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quarta-feira, julho 1, 2026
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Dinheiro, incerteza, estresse e solidão: migrantes na Europa falam sobre confinamento em meio ao Covid-19

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Uma das principais vias de Estrasburgo França), deserta em meio à quarentena imposta contra o Covid-19
Uma das principais vias de Estrasburgo França), deserta em meio à quarentena imposta contra o Covid-19. Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Por Victória Brotto
(de Estrasbourgo, na França)
leia aqui em espanhol
leia aqui em inglês

“O confinamento é como uma guerra, mas sem armas”, diz Agnes Amon Tanoh, 63 anos, refugiada da Costa do Marfim e hoje residente na cidade inglesa de Birmingham.

Ela e outros sete migrantes que vivem em países como França e Inglaterra relataram ao MigraMundo estresse, solidão, dificuldade financeira e nos estudos. Eles também falam sobre a falta de acesso a alimentos e a itens de higiene, devido ao aumento dos preços e ao fechamento de ONGs.

Dos que estão em processo de regularização, os relatos são de processos parados e de audiências por vídeo – o que pode dificultar a comunicação entre requerentes e juízes, ainda mais se o requerente não tiver uma boa conexão.

Outra barreira adicional é que bibliotecas e mediatecas, usadas por essa população com tal finalidade, estão fechadas, e muitos migrantes não conseguem pagar por uma internet razoável.

A., libanês palestino, há seis anos na Inglaterra e hoje residente da cidade de Birmingham, entrou com recurso depois que o seu pedido de asilo foi recusado.

“Eu apliquei novamente para o asilo, mas me informaram que todo os procedimentos estão parados por causa do Coronavírus. Espero que o governo faça algo porque as pessoas estão sofrendo sem o estatuto de refugiado (que lhes permite trabalhar e estudar no Reino Unido).”

A. recebe atualmente uma pequena ajuda financeira. Desde que o asilo lhe foi recusado, ele teve que parar os estudos.

Residentes próximos à cidade de Estrasburgo (onde a foto foi tirada) , refugiados relatam problemas financeiros por conta do confinamento e dificuldade no aprendizado à distância.(Victória Brotto/MigraMundo)

Tecnologia que ajuda ou dificulta?

“Uma amiga minha deveria recorrer à decisão judicial, mas não pode. O que vai acontecer? Nós não sabemos! Todas as ONGs pararam de marcar encontros físicos, as bibliotecas públicas estão fechadas, e então como conseguiremos acesso à internet se não temos computador em casa? E mesmo se tivermos, um requerente de asilo não consegue pagar por internet”, afirma Agnes.

A ONG Hope Projects é uma das entidades que oferece assistência jurídica e social para imigrantes sem moradia que tiveram seus pedidos de regularização negados na cidade de Birmingham.

“Nós tomamos muito tempo conversando com as pessoas para ter certeza que elas entenderam a situação e o que elas precisam fazer”, afirma Phil Davis, coordenador da instituição.

“Nós tomamos tempo conversando com as pessoas para ter certeza que elas entenderam a nova situação ”, diz coordenador de ONG britânica que acompanha requerentes de asilo sem moradia.(Crédito: Hope Projects/ Arquivo)

A situação atinge até migrantes que integram a equipe da entidade, como o iraniano Amir, que também dirige uma organização persa LGBT.

“Eu estou esperando para poder submeter meus documentos à corte. Com o confinamento, todos os processos estão suspensos e ninguém sabe o que pode acontecer.”

As Cortes ampliaram o número de audiências de regularização feitas por videoconferência. Apesar de representarem um meio seguro em tempos de pandemia, elas podem ser um problema para requerentes de asilo que não dominam a língua local ou que não têm acesso a uma boa conexão de internet.

Incerteza e estresse sobre regularização

Dois requerentes de asilo residentes em Estrasburgo, na França — com os quais o MigraMundo conversou — também tiveram seus pedidos de asilo negados e estão à espera da reabertura da Corte Nacional do Direito de Asilo (CNDA, em francês) para que seus recursos sejam julgados.

O governo francês ordenou o confinamento duas semanas depois deles terem sido informados da decisão negativa ao seus pedidos por asilo — a quarentena foi estendida pelo menos até o começo de maio.

E foi apenas uma semana depois que eles conseguiram saber que nenhum recurso poderia ser feito, pois a Corte estava fechada.

Para os requerentes de asilo na França que tiveram seu primeiro pedido negado é extremamente importante agir rápido. Assim que recebe-se a decisão da Corte, o requerente tem 15 dias para informar o governo se quer recorrer e se precisa de um advogado.

Uma vez com o advogado, este tem um mês para rescrever a história do seu cliente, apresentar novas provas e enviá-las aos juízes. Esses prazos foram previstos pela Reforma da Lei do Asilo e da Imigração feita pelo governo francês em 2018.

Ou seja, uma semana sem saber se pode ou não recorrer significa mais da metade do tempo que um requerente de asilo tem para reagir.

N., afegão requerente de asilo residente nas proximidades de Bordeaux, no sudoeste da França, espera a abertura da Corte National de Asilo para poder ser ouvido. Ao contrário de outros migrantes, ele conseguiu depositar seu recurso antes do confinamento.

Em entrevista por telefone, N. relatou “muito estresse psicológico” pelo fato de ter tido o seu pedido de asilo negado, por sua família ainda estar no Afeganistão, vivendo sob ameaça de morte por conta de serem cristãos em uma região de maioria muçulmana.

Ele e sua família fugiram para o Irã com o objetivo de embarcar para a Europa, mas a sua esposa e suas filhas foram deportadas porque não tinham vistos. Hoje, ele está confinado em um apartamento com outros requerentes de asilo, de onde espera a reabertura da corte que irá julgar o seu recurso.

“A minha situação é muito muito difícil, mais do que estar confinado, o meu problema é que o governo francês não acredita em mim.”

Esperar até a reabertura dos processos não altera em nada os direitos dos requerentes de asilo na França. Elas continuam tendo o direito de permanecer no país e de morar nos alojamentos sociais. Porém, com a corte fechada, as assistências jurídicas gratuitas foram suspensas até o fim do confinamento.

Dificuldades financeiras

A síria Reem Alkhatib, 40, vive na cidade de Wissembourg, há 50 quilômetros de Estrasburgo (França) após ter fugido com os dois filhos fugindo da guerra no país natal. Ela relata dificuldades para pagar as contas desde que o restaurante onde trabalha fechou.

Reem, assim como 6,9 milhões de pessoas na França (de acordo com informações do Ministério do Trabalho), recorreu ao seguro desemprego parcial. Mas para ela, o recurso não é o suficiente.

A síria Reem, que relata dificuldade financeiras mesmo com ajuda anunciada pelo governo francês.
(Crédito: Arquivo pessoal)

De acordo com o decreto do dia 25 de março feito pelo governo francês, para evitar que contratos de trabalho fossem rompidos, o trabalhador que não puder trabalhar durante o confinamento pode pedir seguro-desemprego parcial. O regime estabelece 70% do salário bruto ou 84% da hora trabalhada.

“Com o seguro-desemprego parcial, eu consigo no máximo mil euros, mas as minhas contas são mais altas do que isso”, conta ela. “Eu vou ter que trabalhar nas fábricas, tem muita gente fazendo isso porque não tem escolha. É perigoso porque o risco de infecção pelo vírus é alto, mas eu não tenho outra opção.”

Alguns dias depois, Reem informou à reportagem que conseguiu um trabalho temporário como cozinheira em uma casa de repouso. A refugiada síria falou ainda que o governo francês deveria saber que refugiados e imigrantes mais pobres são “uma das partes mais frágeis da população.”

“Nós não temos o domínio da língua, nem temos tantos conhecidos aqui no país, por isso fica difícil de se virar em uma hora dessas.”

Na Inglaterra, a marfinense Agnes vive a mesma dificuldade que Reem, porém não encontrou uma solução para pagar as contas. “Como agente de limpeza, eu só recebo pelas horas trabalhadas. Assim, enquanto durar o confinamento, eu não receberei nenhuma salário.”

Em pronunciamento recente, o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom , afirmou que era responsabilidade dos governos cuidarem de seus cidadãos, principalmente dos mais vulneráveis.

Solidão e saúde mental

 “A maioria dos refugiados e requerentes de asilo são pessoas que vivem sozinhas em países estrangeiros. Eles normalmente participam de encontros organizados pelas ONGs justamente para socializar”, afirma Agnes.   

“Como ninguém pode sair nem continuar suas atividades como antes, todos se sentem tristes, confusos e isso afeta a saúde mental e psicológica das pessoas”, afirma A, palestino requerente de asilo na Inglaterra.

O sírio Mohammad Ahmad, 33 anos, refugiado residente nos arredores de Paris, também falou parou de participar de encontros que lhe ajudavam a praticar o francês. “Eu ia para lá para conversar com as pessoas e praticar o meu francês, mas hoje não dá. Está tudo fechado”, afirma ele.

Mohammad foi preso duas vezes pelas forças opositoras ao regime sírio, e hoje se vê confinado em um pequeno apartamento social na periferia parisiense.

Já Amin Tatari, refugiado sírio de 23 anos que retomou os estudos no colegial depois que ingressou no sistema de educação francês, segue as aulas de casa, em uma pequena cidade próxima à Estrasburgo.

“A maioria dos professores mandam documentos explicando a matéria por e-mail, junto com os deveres. Eu tenho que ler e tentar entender sozinho”, conta. “Mas como o francês não é a minha língua mãe eu encontro muita dificuldade”, conta Amin, que diz gastar até 10 horas por dia estudando.

Amin Tatri, 23 anos, sírio refugiado em território francês relata dificuldades para seguir ensino à distância. (Crédito: Arquivo Pessoal)

O iraniano Amir fala ainda sobre relatos de requerentes de asilo que não tem papel higiênico nem itens de limpeza nas residências fornecidas pelo governo britânico.  “Nós esperávamos que as autoridades dessem mais atenção às pessoas, que não foram informadas e assistidas da maneira que deveriam”, afirma.

“Uma senhora requerente de asilo têm duas filhas e descobriu essa semana que está grávida. E então toda a sua família teve que se isolar por causa do risco”, relata Agnes. Além da comida, essa senhora teve que comprar um pacote de internet para as duas meninas acompanharem as aulas.

Ainda no Reino Unido, uma pessoa refugiada do Zimbabue relata “muito estresse” por estar sozinha com o filho bebê. “Para sair para fazer compras eu preciso levá-lo (…) me assusta pensar que ele pode ser infectado.”


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Casal de refugiados sírios já doou 900 marmitas para pessoas em situação vulnerável em SP

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O casal Talal e Ghazal, que já distribuiu centenas de marmitas a pessoas em situação de vulnerabilidade
O casal Talal e Ghazal, que distribuiu centenas de marmitas a pessoas em situação de vulnerabilidade. (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Carolina Guagliano

A pandemia que estamos vivendo hoje é nova para todos nós, mas a necessidade de ficar em casa para proteger a si e a quem amamos já é algo conhecido por alguns. Talal Al-Tinawi e Ghazal Baranbo, refugiados sírios no Brasil, conheceram esta realidade durante o tempo em que vivenciaram a guerra em seu país de origem.

Como maneira de ajudar os brasileiros a passarem por esse momento, o casal já distribuiu um total de 900 marmitas de comida árabe na cidade de São Paulo.

Com a proibição de grandes eventos muitos imigrantes e refugiados viram sua fonte de sustento sofrer grande impacto, uma vez que vários deles têm a venda de comida e buffets como principal fonte de renda.

Para Ghazal e Talal, responsáveis pelo Talal Culinária Síria, não foi diferente. Entretanto, conhecendo as dificuldades que os idosos enfrentam para se manter em casa, eles decidiram distribuir, por conta própria, 300 marmitas para aqueles acima de 65 anos.

Para além do proposito de ajudar, a gesto foi “também para agradecer o povo brasileiro porque me receberam muito bem no Brasil e me ajudaram bastante para continuar minha vida aqui” disse o sírio em conversa com o MigraMundo.

Marmitas distribuídas por Talal e Ghazal em São Paulo.
(Foto: arquivo pessoal)

‘Também sou voluntário’

Após a entrega para os idosos, a segunda distribuição teve pessoas vulneráveis como público alvo e contou com doações em dinheiro e de alimentos para poder ser idealizada. 

Com o apoio dessas doações, 900 marmitas já foram entregues e o casal pretende chegar a 1.000 com a ajuda da solidariedade dos brasileiros.

“Estava muito feliz porque que consegui fazer alguma coisa pelo idoso e pelo Brasil para agradecer o brasileiro e por isso me senti muito feliz” disse Talal quando perguntado sobre como foi essa distribuição para ele.

“Foi uma experiência muito boa para mim, poder fazer doação e trabalhar como voluntário porque quando eu cheguei aqui o voluntário me ajudou, agora eu trabalho como voluntário”.

Como contribuir

Qualquer pessoa pode contribuir com a iniciativa de distribuição de marmitas, por meio de depósito bancário. Ela também serve como meio de pagamento para quem quiser pedir e experimentar —por delivery — pratos e demais petiscos da culinária síria preparados pelo casal.

Banco Itaú
agência 0772
Conta 20928-4

Além das refeições por delivery, Talal e Ghazal também oferecem workshops online sobre como preparar petiscos típicos da culinária árabe, como esfihas, charutos, homus, falafel, entre outros.

Maiores informações podem ser obtidas junto ao casal por meio do celular/ WhatsApp (11) 96622-1305.


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Solidariedade e consciência coletiva: experiências de imigrantes e refugiados na pandemia de covid-19

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refugiados têm protagonizado um onda inspiradora de ações solidárias e de consciência coletiva em meio ao Covid-19.
Imigrantes e refugiados têm protagonizado um onda inspiradora de ações solidárias e de consciência coletiva em meio ao Covid-19. (Foto: Divulgação/PDMIG-África do Coração)

Por Patrícia Nabuco Martuscelli*

Dizem que, em momentos de crise, o ser humano revela aquilo que ele tem de melhor e de pior. Enquanto assistimos exemplos do que poderia ser classificado como mais reprovável da humanidade na atual pandemia do novo coronavírus (covid-19) como pessoas esvaziando prateleiras nos supermercados, líderes confiscando equipamentos de proteção individual de outras nações e empresários que não se importam com a vida de uma parte da sociedade, o momento atual também nos brinda com exemplos de solidariedade, amor ao próximo e esperança na raça humana.

Nos últimos dias, imigrantes e refugiados têm protagonizado essa onda inspiradora em meio a uma situação extremamente difícil para toda a população brasileira.

Ao longo da minha pesquisa que entrevistou 34 imigrantes e refugiados em 10 dias, observei exemplos de solidariedade e consciência coletiva mesmo daquela parte da população que é afetada desproporcionalmente pela epidemia por estar longe de suas famílias e redes de proteção.

Ações de solidariedade

Conversei com pessoas que estavam em situações realmente difíceis: impossibilitadas de trabalharem por causa das medidas de distanciamento social ou até desempregadas que mesmo em condições em que a busca pela sobrevivência “justificaria” ações mais egoístas estavam pensando em como ser úteis e contribuir com outras pessoas que estavam em uma situação ainda mais complicada.

Um caso interessante foi o de uma família síria que trabalha com gastronomia e foi afetada pelo cancelamento de eventos. Ainda assim, eles distribuíram 300 marmitas para idosos brasileiros como uma forma de retribuir para o país e fazer sua parte. 

Além desse, também conversei com um senegalês que, apesar de estar desemprego e não ter com quem contar no Brasil, estava chefiando ações para oferecer alimentos e apoio para a população de rua. Essa pessoa, que poderia ficar em casa como forma de se proteger do vírus, decidiu fazer aquilo que estava ao seu alcance para ajudar o seu próximo que estava em uma situação mais difícil do que a dele.

Também outros imigrantes sírios e congoleses estavam contribuindo com seus vizinhos idosos fazendo compras de supermercado para evitar que essas pessoas do grupo de risco tivessem que sair de casa. Também ouvi exemplos de famílias imigrantes e refugiadas que estavam desempregadas e sobrevivendo com cestas básicas doadas, mas que dividiam o pouco que tinham com vizinhos brasileiros que também estavam passando por necessidades.

Outros refugiados venezuelanos me explicaram que, por causa da situação na Venezuela, estavam acostumados a ficar em casa, racionar comida e se reinventarem para sobreviver. Esses estavam compartilhando essas experiências e auxiliando outros brasileiros e demais nacionais a se reinventarem em meio a essa crise que parou mais de um terço do planeta.

Além de outros exemplos do tipo Brasil afora, teve ainda a entrega de cestas básicas e kits de higiene promovida pela ONG África do Coração, fundada e composta por imigrantes e refugiados. A ação atendeu 55 famílias de imigrantes em situação vulnerável no centro de São Paulo no último sábado (11).

Entrega de doações de cestas básicas e kits de higiene em São Paulo pela África do Coração, ONG formada por imigrantes e refugiados
Entrega de doações de cestas básicas e kits de higiene em São Paulo pela África do Coração, ONG formada por imigrantes e refugiados.
(Foto: Divulgação/África do Coração)

Consciência coletiva

Além de exemplos concretos de solidariedade, amor ao próximo e retribuição aos brasileiras pela acolhida recebida no país, impressiona a consciência coletiva dos entrevistados. Como já explicado no primeiro texto desta série, imigrantes e refugiados são mais afetados do que a população brasileira pelos efeitos do covid-19 por estarem sem suas famílias, terem incertezas sobre acesso a direitos e benefícios, terem tido seus processos documentais parados e estarem preocupados com suas famílias em países de origem afetados por conflitos armados, crises e sem recursos para lidar com a pandemia.

Nessa linha, minha pesquisa continha uma pergunta que tinha o objetivo de chamar atenção para imigrantes e refugiados como um grupo minoritário (não-nacionais no Brasil). A pergunta era: Como você acha que o governo brasileiro poderia ajudar os imigrantes e refugiados nesse momento de coronavírus? 

Esperando que essa questão levasse a reflexões mais individualistas considerando os próprios desafios que cada um dos entrevistados estava enfrentando por causa das medidas para lidar com essa doença, tive uma surpresa que restaurou um pouco minha fé na humanidade.

A maior parte dos entrevistados reconhecia que o governo brasileiro deveria ajudar todas as pessoas afetadas pela pandemia, independentemente de nacionalidade, raça, classe social, sexo, idade, status documental, o que incluía necessariamente ajudar também os brasileiros. Algumas pessoas chegaram a refletir que até as pessoas ricas brasileiras poderiam estar passando por dificuldades, o que demandava maior atenção do governo.

Os entrevistados sugeriram que o governo adotasse uma renda básica para toda a população, que oferecesse apoio psicológico, que distribuísse cestas básicas para os mais necessitados e kits de higiene para aqueles que não podem comprar máscaras, luvas, álcool em gel. Os entrevistados, ainda que relatassem situações bem difíceis, também tinham a consciência coletiva de reconhecer grupos mais vulneráveis (em sua opinião) do que eles mesmos tais como pessoas em situação de rua, recém-chegados no Brasil, pessoas morando em albergues e ocupações e famílias brasileiras que já estavam passando por necessidades antes mesmo da crise do coronavírus que deveriam receber ainda mais atenção do governo. 

Aprendizados

A reflexão geral era que o coronavírus afetava todas as pessoas, por isso seria importante lidar com união nesse momento e ajudar a todos, sem deixar ninguém para trás. Outro ponto que reforça esse tema da consciência coletiva é como os entrevistados estavam lidando com as medidas recomendadas pelas autoridades de saúde para conter o contágio.

A maior parte dos meus entrevistados estava desempregada, era de autônomos ou de pessoas que tinham pequenos negócios, ou seja, todos foram severamente afetados pelas recomendações de ficar em casa e manter o distanciamento social. Ainda assim, todos os entrevistados reconheceram a importância dessas medidas para proteger não apenas eles mesmos, mas também outras pessoas.

Houve um consenso de que a vida é importante e que todas as vidas devem ser preservadas ao máximo. Além disso, os entrevistados reafirmaram a importância de que todas as pessoas levem à sério a doença e fiquem em casa como medida de prevenção. Para eles, se todos levarem o distanciamento social a sério, o sistema de saúde poderá lidar com a doença e cuidar daqueles que têm maior necessidade. Respeitar as recomendações de saúde, higiene e de ficar em casa também contribuiria para que o período de distanciamento social fosse o mais breve possível, permitindo que todos voltassem a suas vidas e atividades assim que possível. 

Em um mundo cada vez mais marcado por divisões entre “nós” e “eles”, experiências de amor, solidariedade e união em meio a uma crise servem para nos inspirar de que é possível uma sociedade mais justa e que devemos ter fé na humanidade. É fundamental que possamos aprender com experiências de solidariedade e consciência coletiva de todas as pessoas e de diversas partes do mundo, incluindo de imigrantes e refugiados no Brasil.

Patrícia Nabuco Martuscelli é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo


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Coronavírus representa nova ameaça e dificuldade a abrigados em campos de refugiados mundo afora

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Funcionários da OIM se preparam para distribuir cestas de alimentos e itens essenciais de assistência a todos os refugiados e migrantes no campo de Ritsona. Grécia
Funcionários da OIM se preparam para distribuir cestas de alimentos e itens essenciais de assistência a todos os refugiados e migrantes no campo de Ritsona, Grécia. (Foto: OIM)

Por Carolina Guagliano

Independentemente da localização geográfica, a realidade encontrada em campos de refugiados é a mesma. Com condições precárias de saúde e higiene, impossibilidade de um isolamento social, são ambiente perfeito para uma disseminação veloz do novo coronavírus, com potencial explosivo para vítimas fatais.

No norte da França, faltam comida e acomodações; na Grécia, facilidades para migrantes já foram fechadas; em Gaza, 70% dos leitos de UTI já estão ocupados; e na África, campos de dezenas de milhares de migrantes começam a ter seus primeiros casos suspeitos.

Para Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês de Refugiados, a ameaça é grande.

“Quando o vírus atingir assentamentos superlotados em lugares como Irã, Bangladesh, Afeganistão e Grécia, as consequências serão devastadoras”.

Europa

Na França, voluntários também mostram preocupação com a situação enfrentada nos campos do norte do país. No começo de abril, autoridades locais começaram a deslocar pessoas de campos informais em Calais e Dunkirk para centros de acomodação. Mas as ONGs afirmam que a capacidade desses centros é baixa, cerca de 400 vagas para 1.500 moradores de campos informais da região, onde tem ocorrido um rápido alastro do vírus.

A Organização Care4Calais chama atenção para a velocidade de contaminação nesse cenário. Segundo a Organização, em três dias, o número de pessoas apresentando sintomas de COVID-19 passou de dois para nove. Segundo a organização Utopia 56, em campos informais, 1.200 pessoas compartilham um único ponto de água a uma hora e meia de distância de alguns acampamentos.

Além disso, Clare Moseley, fundadora da Care4Calais, afirma que não é possível realizar medidas de precaução nos campos como o distanciamento social — e, por isso, a doença pode se alastrar rapidamente, contaminando metade dessa população em quatro semanas.

De acordo com grupos de ajuda, o Governo francês tem limitado o fornecimento de água a assentamentos informais e apenas mandado pão e queijo diariamente, o que configura a única alimentação do dia, uma vez que imigrantes não regularizados não podem ir até o mercado por conta das regras da quarentena em vigor.

O cenário é ainda mais preocupante quando pensamos que “os refugiados que vivem no norte da França já enfraqueceram a imunidade contra o estresse crônico e as condições deploráveis em que são forçados a viver”, como relatado por Sarah Story, cofundadora e diretora da Refugee Info Bus.

Já na Grécia, após 23 imigrantes testarem positivo para o novo coronavírus, autoridades gregas colocaram Ritsona, localizado a nordeste de Atenas, em quarentena por 14 dias. Ritsona abriga 2.700 pessoas e é uma das 30 acomodações gregas, nas quais vivem mais de 25.000 pessoas.

Também nas ilhas gregas está localizado Moria, o maior campo de refugiados da Europa atualmente, com capacidade para 3.000 imigrantes — mas está servindo de moradia para 20.000.

Preocupados com o que poderia acontecer com esses mais de 40.000 requerentes de asilo em campos de refugiados superlotados no país, o governo impôs o confinamento geral para estes locais quatro dias antes da medida entrar em vigor para o resto do país. Organizações humanitárias descrevem estas instalações como “bombas-relógio de saúde”.

África

Com a chegada da COVID-19 no continente africano, muitas agências internacionais também demonstraram sua preocupação.

Vale lembrar que a África abriga quatro dos seis maiores campos de refugiados do mundo — em Uganda, Quênia, Tanzânia e Etiópia — e mais de 25,2 milhões de refugiados e pessoas deslocadas internamente.

Os campos de Kakuma e Dadaab no Quênia acomodam juntos 411 mil refugiados, respectivamente 194.000 e 217.000, o que torna impossível o isolamento social.

Em resposta ao COVID-19 o movimento entre Kakuma, Dadaab e Nairóbi, capital do Quênia, foi suspenso. Atualmente, quatro pessoas de Kakuma estão isoladas como medida de prevenção a uma possível exposição.

Oriente Médio

O medo e a realidade enfrentados no oriente Médio são os mesmos. No Iraque, grupos humanitários dizem temer o que pode acontecer caso o COVID-19 chegue aos 1,5 milhão de civis deslocados pela guerra contra o Estado Islâmico, os quais vivem apertados e usam a única água limpa que tem para cozinhar.

No Iêmen, a grande maioria dos 3,6 milhões de deslocados vivem em campos improvisados ​​com instalações escassas ou em bairros superlotados.

Além de Gaza sofrer diariamente com apagões e com falta de acesso à água potável, a região conta com apenas 60 camas de terapia intensiva, das quais 70% estão em uso. 

No Líbano, os refugiados sírios são inelegíveis para os serviços de saúde do governo, o que significa que estes estariam desprotegidos em um surto de COVID-19.

Segundo Hedinn Halldorsson, representante da OMS em Gaziantep, Turquia, a OMS está “extremamente preocupada” com o impacto que o Coronavírus terá nas populações deslocadas na fronteira da Síria com a Turquia. Por conta da situação em que vivem, estas pessoas são “vulneráveis ​​a infecções respiratórias, condições de vida superlotadas, estresse físico e mental e privação devido à falta de moradia, comida e água limpa”.

O que dizem as agências

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), juntamente com outras agências das Nações Unidas e organizações parceiras, afirmam acompanhar de perto a situação da pandemia da COVID-19. Também informam trabalhos diários para mitigar os possíveis impactos do coronavírus nos refugiados, pessoas forçadas a se deslocar e comunidades que as acolhem.

Entre as ações divulgadas pelo ACNUR junto a campos de refugiados estão campanhas de conscientização e de informação em locais como Uganda e Jordânia, além da distribuição de sabão em Cox’s Bazar (Bangladesh) — o local é considerado atualmente o maior campo de refugiados do mundo.


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Parlamentares franceses enviam carta a premiê pedindo regularização de migrantes para combater Covid-19

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Monumento "Direitos Humanos" no jardim central do Conselho Europeu, em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

O deputado francês François-Michel Lambert, do partido Ecologista francês, e mais 116 parlamentares da Assembleia Nacional (o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil), pediram por carta ao primeiro-ministro, Edouard Phillipe, a regularização de todos os imigrantes indocumentados em solo francês.  

Em vídeo no Facebook, Lambert afirma que há uma semana recebe um “grande número de mensagens de pessoas angustiadas por conta das dificuldades que encontram para enfrentar a epidemia de coronavírus por conta de precariedade na qual se encontram.” O deputado diz que as mensagens também vêm de migrantes que querem servir “e ser úteis à França nesse momento de epidemia.”

No vídeo, ele afirma que espera que o assunto possa ser também discutido na próxima audiência da Assembleia Nacional, na terça-feira (21).

Pour protéger les Français et les Françaises mais aussi celles et ceux qui travaillent pour notre pays, la régularisation des sans-papiers est inéluctable ! Nous sommes partis de 18 députés et c'est aujourd'hui 116 parlementaires qui soutiennent notre appel avec plus de 170 000 personnes qui partagent, commentent et "like" notre appel. Il faut accentuer nos efforts et interpeller nos amis-es pour que personne ne reste à côté ! Tous ensemble pour la régularisation !

Posted by François-Michel Lambert on Tuesday, April 14, 2020

“Face à gravidade da crise sanitária, é crucial nós pensarmos nas condições de vida dos migrantes e de suas crianças (…)”, afirma. “Nós interpelamos assim solenemente o governo francês, porque a catástrofe sanitária  que nós vivemos nos obriga agir com responsabilidade e sem demora”, diz o texto da carta enviada no dia 9 de abril.

O MigraMundo entrou em contato com o gabinete do deputado, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Imagem mostra parte da carta enviada ao premiê francês pedindo regularização de imigrantes no país.
(Foto: Reprodução)

Inspiração portuguesa

Na carta, os deputados e deputadas (leia aqui na íntegra, em francês) citam o exemplo de Portugal, que regularizou os imigrantes com pedidos de residência pendentes como uma das formas de ajudar no combate à pandemia.

Os parlamentares defendem a ideia de que, uma vez regularizados, os migrantes estariam mais protegidos contra o vírus e teriam mais facilmente acesso à saúde e à moradia. Assim, não só eles, mas a população local como um todo também seria protegida.

“Essa regularização melhoraria a gestão da crise sanitária, porque nós nos certificaríamos que as pessoas não estão em situação que não as permite de ter acesso à saúde em caso de doença e que não tem contato com pessoas que as podem ajudar, possam ser cuidadas pelo governo em caso de doença”, afirma o texto.

A carta também cita as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade vem apontando que “os migrantes e os refugiados são particularmente suscetíveis a serem vitimas de exclusão, de estigmatização e de discriminação” — em particular quando eles não tem documentos.

“Para evitar uma catástrofe, os governos devem usar todos os meios possíveis para proteger o direito e a saúde de todos. A proteção dos direitos e da saúde de todos permitirá de evitar a propagação do vírus”, prossegue a OMS.

Em sua página no Facebook, o deputado francês afirmou que espera que o assunto esteja na pauta da reunião dos deputados da Assembleia Nacional.

Legislação francesa

De acordo com a lei local, os imigrantes sem documentação têm de obedecer a alguns critérios para poderem pedir a regulamentação na Justiça.

O principal deles é comprovar pelo menos quatro anos de residência no país. Também precisam mostrar “integração”, com elementos como trabalhos voluntários e domínio do idioma francês.

Para aqueles que têm filhos pequenos, uma circular feita em 2012, a “circular Valls“, permite que os pais de crianças escolarizadas há pelo menos 3 anos no país possam pedir a regularização.

Porém, a família tem que comprovar 5 anos, no mínimo, de permanência no solo francês. Um bom desempenho escolar da criança também conta como algo positivo perante à Justiça.


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CPF vira obstáculo para imigrante pedir auxílio emergencial; veja como regularizar o documento

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Questão do CPF vira entrave para imigrantes solicitarem auxílio emergencial
Questão do CPF tem sidovira entrave para imigrantes solicitarem auxílio emergencial. (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Atualizado às 07h58 de 21.abr.2020

A possibilidade de imigrantes residentes no Brasil solicitar o auxílio emergencial para atenuar os efeitos da pandemia de coronavírus têm esbarrado na questão do CPF (Cadastro de Pessoa Física). Sem o documento, corriqueiro para a maioria dos brasileiros, não é possível pedir o benefício.

Logo que o MigraMundo e organizações de apoio a imigrantes relataram que o auxílio emergencial se aplicava a essa população, vieram os primeiros relatos de problemas na hora de inserir o CPF para a solicitação.

“Os imigrantes que encontramos estão tendo problemas com o CPF”, apontou o congolês Jean Katumba, presidente da ONG África do Coração. A entidade ajudou famílias de imigrantes que vivem em uma ocupação no centro de São Paulo a solicitar o cadastro no auxílio emergencial. E o documento foi obstáculo.

“Muitos imigrantes têm o CPF suspenso porque os dados estão incompletos”, aponta Fabio Ando Filho, coordenador do Projeto Canicas, que tem prestado apoio a imigrantes quanto à solicitação do auxílio.

Uma simples divergência de grafia no nome da mãe ou a ausência desse dado no cadastro de CPF junto à Receita é suficiente para emperrar a solicitação do benefício. Isso porque o formulário do auxílio requer esse dado.

Uma liminar concedida pela Justiça do Pará chegou a suspender a obrigatoriedade do CPF regular para concessão do benefício. A decisão, no entanto, foi barrada pelo presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), João Otávio de Noronha.

Informações desencontradas

A situação vivida pelo boliviano Hernán (sobrenome omitido a pedido do entrevistado), que vive em São Paulo, exemplifica a dificuldade vivida por imigrantes na busca pelo auxílio.

Depois de conseguir resolver o problema com o próprio cadastro (havia divergência no sistema quanto ao nome da mãe), fez a solicitação do benefício no último sábado (11). No entanto, até o momento ele não recebeu qualquer comunicação sobre a validação ou não do pedido.

Ele acabou ainda surpreendido pelo anúncio da Receita Federal na segunda (13) de regularização do CPF. O argumento é que a não inclusão dos documentos de crianças da família no cadastro poderia prejudicar a concessão do benefício.

Além de ter efetuado seu cadastro antes dessa orientação da Receita, Hernán conta que seus dois filhos ainda não possuem CPF. E há o problema adicional que, por já ter feito uma solicitação do auxílio emergencial com seu aparelho de celular, ele não consegue realizar outra em nome de sua esposa, tampouco incluir os filhos.

Como resultado, Hernán teme que essa confusão de informações leve ele e sua família a não receberem o benefício.

“Quando quis cadastrar meus filhos, não consegui. Será que vamos receber o auxílio? As pessoas não tem entendimento para nos orientar. Só quero poder receber esse benefício para ajudar a enfrentar esse momento e em seguida poder trabalhar novamente”, desabafa ele, que trabalha no setor têxtil —um dos mais afetados pela pandemia.

Ando lembra ainda que outras famílias de imigrantes estão numa situação semelhante a de Hernán. “Isso pode gerar um problema muito grande, que não foi antecipado pelo governos. Faltou uma ação coordenada”.

Como regularizar?

No caso de imigrantes, de acordo com a Receita, o imigrante também pode fazer a solicitação por e-mail, que deve conter as informações abaixo:

  • nome completo;
  • número do CPF;
  • endereço de residência;
  • telefone para contato;
  • descrição resumida sobre o pedido e trâmite que precisa realizar

Na mesma mensagem, o imigrante precisa incluir uma cópia legível e nítida de um documento de identidade atualizado (pode ser RG, carteira de habilitação ou outro que tenha foto); e uma foto no formato “selfie”, na qual apareça exibindo o documento.

O e-mail para envio das informações muda de acordo com o Estado de residência do imigrante. Veja a lista abaixo:

  • Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins: atendimentorfb.01@rfb.gov.br
  • Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia e Roraima: atendimentorfb.02@rfb.gov.br
  • Ceará, Maranhão e Piauí: atendimentorfb.03@rfb.gov.br
  • Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte: atendimentorfb.04@rfb.gov.br
  • Bahia e Sergipe: atendimentorfb.05@rfb.gov.br
  • Minas Gerais: atendimentorfb.06@rfb.gov.br
  • Espírito Santo e Rio de Janeiro: atendimentorfb.07@rfb.gov.br
  • São Paulo: atendimentorfb.08@rfb.gov.br
  • Paraná e Santa Catarina: atendimentorfb.09@rfb.gov.br
  • Rio Grande do Sul: atendimentorfb.10@rfb.gov.br

Na impossibilidade de realizar a solicitação online, o imigrante precisa se dirigir a uma agência dos Correios, da Caixa Econômica Federal ou do Banco do Brasil. Nesse caso, é cobrada uma taxa de R$ 7.

Vale lembrar que, embora mantidas em funcionamento, as agências dessas três instituições têm restrições de atendimento por conta das medidas de prevenção ao coronavírus.


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ONG criada por imigrantes distribui cestas básicas e kits de higiene em São Paulo

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Integrantes das ONGs África do Coração e Grupo Amar distribuem cestas básicas no centro de São Paulo
Integrantes das ONGs África do Coração e Grupo Amar distribuem cestas básicas para famílias de imigrantes no centro de São Paulo. (Foto: Divulgação/África do Coração)

Atualizado às 15h31 de 13.abr.2020 com o número de cestas doadas e a inclusão do grupo IncorforMAKERS

A ONG África do Coração, fundada e composta por imigrantes e refugiados, promoveu uma ação no último sábado (11) no centro de São Paulo em prol de famílias de imigrantes carentes da região contra o coronavírus.

Segundo a entidade, que é organizadora da Copa dos Refugiados e de outras 20 ações, foram entregues 55 cestas básicas com o apoio do Grupo AMAR e do grupo InconforMAKERS, que arrecadaram as doações. O trabalho de distribuição foi realizado por voluntários dos três grupos.

“Foi muito forte e muito triste ao mesmo tempo. Tem pessoas necessitando muito. Tem pessoas que sequer conseguem se deslocar ao centro da cidade”, disse o sírio Abdulbaset Jarour, diretor de projetos da ONG África do Coração.

Compartilhem esta ação por favor !

A África do Coração, realizamos no sábado doações de cestas básicas e kits de higiene para nossos irmãos (ãs).A maioria dos imigrantes/refugiados trabalha autônomo ou como está desempregado. Por conta da pandemia, eles estão com seus trabalhos parados o que faz com que sofram mais.A maior parte dos imigrantes e refugiados estão em uma situação vulnerável o que dificulta mais ainda o deslocamento para conseguir ajuda.Então, a África do Coração junto com o Projeto AMAR fomos atender essa população.Realizamos a doação em frente a sede da ONG África do Coração e conseguimos atender 53 famílias.Após essa distribuição fomos em uma ocupação, onde cadastramos 400 famílias em situação vulnerável.Agradecemos O GRUPO AMAR pelas doações e pela ajuda na entrega das cestas!o nosso próximo passo é realizar mais uma campanha para atender a essas famílias.Pedimos se possível, ajuda para conseguirmos atender à todos.

Posted by África do coração on Sunday, April 12, 2020

A instituição busca apoio de outros parceiros para promover outras campanhas de distribuição de cestas básicas e outros artigos, como máscaras e produtos de higiene pessoal. Contatos podem ser feitos pelo email contato@africadocoracao.org ou WhatsApp (11) 96737-8710

Auxílio emergencial

Após a distribuição dos kits, os voluntários foram até uma ocupação no centro da capital paulista, onde 400 famílias foram cadastradas pela ONG — segundo a instituição, quase todas são imigrantes e pessoas em situação de refúgio.

No local, os voluntários também ajudaram os moradores a se cadastrar no auxílio emergencial criado pelo governo federal para atenuar os efeitos econômicos da pandemia. Os imigrantes —independente da nacionalidade — também podem solicitar o benefício, destinado especialmente aos que estão desempregados ou trabalham como autônomos.

O benefício deve ser solicitado pela internet (https://auxilio.caixa.gov.br ) ou por aplicativo de celular, disponível para aparelhos Android e iOS. Além de se encaixar nos critérios sócio-econômicos é preciso ter um CPF válido — o que tem atrapalhado as solicitações de muitos imigrantes.

“Os imigrantes que encontramos na ocupação estão tendo problemas com o CPF”, aponta o congolês Jean Katumba, presidente da África do Coração.

“Queremos apoiar também moradores em situação de rua. Estamos vivendo uma situação muito cruel. Estamos numa vida cheia de tecnologia, temos tudo para viver em paz, mas parte da população do mundo produz males, desigualdades e preconceitos, reproduzem discurso de morte”, desabafa Jarour.

Há um grupo de voluntários dentro da instituição que ajuda outros imigrantes no cadastro para obter o auxílio emergencial — basta acessar aqui.

‘Fique em casa’

Parte dos integrantes da África do Coração também participou de uma campanha que reuniu outros imigrantes que vivem em diferentes regiões do país pelo “Fique em Casa”. O isolamento social momentâneo é uma das principais armas para prevenção e combate ao Covid-19.

Com mensagens em português, inglês, espanhol, árabe, bengali, francês e até em libras (linguagem brasileira de sinais), o grupo se somou às diversas campanhas de conscientização existentes sobre a pandemia de coronavírus.

((COMPANHA COM TODAS AS LÍNGUAS E DAS NAÇÕES ))UMA CAMPANHA QUE ACREDITAMOS QUE VAI AJUDAR MUITO. CONTAMOS COM SEU APOIO PARA COMPARTILHAR.Nós refugiados e imigrantes a maioria trabalha autônomo ou como microempreendedor. Não gostaríamos de ficar em casa, pois para comprar pão, temos que trabalhar como qualquer outro ser humano.Não estamos felizes com a situação da quarentena, mas devemos respeitar e cuidar de nós e dos outros.Então, nesse exato momento nós estamos sofrendo duplamente. Antes do coronavirus nós estávamos sofrendo e agora piorou. Nós temos que respeitar e entender como estamos vendo o que está acontecendo com os outros países, outras populações pelo mundo e com os nossos próprios países que estão sofrendo dessa pandemia.Por esse motivo, nosso recado é muito valioso e deveríamos compreender e ficar em casa.Diante da atual pandemia a situação é crítica. A Espanha bateu o recorde de mortes em um dia, na Itália o número de mortos já ultrapassa 10.000 e nos EUA passa de 2.000 mortes.A situação é devastadora, mas podemos ajudar a mudar essa realidade.Então, fiquem em casa!!!!Vamos nos manter isolados em casa. Porém, não estaremos sós estamos unidos para um bem maior.Vamos cuidar da nossa saúde e daqueles que amamos. Juntos somos fortes unidos somos invencíveis.#campanhafiquememcasa#FIQUEMEMCASA #ESTOUEMCASA#Combateaocoronavirus#SoudesaopauloemcasaCAMPANHA FIQUEM EM CASA. #fiquememcasa#quarentena #soudesaopaulo #combateaocoronavírus#Refugiados#imigrntes#órfãosdaterra#filhodeAlepoo#ÁfricadoCoração

Posted by África do coração on Sunday, March 29, 2020

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Moisés e a Poesia: Crianças Solitárias

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Por Moisés António*

Sob o olhar fatídico com olhos marejados e cansados,
Desenham-se a melancolia;
Na expressão facial dos anjos pequenos
Contemplo os mil milhares de questionamentos lúgubres
… Não respondidos!

Um ente querido se foi
Um pai, uma mãe, irmã?
Não importa, são vidas que uma bomba, um canhão, uma arma mortífera levou reduzidas ao nada, que o patriotismo,
democracia ou a ganância mefistofélica não podem trazê-las de volta!

É um revés avassalador
melancólico
causado por homens – mas não humanos,
Que prendem a paz, a felicidade, roubando o sorriso desses pequenos
que se questionam o motivo pelos quais nasceram, vivendo com os corações ainda batendo, porém com os futuros roubados, incertos sem nenhumas respostas!

Oh…gente de palmo e meio, por vós eu senti a vossa dor!
Vós que ainda não vivestes,
mas que também já comestes o pão que o diabo amassou!
QUE CULPA TERIAM VOCÊS, PARA MERECEREM TAL CASTIGO,
SE NO MÍNIMO AINDA NÃO SABEIS POR QUAIS MOTIVOS ESTAIS AQUI?

Em seus olhos lacrimogêneos, tristes, pálidos e famintos…
Descrevem a descompreensão dos questionamentos não respondindos, fazendo-me acreditar por vós que, às vezes a vida chega mesmo a não fazer sentido!

Tudo porque um Governo se mostra ser superior, outro o melhor
e um do outro lado o mais poderoso, aquele outro o dono do mundo!

ENTÃO, TUDO SE ECLODE, GERMINANDO ÓDIO
Que vidas levou, e ainda leva…
E porquê?
Conheço as resposta: POR GANÂNCIA, VAIDADE, EM SUMA, É UM VERDADEIRO SACRIFÍCIO… UMA CARNIFICINA,
Que fazem à esse deus insano, que só destrói mas não nos dá a vida!

São crianças…. exatamente aqueles seres que ainda nunca viveram…
vendo seus futuros roubados;
Suas infâncias roubadas e a paz de espírito totalmente destruída!
A Juventude sacrificada!
E, assim acabam sendo jogadas num vazio brutal na ausência de seus entes queridos! oh… que Dó!

OH, Gente pequena e frágil
Criança, criatura celestial- anjo pequeno!
Por vós sinto a vossa dor e por falar nisso, lanço aqui todo o meu amor nesses versos, como protesto aos governantes desse mundo injusto,
apelando pela paz, liberdade,
tolerância e justiça!

REPITO: Por DEUS, parem de nos matar em nome do patriotismo, em nome da paz, e ou da democracia mascarada,
quando na verdade o que existe dentro de vocês…
É a ganância, arrogância e o Egocentrismo!
Germinando ódio que vidas levou,
E que o patriotismo jamais as trará de volta!

Sobre o autor

*Moisés Tiago António é um poeta e escritor angolano radicado no Brasil. Residente em Curitiba, tem na condição de migrante uma de suas inspirações literárias. Ele permite a republicação de parte de seus poemas pelo MigraMundo, que já disponibilizou Sou ImigranteCarta do Refugiado às NaçõesChoro Inocente de Menino, O Viajante e Sou D’África Filho da Realeza. Estes e outros trabalhos estão disponíveis também na página Moisés e a Poesia, no Facebook. É também autor do romance “Clarice” (Editora Travassos).

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Como o Covid-19 afeta imigrantes e refugiados no Brasil

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Por motivos diversos, imigrantes em geral estão entre as populações mais vulneráveis ao coronavírus
Quadro do artista congolês Lavi Israël, inspirada na pandemia de coronavírus. Foto foi cedida ao MigraMundo pelo próprio artista

Por Patrícia Nabuco Martuscelli*

Há alguns anos durante minha pesquisa para o doutorado, me deparei com o seguinte caso: houve um casamento entre dois refugiados sírios que estavam no Brasil, porém havia algo diferente de outros matrimônios: um computador estava ligado com um aplicativo de videoconferência para permitir que as famílias dos noivos que não tinham como vir para o Brasil participassem desse momento de felicidade e união entre duas famílias.

Se essa situação parecia algo fora da realidade dos brasileiros que tinham suas famílias no país e um “problema” apenas para refugiados e imigrantes, hoje com recomendações para o distanciamento social, famílias brasileiras têm se encontrado no mundo virtual com a ajuda de aplicativos e sites de videoconferência.

É um fato que a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) tem afetado a vida de praticamente toda a humanidade. Porém, imigrantes e refugiados tendem a ser afetados de diferentes formas por viverem em mobilidade, ou seja, não estarem no país que eles são nacionais. Pensando nisso, comecei a pesquisar como o coronavírus afeta a vida de imigrantes e refugiados no Brasil.

Ao todo, realizei 25 entrevistas com refugiados e imigrantes de diferentes nacionalidades: Síria, Mali, Camarões, Senegal, República Democrática do Congo e Colômbia para entender suas experiências enfrentando uma pandemia em uma situação de mobilidade. Algumas reflexões dessa entrevista compõem essa série do MigraMundo.

‘Classificação’ de imigrantes e refugiados no Brasil

Por um lado, imigrantes e refugiados enfrentam as mesmas dificuldades que brasileiras estão enfrentando. Um entrevistado me explicou que seria possível classificar os imigrantes e refugiados no Brasil em três categorias:

a) imigrantes e refugiados que estão em situação de maior vulnerabilidade incluindo desempregados, com doenças crônicas, idosos e mais pobres – normalmente esses imigrantes chegaram ao país sem nada;

b) imigrantes e refugiados mais novos que chegaram ao país com habilidades que os permitiram se inserir no mercado de trabalho – entrariam nessa categoria profissionais liberais que trabalham em suas profissões e aqueles que estão empregados com carteira assinada;

c) imigrantes e refugiados que chegaram ao país com algum capital que permitiram que eles abrissem negócios próprios.

Assim, como os brasileiros, esses três grupos são afetados de diferentes maneiras pela crise do coronavírus. Os imigrantes e brasileiros mais vulneráveis incluindo os desempregados temem não ter o que comer durante o isolamento social. Muitos imigrantes do segundo tipo atuam como autônomos e, se eles não possuem reservas, também podem estar enfrentando necessidades.

Os imigrantes que possuem negócios próprios também viram eventos cancelados e estão em uma situação difícil. Os que estavam empregados com carteira assinada, como muitos brasileiros, temem o futuro de perderem seus empregos como decorrência do agravamento da crise econômica.

Há também imigrantes e refugiados que estão no grupo de risco por causa da idade ou por possuírem doenças crônicas. Assim como os brasileiros que estão nessa categoria, eles têm especial medo de serem infectados.

Moradia e saúde

A epidemia também afeta desproporcionalmente pessoas que moram em ocupações e a população em situação de rua. Muitos imigrantes e refugiados (assim como brasileiros) não tem condições dignas de moradia e ficar em casa não é uma opção.

Os entrevistados explicaram que as pessoas que moram em ocupações vivem em condições degradantes, sem acesso à água e itens de higiene e sem possibilidade de seguirem as recomendações de distanciamento social. Nesse sentido, os entrevistados reconhecem que os imigrantes e refugiados em pior situação seriam esses que vivem em ocupações e nas ruas porque mesmo os que vivem em favelas e comunidades possuem mais possibilidade de seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Os efeitos psicológicos da doença também afetam imigrantes, refugiados e brasileiros. Os entrevistados relataram medo, ansiedade, estresse, preocupação, incertezas em relação ao futuro. Contudo, além das preocupações que brasileiros também poderiam ter, refugiados e imigrantes são mais afetados por essa crise por estarem em uma situação de mobilidade.

Em primeiro lugar, refugiados e imigrantes mencionam a dificuldade de encontrar informações precisas e evitar fake News. Há uma preocupação especial em relação aos recém-chegados que não possuem domínio do idioma português. Também, apesar de continuarem prestando serviços por e-mail e telefone, muitas organizações referência para essa população estão fechadas, o que agrava uma sensação de solidão e desamparo.

Em seguida, havia uma incerteza se imigrantes e refugiados poderiam se beneficiar de programas criados pelo governo para ajudar a população brasileira em meio à pandemia —eles estão entre os que podem solicitar o auxílio emergencial criado em resposta ao Covid-19.

Medo da xenofobia

Além disso, muitos imigrantes e refugiados narravam o medo de serem discriminados caso ficassem doentes e tivessem que acessar o sistema de saúde. Como a xenofobia é algo que dificulta o acesso de imigrantes a direitos, muitos entrevistados afirmaram que o maior medo de adoecerem é que eles não receberiam o tratamento adequado e poderiam ser preteridos (como já o foram em outras ocasiões) ao procurarem tratamento médico.

Outra situação que afeta unicamente os imigrantes e refugiados é o acesso à documentação. Os entrevistados reconhecem que todos os processos migratórios foram parados o que inclui processos de reconhecimento do refúgio, pedidos de reunião familiar e de naturalização, por exemplo. Isso é complicado especialmente para os mais de 200 mil solicitantes de refúgio que estão em situação temporária no país e que precisam da resposta da sua solicitação de refúgio para poderem seguir com as suas vidas.

Também entrevistados lembram que as fronteiras estão fechadas. Isso leva à incerteza de que se familiares de refugiados e imigrantes que já foram contemplados com vistos de reunião familiar e já tinham a passagem comprada conseguirão entrar no país.

Conexão com o país de origem

Além disso, refugiados e imigrantes se preocupam com a situação de seus familiares que estão nos países de origem. Todos os entrevistados mencionaram estarem preocupados com seus familiares porque eles vivem em países que estão em conflito e/ou que não possuem recursos para combater a epidemia.

Contribui para isso a dificuldade de enviar dinheiro para o país de origem. Muitos refugiados e imigrantes são responsáveis por sustentar suas famílias que ficaram no país de origem. Eles relataram que os serviços de envio de remessas – por não serem essenciais – estão fechados. Isso significa que não há como imigrantes e refugiados enviarem dinheiro para os seus familiares e isso pode resultar que seus filhos, esposas e demais familiares não tenham como arcar com custos básicos de alimentação e aluguel, por exemplo.

Esse contexto do país de origem tem preocupado os imigrantes e refugiados. Além do mais, há uma dificuldade de estabelecer comunicação com a família. Alguns entrevistados relataram que seus familiares moram longe das capitais onde o acesso à internet e celulares é muito limitado. Por isso, para se comunicarem com suas famílias, eles precisavam se dirigir a serviços que fazem chamadas telefônicas internacionais, porém esses locais estão fechados há cerca de 3 semanas.

Outro entrevistado refletiu que é muito importante que, nesse contexto de crise, não se criem situação que motivem a xenofobia. Ele reconhece que como todos estão sofrendo com essa crise, seria importante que o governo considerasse a população imigrante em seu planejamento sem criar situações de tensões entre brasileiros. Ele explicou, por exemplo, que imigrantes não acessam normalmente benefícios como cestas básicas em locais em que há brasileiros que também precisam delas por medo de sofrerem xenofobia. Assim, seria necessário pensar em medidas que reconhecessem as necessidades de diferentes minorias, dentre elas a da população imigrante e refugiada no país.

A experiência de Portugal, que garantiu acesso à documentação para todos os imigrantes independentemente da situação migratória, reconhece que todos os seres humanos são iguais e que aqueles que estão em situação de mobilidade precisam de um apoio extra para passar por esse momento de crise.

Também o Brasil, dentro das suas capacidades, poderia reconhecer os desafios extras que imigrantes e refugiados que não possuem redes de apoio no país estão passando. Assim como os brasileiros, eles contribuem de diferentes formas para o país (incluindo economicamente), mas diferentemente dos brasileiros eles estão ainda mais desamparados em meio ao maior desafio de saúde pública do nosso século.

Patrícia Nabuco Martuscelli é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo

*Lavi Israël, cuja obra ilustra esta reportagem, é um artista congolês que mora atualmente no Brasil


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Site e app do auxílio emergencial estão no ar; benefício se estende a imigrantes e refugiados

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Site e app do auxílio emergencial estão no ar; benefício se estende a imigrantes e refugiados
Aplicativo da Caixa para pedido do auxílio emergencial, está disponível para celulares Android e iOS. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Atualizado às 14h22 de 8.abr.2020

Já estão disponíveis para acesso o site e o aplicativo da Caixa Econômica Federal para solicitação do auxílio emergencial anunciado pelo governo federal. O benefício, que visa atenuar os efeitos da crise gerada pelo coronavírus na economia e na renda de trabalhadores de baixa renda, se estende também a imigrantes e refugiados residentes no Brasil.

O benefício deve ser solicitado pela internet (https://auxilio.caixa.gov.br ) ou por aplicativo de celular, disponível para aparelhos Android e iOS —não se deve baixar ou acessar nenhum outro programa ou site para pedir o benefício.

O valor é de R$ 600 e será pago, inicialmente, por três meses. O prazo pode ser prorrogado, dependendo dos efeitos da pandemia.

Auxílio para imigrantes e refugiados

Embora não haja nenhuma menção a imigrantes ou refugiados na lei que regulamenta o benefício, tampouco há qualquer impedimento à adesão daqueles que se enquadrem nos requisitos exigidos para recebimento.

Devido à grande procura pelo benefício, muitos usuários relatam instabilidade no portal e para download do aplicativo. Reportagem do jornal Agora indica que alguns trabalhadores estão gastando até três horas para conseguir concluir o cadastro.

Para tirar dúvidas sobre o auxílio emergencial, o MigraMundo promove nesta quinta-feira (8), às 19h30, uma live pelo Instagram, que contará com a participação do defensor público João Chaves, da Defensoria Pública da União (DPU). Questões devem ser enviadas para o e-mail auxilio.emergencial.duvidas@gmail.com até as 17h do mesmo dia.

O Cepri (Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes) da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, também divulgou material em suas redes sociais informando sobre o lançamento da plataforma e dos apps.

A Caixa também disponibilizou o telefone 111 para tirar dúvidas sobre o auxílio emergencial.

Quem pode obter o benefício

O auxílio emergencial, na forma da Lei 13.982/2020, foi sancionado no último dia 2 pelo governo federal e consta na edição do dia seguinte do Diário Oficial da União.

Para estar habilitado a receber o auxílio, o imigrante precisa se enquadrar em um dos critérios listados abaixo:

  • ser titular de uma MEI (Microempreendedor Individual);
  • estar inscrito no CadÚnico (Cadastro Único) até 20 de março (o sistema entrou em manutenção depois dessa data para ajustes);
  • ter renda média mensal de até meio salário mínimo por pessoa, e de até 3 salários mínimo por família;
  • ser contribuinte — individual ou facultativo — do Regime Geral de Previdência Social;

É preciso ainda se enquadrar em todos os critérios abaixo:

  • Ter 18 anos de idade ou mais;
  • ter renda mensal de até meio salário mínimo (R$ 522,50) por pessoa;
  • ter renda mensal de até 3 salários mínimos (R$ 3.135) por família;
  • não ter emprego formal;
  • não receber benefício previdenciário ou assistencial, seguro-desemprego ou outro programa de transferência de renda (exceto Bolsa Família)

Para o caso de mulheres que sejam mães e chefes de família, poderão receber R$ 1.200 mensais (o equivalente a duas cotas), caso se encaixem em algum dos critérios listados acima.

Imigrantes que não possuem cadastro no CadÚnico devem solicitar o benefício por meio da nova plataforma criada pelo governo.

Para quem já recebe Bolsa Família, será pago o benefício que tiver o maior valor.

Imigrantes também tem direito a auxílio emergencial criado pelo governo devido ao coronavírus
Imigrantes também tem direito a auxílio emergencial criado pelo governo devido ao coronavírus.
(Foto: USP Imagens)

Como será o pagamento

O pagamento do auxílio emergencial será basicamente por meio da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Quem já possui conta em uma das duas instituições e se enquadrar nos critérios do benefício vai receber os valores automaticamente.

Quem ainda não possui conta em nenhum dos dois bancos terá uma conta digital gratuita aberta na Caixa Econômica Federal para recebimento do auxílio. Ela poderá ser operada por meio do aplicativo Caixa TEM, disponível apenas para celulares com sistema Android (acesse aqui).

Há ainda a possibilidade de uso de casas lotéricas e de agências da Caixa para receber o benefício. A orientação, no entanto, é que esses locais sejam usados como último recurso, devido ao esforço para coibir a disseminação do coronavírus.

De acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o governo estuda ainda incluir fintechs como PagSeguro, Stone e PicPay entre os canais para realização dos pagamentos.

Cronograma dos pagamentos

O governo também divulgou o cronograma para realização dos pagamentos das três parcelas dos benefícios, descrito abaixo:

  • Parcela 1 – Prevista para começar na quinta-feira (9), com correntistas de Caixa e Banco do Brasil, e terminar na próxima semana, com clientes de bancos privados e contas digitais da Caixa;
  • Parcela 2 (de 27 a 30 de abril)
    – 27 de abril para nascidos em janeiro, fevereiro e março
    – 28 de abril para nascidos em abril, maio e junho
    – 29 de abril para nascidos em julho, agosto e setembro
    – 30 de abril para nascidos em outubro, novembro e dezembro
  • Parcela 3 (de 26 a 29 de maio)
    – 26 de maio para nascidos em janeiro, fevereiro e março
    – 27 de maio para nascidos em abril, maio e junho
    – 28 de maio para nascidos em julho, agosto e setembro
    – 29 de maio para nascidos em outubro, novembro e dezembro

**Pessoas que se cadastrarem depois dessas datas e forem aceitas, também receberão os valores que já haviam sido liberados

Complicadores

Apesar dos novos anúncios, ainda há pontos que podem dificultar o acesso ao benefício.

Um deles é a impossibilidade de saque em dinheiro da conta digital, pois a operação é feita toda por celular. Para um eventual saque, o beneficiário precisaria transferir o dinheiro para uma outra conta em um outro banco.

Outro complicador é o uso do auxílio emergencial para promoção de golpes diversos. Antes mesmo do lançamento do aplicativo e site oficiais já circulavam programas e links falsos que usavam o benefício como pretexto para aplicar golpes.

Conforme apontamento do dfndr lab, laboratório de segurança digital da PSafe, 6,7 milhões de pessoas foram vítimas de um golpe com link falso para realizar o cadastramento para o auxílio emergencial desde o mês de março.

*Reportagem em atualização


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