Em 2013, ONU estabeleceu o dia 30 de julho como o Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas.
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Em 2013, ONU estabeleceu o dia 30 de julho como o Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas
Por Ricardo Rossetto
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, cerca de 21 milhões de pessoas em todo o mundo estão submetidas, nos dias de hoje, à exploração sexual ou trabalho forçado. Elas são vítimas de tráfico humano, violação muitas vezes difícil de ser identificada e que se prolifera diante da vulnerabilidade de imigrantes e refugiados. Seja porque essas as pessoas temam represálias de quem as contratou para o serviço, ou porque vários casos de abuso são realizados pelas próprias agências de recrutamento que têm caráter legal. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC, na sigla em inglês) estima que para cada caso conhecido existam outras 20 pessoas que têm seus direitos desrespeitados de forma silenciosa. Pelo menos a metade desses indivíduos são menores de idade, e a ampla maioria são mulheres.
Para conscientizar as pessoas sobre esses crimes humanitários, e incentivar os governos de cada país a promover políticas públicas que protejam os imigrantes, a ONU estabeleceu, em 2013, o dia 30 de julho como o Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas.
As histórias de exploração, dor e desespero das vítimas são inúmeras e estão presentes em 124 países, segundo a UNODC. E são quase sempre ocultadas ou dissimuladas perante a opinião pública. Há quinze dias a ONG Human Right Watch publicou um grande informe sobre empregadas domésticas que se encontram em condições trabalhistas abusivas em Omã, país ao sul da Península Arábica. O documento mostra como o sistema de contratação de mão de obra imigrante conhecido como kafala, presente em diversos países do Oriente Médio (e criticado como uma legislação que promove um tipo moderno de escravidão), expôs as domésticas a diversas violações de seus direitos por parte dos empregadores. Nesse sistema, os trabalhadores que conseguem fugir dos patrões que lhes exploram são punidos pelo governo e dificilmente conseguem algum tipo de indenização.
Em junho do ano passado o site Reveal, mantido pelo The Center for Investigative Reporting, denunciou os estupros que aconteciam durante a madrugada contra faxineiras imigrantes na região do Vale Central, na Califórnia, nos Estados Unidos. De acordo com a reportagem, as violações ocorriam dentro de escritórios vazios , e eram cometidas por supervisores que tinham a missão de visitar diferentes prédios na região para supervisionar o trabalho de limpeza. E traz um dado arrasador: aproximadamente 50 pessoas são agredidas ou violadas sexualmente todos os dias, e nos mais diferentes lugares, segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Além disso, a investigação mostra como as empresas que são acusadas de terem funcionários que perseguem e violentam seus subordinados ocultam as denúncias, ou até mesmo fazem acordos de confidencialidade com os tribunais que julgam os assédios – tornando quase impossível a publicização dos casos.
No Brasil, o primeiro banco de dados sobre tráfico de pessoas e exploração sexual e trabalho escravo surgiu em 2013, depois de um esforço realizado pela Secretaria Nacional de Justiça, em colaboração com a UNODC e o Centro Internacional para o Desenvolvimento de Políticas Migratórias. A pesquisa revelou que pelo menos 475 pessoas foram vítimas de tráfico humano em 11 estados de fronteira do país entre os anos de 2005 e 2011. As modalidade de exploração foram desde a escravidão doméstica de crianças e adolescentes, até a utilização de pessoas como mulas para levar substâncias ilegais através da fronteira.
Nós, do MigraMundo, endossamos a campanha pelo Dia Mundial Contra o Tráfico e Exploração de Pessoas. A escravidão, em qualquer de suas formas, não tem mais espaço nos dias de hoje. A violação da liberdade e da dignidade de qualquer ser humano é inaceitável. E também repudiamos aqueles que se utilizam do combate ao tráfico humano como pretexto para criminalizar os demais movimentos migratórios. Seguimos na luta em defesa dos direitos dos migrantes.
Mate* luta sobretudo pelo filho, Akin, que significa "menino corajoso".
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Esta é a segunda parte do Especial Anônimas, uma série de cinco perfis de mulheres refugiadas que vivem em São Paulo. Os textos foram feitos pela jornalista Lu Sudré, mais nova colaboradora do MigraMundo, para o livro “Anônimas”, publicado por ela como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo da PUC-SP, em 2015. As histórias e imagens foram cedidas com exclusividade para o MigraMundo.
A série traz histórias de mulheres refugiadas que lutam para reconstruir as próprias vidas longe da terra natal. Os nomes das personagens são fictícios, para preservar a identidade de cada uma delas, ao mesmo tempo em que é possível abrir um pouco a mais a mente sobre as migrações a partir de seus relatos, dramas e superações.
Mate: Uma mulher sem casa não tem paz
Por Lu Sudré (texto e fotos)
Existe um encantamento em relação à gravidez: A ansiedade da espera, preparar a casa, o quarto, o enxoval do bebê. Chega a ser um ritual coletivo. A família inteira, desde os pais ao tio-avô, quer saber como foi a última consulta, como será o parto, e, se possível, que dia a “encomenda” chegará. Estranhos comentam sobre a barriga da grávida e como ela está com um brilho que só acontece neste momento. E quando a cria chega, é flor, foto e carinho pra todo lado. Isto é o que geralmente ocorre quando uma mulher grávida dá a luz ao seu filho… Mas não foi assim que aconteceu com Mate.
Chegou da Nigéria com oito meses de gestação, o que a tornou mãe de um brasileirinho. Não sabia falar português e não sabia o que a esperava no Brasil. O que pode ser considerado um ato de loucura por muitos, foi um ato de sobrevivência para Mate e seu quarto filho que estava pra nascer, que aqui será chamado de Akin. O nome, na cultura nigeriana, significa “menino corajoso”. Suas outras três crianças, duas meninas e um menino, de 10, 8 e 5 anos, respectivamente, não vê há um ano e três meses.
A encontrei pela primeira vez no banheiro da Casa do Imigrante. Havia acabado de tomar banho, estava com um pente na mão, desembaraçando seus cabelos. Uma cena corriqueira e comum para todas as mulheres, mas o que chamava mais atenção em Mate não era ela e sim um lençol colorido, estampado, enrolado nas suas costas, onde carregava seu bebê. Foi meu primeiro contato com os olhinhos de jabuticaba de Akin.
Assim que começamos a conversar, um pouco receosa, Mate me pediu para esperar porque precisava trocar as fraldas de seu filho e depois me encontraria. Dito e feito. Depois de meia hora, a avistei na área de convivência dos imigrantes. Falando baixo e quase monossilábica no começo, me perguntou o que era o objeto que acabara de colocar em cima da mesa. Expliquei que era um gravador e perguntei se me permitia gravar sua voz. Disse que tudo bem, que não se importava, mas que gostaria de um como aquele para gravar às aulas de português.
Mate nasceu em Lagos, segunda maior cidade do país depois do Cairo, capital do Egito. Casou-se e mudou para Gana. Depois de alguns anos, decidiu voltar para a Nigéria, as condições do país vizinho não estavam muito diferentes. Foi aí que se mudou para Adamawa, um dos 36 estados que constituem a República Federal da Nigéria, localizado no nordeste do país. O país mais populoso do continente africano, com cerca de 174 milhões de habitantes, para ela, é amável. Terra rica em recursos naturais, com um povo bom, mas com “políticos que somem com tudo”. Sobre a necessidade de se tornar solicitante de refúgio, dizia que um “problema” fez com ela precisasse sair. Enquanto falava, a nigeriana olhava apreensiva para o celular, antes mesmo do relógio cantar os dez minutos de conversa, tivemos que interromper. “Desculpa, mas eu preciso ir embora. Eu não estou aqui agora. Minha mente está dividida em dois. Minha cabeça está lá fora, meu bebê não tem leite. Preciso arranjar dinheiro.”
Antes de sair, me passou seu número e agendamos outra conversa. Me prometeu que dessa vez duraria mais que dez minutos. Elogiei o pano amarrado em suas costas que servia de berço para Akin, que dormia profundamente. Aquele parecia o lugar mais confortável do mundo e Mate confirma que realmente é. “Carregar nos braços faz doer tudo, é muito pesado. Assim o bebe fica aquecido e é bem mais fácil, chama wrapa. Posso te ensinar da próxima vez que te encontrar, para você fazer com seus filhos”, disse dando risada. Ela não abre mão de sua cultura, apesar dos olhares curiosos das pessoas quando anda com seu filho na rua.
Mate* luta sobretudo pelo filho, Akin, que significa “menino corajoso”. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Akin é um bebê de sorriso fácil, encanta todo mundo. Quando um desconhecido começa a interagir com seu filho, Mate parece ficar desconfiada e responde com um sorriso amarelo. Todos os dias ela enfrenta a cidade de São Paulo sozinha, a pé, com seu neném, procurando trabalho e ajuda, principalmente da Cáritas, que doa o leite em pó de Akin. Não sabe em quem pode confiar ou não, toma todas as precauções possíveis. Assim que chegou aqui, com as economias que guardava trabalhando no setor financeiro de um colégio privado em Adamawa, a Cáritas a encaminhou para a Amparo Maternidade, instituição filantrópica de assistência a gestante pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O centro de acolhida nasceu da concepção que nenhuma parturiente na cidade de São Paulo deveria ficar sem local adequado para dar à luz, disponibilizando moradia provisória para as mulheres. Foi lá que Mate passou seu primeiro mês. Foi lá também que conheceu uma das pessoas que ela julga estar entre as mais importantes da sua vida: A psicóloga Michele, que trabalha voluntariamente na Maternidade. Mate não sabe seu sobrenome, mas sabe que ela foi a primeira pessoa a ajudá-la. “Ela olhou pra mim, disse que era muita coisa pra uma mulher só e que se eu precisasse dela, era só entrar em contato. Me deu número de telefone, e-mail e até endereço. Ela é abençoada.”
Sem conseguir falar com seu marido pelo telefone, encontrou em Michele uma amiga. A visita, que acontecia pelo menos duas vezes por semana, era o momento mais esperado. Diz que Michele é como uma irmã mais velha, que aparece quando nós mais precisamos. “Ela tentou colocar um sorriso no meu rosto. Eu nunca vou esquecê-la na minha vida. Quando eu trabalhar e tiver dinheiro, vou comprar um presente pra ela.” No início, quando Mate não sabia falar nem um pouco de português, Michele traduzia e escrevia pra ela. A psicóloga era a única companhia e pessoa com quem a nigeriana conseguia se comunicar.
Seu filho nasceu dia 11 de outubro de 2014, na Rua dos Franceses, no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. E para ela, foi ele, Jesus, que fez com que tudo corresse bem. Foi assustador passar pelo parto sem sua família, principalmente sem falar a língua. Hoje seu português já dá conta do recado. Foi a algumas aulas, mas não conseguiu aprender a língua fluentemente porque não tinha ninguém para cuidar de seu filho. As limitações de ser uma mãe refugiada.
Mate, uma mulher simples, baixinha, com o cabelo curto e olhos negros como sua pele, diz não gostar de confusão e nem de pedir favor para ninguém. Seu tom de voz é baixo, calmo… só se altera quando seu filho, carregado pela wrapa, puxa seus cabelos sem ela esperar. Depois de um sonoro “Ai!”, traz Akin para sua frente e explica que ele faz isso para avisá-la que acordou, mas que bem que ele podia puxar o do pai um pouquinho também. Seu marido havia chegado há uma semana, também solicitante de refúgio e era o único motivo que a ajudava a manter a calma.
Quando nos reencontramos, lhe restava duas semanas para sair da Casa do Imigrante. Sem saber o que fazer, Mate relembrou-se de quando chegou ao Brasil: Também não tinha onde morar, aquela angústia era velha conhecida. Seu trajeto pela cidade seria diferente naquele dia: seu único objetivo era conseguir outro lugar para ficar. Assim que chegou em São Paulo, foi parar em um abrigo de moradores de rua. Ela aceitaria qualquer coisa, menos voltar para aquele local. “As pessoas se drogavam e estavam doentes, tossiam muito, fumavam, bebiam. Não é nem por mim, mas agora tenho meu bebê.”
A assistente social da Casa do Imigrante pediu para que ela procurasse o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População em Situação de Rua (CREAS), unidade da Barra Funda, para ver se eles disponibilizariam uma vaga para Mate e sua família. Me perguntou se eu a acompanharia e então poderíamos conversar pelo caminho. Fomos até o Terminal de ônibus Parque Dom Pedro II, próximo à Baixada do Glicério, e pegamos a linha 9300, que por sorte passava exatamente da Rua Norma Pieruccini Gianotti, nome que Mate balbuciava com dificuldade.
Durante o caminho, seu olhos queriam desvendar a cidade. A cada nova avenida do centro de São Paulo, uma pergunta. Queria saber o nome de todas as ruas e bairros pelos quais passávamos, e aproveitou para tirar as dúvidas sobre a cidade de pedra. “Onde fica Guarulhos?”, “Essa é a Avenida Rio Branco?”, “Aqui é a Sé?”. Quando entramos no ônibus, o cobrador a observou e sorriu para Akin. Quando demos sinal, Mate desceu pela porta da frente e não pagou passagem. “Dependendo do motorista, eles me deixam andar se pagar. Percebem que eu não sou daqui e que não tenho dinheiro. Mas uma vez tive que descer antes, porque não me deixaram passar. Mas se estou acompanhada de alguém que paga, eles deixam. Ainda bem que você está aqui hoje, porque não tenho nenhum dinheiro”.
Quando chegamos ao centro popular, nos deparamos com uma fila de moradores de rua em busca de uma refeição. O setor que atenderia Mate ainda não estava aberto. Tivemos que esperar por meia hora, mais trinta minutos de consternação para a nigeriana, que não conseguia pensar em nada além de sentir a aflição de não ter um teto para morar. Com os olhares dos homens que estavam no Creas, insistentemente invasivos para nos cumprimentar, preferimos esperar no banco de um colégio vizinho, onde crianças faziam uma roda e brincavam no páteo. Expliquei a situação para o segurança, que por conta de Akin, permitiu que entrássemos e aguardássemos.
O Boko Haram fez com que Mate* saísse da Nigéria. “Uma mulher sem casa não tem paz”. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Mate falava de como algumas ruas da Nigéria se parecia as de São Paulo, inclusive com a rua em que se localizava seu pequeno mercado, chamado “Treasure e Peculiar”, nome de suas meninas. Observou aquelas garotas brincando, com tênis rosa, uniforme e cabelos presos, lembrou de suas filhas, quando menores. “Treasure significa algo muito precioso. Peculiar é algo único, uma característica especial. Os nomes traduzem o que elas são”. Com muito cuidado, sem se expor, começou a contar qual o “problema” que a fez sair de seu país e a causa de sua saudade.
“Saí por causa do Boko Haram. Já ouviu falar deles? Eles são o problema da Nigéria. Único motivo que faz dela um lugar para não se viver”, contou, enquanto abria a fralda de Akin para checar se tudo estava certo. Não olhou diretamente para mim. Sua expressão mostrava desconforto, como se ao falar sobre isso, expusesse uma parte de sua vida que queria deixar escondida. Disse que era algo difícil de falar, difícil de lembrar e difícil de aceitar.
Não há como não conhecer as atrocidades do Boko Haram, grupo radical islâmico, fundamentalista religioso, que visa a implantação da lei islâmica, conhecida como Sharia. O nome, Boko Haram, significa “a educação não islâmica é pecado”, na língua Hausa, idioma do norte da Nigéria. O grupo surgiu em 2002, com seguidores que acreditam que a cultura ocidental reproduzida no país seria a principal razão de seus males. A partir dessa concepção, a erradicação dos valores ocidentais é o principal objetivo, além de fundarem a República Islâmica.
Com o passar dos anos, o grupo se militarizou e estabeleceu vínculos com a rede Al-Qaeda, organização fundamentalista islâmica internacional que disputa a geopolítica no Oriente Médio, responsável por inúmeros ataques terroristas. Em maio de 2014, o Comitê de Segurança da ONU adicionou o Boko Haram a lista de grupos considerados terroristas devido a sua relação com a Al-Qaeda, que inclui treinamento das milícias e suporte de armas. Ao me perguntar se eu conhecia o grupo, Mate deu a entender pelo seu tom de voz que os conhecia muito bem.
Cristã, não compartilha da mesma religião do grupo. E assim como muitas outras pessoas, não teve o direito de seguir sua religião. Mate resume algo muito complexo e distante para nós: “Ele são muçulmanos e querem que todos também sejam. Se você não pode fazer parte da religião deles, eles te matam. Exatamente assim.” Usando poucas palavras, Mate demonstra-se desconfortável a cada nova frase. A mulher que hoje não tem casa, também perdeu a que tinha na Nigéria. Foi incendiada pelo Boko Haram.
“Se você não concordar com o que pensam e eles estiverem no território, vão entrar na sua casa. E mesmo se você estiver dormindo, eles podem entrar antes mesmo que você perceba e queimam tudo”. Parou de falar e segurando uma das mãos de seu bebê, que agora estava quase adormecendo enquanto agarrava um de seus dedos, encarou as crianças que estavam brincando no páteo.
O Boko Haram atua principalmente no nordeste da Nigéria, onde controla a maior parte dos estados de Borno, Adamawa e Yobe. Viajar para outro estado da Nigéria exige muito dinheiro, coisa que Mate não tinha. Com pesar, a nigeriana relata que o grupo queima as casas sem se importar com as mulheres grávidas, e muitas perdem seus filhos ainda pequenos. Precisou vir para o Brasil para que seu filho tivesse a chance de nascer. “Eles sequestram, espancam as pessoas. Estupram as garotas. Se você sair, não é 100% de certeza que voltará vivo.”
Ela não disfarça o medo e o receio em falar sobre o Boko Haram. Acredita que eles são mais fortes do que o governo, e inclusive, já ouviu por aí que o próprio governo financia o grupo mas não tem certeza de nada. Não quer se comprometer. Com educação, Mate não conta nada específico. Agitada, busca encerrar a conversa a qualquer custo. “Eles estupram garotas pequenas. Eu não quero falar sobre o Boko Haram porque é complicado, faz com que eu me sinta mal e me faz lembrar de coisas que eu não quero lembrar. Vamos mudar de assunto, por favor”
Respeitando a vontade de Mate, o silêncio que veio a seguir conseguiu dizer mais do que quaisquer palavras. Naquele momento, não quis contar o que havia acontecido com ela e sua família detalhadamente, mas, saber que teve que deixar seu país, grávida e sozinha, é o suficiente para saber que passou por graves violações físicas, morais e psicológicas. Na tentativa de me explicar a gravidade da situação, Mate me perguntou: “Você já teve um problema como este?”. Dessa vez, quem se calou fui eu.
O grupo terrorista utiliza métodos radicais, incluindo a realização de atentados e sequestros com a finalidade de conquistar territórios. As mulheres e crianças são o principal alvo do grupo, pois a utilizam para barganhar e as negociam como escravas sexuais. Uma das ações mais notórias do Boko Haram ocorreu em abril de 2014, quando o grupo sequestrou cerca de 276 mulheres entre 16 e 18 anos em Chibok, no estado de Borno. Em novembro de 2015, o grupo destruiu cerca de 16 povoados no nordeste da Nigéria, deixando milhares de mortos e feridos. O país vive uma guerra entre os radicais e o exército nigeriano. O atual presidente, Muhammadu Buhari, diz que fará de tudo para combater as ações do grupo.
Segundo relatório da Anistia Internacional, no período de um ano (abril de 2014 – abril de 2015) o Boko Haram sequestrou pelo menos duas mil mulheres e meninas, matou cerca de cinco mil civis em 300 invasões e ataques durante seu avanço no nordeste da Nigéria, além de obrigar mais de um milhão de pessoas a se deslocarem. O relatório ouviu cerca de 200 testemunhas (incluindo 28 mulheres que foram sequestradas pelo grupo e escaparam), assim como autoridades do governo local, militares e outros.
As ações do grupo terrorista são consideradas crimes contra a humanidade. De acordo com a organização, o Boko Haram comete assassinatos, ataques a civis, atentados, incêndios e assaltos todos os dias, e seus membros deveriam ser investigados por crimes de guerra como tortura, estupro, violência sexual, escravidão sexual, casamentos forçados e recrutamento de soldados crianças. Os atentados ocorrem principalmente em escolas, igrejas e edifícios públicos. “Se você não acredita no que eu falo, procure na Internet. São atrocidades sem medida”. Os trinta minutos de espera haviam terminado e fomos conversar com a assistente social do Creas.
Mate disse “Oi” e entregou um documento da Casa do Imigrante, que explicava sua situação. As informações não eram suficientes, mas a assistente social não sabia falar inglês. Mate, claro, não sabia falar português o suficiente para entendê-la. O fluxo de pessoas passando e de telefones tocando pareciam deixar Mate confusa. Nenhum trabalhador do Creas estava preparado para auxiliar uma refugiada, nem entendiam o porquê dela ter sido encaminhada para lá. Mate me pediu para explicar a situação e ser sua intérprete. Não havia vaga para que ela pudesse ficar com seu filho e seu marido.
Nunca esquecerei seu rosto quando lhe disse que eles não poderiam ajudá-la, mas que pegariam o contato para caso conseguissem algum lugar. Ela disse obrigado e saímos do prédio. O desabafo e as lágrimas, ainda que tímidas, vieram de uma vez só. “Ontem eu estava chorando muito por causa da casa. Eu preciso de um lugar para morar, mas eu não consigo trabalhar por causa do bebê. O que eu vou fazer? Me pergunto todo dia: será que vou dormir na rua? Uma mulher sem casa, não tem paz.”
A nigeriana sente falta de sua antiga casa. A casa era imensa, alugada, com três dormitórios e com muito espaço para seus filhos brincarem. Enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus para voltarmos a Baixada do Glicério, Mate dizia o quanto era sufocante não ter um lugar para dormir e não ter dinheiro para comprar nada, sendo que na Nigéria tinha tudo, principalmente seus filhos.
“Não quero lembrar disso agora, porque não tem solução. Dá última vez que falei com meu filho pelo telefone, ele disse que eu tinha o abandonado. Perguntou se eu não ia voltar.” Parece se arrepender de ter começado o assunto e diz que precisa ter uma mente livre para resolver os problemas daqui. “Quando você ama alguém assim, é difícil falar sobre.”
Meses depois a encontrei novamente, na sede da Cáritas. Esperava para pegar remédio para Akin, que havia sido internado com o diagnóstico de pneumonia mas já estava melhor. Estavam no abrigo do Sefras, também temporário, e ainda em busca de uma casa. Me contou que conversaria em breve com o advogado do abrigo, para tentar trazer seus filhos para o Brasil. Estava mais confiante do que da última vez, seu marido estava procurando emprego na área de assistente administrativo.
Sentada nas cadeiras de plástico na área coletiva da Cáritas, Mate opina que o governo brasileiro não precisa dar dinheiro para os refugiados, apenas um lugar para morar e oportunidade de trabalho. Com isso, eles conseguem todo resto. “Eu não posso nem pensar em futuro. Meu plano agora é conseguir uma casa e um trabalho, nada além disso. Não há tempo para pensar que eu posso aquilo e não posso aquilo. Minha cabeça e meu coração estão cheios”.
Continuamos a conversar, e, como ela mesmo declarou, já me considerava amiga da família. Com Akin no colo, ri e diz: “Esse menino está fazendo caca de novo?! As fraldas estão acabando!”. Depois de pegar o remédio, usou a wrapa para carregar seu bebê. Pelo centro de São Paulo, com seu filho em suas costas, a nigeriana caminha lentamente. Um destino incerto a espera, mas ela não pode fazer nada além de caminhar.
Evento busca chamar a atenção sobre a situação do Congo, pouco divulgada no noticiário internacional.
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Evento foi parte das celebrações pelos 56 anos de independência do Congo e tenta chamar a atenção para o que acontece no país atualmente
Por Gláucia Quenia e Christ Kamanda
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A sala Galeria Olido no centro da cidade de São Paulo, no último dia 30 de junho, recebeu a grande conferência “O conflito armado da RD Congo no espaço geopolítico do mundo: imperialismo capitalista e guerra econômica”. A Infos-Migrant BR foi organizadora desse evento.
As atividades foram marcadas por palestras de especialistas na Geografia, História Política e pesquisador de Geopolítica para explicar aos participantes todo o contexto que envolve essa guerra que toma conta do leste congolês há duas décadas. Os minérios encontrados no Congo são extraídos em prol de grandes marcas mundiais de forma desumana em razão dessa riqueza natural cobiçada pelos países vizinhos na região do leste.
A data foi escolhida propositadamente para marcar dois momentos importantes para o Congo: a conquista da independência da Bélgica, ocorrida exatamente em 30 de junho de 1960; e com a finalidade de sensibilizar a comunidade internacional para denunciar a barbárie e exploração que acontecem no Congo há 20 anos e a mídia internacional ignora.
As palestras foram organizadas com assuntos sequenciais. Foram convidados para compor esse processo de conscientização o professor Luis Antônio Bittar Venturi, do Departamento de Geografia da FFLCH – USP; Pitchou Luambo, advogado congolês e mestrando em Relações Internacionais pela FESPSP e Christ Kamanda, jornalista congolês e pesquisador em geopolítica.
Evento foi parte das celebrações pelos 56 anos de independência do Congo, segundo maior país da África em extensão. Crédito: Divulgação
Com o tema “O Congo e seus recursos naturais”, o professor Luis Venturi explicou de forma minuciosa sobre a diversidade no país: localização, área e países fronteiriços; aspectos físicos e os recursos naturais; aspectos sociais: cidades, população e economia; o paradoxo congolês (com uma população em crescimento, cerca 77 milhões de habitantes e mais de 250 etnias). O Congo é o segundo maior país africano, é um dos mais ricos do mundo em recursos naturais e segundo país de maior biodiversidade do mundo.
O professor ainda apresentou as riquezas que possui a República Democrática do Congo. Além de importantes reservas de cobre, ouro, ferro, urânio e zinco. O Congo é maior produtor mundial de coltan – mistura de dois minerais (columbita-tantalita), que formam um tipo de liga natural de alta resistência térmica, eletromagnética e corrosiva, o que o torna fundamental para a indústria eletroeletrônica, em alta demanda no mundo atual. A RDC posse mais de 80% de reservas mundiais do “Coltan”. Toda a região do país e da zona de conflito mostra o quanto o Congo tem de riqueza natural e por que desperta o interesse daqueles que exploram esses recursos da maneira mais agressiva.
Em seguida, a fala do congolês Pitchou Luambo trouxe o tema “História política e conflito armado”. Ele retratou toda a história para que o país conquistasse sua independência até o conflito que toma conta do leste há 20 anos. Segundo Pitchou, a violência e exploração de Leopoldo II, rei da Bélgica, no Congo começaram quando ele tomou posse do país na Conferência de Berlim (1885). A borracha e o marfim eram as principais fontes de enriquecimento do rei. Porém, todo o trabalho era feito com mão de obra escrava. Dos seus atos desumanos, a mutilação era uma das punições que aplicava.
Na época, esses crimes cometidos pelo rei belga chamou a atenção da opinião mundial acarretando numa denúncia que fez a Bélgica se sentir pressionada. Por motivos políticos, desde a tomada de posse por Leopoldo II, o país teve como nome: Estado Livre do Congo (1885), Congo Belga (1908) e, até a conquista da independência, República Democrática do Congo-Kinshasa em 1960. Entre os nomes que lutaram pela independência está Patrice Lumumba, considerado um herói nacional. Entre 1971 até 1997, o ditador nacionalista Mobutu Sese Seko trocou o nome do país para Zaire.
A Guerra do Congo iniciou em 1996. O objetivo era derrubar Mobutu Sese Seko, que foi apoiado pelos EUA na Guerra Fria. Ela tem ligação com o genocídio em Ruanda, em 1994, quando os hutus massacraram 800 mil tutsis. A desestabilização no Leste do Ex-Zaire (RDC) aconteceu após o genocídio de Ruanda, quando Mobutu abriu um corredor humanitário e os perpetradores do genocídio fugiram para o Congo; os tutsis estavam planejando vingança. Em seguida, as tropas do presidente de Ruanda, Paul Kagame, entraram no Congo, derrubaram Mobutu e colocaram no poder Laurent Kabila e se dedicaram à aniquilação de seus assassinos em 2001.
Para finalizar as palestras, o também congolês Christ Kamanda levou o tema “Geopolítica, imperialismo capitalista e guerra econômica”. O jornalista analisou os papéis dos atores da guerra e a influência dos fatores geoestratégicos, além de dados estatísticos. Como, as “matérias primas” são indispensáveis para a sobrevivência das potências econômicas mundiais. São objetos de cobiça das potências, que são totalmente dependentes porque algumas delas não possuem em seus territórios essas riquezas. Na lista dessas potências estão os países europeus, o Japão e os EUA.
Essa é uma guerra geoestratégica da exploração dos recursos naturais pelas grandes potências ocidentais por meio das empresas multinacionais que alimentam o conflito, afirmou Christ. O relatório da ONG Anistia Internacional sugere que a Apple contribui para a guerra com a compra de coltan no Congo, – ao mesmo tempo, o comércio ilegal desses minerais financia as milícias. Eles são contrabandeados para países vizinhos. Mesmo o governo da República Democrática do Congo faz parte da cúpula responsável pela continuidade dos crimes cometidos no país. Segundo o relatório das Nações Unidas, os responsáveis militares e civis do Congo também estão envolvidos no comércio ilegal das armas.
São quase vinte anos de guerra, com a participação de milícias e grupos rebeldes de países vizinhos do Leste da República Democrática do Congo. É a maior e mais sangrenta guerra desde a Segunda Guerra Mundial. As mídias ocidentais enganam-se sobre o número dos mortos nesse conflito. Christ Kamanda afirma que são cerca de 20 milhões de mortos e desaparecidos desde 1996. Os crimes cometidos por guerrilheiros são estupros, trabalho infantil e mortes extremamente trágicas. Apesar de ser a maior e mais cara missão desde a criação da ONU, infelizmente, após 16 anos que ela está no Congo, a Monusco (missão da ONU no Congo) não consiga acabar com a guerra; e o número de mortos acrescenta todos os dias.
No final das palestras, os participantes deram seus pontos de vista sobre a guerra no Congo e reafirmaram a necessidade de trabalhar para sensibilizar a opinião mundial e denunciar as atrocidades contra os congoleses que vivem naquela região.
Outras ações são programadas para mobilizar a comunidade internacional e entender sobre o drama escondido da guerra do Congo.
Foto de capa da página do bab.la no Facebook.
Crédito: Reprodução
Por Rodrigo Borges Delfim
O aprendizado de um idioma diferente do materno – seja por questões profissionais ou até mesmo devido às migrações – se tornou quase que um pré-requisito para o mundo contemporâneo. E atualmente existem ainda ferramentas online que permitem ao menos um complemento desse aprendizado.
É o caso do bab.la, uma plataforma online e gratuita de idiomas que propõe uma troca de ideias entre as pessoas interessadas em aprender uma nova língua e uma nova cultura – pela web ou presencial, quando possível. Intercâmbio esse que tem potencial para gerar aproximação entre pessoas, quando bem utilizado.
Com sede em Hamburgo (Alemanha), o bab.la tem 40 dicionários para 28 línguas, um fórum de idiomas, testes de vocabulário, jogos de línguas, quizzes, conjugação verbal para 12 línguas, guias de frases para universidade, negócios ou viagens, entre outros produtos relacionados ao aprendizado de idiomas. Os usuários podem ainda colaborar com a sugestão de novos jogos, vocabulários, testes, entre outros. Desde abril de 2015 a plataforma é parte da Oxford University Press.
Essa ferramenta poderia ainda ser útil tanto para migrantes como para instituições dedicadas ao ensino de idiomas. É o que acreditam a italiana Benedetta Montagnoli e a brasileira Olivia D’Orsi Junqueira, integrantes da equipe de conteúdo do bab.la, que falaram em conjunto ao MigraMundo sobre essa visão e disposição. Veja abaixo a entrevista:
bab.la tem 40 dicionários e 28 idiomas, incluindo o português. Crédito: Divulgação
MigraMundo: Desde quando existe o bab.la e como ele surgiu? bab.la: O bab.la tem 9 anos, foi lançado em julho de 2007. A ideia era lançar um portal onde os amantes de idiomas possam reunir-se, conhecer-se, trocar ideias e aprender idiomas juntos. É um projeto de idiomas criado por Andreas Schroeter e Patrick Uecker. A ideia circulou na mente de Andreas por muito tempo. Durante seus anos de colégio e depois como universitário no Canadá, França, Suécia e Estados Unidos, ele se deu conta que, às vezes, só saber a tradução de uma palavra não ajuda. É preciso realmente conhecer o idioma e saber em que contexto usar a palavra para encontrar a tradução perfeita. Andreas coleciona dicionários em várias línguas há bastante tempo. O passo mais natural foi criar um portal onde os amantes de idiomas possam encontrar-se, trocar ideias e aprender os idiomas entre todos. Quem pode ser melhor professor do que um nativo para compartilhar seu conhecimento?
Aprender o idioma local é uma das grandes preocupações de imigrantes e refugiados que chegam a um outro país. Na sua opinião, como o bab.la poderia ajudar nesse quesito? O bab.la oferece conteúdo de aprendizado de idiomas e cultura gratuito e personalizável, todo ele disponível para quem quiser usá-lo. E com alguma ajuda de profissionais da área de migração, nós podemos criar caminhos ou trilhas através dos recursos para otimizar sua utilidade a imigrantes e refugiados. Nós também temos uma equipe multilíngue e multicultural que fica mais do que contente em trabalhar junto com a comunidade migrante para adaptar os nossos recursos para as suas necessidades.
Equipe do bab.la na sede da plataforma, em Hamburgo (Alemanha). Crédito: Divulgação
Caso alguma instituição se interesse em usar o bab.la para programas de ensino de idiomas, como a plataforma poderia apoiá-la? A plataforma pode ser utilizada como apoio para professores de diversas disciplinas gratuitamente do mesmo modo que por usuários. Estamos abertos a conversar com cada instituição para realizar uma parceria mais personalizada.
Ao contrário de outros dicionários, o bab.la permite que o usuário também interaja e proponha material. Como é feita a curadoria desse conteúdo? A curadoria desse conteúdo é feita de duas maneiras. Alguns recursos, tais como caixa de sugestões para cada dicionário, questionários e fórum são curados colaborativamente, os usuários podem votar em seus favoritos e comentar e classificar os recursos. Em seguida, vem a segunda camada, toda a nossa equipe está constantemente revisando o conteúdo, a verificando sua consistência e corrigindo qualquer coisa necessária. Nós temos membros da equipe nativos ou bilíngues para cada idioma.
Tem algum novo idioma que está para ser incluído?
Sim, em breve incluiremos um dicionário dinamarquês-alemão.
Salão da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Crédito: Manuel Elias/ONU
A OIM (Organização Internacional para as Migrações) vai se tornar uma entidade relacionada às Nações Unidas. A resolução que permite o ingresso da entidade no chamado Sistema ONU foi aprovada nesta segunda (25) pela Assembleia-Geral da organização.
A oficialização do ingresso da OIM na ONU está marcada para 19 de setembro, durante uma cúpula das Nações Unidas dedicada especialmente a reunir os Estados-membros para tratar os grandes movimentos de refugiados e migrantes sob uma abordagem mais humana e coordenada. O acordo será assinado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e pelo diretor-geral da OIM, William Lacy Swing.
“As Nações Unidas e a Organização Internacional para as Migrações, reconhecendo a necessidade de trabalhar em conjunto para alcançar objetivos mútuos, e com vistas a facilitar o exercício efetivo das suas responsabilidades, concordam em cooperar estreitamente no âmbito dos respectivos mandatos e realizar consultas sobre matérias de interesse mútuo interesse e preocupação “, aponta trecho da resolução.
“Estamos vivendo em uma época de muitas tragédias e incertezas. Este acordo demonstra o compromisso dos Estados-membros com uma migração mais humana e ordenada que beneficie a todos, onde celebramos os seres humanos por trás dos números “, disse o diretor-geral da OIM, William Lacy Swing, em comunicado à imprensa.
Ainda segundo Swing, este é “dia histórico” não só para a instituição e para a ONU, mas para “migrantes e suas famílias ao redor do mundo”. A OIM tem cerca de 9,5 mil funcionários e 450 escritórios espalhados pelo mundo. Em 2015, a instituição ajudou 20 milhões de migrantes.
Namoro antigo
A OIM, que em dezembro completa 65 anos de fundação, já vinha se aproximando do Sistema ONU há algum tempo. Observadora permanente da ONU desde 1992 e com acordos de cooperação com as Nações Unidas desde 1996, a OIM foi citada em relatório do então secretário-geral Kofi Annan, em 2005, com a recomendação de que a OIM deveria tornar-se parte do sistema das Nações Unidas como uma “agência global para a migração econômica”.
Em 18 de abril deste ano, o secretário-geral adjunto da ONU, Jan Eliasson, chegou a uma “conclusão clara: uma relação de trabalho mais próxima entre a ONU e IOM não é apenas natural e desejável, também é necessário que para alcançar as novas metas de desenvolvimento para 2030”, das quais as migrações também fazem parte.
Vista geral do campo de refugiados de Daddab, no Quênia, o maior do mundo.
Crédito: ACNUR
Por Angela Wells, para o News Deeply
Tradução por Andresa Medeiros
O cotidiano de Said Abdullah em Nairóbi, a capital do Quênia, tornou-se a prova viva da luta pela sobrevivência travada por refugiados somalis em um país cada vez mais hostil. O vendedor de roupas, e ativista dos direitos humanos, de 42 anos divide seu tempo entre centros de detenção, tribunais e reuniões com o resto da comunidade no bairro de Eastleigh, habitado por somalis.
Ele está sempre pronto para ajudar na libertação de pessoas pegas em batidas policiais, para aconselhar recém-chegados a como fazer o registro com as autoridades e para se juntar a líderes da comunidade somali em uma petição direcionada ao governo queniano por uma legislação mais praticável para governar as vidas de cerca de 600 mil refugiados somalis no país do Leste da África.
A batalha já dificultosa agravou-se em maio de 2016, quando o governo anunciou repentinamente que planejava fechar todos os campos de refugiados dentro de suas fronteiras e descomissionar o DRA (Department of Refugee Affairs), deixando os recém-chegados não registrados no limbo.
Embora tenha sido levemente amenizada pela abertura parcial do DRA, a postura governamental tem sido acompanhada por uma enxurrada de afirmações alarmantes, e frequentemente contraditórias, sobre a repatriação de refugiados à Somália. O fantasma do repatriamento forçado agora assusta os refugiados.
“Só de pensar em voltar para a Somália, já temos pesadelos”, disse Said. “Meus filhos nasceram aqui e têm orgulho disso. Queremos nosso direito, como refugiados, de viver no Quênia ou de ir para um terceiro país legalmente.
“Ao menos, dê essa chance para nós”, implorou ele.
Assim como muitos refugiados somalis, Said chegou ao Quênia no início dos anos 1990 depois de uma violenta guerra civil destruir seu país, e então se estabeleceu em Nairóbi. Seus dois filhos biológicos vivem com familiares na Holanda, mas Said cuida de mais sete crianças, em sua maioria sobrinhos e sobrinhas.
Desde o ultimato queniano, o qual diz que os campos devem ser esvaziados até novembro, tem-se direcionado muita atenção a Dadaab, um complexo de cinco campos de refugiados interligados próximo à fronteira com a Somália. Mas o destino de centenas de milhares de outros somalis que se mudaram para áreas urbanas como Eastleigh, conhecida como Pequena Mogadishu, também está na corda bamba.
Vista geral do campo de refugiados de Daddab, no Quênia, o maior do mundo e que deve ser fechado até o final de 2016. Milhares de somalis devem ser deslocados novamente com o fechamento do campo. Crédito: ACNUR
O secretário do gabinete do Ministério do Interior do Quênia, Joseph Nkaissery, escolheu o início da Semana Mundial dos Refugiados para anunciar que os refugiados urbanos “devem se mudar para seus respectivos campos a fim de evitar conflitos com a lei”.
Um em cada dez refugiados quenianos foram documentados formalmente em Nairóbi e possuem o direito de viver na cidade, mas muitos deles são alvos de prisões arbitrárias, extorsões rotineiras e assédio policial.
Há um medo generalizado de que a notória Usalama Watch, em 2014 – na qual milhares de somalis foram alvo de uma batida policial, na tentativa de expulsar os refugiados da cidade –, se repita. Segundo o fiscal independente Human Rights Watch, tratou-se de uma operação violenta e indiscriminada, na qual muitas pessoas perderam suas casas e seus negócios, algumas foram estupradas e outras morreram.
“Sei que vamos sofrer”, disse Said. “Ninguém defendeu aqueles que morreram em 2014, aqueles que perderam pés ou mãos, empregos, familiares. Isso foi esquecido. Por favor, por favor, não queremos que aquilo se repita”.
Os oficiais de segurança quenianos insistem que as comunidades de refugiados e os acampamentos nas cidades têm sido usados como fachada pela al-Shabaab, milícia islâmica extremista que controla partes da Somália do Sul e Central. O governo alegou que o Dadaab perdeu seu “caráter humanitário e de civilidade”, mas não mostrou evidências que sustentassem sua afirmação.
Ativistas, incluindo Said, argumentam que os refugiados têm enorme interesse em manter a paz e extirpar os extremistas. Muitos deles fugiram de regiões controladas pela al-Shabaab para evitar que seus filhos fossem recrutados.
A participação somali em esforços como Nymuba Kumi, no qual um monitor de segurança voluntário é encarregado de 10 residências, atesta essa determinação. “Estamos prontos para nos envolver com o governo e ajudar a resolver qualquer problema de segurança”, insistiu Said.
O assédio policial, o fechamento parcial do DRA e o consequente discurso xenófobo paralisaram comunidades inteiras, principalmente recém-chegados que ainda não possuem documentos.
Longe de ser um fardo para a segurança, a comunidade de refugiados contribuiu economicamente com o Quênia, argumentam especialistas. Um relatório conduzido pelo Life and Peace Institute descobriu que os somalis étnicos tinham investido US$ 1,5 bilhão na economia em Eastleigh e representam 25 por cento da receita fiscal anual de Nairóbi. “Junto com quenianos locais, refugiados ajudam a movimentar a economia”, concluiu.
A dimensão do complexo Dadaab, que abriga quase 330 mil refugiados, o credita como o terceiro maior assentamento no Quênia. Bilhões de dólares em financiamento internacional para apoiar o Dadaab criaram 10 mil empregos para quenianos na região, bem como um sistema de serviços de apoio.
“Nós pagamos impostos, trabalhamos duro. Aprendemos com os quenianos, mas ainda assim contribuímos e ensinamos a eles”, disse Said.
Conforme muitos membros da comunidade se mantêm em uma tensa vigília para verificar se o governo queniano cumprirá o que afirmou em seus pronunciamentos públicos, Said teme que alguns optarão pelo difícil e ilegal caminho para a Europa, escolha que ele chama de “missão suicida”.
A quantidade de pessoas deslocadas vivendo em condições desesperadoras dentro das fronteiras somalis já soma 1 milhão, e não há sinal de que a longa guerra entre o governo do país, apoiado pelos Estados Unidos, e a al-Shabaab vá terminar. Nos últimos anos, assim como a guerra, secas persistentes levaram a uma fome que matou centenas de milhares de pessoas.
Eastleigh é o ponto de partida principal para os somalis que fazem jornadas com alto risco de morte cruzando o Saara, em direção ao Mar Mediterrâneo. Somalis são, sistematicamente, um dos maiores contingentes dessas pessoas desesperadas.
“Os refugiados estão indo para a Europa [partindo de Eastleigh]. Conhecemos pessoas que morreram. Ninguém quer arriscar ser morto por uma bala, mas eles arriscam morrer no mar”, disse Said.
“Fugir da sua morte para mover-se em direção a ela é uma decisão; é morrer com liberdade e com a esperança de alcançar a segurança. Isso é ser humano.”
O nome verdadeiro de Said Abdullah foi omitido para preservar sua segurança.
Angela Wells é escritora e oficial de comunicação do Leste Africano para o Jesuit Refugee Service, que vem trabalhando junto com refugiados no Quênia desde 1991.
Pokémon vira meio para denunciar e sensibilizar o mundo sobre a realidade das crianças sírias.
Crédito: RFS
Crédito da imagem: RFS
Fotos de crianças sírias com monstrinhos do desenho Pokémon viralizaram nas redes sociais nesta semana. As imagens são parte de uma campanha lançada pelo RFS, grupo de oposição ao regime sírio, para chamar a atenção para o sofrimento que as crianças enfrentam, seja em meio à guerra, seja nos campos de refugiados.
As imagens mostram crianças sírias segurando cartazes com uma das criaturas imaginárias e uma mensagem pedindo ajuda. “Eu sou de Kafranbel, salvem-me”, diz um dos cartazes com o Pikachu. Artistas sírios em outros países também têm endossado a campanha, inseridos Pokémons chorando ao lado de ruínas ou de extremistas.
Um dos responsáveis pela campanha disse ao jornal britânico The Independent que “a cobertura midiática sobre o jogo os fez publicar as imagens para destacar o sofrimento do povo sírio por causa dos bombardeios comandados pelo presidente Bashar al-Assad”.
As circunstâncias nas quais as fotos foram feitas não estão totalmente claras. Segundo a BBC Brasil, o RFS ainda não respondeu um pedido para comentar sobre a nova campanha.
Segundo cifras da entidade Save the Children, nos últimos cinco anos quase 12 mil crianças foram mortas e mais de 2,3 menores foram obrigados a deixar o país. O total de mortos pela guerra no país, que se arrasta desde 2011, já passam de 250 mil. E segundo o ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, mais da metade da população síria foi deslocada para fora ou dentro das fronteiras do país por conta do conflito.
Sofrimentos e dores além da Síria
O ACNUR tem ainda outros dados alarmantes. De acordo com o relatório anual Global Trends (acesse aqui), em 2015, o número de crianças e jovens com menos de 18 anos correspondiam a 51% do número total de refugiados, sendo que quase cem mil estão desacompanhadas ou separadas de suas famílias. Este cenário pode ser ainda pior para o ano de 2016: o relatório “Danger every step of the way” da Unicef (acesse aqui), publicado recentemente, demonstra que mais de 92% das 7.567 crianças que cruzaram o Mediterrâneo com destino à Itália entre 1º de janeiro e 31 de maio de 2016 estavam desacompanhadas.
A infância roubada pelos conflitos mundo afora também transforma crianças em soldados, escravos sexuais e braçais. Ela também corre grande risco de ser perdida nas longas e perigosas travessias feitas por migrantes no mundo inteiro por uma série de razões – em mares, desertos, montanhas, entre outros. O caso do menino Aylan, embora tenha comovido o mundo em setembro de 2015, continua a se repetir aos montes, sem gerar a mesma comoção internacional e impacto que poderiam impulsionar mudanças.
A mensagem por trás dos retratos, compartilhados milhares de vezes – e que, ainda por cima, vão além das fronteiras sírias, é: se você pode passar tanto tempo tentando capturar uma criatura fictícia em um jogo, então por que você não pode fazer mais por crianças que estão crescendo em meio a uma guerra?
Artistas imigrantes seguem na luta para serem ouvidos e valorizados pela Secretaria de Cultura de São Paulo.
Crédito: Waldor Botero
Diálogo promovido para aproximar poder público e imigrantes mostra que caminho ainda é longo, mas deverá ser percorrido
Com colaboração de Cristina de Branco
Foto de Waldor Botero
Artistas e coletivos culturais imigrantes de São Paulo estiveram reunidos com a Secretaria Municipal de Cultura no último dia 11 na Galeria Olido, região central da cidade. O objetivo do encontro, que teve mediação da Coordenação de Política para Imigrantes (CPMig) da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), era aproximar a pasta da Cultura e os imigrantes que já atuam com produção cultural.
Estiveram presentes brasileiros e imigrantes de 13 nacionalidades, individualmente ou representando coletivos culturais: Grupo Folklorico Kantuta Bolívia, Latam Esquad, Bolívia Cultural, PAL (Presença América Latina), GRIST (Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto), Visto Permanente – Acervo Vivo das Novas Culturas Imigrantes, Equipe de Base Warmis – Convergência de Culturas, Muxima na Diáspora, Microcine Migrante, MiLuta, Surprise 69, BibliASPA, La Puerta del Sol, ACFBB (Associação Cultural e Folclórica Bolívia Brasil), entre outros.
A reunião teve início com a apresentação do Núcleo da Cidadania Cultural pela secretaria e seus programas – Programa VAI, agente comunitário de cultura, Pontos de Cultura, Programa Aldeias, parcerias e articulações. “A nossa proposta é apresentar o que já existe”, disse Harika Maia, coordenadora do VAI, que classificou o encontro como um “primeiro passo para a aproximação” dos artistas, agentes e coletivos culturais imigrantes à secretaria.
A postura desagradou parte dos imigrantes presentes, que pautaram o desconhecimento por parte da secretaria dos projetos realizados pelos coletivos e agentes culturais imigrantes e dos resultados já obtidos. Outro grupo queria primeiro acompanhar a apresentação proposta pela Secretaria de Cultura para depois se manifestar.
“Vocês só recebem se for do jeito de vocês. Para fazer algo sobre nós, para pensar na gente, temos que estar dentro, é para sentarmos juntos e não vocês aí de fora”, disse o ator e cineasta haitiano Patrick Akon, que estava entre os imigrantes descontentes com a pauta proposta pela secretaria.
Durante a apresentação dos programas da Cidadania Cultural foram referidos várias pontuações interessantes à questão cultural imigrante: não existe Ponto de Cultura que desenvolva atividades voltadas às comunidades imigrantes, nem geridos por imigrantes; não existem também agentes comunitários de cultura que sejam imigrantes, e a primeira presença imigrante nos projetos selecionados pelo VAI foi registrada em 2010.
Ainda sobre o VAI, programa de maior proximidade imigrante à pasta da Cultura, também foi constatado que, apesar da sistematização de dados sobre a presença imigrante de proponentes e inscritos selecionados ter começado a ser realizada a partir de 2015, foi apenas em 2016 que a palavra “imigrante” foi incluída no regulamento do Programa. Apesar disso, neste ano, o número de projetos imigrantes aprovados diminuiu em relação à 2015 – apenas um projeto de proponente imigrante foi selecionado no VAI I.
Questionando alguns dos requisitos burocráticos de acesso aos programas apresentados, Jennifer Anyuli, imigrante colombiana, integrante do Microcine Migrante e do coletivo MiLuta, ressaltou que os imigrantes não cabem nas definições de marginalidade e de periferia estabelecidas pela pasta. “Vocês nem se dão conta de que, querendo incluir, acabando também excluindo, excluindo os imigrantes e refugiados de muitas ações da Secretaria de Cultura”.
Para Guilherme Otero, da coordenação de políticas para imigrantes, o diálogo entre a pasta da cultura e os imigrantes ainda está muito atrasado. “O diagnóstico é muito claro, não avançou”.
Próximos passos
Apesar do distanciamento ainda evidente entre secretaria e coletivos imigrantes, a reunião terminou com encaminhamentos que podem gerar uma maior proximidade entre os dois lados em um futuro breve.
– No dia 21/07, às 18h, no auditório da SMC, será realizada uma capacitação voltada a imigrantes para o Edital dos Agentes Comunitários de Cultura;
– SMC e SMDHC irão levar as discussões deste encontro aos respectivos gabinetes, propondo uma agenda conjunta e propositiva com a presença dos secretários;
– Coletivos e artistas presentes aprofundarão o debate e organizarão pautas e demandas para apresentar às Secretarias.
Samira* fugiu da guerra na Síria com a família e espera voltar à terra natal um dia.
Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Este é a primeira parte do Especial Anônimas, uma série de cinco perfis de mulheres refugiadas que vivem em São Paulo. Os textos foram feitos pela jornalista Lu Sudré, mais nova colaboradora do MigraMundo, para o livro “Anônimas”, publicado por ela como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo da PUC-SP, em 2015. As histórias e imagens foram cedidas com exclusividade para o MigraMundo.
Nas próximas semanas a série vai trazer outras histórias de mulheres refugiadas que lutam para reconstruir as próprias vidas longe da terra natal. Os nomes das personagens são fictícios, para preservar a identidade de cada uma delas, ao mesmo tempo em que é possível abrir um pouco a mais a mente sobre as migrações a partir de seus relatos, dramas e superações.
Samira*: O amor por um país e o ódio por um ditador
Por Lu Sudré (texto e fotos)
Quem olha de longe, pelo portão, não tem a visão completa da cena e pode até achar que ela está impaciente, se movimentando de um lado para o outro. Mas, na verdade, está balançando um carrinho de neném. Arriscou parar algumas vezes, mas quando acontecia, em segundos o choramingo recomeçava. Com o balançar, não dava conta de segurar também as compras de supermercado. Falou algo para a pequena criatura em árabe e apesar de ninguém por ali entender o que foi dito, o tom maternal e carinhoso de sua voz foi decifrável em qualquer língua.
Espera chamarem seu nome na parte externa da Cáritas. Quer ajuda para saber como proceder para pedir permanência no país por filho brasileiro. Larga as sacolas entre as cadeiras de plásticos vermelhas – primeiro lugar que muitos refugiados descansam quando chegam por aqui. Sorri e diz bom dia para todos que entram, desde os funcionários aos refugiados africanos.
Sua roupa é diferente das outras mulheres do ambiente. Samira usa o hijab, vestimenta muçulmana, conhecida como véu pelos brasileiros. Não é possível ver seu cabelo, apenas sua pele branca e seus olhos castanhos, puxados na lateral e contornados com lápis de olho preto. A mulher, que está no país há um ano e quatro meses, já aprendeu bem o português. Entende e fala bem, mesmo com seu sotaque forte.
Ela e sua família estão entre os cerca de 2.000 sírios reconhecidos como refugiados que chegaram ao Brasil no período entre 2011 e segundo semestre de 2015, de acordo com dados do Conare. Quando começa a falar, faz a seguinte pergunta, quase automática, como um protocolo de apresentação: “Síria tem muita guerra, você sabe? Saí da guerra”.
Samira* fugiu da guerra na Síria e está reconstruindo a vida no Brasil. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
Há mais de 5 anos o mundo está atento às atrocidades que ocorrem na Síria. Durante a insurreição da Primavera Árabe, em 2011, período em que populações de países árabes como Egito, Líbia e Tunísia saíram às ruas para protestar contra os governos ditatoriais de seus países, o povo sírio foi protagonista de um levante contra o regime de Bashar Al-Assad. Sucessor de seu pai, Hafez Al-Assad, que governou a Síria por 30 anos até sua morte, Assad assumiu o governo nos anos 2000.
Pacífico nos primeiros meses, o levante sírio foi duramente reprimido pelos militares do governo. Muitos passaram a recorrer à luta armada, diante das milhares de mortes de civis e da repressão ditatorial de Assad. Bombardeios, ataques aéreos, torturas e assassinatos. A violência das forças de segurança levou a uma militarização gradual do conflito, que se intensificou ainda mais com o avanço da atuação do grupo extremista Daesh (que se autoproclamo Estado Islâmico), que cresce gradualmente no Oriente Médio a partir do recrutamento de jovens muçulmanos.
Temido mundialmente pela violência de seus métodos, o Daesh teve sua ascensão entre 2013 e 2014. Estabelecia relações com a organização terrorista Al-Qaeda, no Iraque, mas no início de 2015, os dois grupos romperam laços. Em junho do mesmo ano, os extremistas declararam um califado – forma islâmica monárquica de governo – e mudaram de nome para o Estado Islâmico (EI ou Isis, na sigla em inglês). De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), desde que o país entrou em guerra civil, com rebeldes lutando contra as tropas governamentais e a ascensão de grupos extremistas islâmicos, o conflito já deixou mais de 240 mil mortos, incluindo mulheres e crianças.
A intervenção de forças militares da França, Rússia e Estados Unidos tornaram mais grave a situação. A perseguição destes países ao Estado Islâmico também deixa vítimas, igualmente à repressão ditatorial de Assad e aos atentados do Daesh. Em dezembro de 2015, a Agência France Presse, reconhecida internacionalmente, noticiou que as grandes potências em questão testavam armas bélicas no território sírio. A guerra contra o terrorismo, terrorismo fomentado pelos mesmos países que bombardeiam o país, é algo sem precedentes. Samira é muçulmana, mas não concorda com os princípios do Daesh, como o grupo é conhecido em árabe.
“Eles querem matar. São Daesh, não muçulmanos. Eles matam mulheres como eu. Matam crianças. Matam mulheres que não rezam, homens que não fazem jejum”. Intrigada, abre o navegador de pesquisas de internet no celular e mostra imagens do grupo extremista armado, pra ficar bem clara sua diferenciação em relação a eles.
Se recusa a falar sobre Bashar Al Assad. Fica em silêncio. Não tem confiança para falar sobre os traumas que ele lhe causou. Diz, repetidamente, que a luta do povo sírio é por liberdade e é isso que todo o mundo deve saber. Morava em Daraa, cidade do sudoeste da Síria, próxima das fronteiras com a Jordânia, Líbano e Israel. As primeiras grandes manifestações antigoverno aconteceram em Damasco, capital da Síria, Aleppo e no sul da cidade de Samira, onde foram registrados os primeiros confrontos violentos entre manifestantes e milícias pró-governo.
“Não tem mais nada na Síria. Não tem trabalho, não tem casa, não tem paz. O povo está sofrendo”, diz com pesar. O sotaque árabe pesa as palavras ainda mais, que às vezes precisam ser repetidas em português para serem melhor compreendidas. Daraa se tornou uma cidade sitiada, em que as forças do governo confiscou suprimentos vitais, como água e eletricidade.
Todos os dias Samira ia até a cidade de Damasco de carro com seu marido. Ele trabalhava como designer gráfico. Ela, professora de inglês e de computação para crianças. O casal tem duas filhas, uma de cinco anos e uma bebê que nasceu aqui no Brasil, em junho de 2015. Lá, moravam o casal e sua filha mais velha, mas o resto da família, como seus pais, ambos com 80 anos, moram em Damasco. A família, outrora tão perto, agora está mais distante do que nunca.
Samira, sua filha e seu marido, fazem parte dos milhares de pessoas que perderam suas casas por conta da guerra, considerada pela ONU a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. “Estávamos dentro da casa quando ela foi bombardeada. Era umas oito horas da noite. A bomba caiu no quintal, mas a casa foi totalmente destruída. Fugimos para a rua”. Cômodo por cômodo, a casa desmoronou.
Milhões de pessoas deslocaram-se forçadamente do território Sírio para os países vizinhos. Segundo o Acnur, nos últimos quatro anos, cerca de 1.9 milhão de sírios chegaram à Turquia. No Líbano foram 1,1 milhão, e na Jordânia, 629,6 mil. Junto com seu marido e sua filha, que na época tinha dois anos, se refugiou na Jordânia. Passou um ano e oito meses no campo de Zaatari, a menos de vinte quilômetros da fronteira com a Síria.
De acordo com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), mais de cem mil sírios vivem neste local e as situações são precárias, o que Samira confirma enquanto põe sua filha recém-nascida para dormir em seus braços. “Tínhamos muito pouca comida e nenhum dinheiro. Os sírios não podem trabalhar na Jordânia. Não pode comprar uma casa, não pode fazer nada. Os policiais dizem: ‘Você é síria? Então fora, não pode trabalhar’. Os países árabes não falam ‘‘sejam bem-vindos’’ para os refugiados, só o Brasil.”
Parte da família de Samira continua na Síria. Crédito: Lu Sudré/Especial Anônimas
A família de Samira continua na Síria. Suas três irmãs e seu irmão estão casados e moram em Damasco, próximo aos pais. Sempre que pode, manda foto da nova integrante da família, a primeira brasileira, para que todos acompanhem seu desenvolvimento. Ela sabe que eles não estão bem. Mesmo com o perigo eminente, não querem sair do país. Seus pais, já de idade, é quem mais preocupa Samira. Eles não aguentariam viver no campo de refugiados e passar por todas as dificuldades até chegarem a um território seguro. Dizem que enquanto tiverem uma casa, não sairão. Claro que se negar a sair da Síria não é apenas sobre a casa, e sim abrir mão de uma vida inteira, algo muito mais complexo do que apenas um imóvel.
Em Damasco, a eletricidade é fornecida duas horas por dia. O Daesh bombardeia as centrais de energia e quando não, o governo Assad corta o fornecimento. Samira é interrompida enquanto fala sobre a felicidade que seria ter seus pais por perto. Mas não é interrompida por alguém ou por algum barulho externo, e sim pela sua própria voz embargada. Não consegue terminar suas frases, não conjuga os verbos. O choro entalado é mais potente do que sua vontade de falar. “O Brasil é bom, mas minha família é tudo. Minha família. Minha casa. Meu país. Eu gosto de tudo. Eu não vou conseguir falar. Todo mundo amor seu país. Eu amor Síria!”
Precisa de alguns segundos para se recompor. Pede para sua filha Maria que busque um lenço. Seca suas lágrimas, compostas por uma mistura entre saudade e sofrimento. “Eu amo a Síria, muito, mas não vou voltar. Odeio Bashar Al Assad. Odeio tudo que ele fez com a Síria. Se ele estiver fora da Síria, eu volto.”
Enquanto estava em Zaatari, seu marido decidiu solicitar refúgio no Brasil. A primeira coisa que fez foi ir até a Mesquita do Brás, pedir ajuda à comunidade muçulmana. Foi um grande alívio encontrar outras pessoas que falavam árabe. Em cinco dias conseguiu emprego com uma libanesa que mora no Brasil há dez anos. Depois de um mês, Samira e sua filha também vieram. Chegaram dia 20 de fevereiro, em 2014.
Atualmente moram no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. Sobrevivem dos trabalhos do homem da casa como design de etiquetas de pequenas fábricas de roupa. No tempo livre, produz flyers e cartões de visita como freelancer, material que Maria mostra com orgulho. Moram de aluguel em um apartamento antigo, com dois quartos, sala, banheiro e cozinha pequena. São poucos móveis. Na sala, uma rack com televisão, uma mesa de quatro lugares e um sofá.
Os brinquedos de Maria, espalhados pela casa, passam a fazer parte da decoração. A pequena senta na cadeira enquanto a mãe fica na cozinha e o cheiro de café se espalha pelo ambiente. Logo as xícaras estão em cima da mesa e dentro delas só resta o pó de café que não fora coado, como é feito na Síria. Forte e sem açúcar.
O dia a dia de Samira, com 34 anos, se resume a cuidar da casa e de suas filhas. Uma vez por semana ela e sua família vão à Mesquita. Sente saudades das aulas de português que frequentava no Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado), a quem é muito grata por ter aprendido a língua, maior dificuldade quando chegou aqui.
Engravidou após quatro meses no Brasil. Deu a luz no Hospital Municipal Dr. Ignácio Proença de Gouveia, na Rua Juventus, também no bairro da Mooca. Tudo correu bem, tirando o fato que as enfermeiras não sabiam falar inglês, o que dificultou a comunicação. Mas Samira não reclama. Sabe de outras mulheres sírias que não sabem falar inglês, o que piora muito a situação de refúgio.
Pelo menos durante um ano não poderá procurar emprego para cuidar da filha. É difícil achar vaga em creche pública e já teve sorte suficiente para encontrar uma vaga para Maria em uma escola municipal. Tem planos de procurar emprego como professora. Quer ensinar inglês para crianças árabes, assim como o português que sabe. Infelizmente, não poderá pedir a renovação de seu diploma porque ele se perdeu quando a bomba atingiu sua casa.
Além do Adus, participa de ações da organização não-governamental Eu Conheço Meus Direitos (I Know My Rights – INMR), que trabalha especificamente com crianças refugiadas. Troca expressões em árabes com Maria, pede para que ela se comporte enquanto sua irmã está dormindo. A menina, que acabara de perder um dente de leite mais cedo naquela manhã, aprendeu a fazer colares e pulseiras de miçangas na escola. Vai fazer um estoque de bijuterias para irmã brasileira, faz questão de enfatizar, usar quando crescer.
Em casa, Samira não usa a jihab. Foi um choque quando chegou ao país e viu a diferença de comportamento e vestimentas das mulheres ocidentais com as mulheres do oriente, mas já se acostumou. Explica que principalmente durante o período menstrual as muçulmanas devem usá-lo. “Se não usamos os homens ficam olhando. Isto não é uma coisa boa para meu Deus. Eu gosto de usar. Mas não tenho nada contra quem não usa. Minha professora do Adus, por exemplo, é evangélica e somos amigas até hoje.”
Além da visita semanal à Mesquita, a família tem também um passeio obrigatório: Todos os domingos vão à feira. Maria ama maracujá, mamão e outras frutas típicas de países tropicais. Mas a comida brasileira preferida é o pão de queijo e o brigadeiro. “Muito delícia!”, diz a menina, animada. Samira tem o costume de cozinhar comida síria. No Brás tem muitos restaurantes libaneses e sírios onde ela pode comprar os ingredientes. “De vez em quando vamos ao centro. Aí comemos Shawarma, minha comida preferida. É um pão sírio com carne e legumes. Eu amo.”
Apesar da situação de solicitante de refúgio, Samira e Maria demonstram carinho pelo Brasil. A menina assiste desenhos em português e Samira tenta acompanhar a novela à noite, enquanto o marido não chega. O hobby preferido de mãe e filha é escutar músicas brasileiras. “Mas são músicas antigas”, explica Samira. Antes da mãe terminar a frase, Maria já havia começado a dar uma palhinha de sua música preferida. As vozes das duas se juntam. Erram o ritmo, erram a letra, mas aos poucos, a melodia sai. “Não posso ficar nem mais um minuto com você. Sinto muito amor, mas não pode ser”. A continuação da música dos Demônios da Garoa, que seria “Moro em Jaçanã”, é substituída por uma crise de riso das duas. E um pouco de vergonha também.
Pela televisão, conheceram as praias de Santa Catarina e do Rio de Janeiro. O sonho de Samira é poder viajar para esses dois lugares. Já foram para Santos e para o parque que Maria chama de Parapuera (Ibirapuera). Conversavam descontraídas, fazendo planos e pensando em lugares para conhecer, quando barulhos de fogos de artifício começaram a estourar, prática comum em São Paulo, principalmente em dia de jogo, como era aquele sábado.
Não seria nada demais, caso não fosse a reação de Maria. Instantaneamente, se agachou no chão. Suas pequenas mãos tamparam seus ouvidos. Samira a chamou. No segundo “Maria!”, levantou-se e foi até o colo da mãe. “Maria tem medo do barulho dos fogos. É igual ao da bomba, é o mesmo som. Ela só tinha dois anos quando saímos da Síria”, conta a mãe, enquanto afaga e acalma a filha.
A cena é de cortar o coração. Samira diz que vai procurar ajuda psicológica para a filha, mas que ela está bem na escola, só não se acostumou com os barulhos dos fogos por ainda ser pequena para entender que não são bombas. Para esta família, assim como tantas outras, a Síria pode estar longe, mas, ao mesmo tempo, está muito perto. “Eu tenho fé que a guerra na Síria vai cessar. Eu não sei quando, é imprevisível. Os outros países não ajudam. Israel, por exemplo, gosta de Bashar Al Assad. Sinto que perco alguém da minha família toda vez que um sírio morre.”
O projeto abraço Cultural oferece cursos de idiomas ministrados por refugiados.
Crédito: Ilana Goldsmid/Abraço Cultural - mar.2016
Foto da capa: Ilana Goldsmid/Abraço Cultural
Aprender um idioma diferente do português é de grande importância no mundo globalizado de hoje, e melhor ainda é aprender sobre uma nova cultura a partir desse estudo. E em São Paulo é possível unir ambos a partir das aulas de idiomas ministradas por refugiados que vivem no Brasil.
Pelo menos três instituições com histórico reconhecido na atuação com refugiados e imigrantes oferecem esses cursos. E ao mesmo tempo em que brasileiros podem aprender a língua e a cultura dessas pessoas de outros países, tais cursos permitem ainda um empoderamento daqueles que estão longe da terra natal. Os imigrantes e refugiados que ministram os cursos são remunerados a partir dos valores investidos pelos alunos nos cursos, gerando renda e contribuindo para a inserção econômica de cada um deles no Brasil.
Veja algumas dessas possibilidades, oferecidas especialmente por três entidades já reconhecidas pelo trabalho com refugiados e imigrantes: BibliASPA, Adus e Abraço Cultural:
BibliASPA
A BibliASPA é um instituto de estudos criado com o objetivo de promover reflexão crítica sobre povos árabes, africanos e sul-americanos por meio da pesquisa, produção e difusão cultural. Um desses caminhos são os cursos de idiomas, que existem de duas formas: os de português, para refugiados; e os cursos de idiomas (inglês, francês, espanhol e árabe) ministrados pelos próprios refugiados para brasileiros, a partir da cultura de cada um deles.
As turmas do intensivo de julho já estão em curso, mas há vagas para os cursos extensivos, que começam a partir de 13 de agosto e vão até início de dezembro. O investimento total é de R$ 700, que podem ser pagos em 2 parcelas de R$ 375 cada.
Mais informações podem ser obtidas no site da BibliASPA.
O Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado – promove o ConectAdus, iniciativa destinada a promover capacitação e renda pelo ensino de línguas. Uma equipe de professores dará aulas de inglês, francês e árabe, dos níveis básico ao avançado.
As aulas acontecerão na sede do Adus, no Centro de São Paulo, de segunda a sábado. As turmas regulares deverão contar com até 12 alunos, de acordo com o calendário do semestre letivo, com quatro horas de aulas por semana. O investimento nos cursos é de R$ 1.125,00, montante que pode ser pago à vista, com 10% de desconto, ou dividido em cinco vezes sem juros – o que corresponderia a uma mensalidade de R$ 225. Haverá teste de nível antes do início das aulas para que as turmas sejam formadas de maneira adequada e o número de vagas é limitado.
O Adus também permite a realização de cursos particulares presenciais ou via Skype, além de formatos diferenciados para empresas interessadas em investir no ensino de idiomas para seus colaboradores.
Maiores informações sobre as matrículas e outros dados dos cursos e do projeto ConectAdus podem ser vistos no site do Adus – http://www.adus.org.br/idiomas/
Abraço Cultural
O Abraço Cultural começou em 2015, focado na proposta de aproximar refugiados e brasileiros por meio de cursos de idiomas e do intercâmbio entre culturas a partir dessas aulas. Desde então são cerca de 20 professores de diferentes nacionalidades que foram treinados pela equipe pedagógica do Abraço, que também desenvolveu um material didático próprio.
As matrículas para o segundo semestre já estão abertas. Para quem se matricular até 2 de agosto o valor total fica em R$ 840 (se ex-aluno do Abraço) ou R$ 1.080, para novos alunos. A partir de 3 de agosto o preço total do semestre vai para R$ 1.200 – nos dois casos é possível parcelar em 4 vezes. Também é possível fazer investimento à vista de R$ 1.020 pelo semestre (se não for ex-aluno do programa).
As aulas acontecem em uma das unidades do Abraço em São Paulo – o local varia de acordo com o curso. Para fazer a matrícula ou obter maiores informações basta acessar o link abaixo:
BibliASPA
Rua Baronesa de Itu, 639 – Santa Cecília, São Paulo (SP)
Próxima à estação Marechal Deodoro do metrô
Informações: (11) 99609-3188 (celular e WhatsApp) e bibliaspa@gmail.com
ConectAdus – Aulas de inglês, francês e árabe ministradas por refugiados (Adus) Avenida São João, 313, 11º andar – Centro, São Paulo (SP)
Informações: http://www.adus.org.br/idiomas/ e (11) 3225-0439 / (11) 94744-2879
Abraço Cultural Rua Teçaindá, 81 – Pinheiros, São Paulo (SP)
Próxima à estação Fradique Coutinho do metrô
Informações: Mari Garbelini – (11) 99138-9220 e mari.garbelini@atados.com.br Carolina Teixeira – (11) 94119-1141 e carolina@atados.com.br