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segunda-feira, junho 29, 2026
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Resiliência do venezuelano é tema da exposição fotográfica “La Jornada”

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Exposição "La Jornada" retrata resiliência do migrante venezuelano no Brasil. Crédito: Joanna Flora/Museu da Imigração

Trabalho do fotógrafo Chico Max fica em cartaz no Museu da Imigração, em São Paulo, até 31 de março

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

Em setembro de 2018 o fotógrafo Chico Max topou um novo desafio na carreira. Depois de retratar os imigrantes que passam pela Missão Paz e as mulheres migrantes que atuam no setor têxtil de São Paulo, ele partiu para as cidades de Boa Vista e Pacaraima, em Roraima, para registrar imagens de famílias venezuelanas que buscam retomar suas vidas no Brasil.

Assim nasceu a exposição “La Jornada – A resiliência do povo venezuelano em busca de refúgio no Brasil”, inaugurada no último dia 8 de fevereiro no Museu da Imigração, em São Paulo. Fruto de uma parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Roraima (UFRR) e o Ministério Público do Trabalho (MPT), ela fica em cartaz no Museu até 31 de março

Teaser da exposição La Jornada, que fica no Museu da Imigração até 31 de março

A crise humanitária que atinge a Venezuela desde 2015 já levou à saída de ao menos 3 milhões de pessoas para outros países, segundo as Nações Unidas. O Brasil é o sétimo principal destino (cerca de 86 mil), depois de Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Chile e Panamá.

Além das adversidades na terra natal, os venezuelanos lidam com desafios adicionais em solo brasileiro, que incluem o idioma (falam espanhol), preconceitos, dificuldades para acessar o mercado de trabalho e até a polarização política que envolve o governo venezuelano.

Nas 20 fotos que integram a exposição, Chico Max procurou trazer um olhar mais humano sobre esse que é o principal movimento migratório no país na atualidade. Os registros apresentam pessoas, profissão e sonhos, proporcionando uma reflexão sobre um fenômeno que é mais complexo e amplo na sociedade venezuelana do que se imagina em princípio – são populações indígenas, pedreiros, contadores, engenheiros e até um juiz federal que decidiram tentar a sorte no vizinho ao sul do país.

“Quando você está em campo não tem como não se emocionar com as histórias. A palavra resiliência não está à toa no título da exposição”, resume Chico.

O fotógrafo Chico Max ao lado da diretora-executiva do Museu da Imigração, Alessandra Almeida, na abertura da exposição La Jornada.
Crédito: Joanna Flora/Museu da Imigração

A abertura da mostra fez parte do Programa de Seminário do Observatório das Migrações em São Paulo, que contou também com mesa redonda e lançamentos de livros sobre a migração venezuelana.

Outros trabalhos

A nova exposição representa ainda a continuidade de um trabalho iniciado em 2014, quando retratou imigrantes que recorrem à Missão Paz, em São Paulo, em busca de acolhida e orientação. Esse projeto deu origem à mostra Somos Todos (I)Migrantes, que estreou no Museu da Imagem e do Som (MIS) em novembro de 2015 e rodou por diferentes cidades brasileiras nos meses seguintes.

“Entrei nesse mundo da migração através dessa exposição [Somos Todos I(Migrantes)]. Dali vieram todas as outras”, afirma Chico.

Mostra Somos Todos [I]Migrantes durante passagem pelo MIS, em São Paulo.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim – nov.2015/MigraMundo

O outro trabalho diretamente ligado à temática migratória desenvolvido por Chico foi a exposição Costurando Dignidade, na qual trouxe retratos de mulheres que já foram exploradas em oficinas de costura – a maioria delas, bolivianas. A mostra fez parte da programação do seminário
“Não Somos Escravos da Moda”, promovido pelo Ministério Público do Trabalho em São Paulo, em outubro passado.

Além dessas exposições, Chico foi o responsável por captar as imagens para a campanha Juntas Impactamos, que destaca a presença feminina em setores e movimentos da sociedade civil que atuam contra o trabalho escravo e na promoção de condições dignas de trabalho.

Inspirado em Cuba, médico palestino atende de graça refugiados na Cisjordânia

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O palestino Mohammed Srour, que mantém um projeto de atendimento médico gratuito a refugiados no campo de Aida, onde nasceu e cresceu. Crédito: Alberto Hugo Rojas

Formado em Medicina na ilha caribenha, profissional sentiu que deveria fazer mais pela terra onde nasceu

Por Alethea Rodrigues
Em Belém/Bethelem (Cisjordânia)

O “Project Cuba” é recente, apenas quatro meses de vida. Mas já foi o suficiente para que fossem realizados aproximadamente 300 atendimentos médicos gratuitos a refugiados palestinos que vivem no campo de Aida, em Belém, na Cisjordânia.

Mohammed Abu Srour nasceu e cresceu no campo que abriga cerca de 5.000 palestinos que foram expulsos de suas casas após a criação do Estado de Israel, em 1948. Apesar de todas as dificuldades, conseguiu uma bolsa de estudos, viajou para Cuba e realizou o sonho de estudar medicina na Universidad de Ciencias Médicas de La Habana, uma das mais conceituadas na área. Por oito anos viveu longe da família, enfrentou barreiras como o idioma e o sacrifício dos pais, que com muito suor, conseguiram cobrir os gastos com saúde e alimentação do filho durante esse tempo.

Após o término da especialização e residência em Pediatria, Mohammed voltou a viver na Palestina e hoje trabalha no hospital Cáritas Baby, que fica na mesma cidade onde nasceu. Cerca de 330 mil pessoas com menos de 14 anos vivem no sul da Cisjordânia. E é o único hospital na região que cuida exclusivamente de crianças.

Mohammed, no entanto, sentiu que precisava fazer um pouco mais pelo local onde nasceu e sofreu durante a infância e adolescência com um sistema de saúde bastante precário. Por isso, em outubro de 2018 ele concretizou a ideia do projeto que , sozinho, prestaria atendimento médico a quem necessita.

“A ideia veio especialmente pelo amor que tenho pelo sistema de saúde de Cuba, que tem como base a medicina familiar. Aprendi isso durante meus estudos e quis colocar em prática atendendo os palestinos que realmente necessitam”, contou.

Entre plantões no hospital onde trabalha profissionalmente e algumas noites sem dormir, Mohammed consegue conciliar a agenda e fazer visitas as famílias atendidas pelo projeto. O pediatra tem uma lista com os contatos de todas as famílias que vivem em Aida e os moradores o contatam pelo telefone quando necessário.

Project Cuba, criado em outubro de 2018 pelo médico palestino Mohammed Srour e inspirado em sua vivência acadêmica e profissional na ilha caribenha.
Crédito: arquivo pessoal

“Meu atendimento não se resume em visitar as famílias. Faço análises da situação integral de saúde do acampamento para futuros projetos, campanhas de saúde e meio ambiente, e no momento tenho 10 pacientes em situação crônica que necessitam de cuidados especiais”, finalizou o pediatra.

Segundo Mohammed, a infância complicada vivendo em meio ao conflito Israel-Palestina, que já dura décadas, só deu forças para que ele se esforçasse ainda mais para conseguir atingir seus objetivos.

“É preciso fazer com que as experiências negativas se tornem positivas para o nosso próprio crescimento pessoal. Passei por muitas dificuldades, mas hoje tenho a melhor recompensa que é ver o meu projeto concretizado. Não tem nada que pague ver o resultado positivo no tratamento dos meus pacientes, é um sentimento único e um dever meu como médico”.

Sem apoio financeiro do governo, o jovem médico de apenas 27 anos pensa em deixar a Palestina somente para aprimorar seus conhecimentos acadêmicos. E garantiu que continuará trabalhando voluntariamente para contribuir com o desenvolvimento de sua terra natal. “No futuro quero ver a população palestina desfrutando de uma sistema de saúde comunitário, gratuito e inclusivo”.

Projeto de Mohammed representa o que ele sonha para o sistema de saúde da Palestina no futuro. “Passei por muitas dificuldades, mas hoje tenho a melhor recompensa que é ver o meu projeto concretizado”, afirma.
Crédito: arquivo pessoal


Após apelo internacional, jogador de futebol refugiado é libertado na Tailândia

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O jogador barenita Hakeem Al-Araibi, que vive como refugiado na Austrália e foi libertado de prisão na Tailândia após mobilização internacional. Crédito: Reprodução/YouTube

Barenita retornou à Austrália, onde vive como refugiado

Por Mathias Boni
Em Porto Alegre (RS)

O barenita Hakeem Al-Araibi, jogador de futebol com status de refugiado que estava preso na Tailândia, com riscos de ser extraditado de volta ao seu país de origem, foi libertado pelo governo local e já retornou à Austrália.

Sua soltura se deu após o Bahrein, seu país natal, retirar seu pedido de extradição, após uma grande mobilização internacional em torno da libertação, que incluiu a hashtag #FreeHakeem nas redes sociais. Ao total, Al-Araibi passou 77 dias preso na Tailândia, após uma viagem para passar a lua de mel no país com sua esposa.

Al Araibi e seu irmão, que está preso no Bahrein, chegaram a participar de protestos contra o governo do país em 2011, na esteira das mobilizações da chamada Primavera Árabe. Eles creditam a esse fato a perseguição que passaram a sofrer desde então. Condenado à revelia em 2014 por ter vandalizado uma delegacia de polícia durante protesto, o jogador – que nega a acusação – resolveu sair do país e pedir proteção internacional, concedida pela Austrália.

Campanha internacional

O caso de Hakeem Al-Araibi teve essa repentina reviravolta em razão da grande mobilização internacional que gerou, inclusive com o lançamento de uma campanha internacional exigindo sua soltura.

A campanha envolveu a Fifa, federação que gerencia o futebol em nível mundial, o COI (Comitê Olímpico Internacional), e representantes de 14 países, bem como da União Europeia, sendo liderada pelo antigo capitão da seleção australiana de futebol, Craig Foster, e Allan McKinnon, embaixador australiano.

Foster chegou a sugerir que a Tailândia e o Bahrein fossem expulsos das competições esportivas internacionais por conta da detenção do jogador.

Até membros do time de futebol infantil tailandês Javalis Selvagens, que ficaram presos em uma caverna no país no ano passado, pediram publicamente a soltura do jogador.

No âmbito institucional, os esforços pela soltura do refugiado bareinita ficaram a cargo do Primeiro Ministro australiano, Scott Morrison, e da Ministra de Relações Exteriores do país, Marise Payne. A Austrália estava extremamente incomodada com a detenção de Al-Araibi, pois o jogador de futebol era um refugiado oficialmente reconhecido pelo país da Oceania, tendo inclusive recebido anuência das autoridades migratórias locais para sua viagem à Tailândia.

Por esta razão, a detenção de Al-Araibi no país do sudeste asiático, da perspectiva da Austrália, denotava um certo desprestígio da força política internacional do país, que envolveu suas maiores autoridades nacionais para resolver esta questão o mais rápido possível.

Na última quarta-feira (6), o Governo Federal tailandês havia se manifestado através de uma declaração oficial do Ministro de Relações Exteriores do país, Don Pramudwinai. O Ministro afirmara que seu país esperava que Austrália e Bahrein tivessem a boa vontade de trabalhar juntos, para encontrar uma solução satisfatória a todos os lados envolvidos na questão.

Na ocasião, ele afirmou que “a Tailândia não ganha nada mantendo o Sr. Hakeem em custódia, mas o país se encontra no meio desse caso. Como um país soberano, que tem suas obrigações e compromissos legais com a comunidade internacional, não temos outra opção a não ser cooperar de acordo com a lei e sugerir que os dois países, ambos bons amigos entre si e da Tailândia, possam conversar e achar uma solução apropriada”.

O crescimento da mobilização internacional ao longo da semana passada fez com que o Ministro das Relações Exteriores tailandês fizesse uma visita ao Príncipe do Bahrein, Salman bin Hamad Al Khalifa, no domingo passado. Oficialmente, o Ministro da Tailândia afirmou que os motivos da viagem foram “a discussão da relação bilateral entre Bahrein e Tailândia em áreas de interesse mútuo”. No dia seguinte, no entanto, o Bahrein retirou o pedido de extradição, e Hakeem Al-Araibi foi finalmente libertado pelo governo tailandês. O irmão de Hakeem Al-Araibi, porém, continua preso no Bahrein, perseguido por sua posição política contrária ao domínio da família real barenita no país.

Apesar do engajamento pela libertação de Al -Araibi, o governo australiano mantém uma politica restritiva e polêmica em relação aos refugiados. O país mantém centros de detenção de migrantes em locais como a ilha Natal (que pertence à Austrália) e em outros países da Oceania, como Manus (pertencente à Papua-Nova Guiné) e Nauru.

Centro de detenção em Nauru, utilizado para refugiados que tentaram entrar na Austrália. Crédito: N. Wright/ACNUDH

A Austrália também é um dos países que abandonaram o Pacto Global para a Migração. O governo alega que o acordo poderia encorajar a entrada ilegal de imigrantes, colocando em xeque a política australiana de combate ao tráfico de pessoas”.

Entenda o caso

Desde cedo, Hakeem Al-Araibi frequentou as seleções de base do seu país, mas a sua promissora carreira – e a sua vida – começariam a sofrer ameaças em 2012. Durante aquele ano, enquanto ainda era jogador do clube Al-Shabab, ele foi surpreendido por uma abordagem policial enquanto caminhava na rua, e acabou sendo levado preso. A acusação oficial era de que ele e seu irmão haviam vandalizado uma delegacia de polícia, fato que o jogador nega absolutamente. Ele afirma que estava jogando futebol na hora do ocorrido o qual ele estava sendo acusado, e há de fato imagens que comprovam essa sua alegação, pois o jogo em que ele estava jogando estava sendo transmitido pela televisão. Mesmo com a comprovação, Hakeem ainda ficou três meses preso, só saindo mediante o pagamento de fiança. Durante o período, ele afirma que foi torturado por diversas vezes.

Essa perseguição que Al-Araibi sofre, ele acredita, começou em 2011. No contexto da primavera árabe, o seu irmão participou de protestos que criticavam o governo do Bahrein e exigiam mais democracia no país – uma monarquia constitucional onde o primeiro-ministro e todos os membros do governo são parte da família real. Passado o período das manifestações, o governo começou a perseguir e retaliar os seus críticos. Acrescenta-se a isso o fato de que o jogador e sua família serem muçulmanos xiitas, minoria no Bahrein em relação aos muçulmanos sunitas, religião da dinastia que governa o país, a família Al-Khalifa, e também das classes dominantes.

Em 2014, enquanto estava no Qatar servindo à sua seleção nacional, Hakeem foi informado de que ele e seu irmão haviam sido condenados a dez anos de prisão em razão das acusações de vandalizar a delegacia de polícia. A condenação, à sua revelia, foi baseada em uma confissão coagida de seu irmão, obtida sob sua tortura enquanto ele já estava detido.

Então com 20 anos, Hakeem tomou a difícil decisão que todo migrante forçado tenta evitar ao máximo, mas acaba sendo obrigado a tomar: ele não tinha mais outra opção a não ser buscar proteção em outro país, para assegurar seus direitos humanos fundamentais, pois esses direitos não estavam mais garantidos em seu país de origem.

Com informações de The Guardian, BBC e Global Voices

Foca-se em imigração para evitar falar de crise política, diz candidata a eurodeputada

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Uma das sedes do Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Único veículo brasileiro presente, MigraMundo acompanhou debate em Estrasburgo sobre imigração entre estudantes, políticos e especialistas

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo, França

Uma bandeira azul com 12 estrelas amarelas estende-se do chão ao teto do saguão central da sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo. Enormes corredores vêm e vão, confundindo o passante sobre o melhor caminho a tomar.

Entre bandeiras de Estados-membros da União Europeia e nomes de pensadores renomados cravados na entrada de salões enormes – como o da pensadora francesa Simone Veil – passam ao menos três equipes de limpeza, uma em cada andar do prédio feito em forma de arena, limpando um chão de madeira clara extremamente brilhante.

Com as suas sedes em Bruxelas, na Bélgica, e em Estrasburgo, na França, o Parlamento Europeu é responsável por votar as leis elaboradas pela Comissão Europeia e é subordinado ao Conselho da Europa, órgão máximo do bloco. No próximo mês de maio, os cidadãos europeus votarão para novas deputadas e deputados do Parlamento – a França, por exemplo, elegerá 79 deles no dia 26 de maio.

”O papel da classe política é de racionalizar a realidade, de trazer paz e calma ao povo, mas não é isso o que acontece na União Europeia”, afirmou Sophie Rauszer, colaboradora parlamentar da frente Esquerda Europeia e Esquerda Verde do Norte (GUE/NGL) no Parlamento europeu. Rauszer é uma das concorrentes às eleições em maio.

Segundo ela, defensora de uma Europa baseada no protecionismo solidário, a temática migratória é usada para pressionar um cenário que já é tenso, onde público e privado, políticos e povo são colocados em lados opostos, sem opção de diálogo.

”O imigrante aparece no meio de tudo isso como mais um elemento de pressão, quando, na verdade, existe uma profunda crise política na UE onde não há espaco para reflexões sérias nem para debates profundos”, afirmou a candidata. ”Foca-se demais na imigração para que se evite falar sobre essa crise política.”

Estudantes acompanham debate no Parlamento Europeu.
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Rauszer participou da conferência ”A Europa face à imigração” no Parlamento em Estrasburgo na última sexta-feira (8). Além da candidata, também foi convidado o deputado Nicolas Bay, do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional (ex-Frente Nacional) – o mesmo de Marine Le Pen, um dos expoentes da direita conservadora na Europa.

Com presença confirmada até a divulgação da programação, Bay informou na véspera que não iria. Além de Sophie Rauszer, esteve presente um dos diretores da Médicos Sem Fronteiras (MSF), Michael Neumann.

O debate foi promovido pelo Instituto de Ciências Políticas de Estrasburgo, uma das instituições mais renomadas da França, e faz parte da 25ª Semana Europeia da instituição no Parlamento, que discute temas importantes como meio-ambiente, igualdade de gênero e questões sociais com parlamentares e especialistas.

Ao final de cada mesa redonda, mais de 200 estudantes nacionais e internacionais simulam sessões plenárias e comissões parlamentares. Entre os convidados do único veículo de imprensa brasileiro, o MigraMundo acompanhou os debates da manhã de sexta-feira.

”Vocês sabem o que é votar o orçamento anual em uma casa onde políticos fazem campanha para custear operações da FRONTEX (Agência europeia de proteção de fronteiras) de 25 mil euros por migrante?”, perguntou Rauszer. ”Relatórios e relatórios são apresentados no plenário e que não estão nem relacionados com o tema da imigração”, acrescentou ela ao auditório lotado de estudantes de mestrado, bacharelado e estudantes-visitantes de países como EUA, Irlanda e Brasil.

”É um privilégio estar aqui debatendo com a um nível que não existe ainda no Brasil”, afirmou Eduardo Rezende, brasileiro estudante de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Para a estudante irlandesa, Claire Cullen, 21 anos, falta imaginação e coragem para tratar da temática migratória. ”É importante para mim estar aqui e ouvir o que a Europa tem a dizer, mas hoje falta criatividade e coragem para pensar em soluções, ”afirmou.

Estudantes de todo o mundo que estudam na Europa acompanharam o evento no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França)

Para a norte-americana Kaitlyn Vlahaulis, 21 anos, vinda do Arizona, a UE poderia lidar diferentemente com a questão, sendo um ponto oposto do que pratica hoje seu presidente, Donald Trump. ” Eu estou animada para ouvir o que o povo francês tem a dizer.”

Segundo a candidata ao Parlamento, responder ao fluxo migratório hoje não é uma missão impossível de ser resolvida. ”A população imigrante representa 0,2% da população total na Europa“, afirmou. De acordo a Eurostat, órgão europeu de dados e estatísticas, em 2016 haviam 4.7 imigrantes para cada 1.000 habitantes nos 28 Estados-membros.

Em ressonância com Rauszer está o estudante francês Arthur Cor, 20 anos, do segundo ano de Ciências Políticas. Para ele, fala-se demais em imigração, quando na França, existem graves problemas sociais. ”Fala-se à exaustão”.

Ao lado da parlamentar, estava Michael Neumann, diretor de estudos da MSF, que fez críticas aos políticos europeus. ”Eu fui convidado para debater a questão migratória com deputados no Parlamento. Eu vim a primeira vez, eu vim a segunda…e depois não vim mais. Quando a discussão política vira teatro é melhor se retirar”, afirmou.

Para Neumann, a classe política ”trata muito mal” o debate da questão migratória. ”Ninguém é capaz de propor uma reforma séria do Tratado de Dublin, por exemplo”, afirma.

”Para quê (participar de debates com políticos)? Para ouvir que na verdade o poder real é do Conselho [Conselho da Europa, órgão máximo do bloco, como se fosse a Presidência da República do Poder Executivo brasileiro] e que os deputados mesmo não podem fazer nada?” , acrescenta. ”Quando a gente trabalha, o nosso trabalho deve ser útil, mas será que o trabalho feito hoje (com migrantes) pelos Estados é útil? Eu não acredito”, afirmou Neumann.

Há 20 anos na Médicos Sem Fronteiras, Neumann trabalhou na região dos Balcãs, no Sudão, Cáucaso e África oriental, além de coordenar programas da MSF em Nova York e Paris. Hoje ele dirige o centro de estudos e pesquisas humanitárias da organização, o chamado CRASH. Questionado pelos estudantes sobre o que espera das eleições europeias quando o assunto é acolhimento de imigrantes, ele responde de pronto: ”Eu não espero nada. Infelizmente não sairá grande coisa.”

Bandeira da União Europeia aparece com destaque nas dependências do Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França).
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Acolhimento de migrantes e fronteiras

A grande questão para Neumann no acolhimento de migrantes ”não é fazer de todo o migrante uma vítima”, mas de vê-lo como um ser humano autônomo, com grande forca de vontade e com capacidade de tomar decisões apesar do medo.

”Uma pessoa que pega um avião até a Turquia, depois pega um barco da Turquia para a Itália essa pessoa é animada por projetos de vida. Ela tem uma grande força interior, ela é capaz de pensar por si mesma, de tomar decisões’, afirmou.

”Muitas vezes colocamos o migrante como vítima passiva de contrabandistas, mas o migrante é um ser humano que toma decisões dificílimas e as toma apesar do medo”, completa Neumann.

Outro ponto debatido foi a fronteira. Para a candidata ao Parlamento, as fronteiras são pensadas hoje como área policial, com o que ela chamou de “Fenômeno FRONTEX”.

”Nós temos a tendência de emprestar dinheiro do fundo às operações FRONTEX que nos custam milhões de euros, transformamos a Europa em uma Europa fortaleza, em detrimento do migrante”. Ela defende a existência de fronteiras que promovam um protecionismo solidário e baseado nos direitos humanos.

Para o membro da MSF, enquanto as fronteiras não forem questionadas pelos próprios migrantes, ”que é quem sofre as consequências”, elas não serão repensadas. Neumann chegou a propor um Parlamento de migrantes, onde se debateria, com políticos europeus, questões concernentes à migração.

Tal proposição irritou um dos alunos presentes. ”Os senhores falam de ajuda a migrantes, até de criar um Parlamento de migrantes, mas e o interesse do povo europeu onde é que fica? A senhora, madame Rauszer, deveria representar o povo europeu não deveria – e não o migrante?” questionou um dos estudantes de Ciências Políticas.

”Primeiro que o senhor fala em ”interesse do povo europeu” como se existisse um interesse geral. Como se o interesse do francês fosse o mesmo que do italiano. Não há um interesse comum (…) Eu acredito que o papel do político não é colocar lenha na fogueira, trazer divisão, mas sim de racionalizar, de trazer paz e calma ao povo e, no meio de todo esse processo, claro que está o interesse do povo francês”, respondeu a candidata.

Também em resposta ao estudante, Neumann, da MSF, afirmou que o interesse europeu já está bem presente no debate, o ausente é o interesse do migrante. ”Quem está ausente do debate é o migrante, porque o europeu é chamado a se pronunciar, a votar.”

E acrescentou: ”No meu ponto de vista, é sempre complicado essa ideia de tratar o nosso país como se fosse a nossa casa, nós não somos proprietários do nosso país, nós fazemos parte de uma comunidade, de um pacto enquanto nação. A relação entre o cidadão e o país deve acontecer fora dessa ideia de casa.”

Com grafites, artista pede paz na Palestina e lida com trauma de infância

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Com desenhos de crianças em muro, artista europeu pede paz na Palestina. Crédito: arquivo pessoal

Cada desenho é um tipo de protesto contra a guerra e contra os muros – materiais e imateriais que separam pessoas e afastam acordos de paz

Por Alethea Rodrigues
Em Bethelem/Belém (Cisjordânia)
Atualizado às 16h55 em 19.fev.2019

Ele não quer aparecer e prefere ser chamado de Cakes*, mas aceitou contar sua história de vida e dos seus mais de cem grafites estampados em um dos muros mais polêmicos do mundo. O europeu de 33 anos também prefere não revelar o país que nasceu, para evitar qualquer risco. Afinal, grafitar no muro de 750 km de extensão construído por Israel supostamente para impedir o acesso dos palestinos à cidade de Jerusalém é algo que exige cautela.

O grafiteiro esteve pela primeira vez na Palestina em 2017. “Eu ouvi falar sobre o muro e que existia a possibilidade de desenhar nele. Visitei o local, analisei o ambiente tentando entender o que realmente acontecia ali e decidi criar algo que não fosse tão bonito, mas muito significativo”, contou o artista.

Ao retratar sombras de crianças no muro, artista pede paz e lida com o próprio passado. Crédito: arquivo pessoal

Os desenhos de Cakes são fáceis de serem identificados: são na maioria das vezes pequenos, sempre crianças e na cor preta, com o intuito de representar sombras. Cada um deles simboliza um tipo de protesto contra a guerra e a construção de muros – materiais e imateriais – que separam as pessoas e deixam a paz na Palestina cada vez mais distante.

Milhares de turistas que passam pela região podem enxergar com facilidade que cada grafite representa, mas o artista explica que o significado deles vai um pouco mais além do que se vê.

Com grafites de crianças, artista europeu pede paz em muro que separa Palestina de Israel. Crédito: arquivo pessoal

Para exorcizar o passado

“Minha vida não era fácil. Encontrei na Palestina uma forma de ajudar quem precisa de paz e aprender a lidar com esse trauma. Quando você é criança e seu passado social é difícil como das que vivem em campos de refugiados palestinos, isso cria diferentes micro mundos, um mundo como era o meu, onde a violência ocorre todos os dias. Eu me sinto bem aqui”, diz Cakes, que prefere não entrar em detalhes sobre sua infância. Os desenhos ajudam a lidar com os fantasmas do passdo.

O artista fez seu primeiro trabalho de rua em 2011. Na Palestina, grafita em partes do muro na região da Cisjordânia pelo menos uma vez a cada seis meses. Apesar da construção ser vigiada e controlada por câmeras israelenses 24 horas por dia, Cakes não se intimida e afirmou que nunca foi preso ou questionado por soldados israelitas.

Com grafites no muro que separa a Palestina de Israel, artista encontrou um jeito de protestar em nome da paz. Crédito: arquivo pessoal

“Não me considero uma pessoa que esteja fazendo algo errado, por isso nem sequer cubro meu rosto enquanto grafito. Não tenho nada contra ninguém e sempre acreditei, que independente da guerra, a maioria dos palestinos e israelenses querem e precisam de paz’, explicou.

Na Europa, ele tem outra profissão, a qual preferiu não revelar, mas também vende suas obras nas redes sociais para arrecadas fundos e viajar para a Palestina. “Enquanto for bem recebido aqui continuarei trazendo novas ideias”.

Arames farpados e resíduos bélicos se transformam em brinquedos nas mãos das crianças desenhadas pelo artista. Crédito: arquivo pessoal

A respeito dos planos para o futuro, o europeu revelou que já decidiu qual será o seu próximo destino. “Ouvi falar sobre o muro que está sendo construído pelo presidente dos Estados Unidos [barreira pretendida pelo republicano Donald Trump na fronteira com o México] e me interessei. Definitivamente quero conhecer esse lugar, inclusive já preparei o primeiro desenho que pretendo grafitar lá. Enquanto conseguir, continuarei enviando mensagens de paz através da minha arte, e se possível, em vários lugares do mundo”, concluiu.

Artista encontrou no grafite no muro que separa Israel da Cisjordânia uma forma de protesto contra a guerra. Crédito: arquivo pessoal

Aplicativo OKA pretende ser “bússola de políticas públicas” para migrantes

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Telas do app OKA, que reúne informações sobre serviços de interesse para comunidades migrantes. Crédito: Divulgação/Instituto Igarapé

Disponível para Android e iOS, a ferramenta reúne informações sobre serviços de interesse da população migrante e requisitos para acessá-los; Rio de  Janeiro e Boa Vista são as primeiras cidades contempladas

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 02h52 em 12/04/19

Migrantes que vivem no Rio de Janeiro e em Boa Vista contam com uma nova ferramenta de informação e serviços, com o lançamento do OKA, aplicativo para celular que pretende ser “uma bússola de políticas públicas” para essa parcela da sociedade.

Desenvolvido pelo Instituto Igarapé, ele reúne informações em quatro idiomas – português, inglês, espanhol e francês – sobre direitos e serviços públicos federais relacionados a moradia, educação, saúde, documentação, assistência social e assistência jurídica. O app está disponível para smartphones Android e iOS.

Além de apresentar os serviços existentes em território brasileiro, o aplicativo contém explicação dos requisitos necessários para acessá-los, inclusive no que diz à documentação. Os serviços também podem ser acessados sem que o celular esteja conectado à internet, o que é apontado como um dos diferenciais do aplicativo.

Um primeiro evento de lançamento ocorreu no dia 6 de fevereiro na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Uma nova atividade está marcada para a tarde desta sexta-feira (12) em Boa Vista, a outra cidade plenamente atendida pelo aplicativo. Estima-se que cerca de 40 mil venezuelanos residam hoje na capital roraimense.

O evento em Boa Vista será realizado em parceria com a Universidade Federal de Roraima (UFRR), no auditório da universidade e irá contar com a participação de migrantes, pesquisadores e organizações internacionais como Organização Internacional para as Migrações (OIM) e Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

O nome do aplicativo é uma referência à palavra “oca”, que no tupi-guarani significa “lar/acolhimento”, e também uma variação da expressão “ok”, usada em países de língua espanhola.

“Vimos a necessidade de pensarmos mecanismos para facilitar a integração e um melhor acolhimento dessa população nas nossas cidades.  E tentar facilitar o acesso à informação, inclusive sobre seus direitos e políticas voltadas para uma melhor qualidade de vida”, afirma Lycia Brasil, pesquisadora da divisão de Paz e Segurança Internacional do Instituto Igarapé e que está à frente do projeto de migrações da entidade – leia a seguir a entrevista completa concedida ao MigraMundo.

Lycia explica ainda que o OKA é uma segunda fase do Observatório de Migrações Forçadas, projeto do Igarapé que usa dados e geolocalização para chamar atenção para a temática do deslocamento forçado no Brasil. Segundo a plataforma, em 18 anos o país já registrou 7,7 milhões de migrantes forçados por questões como desastres naturais, projetos de desenvolvimento, violência e refugiados – uma conta que deve subir ainda mais com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho (MG), no final de janeiro.

Além do OKA para Rio de Janeiro e Boa Vista, em São Paulo existe aplicativo Além das Fronteiras, desenvolvido com recursos da segunda edição do VAI TEC, programa da Prefeitura de São Paulo.

Uma próxima versão do OKA deve englobar locais como São Paulo, Foz do Iguaçu e Porto Alegre.

Jardim e fachada da Casa de Rui Barbosa, onde funciona clínica jurídica voltada para imigrantes e refugiados. Local também vai receber o evento de lançamento do app OKA, do Instituto Igarapé.
Crédito: Laisa Gomes/Casa de Rui Barbosa

Por que o nome OKA? De onde veio a ideia?

O nome OKA é uma variação da expressão “ok”, bastante utilizada em países de língua espanhola. Além disso, o nome remete à palavra oca, que no tupi-guarani significa “lar/acolhimento”. O OKA é uma ferramenta positiva, pensada de forma a facilitar a integração de migrantes e refugiados no Brasil. A ideia surgiu a partir da nossa pesquisa qualitativa, e sobretudo conversas com deslocados internos.

Rio de Janeiro e Boa Vista são as cidades cobertas pelo app. Há possibilidade de expansão para outras, como São Paulo?

Na primeira fase do aplicativo, mapeamos grande parte dos programas, serviços e instituições do governo federal, ou seja, iniciativas nacionais que são relevantes para migrantes. Como o Igarapé tem sua sede no Rio de Janeiro, também começamos a disponibilizar dados sobre atendimentos mais locais (ONGs, agências internacionais e programas municipais), assim como endereços e telefones para contato. Fazemos o mesmo para Boa Vista, que concentra um grande número de venezuelanos. Na próxima etapa, esperamos estender o mapeamento de serviços locais a outras cidades brasileiras que recebem grandes fluxos de migrantes como São Paulo, Porto Alegre e Foz do Iguaçu. Para tal, estamos colhendo impressões, demandas e experiências de deslocados, refugiados e outros migrantes para que o Igarapé possa ampliar e aprimorar o aplicativo em colaboração com as comunidades relevantes.

Qual (ou quais) os maiores desafios encontrados pelo Igarapé no desenvolvimento dessa ferramenta?

Um dos maiores desafios para o desenvolvimento do aplicativo foi a elaboração da base de dados. O Igarapé aprendeu que a atualização constante das informações do projeto é necessária devido às rápidas mudanças nos decretos legais sobre migração e refúgio, muitos dos quais são específicos para algumas nacionalidades. Há também alterações rápidas nos documentos necessários para acesso a programas sociais e benefícios que exigem acompanhamento. Tudo isso demanda não apenas a atualização de informações gerais, mas também a manutenção do banco de dados e do aplicativo. No que diz respeito à parte técnica do app, hoje recebemos planilhas de acesso a dados e tempos sempre que importá-las para a nossa base. Se o governo disponibilizasse APIs de comunicação, isso facilitaria o crescimento orgânico não só do OKA mas como de outras pesquisas que precisam utilizar dados quantitativos.

Outra dificuldade tem a ver com a existência de grandes lacunas nos dados disponíveis ao público, muitos dos quais o Igarapé foi capaz de preencher através da Lei de Acesso à Informação (LAI). Com as mudanças previstas no novo decreto da LAI, isso pode ser mais complexo pois foram ampliados o número de documentos considerados sigilosos.

Uma terceira lição aprendida tem a ver com a necessidade de integrar as informações no aplicativo às informações do mecanismo de pesquisa, por exemplo, os endereços de organizações relevantes e agências governamentais. Optamos por usar os aplicativos de busca de endereço já instalados no celular do usuário para fornecer tais informações.

A continuidade da ferramenta representa outro desafio, sobretudo dadas as mudanças recentes no cenário político brasileiro e as possíveis reduções na disponibilidade de dados.  Por ora, estamos explorando três possibilidades: parcerias institucionais e automatização. Provavelmente a melhor solução será uma combinação dessas estratégias.

Além de migrantes (incluindo os que estão em situação de refúgio), o app também é destinado às vítimas de deslocamentos forçados internos. Há alguma ligação com o Observatório de Migrações Forçadas, já lançado pelo Igarapé?

O aplicativo é uma segunda fase do Observatório de Migrações Forçadas. Com os elevados números de deslocados internos que trouxemos à tona (7,7 milhões de brasileiros foram forçados a deixar seus lares desde 2000), somados aos de refugiados e às crescentes solicitações de refúgio, vimos a necessidade de pensarmos mecanismos para facilitar a integração e um melhor acolhimento dessa população nas nossas cidades.  E tentar facilitar o acesso à informação, inclusive sobre seus direitos e políticas voltadas para uma melhor qualidade de vida.

O governo de Jair Bolsonaro anunciou a saída do Brasil do Pacto Global para a Migração. Ao mesmo tempo, renovou por mais um ano a operação de acolhida para venezuelanos no país. Nesse contexto como o Igarapé vê sua atuação em relação à temática migratória?

A abordagem do instituto enfatiza a pesquisa, o debate informado e o desenvolvimento de soluções em diálogo com outras instituições e as comunidades. Vamos continuar a produzir conhecimento, associando componentes tecnológicos e a conexão aos espaços de influência para que possamos ter resultados factíveis. No que diz respeito aos regimes internacionais, acreditamos que a cooperação internacional é essencial para a troca de ideias e para a elaboração de soluções eficazes.

Uma vez lançado o app, qual a estratégia para disseminar seu uso junto aos migrantes e às instituições que lidam com a temática migratória?

É preciso ressaltar que o app é uma ferramenta orgânica, que vai se expandir de acordo com as demandas específicas do seu público alvo.  Já algum tempo o Igarapé vem explorando novas parcerias com instituições que trabalham com a temática migratória, sobretudo no Rio de Janeiro, São Paulo e Boa Vista. Além disso, estamos em contato também com instituições que lidam com os deslocados internos no Brasil, sobretudo devido a desastres e aos projetos de desenvolvimento. Também estamos expandindo o diálogo com as lideranças de migrantes, para que eles possam dar voz às demandas específicas de cada comunidade.

Naufrágio de vidas e sonhos

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Caravana de migrantes centro-americanos chega à cidade de Matías Romero, em Oaxaca, no México. Crédito: Rafael Rodríguez - 1.nov.2018/OIM

Não é exagero afirmar que nos tempos atuais, cotidianamente, tropeçamos com os “mil rostos do outro”

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Em São Paulo

Como ponto de partida, tomemos duas notícias recentes. A primeira vem do continente americano: “Cinco países —Estados Unidos, Honduras, El Salvador, Guatemala e México— estão em alerta com a formação de uma nova caravana de migrantes em Honduras. Sob o lema: “Em Honduras estão nos matando”, a nova convocação que circula nas redes sociais propõe sair na madrugada de terça-feira da catedral de San Pedro Sula, no norte do país. Caso isso não aconteça, será promovida outra marcha de migrantes que sairia cinco dias depois, em 20 de janeiro, de Santa Bárbara, localidade vizinha da cidade hondurenha” (Cfr. Jacobo García El país online, 14/01/2019).

A segunda chega-nos do velho continente europeu: “Na sexta-feira, dia 18 de janeiro de 2019, uma embarcação naufraga a uma distância de 45 milhas das costas de Trípoli, capital da Líbia. De acordo com os únicos três sobreviventes, a embarcação saiu em direção à Europa com 120 ocupantes. Isso significa que 177, incluindo mulheres e crianças, morreram ou estão desaparecidos. Os imigrantes provinham da Nigéria, Gâmbia e Costa do Marfim (Cfr. Correiere dela sera online, 18/01/2019).

Se os países ocidentais tivessem mais acesso às informações do continente asiático, ou se lhes dessem maior importância, certamente teríamos algo parecido, por exemplo, da ilha de Batam, norte da Indonésia. A ilha costuma ser uma espécie de “fronteira de contenção” aos fluxos de imigrantes que, desde as Filipinas, a Malásia e a Indonésia, tentam melhor sorte na Tailândia e sobretudo ao eldorado de Singapura. Por isso, a região é conhecida por seus campos de migrantes, prófugos e refugiados. Não poucos, uma vez retidos na ilha, acabam sendo requisitados periodicamente para o corte de cana na Malásia, ou outras serviços temporários.

Em outras palavras, com as restrições progressivas à migração legal e regular, com as políticas migratórias cada vez mais rígidas e com a elaboração de leis anti-imigração – cresce cada vez mais a pressão dos migrantes “irregulares” sobre as áreas fronteiriças. Com isso, o fenômeno da mobilidade humana em termos globalizados não apenas se torna mais dramático, mas também ganha maior visibilidade. Basta acompanhar diariamente as páginas dos principais jornais, os noticiários televisivos e as redes sociais na galáxia da Internet. Não é exagero afirmar que nos tempos atuais, cotidianamente, tropeçamos com os “mil rostos do outro”.

Esse encontro com o outro/diferente, em sua enorme complexidade e diversificação, tende a ser ambíguo, conflituoso e intrigante. Por vezes, ele nos aparece como um problema, um risco ou uma ameaça, o que leva ao medo e ao isolamento. No limite, fechamos o coração, a porta e a fronteira, dando vazão ao nacionalismo populista. Os políticos de todo o mundo manipulam e instrumentalizam esse clima de pânico para subir os degraus do poder. Outras vezes, prevalece a atitude de abertura e de acolhida, no diálogo e na da defesa dos direitos do migrantes: direito de ir-e-vir, por um lado, o qual deve corresponder, por outro lado, ao direito de ficar e viver com dignidade na própria pátria.

Em ambos os casos, porém, não é difícil encontrar contradições. Enquanto o “não” ao recém-chegado tende a negar a possibilidade de oportunidades iguais para todos os seres humanos, o “sim” pode tirar o migrante de um tipo de pobreza ou violência, somente para jogá-lo num trabalho de semiescravidão, patrocinado pelas empresas e aglomerados transnacionais, quando não expô-lo ao recrutamento do tráfico internacional e da exploração sexual. Convém não esquecer que, na correlação de forças capital versus trabalho, quanto maior o número de trabalhadores disputando as migalhas pelos escassos empregos, mais baixos os salários e mais altos os lucros. Se é verdade que o migrante faz os serviços mais duros, sujos e perigosos, normalmente recusados por todos, também é certo que tal recusa tem a ver com o nível salarial e as condições gerais de vida criadas justamente pelo afluxo crescente de estrangeiros. Gera-se um círculo vicioso. O que fazer então? Em termos de análise, emerge a necessidade de substituir os “chavões” – tanto de direita quanto de esquerda – para ater-se rigorosamente aos fatos e suas implicações reais.


“Não tem como trazer nosso filho de volta, mas temos que continuar lutando”, diz palestino em Aida

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Shadi Obeidallah, pai de Aboud Sadhi, palestino morto em frente ao escritório da UNRWA em Aida. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Pai de Aboud Sadhi lida com a perda do filho, retratado em muro do campo de refugiados próximo à cidade de Belém

Por Alethea Rodrigues
Em Aida (Cisjordânia)

Shadi Obeidallah é um dos palestinos que nasceu, cresceu e vive no campo de refugiados de Aida, em Belém (Cisjordânia). Hoje com 43 anos, continua no campo, agora com esposa e quatro filhos, exatamente no mesmo lugar, só que já não mais em uma tenda, em situação tão desumana. O palestino trabalhou por 30 anos em uma empresa de mármore que exportava o material para o Brasil. Com o dinheiro desses anos trabalhados, pouco a pouco conseguiu construiu própria sua casa, com a ajuda do pai. Eles mesmo fizeram todo o serviço que durou cerca de cinco anos.

Foi no campo onde Obeidallah viveu toda sua historia até hoje, com conquistas, tristezas e desafios diversos, que ele viu seu filho de apenas 13 anos perder a vida. Em 2 de outubro de 2015, o pequeno Aboud Shadi, estava voltando da escola, e a caminho do parquinho, onde passava a tarde se divertindo com amigos, parou na frente do escritório da UNRWA, que fica bem na entrada do campo, para conversar com os colegas. No local estava acontecendo um pequeno protesto de moradores, algo comum na região, quando um sniper [atirador de elite] do exército israelense disparou, a menos de 200 metros de distância, um único tiro no menino, que o acertou no coração.

“A partir daí tudo mudou, nossa família nunca mais foi a mesma. Meu filho era tudo pra nós, um menino alegre, sem maldade no coração, estudioso e cheio de sonhos”, contou o pai, emocionado.

Obeidallah afirmou que, segundo testemunhas, seu filho não estava atirando pedras nos soldados israelenses ou teve qualquer atitude que justificasse o disparo. Aboud morreu sem saber o motivo e se tornou, para os moradores do campo, símbolo da luta pela paz, desejada ha décadas. Em um cartaz, na entrada do Aida Camp, na frente do escritório da UNRWA onde aconteceu o crime está um cartaz com a fotografia de Aboud e a seguinte mensagem: “Meu nome é Aboud Sadhi, um refugiado palestino de treze anos. Estava aqui mesmo, parado com meus amigos, quando um sniper israelita me matou com um tiro. Minha alma vai ficar aqui, perseguir o assassino, e motivar meus colegas de turma. Me questiono se a comunidade internacional trará justiça para as crianças palestinas”.

Foto de Aboud Sadhi no portal de entrada do campo de Aida.
Crédito: Alethea Rodrigues

Na época do crime, Israel afirmou que o tiro não foi intencional e que o alvo era um adulto que organizava frequentes protestos e estava próximo da criança no momento do disparo. Até o momento não ouve nenhum tipo de punição para o atirador. “Nessa guerra, punição para esse tipo de crime comum aqui praticamente não existe. Não temos a quem recorrer. Infelizmente tivemos que aceitar e conviver com essa dor que será eterna. O pior é que, se você observar o cartaz com a foto do meu filho está cheio de marcas de tiros, isso significa que foi intencional e não houve qualquer tipo de arrependimento”, concluiu o pai.

Por décadas o campo de refugiados palestinos de Aida foi um dos principais alvos das tropas israelenses – principalmente por estar próximo ao muro de 750 quilômetros de extensão construído por Israel para restringir a entrada de palestinos em Jerusalém. Um outro forte motivo seria porque Belém, segundo a Bíblia, é exatamente o local onde Jesus Cristo nasceu – e os israelenses também consideram a cidade como sagrada.

Há quase um ano, Israel deu uma trégua e o campo dificilmente está sendo alvo de conflitos. Apesar disso, a família do pequeno Aboud ainda convive com o medo e todos estão traumatizados. “Temos o sonho de voltar para onde nossas famílias nasceram, mas se isso não for possível viveremos aqui, porque é nesse lugar que temos as memórias do nosso filho. Fico preocupado todos os dias quando meus filhos saem para ir a escola, mas não temos outra opção”.

Coincidentemente, Obeidallah trabalha há três anos no escritório da UNRWA, exatamente. Ele faz serviços gerais e com esse dinheiro sustenta toda a família. “Não tem como trazer o nosso filho de volta, mas temos que continuar lutando e tentando viver a vida da melhor maneira possível. Só espero que meus outros filhos terminem os estudos e tenham um futuro brilhante, e principalmente em paz. E se for possível voltar para nossa terra, voltaremos”, finalizou.

Escritório da UNRWA em Aida, local onde Aboud Sadhi foi morto e que tem hoje um retrato seu.
Crédito: Alethea Rodrigues

Descanse em paz, professor José Renato

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O professor José Renato de Campos Araújo. Crédito: Divulgação

Pesquisador interdisciplinar, José Renato tornou-se referência na área de estudos interdisciplinares sobre migração, cultura, esporte, políticas públicas e territorialidades

Do NIEM*
No Rio de Janeiro

Faleceu no último dia 31 de janeiro, no Rio, devido a um infarto fulminante, o professor José Renato de Campos Araújo. José Renato, como era mais conhecido, foi, praticamente, um dos fundadores da USP/Leste, importante Campus da USP cuja proposta central é a ampla difusão da produção e do acesso ao conhecimento, sobretudo para dele quem está mais alijado.

O professor José Renato trabalhou como professor e coordenador do curso de Gestão de Políticas Públicas na EACH, além de atuar em diversos Conselhos e comissões administrativas da universidade. Pesquisador interdisciplinar, José Renato tornou-se referência na área de estudos interdisciplinares sobre migração, cultura, esporte, políticas públicas, territorialidades articulando as grandes áreas das ciências humanas como antropologia, sociologia, política, metodologia científica etc. Publicou artigos e livros como “Imigração e futebol: o caso do Palestra Itália”. Ed. FAPESP/Sumaré, 2000, que foi um trabalho pioneiro no desvendamento das atividades desportivas e militantes dos imigrantes italianos na cidade de São Paulo.

Ao lado da professora Maria Catarina C. Zanini (UFSM), José Renato coordenou, por anos, o Grupo de Trabalho de Migrações Internacionais da ANPOCS. Escreveu recentemente o artigo “Migrações internacionais e o federalismo brasileiro: os venezuelanos no Brasil” publicado no livro “Migrações Venezuelanas” coordenado pelos professores Rosana Baeninger e João Carlos Jarochinski (2018).

Em setembro de 2019, participou do 7º Diálogos do CEM, juntamente com a professora Valéria Magalhães, com o tema ‘Migrações e Cultura’. Trabalhou ativamente na EACH/USP, em parceria com a profa. Valéria, no tema das migrações, promovendo palestras, atuando em grupo de pesquisa e formando pós-graduandos e graduandos, além de ter produzido publicações na área.

Em alguns dos seus últimos trabalhos acadêmicos, José Renato, a Profa. Maria do Rosário Rolfsen Sales e a Profa. Rosana Baninger compartilharam a Mesa Redonda “Revisitando Abdelmalek Sayad, um escrivão público” durante o Seminário “20 anos depois: a contemporaneidade do pensamento de Abdelmalek Sayad”, realizado pela PUC-SP, Unimontes, CEM/Missão Paz (2-4/10/18). Nos últimos meses, trabalhava na elaboração de um artigo sobre o clássico livro “A imigração ou os paradoxos da alteridade” de Abdelmalek Sayad (1998) como um desdobramento da sua participação no referido seminário.

A direção da EACH/USP lamentou profundamente pelo falecimento do professor e decretou luto oficial de três dias. O velório ocorreu no sábado (02), no Cemitério da Vila Mariana, em São Paulo, e o sepultamento foi no Cemitério São Paulo.

Dado aos sabores da amizade, a generosidade e aberto ao debate, José Renato Campus de Araujo cultivava uma sensibilidade especial pela dignidade humana das pessoas. O amigo Zé Renato partiu, mas nos deixa um legado vital e primoroso como pessoa e pesquisador.

(Escrito a pedido do NIEM por José Carlos Pereira, com colaboração de Rosana Baeninger, Gustavo Dias, Valéria Barbosa de Magalhães e Helion Póvoa Neto)

Jogador de futebol refugiado corre risco de ser devolvido ao país de origem

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O jogador barenita Hakeem Al-Araibi, detido no aeroporto de Bangkok, Tailândia. Crédito: Change.org

Atleta nascido no Bahrein e que vive na Austrália como refugiado foi detido na Tailândia, a pedido do governo barenita; entenda a história

Por Mathias Boni
Em Porto Alegre

Desde o último mês de novembro, um jogador de futebol, nascido no Bahrein e com status de refugiado reconhecido pela Austrália, vem sendo mantido preso em Bangkok, capital da Tailândia.

Hakeem Al-Araibi, de 25 anos, estava em viagem de lua de mel com a esposa, e foi surpreendido pela detenção por parte das autoridades tailandesas. O jogador vive no país da Oceania desde 2014 – ano em que, enquanto estava em viagem internacional com a seleção do Bahrein, decidiu não voltar ao seu país de origem, por estar sofrendo perseguição política e religiosa na sua terra natal. No país do Golfo Pérsico, à sua revelia, ele acabara de ser condenado a dez anos de prisão, acusado de terrorismo.

Desde cedo, Hakeem Al-Araibi frequentou as seleções de base do seu país, mas a sua promissora carreira – e a sua vida – começariam a sofrer ameaças em 2012. Durante aquele ano, enquanto ainda era jogador do clube Al-Shabab, ele foi surpreendido por uma abordagem policial enquanto caminhava na rua, e acabou sendo levado preso. A acusação oficial era de que ele e seu irmão haviam vandalizado uma delegacia de polícia, fato que o jogador nega absolutamente. Ele afirma que estava jogando futebol na hora do ocorrido o qual ele estava sendo acusado, e há de fato imagens que comprovam essa sua alegação, pois o jogo em que ele estava jogando estava sendo transmitido pela televisão. Mesmo com a comprovação, Hakeem ainda ficou três meses preso, só saindo mediante o pagamento de fiança. Durante o período, ele afirma que foi torturado por diversas vezes.

Essa perseguição que Al-Araibi sofre, ele acredita, começou em 2011. No contexto da primavera árabe, o seu irmão participou de protestos que criticavam o governo do Bahrein e exigiam mais democracia no país – uma monarquia constitucional onde o primeiro-ministro e todos os membros do governo são parte da família real. Passado o período das manifestações, o governo começou a perseguir e retaliar os seus críticos. Acrescenta-se a isso o fato de que o jogador e sua família serem muçulmanos xiitas, minoria no Bahrein em relação aos muçulmanos sunitas, religião da dinastia que governa o país, a família Al-Khalifa, e também das classes dominantes.

Em 2014, enquanto estava no Qatar servindo à sua seleção nacional, Hakeem foi informado de que ele e seu irmão haviam sido condenados a dez anos de prisão em razão das acusações de vandalizar a delegacia de polícia. A condenação, à sua revelia, foi baseada em uma confissão coagida de seu irmão, obtida sob sua tortura enquanto ele já estava detido. Então com 20 anos, Hakeem tomou a difícil decisão que todo migrante forçado tenta evitar ao máximo, mas acaba sendo obrigado a tomar: ele não tinha mais outra opção a não ser buscar proteção em outro país, para assegurar seus direitos humanos fundamentais, pois esses direitos não estavam mais garantidos em seu país de origem.

A jornada como refugiado

Após essa decisão, o jogador nunca mais voltou para o Bahrein. Do Qatar, ele iniciou uma viagem que passou por Irã, Malásia e Tailândia, até finalmente chegar na Austrália – onde, depois de seis meses de trânsito, ele finalmente pediu refúgio.

A Austrália é um país notadamente conhecido na comunidade internacional pela severidade das suas políticas de migração e refugiados, muitas vezes violando o próprio princípio do non-refoulement – o direito de não ser devolvido ao país de origem, principal norma internacional de proteção dos refugiados.

Mesmo com este histórico, o país da Oceania reconheceu oficialmente o status de refugiado do barenita ainda em 2014. Alguns meses depois, sua esposa se juntou a ele na Austrália, e lá eles permaneceram por mais de quatro anos, até decidirem fazer a viagem à Tailândia em novembro passado.

Antes de realizar a viagem, Hakeem Al-Araibi disse ter consultado as autoridades migratórias australianas, que lhe certificaram total segurança. Porém, para sua surpresa, assim que pousou no aeroporto de Bangkok, a polícia local já estava a sua espera. Isso se deu porque a Interpol emitiu, poucos dias antes, um alerta vermelho pedindo a prisão do jogador, solicitado pelo Bahrein.

O alerta foi erroneamente emitido pela organização internacional, pois pelas próprias regras internas da Interpol, é proibida a emissão de ordens de prisão a indivíduos oficialmente reconhecidos como refugiados. Apesar da Interpol ter cancelado a solicitação em 4 de dezembro, o cancelamento ocorreu tarde, pois Hakeem já estava sob custódia das autoridades da Tailândia.

O país do sudeste asiático não é signatário da Convenção de Genebra de 1951, principal documento mundial garantidor dos direitos dos refugiados, nem de outros relevantes tratados internacionais de Direitos Humanos. O país tem ainda um largo histórico de políticas autoritárias de migração e violadora dos direitos humanos em geral.

O governo tailandês, inicialmente, decidiu ampliar a detenção de Hakeem por 90 dias, até que tomasse uma decisão final em relação ao seu caso. O governo australiano, juntamente com a comunidade internacional e ativistas dos Direitos Humanos, está exigindo a liberação do refugiado para que ele possa voltar ao país, tendo inclusive já realizado uma reunião entre autoridades dos dois países para tratar do assunto.

O governo do Bahrein, porém, já solicitou o regresso do refugiado ao seu país de origem, afirmando que garante sua segurança, mesmo com o histórico de torturas que o próprio jogador já sofreu por lá, e com o seu irmão já cumprindo sua sentença de 10 anos de prisão.

“Eu não vou sobreviver se voltar ao Bahrein, eles vão tirar a minha vida”, disse Hakeem em recente entrevista. Até o fim da primeira quinzena do próximo fevereiro, o governo tailandês deve anunciar a sua decisão – encaminhar o refugiado de volta ao seu país de origem, violando assim o princípio do non-refoulement; ou encaminhá-lo de volta à Austrália, agindo assim em consonância com os principais tratados internacionais de Direito dos Refugiados e Direitos Humanos.

Com informações de The Guardian, Foreign Policy e SBS