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Migrantes devem deixar ponte no Acre por conta própria nesta semana; Justiça autoriza desocupação

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Imigrantes na ponte que liga Assis Brasil a Iñapari, no lado peruano
Imigrantes na ponte que liga Assis Brasil a Iñapari, no lado peruano. (Foto: Virginia Berriel/CNDH)

Por Rodrigo Veronezi
Atualizado às 12h15 de 8.mar.2021

De forma espontânea, os migrantes que estão na ponte que liga o Brasil ao Peru devem deixar a via nesta semana, provavelmente já na próxima terça-feira. O final do protesto, que ocorre pelo menos desde o dia 14 de fevereiro, foi informado ao MigraMundo por uma fonte que está acompanhando a situação na fronteira, no estado do Acre.

De acordo com as pessoas ouvidas pelo MigraMundo, há duas certezas em relação ao impasse: o governo peruano não vai abrir a fronteira e a ponte será desocupada.

A tendência se reforça, uma vez que a Justiça deferiu nesta segunda-feira (8) o pedido de reintegração de posse da ponte, feito pelo governo federal. A solicitação foi feita no último dia 26 de fevereiro.

A Justiça, no entanto, cobrou da União quais providêncis haviam sido tomadas até então quanto à assistência ao grupo.  E também a definição de um plano de ação humanitário — antes, durante e após eventual desocupação da ponte.

Uma resposta humanitária efetiva para a questão também é cobrada por instituições como a Defensoria Pública da União (DPU) e o Ministério Público Federal (MPF), que se posicionam contra a reintegração de posse sem tais garantias.

Na decisão desta segunda, o juiz Herley da Luz Brasil, da 2ª Vara Federal Cível e Criminal da SJAC, deferiu o pedido da União. Ele considerou que o poder público, tanto local quanto federal, tem demonstrado boa vontade com os migrantes que estão em Assis Brasil. E que a abertura da fronteira é uma questão de soberania do governo peruano, que se coloca irredutível quanto ao assunto.

Em torno de 60 pessoas ainda ocupam a ponte. Parte delas se reveza com outras que ficam em alojamentos improvisados pela Prefeitura de Assis Brasil em escolas públicas.

Ao mesmo tempo, nota-se uma dimunição no fluxo de migrantes em Assis Brasil, que fica no lado brasileiro da fronteira: embora ainda cheguem pessoas à cidade com a esperaça de cruzar para o lado peruano, parte delas já faz o caminho inverso, deixando o Acre.

Diálogo para solução pacífica

Nos últimos dias, representantes do poder público e da sociedade civil, como o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), DPU e Ministério da Cidadania, realizaram uma série de reuniões e visitas de campo para conhecer a real condição dos migrantes em Assis Brasil. Tais missões visam preparar o ambiente para uma solução pacífica e humanitária na região.

“[Os migrantes] Não passarão e terão de sair de lá. Temos de monitorar a situação pra garantir que não haja truculência. Tem que ter um olhar humanitário sobre essas pessoas”, aponta Virginia Berriel, uma das representantes da CNDH que esteve no Acre.

A insatisfação de caminhoneiros dos dois lados da fronteira com o fechamento da ponte, além da autorização do governo federal para uso da Força Nacional de Segurança Pública deixaram no ar um clima mais pesado. Virginia, no entanto, pondera que a cidade de Assis Brasil, apesar da pouca estrutura e da situação adversa vivida pela região, não adota uma postura de repulsa em relação aos migrantes.

Segundo pessoas que estão atuando na região de fronteira e que falaram extraoficialmente ao MigraMundo, o compromisso da União é trabalhar junto com a Prefeitura de Assis Brasil para ajudar em eventuais retornos, com compra de passagem de onibus e insumos em geral.

Conscientização

Além de garantir que a questão na fronteira tenha o melhor desfecho possível, há também uma preocupação das partes com um cenário pós-desocupação. Isso porque o Acre é um local de passagem de migrantes que visam entrar ou sair do Brasil — independete da situação de pandemia.

 “Fizemos uma reunião muito positiva com a sociedade civil, em que foram apresentadas as principais demandas de assistência social do município. Tivemos um diálogo produtivo de buscar alternativas e ficou muito evidente a necessidade de investimento de longo prazo na região de Assis Brasil”, apontou João Chaves, coordenador do Grupo de Trabalho Migrações, Apatridia e Refúgio da DPU. 

Com as informações colhida ao longo da semana, o CNDH deve se reunir e apresentar recomendações ao governo federal para lidar com a questão na fronteira — com ou sem desocupação. Uma delas é a criação de uma campanha de conscientização sobre os riscos que uma saída do Brasil representa no atual momento.

“Tem que ter uma campanha informativa grande. Se não tivermos essa iniciativa, esse processo vai continuar. Temos que trabalhar com prevenção, explicando. As pessoas têm como ter acesso à informação”, pontua Berriel.

A DPU também tem feito ações que visam expor aos migrantes os riscos de tentar viajar pelo continente em meio à Covid-19. A viagem, que já é penosa e incerta em condições normais, ganha ares “de loteria” em um conteto de pandemia.

Mesmo assim, Berriel pondera que esse sentimento de “passar para o outro lado” ainda é forte em parte dos migrantes.

“A perspectiva e a esperança deles é de uma esperança, uma vida melhor no Canadá ou EUA. Alguns deles não têm mais nada, venderam tudo.  É preciso ter uma preocupaçaõ do governo brasileiro”.

Embora o pensamento primário continue a ser o de passar para o outro lado da fronteira, parte do grupo já reavalia a estada no Acre e tenta, dentro do possível, outras alternativas.

Delas, duas se destacam, de acordo com pessoas ouvidas pelo MigraMundo: retornar para as cidades onde viviam antes da tentativa de cruzar a fronteira; e tentar a saída do Brasil por meio de outra região.

Ponto de passagem

O Acre ficou conhecido na última década como ponto de entrada no Brasil da migração haitiana, especialmente entre 2010 e 2015. Nos anos seguintes, o estado se consolidou como um local de passagem de imigrantes: tanto são verificados aqueles que deixam o Brasil para outros países quanto outros que fazem o caminho inverso, de ingressar no território brasileiro.

Em meados de 2020, ganhou destaque a situação vivida por imigrantes, em sua maioria venezuelanos, que acamparam sob chuva e sol na ponte que liga Peru e Brasil, na esperança de solicitar refúgio em território brasileiro.

A situação na fronteira mobilizou entidades da sociedade civil e a Defensoria Pública da União, que protocolaram ações junto à Justiça brasileira em favor dos imigrantes. Um tipo de ação que não é possível no atual contexto, uma vez que o desejo do grupo em Assis Brasil é de ingressar no Peru para seguir viagem pelo continente.


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O que os acontecimentos no Acre mostram sobre as migrações no Brasil, segundo pesquisadora

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Policiais peruanos bloqueiam ponte que liga o Peru ao Brasil, na qual imigrantes acampam em protesto
Policiais peruanos bloqueiam ponte que liga o Peru ao Brasil, na qual imigrantes acampam em protesto. Grupo deseja entrar no Peru para seguir viagem pelo continente. (Foto: Diego Gurgel/Secom-AC)

A questão recente na fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia voltou a colocar o Acre em destaque quanto às migrações no país. No entanto, não é de hoje que o estado se tornou ponto de passagem de migrantes que chegam ao Brasil e saem dele em direção a outros países. Ao mesmo tempo, também ajuda a entender a situação precária vivida por migrantes em situação de vulnerabilidade.

Essas e outras nuances do movimento migratório atual brasileiro são abordadas na entrevista abaixo por Letícia Mamed, professora de Teoria Social/Sociologia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal do Acre (UFAC), que acompanha de perto a questão na fronteira.

A pesquisadora contextualiza o Acre dentro do cenário brasileiro e pan-americano sobre migrações, e também critica as barreiras seletivas ao deslocamento de pessoas em meio à pandemia.


MigraMundo: Há quanto tempo tem ocorrido esse movimento em especial de pessoas tentando passar do Acre para o outro lado da fronteira?

Letícia Mamed: No ano de 2010, quando houve a abertura da rodovia Interoceânica, que corta a tríplice fronteira composta por Brasil, Bolívia e Peru, justamente pelo território do Acre, essa região passou a fazer parte do ecossistema das rotas internacionais de imigração.

Até 2014, o principal movimento observado nela era o de entrada de imigrantes caribenhos, africanos e asiáticos no Brasil, atraídos pelo momento de crescimento da economia brasileira, com significativa oferta de empregos, especialmente nos setores do agronegócio, construção civil e serviços. Já a partir de 2015, com a crise econômica e política instalada no país, um outro movimento passou a ser notado nessa fronteira: o de saída desses imigrantes.

Assim, além de porta de entrada de caribenhos, africanos e asiáticos, o Acre converteu-se, também, em porta de saída daqueles que decidiram retornar ao seu país de origem ou a experimentar outros destinos migratórios, como Peru, Argentina, Chile, Colômbia, Estados Unidos ou Canadá. Quando questionados sobre esse novo movimento, os imigrantes explicam que a decisão de regressar ao Acre acontece porque já possuem conhecimento da rota e ela se apresenta como opção mais econômica a eles. Dessa forma, optam por retomar o mesmo caminho, mas em sentido inverso ao de entrada, acionando novas ou antigas redes, renovando ou não mecanismos de endividamento, para então sair do Brasil.

Atualmente, portanto, pelas fronteiras amazônicas do Acre são observados esses dois movimentos: de ingresso e/ou de saída de imigrantes, que se acentuam ou regridem a depender das mudanças sucedidas no contexto socioeconômico nacional e internacional.

Imigrantes acampados na Ponte de Integração, em Assis Brasil (AC)
Imigrantes acampados na Ponte de Integração, em Assis Brasil (AC). (Foto: Divulgação/Caritas)

O que tal situação na fronteira Brasil/Peru/Bolívia mostra sobre a mobilidade humana em meio à pandemia?

Considerando que a crise global de saúde exacerbou desigualdades sociais, em termos de renda, gênero e raça/etnia, a mobilidade humana também foi diretamente impactada. Esse contexto tem mostrado que mobilidade não é sinônimo de liberdade e autonomia, e principalmente, tem evidenciado que nem todas as pessoas desfrutam do mesmo nível de mobilidade. Com o prolongamento da crise sanitária e econômica, o confinamento se converteu em privilégio de classe social e ocupação, ao passo que muitos trabalhadores e trabalhadoras precisaram se mover para garantir que outras pessoas pudessem permanecer em casa.

No que se refere às migrações internacionais, na tríplice fronteira Brasil-Bolívia-Peru, o primeiro momento da pandemia (mais ou menos entre março e setembro de 2020) foi marcado por medidas de restrição à mobilidade, que naquele momento pareceu ser a medida necessária para contenção do coronavírus. O trânsito entre os países foi oficialmente suspenso, com a montagem de barreiras sanitárias nas principais vias de acesso. Isso gerou retenção de imigrantes que estavam de passagem pelas cidades fronteiriças, exigiu a adoção de políticas emergenciais e desencadeou grande repercussão social entre as comunidades da região. Houve, por exemplo, desabastecimento nas cidades, uma vez que elas possuem influência mútua quanto ao comércio, serviços e produção agropecuária.

Diante disso, a realidade local exigiu que o fechamento fosse pouco a pouco flexibilizado, quando então se definiu um segundo momento do controle da circulação nas fronteiras, que vivenciamos atualmente (de setembro de 2020 a fevereiro de 2021), com a liberação do trânsito de moradores das cidades e o restabelecimento do intercâmbio comercial, mediante regulamentações específicas acordadas entre os governos estaduais e municipais da região fronteiriça. É importante ressaltar que, mesmo no período de maior restrição à mobilidade, a circulação de imigrantes se manteve pelas cidades acreanas de fronteira, uns desejando ingressar no Brasil e outros desejando sair.

Embora não tenhamos dados precisos sobre isso, essa movimentação tem sido acompanhada de perto por agentes policiais, funcionários públicos e representantes de entidades que atuam nos serviços de documentação e assistência nessas localidades. Entre os imigrantes, especialmente os indígenas, mulheres grávidas e crianças venezuelanas demandam atenção redobrada, situação que motivou a instalação de abrigos improvisados para acolhimento emergencial deles na cidade de Assis Brasil (lado brasileiro da tríplice fronteira) e na capital, Rio Branco.

A impressão que se tem é que a situação no Acre é ainda mais grave que a verificada em meados de 2020, quando ganhou destaque na imprensa um movimento inverso, o de migrantes em situação vulnerável tentando entrar no Brasil. Isso procede?

Sim, pois no mês de fevereiro houve o represamento de número expressivo de imigrantes – cerca de 500 pessoas, das mais variadas nacionalidades, idades e situações migratórias – em três ou quatro dias. Segundo a Polícia Federal local, com base em números de janeiro de 2021, a movimentação de imigrantes pela região foi considerada abaixo da média para o período. Contudo, o represamento deles no lado brasileiro da fronteira, impedidos de seguir viagem pelo território peruano, contribuiu para a formação de aglomerações, agravando os riscos de propagação do vírus e suas eventuais variantes, assim como a tensão política na região.

Além disso, é preciso contextualizar que essa situação acontece em um momento de aumento progressivo de casos e óbitos por Covid-19 em todo o estado, com saturação e estrangulamento dos sistemas de saúde público e privado, surto de dengue e enchentes dos rios acreanos, provocadas pela intensidade do atual período de chuvas na Amazônia. Na última semana, os registros fotográficos da situação dos imigrantes represados ganharam destaque na mídia e evidenciam o delicado contexto. Na última semana, em razão da emergência humanitária, sanitária e financeira, o governo estadual solicitou intervenção federal, o que motivou a visita de comitivas da Secretaria Nacional de Assistência Social, do Ministério da Cidadania, e do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que estiveram no último dia 19 na cidade de Assis Brasil para conhecer de perto a situação.

Na fronteira, as comitivas do governo brasileiro tentaram dialogar com os representantes do governo peruano, que permaneceu inflexível quanto a passagem dos imigrantes, especialmente após a tentativa frustrada deles de furar o bloqueio policial no dia 16. As tratativas diplomáticas entre os dois governos seguem há mais de uma semana, mas sem indícios de uma solução amistosa. Em campo, as comitivas conseguiram convencer parte dos imigrantes que estavam acampados na ponte a retornar aos abrigos improvisados na cidade de Assis Brasil, nos quais podem permanecer em segurança. Nos últimos dois dias sugiram informações de que alguns grupos decidiram tentar seguir viagem pelo território boliviano, onde também foram duramente reprimidos e retornaram para o lado brasileiro da tríplice fronteira. Também há registro de que alguns, diante da situação, decidiram regressar às cidades nas quais residiam nos estados do Sul e Sudeste do país.

Em articulação, os governos estadual e federal decidiram por intensificar a veiculação de informações na mídia sobre o fechamento da fronteira peruana e o agravamento da pandemia no Acre, com o intuito de demover as pessoas com intenção de se deslocar até a região. Da mesma forma, as polícias ampliaram o alerta para desarticular a operação de redes de coiotagem que tendem a se fortalecer diante do fechamento das fronteiras. Quanto a isso, vale destacar que no dia 18 o Ministério da Justiça publicou a portaria nº 62, autorizando o emprego da Força Nacional de Segurança Pública, em apoio ao governo do Acre, “nas atividades de bloqueio excepcional e temporário de entrada no país de estrangeiros, em caráter episódico e planejado”. A medida causou estranheza a diversos setores da administração pública e da sociedade civil que acompanham a questão, vez que seu escopo infringe competências constitucionais e está em desacordo com a atual legislação do país referente a migração. Até o momento não ficou claro o cumprimento administrativo da medida, muito menos o tratamento e a assistência que serão prestados aos imigrantes eventualmente afetados por ela.

É possível fazer um paralelo entre a situação atual na fronteira Brasil/Peru/Bolívia com a verificada em meados de 2020?

É possível e necessário estabelecer esse paralelo, pois isso evidencia nuances importantes para compreensão do problema. No primeiro momento da pandemia e como resultado das portarias de fechamento das fronteiras decretadas pelos governos do Brasil, Bolívia e Peru, tivemos o seguinte impasse: entre os meses de julho, agosto e setembro de 2020, sobre a ponte que separa Brasil e Peru, 36 pessoas (venezuelanos, colombianos, peruanos e cubanos) permaneceram vivendo em situação precária, dormindo em barracas de lona e tomando banho no rio Acre, sem conseguir ir para um lado nem para o outro. Foi uma situação inédita ter pessoas retidas por tanto tempo no local, incluindo crianças e bebês.

À época, a Defensoria Pública da União (DPU) assumiu a representação dos imigrantes retidos e ingressou com duas ações na Justiça brasileira: uma para reverter a deportação sumária de 18 deles pela Polícia Federal; e outra para solicitar a admissão dos demais, que não tinham conseguido sequer fazer o pedido de entrada em território brasileiro. As alegações da DPU foram acatadas e a Justiça autorizou o ingresso dos imigrantes no Brasil, pois prevaleceu o entendimento de que as restrições impostas contrariavam a legislação brasileira e tratados internacionais dos quais o país é signatário. Assim, concluiu-se que, mesmo em circunstância de pandemia, os controles sanitários não podem acarretar violações de outros direitos humanos, entre eles o da proteção internacional do refúgio.

DPU, MPF, Conectas e Caritas SP entram com ação contra deportação de imigrantes
Imigrantes detidos sobre a ponte que liga o estado brasileiro do Acre ao Peru, em meados de 2020.
(Foto: Defensoria Pública da União)

Solucionado esse impasse, no Acre, os imigrantes que estavam na ponte foram acolhidos em um abrigo improvisado pela prefeitura de Assis Brasil, com a ajuda da organização humanitária Cáritas, até que o processo de documentação deles ficasse pronto e que definissem o destino em território brasileiro. Desde então, essa passou a ser a rotina político-administrativa adotada pelo governo brasileiro diante da entrada de imigrantes pela fronteira acreana. Já em fevereiro deste ano, uma nova situação se configurou: dessa vez, imigrantes chegam ao Acre por via área, a partir de conexões em diversos aeroportos do país, e se deslocam até a região de fronteira, com o objetivo de sair do Brasil, passando pelo Peru. Tendo em vista que, assim como o Brasil, nesses dois primeiros meses do ano, o país andino também enfrenta o recrudescimento do número de infectados e mortes causadas pela Covid-19, em meio a uma série crise política interna, as fronteiras peruanas voltaram a ser fortemente bloqueadas por forças policiais.

Face a isso, observa-se que o discurso de controle da pandemia foi novamente reativado e com base nele o governo peruano justifica a imposição de restrições à mobilidade por seu território. Sabe-se que a Organização Mundial de Saúde (OMS) já se pronunciou sobre o tema, afirmando que o controle de fronteiras não deve suscitar violação de direitos humanos ou infringir convenções internacionais sobre migração e refúgio. Também a Acnur (agência da ONU para refugiados) reconheceu que os estados têm a prerrogativa de restringir as fronteiras por razões de saúde pública, mas declarou que não devem deixar de proteger pessoas solicitantes de refúgio. Para gestão da mobilidade pelas fronteiras internacionais durante a pandemia, em vez da proibição de entrada, algumas medidas de controle são sugeridas como mais adequadas, como por exemplo a adoção de quarentenas e aplicação de exames para as pessoas em trânsito. Até o momento o governo peruano não se mostrou sensível ao represamento de imigrantes do lado brasileiro da fronteira, o que tende a agravar o problema sanitário, vez que permanecem aglomerados em situação precária, assistidos pelas cidades acreanas de fronteira.

De modo geral, nas duas situações é válido notar que as medidas de restrição à mobilidade são enfáticas quando se referem às vias terrestres e aquaviárias, como são as da Amazônia, pelas quais transitam imigrantes indocumentados, em situação de extrema vulnerabilidade, provenientes de países empobrecidos, em crise ou em guerra, lugares nos quais resta a migração como alternativa. No outro polo da questão está o controle da mobilidade para pessoas que se movimentam por via área, com visto de turismo, trabalho ou investimento. Para essas, a maioria dos países, incluindo Brasil e Peru, têm se mantido abertos e, nos diferentes momentos da pandemia, os governos adotaram medidas de controle, mas não impediram a entrada. Isso evidencia, portanto, o tratamento diferenciado e seletivo dispensado pelos governos aos imigrantes: aos empobrecidos, oriundos da América Latina, Caribe e África, majoritariamente negros, a política assume caráter restritivo e repressivo; aos abastados, provenientes dos países considerados desenvolvidos, a política é ampla e condescendente, capaz de implementar procedimentos que conciliam as preocupações sanitárias e a preservação do direito humano à mobilidade.

A partir da sua experiência, para onde os migrantes que tentam deixar o Brasil via Acre almejam chegar?

De acordo com minhas pesquisas de campo e conforme as equipes de servidores públicos do governo do Acre, das prefeituras das cidades fronteiriças e de entidades como a Cáritas, que prestam assistência a esses imigrantes, durante a passagem pela região, são diversas as aspirações manifestadas por eles: de retornar para a terra natal, onde podem contar com uma rede de apoio e proteção maior para enfrentar a pandemia e a crise socioeconômica decorrente dela; de tentar novos itinerários migratórios na própria América Latina, indo em busca de oportunidades no Peru, Argentina, Chile, Equador ou Colômbia; mas a intenção externada pela maioria é de tentar ingressar nos Estados Unidos, motivados pela expectativa de revisão da política migratória pelo presidente democrata Joe Biden.

Quanto a isso, é importante ressaltar que a barreira encontrada por eles na fronteira do Brasil com o Peru é apenas uma entre tantas outras existentes pelo caminho rodoviário até América do Norte. A imprensa peruana, por exemplo, tem mostrado que a fronteira entre Peru e Equador (noroeste da América do Sul) está reforçada justamente para impedir a passagem de imigrantes. Já na fronteira entre Honduras e Guatemala (área central da América Central), na segunda quinzena de janeiro passado, uma caravana de imigrantes, composta por cerca de 9 mil hondurenhos e salvadorenhos, foi duramente reprimida por forças policiais guatemaltecas ao chegar à fronteira.

Em razão desse cenário em que os países decidem pelo fechamento de suas fronteiras, o que se teme é a exposição dos imigrantes aos perigos das rotas indocumentadas, controladas por coiotes que alimentam suas expectativas e cobram valores exorbitantes pela promessa de ingresso nos EUA.

O Acre na primeira parte da última década foi o epicentro da questão haitiana no Brasil. Na sua opinião, é possível notar na região algum legado dessa presença ou nenhuma estrutura permaneceu?

Desde que o Acre passou a fazer parte da rota das migrações internacionais, em 2010, a atuação do poder público, em suas diferentes dimensões, foi heterogênea, alterando-se conforme as novas características e proporções apresentadas pelo fenômeno. Ao longo da última década, o que se pode destacar é que, no estado, existiu um abrigo oficial de imigrantes, mantido pelo governo estadual a partir de repasses financeiros do governo federal, e que funcionou até abril de 2016. Esse era um local de referência a todos os imigrantes que passavam pelo Acre, no qual, apesar muitos problemas registrados quanto ao seu funcionamento, os imigrantes recebiam nele assistência básica em termos de acolhimento, alimentação e documentação.

Em 2014, governo do Acre fechou abrigo para imigrantes em Brasileia. Outro foi aberto na capital, Rio Branco, fechado anos depois devido à redução do fluxo migratório no Estado. Crédito: Sérgio Vale/Secom (abr./2014)

Mediante a existência dessa unidade pública, instâncias como Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal, Defensoria Pública da União, entre outras, atuavam de modo mais articulado, no acompanhamento do fenômeno, no compartilhamento de informações, no registro unificado de dados sobre os imigrantes em trânsito pela região etc. Havia nesse processo o fio condutor para a articulação de uma política pública voltada ao fenômeno da imigração por essa região de fronteira, minimamente atenta às particularidades locais.

Entretanto, no início do ano de 2016, em um contexto de redução do número de imigrantes recebidos, quando situação socioeconômica do país indicava o aprofundamento da crise, essa estrutura foi desativada. Naquele momento, desconsiderou-se a posição geopolítica assumida pelo Acre na rota das migrações internacionais e a necessidade de implementação de uma política efetiva voltada para essa realidade. Em vez disso, prevaleceu uma visão superficial do problema, ou seja, a de que a movimentação de imigrantes pela fronteira acreana havia reduzido significativamente e que talvez houvesse o encerramento dos fluxos pela região. Essa visão aligeirada serviu de pretexto e justificativa para a desativação do abrigo, estrutura pública que sempre demandava grande montante de recursos e era alvo de críticas por parte de grupos políticos conservadores.

Posteriormente, pouco mais de um ano após o fechamento do abrigo, em meados de 2017 o Acre passou a receber os primeiros grupos de imigrantes, refugiados e indígenas venezuelanos. Depois de ingressarem em território brasileiro pelo estado de Roraima, em movimento de interiorização pelo país, eles chegam ao Acre em pequenos grupos, quase sempre familiares. A presença deles é crescente nas cidades acreanas, especialmente na capital e nas localizadas na tríplice fronteira (Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia), localidades que os permitem também circular por cidades bolivianas e peruanas. Diante da situação de profunda vulnerabilidade desses imigrantes, a assistência a eles foi mobilizada, mas dessa vez liderada por entidades da sociedade civil, como a Cáritas, apoiada pelo governo do estado e de algumas prefeituras. Mais recentemente, com o advento da pandemia no primeiro trimestre de 2020, mais uma vez a assistência aos imigrantes em trânsito pelo Acre precisou ser repensada.

Desde o início da pandemia eles têm sido diretamente impactados, pois tiveram a sua mobilidade restringida, assim como a possiblidade de trabalho nas cidades em que ficaram retidos. A ausência de recursos para assegurar alimentação, aluguel e itens de proteção contra o vírus em propagação, exasperou a vulnerabilidade desses imigrantes. Isso exigiu que a assistência do poder público fosse ampliada e, depois do fechamento oficial do abrigo em 2016, pela primeira vez ensaiou-se a estruturação de novos espaços de acolhimento para os imigrantes no Acre. Entre março de 2020 e fevereiro de 2021, nas cidades fronteiriças de Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia, assim como em Rio Branco, têm sido várias as experiências de abrigos improvisados para atendimento emergencial aos interditados, mas ainda não se tem a perspectiva de efetivação desse tipo de estrutura à política local. Com esse breve retrospecto sobre a atuação do poder público, avalio que o legado da última década tende a ser mais negativo que positivo. Por um lado, não se pode deixar de reconhecer a sensibilidade e o empenho de diversos setores do Executivo e do Judiciário para preservar direitos ou pelo menos minimizar a violação deles. Em termos de recursos humanos, o serviço público no Acre aprendeu muito sobre a realidade migratória, desenvolveu notáveis habilidades para atuar diante das crises.

Por outro, sabe-se que a complexidade da questão exige gestão estruturada e continuada, articulação e efetividade. Nesse sentido, é preciso suplantar a tendência a uma atuação emergencial, que lida com o problema de modo circunstancial, para encarar o desafio de pensar e desenvolver uma política ativa e realista ao contexto do Acre, em conformidade com o seu atual posicionamento nas rotas internacionais de migração.

Por fim, lembro que em novembro de 2020, ou seja, muito recentemente, foi constituído no Acre o Comitê Estadual de Apoio aos Imigrantes, Apátridas e Refugiados (Ceamar), com competências consultiva, deliberativa e propositiva, reunindo representantes das mais diversas instâncias do Executivo e Judiciário, além de muitos setores da sociedade civil. Eu faço parte desse comitê, representando a Universidade Federal do Acre (UFAC), e acredito que sua criação foi um passo significativo no longo e desafiador processo de construção de uma política local e regional voltada aos imigrantes.

Como a professora avalia a cobertura feita pela mídia, seja nacional ou local, a respeito desse tema?

Refletir sobre a abordagem do tema migração pela mídia sempre me lembra a histórica abordagem simplificadora da mídia sobre a Amazônia, que por um lado tende a enaltecer a dimensão do exótico e desconhecido, e por outro tende a exaltar particularidades de modo generalista, desconsiderando sua complexidade e heterogeneidade interna. É importante reconhecer que a migração vem ganhando relevância na mídia internacional, nacional e local, sendo que cada uma dessas instâncias merece uma análise específica sobre os sentidos que produzem e seus possíveis desdobramentos. Mas, de modo geral, considero simplificadora a abordagem midiática do tema, assim como tende a ser o a sua discussão a respeito da Amazônia.

Por exemplo, no discurso midiático, o tratamento do migrante quase sempre assume um tom alarmista, em que a xenofobia se traveste por proteção a cidadãos nacionais e se associa a plataformas político-eleitorais. Especialmente nesse contexto de pandemia, a modulação das narrativas midiáticas tem sido pouco objetiva, com reduzida apuração de fatos, grande destaque para declarações de autoridades e forte tom opinativo de repórteres. Quase sempre os sujeitos do processo – no caso, os imigrantes – não são ouvidos. Nesse caminho, a migração tende a ser pensada pelo viés da criminalização e o estrangeiro tende a ser representado como criminoso em potencial, o que desperta discursos nacionalistas, com indicativo da necessidade de controle de entrada e proteção de fronteiras.

No contexto brasileiro e local, avalio que essa é a tendência majoritária, ainda mais quando acontecimentos qualificados de “crise” ou “invasão de imigrantes” irrompem na Amazônia, ou mais especificamente no “longínquo” e “empobrecido” Acre, como se se eles fossem um “perigo” ou “peso” para o estado.


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Inscrições para votação online para o Conselho Municipal de Imigrantes de SP vão até dia 29

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Ponto de votação para o Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo no CIC do Imigrante, em junho de 2018. (Foto: Divulgação/SMDHC)

Estão abertas até 29 de março as inscrições para imigrantes que desejem votar de maneira virtual para a eleição de representantes no Conselho Municipal de Imigrantes (CMI) de São Paulo.

Este será o segundo momento em que imigrantes da cidade de São Paulo poderão votar para seus representantes do CMI. Conselheiros e conselheiras eleitas comporão a gestão 2021-2023. 

A votação virtual acontecerá entre os dias 7 e 10 de abril. Aqueles que preferirem votar preferencialmente, a votação ocorrerá em 11 de abril, em locais a serem anunciados pela Prefeitura de São Paulo.

Dados da Prefeitura de São Paulo indicam que ao menos 360 mil imigrantes residam no município, contemplando um total de 197 nacionalidades. A maior comunidade é a boliviana (estimada em pelo menos 70 mil pessoas), seguida por portugueses, chineses, japoneses, italianos, haitianos, espanhóis, sul-coreanos, argentinos e peruanos.

Como votar na eleição para o CMI

Podem votar imigrantes residentes na cidade de São Paulo maiores de 16 anos, independente de sua situação migratória e documental. 

A votação virtual poderá ser feita via celular ou computador entre o dia 7 o 10 de abril de 2021 . Para aqueles que preferirem votar de maneira remota, é necessário fazer um cadastro até o dia 29 de março através de um formulário que deve ser acessado através do site oficial da prefeitura. Além do preenchimento de dados, um documento com foto e um comprovante de residência serão solicitados. Após o envio do formulário, é preciso aguardar um e-mail que será encaminhado na semana do dia 05 de abril com a chave de acesso, senha e orientações para a realização da votação virtual.

Em entrevista à Radio Migrantes, Vinicius Duque, Coordenador de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente, disse que não será difícil votar nessa eleição. “Dessa vez vamos fazer a eleição também virtual para que as pessoas possam votar de suas casas em segurança”.

A criação de login e senha visam garantir a segurança e transparência das eleições, além de evitar qualquer risco de fraude, segundo Duque. 

Já a votação presencial acontecerá dia 11 de abril e os pontos de votação serão divulgados nas redes sociais do CMI. Ao comparecer aos locais indicados, será preciso mostrar um documento com foto e um comprovante de residência.

Os eleitores e as eleitoras devem votar em um candidato de cada segmento: (i) Coletivos, Associações ou Organizações de Imigrantes; (ii) Coletivos, Associações ou Organizações de apoio a Imigrantes; e (iii) Pessoas Físicas Imigrantes.

Dentre as candidaturas deferidas estão 8 do primeiro segmento, 12 do segundo e 23 Pessoas Físicas Imigrantes. A lista completa de candidatos pode ser acessada nas redes sociais do CMI.

De acordo com o cronograma oficial, o resultado preliminar da eleição será publicado no Diário Oficial da Cidade e no site da SMDHC no dia 16 de abril. A posse dos novos conselheiros é prevista para o mês de maio.

O Conselho

A criação do Conselho foi prevista na Política Municipal para a População Imigrante, sancionada em 2016, mas apenas em 2018 sua primeira eleição foi realizada. Os representantes escolhidos teriam mandatos de 2 anos, o que foi prorrogado em decorrência da pandemia de Coronavírus que impossibilitou a realização de novas eleições.

O CMI é considerado uma conquista dos imigrantes e um avanço importante do governo para o fortalecimento da participação social. Ligado à Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) de São Paulo, o Conselho é um órgão consultivo e paritário que tem com o objetivo participar da formulação, implementação, monitoramento e avaliação das políticas voltadas à população imigrante da Cidade de São Paulo.

O Conselho é composto por 16 membros titulares,  sendo metade da sociedade civil e metade do poder público. A proporção de suplentes segue a mesma regra, totalizando 32 membros. Entre os representantes da sociedade civil estão coletivos, associações e organizações de imigrantes; coletivos, associações e organizações de apoio a imigrantes; e pessoas físicas imigrantes.

Além disso, o CMI conta com 5 membros observadores: Organização Internacional para as Migrações (OIM); Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR); Defensoria Pública da União; Defensoria Pública do Estado de São Paulo; e Coordenadoria de Relações Internacionais.

O Conselho se reúne mensalmente para debates pautas que dialoguem diretamente com questões de políticas públicas para imigrantes. Desde abril de 2020, os encontros passaram a ser virtuais. Qualquer pessoa pode acompanhar tais reuniões, bastando acessar o link que é divulgado nas redes sociais do CMI.


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Justiça nega reintegração de posse em ponte no Acre e cobra resposta humanitária sobre imigrantes

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Imigrantes acampados na Ponte de Integração, em Assis Brasil (AC)
Imigrantes acampados na Ponte de Integração, em Assis Brasil (AC). (Foto: Divulgação/Caritas)

A Justiça Federal negou pedido de liminar feito pelo governo federal para reintegração de posse da Ponte da Integração, no Acre, que liga o Brasil ao Peru. A via está ocupada desde 14 de fevereiro por imigrantes que tentam sair do Brasil e seguir viagem pelo continente.

Na decisão, o juiz federal Herley da Luz Brasil afirmou que a União não detalhou em seu pedido quais medidas tomou até o momento, nem o que planeja fazer para tentar solucionar a questão na fronteira.

A ação do governo federal, via AGU (Advocacia-Geral da União), se baseou no protesto sobre a ponte como danoso para a economia local e para a segurança nacional. E sustentou que a reivindicação dos migrantes, embora legítima, não justifica o bloqueio da via.

Além de indeferir a liminar, o juiz ainda intimou a União em 48 horas a informar quais esforços foram feitos para resolver a situação. E cobrou a definição de providências a serem tomadas em relação aos migrantes em situação de vulnerabilidade — antes, durante e após eventual desocupação da ponte.

A União também foi intimada a se manifestar a respeito das posições do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública da União. Ambas se declararam contra a reintegração de posse e pediram solução pacífica para a questão na fronteira.

O juiz baseou sua decisão nos “fundamentos, objetivos e princípios da República Federativa do Brasil, dentre eles a dignidade da pessoa humana, a solidariedade e a prevalência dos direitos humanos”.

Uma manifestação pacífica dos migrantes acampados na ponte é prevista para esta segunda-feira (01)

Situação precária

Apesar da decisão da Justiça contra a reintegração de posse, integrantes da sociedade civil e defensores públicos que acompanham a questão não recomendam aos migrantes uma saída do Brasil no momento.

“Por pior que esteja a situação dos migrantes nas cidades de origem em que estão residindo, ao menos nelas é possível conseguir algum bico pra prover o sustento. Assis Brasil oferece zero empregos, sem falar nos riscos de Covid-19 nos abrigos. Estamos tentando divulgar pros grupos de migrantes que a fronteira não está aberta e que esse não é o melhor momento para tentar sair do Brasil”, explica a defensora pública Larissa Moisés, que integrou uma comitiva da DPU que conheceu de perto a situação na fronteira com o Peru.

O Acre enfrenta forte alta nos casos de Covid-19 e enchentes caudadas pelas fortes chuvas dos últimos dias. A esses fatores se soma a questão migratória na fronteira e a falta de respostas humanitárias e diplomáticas efetivas por parte do governo federal.

Tanto a sociedade civil acreana quanto o prefeito de Assis Brasil, Jerry Correa (PT) pedem ajuda para lidar com a situação no estado e região de fronteira. Ambos informam estar no limite do que podem fazer em relação . Além do fornecimento de refeições e kits de higiene, há também um trabalho para conscientizar os imigrantes dos riscos que a saída pelo Acre hoje representa.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) até esteve no Acre na última quarta-feira (24), mas sequer passou perto da região de fronteira. Além do pedido de reintegração de posse, a medida federal mais efetiva até o momento sobre a questão foi a autorização do uso da Força Nacional de Segurança Pública.

Por meio de nota, o Ministério da Cidadania nega que faltem respostas humanitárias e informou que o governo federal “tem tomado as medidas necessárias para aplacar a situação, que foi agravada por crises políticas e humanitárias em países vizinhos e pela pandemia do novo coronavírus”.

A pasta diz ainda que uma portaria publicada na sexta-feira (26) prevê o repasse de R$ 5 milhões para ações socioassistenciais voltadas para imigrantes e refugiados em condição de vulnerabilidade. O município de Assis Brasil, onde fica a ponte, seria o destino de R$ 1,2 milhão desse valor.

Ponto de passagem

O Acre ficou conhecido na última década como ponto de entrada no Brasil da migração haitiana, especialmente entre 2010 e 2015. Nos anos seguintes, o estado se consolidou como um local de passagem de imigrantes: tanto são verificados aqueles que deixam o Brasil para outros países quanto outros que fazem o caminho inverso, de ingressar no território brasileiro.

Em meados de 2020, ganhou destaque a situação vivida por imigrantes, em sua maioria venezuelanos, que acamparam sob chuva e sol na ponte que liga Peru e Brasil, na esperança de solicitar refúgio em território brasileiro.

A situação na fronteira mobilizou entidades da sociedade civil e a Defensoria Pública da União, que protocolaram ações junto à Justiça brasileira em favor dos imigrantes. Um tipo de ação que não é possível no atual contexto, uma vez que o desejo do grupo em Assis Brasil é de ingressar no Peru para seguir viagem pelo continente.

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MPF e DPU são contra reintegração em ponte e pedem solução pacífica sobre imigrantes no Acre

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Imigrantes acampados na Ponte de Integração, em Assis Brasil
Imigrantes acampados na Ponte de Integração, em Assis Brasil (AC). (Foto: Diego Gurgel/Secom Acre)

O MPF (Ministério Público Federal) e a DPU (Defensoria Pública da União) se manifestaram contrárias à reintegração de posse solicitada pelo governo federal na ponte que liga o Brasil ao Peru, ocupada por imigrantes.

As duas entidades foram chamadas a se manifestar na ação movida por meio da AGU (Advocacia Geral da União), na sexta-feira (26), que pede a reintegração de posse da via. O caso ainda aguarda decisão da Justiça, que aguardava os pareceres da DPU e MPF sobre o caso.

Segundo estimativas da sociedade civil local, são cerca de 500 imigrantes em Assis Brasil, sendo 70 deles acampados na Ponte da Integração, que liga o país ao Peru. A presença na ponte é um protesto em razão da impossibilidade de seguir viagem pelo país vizinho e uma tentativa de sensibilizar as autoridades peruanas.

A AGU sustenta que o bloqueio da ponte tem acarretado prejuízos econômicos à região. E que a reivindicação dos imigrantes, embora legítima, não justifica o fechamento da via e representa um risco à segurança nacional.

Na petição inicial, a AGU também citou os nomes de seis imigrantes nascidos na Guiné, um no Haiti e outro na Costa do Marfim como os supostos “líderes da ocupação” na ponte.

Declarações de MPF e DPU

O MPF, por sua vez, rebate a AGU e ressalta que a liberdade de manifestação e reunião inclui o direito de os cidadãos, inclusive estrangeiros, “de agruparam-se com a finalidade de buscar a expressão ou realização comum de um fim lícito”. E também criticou o governo federal pela falta de ações diplomáticas e humanitárias para a questão.

A DPU também questionou a falta de respostas do governo federal para a questão além do uso da força. E pediu a realização de uma audiência no próximo dia 3 de março em busca de uma solução negociada e pacífica para o impasse na região.

Em sua manifestação, a Defensoria informou ainda que já destacou para ir à região de fronteira o defensor público João Chaves, coordenador do grupo de trabalho da DPU sobre migrações, refúgio e apatridia. 

Tanto a DPU quanto o MPF destacam o fato de pelo menos 40% das pessoas imigrantes que estão na região da fronteira serem mulheres e crianças.

Situação precária

O Acre enfrenta forte alta nos casos de Covid-19 e enchentes caudadas pelas fortes chuvas dos últimos dias. A esses fatores se soma a questão migratória na fronteira e a falta de respostas humanitárias e diplomáticas por parte do governo federal.

Tanto a sociedade civil acreana quanto o prefeito de Assis Brasil, Jerry Correa (PT) pedem ajuda para lidar com a situação no estado e região de fronteira. Ambos informam estar no limite do que podem fazer em relação . Além do fornecimento de refeições e kits de higiene, há também um trabalho para conscientizar os imigrantes dos riscos que a saída pelo Acre hoje representa.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) até esteve no Acre na última quarta-feira (24), mas sequer passou perto da região de fronteira. Além do pedido de reintegração de posse, a medida federal mais efetiva até o momento sobre a questão foi a autorização do uso da Força Nacional de Segurança Pública.

Ponto de passagem e mobilidade seletiva

O Acre ficou conhecido na última década como ponto de entrada no Brasil da migração haitiana, especialmente entre 2010 e 2015. Nos anos seguintes, o estado se consolidou como um local de passagem de imigrantes: tanto são verificados aqueles que deixam o Brasil para outros países quanto outros que fazem o caminho inverso, de ingressar no território brasileiro.

Em meados de 2020, ganhou destaque a situação vivida por imigrantes, em sua maioria venezuelanos, que acamparam sob chuva e sol na ponte que liga Peru e Brasil, na esperança de solicitar refúgio em território brasileiro.

A situação na fronteira mobilizou entidades da sociedade civil e a Defensoria Pública da União, que protocolaram ações junto à Justiça brasileira em favor dos imigrantes. Um tipo de ação que não é possível no atual contexto, uma vez que o desejo do grupo em Assis Brasil é de ingressar no Peru para seguir viagem pelo continente.

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Sem resposta humanitária para imigrantes, governo pede reintegração de posse de ponte no Acre

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Imigrantes acampados na ponte que liga Assis Brasil (AC) a Iñapari, no lado peruano da fronteira
Imigrantes acampados na ponte que liga Assis Brasil (AC) a Iñapari, no lado peruano da fronteira. (Foto: Samuel Bryan/Agência Acre)

Atualizado às 21h51 de 28.fev.2021

O governo federal, por meio da Advocacia Geral da União, entrou com pedido de reintegração de posse da Ponte Binacional, no Acre, que liga o Brasil ao Peru. A via se encontra ocupada por imigrantes como forma de protesto, que querem ingressar no país vizinho e seguir viagem pelo continente.

A ação, protocolada nesta sexta-feira (26) junto à Justiça Federal no Acre, dá prazo de 24 horas para que o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União se manifestem sobre a questão.

A AGU sustenta que o bloqueio da ponte tem acarretado prejuízos econômicos à região. E que a reivindicação dos imigrantes, embora legítima, não justifica o fechamento da via.

Segundo estimativas da sociedade civil local, são cerca de 500 imigrantes em Assis Brasil, sendo 70 deles acampados na ponte que liga o país ao Peru.

Em razão da pandemia, muitos imigrantes perderam seus empregos e passaram a enfrentar dificuldades financeiras no Brasil – que também vive mau momento na economia, agravado pela Covid-19. 

Diante desse cenário, mesmo com as fronteiras fechadas, alguns decidem apostar em uma nova migração para tentar obter melhores condições de vida em outro país.

Com o fechamento da ponte, caminhões dos dois lados da fronteira não conseguem passar. O protesto gera grande insatisfação por parte dos motoristas, que temem prejuízos com as cargas paradas e querem a reabertura da via.

Sem resposta humanitária

A possível reintegração de posse é mais um capítulo na situação complicada vivida tanto pelos imigrantes quanto pelo próprio Acre.

A estação chuvosa tem sido mais intensa que o normal, causando transbordamento de rios e enchentes em todo o estado. A pandemia também alcança patamares cada vez mais altos, inclusive em Assis Brasil. O estado já contabiliza ao menos 55 mil casos do vírus, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde.

O prefeito de Assis Brasil, Jerry Correia (PT), decretou estado de calamidade pública no município e pede constantemente por ajuda do governo federal para resolver a questão.

Da parte do governo federal, pelo menos até o momento, tais lamentos não tem sido ouvidos. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) até esteve no Acre na última quarta-feira (24), mas sequer passou perto da região de fronteira. A medida federal mais efetiva até o momento foi a autorização do uso da Força Nacional de Segurança Pública no Acre.

Instituições da sociedade civil informam estar no limite do que podem fazer em relação à situação em Assis Brasil. Além do fornecimento de refeições e kits de higiene, há também um trabalho para conscientizar os imigrantes dos riscos que a saída pelo Acre hoje representa.  

Caso confirmada, a reintegração de posse pode confirmar o temor de pessoas que acompanham a situação na fronteira ouvidas pelo MigraMundo: o de que ocorra um conflito na região.

Ponto de passagem e mobilidade seletiva

O Acre ficou conhecido na última década como ponto de entrada no Brasil da migração haitiana, especialmente entre 2010 e 2015. Nos anos seguintes, o estado se consolidou como um local de passagem de imigrantes: tanto são verificados aqueles que deixam o Brasil para outros países quanto outros que fazem o caminho inverso, de ingressar no território brasileiro.

Em meados de 2020, ganhou destaque a situação vivida por imigrantes, em sua maioria venezuelanos, que acamparam sob chuva e sol na ponte que liga Peru e Brasil, na esperança de solicitar refúgio em território brasileiro.

A situação na fronteira mobilizou entidades da sociedade civil e a Defensoria Pública da União, que protocolaram ações junto à Justiça brasileira em favor dos imigrantes. Um tipo de ação que não é possível no atual contexto, uma vez que o desejo do grupo em Assis Brasil é de ingressar no Peru para seguir viagem pelo continente.

Outro lado

Após a publicação desta reportagem, o Ministério da Cidadania informou que o governo federal “tem tomado as medidas necessárias para aplacar a situação, que foi agravada por crises políticas e humanitárias em países vizinhos e pela pandemia do novo coronavírus”.

A pasta diz ainda que uma portaria publicada na sexta-feira (26) prevê o repasse de R$ 5 milhões para ações socioassistenciais voltadas para imigrantes e refugiados em condição de vulnerabilidade. O município de Assis Brasil seria o destino de R$ 1,2 milhão desse valor.

“O recurso pode ser utilizado para proteção social (abrigo, alimentação e prevenção contra a Covid-19, entre outros) dos imigrantes que estão na fronteira do Acre, em Assis Brasil, bem como para auxílio a famílias prejudicadas pelas enchentes dos últimos dias”, diz o Ministério, por meio de nota. 

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Imigrantes no Acre vivem limbo em meio à Covid-19 e clima tenso na fronteira

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Forças policiais peruanas na ponte que liga o país ao Brasil, impedindo o ingresso de imigrantes no Peru
Forças policiais peruanas na ponte que liga o país ao Brasil, impedindo o ingresso de imigrantes no Peru. (Foto: Diego Gurgel/Secom Acre)

Fronteiras fechadas, condições precárias, risco de contrair Covid-19 e um clima crescente de tensão. Eis um resumo da situação vivenciada no momento por imigrantes que estão no estado do Acre, mais exatamente na região de fronteira do Brasil com Peru e Bolívia.

Um grupo de pelo menos 500 imigrantes está na região de Assis Brasil, com a intenção de deixar o Brasil por via terrestre. Na quarta (24) chegou ao município mais um ônibus com 60 imigrantes. O roteiro é semelhante dos que já estão na região há mais tempo: eles chegaram ao estado de avião, desembarcam na capital Rio Branco e seguem de ônibus para Assis Brasil (último ponto brasileiro da fronteira).

A maioria do grupo é composta por pessoas de nacionalidade haitiana, mas também há representantes de outras nacionalidades. Segundo dados da Caritas Dioecesana de Rio Branco, ao menos 40% dos imigrantes que estão em Assis Brasil são mulheres e crianças.

A maior parte está em dois abrigos improvisados dentro de escolas públicas no município. De acordo com a Pastoral do Migrante local, há também 80 pessoas dormindo na rua e 70 acampadas na Ponte Binacional que liga a cidade acreana a Iñapari, já no lado peruano, como forma de protesto.

Com o fechamento da ponte, caminhões dos dois lados da fronteira não conseguem passar. O protesto gera grande insatisfação por parte dos motoristas, que temem prejuízos com as cargas paradas e querem a reabertura da via.

Pessoas que acompanham a situação na fronteira ouvidas pelo MigraMundo temem que ocorra um conflito na região, caso a insatisfação alcance níveis mais altos.

Jornada incerta

Em razão da pandemia, muitos imigrantes perderam seus empregos e passaram a enfrentar dificuldades financeiras no Brasil – que também vive mau momento na economia, agravado pela Covid-19.

Diante desse cenário, mesmo com as fronteiras fechadas, alguns decidem apostar em uma nova migração para tentar obter melhores condições de vida em outro país.

Essa jornada, que já é complicada em circunstâncias normais, se torna ainda mais penosa, complexa e perigosa diante da Covid-19. Para tentar frear a disseminação do vírus, países em todo o mundo vêm fechando fronteiras e adotando critérios cada vez mais severos para admitir pessoas de outros países em seus territórios.

Como resultado, os imigrantes que tentam sair do país para seguir viagem por outras nações do continente vivem uma situação de limbo. Possuem pouco ou nenhum dinheiro para se manter no Brasil, ao mesmo tempo que não conseguem passar para outros países. Ao mesmo tempo, ficam ainda mais suscetíveis ao contágio pelo novo coronavírus.

As fake news também possuem uma parcela de culpa pela situação na fronteira. Correm entre os imigrantes boatos de que as fronteiras do Peru e dos Estados Unidos estão abertas, o que encoraja muitas pessoas a venderem tudo na esperança do “sonho americano”.

Um comunicado em creole haitiano, escrito pela Defensoria Pública da União (DPU), já circula entre grupos de WhtsApp acessados por imigrantes e visa conscientizar sobre os riscos de tentar sair do Brasil no momento.

Alguns, inclusive, já decidiram fazer o caminho de volta e desistiram de sair do Brasil. Um grupo de cerca de 20 pessoas deixou a ponte na sexta-feira (19) e seguiu para a capital do Acre, Rio Branco, tendo São Paulo como destino final.

“Por pior que esteja a situação dos migrantes nas cidades de origem em que estão residindo, ao menos nelas é possível conseguir algum bico pra prover o sustento. Assis Brasil oferece zero empregos, sem falar nos riscos de Covid-19 nos abrigos. Estamos tentando divulgar pros grupos de migrantes que a fronteira não está aberta e que esse não é o melhor momento para tentar sair do Brasil”, explica a defensora pública Larissa Moisés, que integrou uma comitiva da DPU que conheceu de perto a situação na fronteira com o Peru.

A Defensoria relata haver imigrantes que tentam driblar o fechamento da fronteira peruana com a ajuda de coiotes. No entanto, a fiscalização peruana tem conseguido impedir a entrada da maioria dos que se arriscam por essa opção, além de usar a força para impedir travessias por meio da ponte. Quem tenta fazer o mesmo por meio da fronteira com a Bolívia também não tem obtido sucesso.

Tensão no Acre e indiferença federal

O próprio estado do Acre vivem um momento delicado em meio à questão migratória. A estação chuvosa tem sido mais intensa que o normal, causando transbordamento de rios e enchentes em todo o estado. A pandemia também alcança patamares cada vez mais altos, inclusive em Assis Brasil. O estado já contabiliza ao menos 55 mil casos do vírus, com 975 mortes, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde.

Diante desse cenário, o prefeito de Assis Brasil, Jerry Correia (PT), decretou estado de calamidade pública no município e pede constantemente por ajuda do governo federal para resolver a questão.

“Pedimos que o MPE e MPF se posicionem a respeito da crise humanitária que vivemos aqui. Eu pergunto: é humanitário permitir que crianças e mulheres grávidas fiquem por dias em uma ponte debaixo de sol e chuva? Esta prefeitura não deixou de assistir essas pessoas em nenhum momento. Mesmo no limite de nossas condições temos garantido água, comida, abrigo e atendimento médico. Chegamos a fornecer 1.500 refeições por dia. É uma situação de guerra que foge totalmente da nossa capacidade de gerenciamento. Estamos pedindo socorro”, afirmou o prefeito em mensagem compartilhada com grupos da sociedade civil que atuam no Acre.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) até esteve no Acre na última quarta-feira (24), mas sequer passou perto da região de fronteira. A medida federal mais efetiva até o momento foi a autorização do uso da Força Nacional de Segurança Pública no Acre.

A portaria, assinada pelo Ministério da Justiça em 17 de fevereiro, vale por 60 dias e estabelece que o efetivo deve auxiliar “nas atividades de bloqueio excepcional e temporário de entrada no país de estrangeiros, em caráter episódico e planejado”.

O efetivo de 12 militares já se juntou a policiais federais, agentes do batalhão de choque da Polícia Militar e do Grupo Especial de Fronteiras (Gefron) que atuam na região.

Por meio de nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que tem mantido contato com as autoridades peruanas sobre a questão, e confirmou que o fechamento da fronteira é motivado pela pandemia de novo coronavírus.

O governo peruano, por sua vez, diz que estuda uma forma para liberar a passagem dos imigrantes pelo território, mas que por enquanto a fronteira não será liberada.

Resolver a questão da fronteira virou uma espécie de “pergunta de um milhão de dólares”, segundo a defensora. “Eu e várias pessoas da comitiva nos perguntamos isso o dia todo no tempo que estivemos lá”.

A Caritas e a Pastoral do Migrante informam que mantêm “diálogo constante com as lideranças dos imigrantes para minimizar o impacto negativo, assistindo as suas necessidades: alimentação, medicamento, kits de higiene pessoal e coletiva na medida do possível.

Imigrantes acampados na ponte que liga Assis Brasil (AC) a Iñapari, no lado peruano da fronteira
Imigrantes acampados na ponte que liga Assis Brasil (AC) a Iñapari, no lado peruano da fronteira.
(Foto: Samuel Bryan/Agência Acre)

Ponto de passagem e mobilidade seletiva

O Acre ficou conhecido na última década como ponto de entrada no Brasil da migração haitiana, especialmente entre 2010 e 2015. Nos anos seguintes, o estado se consolidou como um local de passagem de imigrantes: tanto são verificados aqueles que deixam o Brasil para outros países quanto outros que fazem o caminho inverso, de ingressar no território brasileiro.

Em meados de 2020, ganhou destaque a situação vivida por imigrantes, em sua maioria venezuelanos, que acamparam sob chuva e sol na ponte que liga Peru e Brasil, na esperança de solicitar refúgio em território brasileiro.

A situação na fronteira mobilizou entidades da sociedade civil e a Defensoria Pública da União, que protocolaram ações junto à Justiça brasileira em favor dos imigrantes. Um tipo de ação que não é possível no atual contexto, uma vez que o desejo do grupo em Assis Brasil é de ingressar no Peru para seguir viagem pelo continente.

Para Letícia Mamed, professora de Teoria Social/Sociologia da Universidade Federal do Acre (UFAC), esse contexto reforça a necessidade de se pensar em uma estrutura permanente no estado que atenda aos desafios trazidos pela temática migratória.

“É preciso suplantar a tendência a uma atuação emergencial, que lida com o problema de modo circunstancial, para encarar o desafio de pensar e desenvolver uma política ativa e realista ao contexto do Acre, em conformidade com o seu atual posicionamento nas rotas internacionais de migração”.

A pesquisadora também critica o caráter seletivo adotado pelos governos nacionais – tanto o brasileiro quanto o peruano – quanto à admissão de pessoas de outros países. Ambos têm adotado medidas restritivas à mobilidade humana em entradas por via terrestre ou aquaviária, mas flexibilizam o acesso por via aérea, que tende a ser usado por pessoas mais abastadas.

“Isso evidencia, portanto, o tratamento diferenciado e seletivo dispensado pelos governos aos imigrantes: aos empobrecidos, oriundos da América Latina, Caribe e África, majoritariamente negros, a política assume caráter restritivo e repressivo; aos abastados, provenientes dos países considerados desenvolvidos, a política é ampla e condescendente, capaz de implementar procedimentos que conciliam as preocupações sanitárias e a preservação do direito humano à mobilidade”, analisa.

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Livro vai reunir 35 receitas de imigrantes e refugiados de 13 nacionalidades

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Soup Joumou, do Haiti, também conhecida como "Sopa da Liberdade".
Soup Joumou, do Haiti, também conhecida como "Sopa da Liberdade". Ela é uma das receitas que vai integrar livro a ser lançado pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Unicamp, com receitas preparadas por imigrantes e refugiados. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Receitas de família propostas por imigrantes e refugiados de 13 nacionalidades estarão presentes no livro “Sabores sem Fronteiras”, que está sendo elaborado pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). 

O resultado da seleção das receitas foi anunciado na última terça-feira (23) e pode ser visto neste link. Ao todo foram 88 inscrições, coletadas entre o final de 2020 e janeiro deste ano, por meio de formulário online.

As propostas selecionadas compreendem pratos típicos e receitas de família de autores de 13 nacionalidades distintas: Venezuela, Benin, Guiana, Síria, Angola, Colômbia, Haiti, Peru, República Democrática do Congo, Equador, Filipinas, Cuba e Egito.

Entre as receitas que vão compor o livro estão a Soup Joumou, ou “Sopa da Liberdade” (Haiti), Arepa (popular na Venezuela e Colômbia), Mufete (prato típico da região de Luanda, Angola), Ceviche (uma das estrelas da culinária peruana), Fatteh (comum em países como Líbano, Síria e Egito) e mais exemplos.

As receitas foram selecionadas por uma comissão julgadora composta por integrantes da própria Unicamp e refugiados, com a participação externa da chef argentina Paola Carosella. Elas serão acompanhadas de mini-biografias de seus autores, na qual contarão um pouco de suas trajetórias.

Diálogo pela gastronomia

Ao elaborar um livro de receitas a partir das contribuições de imigrantes e refugiados, o objetivo é estabelecer uma troca de saberes e uma relação que supera a visão assistencialista que costuma recair sobre a temática migratória.

“Com um espaço como esse de troca de saberes por meio da culinária, que é repleta de afeto, lembranças e pertencimento, podemos conhecer um pouco melhor dessas culturas”, explica a historiadora e documentarista Ana Carolina Moura Delfim Maciel, presidente da Cátedra Sérgio Vieira de Mello na Unicamp.

O reitor da universidade, Marcelo Knobel, complementa Maciel e destaca que tais pessoas são parte de uma diversidade cultural que é fundamental para o enriquecimento do Brasil. “Certamente essa publicação vai contribuir para mostrar que os refugiados e imigrantes são parte fundamental do processo de criação de um país mais justo e democrático”.

A expectativa é que já nos mês de março tenha início o processo de pré-produção do livro, com o registro fotográfico das receitas. A Cátedra também estuda a possibilidade de gravar depoimentos dos imigrantes e refugiados que terão suas receitas e histórias registradas na obra.

Caso ocorra tudo dentro do cronograma, o livro Sabores sem Fronteiras deve ser lançado ainda em 2021, pela editora Senac.


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São Paulo tem 44 candidaturas deferidas para concorrer ao Conselho Municipal de Imigrantes

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Ponto de votação para o Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo no CIC do Imigrante, em junho de 2018. (Foto: Divulgação/SMDHC)

Atualizado às 18h50 de 23.fev.2021

A Prefeitura de São Paulo divulgou a lista inicial de candidaturas deferidas da sociedade civil para o Conselho Municipal de Imigrantes. Os dados constam da edição desta terça-feira (23) do Diário Oficial do Município.

Ao todo foram 44 candidaturas, divididas em três segmentos: 8 de coletivos, associações ou organizações de imigrantes; 13 de coletivos, associações ou organizações de apoio a imigrantes; e 23 de pessoas físicas imigrantes. As candidaturas indeferidas podem apresentar recurso até o próximo dia 1º de março.

Votação presencial e online

A eleição presencial para o Conselho Municipal de Imigrantes acontece em 11 de abril. No entanto, em razão da pandemia, será possível também votar de forma online, em sistema que ficará no ar de 7 a 10 de abril. Para tal, será necessário realizar um cadastro que ficará disponível de 8 a 29 de março.

Essa alteração consta de publicação no Diário Oficial do Município do último dia 12 de fevereiro.

Os eleitos assumem o mandato, de caráter voluntário e não remunerado, em maio seguinte. A renovação seguinte do colegiado acontecerá em 2023.

Na eleição anterior, ocorrida em julho de 2018, foram contabilizados 1.516 votantes de 51 nacionalidades – mais da metade (52%) foram chineses, seguidos por sul-coreanos (11,57%), angolanos (6,28%), bolivianos (5,62%) e haitianos (4,63%). A eleição aconteceu em 10 de junho daquele ano, em seis diferentes pontos de votação espalhados pela cidade, na qual apenas migrantes puderam participar.

O que é o Conselho Municipal de Imigrantes?

Em operação desde outubro de 2017, o Conselho Municipal de Imigrantes é um colegiado ligado à Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) de São Paulo. Ele tem como objetivo promover a participação social junto às políticas públicas voltadas à população migrante.

O colegiado é composto por 16 representantes, sendo oito de secretarias municipais e oito da sociedade civil – são essas as vagas a serem preenchidas por meio da eleição direta. Também integram o Conselho, na condição de observadores, um representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT), do escritório de São Paulo do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

A criação do Conselho foi prevista na Política Municipal para a População Imigrantesancionada em 2016, e era uma demanda antiga tanto de migrantes como de organizações da sociedade civil ligadas à temática. Ela consolidou uma série medidas implementadas no município desde 2013 em relação a imigrantes.

A manutenção desses elementos obtidos ao longo dos últimos anos é uma das principais preocupações das instituições e coletivos ligados à temática migratória.

Uma das principais tarefas desse conselho é acompanhar a implementação do 1º Plano Municipal de Políticas para Imigrantes, que contempla um total de 80 metas a serem cumpridas até 2024. Tais metas partiram das demandas apresentadas na 2ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, ocorrida em novembro de 2019.

Dados da Prefeitura de São Paulo indicam que ao menos 360 mil imigrantes residam no município, contemplando um total de 197 nacionalidades. A maior comunidade é a boliviana (estimada em pelo menos 70 mil pessoas), seguida por portugueses, chineses, japoneses, italianos, haitianos, espanhóis, sul-coreanos, argentinos e peruanos.

Participação social e cidadania

A votação para o Conselho Municipal de Imigrantes é restrita a não brasileiros que possuem residência na cidade de São Paulo, independente da situação migratória.

Imigrante vota durante eleição para o Conselho Participativo Municipal (mar.2014). Crédito: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

Vale lembrar que a Constituição brasileira impede que imigrantes possam votar nas eleições oficiais no Brasil, que elegem governantes e parlamentares – beneficio restrito a brasileiros natos e naturalizados.

Nesse cenário, a possibilidade de pode votar e ser votado em colegiados consultivos e voluntários como o Conselho Municipal de Imigrantes representa uma chance, ainda que restrita, dessa parcela da população poder colaborar com o local onde vive.

Esse tipo de participação na capital paulista teve início em março de 2014, quando a população imigrante pode escolher representantes para cadeiras especiais nos Conselhos Participativos das subprefeituras da cidade.


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Por um mundo pós-fronteiriço

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Criança haitiana estende a mão para policiais durante protesto na fronteira entre Brasil e Peru, no estado do Acre
Criança haitiana estende a mão para policiais durante protesto na fronteira entre Brasil e Peru, no estado do Acre. (Foto: Reprodução/redes sociais)

Por Handerson Joseph*

No último dia 14 de fevereiro, uma criança haitiana de aproximadamente 3 anos protagonizou uma cena pós-fronteiriça e humanizou a fronteira. Ela apertou as mãos dos policiais peruanos que formavam uma barreira na fronteira do Brasil com o Peru, no estado do Acre, para impedir a mobilidade das pessoas haitianas que queriam sair do Brasil, passando pelo país vizinho, para retornar ao Haiti e/ou tentar uma vida melhor em outros países.

Enquanto os policiais impediam os migrantes haitianos de cruzarem a fronteira, usando as forças estatais, o menino distribuía apertos de mãos e abraços aos policiais. Uma das cenas mais profundas das/nas fronteiras nesses últimos tempos, no seu gesto, desprovido da securitização das fronteiras, lá estava uma fronteira afetuosa possível, aquela de união enquanto humanos, independente das nossas diferenças étnico-raciais, nacionais, linguísticas, religiosas etc.

No gesto do menino negro migrante espelha-se a fronteira da paz, do amor, da compaixão pelo outro. Por vezes os órgãos nacionais e internacionais pregam a paz e a união, mas na prática exercem suas forças destruidoras mais do que as forças humanas e afetuosas para a gestão das fronteiras e das mobilidades das pessoas.

Para transformar as fronteiras

A ideia de um mundo pós-fronteiriço para o qual tenho chamado a atenção em alguns dos meus trabalhos acadêmicos talvez seja a capacidade de transformar as fronteiras estatais em humanizadoras. O mundo e os governos têm muito o que aprender com as crianças, principalmente nos modos de gestão das fronteiras e das migrações.

As crianças têm sido protagonistas de um mundo pós-fronteiriço. Muitas delas, quando chegam às fronteiras, principalmente entre os Estados Unidos e o México, são separadas de seus pais e familiares, sem saber se um dia poderão se reencontrar nos corredores da vida e nos corredores migratórios. Outras não agem olho por olho, dente por dente, mas respondem à militarização das fronteiras com abraços e apertos de mãos, como a cena do menino haitiano.

Nessa última década, a fronteira se tornou uma das palavras-chave para ler o mundo, interpretá-lo e desvelá-lo. Hoje, as condições de possibilidades de uma transformação do mundo passam necessariamente por uma transformação das fronteiras, passam pela demolição dos muros, a destruição das cercas, a extinção dos regimes de controle e o desmantelamento das tecnologias de vigilância das fronteiras e das migrações.

Negação das fronteiras?

Os regimes e as tecnologias de controle e de dominação devem ser obrigatoriamente substituídos por mais pontes (simbólica e materialmente) para unir as pessoas e os países, por mais políticas equitativas entre indivíduos e nações para diminuir as desigualdades, por mais abraços e apertos de mãos entre aqueles que são de nacionalidades diferentes, em outras palavras, por um mundo pós-fronteiriço, notadamente um mundo pós-fronteiras desagregadoras e assoladoras.

As fronteiras estatais devem entrar em ruínas para ceder espaço àquelas que são humanas e humanizadas, no sentido mais profundo e sensível do termo humano. Advogar por um mundo pós-fronteiras não significa negar a existência (ainda forte) das que existem entre Estados.

Não se trata, necessariamente, de um mundo sem fronteiras, não há como negá-las, pois onde há diversidade e diferenças, lá estão elas, sejam físicas ou simbólicas (culturais, étnicas, linguísticas, religiosas etc). Reafirmar a existência das fronteiras não significa advogar em nome das que são desagregadoras, mas sim dar um passo para transformá-las, humanizá-las, superando a dimensão estadocêntrica para alcançar um mundo pós-fronteiriço. O futuro do mundo é a mobilidade e o devir migratório.

Sobre o autor

Handerson Joseph é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, com doutorado sanduíche pela École des Hautes Études En Sciences Sociales (EHESS) e pela École Normale Supérieure (ENS) em Paris. Professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira (PPGEF) da Unifap (Universidade Federal do Amapá), foi um dos fundadores e Coordenador do PPGEF (2019-2020). Fundador do Programa de Apoio a Migrantes e Refugiados (PAMER).

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