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segunda-feira, junho 29, 2026
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Campanha exalta mulheres brasileiras e migrantes que lutam por direitos sociais

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Mulheres retratadas pela campanha Juntas Impactamos. Crédito: Montagem/Chico Max/Divulgação

“Juntas Impactamos” reúne mulheres que atuam em defesa de condições dignas de vida e cria rede de apoio entre suas integrantes

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

Da Justiça ao meio acadêmico, da assistência social ao empreendedorismo, da prevenção ao combate ao trabalho escravo, do legislativo à sociedade civil. Em todas essas atividades a presença de mulheres – tanto brasileiras como migrantes – é marcante, mas nem sempre valorizada. É para começar a corrigir essa percepção que teve início a campanha “Juntas Impactamos“, que destaca tanto a participação das mulheres como os trabalhos que desempenham.

A ação foi lançada nas redes sociais oficialmente em 28 de janeiro passado, quando também é lembrado o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. A data não foi escolhida à toa, já que boa parte das mulheres que integram a campanha estão envolvidas de alguma forma em combater e prevenir essa situação.

A principal peça é um calendário que reúne 33 dessas mulheres, retratadas especialmente para a ocasião, além de informações sobre as participantes e as instituições às quais estão ligadas. As fotos são de Chico Max, que já fez outros trabalhos recentes ligados à temática migratória.

Baixe aqui o calendário da campanha Juntas Impactamos

“A história de superação e sucesso desse coletivo carrega um pouco da história de toda mulher. Cada uma conta, com sua imagem e trajetória, como podem juntas mudar suas próprias vidas e a vida de outras mulheres, com cooperação, com amor, com respeito e até com resignação e indignação, gerando ferramentas para o crescimento”, resume a advogada Juliana Armede, idealizadora da campanha. Ex-coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria de Justiça de São Paulo, ela aproveitou os contatos que cultivou ao longo de sua trajetória profissional para articular a iniciativa.

Além de jogar luz sobre o trabalho feito por essas mulheres, a campanha tem potencial para deixar como legado a criação de uma nova rede de instituições e pessoas dedicadas a temáticas sociais.

“Começa como uma campanha, mas vejo que pode virar um grupo de apoio, uma forma de articulação de rede. Para combater trabalho escravo, por exemplo, ninguém consegue fazer nada sozinho”, opina Cristina Filizzola, gestora de projetos sociais da Aliança Empreendedora – organização social que apoia negócios inclusivos e projetos para microempreendedores de baixa renda, incluindo migrantes. Ela é um dos rostos do mês de março no calendário da campanha, ao lado da vereadora paulistana Patrícia Bezerra (PSDB) e da presidente da comissão de erradicação do trabalho análogo ao de escravo da OAB-SP, Luciana Slobergas.

A vereadora Patrícia Bezerra (PSDB-SP), Cristina Filizzola e Luciana Slobergas, que estão na imagem de março do calendário.
Crédito: Chico Max

Ao longo do ano, a campanha marcará presença sobretudo nas redes sociais, mas também em eventos presenciais promovidos em conjunto com as instituições que a apoiam.

Participação migrante

Além de enfrentar as barreiras impostas à mulher na sociedade brasileira, as mulheres migrantes lidam ainda com as dificuldades geradas pela própria condição de migrante. Elas também contam com suas representantes – e seus anseios e sonhos – na campanha.

“Fazer parte da campanha me fez sentir mais integrada e com o mesmo objetivo, de levar o conhecimento de todos os direitos para todos os imigrantes , homens e mulheres”, resume a boliviana Tomasa Nancy Salva Guarachi , multiplicadora social do CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante).

Guarachi aparece com trajes típicos da terra natal na foto que ilustra o mês de novembro, junto com outras duas parceiras de instituição: a também multiplicadora social boliviana Ruth Callisaya Aquise e a atendente de regularização migratória Claudine Shindany, da República Democrática do Congo.

Claudine, Ruth e Nancy, que ilustram o mês de novembro do calendário do Juntas Impactamos.
Crédito: Chico Max

“Para mim [a campanha] representa a integração de mulheres, sem distinção da raça, cor ou cultura. Também dá visibilidade ao trabalho de toda mulher que faz parte deste coletivo”, completa Guarachi.

Uma campanha como essa ganha ainda maior importância em meio ao ambiente machista que persiste na sociedade brasileira. Shindany também acredita no poder que a iniciativa tem para elevar a autoestima da mulher.

“Eu sempre digo que uma mulher encarna um poder. Nossa sociedade já é machista, e a mulher não pode se considerar inferior ou incapaz. Ela sempre tem que ter autoestima elevada para enfrentar qualquer barreira e fazer o melhor que ela tem. Ela tem que estar ciente disso”.

Outra instituição com mulheres migrantes na campanha é a Missão Paz, que aparece nos meses de fevereiro, abril e setembro.

“Mulher migrante tem que estar em qualquer movimento de mulheres. É um direto dela como mulher”, finaliza Armede.

Migrantes se deslocam por esperança, mantida ainda que por um fio

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Pessoas refugiadas são protegidas pelo princípio de "non refoulement" (não devolução, em tradução livre). Crédito: ACNUR

Hoje, assim como ontem, os migrantes navegam nas ondas de sonhos nutridos desde as penas e as carências da infância

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
No Rio de Janeiro

As fortunas combinadas das 26 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo valor do que a soma do patrimônio da metade da população mais pobre do mundo, segundo relatório da Oxfam, organização mundial que busca combater a pobreza e as desigualdades. Conforme a entidade, a soma das riquezas desse grupo seleto é a mesma dos valores das 3,8 bilhões de pessoas mais pobres. O relatório foi divulgado para marcar o início do Fórum Econômico Mundial em Davos. A organização destaca que as fortunas dos bilionários aumentaram 12% no ano passado – o equivalente a 900 bilhões de dólares, ou US$ 2,5 bilhões por dia. Na contramão, as pessoas que compõem a metade mais pobre no mundo viram sua riqueza diminuir em 11%.

Diante de semelhantes números, aos deserdados do planeta só resta a fuga. E de fato, ao lado e antes da violência ou guerra, a chaga da pobreza, miséria e fome continua sendo o primeiro fator dos deslocamentos humanos de massa. Jovens especialmente, homens e mulheres, mas também crianças e famílias inteiras, se vêm privados de qualquer perspectiva de futuro em sua terra natal. Deixam amigos e parentes, deixam sob o solo os restos mortais de seus antepassados e aventuram-se em busca de qualquer oportunidade. Se o horizonte permanece incerto, para trás ficou a certeza da falta de condições minimamente humanas. Igualmente certas são as adversidades que os esperam pelo caminho, os problemas nas fronteiras fechadas, a falta de documentação, a exposição aos traficantes que lhes tiram as últimas economias e a hostilidade por parte das autoridades dos países de destino, como também, e cada vez mais, de grande parte da população. A causa primordial da migração em mergulha suas raízes nas assimetrias, injustiças e desequilíbrios de ordem social e econômica. Pouco a pouco, crescem ainda as motivações de natureza climática.

Hoje, assim como ontem, os migrantes navegam nas ondas de sonhos nutridos desde as penas e as carências da infância. Sonhos que, a exemplo das flores selvagens, nascem nos terrenos mais árduos e menos férteis. Diferentemente das migrações históricas, porém, as migrações atuais apresentam características bem diversas. Estima-se que, entre 1820 e 1920, cerca de 65 a 70 milhões de emigrantes deixaram a Europa, em direção às terras novas da América e da Oceania. A grande epidemia das batatas na Irlanda, na metade do século XIX, por sua vez, dizimou mais um milhão de pessoas, levando outro milhão a cruzar o Atlântico. Somente da Itália, a emigração ultrapassou a cifra de duas dezenas de milhões. Daí a denominação de “século do movimento”. Movimento do carro, do trem, do navio, depois do avião – mas sobretudo movimento dos trabalhadores do campo para a cidade, por uma parte e, por outra, do velho continente em vista de “fare l’America”, como diziam os emigrantes italianos.

Tais migrações históricas, digamos assim, tinham origem e destino mais ou menos certos, pré-determinados, quase lineares. Eram deslocamentos relativamente ordenados, onde às vezes governos, empresas e associações tentavam regular o fluxo dos emigrantes. Estes sofriam um desenraizamento provisório para depois, nos lugares de chegada, serem em grande parte novamente enraizados. Muitos acabavam por assentar-se como “colonos”, tornando-se até empresários e industriais. Acabaram contribuindo com o desenvolvimento de países como Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Austrália, Nova Zelândia. Numa palavra, a mobilidade geográfica constituía uma promessa para a mobilidade social.

As migrações hodiernas mais parecem um vaivém sem fim. Também elas sofrem um desenraizamento do solo pátrio. Mas, ao contrário dos imigrantes de outras épocas, dificilmente encontram uma nova terra que possa ser chamada de pátria. Em lugar de origem e destino mais ou menos definidos, erram de fronteira em fronteira, “sem raiz, sem endereço fixo e sem horizonte”. Uma perambulação circular, intermitente, fragmentado. Em lugar da ascensão social, a mobilidade os precipita em becos sem saída. Alguns exemplos: os fugitivos da Etiópia ou da Eritreia, cruzando vários confins, chegam à Líbia, tentando embarcar para a Europa. Tropeçam, porém, com o bloqueio das rotas balcânica e mediterrânea. Não é diferente com os sírios. Detidos em campos da Turquia, vêm cerrada a via que os conduziria ao velho continente. Na Ásia, os migrantes filipinos, indianos e indonésios dirigem-se aos Emirados Árabes, onde passam a girar conforme com os ventos do capital. Deste lado do Atlântico, os haitianos, após cruzarem várias fronteiras, chegaram ao Brasil. Daqui, seguiram viagem para o Chile e Argentina. Em seguida, se aventuraram pelos países da América Central até o México. Por fim, viram seus sonhos despedaçados em Tijuana, tão perto e tão longe dos Estados Unidos. Permanece a esperança, sem dúvida, mas por um tênue fio.

Cautelosa sobre Venezuela, Europa pende para Guaidó e deixa migração em 2º plano

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Maioria dos países da UE declaram apoio ao líder da oposição no Parlamento venezuelano; mídia mostra um Maduro incompetente, que se apega em Chávez, e uma Venezuela faminta sob a mira dos EUA, Rússia e China.

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Desde que a situação na Venezuela se agravou, com o descontentamento da população e a auto-proclamação de Juan Guaidó como presidente interino, a Europa, sob a voz de seus líderes de Estado, bateu o martelo à favor do opositor, mas com cautela.

Tanto nas falas dos chefes de governo como de Estado e na imprensa, o embate político entre Guaidó e Maduro ganhou muito mais destaque do que os deslocamentos de venezuelanos para países vizinhos, assim como a pressão feita pelos EUA, Europa e Rússia sobre um país em um grave caos social, político e econômico.

O número atual de refugiados e migrantes da Venezuela em todo o mundo é de 3,4 milhões, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM). A Colômbia abriga o maior número (mais de 1,1 milhão), seguido por Peru (506 mil), Chile (288 mil), Equador (221 mil) e Argentina (130 mil). O Brasil é o sexto da lista, com 96 mil.

Até o momento, as fronteiras venezuelanas com Colômbia e Brasil seguem fechadas – quem consegue passar para o outro lado o fez por meio de rotas alternativas, que envolvem maiores riscos do que os caminhos oficiais.

Posição dos líderes europeus

O presidente francês, Emmanuel Macron, timoneiro da União Europeia, anunciou, no Twitter, o seu apoio a Guaidó, reconhecendo-o como presidente interino ”que irá guiar a Venezuela para um novo processo eleitoral:”

Ele, Angela Merkel (Alemanha) e Pedro Sánchez (Espanha) tentam, assim, dar sinal aos membros do bloco europeu de que a Europa deve estar com o jovem político que faz ferrenha oposição a Nicolas Maduro, que, para eles, já está tempo demais no poder.

Assim, 19 dos 28 países membros já se pronunciaram a favor de Guaidó. O primeiro ministro da Espanha, Pedro Sanchez, afirmou que a Venezuela “deve ser dona do seu próprio destino.” Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido, através de seu porta-voz, afirmou que o país deve dar passos à frente e cogitou o uso de sanções, sem especificar quais.

Venezuela passa por profunda crise política, social e econômica. Crédito: Arquivo Pessoal/Aryadne Bittencourt

Mas há discordâncias, mais fortes ou menos fortes: como é o caso de Grécia e Irlanda, que defendem novas eleições mas param por ai, sem legitimar Guaidó. A Itália, dividida, ainda não tomou partido. A única voz ouvida foi a de alguns líderes do partido de centro, Cinco Estrelas, que afirmaram que ”a UE não pode dizer à Itália o que deve ou não ser feito .”

Já os russos, no Kremlin, veem com maus olhos o posicionamento da Europa, principalmente quando ela deu um ultimato a Maduro para convocar novas eleições. Em declaração oficial, o Kremlin falou em ”ingerência dos europeus”. Nós estamos vendo tentativas de legitimar a usurpação do poder como uma ingerência direta e indireta nos assuntos internos da Venezuela”, afirmou o porta voz do Kremlin, Dmitri Peskov à imprensa. Vladimir Putin têm dado apoio militar, econômico e político a Nicolas Maduro.

Emmanuel Macron declara seu apoio à Guaidó no Twitter.

Cobertura midiática

Para o sempre ponderado Correio Internacional (uma espécie de Revista Piauí dos franceses), Maduro é o homem em cima de uma torre de petróleo, com um cofre de dinheiro nas costas e com um mini Hugo Chávez nas mãos enquanto aviões europeus, norte-americanos e russos o circundam.

É essa a capa da edição de fevereiro de umas das revistas mais influentes da Europa, em termos de geopolítica. ”Venezuela, a hora da verdade”, anuncia a capa. ”Depois de vinte anos de chavismo, a crise do regime ficou conhecida por todo o planeta. Cada potência mundial teve que escolher um lado, depois que o jovem líder do Parlamento, Juan Guaidó, desafiou abertamente o presidente Nicolás Maduro.”

Com seis artigos de páginas inteiras, a revista mostra uma Venezuela submergida em um descontentamento popular por causa da precariedade social vivida, um líder extremamente desgastado e ”incompetente”, uma revolução bolivariana que já se desgastou de tanto ser evocada por Maduro e um líder jovem, que traz esperança a um povo cansado e com fome.

A influência dos Estados Unidos, os investimentos bilionários da China e a vontade de alargar o império dos russos não passam fora do scanner da revista, que publicou artigos de jornalistas dos principais jornais da Venezuela e do mundo.

O jornal espanhol El País fala sobre apoio europeu e brasileiro à Guaidó.

O jornal italiano Corriere de la Siera enfatizou o bloqueio do governo à ajuda humanitária e a ida de Guaidó para a Colômbia, país com o qual Maduro rompeu relações diplomáticas. O britânico The Independent mostra o caos social no país, com repressão do governo, bloqueio de fronteiras e aumento do número de refugiados venezuelanos.

Já o jornal espanhol El País falou do apoio do presidente brasileiro Jair Bolsonaro a Guaidó: ”Bolsonaro dá a Guaidó apoio político com recepção informal em Brasília.”

Europeus no Conselho de Seguranca

Os países europeus membros do Conselho de Segurança pediram na tarde desta quinta-feira um escrutínio presidencial na Venezuela para resolver a crise política. Reino Unido, Alemanha, Belgica, França e Polônia recusaram a sugestão norte-americana para intervir militarmente no país evocada face à repressão violenta do governo de Maduro.

”Precisamos evitar uma intervenção militar”, afirmou a porta-voz da diplomata chefe da União Europeia, Federica Mogherini. ”Os europeus se opoem firmemente à repressão, mas também são igualmente engajados a procurar uma solução política”, acrescentou uma fonte diplomática ao jornal francês Le Figaro.

Para o antigo deputado europeu, Jean-Luc Mélenchon, ”não se deve reconhecer um aventureiro que se auto-proclama presidente da República”. Mélenchon concorreu duas vezes à presidência da República francesa, onde teve 19% dos votos. Um dos ícones da esquerda popular do país, em 2016, ele criou o movimento La France Insoumise.

Outra figura politica que foi contra o que foi dito por seu líder de Estado foi a ministra de Assuntos Estrangeiros do Reino Unido, Emily Thornberry. Thornberry afirmou que ” é errado reconhecer Juan Guaidó como presidente da Venezuela”. Para ela, impor uma ruptura não é o que ela vê de mais correto a ser feito, mas sim ajudar a Venezuela a ser realista e prática para assegurar novas eleições.

Migrantes em São Paulo celebram e ajudam a compor o Carnaval

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Dança folclórica boliviana agita o Pholia na Luz e ajuda a compor o Carnaval de São Paulo. Crédito: Antonio Andrade/Bolívia Cultural

Representação aparece tanto em blocos de rua como em escolas de samba

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo

As comunidades peruana e armênia em São Paulo tiveram um motivo especial para acompanhar os desfiles de escolas de samba do Carnaval paulistano deste ano.

Os dois países inspiraram os enredos dos desfiles apresentados, respectivamente, pelas escolas Rosas de Ouro e Unidos de Vila Maria – ambas passaram pelo Sambódromo do Anhembi na madrugada deste domingo (03).

A Unidos de Vila Maria contou a história do Peru, destacando riquezas históricas, culturais e naturais do país vizinho – que vão além da famosa cidade de Machu Picchu.

A atriz peruana Marba Goicochea teve a oportunidade de ser uma das representantes do Peru no Anhembi, desfilando pela Vila Maria. “É uma oportunidade única poder ser parte desta história maravilhosa. Estou super grata e empolgada”.

Para ela, desfilar no Carnaval paulistano em um enredo sobre o Peru é uma forma de combinar as paixões que sente pela terra natal e pelo país que hoje tem como sua casa.

“Eu sempre procuro trazer para o Brasil na minha arte, como atriz, a minha cultura, o meu amado Peru. Sou muito orgulhosa de ser peruana, assim como também eu amo muito o Brasil, meu coração é Brasileiro. Que melhor oportunidade de juntar ambas nações no desfile de samba no Anhembi?!

Estima-se que 10 mil peruanos residam atualmente em São Paulo.

A atriz peruana Marba Goicochea, que vai desfilar pela Unidos de Vila Maria no Carnaval 2019 em SP. Crédito: arquivo pessoal

A escola de samba Rosas de Ouro foi outra a buscar inspiração fora do Brasil para seu Carnaval, que falou sobre a Armênia – ex-república soviética cujo povo é considerado o primeiro totalmente cristão do mundo.

Segundo o portal UOL, cerca de 500 armênios desfilaram junto com a escola no Anhembi. A influência da migração armênia em São Paulo pode ser medida por alguns nomes de ruas e pela estação Armênia do metrô – há uma igreja armênia logo ao lado, inclusive.

Em maio de 2017, o MigraMundo registrou as mobilizações da comunidade armênia em São Paulo no esforço global pelo reconhecimento do genocídio sofrido durante a Primeira Guerra Mundial.

Folia migrante nas ruas

Além do sambódromo, os migrantes que vivem em São Paulo também contribuem para os dias de folia e pré-Carnaval com seus próprios blocos e apresentações.

Ainda no dia 18 de fevereiro, o bloco Batuca Bresser levou seus tambores ao bairro da Mooca, em São Paulo, nas proximidades do Museu da Imigração.
Ele é tocado por voluntários e ocupantes do Arsenal da Esperança, instituição gerida pela fraternidade católica italiana Sermig, que acolhe, por noite, cerca de 1.200 homens em situação de rua. Ela divide com o Museu o espaço da antiga Hospedaria do Brás, que recebeu cerca de 2,5 milhões de migrantes ao longo de seu funcionamento.

Atualmente estima-se que cerca de 10% dos atendidos pelo Arsenal sejam migrantes de outros países, especialmente de nações africanas.

Bloco Batuca-Bresser 2019

"Posso ajudar?" Com essa mensagem, transmitida por vozes, músicas, fantasias, instrumentos, cores e todo o nosso coração, abraçamos alegremente o nosso bairro e a cidade inteira, espalhando muito amor! É esse o objetivo de tudo o que estamos fazendo e do que queremos continuar fazendo daqui em diante.#APraça#23Fevereiro#BresserMooca #BatucaBresser#CarnavalDiferente#ArsenalDaEsperança#ArsenalDaEsperança2019

Posted by Arsenal da Esperança on Sunday, February 24, 2019

Na região da Luz, no último dia 24 de fevereiro, a comunidade boliviana integrou pelo 13º ano consecutivo a Pholia na Luz, com apresentação da dança Caporal”.

“O Carnaval é uma festa mundial e aproveitamos para divulgar a dança caporal, que é 100% boliviana”, afirma o publicitário Antônio Andrade Vargas, fundador dos portais Bolívia Cultural e Planeta América Latina, ao jornal Fanfulla.

Dados da Prefeitura indicam que pelos menos 50 mil bolivianos residam regularmente em são Paulo, fazendo dela a segunda maior comunidade imigrante na cidade. Ao todo, ainda de acordo com a Prefeitura, são 385 mil imigrantes de 198 nacionalidades distintas.

Estimativas extraoficiais, no entanto, que consideram os migrantes sem documentos, apontam que apenas a comunidade boliviana tem entre 250 mil a 450 mil pessoas.

No Carnaval deste ano também registrou nas ruas blocos formados por coreanos e indianos, ajudando a enriquecer ainda mais a cena cultural paulistana. E o número de nacionalidades com representantes na cidade é um indicativo de como esse mosaico pode ganhar novas peças em breve.

Com informações de Bolívia Cultural e Jornal Fanfulla

Aberto a imigrantes, edição 2019 do Programa VAI recebe inscrições até 11 de março

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Programa VAI, da secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, tem inscrições abertas para a edição 2019. Crédito: Divulgação

Iniciativa que apoia projetos culturais em São Paulo já ajudou a tirar do papel projetos desenvolvidos por imigrantes e/ou que debatem a migração

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo

O Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais  (VAI), da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, está com inscrições abertas para a edição 2019, nas modalidades VAI 1 e VAI 2. O prazo vai até 11 de março.

Criado em 2003, o programa visa selecionar projetos e apoiar financeiramente grupos e coletivos formados, principalmente, por jovens de baixa renda e de regiões da cidade desprovidas de recursos e equipamentos culturais.

Segundo informações da Prefeitura, nos últimos cinco anos mais de 1000 projetos foram contemplados nas modalidades 1 e 2, que selecionam, respectivamente, propostas de coletivos formados por jovens entre 18 e 29 anos ou que tenham no mínimo dois anos de existência.

Para o VAI 1, os projetos devem ter um orçamento limite de R$ 40.750,00 e duração máxima de 8 meses; no VAI 2, o teto sobe para R$ 81.500, também com duração de até 8 meses – neste caso, é preciso ainda que o coletivo comprove, no mínimo, dois anos de existência e atuação em regiões do Município desprovidas de recursos e equipamentos culturais ou que já tenham sido contemplados na modalidade VAI I.

Mais informações podem ser obtidas no site do programa e nas redes sociais do VAI

Nos últimos anos, o programa tem aberto espaço e apoiado ações desenvolvidas direta ou indiretamente por migrantes. Em 2018, pelo menos três projetos abordavam a temática migratória e/ou contavam com migrantes na equipe.

Um desses projetos é o Cinema Jenin, do coletivo Ninho de Vespas – formado por migrantes, refugiados e brasileiros. A partir de uma peça teatral que deve ficar pronta nos próximos meses, o grupo vai abordar a questão palestina sob a reflexão do quão legítima é uma guerra e de que formas pode-se lutar para sair dela. Jenin, aliás, é o nome de uma cidade palestina.

“Ele [o programa VAI] faz o que se propõe de fato, que é estimular a criação e participação dos pequenos produtores e/ou artistas da cidade, de uma forma ou outro incluindo-os no panorama cultural da cidade”, diz a produtora cultural colombiana Daniela Solano, uma das integrantes do coletivo. Ela também integra o coletivo Visto Permanente, que deu seus primeiros passos com a ajuda de um outro edital de cultura, o programa Redes e Ruas.

Daniela deixa uma dica importante para quem tem interesse em apresentar projetos ao VAI: participar dos encontros de formação sobre o projeto.

“Façam os cursos que o próprio VAI está promovendo. Porque apesar de ser um edital ótimo, nem todos temos acesso à linguagem dos editais e como devem ser escritos. Se informem, se formem, mas não deixem de se inscrever”.

O próximo encontro – o último antes do fim do prazo – está agendado para 8 de março, no bairro do Capão Redondo (zona sul).

Daniela recomenda, no entanto, que o imigrante proponente do VAI tenha paciência para lidar com trâmites e eventuais barreiras burocráticas.

“Eu mesma não consegui ser proponente do VAI [em 2018] pois no período de inscrição eu estava renovando meu documento e tinha em mãos o protocolo apenas. Apesar de morar no país há mas de 15 anos, não aceitaram meu protocolo como documento válido”.

Além do Cinema Jenin, o VAI também já contemplou outros projetos tocados por imigrantes, como Ecos Latinos, Microcine Migrante e Lakitas Sinchi Warmis.

VAI TEC recebe inscrições até 6 de abril

O crescimento do VAI ao longo do tempo deu origem a um “filhote”: o VAI TEC, focado em ações tecnológicas que possam exercer impacto nos locais em que estão inseridos. O programa chega à sua quarta edição em 2019.

Para esta modalidade, as inscrições começam em 8 de março e terminam em 6 de abril, e devem ser feitas no portal do VAI Tec (acesse aqui).

Serão selecionados 24 projetos, que receberão aporte de R$ 33,1 mil cada, além de um programa de aceleração com duração de seis meses – início estimado para meados de junho.

O VAI TEC também já beneficiou projetos idealizados por imigrantes. Dois deles foram os aplicativos Além das Fronteiras, de Wilbert Rivas (peruano de nascimento e criado na Bolívia), e o Guia do Imigrante, desenvolvido pelo comunicador boliviano Antonio Andrade – responsável pelos já conhecidos portais Bolívia Cultural e Planeta América Latina.

“Ser contemplado pelo VAI TEC ampliou a autoestima da equipe do Bolívia Cultural. Além do incentivo, foi uma amostra de que podemos desenvolver outros projetos e de mostrar que estamos em evidência, que podemos [imigrantes] ser inovadores”.

Além do apoio financeiro, Andrade destaca prestação de contas exigida pelo VAI TEC como um legado importante do programa, fazendo com que o projeto contemplado se organize para atender a esse requisito.

“Isso ajudou muito não só a organizar o projeto, mas também o restante dos projetos [Bolívia Cultural e Planeta América Latina]. Conseguimos ter uma consciência maior de organização, de transparência de aplicar os recursos. Foi um aprendizado de enorme importância que hoje conseguimos aplicar em outras ações”.

Ocupar espaços

Tanto Daniela como Andrade destacam a importância de os imigrantes que vivem em São Paulo de buscarem programas de fomento cultural e tecnológico que permitem a participação de imigrantes.

“Temos que ocupar estes espaços e políticas públicas, temos que ocupar nosso lugar de fala”, destaca Daniela.

“Pretendo incentivar outros imigrantes a participarem. Tem muita gente qualificada também entre os imigrantes, que pode competir de uma forma saudável com as outras ideias apresentadas [tanto ao VAI como ao VAI TEC]. A sociedade como um todo – e não apenas os imigrantes – só tem a ganhar com os resultados”, completa Andrade.

”Memória não é o forte do italiano”, diz cineasta sobre refugiados de ontem e hoje

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A cidade de Reggio Calabria (Itália), às margens do mar Mediterrâneo. (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Nanni Moretti falou sobre o documentário ”Santiago, Itália”, que funciona como crítica à atual sociedade italiana e seu governo

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

”Essa é uma das belas histórias italianas. ” É o que disse o cineasta italiano Nanni Moretti, em entrevista ao jornal Le Monde sobre o seu novo documentário, “Santiago, Itália”.

Nele, Moretti conta sobre os tempos de ”uma Itália solidária”, quando, nos anos setenta, a embaixada italiana em Santiago (Chile) abrigou centenas de refugiados do regime militar de Pinochet. ”Depois, esses homens e mulheres seriam acolhidos pela Itália”, escreve o jornalista francês Jacques Mandelbaum.

Em entrevista publicada no primeiro caderno da edição do Le Monde desta quarta (27), Moretti compara a Itália solidária de ontem com a de hoje, ” hipnotizada pela imigração”.

Edição do jornal francês Le Monde desta quarta (27), que publicou entrevista com o cineasta italiano.
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

”Eu temo que muitos italianos hoje estejam hipnotizados pela imigração. É um medo que os tomou, um medo instigado pelo líder da Liga do Norte, Matteo Salvini.”

Questionado se ele pensava em representar Salvini em algum filme futuro, como o fez com Berlusconi em ”Le Caiman”, ele rebateu: ”Não, não, não. Está além de minhas forças.”

Liderado pelo político de extrema-direita Matteo Salvini, o ministério do Interior italiano têm sido o centro das atenções do noticiário intra e extra-muros na Itália. Isso porque Salvini declarou os portos fechados a novos imigrantes, passando um novo decreto sobre segurança nacional e imigração no Parlamento europeu, em novembro passado. ” É mais um passo para fazer da Itália um país mais seguro e independente”, afirmou, criticando também a falta de cooperação europeia e o fracasso do Tratado de Dublin.

Barcos com migrantes foram impedidos de desembarcar na Itália, por decreto do ministro do Interior italiano. Crédito: Marina Militare

Nos últimos dois anos a Itália fechou os seus principais portos, como o de Bari, e Régio Calábria, para o acolhimento de migrantes resgatados no mar Mediterrâneo, impedindo que barcos humanitários desembarcassem em suas praias.

Sobre os possíveis refugiados fugindo do governo chileno de Pinochet, a Itália de 1973 não dera diretrizes claras aos embaixadores situados em Santiago, Piero de Masi e Roberto Toscano. Eles, por iniciativa própria, decidiriam abrir as portas da embaixada para o refugiados do regime. Tempos depois, 600 refugiados que viviam dentro da embaixada seriam acolhidos pela Itália.

”Essa história do passado traz um eco engraçado para a atual situação politica italiana…”, comenta o jornalista do Le Monde ao cineasta que contou a história em seu documentário.

”( A história do filme) é um exemplo de uma bela história de solidariedade, de curiosidade pelo outro e de acolhimento generoso, quando que hoje, na sociedade italiana, grande parte dos italianos escolheram algo que vai no sentido oposto”, disse Moretti.

Ao ser perguntado como ele poderia explicar a solidariedade italiana frente aos chilenos nos anos 70 quando a Itália mesmo passava por uma grave crise política, Moretti afirmou que não havia apenas terroristmo de extrema-direita e extrema-esquerda na Itália, nessa época. ” Existia também um movimento poderoso de solidariedade entre as pessoas”, respondeu. E acrescentou: ”É… mas esses tempos nos parecem distantes hoje…”.

Para Moretti, o povo italiano foi o povo mais solidário para com os chilenos de todos os povos europeus na época da ditatura de Pinochet. Porém, o quadro mudou: ”Você sabe, a memória não é o ponto forte do povo italiano…”, afirmou o cineasta, que diz que o seu filme foi bem recepcionado pelos italianos, principalmente pelos jovens. ”Havia bastante emoção na sala, tristeza. Mas o que predominou foi um sentimento de esperança.”

Mas o que o intriga, sobre a recepção de seu filme, são os rótulos. ”Nós vivemos em tempos tão estranhos hoje na Itália que fazer um filme simplesmente humanista ganha um rótulo de militarismo político.”

Hotel aproveita muro como forma de protesto e conscientização sobre a questão palestina

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The Walled Off Hotel, que fica em Belém (Cisjordânia). Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Local conta com museu e permite que turistas deixem seu recado em forma de grafite na barreira erguida por Israel em território palestino

Por Alethea Rodrigues
Em Belém/Bethelem (Cisjordânia)

“A maioria dos turistas vem para a Palestina para visitar as construções sagradas de Belém, e deixam de conhecer a parte triste, como o muro que destruiu o futuro de quem vive aqui”.

O palestino Wisam Salsaa é gerente geral do The Walled Off Hotel, que fica exatamente em frente ao muro a qual se referiu. A construção israelense na Cisjordânia teve início em 2004. A partir daí, várias regiões sofreram com a obra – ficaram sem regiões agrícolas e algumas cidades foram totalmente isoladas.

A muralha possui enormes dimensões: uma extensão de 721 km, 8 metros de altura, arames farpados e inúmeras torres de vigilância. A intenção de Israel foi concretizada – afastar os palestinos de Jerusalém e, consequentemente, do resto do mundo.

A construção é fruto de uma intensa disputa que remonta a meados do século 20. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, até os dias atuais, a região de Jerusalém vem sendo palco de intermináveis choques culturais e identitários, que desencadearam massacres, guerras e intolerâncias contra o povo palestino. Apesar de todos esses problemas, a própria Jerusalém e também Belém, cidade vizinha – que segundo a Bíblia foi exatamente o local do nascimento de Jesus Cristo – , são alguns dos lugares do mundo mais frequentados por turistas, recebem em torno de 4 milhões por ano se somarmos as duas regiões.

A questão palestina já gerou cerca de 5 milhões de refugiados, segundo dados das Nações Unidas – em sua maioria, vivem em campos espalhados por países vizinhos ou nos territórios ocupados, como o campo de Aida, também em Belém.

Para tentar mudar essa situação, e trazer turistas para conhecer a realidade palestina, o hotel abriu uma pequena loja ao lado do estabelecimento, onde é possível adquirir sprays, ideias de grafites que simbolizam a paz e liberdade na Palestina. Depois de feita a compra, o cliente escolhe um espaço no muro e faz seu próprio desenho com o auxílio de um dos funcionários.

Loja ao lado do hotel, que convida o visitante a deixar sua marca no muro. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“O artista de rua inglês Bansky, famoso por suas obras em várias partes do mundo, inclusive aqui nos muros da Palestina, teve a ideia de abrirmos essa loja para conectarmos as pessoas nesse mundo que vivemos através da arte. Dessa maneira, cada um que passa por aqui conhece mais sobre a verdadeira história da guerra e ainda consegue expressar o que pensa”, contou Wisam.

O palestino intitula o projeto como uma “conexão física do estrangeiro com a guerra”. E não é difícil enxergar que centenas deles experimentaram a ideia de conhecer um pouco mais de perto esse conflito. Algumas partes do muro estão completamente grafitadas, todos eles com algum apoio a causa palestina. “Já tentaram destruir alguns desenhos, principalmente os que envolvem o presidente dos Estados Unidos. Mas, vamos seguir com esse trabalho, não podemos desistir de mostrar ao mundo a realidade que vai muito além do que é mostrada na mídia”, complementou o palestino.


Wisam Salsaa, gerente geral do hotel.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Artistas de todas as partes do mundo viajam à Cisjordânia para mostrar sua arte e deixar uma marca de apoio e indignação pela situação enfrentada no território. Mas, se você não é um artista e quer arriscar uma arte no muro é preciso desembolsar o equivalente a R$ 70.

Apesar do muralha ser vigiada 24 horas por dia pelos soldados israelenses, que ficam posicionados estrategicamente em torres de observação e controlam tudo através de centenas de câmeras, Wisam garante que grafitar na construção não é uma atividade tão perigosa: “Nunca aconteceu nada grave. Raramente os soldados questionam, mas não levam ninguém a prisão ou fazem qualquer mal. O foco deles não é o turista. Não é uma atividade ilegal. Para nós palestinos ilegal é a construção desse muro, eles não tem o direito de reclamar de nada”.

Dentro do próprio hotel, além de uma decoração que questiona a existência do muro que divide a Palestina de Israel – muitas delas idealizadas por Bansky -, é possível encontrar um museu. Os turistas pagam cerca de 15 reais e conseguem ter acesso a materiais utilizados no conflito, assistir vídeos reais sobre momentos da guerra, além de absorver informações relevantes sobre os acontecimentos.

“Nossa equipe está crescendo e atualmente contamos com 43 funcionários, todos eles palestinos. A ideia é recrutar somente locais para tentar absorver um pouco da população desempregada que sofre com a frágil economia palestina”.

Hotel na Palestina tem decoração e até museu que ajudam o visitante a entender melhor a questão palestina.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo


The Walled Off Hotel
182 Caritas Street. Bethlhem, Palestina
http://walledoffhotel.com/





As fronteiras militarizadas e os migrantes “com a cara no muro”

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Marco da fronteira Brasil/Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Em meio a um campo minado de choques entre urgências e interesses, a chamada “ajuda humanitária” esconde uma série de ambiguidades

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

No momento em que escrevo estas linhas, duas fronteiras estão fechadas pelas forças militares: em Tijuana, o limite entre o México e os Estados Unidos; em Cúcuta, o limite entre a Colômbia e a Venezuela. Em maior ou menor grau de militarização, há outros confins entre países em idêntica situação. Essas duas, porém, chamam a atenção tanto pelas diferenças que apresentam quanto pelas semelhanças implícitas ou explícitas. Vozes silenciadas e silêncios gritantes se batem contra muros de indiferença e desinteresse.

Em ambos os casos – Tijuana e Cúcuta – o muro visível ou invisível separa multidões famintas de um sonho e de uma oportunidade. Nas duas situações, escancaram-se as portas às assimetrias estridentes e disparidades socioeconômicas que dividem e separam povos e nações. Em ambas as fronteiras, surge nítida a ponta do iceberg que revela o acúmulo simultâneo da renda e da riqueza, de um lado, e da exclusão social, de outro. Os motivos que levaram ao fechamento e à presença do exército não são os mesmos, claro, mas suas consequências convergem para o sofrimento anônimo de milhões de seres humanos. Incongruências, contradições e conflitos de um planeta ao mesmo tempo tão rico e tão pobre.

No pano de fundo desse cenário de precariedade, três tipos de personagens tecem fios que se cruzam e recruzam: “os donos do poder” (Raymundo Faoro), os gigantescos conglomerados empresariais e os migrantes/refugiados. Comecemos com os gigantescos conglomerados transnacionais. Sejam seus interesses ligados à extração e comercialização do petróleo e derivados, ao controle militar da região amazônica, à extração de minérios ocultos no subsolo, à possibilidade de criação de gado, à fatia rendosa das telecomunicações ou à produção e venda de armas – a verdade é que a lei férrea do Sr. Mercado Total, com sua “mão invisível” (Adam Smith), manda e desmanda, através de seus agentes secretos ou em plena luz do dia.

Depois, entre “os donos do poder” e tais companhias que atuam na rede capilar da economia globalizada, não são poucos os interesses que trilham as mesmas vias e seguem os mesmos horizontes. Num quadro onde o corporativismo histórico e estrutural reveste-se com as roupas de um nacionalismo populista de direita, os interesses se mesclam e se confundem. Os limites entre as necessidades básicas da população e os privilégios e benesses privados tornam-se fluídos. Tudo se vaporiza e se volatiza. Uma legislação ambígua e frequentemente descumprida acaba legitimando falcatruas e “maracutaias”. Comanda a tirania bruta do ditador, junto com seus dois leões de chácara: o poder judiciário e as forças armadas.

Os migrantes/refugiados, enfim, batem com a cara no muro. Uma vez mais, a porta encontra-se cerrada, hermeticamente cerrada. A dura e longa travessia foi improvisadamente interrompida na reta de chegada. Sejam os venezuelanos que tentam buscar trabalho e pão nos países vizinhos, como a Colômbia e o Brasil, sejam os latino-americanos que correm atrás da esperança de um futuro mais promissor na América do Norte, vêm seus sonhos esfacelados contra o arame farpado e os soldados armados. A fome lhes persegue os calcanhares, os braços inativos pedem trabalho, o olhar das crianças torna-se um espelho vivo do grito pela justiça e pela paz. Mas a teimosia do lucro e do poder bate-se com a teimosia pela vida.

Em meio a esse campo minado de choques entre urgências e interesses, tenta atuar a chamada “ajuda humanitária” – a qual, se é verdade que tem aparência e gestos de uma ação realmente humanitária, também é verdade que, consciente ou inconscientemente, de um ponto de vista político e econômico, esconde uma série de ambiguidades. Perguntas: quem acumula maior parte das responsabilidades (ou irresponsabilidades)? Onde vai parar tudo isso, seja num caso como no outro? Em termais mais gerais, que sociedade tais situações revelam e que sociedade necessitamos construir? Como encontrar linhas de ação comuns e metas viáveis e possíveis e como somar as forças de esquerda? Perguntas que não têm resposta imediata, mas impõem priorizar desafios e perspectivas.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2019

Fechamento de fronteira na Venezuela preocupa venezuelanos no Brasil

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Venezuela enfrenta grave crise política e humanitária. Crédito: Arquivo/Agência Brasil

“As decisões políticas, como sempre, afetam mais os cidadãos do que eles mesmos”, desabafa venezuelana com familiares na região de fronteira

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

A escalada da crise na Venezuela que levou o governo de Nicolás Maduro a fechar as fronteiras com países vizinhos – incluindo o Brasil – preocupa venezuelanos já estabelecidos no Brasil e gera impactos diretos sobre a população que vive nas regiões fronteiriças.

“Estamos todos na expectativa do que vai acontecer. O impacto é grande para nós, venezuelanos, e cidadãos brasileiros que vivem na fronteira, além de brasileiros que têm família na Venezuela”, resume a jornalista venezuelana Alba Gonzalez, que vive atualmente em Campinas (SP). Ela já morou em Santa Elena de Uairén – primeira cidade venezuelana após o cruzamento da fronteira com o estado de Roraima – e ainda têm familiares na região.

A dinâmica entre as duas cidades é afetada diretamente pelo fechamento da fronteira. Há tanto brasileiros que trabalham e/ou estudam no país vizinho como venezuelanos que têm a mesma rotina do lado brasileiro. Na última quinta-feira (21) era possível notar aumento do movimento de venezuelanos fazendo compras em Pacaraima em virtude do fechamento iminente da fronteira – o que aconteceu de fato ainda na quinta.

“Por aqui assistindo fico muito preocupada em relação à minha família”, diz Alba. A situação tende a ficar mais tensa dependendo do período pelo qual a fronteira ficar fechada – e com ela, os efeitos sobre o cotidiano binacional nesta e em outras regiões de fronteira com a Venezuela.

“As decisões políticas, como sempre, afetam mais os cidadãos do que eles mesmos”, desabafa Alba.

Outros venezuelanos que vivem no Brasil e foram procurados pelo MigraMundo expressaram a mesma preocupação, mas não quiseram se pronunciar publicamente. “É pressão demais”, disse um deles.

Entenda o caso

A decisão de fechar a fronteira por parte de Maduro ocorre dois dias após o governo brasileiro comunicar que pretende realizar uma operação, em conjunto com os Estados Unidos, com o suposto objetivo de entregar donativos ao país vizinho. No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro se colocou à disposição para ajudar nessa operação, o que ajudou a elevar os ânimos na região

O envio de ajuda para os venezuelanos que sofrem com a crise econômica se tornou um foco de luta de poder entre Maduro e Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional – e dominada pela oposição. Ele se autoproclamou presidente interino da Venezuela após Maduro assumir um novo mandato em eleição questionada por boa parte da comunidade internacional.

Na manhã desta sexta-feira (22), militares venezuelanos abriram fogo contra um grupo de civis que tentava ajudar a manter aberta a fronteira da Venezuela com o Brasil. Ao menos duas pessoas morreram e dezenas ficaram feridas – nas redes sociais e em aplicativos de mensagem circulam diversos vídeos e fotos que seriam referentes ao conflito.

Venezuelanos tentam chegar ao Brasil, apesar do bloqueio imposto pelo governo venezuelano.
Crédito: Reprodução

Os feridos foram atendidos em Roraima – ambulâncias passam normalmente, segundo o coronel Georges Feres Kanaan, coordenador da Força Tarefa do Exército em Roraima, que gere a operação de acolhida a venezuelanos em Roraima.

Com a fronteira fechada no posto entre Santa Elena e Pacaraima, venezuelanos que tentam entrar no Brasil buscam outros caminhos por meio de trilhas na área rural.

De acordo com o coronel Kanaan, todas as pessoas sob os cuidados da Operação Acolhida – tanto migrantes como brasileiros que atuam na região – estão sob proteção.

Reações

Em nota, a ONG Conectas Direitos Humanos defende uma saída para o impasse por meio de vias diplomáticas e apela às autoridades para que o “foco das atenções, neste momento de tensão, esteja voltado às pessoas que estão em situação de vulnerabilidade”.

“A manutenção do impasse pode dificultar ainda mais a já grave situação do povo venezuelano duramente afetado pela crise humanitária no país vizinho e ainda causar impactos na vida dos migrantes e refugiados venezuelanos que estão acolhidos no Brasil”.

“Nós, os cidadãos temos que ser vigilantes desse processo. Colombianos e venezuelanos temos que conviver. Agora, trata-se de subsistência. Aqui não existe guerra, a guerra é entre os poderes. Entre os cidadãos não há guerra. Com cada pessoa que falo tem algo a contar sobre como essa dificuldade entre os dois países nos afetam”, afirma Rosa, que também é vendedora de doces, em entrevista ao jornal Brasil de Fato, a partir da cidade venezuelana de San Antonio de Táchira, na fronteira com a Colômbia.

O número atual de refugiados e migrantes da Venezuela em todo o mundo é de 3,4 milhões, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM). A Colômbia abriga o maior número (mais de 1,1 milhão), seguido por Peru (506 mil), Chile (288 mil), Equador (221 mil) e Argentina (130 mil). O Brasil é o sexto da lista, com 96 mil.

“Esses números ressaltam a pressão sobre as comunidades anfitriãs e a necessidade contínua de apoio da comunidade internacional, num momento em que a atenção mundial está voltada para os acontecimentos políticos dentro da Venezuela”, disse Eduardo Stein, representante especial de ACNUR-OIM para refugiados e migrantes venezuelanos.

Ainda segundo o ACNUR e OIM, os países latino-americanos concederam cerca de 1,3 milhão de permissões de residência e outras formas de status regular aos venezuelanos. Desde 2014, mais de 390 mil pedidos de refúgio foram apresentados por venezuelanos, sendo 232 mil só em 2018.

A ONU alerta ainda que o fechamento da fronteira com o Brasil pode aumentar os riscos de violência em relação aos refugiados e imigrantes e pede que as pessoas que precisam de proteção tenham a possibilidade de solicita-la. “Muitos que deixam a Venezuela precisam de proteção”, declarou Andrej Mahecic, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. “É importante que essas pessoas possam pedir proteção”, insistiu.

Em agosto de 2018, venezuelanos que estava acampados pelas ruas de Pacaraima foram atacados e tiveram seus pertences queimados por moradores locais. O estopim da revolta teria sido um assalto e agressão a um comerciante brasileiro, supostamente cometido por venezuelanos.

Livro conta “lado B” da migração italiana e a aproxima dos fluxos atuais

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Capa do livro "Em Alto-Mar", considerado o primeiro romance sobre a emigração italiana. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Tradutora e curadora do best seller italiano “Em Alto-Mar” lembra que há mais semelhanças do que se imagina entre as migrações de hoje e do passado

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Publicado originalmente em em 19/09/17, atualizado em 20/02/19

Os relatos sobre migrantes que se arriscam em travessias marítimas (muitas vezes em condições precárias) não são novidade na história. Muitos dos europeus que migraram para a América o fizeram em barcos e sob condições bastante difíceis.

Esse “lado B” da migração italiana pode ser conhecido no livro “Em Alto-Mar”, do jornalista e escritor Edmondo de Amicis (1846-1908), que chega ao Brasil em coedição da Editora Nova Alexandria e do Istituto Italiano di Cultura de São Paulo, com o apoio do Programa de Ação Cultural (Proac), da Secretaria da Cultura do Governo de São Paulo.

A obra é baseada no relato da travessia que o autor fez do porto italiano de Gênova (Itália) ao de Montevidéu (Uruguai), em 1884. Lançado na Itália em 1889 (com o nome original de Sull’Oceano) e considerado um best seller da época, é apontado como o primeiro romance sobre a emigração italiana.

A versão em português, lançada em setembro de 2017, veio graças a um projeto de Adriana Marcolini, tradutora e curadora da obra, que buscou os recursos junto ao Proac e conseguiu o apoio da Nova Alexandria e do instituto italiano para a publicação. “Percebi que precisava preencher essa lacuna e oferecer essa obra tão importante para os leitores brasileiros”, explica.

O Brasil é considerado o maior país com raízes italianas em todo o mundo. Dados da Embaixada Italiana no país estimam em aproximadamente 30 milhões o número de descendentes vivendo em terras brasileiras. Mas além desse dado estatístico, Adriana destaca um outro ponto que torna importante a obra de De Amicis: aproximar as migrações do passado e do presente.

“‘Em Alto-Mar’ é uma obra fundamental para a história da emigração italiana. Sua leitura nos revela a semelhança entre os emigrantes de ontem e de hoje; mostra que eles queriam ser os protagonistas de sua própria história, tal como o fazem os da atualidade”, resume a tradutora.

Primeira visão de migrantes ao chegarem a Santos (SP).
Crédito: Museu da Imigração/Acervo Digital

MigraMundo: O que te levou a escolher esse livro em especial para tradução?
Adriana Marcolini: Escolhi esse livro porque é um clássico. Edmondo De Amicis, o autor de Em Alto-Mar, escreveu o primeiro romance da emigração italiana. O original Sull’Oceano foi lançado na Itália em 1889 pelo célebre editor Emilio Treves e ainda estava inédito no Brasil até 2017! Percebi que precisava preencher essa lacuna e oferecer essa obra tão importante para os leitores brasileiros.

MigraMundo: A partir do que você tem percebido (pessoalmente, junto à editora, etc), como está a recepção quanto à obra?
Adriana: Em Alto-Mar está sendo bem recebido tanto pelos leitores quanto pela crítica. Nas palestras que fiz em São Paulo, Rio e Minas Gerais sempre houve bastante interesse. No dia 22 de setembro, às 19 horas, farei uma roda de leitura na livraria Blooks do Shopping Frei Caneca, em São Paulo. Os principais jornais paulistas publicaram resenhas sobre o livro. O jornalista Luiz Zanin Oricchio, do Estadão, questionou por que uma obra tão importante para a história da emigração italiana ainda estava inédita no Brasil até hoje. Justamente o que me perguntei quando decidi fazer a tradução.

MigraMundo: Na sua opinião, qual a passagem mais marcante do livro? E por qual motivo?
Adriana: É difícil escolher a passagem mais marcante… indico algumas. A primeira é no início do livro (p.36), quando, a partir dos passaportes que estão guardados no escritório do comissário de bordo, De Amicis faz uma descrição sobre os emigrantes, trazendo à tona detalhes sobre suas origens e profissões, revelando a face humana da emigração. Na página 251, o trecho sobre os sacos do correio que transportavam as cartas entre os que partiram e os que ficaram – “porque continham o fragmento do diálogo de dois mundos” – é comovente. Para completar, destaco ainda a passagem do final (p. 271) em que uma jovem camponesa se põe a chorar quando vê a América pela primeira vez, depois de três semanas de viagem: só então ela se deu conta de que havia deixado definitivamente seu país. Vale lembrar que naquela época não havia internet e muito menos Skype. Apenas cartas. Por fim, sublinho que alguns trechos são emblemáticos, como a passagem do Equador, que marca a fronteira entre os hemisférios e simboliza o ingresso no Novo Mundo.

MigraMundo: A migração que ocorreu no século 19 e na primeira metade do século 20 costuma ser apresentada de uma forma um tanto romanceada. Ao mostrar um retrato bem mais cru dessa migração histórica, você acha que esse livro ajuda a quebrar um pouco dessa imagem?
Adriana: Espero – e acredito – que sim. De fato, nossa sociedade construiu uma narrativa romanceada em torno das migrações daquela época, quando, na verdade, os migrantes de então passaram por situações extremamente difíceis e viveram em condições muito adversas. No caso da imigração italiana, existe uma tendência clara nesse sentido. Boa parte dos italianos que vieram para o Brasil naquele período eram realmente miseráveis; muitos eram analfabetos e – por mais estranho que pareça – só foram se alfabetizar (primeiramente na língua italiana) em terras brasileiras. Não tinham noções de geografia e confundiam o Brasil com a Argentina; pensavam que a terra fosse plana e tinham pavor da travessia transoceânica.

MigraMundo: O livro, embora seja do final do século 19, tem traços que o tornam muito atual, especialmente quanto às condições de viagem dos migrantes no mar (precárias ontem e hoje). Você tinha esse fator em mente quando optou por traduzi-lo?
Adriana: Sim. A primeira leitura do original chamou minha atenção para as condições precárias da travessia. A emigração foi uma importante fonte de lucro para os armadores de Gênova, o porto de onde partiu a maioria dos que se destinavam à América do Sul. Até 1901 – quando as autoridades italianas estabeleceram regras sanitárias e de segurança para os navios dos emigrantes – os armadores se aproveitaram da carência de normas para abarrotar os navios. Houve muitos casos de naufrágios e epidemias a bordo. Um caso famoso foi o do navio Remo, em 1893. Trazia 1.500 emigrantes italianos para o Brasil e foi acometido por uma epidemia de cólera. Os passageiros sobreviventes foram impedidos de desembarcar no porto do Rio de Janeiro por uma questão de segurança sanitária. O navio foi obrigado a retornar para a Itália com boa parte dos passageiros doentes, o que resultou em mais vítimas. No total, 96 passageiros morreram.

MigraMundo: Que legado você acredita que uma obra como essa deixa para os estudos e para o debate sobre migrações?
Adriana: “Em Alto-Mar” é uma obra fundamental para a história da emigração italiana. Sua leitura nos revela a semelhança entre os emigrantes de ontem e de hoje; mostra que eles queriam ser os protagonistas de sua própria história, tal como o fazem os da atualidade. Analisando-o sob a ótica da Itália, percebemos o quanto a emigração marcou aquele país, embora durante muito tempo, praticamente até meados dos anos 1990, a sociedade italiana (incluindo a escola e os livros escolares) tenham adotado uma postura de negação desse passado sombrio.