveis de sustentabilidade em cidades como Londres, Paris, Turim Frankfurt, Milão, Detroit, Los Angeles, New York, Chicago… Mais tarde, a preocupação chega à Cidade do México, São Paulo, Buenos Aires, Santiago, Lima, Mumbai, Calcutá, Pequim, Shangai, Ho Chi Minh, Seul, Tóquio, Nairóbi, Argel e tantas outras. A diferença é que, enquanto as primeiras, localizadas nos países centrais, passaram por um processo de despoluição e desintoxicação, as segundas, situadas quase sempre em países periféricos, seguem com suas águas contaminadas e seu ar irrespirável, sujeitas a epidemias crônicas avassaladoras.

De outro lado, os chamados “desastres” naturais criam fluxos cada vez mais intensos do que se pode chamar “refugiados climáticos”. São os que escapam de estiagens prolongadas, furacões, inundações, tsunamis, terremotos, e catástrofes do gênero. Catástrofes que se agravam de ano para ano com o aquecimento global, a contaminação do ar e das águas e a desertificação do solo. No vórtice da tormenta, está o migrante, involuntária e simultaneamente causa e efeito de um planeta cada vez urbano, buliçoso e irrequieto. Ao atrair para a cidade a renda e o capital, a ciência e a tecnologia, as mercadorias e os consumidores, as mudanças por que atravessamos atraem também fluxos crescentes de trabalhadores e suas famílias. À medida que o globo terrestre se torna mais hostil e inóspito em determinados países e regiões, se torna também mais agressivo para seus habitantes; igualmente hostis, inóspitos e agressivos se tornam uma série de lugares particularmente vulneráveis a semelhantes “desastres”. A maioria deles são habitados por populações pobres e indefesas, primeiras vítimas de todo e qualquer distúrbio ambiental. Neste ponto, a causa ecológica e o uso correto dos recursos naturais cruza-se com a causa social na busca de melhores condições de vida e dignidade.

Disso resulta que não podemos pensar um desenvolvimento sustentável, sem debater, ao mesmo tempo, o tema das migrações. Quais as “forças ocultas” (para não dizer interesses obscuros) que levam milhões e milhões de pessoas a aglomerarem-se compulsoriamente em grandes centros urbanos, nas chamadas megalópoles, tentando encontrar trabalho, pão e paz? Como tomar em mãos e enfrentar as causas e implicações das assimetrias, das injustiças e dos desequilíbrios socioeconômicos que dividem povos, nações, continentes e mesmo regiões no interior de cada país? Nas palavras do Papa Francisco, como “passar de uma globalização da indiferença e de uma economia que mata, a uma cultura do encontro, do diálogo e da solidariedade”? Ou ainda, de acordo com os princípios da Carta Encíclica Laudato Si’, publicada em 2015, como redobrar os cuidados com a “nossa casa comum”? Sobra um gigantesco desafio: buscar o laborioso equilíbrio entre migração, urbanização e desenvolvimento sustentável, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista ecológico.