Modelo de urna eletrônica usada nas eleições gerais no Brasil.
(Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)
Antipetismo se expandiu e polarização política levou mais brasileiros às urnas também fora do país, segundo pesquisador
Por Rodrigo Veronezi Em São Paulo (SP)
Apesar das falas controversas de Jair Bolsonaro sobre imigrantes, o atual presidente do Brasil contou com apoio massivo dos brasileiros no exterior na eleição de 2018. Se dependesse apenas da votação desse grupo, o militar reformado do PSL ganharia com folga já no primeiro turno (61%), contra 18% de Fernando Haddad (PT) e 8% de Ciro Gomes (PDT).
De acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), os eleitores mo exterior depositaram 403.932 votos válidos no primeiro turno da eleição de 2018, mais que o triplo do verificado em 2014 (132.624 votos).
No segundo turno, Bolsonaro manteve larga dianteira sobre o petista no exterior (71% a 29%), embora com um comparecimento às urnas bem menor se comparada ao turno anterior (um total de 212.046 votos).
Estimativas do Ministério das Relações Exteriores projetam que pelo menos 3 milhões de brasileiros residam fora do país – um número bem superior ao número indicado de imigrantes que vivem em solo brasileiro. O número considera tanto os que estão em situação regular como os indocumentados nos diferentes países.
Força do antipetismo
“O antipetismo, tanto no Brasil como aqui [no exterior], mobilizou a população”, aponta Alvaro Lima, diretor de Pesquisa da Prefeitura de Boston e estudioso da diáspora brasileira. A cada eleição presidencial, ele compila os dados do TSE sobre como votaram os brasileiros que vivem fora do país.
As informações estão disponíveis no portal Digaai, que busca documentar a produção cultural da diáspora brasileira e reforçar a identidade cultural do imigrante brasileiro. Lima é um dos fundadores e responsáveis por manter o portal e fez o mesmo estudo sobre o eleitorado brasileiro nas eleições de 2010 e 2014.
Um ponto que chama a atenção do pesquisador é como a perda de apoio do PT também junto aos brasileiros que vivem fora do país vem se acentuando ao longo das últimas eleições.
“Quando comparamos com eleições passadas, há uma perda gradativa da influência do PT no exterior, em particular na Europa, África e Oriente Médio. Uma transição que vai da hegemonia com o Lula, perdendo um pouco de influência coma Dilma, dando lugar à hegemonia do PSDB que já tinha forte influência na América Latina, Ásia e Oceania, até desaguar na eleição de 2018 com o Bolsonaro ganhando as eleições em todos os continentes com margens imensas”.
Das capitais europeias que tiveram pontos de recepção de votos, Haddad venceu em Paris (França), Berlim (Alemanha) e Tallin (Estônia). Bolsonaro levou a melhor em quase todas as outras – exceção a Belgrado (Sérvia), onde o petista e o capitão reformado empataram.
Na região de Boston, onde vive Lima e na qual está a maior concentração de brasileiros vivendo nos Estados Unidos, Bolsonaro obteve mais de 80% dos votos. Outro cenário parecido é verificado junto aos brasileiros no Japão, onde Bolsonaro abocanhou 89% do eleitorado.
Ainda durante a pré-campanha presidencial, em fevereiro de 2018, Bolsonaro fez uma visita ao Japão, na qual foi recebido com entusiasmo pela comunidade imigrante brasileira – apoio que se fez presente nas urnas.
Além da polarização que marcou o debate eleitoral na corrida presidencial em 2018, Lima também vê no perfil do brasileiro que emigra um fator que explica a preferência por um candidato conservador como Bolsonaro – assim como a perda de influência do PT.
Seção eleitoral nos EUA para o pleito presidencial de 2014. Estudos de Alvaro Lima mostram o comportamento do eleitor brasileiro no exterior.
Crédito: Leandra Felipe/Agência Brasil – out.2014
“Ela [a comunidade imigrante brasileira] é bastante conservadora no que diz respeito aos aspectos sociais. Tem um perfil de classe média e se assemelha a classe média brasileira nas suas posições econômicas e, claro, ela, na sua maioria vem do Sudeste brasileiro e se assemelha à politica desta região”.
Votação além da Presidência?
Importante lembrar que os brasileiros no exterior votam somente para presidente da República. Até existe uma proposta, feita em 2007 pelo então senador Cristovam Buarque (atualmente PPS-DF) que cria representação dos brasileiros emigrados no Congresso. O projeto, no entanto, requer uma emenda constitucional – para a qual é necessário o apoio de ao menos 308 dos 513 deputados federais brasileiros.
“Acho viável e necessária [essa representação do brasileiro no exterior no Congresso], mas necessita de uma grande mobilização da população brasileira no entendimento da importância do imigrante brasileiro para o próprio pais”, ressalta Lima.
O pesquisador, no entanto, descarta que tal mobilização possa surgir no cenário atual brasileiro. “Dada a recente visita do atual presidente [Bolsonaro] aos Estados Unidos e suas declarações, assim como as do seu filho [Eduardo Bolsonaro], os imigrantes são vistos como uma vergonha.”
Monumento ao Migrante Nordestino, no Largo da Concórdia, em São Paulo - uma homenagem à contribuição nordestina para a capital paulista.
Crédito: Artenalata/Wikimedia Commons
Brasileiros também deslocam-se internamente, impulsionados pelas condições socioeconômicas e atrás de sonhos e melhores condições de vida
Por Amanda Louise Em São Paulo (SP)
Fazia sol naquele 27 de julho de 1971. O calor castigava quem se atrevia a caminhar na estrada de terra, obrigando os transeuntes a procurar abrigo nas sombras de algumas árvores que surgiam na encosta; na tentativa de amenizar a quentura do corpo. Com apenas uma sacola na mão, onde levava apenas roupas leves e a certidão de nascimento, Maria Francisca de Jesus, então com 23 anos, decidiu percorrer a pé, com alguns parentes, os 536 quentes quilômetros que ligavam Ibitiara, município no interior da Bahia, até a rodoviária da capital, Salvador. Saíram antes do sol nascer, e chegaram perto do fim do dia.
No trajeto, a tristeza por quem deixou para trás e a esperança da nova vida no sudeste do país. A passagem na mão de Maria Francisca indicava um dos principais destinos para o qual milhões de nordestinos se deslocariam, desde antes daquela década, até os dias de hoje: São Paulo.
Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, ponto de chegada e de partida de viajantes – sejam eles turistas ou migrantes. Crédito: Wikimedia Commons
Dona Maria, hoje no auge dos
seus 70 anos, lembra com orgulho sua trajetória ao longo dos 47 anos morando na
capital paulista. Dos cinco dias dentro de um ônibus velho, rumo a São Paulo, à
compra da casa própria, no Parque Peruche, zona norte da cidade.
Durante os anos, desde a sua
chegada, Maria Francisca trabalhou em “casas de família”. Em uma delas, a que
considera ser integrante do grupo familiar – não só por se sentir acolhida,
como pelo tempo dedicado à função -, a baiana pôde vivenciar toda a dinâmica
cultural que é viver na terra da garoa, ao trabalhar em uma residência de
imigrantes da Itália, que se estabeleceram no Brasil para fugir da Segunda
Guerra Mundial. Ela cuidava da limpeza e da alimentação dos italianos, aprendendo
a fazer as tradicionais massas do país europeu, e ensinando o arroz com feijão
e outras comidas típicas da Bahia.
Os nordestinos que migravam – e ainda migram – para São Paulo o fizeram – e o fazem – pela busca por melhores condições de vida, “conhecer a cidade grande”, tentar ajudar financeiramente a família que permaneceu no estado de origem, ou mesmo para ir de encontro a companheiros e parentes que foram se estabelecendo na metrópole.
Elas acontecem desde antes do século XX e, assim como outras “modalidades migratórias”, “está diretamente relacionada com os ciclos econômicos e com as redes relacionais fundadas na origem e no destino ou até mesmo na circularidade dos “territórios migratórios”, as motivações e causas serão derivadas dessas condições econômicas e sociais”, explica a Doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Lidiane Maria Maciel.
Embora seja muito associado à migração internacional, o Museu da Imigração de São Paulo foi usado principalmente pelos migrantes nordestinos ao longo de seus 91 anos de funcionamento (1887-1978). Eles foram a maioria dos 2,5 milhões de pessoas que passaram pela antiga Hospedaria, especialmente baianos, alagoanos, pernambucanos e cearenses. Segundo informações do próprio Museu, os trabalhos de acolhimento e encaminhamento de nordestinos realizados a partir dos anos 1930, correspondendo a 90% da Hospedagem, evidenciam essa contribuição nordestina para a capital paulista.
No auditório do Museu da Imigração de São Paulo, participantes do presente são “espiados” pelos antigos acolhidos pela Hospedaria do Brás – a maior parte deles, migrantes internos.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar.2015
Esse momento, já na segunda metade do século XX, seria retratado pela ótica de grandes nomes da literatura brasileira, na música, cinema e arte em geral, abordando as condições dos migrantes vindos nos paus-de-arara e morando em locais precários nos centros e periferias do Rio de Janeiro e São Paulo.
No início da urbanização, em São Paulo, essa população migrante se firmava em empregos domésticos, “em postos na construção civil e indústria”, estendendo-se “nos dias de hoje ao comércio e setor de serviços”, define Lidiane Maciel.
Francisco Alberto de Jesus Silva, hoje com 53 anos, estava sem emprego quando decidiu pegar um ônibus em Teresina, capital do Piauí, com destino a São Paulo em meados dos anos 90. A mãe e alguns irmãos já estavam pela cidade, esperando o filho mais velho da família chegar sozinho da viagem. Sua primeira ocupação – não registrada – foi na “Distribuidora Logística”, na Água Branca, zona oeste de São Paulo, descarregando sacos de arroz dos trens para um armazém. “Emprego sempre foi fácil para quem tem coragem de enfrentar qualquer trabalho”, declara. Nos anos seguintes, atuou na área de vendas em algumas lojas de móveis. Sem pensar em voltar para o Piauí, só espera que os quatros filhos sejam independentes e realizados profissionalmente.
Francisco Alberto, cinco anos após chegar em São Paulo, com os dois filhos mais velhos. Crédito: arquivo pessoal
Como Francisco Alberto, eram os homens que se aventuravam sozinhos nas viagens; as mulheres só migravam desacompanhadas quando já possuíam alguma atividade pré-definida no local de destino ou se houvesse alguém que as aguardassem, o que não mudou com o passar dos anos.
Em 2004, Danielle Gadelha Baima do Lago, arrumou as malas para deixar o Ceará, quando tinha 24 anos, para encontrar o atual marido, que cursava a faculdade de direito em São Paulo. Ela conta que, antes da viagem para o sudeste, morou no Maranhão por alguns anos com a mãe. Já na capital paulista, de início, residiu na casa dos sogros e, hoje, possui um apartamento que pôs à venda. Depois de 14 anos morando em São Paulo, há cinco pensa em deixar a cidade e voltar para o estado natal. “Tenho ranço daqui. Uma cidade que te rouba, rouba teu tempo, tua saúde, teu dinheiro, tua paz. Não adianta ter emprego e gastar tudo. O custo de vida é para um rico”, desabafa.
As migrações
internas sempre estiveram na pauta do crescimento populacional das cidades
brasileiras, como explica Lidiane Maciel. No estado de São Paulo “em 2015, foram
cerca de 5,6 milhões, ou seja, 12,66% da população do estado, segundo dados da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE” e, apesar desses
“processos migratórios” serem difíceis de ser mensuradas, Lidiane Maciel afirma
que nunca se deslocou tanto no Brasil, “por diversas evidências, até mesmo
aquelas vinculada ao aumento de nossa rede rodoviária”. E que, ao longo dos
anos, houve a entrada “dos nordestinos no Estado de São Paulo, mas, também, a
saída, as migrações de retorno estiveram presentes”.
Esses
deslocamentos internos geram impactos tanto para os locais de origem, onde há o
“reordenamento do modo de vida, considerando que a população está fora”, quanto
para o destino, onde os impactos são inúmeros: “A estrutura econômica local se
beneficia da mão de obra, certamente necessária (…), o tecido social também
ganha novos elementos culturais e passamos a conviver com maior diversidade de
hábitos e costumes, o que nem sempre é fácil no cotidiano, há situações em que
verificamos alto grau de violência simbólica e violência física”, clarifica
Lidiane Maciel.
Lidiane conta que os migrantes são acusados
de todos os problemas sociais nas cidades, como, por exemplo, da superlotação
dos postos de saúde e escolas. “Quando na verdade não há estruturação
suficiente para lidar com o fenômeno social. A cidadania – no que se refere ao
acesso a direitos – é sempre contestada pela população local quando se trata
dos migrantes”.
É pensando no atendimento público de saúde que Ednalva Francisca dos Santos decidiu permanecer em São Paulo, além das filhas – que praticamente cresceram em São Paulo – e da condição financeira. Depois que saiu de Ibiquera, no interior da Bahia, Ednalva Francisca já retornou ao estado natal duas vezes desde 1987. Ela conta que se decepcionou com o que o estado paulista tinha a oferecer: “queria melhorar de vida, ia estudar, ia fazer um monte de coisa que, na verdade, não foi aquilo. Para mim, não passou de uma ilusão (…), foi quase um passo para trás”.
Ednalva com a filha mais velha, já em São Paulo, em meados de 1989. Crédito: arquivo pessoal
Em
1993, já com duas filhas, achou por bem voltar para que a avó ajudasse a cuidar
das netas. Após passar outros anos em São Paulo, de 1996 a 2001, precisou voltar
à Bahia para cuidar da mãe adoentada. Agora, faz 11 anos que mora na zona norte
da capital. Seu último retorno, em 2007, se deu pensando nas filhas, para que
elas tivessem acesso às escolas públicas e bolsas na faculdade: “Aquilo que eu
não consegui, eu queria que elas conseguissem”. Ela lembra de toda luta dos
anos que se passaram; sozinha, mas sem medo de enfrentar “os perrengues”. Trabalhou
como doméstica, balconista de loja farmacêutica, vendedora e ajudante de
cozinha, sendo o último emprego numa gráfica.
Com
a saúde debilitada, Ednalva Francisca diz que não teria como voltar: “Se
chegasse a me aposentar e melhorasse a saúde, voltaria para lá. Ou mesmo,
passar meses entre Bahia e São Paulo”. Até mesmo pelas especialidades médicas em
que é atendida no estado de São Paulo que não existem no interior baiano.
Na
dificuldade de mapear origem e destino da circulação de migrantes, que tem se
intensificado contemporaneamente, Lidiane Maciel expõe que, o que fazem nos
estudos migratórios até pouco tempo, é “descrever trajetórias migratórias,
traçados possíveis, perfis sociais e questões emergentes do processo”.
Barracas gastronômicas foram destaque na Yunza 2018.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
8ª edição do evento acontece no próximo dia 31 de março no Memorial da América Latina
Por Rodrigo Veronezi Em São Paulo (SP)
Para quem já está com saudades do Carnaval, o dia 31 de março vai dar uma forcinha para quem estiver em São Paulo com a 8ª edição do Carnaval Andino Yunza.
Depois de passar pela Praça Cívica Ulisses Guimarães e pelo Centro Esportivo Tietê, desta vez a festa será no Memorial da América Latina (na Praça das Sombras), tradicional ponto de eventos ligados à comunidade latino-americana na capital paulista. A programação vai das 12h às 21h e a entrada é gratuita.
A Yunza celebra a diversidade cultural, gastronômica e musical do Peru, contando com a ajuda da comunidade migrante que reside tanto na capital paulita como no interior de São Paulo.
Incluída no Calendário Oficial de Eventos da Cidade de São Paulo, a Yunza acontece sempre no último domingo de março – de acordo com o Projeto de Lei 1 16.661/2017. A atividade é organizada pela Associação Latino-Americana de Arte e Cultura (Alac) e pelo Consulado Geral do Peru em São Paulo, com apoio da Prefeitura de São Paulo e do governo estadual.
“É o Carnaval Andino de São Paulo”, reforça Tania Bernuy, presidenta da Alac.
Clima familiar marca a edição 2018 da Yunza.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
Em geral associada à comunidade peruana, que costuma ser maioria entre frequentadores e nas atrações culturais, a Yunza também conta com representações de outros países andinos. O grupo cultural boliviano La Diablada, por exemplo, é um dos convidados da edição deste ano.
“Esta festa a ressalta o direito da expressão cultural, porque dessa forma permitimos que outros grupos e organizações também possam manter suas expressões”, completa Bernuy.
Além da Yunza, outra festa migrante que consta no calendário oficial de eventos de São Paulo é a Alasitas, uma das principais da comunidade boliviana – e que ocorre religiosamente no dia 24 de janeiro, não importa o dia da semana.
Significado
Yunza (pronuncia-se junsa) significa “corta-monte” em quéchua, um dos idiomas oficias do Peru, e consiste na derrubada de uma árvore para colher os seus frutos, em uma apologia a “pacha-mama” (“mãe terra”, “universo”). Nela, o “padrinho” da festa é responsável por escolher uma árvore seca para enchê-la de enfeites e presentes – o objetivo é mostrar que ela ainda pode gerar frutos e alegrias, mesmo no final da vida.
No final da festa, o público faz uma roda em volta da árvore e cada um dá um golpe de machado para tentar derrubá-la. Quem der o golpe final é eleito o padrinho da festa do próximo ano.
Carnaval Andino Yunza 2019 Data e hora: 31 de março, das 12h às 21h Local: Memorial da América Latina – Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, São Paulo – ao lado da estação Barra Funda do metrô Entrada: gratuita
Apresentações de dança é música agitaram o publico na Yunza.
Crédito: Divulgação
MigraMundo ouviu tanto brasileiros que residem nos EUA como em outros países
Por Rodrigo Veronezi e Victória Brotto Em São Paulo e Estrasburgo (França)
Em visita oficial aos Estados Unidos nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro deu declarações polêmicas a respeito de imigrantes brasileiros que vivem em situação indocumentada no país.
Durante entrevista à emissora FoxNews em Washington nesta terça (19), Bolsonaro afirmou que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer fazer o bem ao povo americano”. Pouco depois, afirmou a jornalistas brasileiros que “cometeu um equívoco“.
As declarações de Bolsonaro ganham peso diante do tamanho da comunidade brasileira no país – estimada em pelo menos 1 milhão de pessoas – e no grande apoio que o presidente recebeu dela nas eleições de 2018 – no 2º turno, Bolsonaro levou nada menos que 81% dos votos, segundo o TSE.
No dia anterior, o filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, já havia feito o mesmo movimento de crítica e recuo sobre imigrantes. Primeiro, afirmou que “imigrantes brasileiros em situação ilegal eram “uma vergonha nossa”. Pouco depois, contemporizou: “A declaração foi para dizer que o Brasil tem responsabilidade com seus nacionais e não vai ficar permitindo que brasileiros entrem, facilitando, melhor dizendo, a entrada de brasileiro em qualquer lugar que não seja da maneira legal”, disse o deputado.
Alinhado política e ideologicamente com o presidente dos EUA, Donald Trump, Bolsonaro é defensor notório de medidas mais duras em relação às migrações. Na visita a Washington, Bolsonaro elogiou o endurecimento da política migratória de Trump e defendeu a construção de um muro na fronteira do país com o México.
Também durante a visita, Bolsonaro anunciou de forma unilateral a isenção de visto de turista para cidadãos dos EUA, Canadá, Japão e Austrália, sob o argumento de fomentar o turismo no Brasil. Estes países, no entanto, em princípio continuarão a exigir visto de entrada dos brasileiros.
Em janeiro, ainda em sua primeira semana de mandato, Bolsonaro ordenou a saída do Brasil do Pacto Global para a Migração, costurado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como uma forma de se buscar soluções globais para a temática migratória. O país havia firmado o compromisso semanas antes, ainda sob o governo de Michel Temer.
A saída do Brasil do Pacto já foi considerada um elemento que fragiliza o poder de negociação do país na defesa de seus cidadãos no exterior.
“Estamos acostumados a defender nossa comunidade da perseguição, discriminação e da xenofobia do governo norte-americano. Nós nunca pensaríamos que precisaríamos defender os brasileiros do governo brasileiro. Nós exigimos um pronunciamento do Congresso brasileiro. Vergonha é os brasileiros preferirem viver indocumentados nos Estados Unidos porque o Brasil não cria condições para que vivam dignamente em seu próprio país”, disse em nota o Grupo Mulher Brasileira, que atua na região do Estado de Massachusetts – que concentra boa parte da comunidade brasileira no país.
Repercussão
Nas redes sociais, as ações de Bolsonaro dividiram os brasileiros. As falas fizeram com que pessoas que discordam do posicionamento do presidente usassem a hashtag #BolsonaroEnvergonhaOBrasil; ao mesmo tempo, seus apoiadores se manifestaram com #BolsonaroOrgulhaOBrasil. Ambas figuraram entre os Trending Topics do Twitter ao longo do dia.
Entre os brasileiros ouvidos pelo MigraMundo nos EUA não foi diferente.
“O buraco é bem mais fundo e envolve outras questões além do turismo. Essas questões devem estar bem definidas antes de qualquer coisa. Analisar a política de outros países é fundamental pra entender o processo”, afirmou a arquiteta Millene Noca, residente da cidade de San Diego (Califórnia) desde 2008. ”O Canadá, por exemplo, tem uma política muito legal para quem é de fora, mas isso não significa que estão com livre acesso. Só é um processo diferente dos EUA”, acrescentou Noca.
“Eu sou brasileira e norte-americana, sempre tento olhar os dois lados das coisas. No papel e nas promessas tudo é muito fácil. Na vida real tudo é sempre bem diferente”, acrescenta a corretora Tatiana Valadares, que vive Sarasota, no estado da Flórida.
Para Valadares, o controle migratório implementado pelo governo dos EUA não tem a ver com preconceito, racismo ou perseguição, mas sim com segurança. “São as laranjas podres no meio desta fruteira toda que causam estas precauções necessárias e infelizmente elas existem e sempre vão existir”.
No entanto, para ela a real vergonha é o Brasil não oferecer condições dignas para sua população, levando-a a buscar melhor qualidade de vida fora do país. “Eu me arrisco dizer que a maioria deles nunca teria vindo se o Brasil tivesse mais condições de vida e se o trabalho duro deles fosse mais reconhecido.”
A pesquisadora Ana Cernov, mestre em Ciências Sociais e militante do Coletivo Por Um Brasil Democrático de Los Angeles, afirma que a política migratória dos EUA – mais restritiva sob o governo Trump – dificulta nesse processo de regularização.
“Ninguém quer ser indocumentado, porque isso traz uma série de vulnerabilidades para seu dia-a-dia. Certamente todos prefeririam estar com seus vistos em dia, mas os EUA caminham no sentido contrário”, afirmou a pesquisadora. ”O governo norte-americano não abre oportunidades para que as pessoas possam ajustar seus status legal. Além disso, precisamos lembrar dos custos desse processo”, acrescentou.
Para Alvaro Lima, pesquisador da Boston Planning and Development Agency e estudioso da comunidade brasileira nos EUA, há uma divisão entre os brasileiros no país em relação ao status migratório.
“Aqui há uma divisão grande entre alguns imigrantes brasileiros de classe média com visto ou naturalizados, brancos, que se acham diferente do que eles chamam de esta gente, ou seja os brasileiros de classe trabalhadora, muitos indocumentados”.
Lima é um dos autores do livro “Brasileiros nos Estados Unidos – Meio século (re)fazendo a América (1960 – 2010)”, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão – vinculada ao Itamaraty – e disponível para download gratuito – baixe aqui.
Para o empresário Guilherme Tigan, 29 anos, Bolsonaro ”não tem a menor ideia do que se passa” nos EUA.
”Como eu não vou querer o bem de um povo que me acolheu? (E vejo muito dos meus amigos brasileiros com o mesmo pensamento)”, afirmou. ”Ao invés de não querer o bem, na verdade, nós nos sentimos em dívida por todas as oportunidades que nos são dadas por aqui”, acrescentou Guilherme, que mora hoje em San Diego, no estado da Califórnia.
Guilherme tenta sanar essa dívida fazendo ”o seu melhor no país que o acolheu. ”É mais ou menos como funciona, sendo você brasileiro ou norte-americano”, explicou ele, que disse não ter se ofendido com o comentário de Bolsonaro. ”Comentar de fora é muito fácil”.
Já Marina de Abreu, 32 anos, advogada no estado da Flórida , concorda com o presidente Jair Bolsonaro.”A fala de Bolsonaro retrata o que acontece na Flórida frequentemente”, afirma ela.
” Algumas pessoas chegam para melhorarem sua própria vida, adquirir renda e desfrutar de tudo o que o Estado oferece. Mas poucos pensam em projetos que realmente agregue valor ao país que escolheram morar”, acrescenta, ligando esses migrantes a uma filosofia de vida do ”se dar bem custe o que custar”.
Para a advogada, os migrantes brasileiros indocumentados ”entram indevidamente nos EUA para usufruir sem compromisso”. ”No meu ponto de vista, prazer sem responsabilidade inclusive fiscal não soa justo nem agradável à nenhuma nação.”
Na Europa
As declarações de Bolsonaro também geraram reações em brasileiros que vivem em outros países.
“O conceito racional da fala do presidente não faz sentido”, afirmou Suedemborg Franco, 36 anos, engenheiro que mora na Suiça. ”Como engenheiro, você não pode afirmar algo sem ter dados e fatos. Baseada em quais critérios e fatos históricos essa afirmação foi feita?”.
Para ele, a fala não faz sentido porque ”o imigrante que sai de seu país o faz para buscar algo melhor”, o qual ele só conseguirá ”se não fizer nenhum mal à comunidade/sociedade na qual ele está se inserindo.”
O consultor Tales Rosa, morador da capital Riga (Letônia), vê a fala do presidente do Brasil como ”um aceno político que espelha os cumprimentos que Trump faz a ditadores mundo afora.”
”Instruído sobre o público que assiste FoxNews, Bolsonaro quis ganhar pontos com a audiência do canal e com Trump. Soa mais como afago ao mandatário americano e menos como convicção política”.
Já para Camila Nobling, moradora na Alemanha há mais de 15 anos, “a fala de Bolsonaro pode ser definida com muitas palavras, mas nenhuma positiva”. Ela critica ainda o fato das declarações virem poucos dias após um atentado terrorista matar 50 pessoas em mesquitas no sul da Nova Zelândia – motivado por questões de ódio e xenofobia que encontram eco em políticas e declarações como as do presidente brasileiro.
“É muito perigoso tratar a imigração de forma tão negativa [como faz Bolsonaro] dias depois que o ódio engendrou um massacre a essa população.”
Em Berlim, o administrador de sistemas de informática na área financeira, Dimas Souza, 41 anos, chama o discurso de Bolsonaro de ”facada nas costas” que o deixou ”profundamente ofendido”.
”Não consigo entender qual o objetivo dele em proferir tal frase. Ele obviamente não refletiu que isso poderia trazer consequências negativas para seus compatriotas vivendo legalmente nos EUA”, afirmou. Para ele, ser estrangeiro já é algo difícil. E ter de ”aguentar tal discurso do representante do país é quase uma violência.”
O argentino Jonathan Berezovsky, do Migraflix, apresenta o projeto Raízes na Cidade.
Crédito: MigraMundo
Raízes na Cidade, uma parceria entre Migraflix e Airbnb, capacita imigrantes para que possam oferecer atividades culturais baseadas em suas vivências culturais
Por Rodrigo Veronezi Em São Paulo (SP)
Transformar a história de vida dos imigrantes e sua bagagem cultural em uma forma de empreendedorismo que gera renda, trocas culturais e empatia. Este é o objetivo buscado pelo projeto Raízes na Cidade, uma iniciativa do Migraflix em parceria com o Airbnb em São Paulo.
O projeto visa capacitar refugiados e imigrantes que vivem na capital paulista para que se tornem empreendedores culturais e anfitriões da categoria de Experiências do Airbnb, oferecendo atividades culturais relacionadas às suas histórias de vida e de seus países. O leque é amplo e contempla gastronomia, dança, música, poesia, teatro – ou mesmo tudo isso em um mesmo pacote, dependendo da proposta.
O programa reúne 50 imigrantes, definidos a partir de um processo de seleção que começou ainda no final de 2018. O pontapé inicial ocorreu na última quinta-feira (14), em evento no Museu da Imigração que reuniu os selecionados e demais convidados – o MigraMundo acompanhou a atividade.
De março a maio, os selecionados participarão de encontros semanais, aos sábados, em diferentes locais da cidade, com atividades de enfoque cultural, desenvolvimento pessoal e artístico, e de empreendedorismo. A primeira aula aconteceu já neste sábado (16), no auditório da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.
Ao final do curso, os participantes devem apresentar uma proposta de atividade relacionada às suas raízes culturais e histórias de vida. Todos eles receberão um certificado de anfitriões de Experiências do Airbnb na categoria de Impacto Social, podendo oferecer pela plataforma suas experiências culturais para quem mora ou visita a capital paulista.
“Os brasileiros têm muito a ganhar. Tem um potencial enorme para crescer com o conhecimento de cada um de vocês e com a valorização que merecem”, disse o empreendedor argentino Jonathan Berezovsky, diretor do Migraflix.
Os imigrantes selecionados representam 20 países, dando mais uma ideia da diversidade presente na capital paulista: Cuba, México, Nicarágua, Angola, Uganda, Haiti, Bolívia, Colômbia, Jordânia, República Democrática do Congo, Peru, Síria, Líbano, Togo, Taiwan, China, Chile, Irã e Guiana. Entre os 50 participantes, mais da metade são mulheres (52%).
Imigrantes e convidados do Raízes na Cidade fazem visita guiada pelo Museu da Imigração. Atividade fez parte da programação. Crédito: MigraMundo
“São Paulo tem uma mistura cultural enorme e as pessoas que contratarem vocês vão entender a cultura de vocês e essa mistura”, reforçou Adriana Lufti, da área de comunicação do Airbnb.
O iraniano Ali Entezari, que é advogado de formação e ensina caligrafia persa no Brasil, é um dos alunos do Raízes na Cidade. Ele espera aproveitar o programa para ajudar a contar um pouco mais sobre a terra natal, elaborando o que já chama de “noite persa.
“Muita gente pensa que o Irã é um país árabe, e não é. Temos algumas coisas em comum, mas nossa língua é o persa. Temos uma cultura milenar, muito rica, e quero mostrar isso – com música, gastronomia e história do país”, explica o iraniano.
Experiências culturais
O pontapé inicial do Raízes na Cidade contou com uma visita guiada dos imigrantes e demais convidados pelas instalações do Museu da Imigração – a instituição também vai receber uma das aulas itinerantes do projeto.
Quem acompanhou o evento de lançamento na cidade teve a oportunidade de conhecer uma amostra das experiência culturais possíveis. O poeta e escritor angolano Ermildo Panzo – ou simplesmente Ermi Panzo – declamou poemas e fez performances que exaltam a cultura negra, a força da mulher e as experiências vividas por imigrantes. Ele é um dos selecionados para o projeto.
O angolano Ermi Panzo deu uma amostra de seu talento durante o lançamento do Raízes na Cidade. Crédito: MigraMundo
“Essa é a ideia: uma desconstrução de estereótipos e a valorização da cultura que agrega, aproxima as pessoas”, disse Panzo, que também divulga seu livro de poesias, intitulado “Desasossego”, lançado em 2018.
Alguns dos imigrantes que participam do Raízes na Cidade são egressos de um programa anterior do Migraflix, o Raízes na Cozinha – focado em experiências gastronômicas.
É o caso da terapeuta ocupacional venezuelana Yilmary de Perdomo, que tem na gastronomia uma de suas paixões – e que no Brasil se tornou sua atividade profissional.
A venezuelana Yilmary de Perdomo, que transformou a paixão pela cozinha em meio para se sustentar no Brasil. Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo – set.2018
“Tenho a gastronomia como paixão. No Brasil ela virou um negócio, sistematizado com a ajuda do Raízes na Cozinha – como vou produzir, para quem vou vender, onde e como vou distribuir. E o Raízes na Cidade faz uma projeção maior, a possibilidade de fazer as pessoas viajarem na cultura do seu país. Acho que esse é um impulso grande para nosso negócio”, explica Perdomo.
Um coquetel com comidas típicas de Síria, Colômbia e Peru, preparadas por imigrantes dos três países, encerrou a programação do evento.
Por uma sociedade mais harmônica
Desde que começou suas atividades, em setembro de 2015, o Migraflix aproveita a bagagem cultural dos próprios migrantes como elemento de inserção social e fonte de renda para os que integram o projeto.
As primeiras atividades do Migraflix foram workshops culturais ministramos por migrantes, especialmente na área de gastronomia. Com o passar do tempo, o leque se expandiu para eventos diversos – feitos sob medida para empresas – e parcerias com empresas como Google, LinkedIn e Airbnb.
Berezovsky lembra que o Raízes na Cidade – assim como outro projetos que valorizam a cultura dos imigrantes – ganha ainda mais importância diante de episódios como o atentado contra muçulmanos na Nova Zelândia, na última sexta.
O argentino Jonathan Berezovsky, do Migraflix, apresenta o projeto Raízes na Cidade.
Crédito: MigraMundo
“Esse tipo de tragédia nos lembram da necessidade de continuar desenvolvendo iniciativas que promovem o dialogo intercultural e inter-religioso, não só para evitar um próximo massacre mas também para construir uma sociedade mais harmônica e mais rica a partir da valorização das culturas e dos conhecimentos das pessoas que chegaram no Brasil recentemente e que tem muito para nos ensinar.”
Mesquita Masjid Al Noor, em Christchurch (Nova Zelândia), que foi alvo de ataque terrorista cometido por supremacista branco.
Crédito: AAP/Martin Hunter, CC BY-SA
Em diferentes formatos e idiomas, as ideias do terrorista são compartilhadas – e executadas – tanto em ambientes online como na vida real
O australiano Brenton Tarrant, um dos autores do ataque terrorista e que filmou parte da ação – as imagens foram removidas das redes sociais -, se descreve em manifesto como “um homem branco comum”, de “sangue europeu”, “etnonacionalista” e “fascista”. Com seu ato, quis, segundo ele, “mostrar aos invasores que nossas terras nunca serão as terras deles, enquanto um homem branco viver”.
Em diferentes formatos e idiomas, as ideias do terrorista são compartilhadas tanto em fóruns de discussão na chamada “deep web” como em redes sociais comuns e em manifestações offline – xingamentos, piadas, pichações… E claro, suas manifestações extremas também estão sujeitas a serem colocadas em prática por algum seguidor.
Tais ideias encontram eco em líderes políticos que aproveitam o ódio contra um determinado grupo (ou vários ao mesmo tempo) como filão eleitoral – e por consequência, como ferramenta de chegada e manutenção no poder: Trump nos Estados Unidos, Netanyahu em Israel, Orbán na Hungria, Marine Le Pen na França, Jair Bolsonaro no Brasil, só para ficar em alguns poucos exemplos.
Políticas como essa alimentam o ódio que move globalmente ataques terroristas como os de Christchurch (Nova Zelândia), Utoya (Noruega) e Quebéc (Canadá), apenas para ficar nos mais recentes. Todos foram realizados por indivíduos de extrema-direita e islamofóbicos e custaram centenas de vidas.
Não é demais lembrar que parte dos líderes mundiais que condenaram o ataque também foram contra o Pacto Global para a Migração, que também é criticado pelo terrorista australiano – casos de EUA, Israel, Itália, Austrália e Brasil.
Em artigo para o jornal britânico The Guardian, a psicóloga Masuma Rahim é enfática: não bastam as lamentações. “Atrocidades como essa acontecerão novamente, enquanto a mídia e os políticos criarem um clima em que ideias de extrema-direita podem florescer”, resume.
A polícia neozelandesa pediu para o público não compartilhar as imagens publicadas online pelo atirador. O Facebook informou também que derrubou as contas do atirador na rede social e no Instagram, que continham afirmações racistas e anti-imigrantes.
É um começo. Mas o novo caso mostra que é preciso ir além do ponto de partida. Seja no simples ato de usar a internet, seja em uma política pública local ou global, seja na abordagem da mídia.
Walking Tour vai levar a uma imersão pela cultura africana sem sair da cidade de São Paulo.
Crédito: Divulgação
Walking Tour Mama África – Novos Imigrantes, neste sábado (19) tem seu roteiro planejado para mostrar a cultura, culinária e costumes dessa parcela da população migrante da cidade
Por Bruna Cristina Em São Paulo (SP) Atualizado em 15.out.2019
A presença de migrantes de países africanos em São Paulo é bem evidente com uma simples caminhada pelo centro. E neste sábado (19) será possível se aprofundar um pouco mais e conhecer melhor essas comunidades e suas manifestações culturais.
A mais nova edição do “Walking Tour Mama África – Novos Imigrantes” – a última deste ano – teve seu o roteiro planejado para mostrar a cultura, culinária, costumes dos imigrantes e refugiados vindos de diversos países do continente africano que vieram para São Paulo. E que hoje compõem uma parte importante do cenário social e econômico da cidade.
O evento, organizado pela agência de viagens e blog Passeios Baratos em São Paulo, também vai trazer conhecimento sobre história do Brasil e o papel das pessoas que vieram da África. Entre os pontos de parada estão o Largo do Paissandu, o Largo São Francisco e a Ladeira da Memória, além de visitas a lojas de artesanato e de produtos típicos de países africanos.
A atividade contará com a presença da congolesa Prudence Kalambay Libonza, modelo, ativista e militante de Direitos Humanos residente em Brasil desde 2008. Ela irá contar sobre a história e cultura do seu país, ajudando na imersão dos participantes sobre a África.
A congolesa Prudence Kalambay Libonza, que vai participar do passeio pelo centro de São Paulo. Crédito: Divulgação
A caminhada partirá da estação Sé do metrô e deve durar em torno de 3h30min, terminando em um restaurante de culinária africana (almoço não incluso no pacote).
O passeio custa R$ 40 e as reservas devem ser feitas por meio do e-mail passeios@passeiosbaratosemsp.com.br ou pelo WhatsApp (11) 94562-3015
Veja mais informações no serviço abaixo:
Walking Tour Mama África – Novos Imigrantes Quando? 19 de outubro de 2019, às 10h Ponto de encontro: estação Sé do Metrô de São Paulo Duração estimada: 3h30min Valor por pessoa: R$ 40 Reservas e mais informações: passeios@passeiosbaratosemsp.com.br ou WhatsApp (11) 94562-3015 Observações: Não haverá reembolso em caso de desistência do participante ou não comparecimento, e o passeio não será cancelado em caso de chuva
Soldado israelense armado vigia rua na cidade de Hebron, que é uma síntese do conflito entre Israel e Palestina.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Na última reportagem da série MigraMundo na Palestina, entenda a situação da maior cidade da Cisjordânia e compreenda o impasse que se estende há décadas entre Palestina e Israel – e por que tantos palestinos vivem deslocados de sua terra natal
Por Alethea Rodrigues Em Hebron (Palestina)
Não é exagero dizer que, se você quiser entender o conflito Israel-Palestina, seu conjunto de histórias conflitantes e a dura realidade que torna a paz uma possibilidade distante, vá a Hebron.
Situada bem no centro da Palestina, é uma das cidades mais antigas do mundo, a maior da Cisjordânia e a segunda maior do território palestino – depois de Gaza. É o lar de cerca de 200 mil palestinos e uma das terras mais almejadas por Israel, que a considera sagrada.
Hebron é dividida em três setores: H1, controlada pela Autoridade Palestina; H2, que corresponde a cerca de 20% da cidade que é administrada por Israel; e um terceiro setor sob o controle total das Forças Defensivas de Israel em que a população é formada por judeus, com algumas dezenas de palestinos.
Vista parcial da cidade histórica de Hebron, um dos pontos nevrálgicos do conflito Israel-Palestina. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
Depois da Guerra dos 6 Dias (1967), Hebron voltou a estar sob o controle israelense e começaram a ser construídos assentamentos judeus e desapropriar casas dos palestinos residentes, exatamente no coração da cidade. Após esse acontecimento, grande parte do centro se tornou fantasma, pois os palestinos fecharam as portas de suas casas e comércios e saíram para escapar dos postos de controle e conflitos existentes.
O exército israelense controla o movimento dos palestinos que vivem dentro do H2 e nas ruas da Cidade Velha através de câmeras e postos de controle. Várias delas estão fechadas para acesso dos mesmos. Há 18 postos de controle – os chamados checkpoints – no local, causando tensão na região e restrição da liberdade de ir e vir dos residentes. Aqueles que vivem dentro de áreas restritas ainda devem passar por esses pontos de verificação diariamente.
Hebron é sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Segundo a tradição, o local que os judeus chamam de Túmulo dos Patriarcas – e os muçulmanos, de Mesquita de Ibhraim – estão sepultados Abraão, Sara, Isaac, Rebeca, Jacó e Lea. É considerada a segunda cidade mais sagrada do judaísmo após Jerusalém. Seria o principal motivo pelo qual Israel ocupou e atualmente controla essa área.
Instalações israelenses na cidade de Hebron, considerada sagrada por judeus e também por muçulmanos. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
“Queremos viver em paz”
Enquanto vende seus artesanatos típicos palestinos no mercado mais famoso e antigo de Hebron, que fica na chamada “parte velha” da cidade, Jamal Maraga, 57, conta como é viver no meio de uma guerra.
“A vida dos palestinos piorou desde 1967, quando Hebron voltou a estar sob o controle israelita e começaram a ser construídos assentamentos judeus e desapropriar casas da população residente, exatamente no coração da cidade”.
Após a ocupação israelita, o mercado foi perdendo clientes, principalmente turistas que ficaram receosos de frequentar o local que nem sempre é seguro.
“Milhares de palestinos fugiram daqui, não aguentaram a pressão que os soldados fazem todos os dias para que a gente desista de continuar trabalhando e vá embora da nossa própria terra”, afirmou o comerciante.
Jamal tem uma loja no mercado há cinquenta anos. É com a renda desse estabelecimento que sustenta a esposa e os três filhos. O pequeno comércio é herança do pai, que construiu e criou toda a família com a renda dos mesmos artesanatos e faleceu, sem desfrutar da paz na região.
“Comecei a trabalhar aqui com sete anos ajudando meu pai. Vimos a guerra de perto, mas nunca desistimos. Por quase três anos Israel proibiu de abrirmos nossa loja. Vivíamos de doações de familiares que vivem fora da Palestina. Mas resistimos, estamos aqui e eles não vão me convencer de deixar o lugar onde nasci, onde está meu coração”.
Atualmente, as lojas do mercado da cidade velha que ainda permanecem abertas foram revestidas com redes de proteção, segundo o comerciante, para se protegerem dos ataques dos israelenses. O estabelecimento é a céu aberto e cercado por assentamentos judeus, fruto da ocupação de Israel. Através das redes é possível ver quilos de lixo como garrafas, madeiras velhas, papeis e restos de ovos.
Grade sobre o mercado de Hebron impede que o local seja alvo de lixo jogado de assentamentos judaicos vizinhos ao local. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo
“Eles atiravam da janela dos prédios diversos materiais que caíam dentro do mercado e estragavam nossas mercadorias. Hoje trabalhamos cercados como prisioneiros e isso não é saudável para ninguém, mas pelo menos estamos mais seguros”.
Jamal aposta no testemunho de seus clientes turistas como força de mudança dessa realidade em Hebron – e na Palestina como um todo.
“Muita gente de fora desconhece essa realidade, por isso, sempre peço aos meus clientes turistas que vejam essa situação de perto, sintam o que vivemos aqui e espalhem isso ao mundo. Vale muito mais do que qualquer mídia. Queremos viver em paz e não como animais dentro do nosso próprio território.”
Dados da UNRWA, entidade da ONU (Organização das Nações Unidas) responsável especificamente pelos refugiados palestinos, indicam que há 5,4 milhões de palestinos refugiados no mundo. Alguns deles vivem em campos de refugiados dentro da própria Cisjordânia, como Aida – visitado pelo MigraMundo.
Funcionário do ACNUR orienta sobre os procedimentos para a solicitação de refúgio e registra casal venezuelano em abrigo em Boa Vista.
Crédito: Reynesson Damasceno/ACNUR - jan.2018
O ano passado concentrou 60% dos 414 mil pedidos de refúgio efetuados por venezuelanos desde 2014, quando teve início a crise no país
Por Rodrigo Veronezi Em São Paulo
Desde 2014, 414 mil pedidos de refúgio foram feitos por venezuelanos em todo o mundo. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (8) pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), com base em registros fornecidos pelas autoridades nacionais.
Mais de 60% desse total foi registrado somente no ano de 2018, que somou 248 mil pedidos, refletindo a piora da situação na Venezuela.
Os pedidos de refúgio fazem parte de uma cifra ainda maior, a da saída total de venezuelanos – estimada atualmente em mais de 3,4 milhões de pessoas pelo ACNUR e pela OIM (Organização Internacional para as Migrações). Em média, no ano passado, cerca de 5 mil pessoas deixaram a Venezuela diariamente em busca de proteção ou de uma vida melhor.
Por sua vez, o crescimento da diáspora venezuelana é amostra clara da grave crise generalizada que afeta o país há cinco anos e que ganhou novos contornos em 2019.
Sozinha, a vizinha Colômbia é o país que mais recebeu venezuelanos até o momento, de acordo com o ACNUR – já recebeu cerca de um terço desse fluxo. Em seguida aparecem Peru, Chile, Equador, Argentina e Brasil. Veja os números abaixo:
Colômbia: 1,1 milhão Peru: 506 mil Chile: 288 mil Equador: 221 mil Argentina: 130 mil Brasil: 96 mil
Além das solicitações de refúgio, os países da América Latina concederam cerca de 1,3 milhão permissões de residência e outras formas de regularização aos venezuelanos. Quando conseguem obtê-la, ainda que de forma temporária, eles ficam aptos a acessar serviços básicos de saúde, educação e – na maioria dos países – de trabalho.
Esses dados são suficientes para antever que a diáspora venezuelana deve ser um dos destaques da próxima edição do relatório Tendências Globais, que faz um panorama da situação do refúgio e dos deslocamentos forçados mundo afora. O levantamento é divulgado anualmente pelo ACNUR nas proximidades do dia 20 de junho – quando é lembrado o Dia Internacional do Refugiado.
Ações no Brasil
No Brasil, desde março de 2018 está em curso a Operação Acolhida, criada para gerir o fluxo migratório de venezuelanos em direção ao Brasil, incluindo documentação e abrigamento. Ela é coordenada pelo governo federal, por meio do Exército, com apoio técnico do ACNUR e da OIM.
Em torno de 6 mil migrantes vivem nos abrigos da operação, espalhados pela capital do estado, Boa Vista, e na cidade fronteiriça de Pacaraima. As atividades são realizadas com participação de uma série de entidades da sociedade civil e organizações internacionais que participam da força-tarefa em Roraima.
Vista interna do abrigo Jardim Floresta, um dos que foram abertos em Boa Vista para receber os venezuelanos na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo – abr.2018
Cabe ainda à Operação Acolhida gerenciar o processo de interiorização, que busca redistribuir de forma voluntária os venezuelanos para outras regiões do Brasil nas quais eles possam encontrar abrigo e melhores condições de obter trabalho. Dados do governo federal indicam que pelo menos 4,7 mil venezuelanos já foram realocados por essa ação.
Apesar de tais medidas, os venezuelanos que vivem no Brasil não estão livres de manifestações hostis, tanto verbais como físicas. Em agosto de 2018, migrantes acampados nas ruas de Pacaraima foram atacados e tiveram seus pertences queimados por moradores locais. O estopim da revolta teria sido um assalto e agressão a um comerciante brasileiro, supostamente cometido por venezuelanos.
Imagem do documentário "Llévate Mis Amores”, que conta a história das "patronas" mexicanas.
Crédito: Reprodução
Grupo de mulheres distribui, há duas décadas, alimentos para migrantes a bordo do trem La Bestia, que dá acesso a cidades na fronteira com os EUA
Por Luana G. Silveira Equipe de Comunicação do CSEM Link original – acesse aqui
Neste 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, nós do CSEM (Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios) gostaríamos de compartilhar a história de mulheres que, com toda sua força e amor ao próximo, trabalham de maneira voluntária, nadando contra a corrente de discriminação aos migrantes que assola o mundo. Promovendo uma ação humanitária marcada pelo cuidado ao ser humano, onde não se é indiferente à dor e trajetória de cada pessoa que migra.
Há mais de vinte anos, um grupo de mulheres da comunidade La Patrona, localizada na cidade mexicana de Guadalupe em Veracruz, distribui alimentos para migrantes a bordo do trem La Bestia, que cruza o México em direção às cidades que fazem fronteira com os EUA. Essas mulheres, denominadas como Las Patronas em referência à sua comunidade, receberam o Prêmio Nacional dos Direitos Humanos em 2013, por serem exemplo de mobilização e conscientização, sendo solidárias com as pessoas em situação de mobilidade, mesmo quando suas ações colocavam as próprias vidas em risco, por ajudarem pessoas que, por alguns, são dadas como criminosas.
Os (as) migrantes que utilizam o La Bestia provêm, majoritariamente, de outros países da América Central, correndo risco de morte em suas jornadas em direção a cidades como Tijuana, Mexicali, Juárez e Matamoros (fronteiriças aos EUA). Muitas dessas pessoas não concluem o trajeto, chegam a ser mutiladas ao saltar do trem em movimento para fugir da fiscalização ou de criminosos, viajam a céu aberto, expostos ao sol forte, são extorquidas por aqueles que cobram as “passagens” e, muitas vezes, acabam sendo sequestradas, situação que pode culminar no tráfico de órgãos.
Diante dessa situação, Las Patronas chegaram a preparar e entregar mais de mil refeições em um dia. Arroz, feijão, pão e água são entregues em sacos para que quem estivesse no trem pudesse pegar mesmo com o veículo em movimento, além de acolher e auxiliar quem pudesse estar ferido pelas intempéries da viagem.
O CSEM reforça a importância da valorização do protagonismo da mulher na sociedade como um todo. Todos os dias as mulheres têm de lutar por sua posição, intervindo para a construção de um espaço que seja igualitário, contribuindo para um mundo melhor, onde todos(as) sejam ouvidos(as) e tratados(as) como seres humanos, de maneira digna. A atuação das Patronas representa o poder feminino como organização a fim de ajudar quem percorre caminhos sonhadores e com diversas barreiras. O exemplo de humanidade serve para homens e mulheres de todo o mundo, principalmente em tempos de criminalização da ajuda humanitária nos contextos de migração.