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quinta-feira, julho 2, 2026
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Inscrições de candidaturas para o Conselho Municipal de Imigrantes de SP vão até dia 12

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Imigrantes aguardam em fila para votação na Prefeitura Regional da Mooca, onde ficou uma das urnas da eleição para o Conselho Municipal de Imigrantes de 2018
Imigrantes aguardam em fila para votação na Prefeitura Regional da Mooca, onde ficou uma das urnas da eleição para o Conselho Municipal de Imigrantes de 2018. Crédito: Divulgação/SMDHC

Estão abertas até a próxima sexta-feira (12) as inscrições de candidaturas da sociedade civil para a renovação do Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo. A eleição estava prevista para ocorrer no segundo semestre de 2020, mas foi adiada em razão da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

A eleição está prevista para ocorrer no próximo dia 11 de abril. Somente imigrantes residentes em São Paulo, independente da situação migratória, podem votar.

O Conselho é composto por 16 representantes, sendo oito de secretarias municipais e oito da sociedade civil – são essas as vagas a serem preenchidas por meio da eleição direta. As candidaturas que representam a sociedade civil estão divididas em três grupos:

  • Coletivos, associações ou organizações de imigrantes;
  • Coletivos, associações ou organizações de apoio a imigrantes;
  • Pessoas físicas imigrantes.

As inscrições podem ser feitas de modo presencial na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) — Rua Líbero Badaró, 119 – 7º Andar, Centro, São Paulo — de segunda a sexta, mediante agendamento prévio pelo telefones: 2833-4353 ou 2833- 4356. É possível fazer a inscrição também por e-mail, para migrantes@prefeitura.sp.gov.br, com o assunto CANDIDATURA e os documentos requeridos (digitalizados e legíveis).

A relação dos documentos necessários para cada modalidade de candidatura estão disponíveis no site da SMDHC, neste link, em dez idiomas: português, espanhol, francês, árabe, creole haitiano, lingala, swahili, inglês, coreano e mandarim.

Na eleição anterior, ocorrida em julho de 2018, foram contabilizados 1.516 votantes de 51 nacionalidades – mais da metade (52%) foram chineses, seguidos por sul-coreanos (11,57%), angolanos (6,28%), bolivianos (5,62%) e haitianos (4,63%). A eleição aconteceu em 10 de junho daquele ano, em seis diferentes pontos de votação espalhados pela cidade, na qual apenas migrantes puderam participar.

Dados da Prefeitura de São Paulo indicam que ao menos 360 mil imigrantes residam no município, contemplando um total de 197 nacionalidades. A maior comunidade é a boliviana (estimada em pelo menos 70 mil pessoas), seguida por portugueses, chineses, japoneses, italianos, haitianos, espanhóis, sul-coreanos, argentinos e peruanos.

O que é o Conselho Municipal de Imigrantes

Em operação desde outubro de 2017, o Conselho Municipal de Imigrantes é um colegiado ligado à Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) de São Paulo. Ele tem como objetivo promover a participação social junto às políticas públicas voltadas à população migrante.

O Conselho é composto por 16 representantes, sendo oito de secretarias municipais e oito da sociedade civil. Também integram o Conselho, na condição de observadores, um representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT), do escritório de São Paulo do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Primeira reunião do Conselho Municipal de Imigrantes, instalado em São Paulo em outubro de 2017
Primeira reunião do Conselho Municipal de Imigrantes, instalado em São Paulo em outubro de 2017.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Sua criação foi prevista na Política Municipal para a População Imigrantesancionada em 2016, e era uma demanda antiga tanto de migrantes como de organizações da sociedade civil ligadas à temática. Ela consolidou uma série medidas implementadas no município desde 2013 em relação a imigrantes, como o CRAI (Centro de Referência e Atendimento a Imigrantes) e a criação do CMI (Conselho Municipal de Imigrantes).

A manutenção desses elementos obtidos ao longo dos últimos anos é uma das principais preocupações das instituições e coletivos ligados à temática migratória.

Uma das principais tarefas desse conselho é acompanhar a implementação do 1º Plano Municipal de Políticas para Imigrantes, que contempla um total de 80 metas a serem cumpridas até 2024. Tais metas partiram das demandas apresentadas na 2ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, ocorrida em novembro de 2019.

Delegados imigrantes votam durante plenária final da 2ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, em São Paulo
Delegados imigrantes votam durante plenária final da 2ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, em São Paulo.
(Foto: Rodrigo Borges Delfim – nov.2019/MigraMundo)

Cronograma eleitoral

O processo eleitoral para renovação do Conselho Municipal de Imigrantes teve início ainda em dezembro, com a publicação do Edital Eleitoral. Veja abaixo quais são os próximos passos:

  • 11 de janeiro de 2021 a 12 de fevereiro de 2020 – Período de inscrições presenciais e virtuais;
  • 26 de fevereiro de 2021 – Publicação, no Diário Oficial da Cidade e no site da SMDHC, da lista inicial de candidaturas deferidas e indeferidas;
  • 01 de março a 05 de março de 2021- Prazo para apresentação de recursos
  • 10 de março – Publicação, no Diário Oficial da Cidade e no site da SMDHC, da lista definitiva de candidaturas deferidas e indeferidas;
  • 11 de março a 09 de abril de 2021 – Período de Campanha Eleitoral;
  • 11 de abril de 2021- Eleição para as vagas de representantes da sociedade civil do Conselho Municipal de Imigrantes;
  • 16 de abril de 2021- Publicação, no Diário Oficial da Cidade e no site da SMDHC, do resultado preliminar da eleição;
  • 26 de abril de 2021 – Apresentação de recursos em relação ao resultado preliminar da eleição;
  • 30 de abril de 2021- Publicação, no Diário Oficial da Cidade e no site da SMDHC, do resultado final da eleição
  • 12 de maio de 2021- Publicação da Portaria de nomeação dos membros do Conselho Municipal de Imigrantes.

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Joe Biden vai mudar o rumo da política migratória nos Estados Unidos?

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O ex-vice-presidente Joe Biden, confirmado como candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos. (Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons)

Atualizado às 13h50 de 20.jan.2021
Publicado originalmente em 20.ago.2020

O democrata Joe Biden assumiu nesta quarta-feira (20) a Presidência dos Estados Unidos. Ele já chega com a promessa de reverter em um curto espaço de tempo várias das medidas polêmicas tomadas pelo seu antecessor, o republicano Donald Trump. E a temática das migrações está incluída nesse pacote de medidas.

O republicano e candidato derrotado à reeleição se notabilizou — entre outros pontos — pelo discurso e medidas hostis a imigrantes. Algo que, ao menos em teoria, o democrata promete modificar.

Duas ações foram anunciada ainda antes da posse. Biden suspendeu a expansão das barreiras em construção na fronteira com o México — um dos motes da campanha e do governo Trump. E também decretou o fim da proibição de entrada nos Estados Unidos de cidadãos de países considerados muçulmanos.

Outras medidas ainda devem ser anunciadas nos primeiros cem dias da gestão do democrata, como uma proposta para regularização de cerca de 11 milhões de imigrantes que vivem indocumentados nos Estados Unidos.

Deportações

Uma dúvida que fica é: será que a vitória de Joe Biden tem força para mudar o futuro das políticas migratórias no país? Há um consenso que vê os democratas como mais sensíveis a questões sociais do que os republicanos. No entanto, esse critério definitivamente não se aplica quando o assunto é imigração nos Estados Unidos, como mostra o histórico dos últimos presidentes.

Um exemplo é o ex-presidente Bill Clinton que, apesar de considerado democrata, os próprios simpatizantes ao partido sentiam tons conservadores em suas propostas migratórias. 

Durante a campanha de reeleição de Barack Obama, do partido Democrata, em 2012, grupos defensores aos direitos migratórios criticavam o então presidente, chamando-o de “chefe das deportações”. Nos últimos anos da gestão Obama, mais pessoas tentaram ingressar no país e, consequentemente, mais foram mandadas de volta, sem sequer passando pelo processo de julgamento que avalia a entrada de imigrantes. 

Segundo o Migration Policy Institute (Instituto de Políticas Migratórias), mais de 12 milhões de pessoas foram deportadas durante a gestão de Bill Clinton; mais de 10 milhões de pessoas foram deportadas durante a administração do republicano George W. Bush; mais de 5 milhões de pessoas foram deportadas durante o governo Obama.

Proporcionalmente, um número maior de migrantes foi mandado embora ou retornou ao seu país de origem nos primeiros anos em que Obama governou o país em comparação aos primeiros do atual presidente Donald Trump: enquanto o democrata deportou 1,18 milhões de pessoas em seus primeiros três anos de gestão, o republicano deportou um pouco menos de 800 mil, segundo o The Washington Post. Este fato foi um dos argumentos de Trump contra Joe Biden, o qual deve carregar o legado de Barack Obama.

Contudo, é importante ressaltar que a análise não deve ser feita somente em volta de valores numéricos, mas também em torno do contexto. Segundo a advogada Sophia Genovese, da Southern Poverty Law Center, da iniciativa de libertação de migrantes, “o governo Trump torna mais difícil para as pessoas obterem vistos ou status legal” sendo que o governo Obama, “por ter prioridades de fiscalização, foi capaz de agilizar as deportações”.

Sabemos que as propostas das políticas em relação à migração são essenciais e decisivas nas eleições presidenciais. Vamos entender como Joe Biden tem tratado a questão.

As propostas migratórias de Biden

Joe Biden se posicionou como o candidato que vai “desfazer os danos causados por Trump e recuperar os valores da América”, com uma “nação dos imigrantes”. Desde que Bernie Sanders saiu da corrida no Partido Democrata em abril, Biden passou a unir forças e a desenvolver uma força-tarefa direcionada à política de imigração.

No dia 11 de agosto, o democrata anunciou a senadora Kamala Harris para integrar sua chapa e disputar contra Donald Trump. Ela se tornou a primeira mulher negra a concorrer à Casa Branca e, com a vitória Democrata, será a primeira mulher eleita a ocupar o cargo da vice-presidência nos Estados Unidos.

A senadora Kamala Harris, escolhida como vice de Joe Biden na corrida presidencial nos Estados Unidos. Ela é filha de imigrantes.
(Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons)

É necessário destacar que Kamala é filha de imigrantes — seu pai é jamaicano e sua mãe é indiana. Este detalhe é de extrema relevância uma vez que os imigrantes são contemplados com a figura. A escolha de Kamala como vice é estratégica por incentivar a parcela da população que pouco se sente representada no cenário político atual dos Estados Unidos.

Sobre a questão das fronteira, ao mesmo tempo que Biden é contra a política de Trump, de criminalizar as passagens irregulares nas fronteiras, ele também não se mostra à favor da descriminalização. Ao invés de uma parede, Biden propõe por investir em uma tecnologia que inclua câmeras, sensores, máquinas de raios X e torres fixadas.

Sobre as deportações, em 15 de março, durante o debate entre os candidatos do Partido Democrata, o candidato afirmou que, se eleito, estabeleceria uma moratória para todas as deportações nos primeiros cem dias de sua gestão. Depois disso, somente aqueles que cometeram crimes seriam deportados.

Biden afirmou que trabalhará com o Congresso para ajudar 11 milhões de imigrantes indocumentados no país de conseguirem cidadania, desde que se registrem com as autoridades, estejam com seus impostos atualizados e sejam aprovados em verificações de antecedentes. Ele também permitirá que algumas cidades solicitem vistos adicionais para apoiar o desenvolvimento da economia.

Outra questão importante é que Biden prometeu proteger o Deferred Action for Childhood (DACA), programa criado na gestão de Barack Obama. Casando com o seu plano de ensino superior, ele também quer auxiliar os Dreamers a se tornarem estudantes de unidades federais.

O democrata propôs revisar os programas de Temporary Protected Status (TPS), Status de Proteção Temporário, que concedem status de imigração por períodos limitados àqueles que fugiram de conflitos armados ou desastres naturais em seus países de origem. Geralmente, essas proteções permitem extensões. Para Biden, aqueles que estiveram no país por um longo período de tempo terão um caminho garantido para a cidadania.

O democrata apoia o fim dos acordos de ‘terceiros países seguros’ entre Donald Trump e o Triângulo Norte da América Central, que exigem que os imigrantes solicitem asilo de El Salvador, Guatemala ou Honduras. Além disso, propõe incluir um pacote de ajuda, durante quatro anos, de 4 bilhões de dólares para a América Central, em casos de violência de gangues e de gênero, e também direcionado para melhorias na educação e na implementação de medidas anticorrupção.

Uma das propostas também é restabelecer o Central America Minors (Menores da América Central), programa criado na gestão Obama e encerrado por Trump em 2018, que concedeu a menores do Triângulo Norte a oportunidade de solicitar o reassentamento nos Estados Unidos.

Biden aumentaria o limite de admissões de refugiados globais anuais do país sete vezes mais, para 125 mil, partindo do limite do ano fiscal de 2020, de 18 mil. A mudança ultrapassaria o limite máximo do governo de Obama, de 110 mil. Outro ponto importante é que Biden afirmou encerrar o programa “Permanecer no México”, criado no governo de Trump, que exige que os requerentes de asilo aguardem as datas dos tribunais no país em solo mexicano.

Disclaimer

Seguindo o padrão do MigraMundo, a reportagem optou por substituir o termo illegal immigration — que, traduzido ao pé da letra, é “imigração “ilegal” — por imigração irregular ou indocumentada. O termo “ilegal” é uma pauta que vem sendo discutida há anos devido ao fato de que ele conota o imigrante indocumentado como alguém que não é digno de usufruir dos direitos do país e também estigmatiza a migração como uma atividade ilícita.


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Naufrágio na Colômbia chama atenção para perigos de rotas migratórias na América

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Colômbia migrantes Venezuela
Mais de 5 milhões de refugiados e migrantes da Venezuela deixaram o país desde 2015, principalmente para países vizinhos, incluindo as ilhas do sul do Caribe. (Foto: Vincent Tremeau/ACNUR)

Na primeira segunda-feira de 2021, uma embarcação com 28 migrantes naufragou no Golfo de Urabá, Colômbia, deixando seis mortos. O ocorrido não é um fato isolado na região, a qual, apesar de ainda apresentar um número bastante menor de vítimas que outros rotas ao redor do mundo, se mostra cada vez mais procurada e arriscada.

Após o endurecimento no monitoramento das fronteiras sul-americanas por parte de seus países, rotas clandestinas — por água e terra — têm sido cada vez mais usadas por migrantes latinos, africanos e asiáticos que visam chegar à América do Norte.

Por conta de sua posição geográfica, a Colômbia tornou-se um dos principais países de trânsito. Entretanto, o uso de coites, a presença de máfias e sua natureza inóspita fazem com que suas rotas apresentem grande perigo para quem as usa.

O naufrágio

O trabalho de busca e resgate ainda está em andamento, uma vez que se presume que a embarcação levasse 28 imigrantes. Até o momento, 9 pessoas foram resgatadas e 14 continuam desaparecidas. Dentre as 6 vítimas fatais, está um menor.

Segundo autoridades do município colombiano de Acandí, duas pessoas que conduziam a embarcação foram detidas. Informações preliminares indicam que os dois estavam transportando migrantes haitianos para o Panamá.

O golfo de Urabá, onde ocorreu o incidente, é uma das principais rotas de trânsito para migrantes africanos, asiáticos e haitianos que buscam chegar aos Estados Unidos pelo mar do Caribe, com paradas em países da América Central.

A presença de migrantes, que pretendem fazer a rota, em municípios como Acandí, Turbo, Capurganá ou Necoclí, localizados na região do Urabá, tornou-se um fenômeno que preocupa e sobrecarrega as capacidades das administrações locais. Como consequência, mortes, acidentes e naufrágios se multiplicam.

Há menos de um mês, em dezembro de 2020, 21 cubanos — 11 homens, 9 mulheres e um bebê de 2 anos —, que pretendiam chegar à América Central para depois seguir aos EUA, foram abandonados pelos coiotes nas águas do Golfo do Urabá após naufragar.

Em setembro do mesmo ano, 94 migrantes haitianos foram resgatados na mesa área, depois de um traficante os ter abandonado em alto mar. Dentre os socorridos estavam 33 menores.

A rota colombiana e seus riscos

Os mortos no naufrágio na Colômbia já constam nos registros do Missing Migrants Project [Projeto de Migrantes Desaparecidos, em tradução livre], mantido pela Organização Internacional para Migrações (OIM) e que monitora dados de migrantes que desaparecem ou morrem em processos migratórios irregulares. Só nos 13 primeiros dias de 2021 o Missing Migrants Project contabiliza 49 mortos, a despeito das restrições à mobilidade humana criadas no âmbito da pandemia.

Além disso, a OIM aponta que entre 2000 e 2017, cerca de 60 mil migrantes morreram em rotas de migração.

Apesar do levantamento feito, o verdadeiro número de migrantes que perderam suas vidas nas travessias é desconhecido. Além de muitas mortes e desaparecimento não serem relatados, as dificuldades geográficas de muitas áreas de rotas migratórias impossibilitam que se verifique o que de fato aconteceu com essas pessoas.

Entre as travessias mais conhecidas está a do Mediterrâneo, que separa a Europa da África. A América do Sul, no entanto, também deve ser vista com bastante atenção, uma vez que se trata de uma região de origem, destino e trânsito para migrantes internacionais. No que diz respeito ao último caso, é considerada uma zona de trânsito para migrantes de diversas nacionalidades que pretendem chegar aos EUA via América Central e México.

Apesar de não ser tão conhecida e divulgada no panorama internacional, a Colômbia faz parte de uma das maiores rotas de migração para os Estados Unidos e Canadá. O Urabá Antioqueño e Chocoano se tornou uma região chave para pessoas que chegam da Ásia, África e ilhas do Mar do Caribe.

A Colômbia é o único país da América do Sul que faz fronteira com a América Central e, por isso, é um dos principais países de trânsito da região para migrantes que viajam para o norte. Há muito anos, africanos, asiáticos ou caribenhos viajam pela Colômbia, entram pelo Equador, cruzam o Vale do Cauca e seguem em direção a Chocó. O uso de coites e a participação de máfias que dirigem o negócio, faz com que estas pessoas enfrentem grande risco para se chegar ao destino desejado.

Em 2010, a antiga Comissão Especial sobre Questões de Migração (CEAM) da Organização dos Estados Americanos (OEA) destacou que a imigração do exterior era um fenômeno “novo e crescente” na América Latina. Atualmente, a América do Sul apresenta fluxos de migrantes econômicos, solicitantes de asilo, refugiados e vítimas de contrabando de migrantes e tráfico de pessoas oriundos, principalmente, da África e da Ásia, aponta o relatório da OIM.

Segundo a Migración Colômbia, agência de imigração da Colômbia, em 2016, foram detectados 33.891 migrantes irregulares. Entre as principais nacionalidades estavam haitianos (20.366), cubanos (8.167), indianos (874), congoleses (570) e nepaleses (553).

A localização geográfica do país, faz com que a Colômbia possua muitas rotas de trânsito em seu território, tanto por via aérea, como terrestre e marítima. Em 2016, três novas rotas de contrabando de migrantes para os Estados Unidos como destino final foram identificadas .

“A primeira é por meio do Departamento de Putumayo (do Equador e do Peru); a segunda é do Brasil, passando pelo Departamento de Amazonas, até o Departamento de Antioquia, onde o destino final na Colômbia é a cidade de Turbo; A última rota identificada é aquela para migrantes que chegam como turistas em voos comerciais para a Ilha de San Andrés e daí de barco para a América Central” apontou o relatório da OIM.

Fonte: OIM, 2017

De acordo com a Migración Colômbia, em agosto de 2016, cerca de 1.800 migrantes foram registrados em Turbo, que é sua última parada antes de entrar no Panamá ou em outros países da América Central. Diante desta situação, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) expressou sua “profunda preocupação com a extrema vulnerabilidade de alguns migrantes que estão presos na cidade colombiana de Turbo, perto da região de Darien, Colômbia, perto da fronteira com o Panamá”. A maior parte migrantes veio de Cuba e Haiti, junto com outros de países africanos e asiáticos, e se dirigiam aos Estados Unidos.

Em resposta ao fluxo migratório, países da América do Sul passam a adotar medidas mais duras nas fronteiras. Como consequência, visando evitar a detecção pelas autoridades oficiais, os migrantes passaram a fazer rotas mais tortuosas e perigosas. “Isso inclui viajar pelas fronteiras amazônicas entre a Bolívia, Brasil, Peru e Equador; a selva densa entre a Colômbia e o Panamá; e o deserto e a zona de minas terrestres no Chile, onde as condições geográficas e climáticas são severas e extremas”, explicou o relatório da OIM.

A floresta presente na fronteira entre a Colômbia e o Panamá é uma das maiores e mais densas do mundo. A região de Darien divide o continente americano em dois, cortando a Rodovia Pan-americana e impossibilitando o trânsito regular de pessoas. Este contexto somado ao maior controle nas fronteiras, fez com que com o passar dos anos a região se tornasse uma das rotas migratórias irregulares mais perigosas da região. 

Migrantes na rota pelo Panamá costumam viajar em pequenos barcos da costa norte da Colômbia, pelo Golfo do Urabá. Quem realiza a rota por esse território enfrenta altas temperaturas, rios bravos, umidade, presença de grupos armados ilegais e contrabandistas. Este cenário, faz com que casos de naufrágios com vítimas de diferentes nacionalidades não seja raridade na região.

Os números da rota

Em 2016, na América Latina,  pelo menos 707 mortes foram registrados em 2016, um aumento de 43% sobre o 493 registrados em 2015. O Projeto de Migrantes Desaparecidos registrou 27 mortes em 2016 na América do Sul, em comparação com apenas 2 mortes registrados em 2015. Destas mortes, 89% ocorreram na Colômbia, a maioria dos quais ocorreram na fronteira do país com o Panamá na região de Darién e no Golfo de Urabá, aponta dados levantados pela da OIM .

O relatório também mostra que, em 2016, 18 mortes foram registradas no Golfo ou perto dele, onde os afogamentos e roubos violentos representam as principais causas de morte.

Quatro mortes foram registradas na área de Darién em 2016, mas o verdadeiro o número de mortes provavelmente é muito maior, uma vez que a região é notoriamente inacessível e nem todos os desaparecimentos e mortes são comunicados. Neste sentido, migrantes que viajaram através da rota relataram a presença de corpos decompostos ao longo do caminho, os quais provavelmente nunca serão identificados e entrarão nas estatísticas.

De acordo com a ONU, só em 2019 cerca de 24.000 pessoas cruzaram os 575.000 hectares que a região de Darien representa. Dentre aquele que chegaram até os EUA e o Canadá, 39 nacionalidades estavam representadas.

No entanto, os números da Migración Colômbia são mais conservadores. A agência garante que em 2019 percorreram 17.668 migrantes por aquela região do país, dos quais 3.170 eram haitianos. Em 2020, em decorrência da pandemia mundial, o número caiu para apenas 3.887.

Em comparação com outras regiões, a América do Sul não apresenta altos números  de mortes durante a travessia. Entretanto, o aumento desses números traz preocupações. Além disso, é preciso lembras que existe uma lacuna significativa de dados  sobre migrantes desaparecidos e mortos na região, o que impede que se saiba ao certo o que está acontecendo no continente e em suas fronteiras.


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Professor que já foi migrante cria ação social com música em comunidade natal no Piauí

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Projeto Compasso Matutuo
Vaqueiro Jeová durante aula do projeto Compasso Matuto, em Teresina (PI). (Foto: Alethea Rodrigues)

Em meio a todas as dificuldades normalmente enfrentadas no dia a dia pela população da comunidade Vila Irmã Dulce, na zona sul de Teresina (capital do Piauí), e agravadas pela pandemia do novo coronavírus, o som dos instrumentos tocados por crianças ainda pode ser ouvido no local. É lá onde elas fazem aulas de música oferecidas pelo projeto Compasso Matuto; a maioria mora na Vila, enquanto outras vêm de outros estados nordestinos, como o Maranhão e o Ceará.

Tudo começou em 1966, quando o músico e professor de escola pública Jeová Matos Rodrigues, conhecido no Piauí como Vaqueiro Jeová, migrou com sua família para Fortaleza, capital do Ceará. Ali viveu boa parte da adolescência, na periferia, assistindo sua mãe vender comida pelas ruas para sustentar a família. Inspirado pelo pai que era músico e pela vontade de mudar de vida, começou a lutar pelo seu sonho de se tornar professor de música.

“Via amigos se entregarem para as drogas, morrerem, e eu queria algo diferente para mim. Conheci cedo o poder da música e sabia da transformação que ela poderia fazer na minha vida e na vida de outras pessoas”, relembrou Jeová.

O vaqueiro conseguiu idealizar seu projeto ainda no Ceará. Começou a dar aulas de música gratuitamente para crianças e adolescentes da região, até que em 1986 voltou para o Piauí e se estabeleceu na comunidade Vila Irmã Dulce, onde reside até hoje, construiu dentro da sua própria casa a sede do Compasso Matuto, e atualmente ministra aulas para mais de 40 crianças.

É um forma de afastar essa garotada das drogas, álcool e de todo tipo de criminalidade, que estão bem presentes na nossa região.

Jeová, professor de música na Vila Irmã Dulce, comunidade no interior do Piauí.

“Aqui o acolhimento é completo. Como professor, me preocupo em dar uma boa aula de música, mas também prezo a disciplina, promovo a integração dos mesmos na comunidade e trabalho a questão da religiosidade (oramos antes e depois da aula como forma de agradecimento pela oportunidade de estarmos aqui). Além disso, é um forma de afastar essa garotada das drogas, álcool e todo tipo de criminalidade, que estão bem presentes na nossa região.

comunidade Vila Irmã Dulce, na zona sul de Teresina, onde funciona o projeto Compasso Matuto.
(Foto: Alethea Rodrigues)

A comunidade fica cerca de 15 quilômetros do centro de Teresina, com cerca de 37 mil habitantes (cerca de 6500 famílias). A maioria das crianças que vive no local carece da presença paterna, materna, ou ambas. Por isso, segundo Jeová, inseri-las no mundo da música vai além de torná-las profissionais.

Todas as crianças podem participar das oficinas de percussão e teoria musical, mas passam previamente por uma seleção feita pelo próprio Jeová. Durante esse teste, é escolhido o instrumento mais adequado para cada uma delas. As aulas são semanais e também há turmas para adolescentes e idosos.

O ritmo ensinado por Jeová é o samba, mas os alunos também aprendem noções de forró, baião e outros estilos musicais. “Temos dos mais diversos perfis de alunos, inclusive muitos migrantes de outros estados, em especial do Maranhão, Pará e Ceará”, afirmou.

“Todos chegam aqui tímidos, a maioria com problemas em casa ou depressivos, mas quando começam o curso melhoram a auto estima, a confiança em si mesmos e muitas vezes se aproximam dos familiares, que passam a acompanhar as aulas e as apresentações que fazemos pela comunidade”, ressaltou o vaqueiro.

Jeová mantém o projeto através de doações de pessoas físicas e jurídicas e parcerias com pequenas empresas privadas. Com esse apoio, consegue pagar as despesas básicas, comprar lanches para as crianças e fazer a manutenção dos instrumentos.

Agora, aos 55 anos com a vida estabilizada ao lado da família, os sonhos para o futuro do vaqueiro são todos ligados ao crescimento do projeto.

“Quero muito conseguir apoio financeiro suficiente para comprar um meio de transporte. Uma van seria adequada para levar meus alunos nas apresentações fora da comunidade e até mesmo organizarmos atividades de lazer. Alguns deles nunca viram o mar. E não precisa nem ir tão longe, alguns deles nem conhecem o teatro que fica no centro de Teresina. Todos aqui tem muito talento e quero poder mostrar isso para o Brasil e quem sabe para o mundo todo”, concluiu Jeová.

Jeová dos Santos, idealizador e coordenador do Compasso Matuto
Vaqueiro Jeová, idealizador e coordenador do Compasso Matuto. (Foto: Alethea Rodrigues)

*Ao contrário do que constava em versão anterior desta publicação, o nome de nascimento do Vaqueiro Jeová é Jeová Matos Rodrigues. O texto já foi corrigido

Livro coleta receitas de família e originais para sensibilizar sobre refugiados e imigrantes

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Café da manhã preparado à moda síria
Café da manhã preparado à moda síria. Gastronomia é uma das principais manifestações culturais de imigrantes. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Atualizado às 10h02 de 7.jan.2021
Publicado originalmente em 4.dez.2020

A gastronomia tem sido usada como elemento de aproximação dos brasileiros com as culturas de imigrantes — incluindo aqueles que se enquadram como refugiados. E além de provar pratos, doces e petiscos dos países de origem dessas pessoas, que tal aprender como prepará-los?

Essa é a aposta de “Sabores sem Fronteiras”, livro que está sendo elaborado pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Para tal, a ideia é reunir 30 receitas enviadas pelos próprios imigrantes e refugiados que vivem no Brasil.

A chamada para envio das receitas — que podem ser de família, do país de origem e até mesmo criações próprias — foi prorrogada e vai até 17 de janeiro. As inscrições devem ser feitas via formulário disponível neste link.

A divulgação das receitas selecionadas para a obra — cada proponente pode enviar até três sugestões — é prevista para 1º de março. Além da receita, os inscritos devem encaminhar um texto contando um pouco sobre a sua história e trajetória de vida.

Caso ocorra tudo dentro do planejado, a obra deve ser lançada ainda em 2021 pela editora Senac. Cada imigrante-autor vai receber um exemplar.

Resgate cultural e conscientização

“Os refugiados e imigrantes que vivem no Brasil trazem uma riqueza cultural imensa e que é pouco aproveitada em todos os sentidos. Esse livro busca ser uma pequena contribuição no sentido de resgatar essas culturas e vidas e conscientizar a sociedade brasileira de acolher bem essas pessoas”, ressalta o professor Marcelo Knobel, físico e reitor da Unicamp.

A historiadora, documentarista e presidente da Cátedra Sergio Vieira de Mello na Unicamp, Ana Carolina Delfim Maciel, também está à frente do projeto. Ela destaca ainda a chance de a sociedade brasileira aprender com tal diversidade presente no país.

“Buscamos visibilidade não por um viés assistencial, mas sim para estabelecer uma possibilidade de troca. Podemos ter uma vivência fecunda com essa diversidade. E as receitas perpassam tradições, culturas e individualidades. Queremos trazer esses elementos para o livro. Há também um viés biográfico, dando uma dimensão do indivíduo por trás da receita”.


*Venha ser parte do esforço para manter o trabalho do MigraMundo! Conheça nossa campanha de financiamento recorrente e junte-se a nós: https://bit.ly/2MoZrhB

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Migrant students reflect on end of the year parties in the middle of Covid-19

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Para voltar para a Grécia para as festas, Haris Konstantinos precisou fazer teste de Covid-19 antes da viagem. (Foto : arquivo pessoal)

Despite having their end of the year routines impacted, they gave some advice to migrants who will not be able to return to their countries by the end of the year

Written by Victoria Brotto
Translated by Natália Valverde Jatobá

Read here the Portuguese version

The health crisis is affecting the end-of-year plans of many people around the world, including some foreign students away from their countries.

Contrary to what the French government had planned, Christmas and New Year will be celebrated under restrictive measures of displacement, family gatherings and opening of businesses.

This is because the number of infections by Covid 19 has not dropped to 5,000 cases, a number indicating a satisfactory control of contamination at the national level.

For Christmas, however, the curfew from 8pm to 6am was cancelled and a permit for up to three houses, with a maximum of six people, was also issued by the French government for this date. However, for the New Year, the curfew will work again.

Yrys sends good wishes in Kyrgyz, the language of his country Kyrgyz, to the readers in MigraMundo.

Season’s Greetings

At the invitation of MigraMundo, some students living in France have used their own languages to express their good wishes and for 2021 to have better prospects than the year that ends in the coming days.

With the French borders outside Europe closed, Yrys Abdieva, 26, a student in the city of Strasbourg, will not be able to return to his country, Kyrgyzstan, to celebrate the end of the year with his family.

She says that even if Christmas is not celebrated in her country, because of the Buddhist tradition. At the end of the year, however, it is celebrated in the “same style” of Christmas, but on December 31. However, this year she will not be able to return to the celebrations.

Yrys, a student from Quiguistan, will not return to the country for the end-of-year festivities because of the EU’s external borders closed due to the pandemic. (Credit: Y.A./ personal file)

“I won’t be able to go back home because with the pandemic the ticket prices are too high, but mainly because if I leave France to a non-European country, I won’t be able to go back because the entry of non-French people coming from non-European countries is forbidden,” said Yrys, who still has no clear plans for Christmas.

Haris Konstantinos, 24, will return to his country, Greece, to celebrate the end of the year with his family. Being part of the European Union, Greece still has open borders with France.

In Greek, Haris Konstantinos sends a Merry Christmas and a Happy
New Year to the readers of MigraMundo.

But before leaving Strasbourg for Athens, the Greek student had to take a Covid-19 test three days before boarding. And he will have to retake it before returning to France. “But unlike the test in France, in Greece I may have to pay for it,” he said.

L.B., 28, a Brazilian Master in International Relations in the city of Lyon, will not return to Brazil for Christmas, but nothing new, because in the other years, since she arrived two years ago in France, she spent Christmas in France. L.B, however, knows that this time she won’t be able to party like before.

To return to Greece for the holidays, Haris Konstantinos had to test Covid-19 before the trip. (Photo: personal file)

“I arrived in 2008 and my two Christmases here were amazing and magical, I spent in French families as part of a college program. This year I don’t know,” she told MigraMundo stating that Christmas, this time, “will just be a date, given the circumstances. “But the important thing is to pass with health and peace, as clearly as possible,” she added.

Joaquin Carrasco, 29, in France four years ago, left Chile six years ago. Today he is a student in the city of Strasbourg and says he has not returned to his country for financial reasons. However, he says that Christmas and the New Year are special moments to discover new ways to celebrate the end of the year, new cultures and traditions.

Joaquin will spend Christmas in France, where he lives, and motivates others who will not be able to return to their countries to celebrate with “family of the migratory experience” (Photo: personal file).

The context of the pandemic has not changed his plans for this year, which he will spend with his brother, also a resident of Strasbourg. “But even if it had changed, I’m used to living a lonely life. The traveler’s life is lonely, but I’m the one who chose to always leave my country,” he said.

New concept of family

Joaquin, Yrys, L.B and Konstantinos however send advice or words of motivation to all other foreign people who will not be able to return home for the holidays.

“It’s a complicated situation for everyone, including those who won’t be able to spend time with their families. But it is necessary to try to see the situation differently, to take advantage of Christmas to share important moments with close friends.  In the times in which we live it is even more essential to privilege sharing,” said Joaquin.

“Migrants can broaden the concept of family, perhaps this Christmas will be the opportunity to experience our family given us by our migratory experience,” he added.

“Do not lose hope of better days. This moment may be difficult, but we will overcome it,” Konstantinos said. Yrys made a proposal to universities: “Why not invest in programs to bring together students alone at Christmas, foreigners or not?” she said, who plans to participate in a city hall program to help the homeless and homeless during Christmas.

Estudantes migrantes refletem sobre festas de fim de ano em meio à Covid-19

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Para voltar para a Grécia para as festas, Haris Konstantinos precisou fazer teste de Covid-19 antes da viagem. (Foto : arquivo pessoal)

A crise sanitária está afetando os planos de fim de ano de muitas pessoas ao redor do mundo, inclusive de alguns estudantes estrangeiros longe de seus países.

Ao contrário do que o governo francês havia previsto, o Natal e o Ano Novo serão festejados sob medidas restritivas de deslocamento, de encontros familiares e de abertura de comércios.

Isso porque o número de infecções por Covid 19 não baixou até 5 mil casos, número indicando um controle satisfatório da contaminação a nível nacional.

Para o Natal, no entanto, o toque de recolher das 20h às 06h foi cancelado e uma permissão de até três casas, com no máximo seis pessoas, foi também emitida pelo governo francês para essa data. Porém, para o Ano Novo, o toque de recolher voltará a funcionar.

Votos de Boas Festas

A convite do MigraMundo, alguns estudantes que vivem na França usaram os próprios idiomas para expressar seus votos de Boas Festas e para que 2021 tenha melhores perspectivas que o ano que se encerra nos próximos dias.

Yrys envia votos de boas festas em quirguiz, língua do seu país Quirguistão, aos leitores no MigraMundo.

Com as fronteiras francesas extra-Europa fechadas, Yrys Abdieva, 26 anos, estudante na cidade de Estrasburgo, não poderá voltar para o seu país, o Quirguistão, para festejar o final de ano com família.

Ela conta que mesmo que o Natal não seja festejado em seu país, por conta da tradição budista. No final do ano, no entanto, é comemorado no “mesmo estilo” do Natal, mas no dia 31 de dezembro. Porém, este ano, ela não conseguirá voltar para as comemorações.

Yrys, estudante do Quiguistão, não voltará para o país para as festas de fim de ano por conta de fronteiras externas da UE fechadas por conta da pandemia. (Crédito: Y.A./arquivo pessoal)

“Eu não conseguirei voltar para a casa porque com a pandemia os preços da passagem estão muito altos, mas principalmente porque se eu sair da França para um país não-europeu, eu não conseguirei voltar porque as entradas de pessoas não-francesas vindo de países não-europeus está proibida”, afirmou Yrys, que ainda não tem planos claros para o Natal.

Já Haris Konstantinos, 24 anos, voltará para o seu país, a Grécia, para festejar o fim de ano com a família. Por fazer parte da União Europeia, a Grécia ainda está com as fronteiras abertas com a França.

Em grego, Haris Konstantinos envia um feliz Natal e um bom ano novo aos leitores do MigraMundo

Porém antes de sair de Estrasburgo para Atenas, o estudante grego teve que fazer um teste de Covid-19 três dias antes de embarcar. E ele terá que refazê-lo antes de retornar para a França. “Porém, ao contrário do teste na França, na Grécia eu talvez tenha que pagar por ele”, afirmou.

L.B., 28 anos, brasileira mestranda em Relações Internacionais na cidade de Lyon, não voltará para o Brasil para o Natal, mas nada de novo, porque nos outros anos, desde que chegou há dois anos na França, ela passou o Natal na França. L.B, no entanto, sabe que dessa vez não poderá festejar como antes.

Para voltar para a Grécia para as festas, Haris Konstantinos precisou fazer teste de Covid-19 antes da viagem. (Foto : arquivo pessoal)

“Eu cheguei em 2008 e meus dois natais aqui foram incríveis e mágicos, passei em famílias francesas como parte de um programa da faculdade. Esse ano eu não sei”, contou ela para o MigraMundo afirmando que o Natal, dessa vez, “será só uma data, dada as circunstâncias”. “Mas o importante é passar com saúde e paz, dentro do possível claro”, acrescentou.

Joaquin Carrasco, 29 anos, na França há quatro anos, deixou o Chile há seis. Hoje ele é estudante na cidade de Estrasburgo e conta que desde então não voltou para o seu país por questões financeiras. Porém, ele fala que o Natal e o Ano Novo são momentos especiais para descobrir novas formas de festejar o fim do ano, novas culturas e tradições.

Joaquin passará Natal na França, onde mora, e motiva outros que não poderão voltar para seus países a festejar com ” família da experiência migratória” (Foto: arquivo pessoal)

O contexto de pandemia não alterou os seus planos para este ano, que ele passará com seu irmão, também habitante de Estrasburgo. “Mas mesmo se tivesse alterado, eu estou acostumado a viver uma vida solitária. A vida de viajante é solitária, mas fui eu que escolhi de sempre estar partindo do meu país”, afirmou.

Novo conceito de família

Joaquin, Yrys, L.B e Konstantinos mandam porém conselhos ou palavras de motivação para todas as outras pessoas estrangeiras que não poderão voltar para a casa para as festas de fim de ano.

“É uma situação complicada para todos, inclusive para aqueles que não poderão passar com suas famílias. Mas é preciso tentar ver a situação de forma diferente, aproveitar o Natal para compartilhar momentos importantes com os amigos próximos.  Na época em que vivemos é ainda mais essencial de privilegiar o compartilhar”, afirmou Joaquin.

“Os migrantes podem alargar o conceito de família, talvez nesse Natal seja a ocasião de experimentar a nossa família nos dada pela nossa experiência migratória”, acrescentou.

« Não percam a esperança de dias melhores. Esse momento pode ser difícil, mas vamos superá-lo”, afirmou Konstantinos.

Yrys fez uma proposta para as universidades : “Por que não investir em programas para reunir estudantes sozinhos no Natal, estrangeiros ou não?”, afirmou ela, que pensa a participar de um programa da prefeitura de ajuda aos sem teto e aos moradores de ruas durante o Natal.


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Vietnamita resgatado por navio da Petrobras virou empresário e reconstruiu vida no Brasil

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 Caçula de uma família considerada burguesa no Vietnã, Thái Quang Nghiã viu seu pai gerir campos de arroz e vender ao governo por muitas décadas, até que em 1974 o Vietnã do Norte (comunista) invade sua cidade natal, Saigon [atual Ho Chi Minh, então no Vietnã do Sul], e sua família teve todos os seus bens confiscados.

O vietnamita, com 20 anos na época, abandonou a escola e foi enviado para um campo de reeducação, onde era forçado a trabalhar o dia todo como escravo.

“Faziam na gente um tipo de lavagem cerebral para que mudássemos nossos pensamentos. Trabalhávamos desde as cinco da manhã até a noite. Saí de lá mais revoltado do que era”, lembrou Thái.

Nesse local, permaneceu por um mês, até que conseguiu a liberdade e decidiu, juntamente com a família que a melhor escolha seria fugir do país para não ser morto.

Foi em outubro de 1978 que Thái partiu sozinho em um barco pesqueiro com mais 67 vietnamitas. Foram resgatados em alto mar pelo navio Jurupema, de propriedade da Petrobras.

“Víamos vários barcos passando, mas ninguém parava para nos ajudar. Até que o Jurupema nos resgatou. Foram dias muito difíceis, inclusive passamos muita fome”, contou o refugiado.

Após chegar no Brasil sem falar uma palavra, vietnamita criou próprio méthodo de estudo do português e tempos depois passou em matemática na USP.
(Foto: Alethea Rodrigues/MigraMundo)

Ao chegar ao Brasil, desembarcou no Rio de Janeiro em pleno carnaval. Thái lembra que o Rio estava lotado por conta do feriado e foi acolhido pela Cruz Vermelha. Só depois de dois meses foi encaminhado pelas Nações Unidas (ONU) para São Paulo, no abrigo temporário da instituição filantrópica Missão Paz.

A casa que acolheu os vietnamitas resgatados se chamava AVIM (Associação dos Voluntários para a Integração de Migrantes) e desde 2002, passou a chamar Casa do Migrante. Nesse local permaneceu por seis meses.

“Quando cheguei não entendia nada de português, não sabia uma palavra e era impossível me comunicar. Era cego, surdo e mudo. Como sempre gostei de estudar, criei um dicionário vietnamita-português e passei a estudar sozinho”, contou Thái.

O dicionário, que posteriormente foi publicado, contém cerca de 14 mil palavras e ajudou o vietnamita a garantir fluência no português em pouco tempo.

No abrigo, dividia quarto com outros quatro vietnamitas. Na época o local recebia migrantes internos e um grande número de chilenos que fugiram do país de origem devido a repressiva e violenta ditadura de Pinochet (1973-1990).

A persistência e a vontade de vencer, fez com que Thái conseguisse passar no vestibular da USP e cursou a graduação em matemática. Durante o período como universitário já tinha um bom emprego, trabalhava como programador em um dos melhores bancos do país. Ele tinha um bom salário, o emprego era estável, mas o destino deu uma reviravolta na vida dele.

Recebido na Casa do Imigrante por 6 meses, Thái elaborou dicionário vietnamita-português com 14 mil palavras e passou a estudar sozinho. (Foto: Alethea Rodrigues/MigraMundo)

“Tinha uma pessoa que devia uma quantia em dinheiro para mim na época, e pagou essa dívida e, uma fábrica que havia falido e um estoque de mais ou menos 400 bolsas para que eu administrasse. Eu resolvi arriscar”, disse o empresário.

Como as vendas iam muito bem, Thái decidiu cursar Administração de empresas, que foi concluído em 2002. Logo em seguida, teve uma ideia que mudaria a vida dele. Ao se dar conta que todos os estrangeiros que visitavam o Vietnã levavam uma sandália feita da borracha do pneu como lembrança, decidiu produzir os mesmos calçados no Brasil.

Não demorou muito para os produtos se transformarem na marca Goóc, que no idioma nativo do empresário significa “raiz”. A empresa chegou a exportar para 35 países e vender mais de 6 milhões de unidades por ano. Em 2006, por exemplo, Thái chegou a faturar mais de R$ 60 milhões.

Em 2011, mais um episódio marcaria profundamente a vida do vietnamita; um incêndio destruiu por completo sua fábrica em Brotas, no interior de São Paulo. O empresário perdeu todo o estoque, máquinas e até os clientes por não conseguir cumprir os prazos de entrega. Diante das dificuldades que quase levaram sua marca à extinção, o empreendedor terceirizou sua produção e apostou no modelo de franquia, o qual deu certo e mantém até os dias de hoje.

Atualmente Thái vive com a família e tem três filhas. O vietnamita é conhecido em vários cantos do mundo por ser um especialista em dar a volta por cima.

Filho de burgueses em Saigon, Thái viu a família perder plantação de arroz e, aos 20 anos, ele foi enviado a campo de reeducação após ocupação comunista. (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje, a Goóc é mundialmente conhecida pela preocupação com sustentabilidade, por pensar no reciclado. Mas, segundo o vietnamita, a mensagem que quer passar aos clientes vai muito mais além. “Antes de salvar o mundo, você tem que ser forte o suficiente pra aguentar os trancos e barrancos da vida. Aguentar os desafios da vida. Essa é a raiz da Goóc”, ressaltou o empresário.

A visita no abrigo onde tudo começou

Na primeira semana de dezembro, Thái retornou a Missão Paz, e visitou a Casa do Migrante, primeiro abrigo que o acolheu quando chegou ao Brasil. Visitou cada cômodo, e relembrou tudo que viveu há mais de quarenta anos. Durante o tour, logo encontrou o quarto 4, onde dormia e estudava português todos os dias.

“Naquela época a luz era bem fraquinha, as camas eram de ferro e as regras muito rígidas. Eu sentava no chão, apoiava meu caderno na cama e produzia meu dicionário. Aprender português foi fundamental para o meu crescimento no Brasil”, relembrou emocionado.

Thái não conteve a ansiedade. Em cada canto que passava contava uma história diferente. No final da visita, revelou que naquela época, ao escutar Roberto Carlos e Asa Branca, se emocionava porque sentia muita solidão e saudade da família.

Ao sentar na área de lazer do abrigo, finalizou a entrevista com uma mensagem ao refugiados e migrantes que estão passando pela mesma situação que viveu,

“Quando cheguei aqui estava perdido, mas aqui vivemos em um país livre onde podemos construirmos a nossa vida. A gente fica longe da família, da nossa cultura, mas estamos salvos e podemos trabalhar, estudar e crescer na vida novamente. Tente esquecer o passado e viva uma nova vida, vai dar certo!”, finalizou o vietnamita.


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No Dia do Imigrante, uma reflexão sobre cidadania e direito a voto

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Exemplo de urna eletrônica usada nas eleições no Brasil. Participação ainda é restrita a brasileiros natos, naturalizados ou a portugueses com igualdade de direito
Exemplo de urna eletrônica usada nas eleições no Brasil. Participação ainda é restrita a brasileiros natos, naturalizados ou a portugueses com igualdade de direitos. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Nunca votei.

Eu, a atual Rocio Paik, de 22 anos, nunca votei na vida.

Desde que me tornei adulta no Brasil, passei duas eleições sem ir nas urnas. A presidencial, em 2018, e as municipais, em 2020. 

Neste ano, especialmente, tive uma experiência mais nítida em relação a quem sou eu no país. Trabalhar diretamente com as eleições me fez pensar profundamente sobre o silenciamento e apagamento dos imigrantes na sociedade. 

Há um mês nossa equipe do MigraMundo produziu uma reportagem que abordava quais eram as propostas dos candidatos a prefeito, especificamente em São Paulo, em relação à população em situação de refúgio e migração. No entanto, percebemos que grande parte nem sequer citava o termo “imigrante” em seus textos.

A omissão na sociedade, a ausência do direito de fazer parte de pautas políticas são fatores que fazem de nós, imigrantes, segregados. 

Ainda por cima, o fato de não ter o direito de votar me fez refletir como a política brasileira é estratégica. A elite e, consequentemente, os detentores do poder, são máquinas sociais que produzem aquilo que somente lhes é do interesse, descartando e desconsiderando qualquer vantagem das realidades que ameacem se aproximar ao seu status. Saber que não há oportunidades para que os imigrantes votem é, portanto, mais um grito social que deve ser escutado por aqueles que fazem parte da democracia. É necessário juntar as forças. 

Aquilo que se denomina como uma “festa da democracia” nunca foi assim tão democrático. Nomear as eleições como um evento de democracia só reforça a sensação do imigrante de não pertencer à sociedade. 

2018 foi o primeiro ano em que não pude votar por não ter o título de eleitor. Embora muitos me chamassem de “sortuda”, na época, por não ter a necessidade de ir às urnas nem justificar, pessoalmente sempre achei muito importante a votação. Sempre levei à sério, sempre considerei um dever fundamental do cidadão para escolher e realizar o bem público. Era uma eleição presidencial. Disputaram os candidatos Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (então PSL) na reta final, e não teria como não ficar com os dedos coçando para apertar o botão nas urnas. 

Diferenciais, no entanto, foram as eleições de 2020. Como jornalista, trabalhei nos dois domingos (15 e 29 de novembro), os dois turnos da disputa eleitoral, produzindo conteúdo da “festa da democracia” para os jornais da casa, ao vivo. Senti que estava cobrindo uma eleição que não me pertencia. De vez em quando, uma sensação de inutilidade da minha parte.

Um outro detalhe muito relevante foi também considerar o momento sombrio em que vivemos. Um tempo em que nossas vidas são constantemente ameaçadas pelo governo federal. Obviamente as eleições municipais se direcionam às cidades de cada estado, mas prefeitos têm papéis fundamentais na conexão política com as autoridades nacionais. Assim eles podem articular planos para conceder, então, uma vida mais digna à população local. É por isso que me bateu um desespero o fato de não poder fazer nada.

Se é uma “festa da democracia”, então que seja democrática. O cidadão tem direito, e o voto é um direito. O imigrante faz parte da sociedade, e é imprescindível, portanto, sua participação para que, assim como os outros, também tenha uma vida. 


Rocio Paik é jornalista e integra o time do MigraMundo desde maio de 2020. Nascida no Paraguai e filha de sul-coreanos, tem nacionalidade sul-corenana e paraguaia



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Acnur vive crescimento e contradições ao longo de seus 70 anos de existência

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Tendas do ACNUR em abrigo para venezuelanos em Boa Vista (RR). (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Ramana Rech Duarte

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados ou (ACNUR) completa 70 anos de existência nesta segunda-feira (14). A agência surgiu com limitações geográficas e temporais. Sua operação se restringiria somente a Europa e a um mandato de três anos, com um orçamento anual de 300 mil dólares. Hoje a entidade está presente em 135 países, com 17.324 funcionários e orçamento anual que, em 2020, chegou a US$ 8,721 bilhões.

No século XXI, o número de refugiados continua a não dar sinal de queda. Em meados de 2013, o mundo alcançou a marca de 51,2 milhões de pessoas deslocadas, ultrapassando pela primeira vez o número da 2ª Guerra Mundial. Em 2019, esse número já chegou a 79,5 milhões. Segundo dados do ACNUR, nos últimos dez anos o número de refugiados cresceu 50%, totalizando no ano passado 26 milhões. Desses, 20,4 milhões estão sob o mandato do ACNUR.

Para André Zuzarte, doutor em relações internacionais e professor na Laureate Brasil, o gigantismo da agência, que permite sua ampla atuação, também é seu “calcanhar de Aquiles”. Isso porque o tamanho da agência faz com que ela dependa ainda mais do dinheiro de grandes potência e de relações diretas com ela.

Em entrevista para a reportagem, o porta-voz do ACNUR no Brasil, Luiz Fernando Godinho, afirmou que no aniversário da agência é preciso lembrar que a questão do refúgio só será resolvida com “coordenação e vontade política”. A agência tem um papel paliativo e “se os líderes não se sentam à mesa e decidem cessar fogo não há ajuda humanitária que seja suficiente.”

O ACNUR foi adotado formalmente a partir da Convenção de Genebra de 1951. Esse marco criou a figura do refugiado em termos políticos. Ele era o europeu que precisou se deslocar em decorrência de eventos anteriores a 1º de janeiro de 1951, ou seja, da 2ª Guerra Mundial, “temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas”.

Crianças e jovens até 18 anos representam mais da metade dos refugiados e deslocados no mundo atualmente. Crédito: ACNUR

A agência nasceu como uma resposta à grande massa de deslocados da 2ª Guerra Mundial, que “trouxe um número de deslocamentos nunca vistos antes”, comenta Patrícia Nabuco Martuscelli, doutora em ciências políticas e mestre em relações internacionais.

Na época, a maior parte desses refugiados vinham da União Soviética ou de seus estados satélites na Europa Oriental. No contexto da Guerra Fria, países, principalmente do bloco ocidental, se mostravam dispostos a acolher o fluxo migratório. Imigrantes que fugiam do domínio soviético eram considerados traidores da pátria em seu país de origem e, quando repatriados, podiam ser condenados à execução ou ao trabalho forçado.

A fim de dar conta dessa demanda, o projeto de agência internacional defendido pelos países europeus, especialmente pela França, deveria ser robusto, autônomo para dar uma resposta sólida à crise migratória. Por sua vez, a URSS negava qualquer outra solução que não fosse a própria repatriação.

A URSS saiu prejudicada na Segunda Guerra Mundial com a morte de 26,6 milhões de russos, segundo dados oficiais do governo de 2015. Assim, o país precisava de mão de obra para se reconstruir. Além disso, a fuga de seus domínios continham um valor simbólico de sugerir ao resto do mundo que as pessoas não queriam viver sob o regime socialista.

O ACNUR nasceu, porém, aos moldes dos Estados Unidos, a quem também não interessava devolver “de bandeja” cidadãos soviéticos, como explicou André Zuzarte. Para o país, a agência deveria ser fraca, temporária, com baixo orçamento. Como já estava envolvido em outros conflitos em decorrência da guerra fria, uma agência limitada seria menos onerosa e daria flexibilidade para que o país respondesse aos fluxos de acordo com seus interesses.

Conflitos pós-colonialismo

Durante a década de 60, os conflitos pós-coloniais na África e Ásia trazem uma nova configuração para o refúgio. A figura de imigrantes deixa de girar em torno do europeu branco, e passam a ser negros, árabes; a questão migratória toma caráter global e periférico.

A Convenção de 1951 deixa de ser suficiente para as novas demandas migratórias. Surge, então, o Protocolo relativo ao Estatuto dos Refugiados de 1967, assinado na cidade de Nova Iorque. O protocolo suspende as limitações de seu antecessor e torna o refúgio um movimento mundial não necessariamente vinculado à 2ª Guerra.

Torna-se claro para os países que a questão do refúgio não era algo passageiro, “pessoas deslocadas de maneira forçada por causa de conflitos iam continuar acontecendo no mundo”, diz Patrícia Nabuco. Somado a isso, o ACNUR e o seu Alto Comissário na época, Felix Schnyder, foram bastante competentes em “manejar as oportunidades para mostrar sua importância”, conta Zuzarte. Assim, na década de 60, a ACNUR se torna uma agência de maior importância mundial.

Em 1984, alguns países latino-americanos, inclusive o Brasil, assinaram a Declaração de Cartagena. As ditaduras da época ocasionaram grandes deslocamentos, especialmente na América Central.

Por meio desse dispositivo, o conceito de refugiado deixa de ser relacionado somente à perseguição. Ele serve, também, para aqueles em situação de “violação maciça dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública”. A Declaração aponta o ACNUR como colaborador e estabelece maiores vínculos com países em desenvolvimento no continente.

Conflitos atuais

Hoje, conflitos incessantes impedem que as pessoas retornem ao seu lugar de origem. Somado a isso, países receptores – em um movimento que começou na década de 60 – fecham suas fronteiras.

É nesse contexto que o ACNUR se torna a autoridade responsável pela documentação das pessoas como refugiados, além de atuar na sensibilização dos cidadãos. Em 2003, foi excluído o tempo limite do mandato da agência, que foi estendido até quando os problemas referentes ao refúgio estivessem resolvidos.

Por outro lado, porque não tem um orçamento fechado, a agência precisa simultaneamente continuar se mostrando útil, enquanto corresponde aos interesses de seus doadores. “Ele também tem que acabar brigando pela sua sobrevivência, então isso acaba limitando a sua atuação”, menciona Patrícia Nabuco.

O porta-voz Luís Fernando Godinho conta que a agência realiza um planejamento financeiro de dois anos, em que a partir das necessidades estipuladas, se cria um orçamento. O valor orçado nunca é atingido, o que leva à agência a precisar definir prioridades.

Sob a pressão das grandes potências, que são os doadores e os “grandes de violadoras dos direitos dos refugiados”, como define André, a atuação da agência fica limitada.

Um dos casos memoráveis aconteceu em 2016. Na época, a União Européia e a Turquia assinaram um acordo, pelo qual imigrantes que chegassem irregularmente da Turquia à Grécia, seriam devolvidos ao país euro-asiático. A cada imigrante retornado, a União Europeia receberia outro que tivesse pedido para entrar no continente de forma regular.

Abrigos para deslocados em Khamer, na província iemenita de Amran.
Crédito: OCHA/Philippe Kropf

Entidades humanitárias criticaram o acordo ativamente argumentando que consistia em uma expulsão coletiva e um descumprimento ao princípio de não-devolução da Convenção de 1951.

A Human Rights Watch, por exemplo, produziu um relatório em que pedia à União Europeia que não enviasse imigrantes de volta para a Turquia. O documento descrevia o descumprimento do direito de refugiados no país.

Por sua vez, o ACNUR apenas expressou “preocupação” com alguns aspectos da proposta. Para André, o tamanho que a agência tomou ao longo do tempo, a deixou ainda mais dependente dos doadores para continuar suas atividades, o que resultou na simples declaração “de preocupação” do Alto Comissário. E Patrícia complementa: “Há críticas de que o acnur teria uma atuação passiva em relação aos refugiados”, diz Nabuco

Porém, Godinho relativizou a acusação afirmando que a expressão de preocupação do alto comissário foi bastante relevante. Disse ainda que é preciso diferenciar ONGs de agências internacionais, que fazem parte parte de um “concerto internacional”.

“Agente apoia decisões nacionais, e a gente negocia com todos os governos, independente da posição política.”, comentou o porta-voz. “Com esse acordo ou sem acordo a gente continua trabalhando para proteger as pessoas. Mas os países são sobreranos”, completou. Do mesmo modo, ele diz que os países doam para o ACNUR sabendo que do caráter não discriminatório do ACNUR.

As questões do crescimento do ACNUR também se materializam nos campos para refugiados à medida em que vão crescendo junto com a agência, o que os torna cada vez mais permanentes. Isso é chamado de exílio prolongado. “Eles estão se tornando cidades, gerações nascem nos campos”, diz André. Ele explica que apesar da precariedade, os campos se tornam soluções confortáveis para os países, que deixam de tentar integrar os imigrantes.

Hoje, há três fatores intensificadores de conflitos que estão no radar do ACNUR, anuncia Godinho. São eles: pobreza extrema, mudanças climáticas e o Coronavírus.

Segundo o especialista, a perda de renda na dos refugiados na pandemia tem sido uma das diretrizes das ações da agência, que busca tornar os refugiados auto suficientes com novas fontes de renda. Além disso, com a crise de saúde atual, a agência se volta para garantir que essas pessoas estejam incluídas na resposta nacional de saúde.

André Zuzarte menciona o deslocamento ambiental, por conta da crise climática, que pode fazer alguns países desaparecerem com o aumento do nível do mar. Mas essa categoria ainda não consta como jurídica. “O grande desafio vai ser ampliar essa definição para dar conta dessa realidade.” .

Outra questão que fica para os próximos anos é a dos imigrantes venezuelanos, que entraram na categoria “venezuelanos deslocados globalmente”, no Global Trends de 2019. Embora não reconhecidos como refugiados, esse grupo representa 3,6 milhões de pessoas. Nos países de acolhida dos refugiados, ainda há o recrudescimento de ideias nacionalistas e xenófobas, além de notícias falsas que estimulam o ódio contra pessoas em situação de refúgio.

Patrícia ainda lembra o aumento de dados disponíveis do ACNUR a respeito do refúgio, o que ajuda a visualizar e atender às demandas de segmentos específicos, como a de meninas, crianças e idosos refugiados. Obviamente, o ACNUR e a ONU não são organizações perfeitas, mas estaríamos em uma situação muito pior sem elas”, declara.


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