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Saída do Brasil do Pacto Global para Migração pode afetar brasileiros no exterior

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Local da conferência em Marrakech (Marrocos), onde foi firmado o Pacto Global para a Migração.
Local da conferência em Marrakech (Marrocos), onde foi firmado o Pacto Global para a Migração, em 2018. Crédito: ONU

País deixa o acordo costurado pela ONU menos de um mês após assiná-lo, no Marrocos

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 09/01/19, às 16h55

Menos de um mês após ter firmado o Pacto Global para a Migração, o Brasil comunicou a ONU (Organização das Nações Unidas) que está oficialmente se retirando do acordo.

A informação foi antecipada na última terça (8) pela BBC Brasil e pelo jornal O Estado de S. Paulo, a partir de um telegrama enviado pelo Itamaraty a diplomatas brasileiros, comunicando a ONU da decisão.

O documento diz, ainda, que o Brasil não deverá “participar de qualquer atividade relacionada ao Pacto ou à sua implementação”.

O Pacto, costurado ao longo de quase dois anos pelas Nações Unidas,
reúne 23 recomendações (veja ao final do texto) a serem seguidas pela comunidade internacional para uma migração “ordenada, regular e segura”. Ele não possui caráter vinculante – ou seja, quem o assinou não está necessariamente obrigado a segui-lo.

Pelas estimativas da ONU, há mais de 258 milhões de imigrantes no mundo, e esse número deve continuar crescendo nos próximos anos. Desde 2000, segundo as Nações Unidas, pelo menos 60 mil deles morreram na tentativa de entrar em outro país. Reduzir essa cifra trágica é um dos objetivos do acordo, firmado por 164 países no Marrocos no último dia 10 e ratificado por 152 na Assembleia Geral da ONU, na semana seguinte.

No entanto, ao mexer com a temática migratória – um dos vespeiros da política internacional atual – o Pacto despertou a ira de governantes alinhados com a direita e extrema-direita mundo afora, sob o pretexto de violação de soberania. Entre eles está o governo de Jair Bolsonaro, que tomou posse no último dia 1º de janeiro e que vinha criticando o acordo desde sua assinatura, no Marrocos, em dezembro.

De acordo com o atual chanceler, Ernesto Araújo, o Brasil buscará um “marco regulatório compatível com a realidade nacional”, pois “tem de haver critérios para garantir a segurança tanto dos migrantes quanto dos cidadãos no país de destino”.

A medida anunciada junto à ONU mostra o Brasil caminhando de forma concreta ao alinhamento com governos de outras nações contrárias ao Pacto e com políticas migratórias cada vez mais restritivas – como Estados Unidos, Hungria, Israel, Itália e Chile.

O ex-chanceler Aloysio Nunes, que participou da assinatura do Pacto pelo Brasil no Marrocos, rebate os argumentos de que o acordo seria um promotor da migração em massa.

“O Pacto tampouco autoriza migração indiscriminada. Basta olhar seu título. Busca apenas servir de referência para o ordenamento dos fluxos migratórios, sem a menor interferência com a definição soberana por cada país de sua política migratória”.

A decisão brasileira de deixar o acordo já tinha sido lamentada pela ONU, que também teme pela posição brasileira em outros fóruns dos quais participa na entidade, como o Conselho de Direitos Humanos.

“É sempre lamentável quando um Estado se dissocia de um processo multilateral, em especial um (país) tão respeitável de especificidades nacionais”, declarou Joel Millman, porta-voz da Organização Internacional de Migrações (OIM).

Tiro pela culatra?

Embora atenda ao novo alinhamento diplomático buscado pelo governo Bolsonaro, a saída do Brasil do Pacto Global para a Migração pode ter efeito nocivo sobre a diáspora brasileira no exterior.

Dados do próprio Ministério das Relações Exteriores, de 2016, indicam que cerca de 3 milhões de brasileiros estejam morando em outros países. Outras fontes, como o Desa (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Secretaria das Nações Unidas), apontam essa cifra na casa de 1,6 milhão.

Independente das divergências quanto aos dados, os brasileiros estão entre as 10 nacionalidades mais impedidas de entrar em países europeus. No 1º semestre de 2018, 2.225 tiveram entrada negada, segundo a Frontex, a agência de fronteiras da União Europeia. Ao mesmo tempo, dados da Polícia Federal indicam que, em 2018, 252 mil brasileiros saíram do país enquanto outras 94 mil pessoas escolheram o Brasil para morar.

“O dado da Polícia Federal reforça a importância do Brasil não se dissociar do Pacto Global para Migrações, que pode garantir maior proteção aos brasileiros no exterior. Ainda assim, o chanceler brasileiro anunciou que o Brasil se dissociará do Pacto, que reforçaria cooperação com países de destino”, comenta a pesquisadora Maiara Folly, mestranda em Migrações Forçadas e Refúgio pela Universidade de Oxford.

“Não há absolutamente nada que justifique a saída do Brasil do Pacto Global para Migrações. Para cada migrante internacional no Brasil, há dois brasileiros no exterior. Não é difícil deduzir quem serão os maiores prejudicados com a decisão do Ministro”, completou a pesquisadora.

“Três milhões de brasileiros são emigrantes pelo mundo, essas pessoas correm o risco de não ter os seus direitos respeitados com a saída do Pacto”, reforçou a Missão Paz, entidade referência em acolhimento e orientação a imigrantes em São Paulo, por meio de nota.

No entanto, uma fala de Araújo durante seu discurso de posse como chanceler – disponível no site do Itamaraty – indica que a preocupação com os brasileiros no exterior não está entre as prioridades do governo. Minimizando a xenofobia – um dos pontos combatidos pelo Pacto – Araújo crê que problema do mundo não é a aversão ao outro, mas o “ódio ao próprio lar”.

“O problema do mundo não é a xenofobia, mas a oikofobia – de oikos, oikía, o lar. Oikofobia é odiar o próprio lar, o próprio povo, repudiar o próprio passado”, disse. “Além da oikofobia, o ódio contra o próprio lar, deveria preocupar-nos, também, cada vez mais, a teofobia, o ódio contra Deus”.

Nesta quarta (9), Bolsonaro usou sua conta no Twitter para se pronunciar sobre o caso. Ele afirmou que “a soberania nacional” é uma das prioridades de seu governo e que “as regras que definiremos por conta própria” tornarão o Brasil mais seguro para brasileiros e imigrantes que nele residem. Nenhuma palavra, no entanto, em relação à diáspora brasileira.

Em postagem anterior, também disponível no Twitter, o ex-deputado sugeriu que os imigrantes que vivem no Brasil deveriam aprender a cantar o hino nacional brasileiro.

Veja abaixo os 23 objetivos do Pacto das Nações Unidas para a Migração:

1.Coletar e utilizar informações credíveis como base para políticas migratórias

2. Minimizar os motores adversos e os fatores estruturais que levam pessoas a deixar os seus países de origem.

3. Providenciar informação precisa e a tempo em todos as fases de migração.

4. Assegurar que todos os migrantes possuem provas legais de identificacao assim como documentação adequada.

5. Garantir viabilidade e flexibilidade de rotas para uma migração regulamentada.

6. Facilitar recrutamento ético e justo assim como condições seguras que garantam um trabalho decente.

7. Responder e reduzir as vulnerabilidade do migrar

8. Salvar vidas e estabelecer ações internacionais coordenadas no tocante a migrantes desaparecidos.

9. Fortalecer as respostas transnacionais aos traficantes de migrantes

10. Prevenir, combater e erradicar o tráfico de pessoas no contexto internacional da migração.

11. Administrar fronteiras de maneira integrada, segura e coordenada.

12. Fortalecer a fiabilidade e a previsibilidade dos procedimentos migratório para uma leitura e um acesso adequado

13. Aprisionar migrantes apenas como último recurso, sempre visando alternativas.

14. Garantir proteção consular, assistência e cooperação durante todo o ciclo migratório.

15. Providenciar acesso aos serviços básicos para todos os migrantes

16. Empoderar migrantes e sociedade para realizar uma total inclusão e coesão sociais.

17. Eliminar todas as formas de discriminação e promover debates públicos com base em evidências para redesenhar as percepções sobre migração.

18. Investir no desenvolvimento de habilidades e facilitar o mútuo reconhecimento de tais habilidades, qualificações e competências.

19. Criar condições para migrantes e diásporas para contribuir, plenamente, para o desenvolvimento sustentável de seus países.

20. Promover mais rápido e de maneira mais rápida e segura a transferência de valores financeiros por parte de migrantes

21. Cooperar facilitando um retorno digno e seguro, assim como uma readmissão tanto quando uma reintegração sustentáveis.

22. Estabelecer mecanismos para segurança social e benefícios

23. Fortalecer a cooperação international e parcerias globais para uma migração segura, ordeira e regulamentada.

Desinformação e realidades distorcidas são desafios para as migrações no Brasil

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Migrantes no pátio da Igreja Nossa Senhora da Paz, no centro de São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - jan.2019)

Sociedade civil e academia têm diante de si a tarefa de ajudar a combater o círculo vicioso que gera mais desinformação e preconceito contra migrantes

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

Além da chegada à Presidência de Jair Bolsonaro, com sua postura hostil às migrações, duas pesquisas divulgadas no mês de dezembro acrescentam novo desafio à temática migratória no Brasil a partir deste ano junto à sociedade.

Uma delas é o resultado de uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, no último dia 28 de dezembro, que apontou que 2 em cada três brasileiros (67%, mais exatamente) defendem um maior controle de entrada de migrantes no país.

Poucos dias antes, uma outra pesquisa, intitulada “Perigos da Percepção”, realizada anualmente pelo Instituto Ipsos, apontou que a população brasileira superestima em 75 vezes o número de migrantes vivendo no país.

A percepção colhida pela Ipsos é de que os brasileiros acreditam que os migrantes correspondam a 30% da população nacional. Dados da Polícia Federal, no entanto, apontam que eles são apenas 0,4% dos habitantes – a maioria, concentrada em grandes cidades como São Paulo e no Centro-Sul do Brasil.

Essa discrepância entre percepção da realidade e fatos é aprimorada por uma série de estereótipos e teorias conspiratórias que colocam o migrante na posição de inimigo, de problema a ser combatido. Em consequência, viram motor para mais discriminação e xenofobia contra essa população.

Sem surpresas

Os números das duas pesquisas não foram uma surpresa para Paulo Illes, coordenador do CDHIC (Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante), uma das instituições que atuam junto a migrantes em São Paulo.

“Pelo contrário, são dados que confirmam aquilo que a gente vinha prevendo, se preocupando e tentando trabalhar de alguma forma junto aos migrantes e à sociedade de acolhida. Há no mundo uma ascensão da extrema-direita, o ódio e a repulsa ao imigrante vem crescendo em nível internacional”.

“Se a percepção não corresponde à realidade também as reações ficam desproporcionadas”, acrescenta o padre Paolo Parise, um dos diretores da Missão Paz, instituição que também atua na acolhida e orientação a migrantes na capital paulista.

Essa percepção exagerada vem junto a um contexto de crise política, econômica e social, e acaba usada como justificativa para atitudes discriminatórias contra migrantes.

“Além disso, nos momentos de crise e de surgimento de políticos com soluções populistas sempre os imigrantes se tornam o bode expiatório e de consequência se tenta frear a entrada”, completa Parise, que também dirige o CEM (Centro de Estudos Migratórios).

Caminhos a seguir

Tanto Illes como Parise concordam que dialogar e levar informação de qualidade nesse contexto vai ser um dos maiores desafios para a sociedade civil ligada às migrações e para os próprios migrantes no Brasil.

“Um dos recados [que as pesquisas dão] é que temos que nos esforçar mais para divulgar informações corretas, dialogando com todo tipo de público. Infelizmente às vezes acabamos falando para “convertidos”, como se costuma dizer”, pondera Parise.

Illes, que foi coordenador de políticas para imigrantes da Prefeitura de São Paulo, vê a conscientização sobre a fenômeno migratório como uma política pública a ser adotada -por exemplo, por meio de campanhas.

“Costumo dizer que nos últimos anos tivemos avanços no ponto de vista da regularização migratória, para políticas de acolhida. E agora precisamos dar esse passo para o combate à xenofobia, para valorizar a cultura do imigrante. Precisamos ainda quebrar com muitos estigmas”.

Como 2019 começa em relação às migrações no Brasil?

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(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Cenário é sombrio e permeado por incertezas e posturas do governo Bolsonaro alinhadas com países de direita e extrema-direita, que rechaçam fluxos migratórios

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo (SP)

A fala do então presidente eleito Jair Bolsonaro em 18 de dezembro – em pleno Dia Internacional do Imigrante – durante transmissão ao vivo em sua página no Facebook, dá o tom de como o governo que assumiu a partir de 1º de janeiro de 2019 vai tratar a temática migratória.

“Infelizmente o Brasil assinou o Pacto de Migração (sic) da ONU. Nós não queremos isso para o Brasil, não somos contra imigrantes, mas tem que ter critério [para receber]”.

A postura já havia sido antecipada dias antes pelo agora novo chanceler do Brasil, Ernesto Araújo, de retirar o país do Pacto Global para a Migração – assinado em 17 de dezembro na Assembleia Geral da ONU por outros 151 países.

Ao assumir o cargo oficialmente, nesta quarta-feira (2), Araújo foi além, em discurso repleto de citações bíblicas e críticas ao que chama de “globalismo”. “O problema do mundo não é a xenofobia, é a “oicofobia” – medo de estar em casa. Também falou que existe “teofobia” – pessoas que odeiam Deus”.

Embora tenha citado a temática migratória poucas vezes ao longo da campanha, Bolsonaro vem deixando claro que deve colocar em prática sua agenda de governo – interna e externa – de extrema-direita, alinhada com a de governantes de países como Estados Unidos, Itália, Israel e Hungria – aos quais o ex-deputado federal por quase três décadas busca aproximação.

Além da retórica hostil à entrada de migrantes, o governo Bolsonaro também guarda incertezas sobre como vão funcionar os mecanismos da esfera federal que lidam com migrantes.

Com o final do Ministério do Trabalho, por exemplo, o CNIg (Conselho Nacional de Imigração) – que era ligado à pasta e estava com uma atuação voltada à migração laboral – foi realocado na pasta da Justiça, chefiada por Sergio Moro.

Uma das poucas certezas no ministério é sobre a Secretaria Nacional de Justiça – que tem atribuições ligadas a migrantes e refugiados, além do enfrentamento ao tráfico de pessoas – , que será chefiada pela subprocuradora-geral da República Maria Hilda Marsiaj.

Lei de Migração na mira?

O agora presidente da República é também crítico notório da Lei de Migração, que entrou em vigor em novembro de 2017, após quatro anos de trâmite no Congresso Nacional – e de uma mobilização que remonta ao começo da década de 1990.

Enquanto a legislação anterior, conhecida como Estatuto do Estrangeiro, via o migrante como uma potencial ameaça à soberania nacional, a Lei de Migração passa a ver o migrante que você no Brasil como um sujeito de direitos e deveres – essência mantida apesar dos vetos presidenciais sofridos no ato de sanção e em seu decreto de regulamentação.

Críticos da Lei de Migração como Bolsonaro argumentam que ela deu direitos demais aos migrantes e que comprometeu a soberania nacional. No entanto, a nova lei tem como uma de suas bases o Artigo 5º da Constituição Federal. E possui uma série de artigos destinados a regular questões como expulsão e deportação de migrantes.

Apesar dessa posição mais dura em relação às migrações, o então candidato pouco falou do tema na campanha eleitoral. Os episódios mais conhecidos foram durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, e quando questionado a respeito dos atos de violência contra venezuelanos em Roraima, em agosto passado.

Após eleito, no entanto, Bolsonaro mostrou que a migração deve ser um de seus alvos – ainda que o tema não tenha aparecido em seu discurso de posse.

“Nós somos [o Brasil] formados por imigrantes. Agora tem um detalhe. Nós já somos uma nação. Não podemos aqui escancarar”, acrescentou o novo presidente – que marca uma guinada à extrema-direita do Brasil no espectro político – na transmissão do dia 18/12.

Em relação ao principal tema migratório no país atualmente, a questão venezuelana, o militar da reserva defende a abertura de campos de refugiados em Roraima como forma de lidar com a presença no Estado. Também defende pressão diplomática para o fim do regime de Nicolás Maduro na Venezuela para que seus cidadãos possam retornar à terra natal.

Contexto interno e externo

O aperto de Bolsonaro contra as migrações se encaixa em dois movimentos mais amplos, em nível nacional e internacional. No âmbito brasileiro o novo presidente determinou, via medida provisória, o monitoramento de ONGs e organizações internacionais que atuam no Brasil – que atuam com temas como povos indígenas, questões climáticas e ambientais, desigualdade social, direitos humanos, migrações, entre outras.

No cenário externo, como já foi dito, Bolsonaro busca alinhamento com países cujos governos são comandados por partidos de direita ou extrema-direita – como Itália, Israel, Hungria e Chile.

Choro Inocente de Menino – poema de Moisés António

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Residente em Curitiba (PR), o poeta angolano Moisés Tiago António, ou simplesmente Moisés António, tem na condição de migrante uma de suas inspirações literárias.

Uma das mais recentes obras é o poema “Choro Inocente de Menino”, dedicado às crianças que ficam órfãs e desacompanhadas devido a conflitos armados no mundo todo – e muitas vezes se tornam migrantes forçadas.

No MigraMundo estão disponíveis outros dois de seus poemas: Sou Imigrante e Carta do Refugiado às Nações.

Moisés mantém ainda uma página no Facebook chamada Moisés E A Poesia, onde estes e outros poemas podem ser encontrados.

Choro Inocente de Menino

Um grito forte lançado
é um choro,
Que depois se transformou num sorriso!

Um sorriso
que o malefício roubou,
que a ganância sequestrou,
que a arrogância dos governantes egocêntricos tirou;

tirou a graça,
a paternidade. maternidade,
Reduzindo os corpos de seus pais…
às cinzas e ao nada
Fazendo o menino chorar desconsolado!

(Repito os versos de Maria de Lourdes Brandão/ Poetisa angolana)

Não existem carnes de canhão!
Eram corpos, vidas que davam e recebiam prazeres
hoje jogados nas valas transformados em carnes de canhão
ao nada, cheirando a morte!

Era choro antevendo tristeza,
após nascença!
Era sorriso agradecendo a Deus pela vida…

Que o ódio sarcástico roubou,
Que a ganância mefistofélica tirou de um menino,
Exatamente aquele que ainda não viveu…
Levando a vida de seus ente-queridos ao nada!

Choro inconsolável
Mas que pela graça,
tem ainda um Deus…
Que lhe concedeu esperança para um dia mais sorrir!

A intolerância incoerente e os “experts” sobre migrações

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Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista. Crédito: ONU

Infelizmente, os que mais reclamam da imigração são aqueles que mais se beneficiaram dela

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

Muito se fala da falta de bom senso e interpretação em redes sociais. Fala-se no analfabetismo funcional que assola o país, o que ajuda a promover a intolerância crescente na Internet – e fora dela. Vemos que vontade de criticar, opinar e interpretar de forma conveniente existe, com respostas cada vez mais pré-fabricadas. Mas falta, e como falta, a autocrítica. No eterno debate sobre migração, o que mais vemos são os auto-intitulados experts, pessoas que passam julgamento e opiniões sem que jamais tenham sido imigrantes, ou ironicamente, cujas famílias têm um histórico de migração.

Tive o desprazer de ver essa ironia do destino em discussões acaloradas no meu blog. Ao compartilhar a notícia de que venezuelanos foram expulsos de Roraima por uma multidão que cantava o hino nacional, me surpreendi com comentários que testam o limite da racionalidade. Por exemplo, um rapaz que dava razão à expulsão dos venezuelanos, contava que todo imigrante tem que contribuir com o país que o recebe. Que os venezuelanos não contribuíam com nada e não pagavam impostos. Nessa discussão, perguntei se ele já havia sido imigrante – ou pior, refugiado. É claro que não.

No longo prazo, é claro que imigrantes devem contribuir com o país. Mas ao chegar, principalmente devido ao desespero de fugir da fome e da ditadura, como eles vão contribuir? Como eles vão pagar impostos? Digo por experiência própria, é raro que um imigrante chegue num país e contribua assim que pise em solo estrangeiro. Existem muitas dificuldades para tal: o aprendizado de uma nova língua, burocracia, a falta de permissão para trabalhar (o que acontece muito com refugiados na Alemanha), etc. Não é à toa que integração é um projeto de longo prazo; não há como um imigrante – ainda mais um refugiado – contribuir e pagar impostos imediatamente.

A mesma discussão levantou a voz de uma moça com sobrenome alemão. Escandalizada com o comportamento “vândalo” dos venezuelanos, ela especulou que os recém-chegados são ingratos, que não agradecem nada. Que eles devem é ficar na Venezuela e batalhar por um país melhor, ao invés de baterem na porta do vizinho. Ela conta de bom grado que seus avós eram imigrantes alemães e que eram pessoas que não faziam baderna. Mas ficar na Alemanha para levantar o país no pós-guerra não pareceu atraente o suficiente para os seus antepassados. Seus avós tiveram uma chance de recomeçar suas vidas, mas os venezuelanos devem ser negados toda e qualquer oportunidade?

O mais recente exemplo foi uma discussão sobre a queda do muro de Berlim. Uma moça colocou que judeus ainda sofrem muito preconceito na Alemanha, o que não deixa de ser verdade. Entretanto, as vítimas hoje são de maioria muçulmana e negra, que carregam o peso do racismo e do preconceito atualmente. Depois que a moça praticamente ter me acusado de negar o holocausto, ela solta a pérola “o que a Alemanha vê é a crescente onda de crimes praticado por muçulmanos no país, não vejo judeus praticando crimes, logo, é natural a população não se compactuar com criminosos. É fato e lógico.” Portanto, minha interpretação dessa frase é que todos os muçulmanos são criminosos. Mas o detalhe: a moça em questão mora em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos.

Esses exemplos mostram que, ao criticarem acontecimentos da questão migratória, muitas pessoas se esquecem da sua própria situação. Imigrantes que reclamam de imigrantes. Pessoas cujas famílias emigraram reclamam de imigrantes que provavelmente estão na mesma situação que seus antepassados. Pessoas que nunca tiveram a experiência de serem imigrantes dando uma de experts numa questão extremamente complexa.

Imigração é um tema que divide opiniões e, por ser tão controverso, é objeto de politicagens. Imigrantes e refugiados são alvos fáceis para tomar a culpa sobre diversos temas: a fragmentação de identidade nacional (temas batidos insistentemente na Alemanha, França, etc.), a falta de empregos, terrorismo, onda de criminalidade, dentre outros. Culpar imigrantes é fácil; o difícil é lembrar que a grande maioria de nós vem de uma histórico de imigração. Quantos de nós vão morar no exterior devido à situação catastrófica do Brasil e nos tornamos aqueles que um dia criticamos? Quantos de nós tem antepassados que um dia fugiram de uma guerra ou da pobreza?

Já dizia o psiquiatra suíço Carl Jung que “as pessoas vão fazer qualquer coisa, não importa o quão absurdo, para evitar olharem para suas próprias almas.”

Além do comportamento inerentemente humano de faltar autocrítica, estamos num país onde a analfabetismo funcional amplifica-se, as notícias falsas multiplicam-se e as respostas pré-fabricadas viraram moda há muito tempo. Infelizmente, a intolerância incoerente tende a crescer cada vez mais. Resta esperar que 2019 traga mais lucidez para discussões que envolvem imigração – e tantos outros.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. Seu primeiro livro, Ventos Nômades, é uma coleção de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e do exótico, os desafios e maravilhas de relacionamentos multi culturais e imigração. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no FacebookInstagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.    

Acolhida e rechaço: hábitos que caminham lado a lado na história da humanidade

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A cidade de Reggio Calabria (Itália), às margens do mar Mediterrâneo. (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

No dia 22 de dezembro de 2018, o navio espanhol Proactiva Open Arms para o resgate no mar Mediterrâneo, em três operações seguidas e coordenadas, recolheu mais de 300 imigrantes nas costas da Líbia. Embora provenientes deste país, são originários de vários regiões africanas. As autoridades de Malta, por motivos ditos humanitários, aceitaram receber somente um recém-nascido juntamente com sua mãe. O Ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, imediatamente declarou fechados todos os portos da Península Itálica. O governo da Espanha, por sua vez, não teve outra alternativa senão emitir ordens para que a embarcação pudesse atracar em seu território, para onde se dirigiram os migrantes.

Convém não esquecer que falta pouco para as comemorações do Natal. Salta à vista, portanto, a comparação com as narrativas de infância de Jesus. Também neste caso, José e Maria tiveram que ausentar-se da própria terra . E enquanto estavam foram de casa, “completaram-se os dias de Maria e ela deu à luz um filho primogênito, envolveu-o em panos e o depositou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles no lugar” (Lc 2, 6-7). Mas não terminaram aí as aventuras da família de Nazaré. Mais tarde, sob a ameaça do rei Herodes, os três – o recém-nascido e seus pais – foram forçados a refugiarem-se no Egito por um período, para depois retornarem à casa de Nazaré (Mt 2, 13-23).

O rechaço dos que chegam de fora e de longe, porque estrangeiros e estranhos, caminha lado a lado com um dos hábitos mais antigos da história humana, a hospitalidade. Se é verdade que nas obras de Homero e nos livros do Antigo Testamento, por exemplo, o hóspede recebe sempre um lugar de honra, alimento e abrigo, também é certo que, em outros relatos antigos, ao estrangeiro esperam-no a hostilidade, a desconfiança, o desprezo e até mesmo a morte. Duas formas opostas de comportar-se diante do outro, do diferente: ou a acolhida solidária a alguém que pode ser um enviado de Deus, com disfarces de forasteiro, como é o caso de Abraão no episódio do carvalho de Mambré (Gn 18. 1-15); ou então a recusa pura e simples de abrir a porta ao desconhecido, que pode representar um risco para a família ou a comunidade.

Ambas as atitudes valem tanto para ontem quanto para os dias de hoje. No nascimento de Jesus, os pastores (Lc 2, 8-20) e os reis magos (Mt 2, 1-12) não somente o acolhem como bem vindo, mas de uma maneira toda particular vão ao seu encontro, os primeiros com a boca e o coração em em canto, os segundos com as mãos repletas de presentes. A chegado do outro, que também aqui pode ser um enviado do totalmente Outro, traz luz, alegria e festa. Abres horizontes e alternativas à história. Toda a vida se ilumina e se enriquece com o encontro, o diálogo e o intercâmbio. Herodes, porém, além de ver no recém-nascido uma ameaça à sua soberania, move todas as forças para eliminá-lo.

Atitudes que se repetem com a chegada de cada pessoa ou grupo de imigrantes. Donald Trump insiste em erguer o muro entre México e Estados Unidos, numa recusa a quem vem do outro lado; a velha Europa se fecha sempre mais sobre si mesma, cada país restringindo ao máximo qualquer porção de resgatados do Mediterrâneo; o mesmo ocorre nos limites entre dois ou mais países de todo o mundo, tanto nos países centrais ou desenvolvidos quanto nos países periféricos ou subdesenvolvidos. Resulta que, enquanto o capital, as mercadorias, as inovações tecnológicas, os empresários, os turistas e os técnicos de alto rango se deslocam sem fronteiras por todo o mundo, a mesma economia globalizada bloqueia as fronteiras para os trabalhadores e trabalhadoras. Ou melhor, cada tipo de política migratória desenvolve um sistema de peneira seletiva para filtrar os imigrantes qualificados, ao passo que os inqualificados jamais serão bem vindos. Uma espécie de rede para pegar os peixes “bons” e jogar fora os “maus”.

Nada a ver com a atmosfera do Natal. Mas, vale lembrar, acolhida e rechaço andam de mãos dadas. Medo e esperança jamais se dissociam. Uns temem perder o lugar, deixar-se confrontar ou contaminar por tudo que é novo. Outros sabem que a presença de pessoas, povos, nações, culturas e valores distintos tende a enriquecer o contato. Observam a necessidade de um rejuvenescimento contínuo e profundo na trajetória pessoal e familiar, nacional ou humana. Sem esse oxigênio novo e sem esse sangue jovem, pressentem o aproximar-se do ocaso ou do outono. Daí o entusiasmo e a esperança diante do outro/Outro que vem ao encontro.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Berna, Suíça, 23 de dezembro de 2018






Ainda com Brasil, Pacto Global para Migração é ratificado pela ONU

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Painel na ONU mostra como cada país votou em relação ao Pacto Global para a Migração. Crédito: Manuel Elias/ONU

Acordo obteve o apoio de 152 países, mas ainda pode sofrer baixas – inclusive do próprio Brasil

Por Rodrigo Veronezi
São Paulo

Um depois do Dia Internacional do Imigrante (18/12), a Assembleia Geral da ONU ratificou na quarta-feira (19), em Nova York, o Pacto Global para Migração, assinado na semana anterior em Marrakech (Marrocos).

O texto recebeu a adesão de 152 países-membros da organização, incluindo o Brasil. Apesar de representar a maioria dos filiados à ONU, o número é menor que os 164 que haviam se comprometido com o acordo no Marrocos.

Quando as discussões sobre o Pacto terminaram, em julho deste ano, apenas os Estados Unidos se retiraram. Em agosto, a Hungria tomou o mesmo caminho.

Na votação na Assembleia Geral, cinco países oficialmente ficaram fora do Pacto: EUA, Hungria, República Tcheca, Polônia e Israel. Outros 12 países que cogitavam votar contra o tratado ou mostraram críticas pesadas contra ele optaram pela abstenção – Argélia, Austrália, Áustria, Bulgária, Chile, Itália, Letônia, Líbia, Liechtenstein, Romênia, Singapura e Suíça. Outros 24 países não votaram – incluindo Paraguai e República Dominicana.

Nas abstenções e votos reais contra o pacto estão países governados por partidos e coalizações de direita ou extrema direita, que têm no rechaço a migração como uma de suas principais bandeiras.

Embora tenha ratificado o Pacto, o Brasil tem grandes chances de se juntar em breve ao clube de países que o abandonaram. É o que promete o presidente eleito, Jair Bolsonaro, que assume o cargo em 1° de janeiro. Ele já se referiu aos refugiados como “a escória do mundo” e buscado alinhamento político com governos críticos ao Pacto – como Itália, Hungria, Chile, EUA e Israel.

O que é o Pacto?

Pacto Global para Migrações (The Global Compact for Safe, Ordely and Regular Migration) se apoia no princípio de “pessoas em primeiro lugar”. Sob essa ótica, as migrações devem ser encaradas pelos Estados-membros como uma questão de direitos humanos.

“O objetivo do acordo é o de preservar os direitos humanos de todos os migrantes”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres – que já chefiou o ACNUR, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados.

Pelas estimativas da ONU, há mais de 258 milhões de imigrantes no mundo, e esse número deve continuar crescendo nos próximos anos. Desde 2000, pelo menos 60 mil deles morreram na tentativa de entrar em outro país. Reduzir essa cifra trágica é um dos objetivos do acordo.

O pacto lança diretrizes para serem adotadas pelos países que se comprometeram em segui-las, ou seja, os países que irão assiná-lo. No entanto, as Nações Unidas deixam bem claro no texto de que são apenas diretrizes e que o pacto respeita dez importantes princípios – dentre elas o da soberania nacional de cada Estado-membro, deixando a cada um deles a decisão de como colocá-las em prática.

18 de dezembro, 18 propostas solidárias para o Dia do Imigrante

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Cartaz na Marcha dos Imigrantes de 2016 pede dignidade para os migrantes no mundo todo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Por Flávio Carvalho

Desde o natal do ano 2007, atualizo e envio 18 propostas para o dia 18 de dezembro, Dia Internacional do Migrante. Quem sabe não concordas em pelo menos uma das dezoito propostas… Oxalá estejas de acordo, sim, com todas elas!

1. No dia 18 de dezembro, terça-feira, Dia Internacional do Migrante, sinta-se mais brasileiro do que nunca. É crescente entre nós, brasileiros migrantes, a sensação de que nos sentimos hoje mais brasileiros do que quando morávamos no Brasil. Não é nada contraditório sentir-se mais brasileiro exatamente nesse dia.

2. Visite a página web do Portal Consular relativa aos Brasileiros no Mundo. Conheça uma das mais importantes iniciativas mundiais de organização autônoma das comunidades brasileiras no mundo, principalmente nossas associações.

3. Conheça o Documento de Barcelona, fruto do “3º Encontro da Rede de Brasileiras e Brasileiros na Europa” (documento reafirmado em Londres, em 2011), e ajude a divulgá-lo. De boa parte do seu conteúdo estão saindo as propostas e reivindicações que foram transformadas em políticas públicas para os brasileiros no mundo, por parte do Governo do Brasil. Uma realidade que vai sendo construída a cada dia. O queres? Mande-me um e-mail para cbrasilcatalunya@gmail.com

4. Aproveite e visite também a página web http://brasileirosnomundo.itamaraty.gov.br/. Conheça e se reconheça nesse canal de interlocução institucional dos Brasileiros no Mundo.

5. Conheça as associações e as mídias comunitárias. Pelas redes sociais ajude a sensibilizar a opinião pública sobre a nossa condição de cidadania enquanto brasileiros vivendo fora do nosso país e querendo participar cada vez mais do processo de democratização do nosso Brasil (uma democracia, em minha opinião, em constante ameaça e agora mais que nunca). Simplesmente, se puder, reenvie este texto e já estará fazendo muito.

6. No primeiro dia útil após o dia 18 deste mês, vá até a página web do seu Consulado e informe-se ao máximo sobre as atualidades do organismo do Governo Brasileiro mais próximo de você. Aliás, você já olhou a data de vencimento do seu passaporte?! Mantenha-o bem cuidado e sempre em vigor. 

7. Leia ou comece a ler um livro sobre o tema da migração, ou especialmente da migração brasileira (se não conhece, peça dicas e sugestões). Se não, você também pode começar a escrever a sua própria história. Por exemplo, já leu, do Henfil, “Diário de um cucaracha”, sobre migração de um brasileiro aos Estados Unidos; ou do João Ubaldo Ribeiro, “Um brasileiro em Berlim”? Consulte em www.alivraria.de, um empreendimento brasileiro que disponibiliza produtos também via Internet.

8. Faça o mesmo com algum vídeo ou filme sobre migrações ou migração brasileira (já assistiu o filme sobre o brasileiro Jean Charles, morto na Inglaterra pela polícia que deveria ter lhe protegido?). E, se puder, convide amigos pra assistir com você.

9. Esteja onde estiver, às 18 horas em ponto do dia 18 de dezembro (hora considerada muito significativa por diversas religiões mundiais), seja laico – respeito pela privacidade individual e espiritual de cada um – ou admirador do diálogo inter-religioso, agnóstico ou ateu, crente ou não, isso é o que menos importa: ore, reze, faça uma prece, cante um mantra, um cântico, um ponto, um toque, um hino, um rito xamânico, ou mesmo uma boa música popular! Mentalize e deixe fluir alguma energia positiva, pense firme na felicidade de algum amigo ou amiga, concentre-se na saúde de algum parente, ou se você não acreditar em nenhuma das alternativas anteriores, exerça um minuto de respeito pelos que creem (e os que creem, também pode exercer o dever de respeitar os que não creem). Equilíbrio, Respeito e Confiança na Humanidade! Viva a liberdade de expressão.

10. Como será perto do Natal, doe aquilo que já não mais necessita ou ajude aquele que mais necessita (procure serviços de donativos mais próximos de onde mora). Exercite o que a tradição milenar oriental do Feng Shui (e do Budismo) chama de “exercício de desprendimento”: liberar-se de materialismos e concentrar-se no que é essencial no nosso cotidiano.

11. Se você é um dos que ainda podem, contribua com qualquer campanha de recolhimento de donativos para as mais famílias mais afetadas pela crise econômica. Na página da www.abong.org.br, por exemplo, encontrará muitas informações e formas de ajudar.

12. Elimine definitivamente do seu vocabulário a expressão “ilegal”, quando se referir às pessoas em situação de irregularidade em relação à política migratória de determinado país. Segundo grandes organizações de defesa dos Direitos Humanos em nível internacional, ninguém é ilegal até que se prove o contrário – de acordo com o conceito jusnaturalista de presunção de inocência: ninguém pode ser acusado por antecedência de um crime que não cometeu; e o ônus da prova (o custo e o dever de provar) cabe a quem acusa e não a quem pode estar sendo injustamente acusado. Além disso, no máximo, aquele ser humano comete uma infração administrativa imposta por países que não respeitam o direito humano – universal – de migrar.

13. Envie um e-mail para aquela amiga ou amigo com quem faz tempo que você não se comunica. Nem que seja para lembrar o quanto um abraço amigo é importante, mesmo que de longe. Aliás, de longe pode ser ainda mais importante, tanto para você quanto para a amiga ou o amigo.

14. Faça o mesmo do item anterior com uma velha carta depositada nos correios. Escreva a mão e tenha o prazer de depositar pelo menos um cartão postal (é mais ecológico não gastar papel), pelos correios. Porque nada substitui a velha sensação de receber uma carta amiga (ou mesmo um cartão de natal), em mãos.

15. Associe-se. Procure uma associação mais próxima de você e dos seus interesses e necessidades. Coletivize-se! Será muito importante saber ou lembrar o quanto você não está só. Quer alguma dica? Escreva-me no mesmo gmail anteriormente informado.

16. Se já faz parte de alguma associação, realize, no dia 18 ou na primeira data que for possível, uma reunião, para celebrar este dia dos migrantes do mundo (conforme atribuído pela ONU, o Dia Internacional do Imigrante). Lembre-se que em qualquer lugar do mundo, haverá outras associações de migrantes de outros países que estão na mesma situação que você e estão lutando pelos mesmos direitos que os seus e de seus familiares. Melhor ainda seria não se esquecer da situação dramática das inúmeras famílias de refugiados que podem estar sobrevivendo bem aí do teu lado.

17. Reenvie esta mensagem para a maior quantidade de pessoas que você puder e considerar importante (ocultando os destinatários do e-mail no campo CCO – Com Cópia Oculta, e evitando mensagens indesejadas / spams). Compartilhe nas redes sociais.

8. Não fique aí pensando no que você não tem, no que já teve e lamenta haver perdido, ou no que somente fica a desejar… Aproveite o que tem em mãos ou à sua disposição. No fundo só depende de você. Seja feliz consigo mesmo. Aproveite os horizontes culturais ampliados pelas migrações. Sinta-se privilegiada ou privilegiado. Você merece.

Flávio Carvalho é sociólogo e vive em Barcelona

Dia Internacional do Imigrante: para celebrar, refletir e agir

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Ilustração na Casa do Migrante, em São Paulo, que ilustra bem o ato de migrar. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Desde 2000 o mundo aproveita o 18 de dezembro para celebrar o Dia Internacional do Imigrante. Até pela proximidade com o final de ano, é um momento oportuno para refletir, reconhecer dificuldades e avanços obtidos, e também para pensar nos novos caminhos possíveis.

Já parou para pensar na presença das migrações e seus efeitos diretos e indiretos na história da humanidade?

Dos primeiros deslocamentos que povoaram os continentes, passando pelas grandes navegações e pela Revolução Industrial até os dias atuais, o fenômeno migratório está sempre presente, embora muitas vezes seja ignorado ou mesmo criminalizado, como nos dias atuais. De acordo com a ONU, atualmente são cerca de 258 milhões de migrantes no mundo.

Uma coisa deve-se ter em mente: migrar não é uma experiência fácil. Ser migrante não é ser turista. Afinal, o turista volta a seu país dentro de poucos dias ou semanas. Já o migrante deixa sua terra natal em busca de melhores opções de vida ou mesmo para salvá-la, dependendo da situação presente em determinada região – guerras, perseguição política e social, violência, pobreza extrema, mudanças climáticas, entre outros fatores…

No entanto, o que devia ser visto e tratado como um fenômeno humano é cada vez mais perseguido e estigmatizado. Muros proliferam mundo afora – e não apenas os que são de concreto e arame farpado, mas também os muros erguidos pela intolerância, desconfiança, preconceito, medo e xenofobia. Líderes mundiais se aproveitam desses sentimentos nefastos para alimentá-los e colocar os migrantes como inimigos públicos, alimentando um círculo vicioso que parece cada vez mais difícil de romper.

Esses muros materiais e imateriais também impedem que se veja o outro lado, que se visualizem as possibilidades que as migrações abrem para as sociedades – oportunidades culturais, econômicas sociais.

Cada migrante deveria ser visto como uma janela que ajudaria a entender melhor os mundos que estão há milhares de quilômetros de distância. Essa possibilidade se torna ainda mais rica e viável à medida que o migrante toma consciência do seu papel e de sua voz e consegue se afirmar, falar por si.

Especialmente em tempos obscuros como os de hoje, nos quais valores humanos e humanitários conquistados e construídos ao longo de décadas vem sendo questionados e atacados constantemente, é preciso lutar por sua preservação – e por que não, também, por sua ampliação?

Somente com esse engajamento e união de esforços, em nível local e global, será possível mostrar e comprovar que a migração é um direito humano e fenômeno social, com potencial para aprimorar as sociedades, tornando-as mais abertas, humanas e inclusivas, E dessa forma,
reunir forças para romper com o círculo vicioso alimentado pelo ódio.

Para encerrar, uma pequena mensagem do atual secretário-geral da ONU, o português António Guterres – que por muito tempo foi chefe do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, o ACNUR:

“A solidariedade com migrantes nunca foi mais urgente. A migração sempre esteve conosco. Desde tempos remotos, as pessoas se movem em busca de novas oportunidades e vidas melhores”.

Feliz Dia Internacional do Imigrante!

 

PS: Mundialmente o Dia do Imigrante é celebrado em 18 de dezembro, instituído pela ONU em 2000 por conta do aniversário de dez anos da Convenção Internacional para Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias – um compromisso, aliás, que ainda não recebeu adesão do Brasil.

 

Leia também:

ONU: António Guterres pede solidariedade no Dia Internacional dos Migrantes

Os deserdados da terra e a migração

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Caravana de migrantes centro-americanos chega à cidade de Matías Romero, em Oaxaca, no México. Crédito: Rafael Rodríguez - 1.nov.2018/OIM

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

O escritor e dramaturgo britânico John Galsworthy ambienta sua obra prima – The Forsyte saga (A saga dos Forsyte) – a cavalo entre os séculos XIX e XX. O obra, publicada em três volumes, lhe valeu o premio Nobel de Literatura no ano de 1932. No contexto entre a decadência da aristocracia e a ascensão da burguesia, caminhando para o ocaso da era vitoriana, a trilogia trata de sublinhar “o sentimento de propriedade e de herança” como fio condutor da manutenção do status quo. Segundo o autor, os membros da família Forsyte, a qual se converte em uma espécie de metáfora da classe dominante, além de fazer render com grande obstinação a riqueza adquirido ao longo de várias gerações, procura cultivar com cuidado as flores do jardim da própria casa, evitando a mistura com as “ervas daninhas da plebe”.

A Revolução Industrial consolida-se literalmente a todo o vapor. Uma floresta de chaminés cobre as cidades mais relevantes. Aumenta sem precedentes a produção e a produtividade, o comércio e o consumo por parte da população. Ao mesmo tempo, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um trágico replicar de sinos antecede e anuncia sinais de crise, seguido de um surdo rumor de canhões. Em meio a semelhante clima, acumula-se de forma crescente a propriedade da terra, a renda sobre o capital e o poder de aquisição sobre os bens produzidos em série pelas novas fábricas. Ao lado dessa concentração exponencial, cresce igualmente o êxodo do campo em direção à zona urbana, bem como o número de operários, desempregados e de emigrantes. Estes últimos deixam o velho
continente em busca de novas oportunidades nas Américas, na Austrália e na Nova Zelândia, por exemplo. Os historiadores estimam que aproximadamente 65 a 70 milhões de pessoas migraram para fora da Europa entre 1820 e 1920.

Convido o leitor a fazer um salto de 100 anos. De fato, além da depressão dos anos de 1930, desde a década de 1970, e prolongando-se pela virada do século xx para o XXI, outra crise abate-se sobre a economia mundial, cada vez mais globalizada. Toda crise de ordem socioeconômica costuma abrir
abismos para os que escorregam e tombam e, ao mesmo tempo, descortinar horizontes para os que se aprumam, se equilibram e sobem. Falências e bancarrotas, oportunidades e opções se mesclam, se confundem e se complementam, as últimas em detrimento das primeiras. Toda crise é terreno fértil para decadência e ascensão. O tecido da sociedade se rasga e se recompõe, simultaneamente, reestruturando a pirâmide social.

Essa reestruturação, como se pode imaginar, sacode as bases da política econômica, seja em nível nacional e regional ou internacional. A base e o pico da pirâmide voltam a distanciar-se. Dados e Estatísticas, com abundância de números, tem mostrado como nas décadas recentes, coexistem lado a lado a concentração de renda e riqueza, por uma parte, e a exclusão social, por outra. “Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, alertava o Papa João Paulo II há mais de 30 anos. Juntamente com o agravamento do aquecimento global e das catástrofes naturais, sobrepõem-se terremotos e tsunamis de caráter socioeconômico e cultural, causando não poucos deslocamentos humanos. Em regiões pontuais do planeta multiplicam-se fugas e êxodos de massa, resultando em milhões de migrantes, refugiados e prófugos. Não faltam exemplos: Venezuela, Honduras, Haiti, Líbano, Líbia, México, Myanmar…

Da mesma forma que na Grã Bretanha do final do século XIX e início do XX, também hoje o capital se concentra, enquanto os trabalhadores se dispersam como um exército errante, em busca de migalhas de oportunidades: subempregos, trabalho informal e semiescravo. Agrava-se a crise e agravam-se as injustiças, assimetrias e desigualdades sociais. O exército errante não mora, acampa. Essa errância dos deserdados da terra, por outro lado, se vê cada vez mais rechaçada por muros, leis antimigração, políticas restritivas, nacionalismo populista, xenofobia, racismo e discriminação crescentes. Cabe uma pergunta desafiadora, tanto para a Igreja e a sociedade civil quanto para os governos e autoridades internacionais: onde e quando tais deserdados encontrarão, por fim, uma
pátria que os acolha com a justiça e a dignidade de cidadãos!?…