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sábado, junho 27, 2026
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Nova lei de Migração no Brasil: um enorme passo à frente para a proteção dos direitos dos migrantes

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Fórum vira ponto de partida de mobilização para aprovação da Lei de Migração. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Por Diego Acosta Arcarazo*
Tradução para o português: Márcia Passoni

Em 6 de dezembro, o Congresso Brasileiro votou, com uma maioria de mais de 70%, a favor da adoção de uma nova lei de migração. Essa lei vai substituir a atual estrutura adotada em 1980, durante a ditadura militar (apesar de só entrar em vigor depois de ser ratificada pelo Senado e seis meses após sua publicação oficial).

Apesar de seus recentes problemas financeiros e políticos, o Brasil permanece como um país chave na arena global. Junto com a Rússia, Índia e China, o Brasil é um dos BRICs e um gigante econômico – de fato a nona maior economia do mundo. Além disso, o Brasil é um país de emigração e imigração; um personagem crucial no desenvolvimento do livre trânsito de pessoas, e peça fundamental para construir uma cidadania regional na América do Sul.

A nova lei vai acabar com uma probação legal que está em curso desde 2009 e  testemunhou numerosas propostas que não obtiveram sucesso. O texto final representa um enorme passo à frente na proteção dos direitos dos migrantes e confirma ainda mais a situação da América do Sul como uma região pronta a explorar novas abordagens para a regularização da situação de estrangeiros. É também um exemplo de como mesmo em períodos de crise governamental e econômica – a ex-presidente do Brasil sofreu impeachment neste ano e o país vem sofrendo uma recessão econômica desde 2015 – migrantes não necessariamente acabam sendo usados como bode expiatório.

Dentre as várias inovações trazidas pela lei, três merecem atenção especial. Primeiro, em relação ao princípio da não criminalização da migração irregular (Artigo 3), o Brasil vira de cabeça para baixo a clássica abordagem para migrantes sem documentos, priorizando o acesso para a legalização, ao invés da deportação. Isso constitui um abrangente desenvolvimento e uma verdadeira revolução, se comparado às perspectivas anteriores.

De fato, e em relação ao que outros países da América do Sul como Argentina ou Uruguai já estão fazendo, a regularização se torna uma primeira opção compulsória em casos de estadia irregular. No Artigo 48, as autoridades administrativas são obrigadas a notificar o migrante sem documento sobre a possibilidade de regularizar-se e oferecer um período de no mínimo 60 dias para este fim. Em outras palavras, a regularização se torna um direito processual do indivíduo. O indivíduo que está fisicamente presente no país e apreendido deve, antes da deportação, ter a oportunidade, sob as regras da migração substantiva existentes, de regularizar a sua situação. Finalmente, a lei oferece um procedimento de regularização extraordinária para aqueles migrantes que entraram no país antes de 6 de Julho de 2016.

Segundo, a lei garante o direito à reunificação familiar, com cônjuge ou companheiro (Independentemente de gênero ou orientação sexual) e filhos (incluindo enteados), assim como outros membros da família, o que abrange ascendentes e descendentes até o segundo grau e irmãos. Além disso, em relação à opinião consultiva da Corte Interamericana de Direitos Humanos (21/14), o conceito de família é entendido amplamente, de forma que o Estado pode estender união familiar para outras hipóteses de parentesco, dependência afetiva e fatores de sociabilidade (Art.33).

Terceiro, a nova lei reconhece a posição privilegiada da América do Sul, como parte abrangida pelo Acordo de Residência do MERCOSUL e a necessidade de continuar o fortalecimento da integração econômica, política, social e cultural, através da construção de espaços de cidadania comum e livre movimento de pessoas (Art. 3 e 111). De qualquer forma, a expansão dos direitos para todos, sejam migrantes regionais ou não-regionais, significa que o Brasil evita largamente a criação de uma estrutura de dois níveis onde alguns estrangeiros são submetidos a um tratamento privilegiado, enquanto outros não.

Como mencionado acima, o Senado deve agora ratificar o texto adotado antes de sua publicação oficial. Uma vez publicado, de qualquer forma, a transição de um quadro amplamente fechado para um aberto não será completa. A lei deixa alguns aspectos em aberto para ações futuras através da implementação de novos regulamentos. Também, quase um século de uma legislação antipática aos estrangeiros, que remonta até hoje as consequências da crise econômica de 1929 e inclusive antes desde final do século XIX ou leis como a de 1907 sobre a expulsão de estrangeiros, significa que as restrições estão incorporadas em práticas diárias de várias burocracias.  O acesso aos direitos nunca é garantido com um bom texto: a correta implementação e interpretação são essenciais. Assim a nova lei precisará de socialização, difusão e explicação de forma que todos os personagens, oficiais públicos notáveis, juízes e advogados, e também os próprios migrantes, sejam informados de seus preceitos e possam aplica-los corretamente.

Apesar destes desafios, a nova lei é um tremendo passo a frente e deve servir como incentivo à adoção de novas leis progressivas, atualmente em discussão no Equador, Chile e Paraguai. É também uma excelente novidade para aqueles que defendem estruturas mais abertas em uma época onde Brexists e Trupms parecem apontar apenas direções para o fechamento.

 

*Diego Acosta é Senior Lecturer em Direito de Migrações na Universidade de Bristol e co-pesquisador no Projeto Prospects for International Migration Governance (MIGPROSP).

Link original: http://migrationgovernance.org/index.php/2016/12/09/brazils-new-migration-law-a-huge-step-forward-for-migrant-rights-protection/

Plataforma de Mídias Imigrantes de São Paulo estreia com 119 ações cadastradas

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Header da página Mídias Imigrantes de São Paulo. Crédito: Reprodução

Aproveitando as proximidades do Dia Internacional do Imigrante, celebrado neste domingo (18/12), a cidade de São Paulo passa a contar com um acervo digital voltado às expressões midiáticas voltadas à temática migratória e/ou produzidas por imigrantes que vivem na capital paulista.

O projeto, chamado Mídias Imigrantes de São Paulo, é uma iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo (PPGCOM) da ESPM (Escola Superior de Propaganda de Marketing) e do Museu da Imigração de São Paulo, com apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

A plataforma conta inicialmente com 119 mídias cadastradas, entre sites, blogs, publicações em PDF, links de documentários e páginas no Facebook, entre outros registros criados a partir de 1990 – o MigraMundo está entre as ações disponíveis para consulta. Uma equipe de pós-graduandos da ESPM ficará responsável pela atualização e manutenção desse acervo.

“A partir das pesquisas desenvolvidas pelo nosso grupo Interculturalidade, Cidadania, Migração e Consumo do PPGCOM-ESPM, percebemos que os pesquisadores do Museu da Imigração também têm se preocupado em ampliar sua atuação junto aos grupos migratórios contemporâneos de São Paulo. Nesse sentido, as duas equipes entenderam que seria importante ampliar o acervo digital de mídias de migrantes do Museu (com edições entre os anos de 1886 e 1987), especialmente no sentido de recolher e registrar a memória de um amplo universo de mídias produzidas e difundidas pelos grupos migratórios contemporâneos” explica a professora Denise Cogo, coordenadora do grupo. Ela é também uma das autoras do Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores: Migrantes no Brasil, publicação referência em comunicação e migrações.

Em entrevista ao MigraMundo, Denise conta sobre descobertas feitas a partir da pesquisa para montar a plataforma e cita o aprendizado gerado por meio desse tipo de expressão cultural e social dos imigrantes residentes em São Paulo.

MigraMundo: Como exatamente surgiu a ideia de fazer a plataforma?

Denise Cogo: A ideia foi construir um acervo digital que reunisse e disponibilizasse para consulta pública produções midiáticas, em diferentes formatos (fotos, cartazes, panfletos, websites, blogs, perfis e grupos em redes sociais, vídeos, programas de rádios), dos novos grupos migratórios internacionais que se estabeleceram no estado de São Paulo a partir da década de 90, utilizando critérios de busca como nacionalidade, data, tipo de mídia,  idioma. Dentre os grupos representados na Plataforma, estão angolanos, bolivianos, chineses, coreanos, espanhóis, haitianos, italianos, japoneses, moçambicanos, paraguaios, peruanos, portugueses, senegaleses, sírios, dentre outros. Do ponto de vista da produção, estão contempladas mídias produzidas por migrantes, coletivos e redes migratórias, ONGs e organizações de apoio às migrações em São Paulo.  A partir das pesquisas desenvolvidas pelo nosso grupo Interculturalidade, Cidadania, Migração e Consumo do PPGCOM-ESPM, percebemos que os pesquisadores do Museu da Imigração também têm se preocupado em ampliar sua atuação junto aos grupos migratórios contemporâneos de São Paulo. Nesse sentido, as duas equipes entenderam que seria importante ampliar o acervo digital de mídias de migrantes do Museu (com edições entre os anos de 1886 e 1987), especialmente no sentido de recolher e registrar a memória de um amplo universo de mídias produzidas e difundidas pelos grupos migratórios contemporâneos

Quantas mídias estão cadastradas hoje no portal? Haverá espaço para novas inserções?
Temos, atualmente, 119 mídias cadastradas na Plataforma, e o projeto prevê a coleta e inserção permanente de mídias, até porque temos observado que os migrantes têm, nesses últimos anos,  ampliado suas experiências e práticas de atuação no contexto das mídias ao mesmo tempo em que a relativa facilidade de acesso e o barateamento dos custos das tecnologias  digitais têm favorecido a ampliação e intensificação da produção midiática em contextos migratórios

Como será a manutenção desse acervo?
A manutenção ficará a cargo dos alunos de mestrado e doutorado integrantes grupo de pesquisa Interculturalidade, Cidadania, Migração e Consumo do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM, sempre em diálogo com a equipe do Museu da Imigração na perspectiva de assegurarmos a qualidade do material registrado e a ética na publicização desses materiais do acervo. Também continuaremos contando com recursos do CNPq, agência de fomento à pesquisa, para manutenção técnica da Plataforma que é feita pela empresa Pluralweb.

Teve alguma coisa que te surpreendeu, positiva e/ou negativamente, durante a construção dessa iniciativa?
Poderia dizer que surpreendeu positivamente a rapidez com que vão surgindo e se multiplicando projetos de mídias entre os diferentes grupos migrantes em São Paulo e ao mesmo tempo a criatividade que esses grupos vão, de modo coletivo, se apropriando da comunicação digital para criar gêneros, linguagens e estéticas próprias. Ou, ainda, como esses grupos vão construindo alternativas de sustentabilidade para seus projetos de mídia já que essas mídias são produzidas e mantidas, em sua grande maioria, a partir de trabalho voluntário.

Quais as maiores dificuldades encontradas nesse processo?
A velocidade no surgimento e transformação dessas mídias; a transitoriedade da existências muitas delas; a dispersão que marca a presença dessas mídias na internet, a mistura de gêneros e linguagens favorecidas pelas tecnologias digitais que rompem com classificações que estamos familiarizados em acervos de museus (como os jornais, por exemplo);  a produção coletiva e colaborativa que desloca a ideia de individualização da propriedade e gestão; os limites da organização do acervo por nacionalidade tendo em vista a plurinacionalidade que demarca algumas produções, são alguns dos desafios que foram se impondo. Outra dificuldade refere-se a como registrar e preservar registros de imagens de algumas mídias como, por exemplo, as dos sites redes sociais que sofrem atualização permanente ou às vezes param de ser atualizadas. Optamos por inserir não apenas os links que levam às mídias porque muitos links tendem a ser descontinuados, e disponibilizarmos um print da primeira tela de um  grupo do Facebook, por exemplo, para que se preserve no tempo pelos menos uma mínima referência da existência e memória desse grupo. Infelizmente no caso de audiovisuais (como documentários, etc.) tivemos que por usar apenas um link em função dos limites de hospedagem do servidor.

No caso de jornais que já possuem versão em pdf, procuramos cadastrar toda a edição e também os vários números que forem disponibilizados Outra questão refere-se, ainda, à dificuldade de obtermos com agilidade, autorizações  dos produtores para uso público dos materiais. Embora as autorizações tenham sido enviadas, muitos não responderam. Temos um formulário disponível no site e um e-mail de contato (midiasimigrantes@gmail.com) para que os produtores possam fazer isso e também possam indicar novas mídias a serem inseridas na Plataforma.

Falando em mídia, qual sua análise sobre os grandes veículos atuais a respeito da cobertura sobre a temática migratória?
Pesquisas acadêmicas em distintos países, incluindo o Brasil, vêm alertando para o predomínio de representações midiáticas, muitas vezes pautadas por espetacularização e sensacionalismo, em que, em muitos veículos da grandes mídias, migrações aparecem associadas predominantemente à criminalidade, conflito, ameaça, vulnerabilidade ou pobreza ou, ainda, de imaginários de idealização de determinadas culturas sobre outras, como a das europeias em detrimento das latino-americanas ou africanas. Mas claro que não podemos generalizar quando constatamos que também, há, no universo das mídias, veículos e profissionais que têm proposto imagens e leituras diferenciadas das migrações contemporâneas pautadas pela sensibilidade, escuta atenta e preocupação ética com a realidade das migrações. Nesse sentido, muitas mídias produzidas pelos migrantes vêm concorrendo no contexto midiático atual para oferecer representações alternativas ou contra-hegemônicas do universo das migrações transnacionais pautadas no cotidiano e nas contribuições socioculturais das migrações e nas demandas e lutas específicas dos migrantes no campo da cidadania.

O que as mídias migrantes ou direcionadas ao tema têm a nós ensinar, na sua opinião?
A partir de uso das mídias digitais, os migrantes têm nos ensinado como pautar, organizar, mobilizar, politizar e humanizar o debate público sobre as migrações, construindo, registrando e dando visibilidade às suas experiências e trajetórias migratórias, assim como às suas lutas específicas por cidadania em suas diferentes perspectivas – econômica, política, social, intercultural e universal. As histórias e lutas migratórias que aparecem “narradas” nessas mídias revelam muito daquilo que os migrantes enfrentam, em seu cotidiano, no Brasil,  no que se refere, dentre outros, aos processos de regularização jurídica, o acesso à moradia, saúde, educação, cultura, busca de trabalho, envio de remessas aos países de origem, vivências de situações de violência e  racismo. Nesse sentido, mesmo na sua dispersão, essas mídias se tornam fontes importantes de conhecimento, informação e referência para a formulação das próprias políticas migratórias em âmbito nacional e transnacional. E podemos dizer, ainda, que  migrantes contribuem, com suas mídias, para o exercício do direito à comunicação ou de uma cidadania comunicativa, assim com insumos para o debate em torno dos processos e políticas de democratização da comunicação.

Na sua opinião, que legado deixa esse projeto? E qual o legado que fica para você, como uma das idealizadoras?
O legado, a meu ver, seria a possibilidade do projeto contribuir para a constituição de uma memória e ampliação da presença pública nacional e transnacional das migrações contemporâneas no contexto do acervo mantido por uma instituição da relevância como é o Museu da Imigração de São Paulo, tendo em vista que são poucos os museus da imigração no mundo que tem se preocupado em constituir acervos que contemplem a realidade das migrações contemporâneas, priorizando, em seus acervos, as chamadas migrações histórias.  E no meu caso específico e do grupo de pesquisa que coordeno no PPGCOM-ESPM, o projeto da Plataforma permite que o conhecimento acadêmico que temos produzido sobre mídias e migrações se converta em uma ação ou produto concreto de caráter público que busca contribuir efetivamente para a valorização, o reconhecimento, a  visibilidade e a memória do legado sociocultural, político e econômico, muitas vezes, ainda pouco conhecido,  que as novas migrações que chegaram ao Brasil nas últimas décadas  vem deixando para a sociedade brasileira.

Decreto que regulamenta a Política Municipal para a População Imigrante é assinado em São Paulo

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Fernando Haddad assina decreto que regulamenta a Política Municipal para a População Imigrante. Crédito: Fernando Pereira/SECOM - dez/2016

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), assinou nesta quinta (15) o decreto de regulamentação da Lei nº 16.478, que institui a Política Municipal para a População Imigrante na cidade de São Paulo.

O decreto regulamenta a Lei 142/2016, a mesma que foi sancionada no último dia 7 de julho, na abertura do VII Fórum Social Mundial de Migrações, que aconteceu na capital paulista. Ainda faltava a regulamentação, que veio com a assinatura do decreto.

A Lei é a primeira do país a instituir diretrizes para a política de imigrantes em âmbito municipal e foi construída de forma participativa através de um Comitê Intersetorial, convocado pela Coordenação de Políticas para Migrantes, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Este Comitê reuniu 13 representantes do poder público municipal e 13 representantes da sociedade civil.

“São Paulo é a porta de entrada do país, e mesmo quando o imigrante chega ou sai do Brasil, passa por aqui. Por isso, era uma obrigação da cidade promover políticas para essa população. Tínhamos a alternativa de nos omitirmos, mas avançamos cada dia no debate. São Paulo é uma cidade de imigrantes e nisso está sua força”, afirmou o prefeito, em nota da Secretaria Executiva de Comunicação.

Dentre os principais pontos positivos da Lei, estão os princípios e garantias de diretos fundamentais aos migrantes, como o acesso a direitos sociais e serviços públicos, combate a xenofobia, ao racismo e a qualquer forma de discriminação.

“Vai ser muito importante o trabalho de conscientização dos imigrantes de que essa lei existe e que podem se valer dela. E aos poucos é possível ir reforçando junto aos serviços públicos o direito que os imigrantes têm em acessá-los. Eu acredito que com isso, a médio e longo prazo, a gente realmente muda uma cultura, a maneira de o próprio serviço público receber o imigrante”, lembrou Letícia Carvalho, assessora de comunicação da Missão Paz, uma das instituições que fazem parte do Comitê Intersetorial, logo após a aprovação da Lei na Câmara Municipal, ainda em junho deste ano.

Além da assinatura do decreto, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania lançou uma cartilha em sete idiomas (português, espanhol, inglês, francês, árabe, crioulo e mandarim), que serve como um guia que mostra passo a passo como, onde e o que é preciso para que os imigrantes tenham acessos aos serviços públicos, além de uma lista de associações que podem ajudá-los. O material foi utilizado também na formação de 1.000 servidores para o atendimento qualificado da população imigrante da capital paulista.

Com informações da Secretaria Executiva de Comunicação e da Missão Paz

Já estão abertas as inscrições para a Festa do Imigrante 2017; prazo vai até 31 de janeiro

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Já estão abertas as inscrições para a Festa do Imigrante 2017, em São Paulo. Crédito: Reprodução/Museu da Imigração

O ano de 2016 ainda não terminou, mas já estão abertas as inscrições para comunidades migrantes e de descendentes, grupos folclóricos, associações culturais e restaurantes típicos interessados em participar da 22ª Festa do Imigrante, prevista para meados de 2017 em São Paulo.

As inscrições vão até 31 de janeiro. Os interessados devem se inscrever preenchendo o formulário disponível no portal do Museu – e que também pode ser acessado no link abaixo. O resultado da seleção deve ser anunciado em fevereiro.

Clique aqui para acessar o formulário

A Festa do Imigrante tem papel fundamental no resgate da história de mais de 2,5 milhões de pessoas que passaram pela antiga Hospedaria dos Imigrantes do Brás desde o final do século XIX até meados do século XX. O evento, que já é uma tradição no cenário cultural de São Paulo, recebeu cerca de 22 mil pessoas na última edição, em 2016.

Maiores informações sobre o processo de inscrição e seleção devem ser verificadas junto ao Museu da Imigração pelo e-mail museudaimigracao@museudaimigracao.org.br

Com informações do Museu da Imigração

No Bom Retiro, evento ocupa as ruas para celebrar o Dia Internacional do Imigrante

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Intervenção artística do Visto Permanente sobre o FSMM, em São Paulo. Coletivo dará oficina audiovisual focada para imigrantes. Crédito: Visto Permanente

Por Jéssica Moreira
Do Portal Aprendiz

Ocupar o espaço público com muito futebol de rua, brincadeiras, sarau, cinema e também dicas de saúde. Esse é o objetivo do “Que Bom Retiro – 1º Festival de Rua do Bom Retiro”, que acontece no bairro central de São Paulo, no dia 18 de dezembro (domingo), na Rua General Flores, das 11h às 21h.

Mobilizado pela Rede Social Luz-Bom Retiro, que integra mais de 20 organizações – entre elas serviços sociais, organizações e equipamentos culturais públicos e privados, coletivos migrantes e urbanísticos – a ação celebra o Dia Internacional do Imigrante, no intuito de reconhecer e valorizar as múltiplas expressões culturais presentes na região central de São Paulo, historicamente conhecida por seus fluxos migratórios.

Serão mais de dez horas de programação, com atividades que buscam promover o direito à cidade por meio da ocupação das ruas.

Programação completa

11h às 14h – Atividades esportivas ( Sesc Bom Retiro)
11h às 14h – Oficina Tecendo o Amanhã (Coletivo meiofio)
12h às 17h – Sensibilização de combate à dengue, exposição de ciclos de vida da dengue + educação ambiental (PAVS Bom Retiro + INOVA)
13h às 14h – Coral de Idosos da Morada São João
13h às 16h – Museu de Portas Abertas (Museu de Saúde Pública Emílio Ribas – Instituto Butantan)
14h – Cinema no Museu (Museu de Saúde Pública Emílio Ribas – Instituto Butantan)
14h – Contação de Histórias + Troca de Livros + Sarau+ Roda de conversa (Coletivo Ecos Latinos + Sí, Yo Puedo + Museu de Saúde)
14h às 17h – Brincadeiras de Rua (Coletivo Não só o Gato)
14h às 17h – Oficinas de Artesanato (Sasf Bom Retiro)
14h às 18h – Barraca de Economia Solidária (Caps Prates)
14h às 15h – 1ª Aula de Zumba ( Nasf/UBS Bom Retiro)
16h às 17h – 2ª Aula de Zumba (Nasf/UBS Bom Retiro)
15h – Colagem de lambes (Coletivo Feminicidade)
15h às 17h – Cantinho da Árvore de Histórias (Espaço Fazedoria + Acupuntura Urbana + Museu da Saúde)
16h às 17h30 – Oficina de Audiovisual Identidade e Território da Câmera (Coletivo Audiovisual Itinerante [CAI])
18h30 – Projeção Fotográfica sobre o Bom Retiro (Ed Viggiani)
19h às 21h: CINE CRIAR – Mostra Latino Americana de curtas (Coletivo Audiovisual Itinerante [CAI] + Instituto CRIAR de TV, Cinema e Novas Mídias)

Durante o evento:
Oficina de mobiliário urbano (Coletivo A Cidade precisa de você) + Graffitti ( Waldir Grisolia)

Sobre a Rede Social Luz-Bom Retiro

A Rede Social Luz/Bom Retiro existe desde 2015 e, desde então vem realizando eventos de forma coletiva no território do Bom Retiro. Neste ano, a rede cresceu, ganhando novos atores e expandindo seu campo de atuação, juntando diversos coletivos, movimentos sociais, equipamentos culturais e moradores da região.

“Imigração haitiana foi protagonista para o Brasil se enxergar como um país que não oferece direitos”, aponta pesquisadora

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LIvro analisa e destaca a imigração haitiana para o Brasil e as transformações que ajudou a gerar. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Livro e pesquisadores de diversas áreas mostram protagonismo e transformações geradas pela imigração haitiana no Brasil

Por Rodrigo Borges Delfim

Nos últimos cinco anos, a presença haitiana mudou o padrão do imigrante no território brasileiro e trouxe novos desafios ao país – tendência já mostrada pelo relatório 2016 do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais). Fazer um retrato analítico dessa movimentação tão recente, mas ao mesmo tempo marcante, foi o objetivo do livro Imigração Haitiana no Brasil, uma coletânea de 29 textos escritos por pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.

O livro, já disponível para compra, já pode ser considerado uma referência no assunto devido à sua abrangência, tanto quanto à origem das pesquisas que geraram os artigos como pelos temas abordados: de acolhida a questões de gênero, passando por condições de trabalho e envio de remessas, cobertura da imprensa, entre outros assuntos.

Eventos de lançamento da obra têm sido feitos em todo o país e a parada mais recente foi em São Paulo, na última sexta (09), durante a última edição deste ano dos Diálogos CEM, no auditório da Missão Paz, reunindo alguns dos autores e organizadores da publicação.

O local, aliás, é simbólico para o breve e agitado histórico da imigração haitiana para o Brasil. Nele já chegaram a dormir centenas de haitianos por noite entre os anos de 2014 e 2015, além de outras atividades envolvendo a comunidade, como a festa da bandeira do Haiti, celebrada em 18 de maio. De acordo com a Missão Paz, cerca de 12 mil haitianos já passaram pelos serviços da entidade nos últimos cinco anos.

Migrantes atendidos pela Missão Paz durante evento sobre os atendimentos feitos entre abril e maio de 2014  Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - maio/2014
Migrantes atendidos pela Missão Paz durante evento sobre os atendimentos feitos entre abril e maio de 2014
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – maio/2014

“Resolvemos privilegiar a imigração haitiana nesse livro porque ela foi protagonista para o Brasil se enxergar como um país que não oferece direitos”, ressaltou a professora Rosana Baeninger, do Nepo (Núcleo de Estudos da População) da Unicamp (Universidade de Campinas). “Nesses últimos cinco anos a imigração haitiana mostrou um Brasil despreparado, improvisado e pouco comprometido com os direitos sociais. Esses últimos cinco anos são uma lição para todos nós”.

Mais destaques

Outros dois assuntos ocuparam espaço durante o evento. Um deles foi o projeto da nova Lei de Migração (PL 2516/2015), que havia sido aprovada pela Câmara no último dia 6 de dezembro. A advogada Letícia Carvalho, que tem acompanhado pela Missão Paz a tramitação do projeto pelo Congresso Nacional, fez um breve histórico até a aprovação por parte dos deputados, e destacou alguns dos desafios que virão pela frente.

“A regulamentação da lei será um grande desafio. São 23 pontos que necessitam de regulamentação, assuntos delicados e a sociedade civil precisa estar em cima e participar de todo esse processo”, sintetiza Letícia. O texto ainda precisa passar por uma nova votação no Senado antes de ir para sanção presidencial.

O evento também marcou o lançamento da mais nova edição da revista Travessia, que tem o lado feminino das migrações como tema principal.

Por um mundo com mais filoxenia em relação aos migrantes e refugiados

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Refugiados que vieram à Rio-2016 foram homenageados com grafite no Rio de Janeiro. Crédito: ACNUR

Por Bruna Kadletz
Publicado originalmente em Kosmos Journal

Disfarçados de pobres viajantes, Zeus e Hermes visitaram diversos vilarejos em busca de refúgio para a noite. Os deuses bateram em diversas portas. Sem saber a real identidade dos deuses, os residentes repetidamente os mandaram embora. Todos rejeitaram os “visitantes indesejados” com exceção de um casal de idosos – Baucis e Filemon. O humilde, mas nobre casal, recebeu os visitantes em sua casa e generosamente serviu bebida e comida para os agora convidados. Após preencher os copos de madeira diversas vezes, Baucis notou que a jarra de vinho estava sempre cheia. Filemon então descobriu que os convidados eram na verdade deuses e logo ofereceu a sacrificar seu único ganso para alimentar os deuses. Zeus recusou a oferta. Tocado pelo gesto, Zeus recompensou a generosidade e hospitalidade do casal ao transformar seu humilde casebre em um belíssimo templo de pedras. Zeus também prometeu realizar o último desejo do casal: ser os guardiões do templo, morrer ao mesmo tempo e permanecer juntos pela eternidade. Enquanto o casal se transformava em árvores, cada um guardando um lado da entrada do templo, suas raízes penetravam pelo solo e seus galhos se estendiam pelos céus.

A história de Baucis e Filemon aparece no livro Metamorfoses, uma coleção de mitos escrita pelo poeta romano Ovídio no ano 8 D.C. Essa bela história narra a relação sagrada entre visitantes e anfitriões, encarnando a antiga tradição grega conhecida como filoxenia. Apesar de filoxenia ser comumente traduzida como hospitalidade, essa tradução não reflete o significado profundo da tradição. A etimologia da palavra revela que filoxenia é uma expressão de amor e amizade para com estranhos.

Em nossos tempos, refugiados e imigrantes são a personificação coletiva da busca de Zeus e Hermes por refúgio. Reduzidos ao status de “visitantes indesejáveis e não convidados”, refugiados e imigrantes estão cada vez mais sendo subordinados a restrições políticas e legais, e a violência xenofóbica.

Essas restrições frequentemente impedem aqueles que escapam vivos de guerras ou buscam por melhores oportunidades de vida de obterem passagem segura e liberdade de movimento. Já a violência xenofóbica machuca o espírito humano, ferindo a dignidade de pessoas que, como nós, também possuem o direito de reconstruir suas vidas em uma nova terra.

No pós-Temer, pós-Brexit e pós-Trump, a retórica divisória do ódio amplifica sentimentos nacionalistas que enfraquecem e fragmentam sociedades. Assim, a imagem de refugiados e imigrantes como “visitantes indesejáveis” é fortalecida.

No começo de 2016, governos europeus fecharam suas fronteira e rotas migratórias, empregando força policial e poder militar para paralisar o movimento em massa das pessoas. Tais medidas aprisionaram milhares de refugiados e imigrantes em campos esquálidos, centros de detenções e favelas urbanas, onde sofrimento e falta de perspectiva corroem a esperança humana.

Olhando para o contexto brasileiro, apesar da emissão do visto humanitário, refugiados e imigrantes também vivenciam as amarguras e humilhações do status indesejável que lhes foi conferido. Agressões físicas e verbais, discriminações e comentários ofensivos fazem parte da realidade de muitos.

Diante de políticas punitivas que corrompem oportunidades igualitárias e narrativas que desumanizam, como podemos elevar os valores morais e éticos que sustentam nossa percepção de refugiados e imigrantes?

Os gregos nos ensinam uma lição valiosa.

Enquanto é verdade que a grande maioria dos países e sociedades tem sim fechado suas portas, redes de solidariedade e aceitação tem mantido vivo o antigo espírito da filoxenia.

Em julho de 2016, em uma viagem a Grécia, eu conheci a encarnação moderna do casal Baucis e Filemon. Os constantes fluxos de refugiados e imigrantes que atravessam o Mar Egeu tornaram as ilhas gregas na principal porta de entrada europeia para aqueles que sonham com segurança e direitos humanos em solo europeu. Como uma ponte de passagem, Lesvos, uma das ilhas que visitei, recebeu centenas de milhares de crianças, mulheres e homens assustados.

Na ilha grega, remanescentes de coletes salva-vidas, restos de botes e barcos e as cercas farpadas dos centros de detenções refletem a linha de pensamento que determinados grupos raciais e populações possuem menos valor intrínseco que outros. Tal noção tem permitido que autoridades políticas abandonem refugiados e imigrantes no Mar Mediterrâneo, deixando-os afogar sem tomar nenhuma medida para evitar mortes desnecessárias.

Somente em 2016, segundo o projeto Missing Migrants, mais de 4.700 migrantes perderam suas vidas na perigosa travessia do mediterrâneo.

Com a intensificação do sofrimento humano e na ausência de soluções sustentáveis, voluntários ao redor do mundo e residentes locais tem respondido de acordo com o princípio de amor e amizade para com estranhos.

Em Lesvos, eu me hospedei em uma pousada cujo os donos gregos também estavam hospedando uma família síria-palestina de 7 membros. Assim como Baucis e Filemon, o moderno casal grego demonstrou generosidade e cuidado para seus visitantes. O casal abraçou os membros da família como se fizessem parte da sua.

Como o casal descende de uma família de refugiados, eles também compreendem o sentimento de ser sistematicamente destituído e indesejado. Para eles, receber aqueles que buscam refúgio é a resposta mais natural. Por causa da crise dos refugiados de 2015, o turismo na ilha reduziu, enfraquecendo a economia da ilha. Ainda assim, apesar das dificuldades econômicas, o casal abriu as portas da sua casa para os estranhos que batiam na sua porta.

Em um mundo em transição, onde refugiados e imigrantes são estigmatizados como ameaças a ordem social e segurança social, os Gregos nos demonstram que é possível manter um coração aberto para visitantes, mesmo sob circunstancias desafiantes.

Muitos voluntários e residentes locais mantém vivo o espírito da filoxenia. Eles ensinam ao mundo uma valiosa lição: quando nos vemos no “outro”, nós podemos sustentar coração aberto e atitude inclusiva, expressando amor e amizade para com estranhos. Ao descobrimos esse elo de conexão, reconhecemos nossa humanidade compartilhada.

Em sociedades construídas com os valores corrosivos do individualismo, interesse próprio e competição, o medo tende a bloquear ações de solidariedade e cuidado com relação ao “outro”. Ao permitir que esses valores moldem nossos relacionamentos, nós nos fechamos em bolhas.

O mito de Baucis e Filemon fala sobre hospitalidade e a transformação que ocorre quando recebemos bem visitantes inesperados. Em um nível externo, a hospitalidade representa o abrir das portas para aqueles que necessitam. Em um nível simbólico, a hospitalidade representa o abrir das portas para generosidade, amizade, empatia e amor.

Imigrantes crescem no mercado formal de trabalho no Brasil, mas também sofrem com crise, mostra OBMigra

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Logo do OBMigra, o Observatório das Migrações Internacionais. Crédito: Reprodução

O mercado de trabalho é um ambiente privilegiado para conhecer e analisar as migrações contemporâneas no Brasil. Compreender essa movimentação e gerar dados que podem embasar políticas públicas para essa população é um dos objetivos do Relatório Anual do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), que acaba de chegar à terceira edição.

Em parceria com o Observatório, o MigraMundo fez uma reportagem em vídeo sobre o relatório, com alguns dos principais dados e com dois dos pesquisadores que ajudaram a elaborar o estudo, que combinou diferentes bases de dados do governo federal.

Mais informações sobre o relatório podem ser obtidas no site do OBMigra

Câmara aprova PL da nova Lei de Migração; projeto volta para o Senado

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No Fórum Social Mundial de Migrações, campanha lançou ahashtag #NovaLeideMigraçãoJá Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Mobilização pela aprovação da lei teve até “Twittaço”; envolvidos destacam conquista como histórica

Por Rodrigo Borges Delfim

Depois de meses de espera e mobilizações, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2516/2015, que institui uma nova Lei de Migração no Brasil, substituindo o Estatuto do Estrangeiro. Foram 207 votos a favor e 83 contra, além de uma abstenção.

Veja aqui o projeto na íntegra e sua tramitação na Câmara

Veja aqui como votou cada deputado

A proposta estava apta para ir a plenário desde julho, quando passou por uma comissão especial na Casa. A votação era aguardada para quarta-feira (08), mas os líderes dos partidos decidiram antecipar para a terça (07).

Com a aprovação pelos deputados, o PL volta ao Senado, onde teve origem ainda como PLS 288/2013. Essa proposta foi fundida por uma comissão especial na Câmara com outras que já estavam no Legislativo, dando origem ao projeto substitutivo que é o PL 2516/2015. Se aprovado também pelos senadores, o projeto segue para sanção presidencial.

Deputados aprovaram em Plenário projeto que define direitos e deveres do migrante e do visitante no Brasil. Crédito: Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Deputados aprovaram em Plenário projeto que define direitos e deveres do migrante e do visitante no Brasil.
Crédito: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Mudança de paradigma

A nova lei define os direitos e deveres do migrante e do visitante no Brasil, regula sua entrada e permanência e estabelece normas de proteção aos brasileiros que vivem no exterior. Ela rompe com o paradigma da legislação atual, que vê todo estrangeiro sob o ponto de vista da segurança nacional, para outro que reconhece o caráter humano da migração e está de acordo com a Constituição e os tratados internacionais dos quais o Brasil é parte.

O projeto ainda garante aos migrantes, entre outras coisas, o direito à participação em protestos e sindicatos, antes vedado pelo Estatuto do Estrangeiro, além de combater a criminalização por razões migratórias – o que significa, por exemplo, que nenhum migrante poderá perder a liberdade por estar em situação irregular.

O PL 2516/2015 também consolida e amplia a política de vistos humanitários, hoje provisória e aplicada apenas para sírios e haitianos. Essa iniciativa permite que pessoas em situação de risco possam viajar ao Brasil e, uma vez aqui, solicitar refúgio internacional.

Representantes da sociedade civil presentes à Câmara celebraram a aprovação da Lei de Migração. Crédito: Letícia Carvalho/Arquivo pessoal
Representantes da sociedade civil presentes à Câmara celebraram a aprovação da Lei de Migração.
Crédito: Letícia Carvalho/Arquivo pessoal

O substitutivo concede uma anistia na forma de residência permanente aos imigrantes que, se ingressados no Brasil até 6 de julho de 2016, façam o pedido até um ano após o início de vigência da lei, independentemente da situação migratória anterior. Haverá isenção de taxas, mas declarações falsas poderão ensejar sua revogação posterior.

O projeto não chega a ser unanimidade entre as organizações da sociedade civil engajadas na questão migratória, mas a percepção geral é de que a proposta do PL já é muito melhor do que o Estatuto em vigor e é fruto de um consenso obtido ao longo de muitos debates e negociações com entidades, políticos e outros atores.

“Não é um projeto perfeito, mas entendemos que ele avança consideravelmente e mantém um piso mínimo de princípios orientadores da manutenção dos direitos humanos e da não discriminação”, afirma Pétalla Brandão Timo, representante em Brasília da Conectas Direitos Humanos, uma das entidades da sociedade civil engajadas na mobilização para mudança da lei migratória brasileira.

Aprovação histórica e mobilização social

Para o gestor público e especialista em migrações e refúgio João Guilherme Granja, que acompanhou grande parte das discussões recentes sobre a atualização da legislação migratória brasileira, o resultado dessa votação na Câmara é histórico, ainda mais considerando o conturbado momento atual no Brasil.

“Nunca houve um debate tão profundo sobre a legislação de migração no Brasil e o próprio plenário da Câmara nunca chegou a aprovar uma Lei de Migrações anteriormente, haja visto que a atual – o Estatuto do Estrangeiro – entrou em vigor por decurso de prazo (quando passa o tempo e não é tomada uma decisão por parte do Legislativo) e outras anteriores tinham sido implementadas por meio de decretos-lei”.

A mobilização social teve papel fundamental para ajudar a levar o debate sobre a legislação migratória até o patamar atual. As reivindicações de mudança do Estatuto do Estrangeiro remontam ao início da década de 1990 e nunca antes uma proposta tinha chegado tão longe como agora.

No Fórum Social Mundial de Migrações, campanha lançou ahashtag #NovaLeideMigraçãoJá Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo
No Fórum Social Mundial de Migrações, campanha lançou ahashtag #NovaLeideMigraçãoJá
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Nos últimos meses, petições online e uma campanha expressada pela hashtag #NovaLeideMigraçãoJá ajudaram a dar maior visibilidade ao tema. E poucas horas antes da votação, uma mobilização via Twitter (o chamado Twittaço) foi puxada por organizações e demais pessoas simpáticas à temática migratória, convidando os apoiadores a acionarem diretamente os parlamentares pela rede social em favor da aprovação da lei.

A questão em torno da Lei de Migração não termina com a possível aprovação do projeto no Senado. Pétalla alerta que ainda há questões que ficam pendentes para o processo de regulamentação dessa lei. “Vai ser uma outra batalha difícil e importante na qual a sociedade civil vai precisar se envolver”.

Para a advogada boliviana Ruth Camacho, que também é militante pelos direitos dos migrantes, essa nova lei vai marcar o início de uma nova etapa, de bastante esperança e ansiedade. “Ela [a nova lei] representa a posição de ver o outro como um cidadão, uma pessoa com direitos, com os direitos mínimos reconhecidos e respeitados. E de poder exercer a cidadania com respeito, com o respeito à dignidade humana”.

Com informações da Agência Câmara e Conectas

 

 

Debates sobre política, cultura, mídia, gênero e educação marcam o VIII Fórum de Migrações no Rio de Janeiro

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Ato cultural do Bloco Bésame Mucho e Coletivo La Clandestina, encerrando a programação do primeiro dia do VIII Fórum de Migrações, no Rio (nov/2016). Crédito: Divulgação

Por *Lya Amanda Rossa e *Maria del Carmen Villarreal Villamar

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na capital fluminense, recebeu migrantes, pesquisadores, ativistas, professores e estudantes, entre os dias 29 de novembro e 1º de dezembro, no VIII Fórum de Migrações “Coletivos, Redes, Fluxos Coletivos”, com realização paralela do IV Simpósio de Pesquisa sobre Migrações. O evento foi concebido e coordenado desde sua gênese pelo professor da Escola de Comunicação da UFRJ Mohammed ElHajji, responsável pelos projetos O Estrangeiro e Diaspotics (iniciativas realizadas como parte de pesquisas financiadas pelo CNPq) e por uma ampla equipe de colaboradores do PET-ECO, PÓS-ECO e de outras áreas acadêmicas.

Desde a quinta edição do evento ocorre também o Simpósio de Pesquisa sobre Migrações, no qual pesquisadores de diversas instituições do país e do mundo, ligados a diferentes áreas de conhecimento, se debruçam ao tema das migrações por um viés que lhe é inerente: a interdisciplinaridade, essencial para a análise em profundidade de um tema tão humano,complexo e multifacetado.Por privilegiar pesquisas realizadas sob diferentes perspectivas, o evento vem se consolidando a nível nacional como um importante espaço de discussão e construção de saberes sobre as migrações internacionais no país e no mundo, e a cada ano inclui exposições de participantes vindos de diferentes instituições e lugares. Nesse ano, o Simpósio contou com a sua primeira mesa sobre gênero e migrações, e também teve a participação de estudantes de várias partes do mundo que vêm ao Brasil pelo programa de mestrado Mitra, vinculado ao Erasmus Mundus.

Programação cultural e expressões migrantes

A importância das experiências daquelas e daqueles que migram foi incorporada nessa edição com o destaque à iniciativas musicais e culturais, com a realização de um ato cultural pelo Bloco Bésame Mucho e o Coletivo La Clandestina. Compostos por latino-americanos residentes no Rio de Janeiro, ambas iniciativas, apresentadas no evento por Ezequiel Soto e Gabriel Pantoja, surgiram como uma tentativa de desmistificar as expressões culturais dos países vizinhos, bastante estereotipadas no Brasil, e de manter as suas raízes, artes, formas de expressão e luta política, compartilhando-as com a forma carioca de celebrar a vida através do samba. A música e a organização como meios de expressão cultural e política também foram tema de exposições de Andrea Santos e Jimena de Garay, do Coletivo Mallinalli, que mobiliza mulheres e a cultura mexicana do Dia de los Muertos para aproximar a luta brasileira por educação ao movimento mexicano “Caravana 43”. Em referência ao massacre ocorrido em 2014 em Iguala contra quarenta e três estudantes de uma escola rural em Ayotzinapa, no sul do México, a Caravana estabelece conexões entre as ocupações estudantis contemporâneas no Brasil e os quarenta e três estudantes desaparecidos políticos e vitimados pela violência estatal no México. A cultura como instrumento de expressão também foi pautada pelo grupo Cambamberos, grupo folclórico e musical colombiano e por Mango Mambo, grupo de música latino-americana composto por brasileiros, argentinos e mexicanos.

Ato cultural do Bloco Bésame Mucho e Coletivo La Clandestina, encerrando a programação  do primeiro dia do evento. Crédito: Divulgação
Ato cultural do Bloco Bésame Mucho e Coletivo La Clandestina, encerrando a programação
do primeiro dia do evento.
Crédito: Divulgação

Também com enfoque sobre a expressão migrante, o painel do primeiro dia do evento contou com a participação de Jobana Moya, da Equipe de base Warmis-Convergência das Culturas de São Paulo. A importância da mobilização migrante através de iniciativas culturais – como o projeto Lakitas, que se apresentou junto a Frente de Mulheres Migrantes na 10ª Marcha dos Imigrantes, ocorrida no dia 27 de novembro em São Paulo –  e outras formas de comunicação, como a participação do grupo na tradução e produção de cartilhas sobre direitos das mulheres migrantes, oficinas sobre parto humanizado e violência obstétrica e a cosmovisão sobre o parto e maternidade na cultura andina foram alguns dos assuntos abordados. A discussão sobre a presença migrante nos espaços públicos foi acompanhada de reflexões sobre a ocupação dos espaços digitais como forma de propagar conhecimento e desconstruir preconceitos, como tratado pela professora Denise Cogo (ESPM-SP) sobre o ativismo de imigrantes haitianos no Brasil e por Mélanie Montinard (UFRJ), dos projetos Haiti Aqui e Viva Rio.

Debates e diálogo entre academia, governos e sociedade

Desde a primeira edição, o Fórum de Migrações tem a preocupação de reunir acadêmicos e demais pesquisadores que trabalham com a questão migratória, representantes das organizações de migrantes, expoentes da mídia comunitária, membros de associações e estudantes estrangeiros.  Justamente por reunir pessoas de diferentes áreas de conhecimento, o Fórum se diferencia de um evento exclusivamente acadêmico ao promover o diálogo entre diversos atores da sociedade civil e academia, ligados ao tema das migrações, e tem incorporado também a participação de organismos internacionais como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), assim como representantes das três esferas governamentais que elaboram e gerem políticas para a população migrante e refugiada.

Rosane Marques (UFRJ) fala sobre sua pesquisa com mulheres negras nigerianas e congolesas em situação de refúgio na cidade do Rio, na mesa sobre gênero do último dia do IV Simpósio de Pesquisa sobre Migrações. Crédito: Divulgação
Rosane Marques (UFRJ) fala sobre sua pesquisa com mulheres negras nigerianas e congolesas em situação de refúgio na cidade do Rio, na mesa sobre gênero do último dia do IV Simpósio de Pesquisa sobre Migrações.
Crédito: Divulgação

Neste sentido, um argumento central do Fórum foi a importância de discutir as políticas migratórias de ontem e hoje, assim como a necessidade de desconstruir os mitos que muitas vezes pervertem o debate sobre a imigração e o refúgio. Para tanto, foi fundamental contar com a presença do professor Luís Reznik, da UERJ e coordenador do Centro de Memória da Imigração Ilha das Flores, assim como do professor Charles Gomes, do Centro de Estudos de Direito e Política de Imigração e Refúgio (CEDPIR), da Fundação Casa de Rui Barbosa, e da professora Lorena Granja (UERJ), que discutiram as migrações intra-regionais a partir das discussões e decisões sobre o tema no MERCOSUL. A importante questão dos refugiados sírios na Argentina e no Líbano foi também debatida pela professora Silvia Montenegro, da Universidad del Rosario, e pelo professor Murilo Meihy, da UFRJ. Outro tema importante foi a experiência da Prefeitura de São Paulo na criação de políticas públicas para imigrantes e refugiados, debatida por Viviana Peña, Coordenadora do Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes (CRAI) de São Paulo e por Guilherme Arosa Prol Otero, da Coordenação de Políticas para Imigrantes da Prefeitura de São Paulo.

Já os temas de família, redes, educação e integração estiveram presentes em diversos momentos do Fórum e do Simpósio, com a partilha de várias pesquisas, organizações e iniciativas de e sobre migrantes das mais diversas origens. Perspectivas históricas e atuais sobre educação e integração de imigrantes no Brasil foram expostas pela professora Miriam Santos, do NIEM-UFRRJ, enquanto que a realidade das famílias e redes da mobilidade haitiana foram descritas pelo professor Joseph Handerson da UNIFAP. Ambas apresentações de cunho acadêmico foram discutidas com experiências e iniciativas contemporâneas da sociedade civil como no relato de Tatiana Rodrigues e Carolina de Oliveira do projeto Abraço Cultural no Rio de Janeiro, e da professora Ju Bao, que falou sobre a sua experiência migratória, assim como sobre o ensino de mandarim e cultura chinesa no Brasil.

Outros temas que não ficaram à margem do VIII Fórum de Migrações foram as mudanças e os conflitos socioambientais, que carregam em si contornos políticos como causa de migrações na América Latina e Caribe, abordados pelo professor Celso Sánchez da UNIRIO, e os desafios e oportunidades que emergem com a imigração africana contemporânea, tema tratado pelo professor Mamour Sop Ndiaye do CEFET-Rio, que afirmou a necessidade de resgate da identidade africana no Brasil: “Os seus valores estão na África, mas o Brasil não foi lá buscar”.

Fala do professor Mamour Sop Ndiaye (CEFET-RIO) sobre o resgate da identidade brasileira através da imigração africana contemporânea, no painel do último dia do evento, ao lado das representantes do Coletivo Mallinalli. Crédito: Divulgação
Fala do professor Mamour Sop Ndiaye (CEFET-RIO) sobre o resgate da identidade brasileira através da imigração africana contemporânea, no painel do último dia do evento, ao lado das representantes do Coletivo Mallinalli.
Crédito: Divulgação

Em definitiva, tanto o Fórum como o Simpósio sobre Migrações promovidos pela UFRJ constituem um espaço fundamental para apresentar e discutir pesquisas e experiências sobre migrações a partir de múltiplos olhares. Como brincaram vários dos participantes do Fórum, “O portunhol é a língua do futuro, na certeza de que as próximas edições constituirão excelentes oportunidades para aprender e debater sobre esse e outros temas, partindo de várias culturas e idiomas. O evento ocorre anualmente e convida a todos interessados para a IX edição, que será realizada em 2017.

*Lya Amanda Rossa é mestranda em Ciências Humanas e Sociais pelo Programa de Pós-Graduação interdisciplinar (PCHS) da Universidade Federal do ABC (SP). Participou do VIII Fórum como ouvinte e do IV Simpósio de Pesquisa sobre Migrações como apresentadora.

*María Villarreal é pós-doutoranda em Sociologia Política na UENF e membro da comissão organizadora do VIII Fórum e do IV Simpósio de Pesquisa sobre Migrações junto a Guilherme Curi, Camila Escudero, Catalina Revollo Pardo, Leonardo Magalhães e os membros da PET e PÓS-ECO da UFRJ.