publicidade
terça-feira, junho 30, 2026
Início Site Página 140

Projeto que distorcia Lei de Migração tem tramitação encerrada no Senado

0
Crédito: Agência Senado

Retirada do projeto da pauta do Legislativo é considerada uma vitória da sociedade civil, que apontou retrocessos nas emendas propostas pelo governo

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

O Projeto de Lei 1928/2019, que trazia uma série de emendas que distorciam a Lei de Migração, teve sua tramitação encerrada no Congresso Nacional.

O pedido foi feito pelo senador Acir Gurgacz (PDT-RO), autor do projeto inicial, após uma série de adendos apresentados pelo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) – a pedido do Ministério da Justiça – para endurecer as regras de entrada de pessoas no país.

O projeto inicial de Gurgacz era bem simples: destinava-se a simplificar a emissão de visto para jovens imigrantes interessados em trabalhar e estudar no Brasil. Já os adendos propostos pelo governo federal incluíam exigências e medidas que vão contra a legislação brasileira vigente – e que ferem a dignidade dos imigrantes, segundo representantes da sociedade civil ligados à temática migratória.

O conjunto de medidas de Bezerra Coelho é considerado um “jabuti” – jargão do Legislativo que é dado a um artigo não relacionado ao ponto central de um texto.

Uma das propostas inseridas pelo governo no PL exigia que transportadoras forneçam informações antecipadas à Polícia Federal sobre passageiros, tripulantes e registros de compras de passagem.

Outra medida previa a possibilidade de a PF pedir ao juiz a prisão ou outra medida cautelar para fins de deportação ou expulsão do imigrante – enquanto a deportação ou expulsão não for efetivada, o suspeito poderá ficar preso por até 60 dias, prazo que pode ser prorrogado por um período não definido.

Como o projeto inicial era considerado de baixa complexidade, sua tramitação também era simplificada sem previsão de votação em plenário. A manobra acabou barrada pela pressão de entidades da sociedade civil, que conseguiram pautar a realização de audiências públicas no Senado para debater o PL – a última delas, ocorrida na terça-feira (1º).

Segundo apuração do MigraMundo, o parlamentar decidiu pedir o fim da tramitação do projeto ao notar que o governo estaria se utilizando dele para impor ações de seu interesse sem o devido debate público.

O fim do projeto é considerado uma vitória da sociedade civil, que assim impede o avanço no Legislativo de uma proposta que colocava em riscos avanços obtidos com a entrada em vigor da Lei de Migração – considerada um avanço social em relação ao antecessor Estatuto do Estrangeiro.

O encerramento da tramitação também representa uma derrota para o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), ele próprio crítico da Lei de Migração – apesar dela ser vendida como um avanço social pelo governo em fóruns internacionais. E também é um revés para o ministro da Justiça, que vê a necessidade de “pequenos ajustes” na legislação migratória para proteção da soberania nacional, combate ao terrorismo e crime organizado.

Audiência pública

Na audiência pública da última terça-feira (1º) na Comissão de Direitos Humanos do Senado, representantes de entidades da sociedade civil envolvidas com a temática migratória expressaram temor quanto a retrocessos no tratamento a imigrantes e refugiados a partir das mudanças propostas pelo governo no PL 1928 – e também pela portaria 666, esta em vigor desde julho.

Os representantes da sociedade civil não negaram a importância de o Brasil não perder de vista sua segurança nacional, mas enfatizaram que isso não pode ocorrer em cima de situações que violem a dignidade humana e que não respeitem os limites da legislação nacional.

“Toda política migratória transita entre dois temas, a segurança nacional e o direito dos imigrantes. Mas esse subsistema, com as emendas apresentadas pelo Ministério da Justiça, carrega demasiadamente no aspecto da segurança nacional, anulando as garantias de direito dos imigrantes, afirmou o defensor público federal Gustavo Zortea durante a audiência.

Já o coordenador de Política Migratória do Ministério da Justiça, Flávio Diniz Oliveira, defendeu as medidas e afirmou que a Portaria 666 trata de situações extremas que não foram regulamentadas pela atual legislação migratória.

“O foco dessa lei é muito específico, em pessoas que recebem esse mesmo tratamento em vários outros países do mundo. O ajuste foi necessário para resgatar, no controle migratório, mecanismos para resguardar o direito dos brasileiros de terem sua segurança preservada”.

A Portaria 666 continua em vigor, mas foi questionada no Supremo Tribunal Federal pela Procuradoria-Geral da República, que pede sua suspensão. O caso está sob relatoria da ministra Rosa Weber.

Com informações da Agência Senado

Distopia é tema de mostra de cinema migrante em Barcelona

0
Mostra CineMigrante começou nesta terça (1º) e vai até domingo (6) em Barcelona. Crédito: Mariana Araújo

Edição deste ano do evento valoriza produções árabes, africanas e latinas; filme brasileiro abriu os trabalhos

Por Mariana Araújo
Em Barcelona

Teve início nesta terça (1º) em Barcelona a sexta edição do CineMigrante (Festival Internacional de Cinema e Formação em Direitos Humanos das Pessoas Imigrantes) em Barcelona. Até o próximo domingo (6) serão projetados em diversos locais da cidade e de maneira gratuita mais de 30 filmes, todos com a temática migrante e a perspectivas não ocidentais.

Além dos filmes, haverá também sessões especiais, workshops, exposições e mesas de debate. A programação pode ser acessada neste link.

O tema da atual edição é “Re Volver a el Futuro. Negro Disparo Hacia el Sol”, relacionado com as construções futurísticas desde as cinematografias não ocidentais e partindo desde os movimentos negros como o afrofuturismo, com filmes de ciência e ficção produzidos na África, América Latina e no mundo árabe.

[#CineMigranteBCN19 ya llegó!]“El futuro es mejor guía para el presente que el pasado”Ante el presente de muerte,…

Posted by CineMigrante Barcelona on Tuesday, October 1, 2019

A sessão inaugural contou com uma performance teatral de Silvia Albert e Luiz Felipe Lucas, membros do coletivo Tinta Negra – atores e atrizes negros que se uniram para combater o racismo na cena artística catalã -, show da banda Walabokk e a projeção do filme Era Uma vez Brasília, de Adirley Queirós.

O filme de Adirley escolhido para a abertura conta a história de um agente intergaláctico preso por ocupar terras particulares, que recebe uma missão de, em 1959, ir ao planeta Terra e matar o presidente da República do Brasil, Juscelino Kubitscheck, no dia da inauguração de Brasília. Mas, na ficção, sua nave aterriza em Ceilândia, a maior cidade satélite de Brasília e capital de sua prisão, e onde deve reunir um exército capaz de matar os monstros que habitam o Congresso Nacional. Tudo isso com gravações de rádio de momentos marcantes dos últimos anos da política brasileira, como a defesa da ex presidente Dilma no processo do Impeachment, votos de senadores e deputados e o discurso do ex presidente Michel Temer quando assume pós impeachment.

Toda essa distopia – que dialoga com a proposta do festival – tem, de acordo com o diretor, mostrar que narrativa periférica deve ser de quem vive a realidade das periferias (na qual se encontram boa parte dos migrantes mundo afora). “O filme é o que o diretor quer”.

Além de Adirley, na mesa inaugural estavam também a diretora do festival internacional CineMigrante, Flor Mazzadi, e o cineasta camerunês Jean-Pierre Bekolo, além da equipe técnica do festival.

Caminhada e missa poliglota marcam Dia Mundial do Migrante e do Refugiado em SP

0
Ato pelo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado em São Paulo terminou com missa na Igreja N.S. da Paz. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Participantes pediram olhar mais humano sobre os migrantes e ações de combate à discriminações e xenofobia

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

Dezenas de entidades católicas ligadas ao atendimento e orientação de imigrantes em São Paulo e representantes de diferentes nacionalidades participaram de um ato neste domingo (29) no centro de São Paulo pelo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado.

Cerca de cem pessoas saíram em caminhada da Praça da Sé, marco zero da capital paulista, até a Igreja Nossa Senhora da Paz, ponto de referência para migrantes na cidade, onde o ato terminou com uma missa – organizada pelas comunidades latinas que frequentam a paróquia.

Caminhada pelo centro de São Paulo durante ato pelo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Para este ano o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado – que chegou à sua 105ª edição – teve “Não se trata apenas de migrantes” como tema. Escolhido pelo Papa Francisco, o tema reflete preocupação por todos os habitantes das periferias existenciais, nas quais se encontram muitos dos migrantes (leia aqui a mensagem especial do Pontífice para a data).

Evocando o papa Francisco, o padre Antenor Dalla Vecchia lembrou que os migrantes são pessoas constituídas de dignidade e pediu sensibilidade da sociedade civil em relação à temática migratória.

“Que tenhamos sensibilidade em relação aos migrantes. Este é um dia especial, de encontro. E, conclamamos uma sociedade mais fraterna, mais humana. Não podemos aceitar mais a discriminação e o sentimento de ódio. Somos gente, temos coração e alma, que devem ser cuidados, as políticas não podem ser só para alguns. Quando nos congregamos, nos fortalecemos mais e mais”, disse o sacerdote durante a homilia da missa.

Dia Mundial do Migrante e RefugiadoMissa Celebrada com Dom Eduardo Viera Bispo auxiliar da Cidade de São Paulo.

Posted by Missão Paz on Sunday, September 29, 2019

“É o egoísmo, o fechamento do nosso coração que causam tanto sofrimento. E que os cristãos abram seus corações e deem esse testemunho, de que a discriminação, a injustiça levam à morte de tantos filhos e filhas de Deus”, completou o bispo auxiliar de São Paulo Dom Eduardo Vieira, que presidiu a celebração. 

A missa contou com leituras, orações e cânticos em espanhol, português, inglês e francês, contemplando os idiomas falados e compreendidos pelos fiéis presentes. 

Ao final, foi servido um almoço – como é costume entre as comunidades latinas no último domingo de cada mês na paróquia. Para setembro a tarefa coube à comunidade paraguaia.

Dia de honra e de coragem

Durante o evento, participantes enfatizaram a necessidade de um olhar mais humano e sensível sobre as migrações e os migrantes, independente da origem, motivo do deslocamento ou status legal no país. E também cobraram das autoridades ações que visem a garantia de direitos de migrantes no país – previstos tanto na Lei de Migração como na Constituição Federal.

“É um dia de honra e de coragem [Dia Mundial do Migrante e do Refugiado]. [O Brasil] É um lugar que ajudamos a construir, onde podemos reconstruir nossas vidas”, comenta a venezuelana Marifer Vargas, uma das participantes do ato.

O evento também buscou encorajar os participantes a lutarem por políticas públicas para as populações migrantes e sua aplicação na prática. Também foi feito repúdio contra manifestações recentes de xenofobia e violência contra migrantes, como a morte de dois músicos bolivianos que ensaiavam em uma praça na zona norte de São Paulo, em agosto passado.

“Quem silencia sobre a xenofobia também é cúmplice dessa situação”, emendou o haitiano Keder Lafortuné, que integra o Conselho Municipal de Imigrantes, em funcionamento em São Paulo desde outubro de 2017.

O haitiano Keder Lafortuné, um dos imigrantes que participou do ato.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Sobre a data

Celebrado pela Igreja Católica desde 1914, o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado a partir deste ano passa a ser lembrado sempre no último domingo de setembro – antes era em janeiro.

A mudança de data se deve aos pedidos de várias Conferências Episcopais, atendido pelo papa Francisco.

Durante seu pontificado, Francisco tem dado atenção especial à questão migratória. Em 2017, junto com a Cáritas Internacional, lançou a campanha “Compartilhe a Viagem”, que visa encorajar os católicos a se colocarem no lugar daqueles que se deslocam mundo afora.

Por meio da chamada “Cultura do encontro”, o papa tenta mudar a mentalidade em relação ao imigrante e ao refugiado – ainda muito marcada por atos de ódio e intolerância – nos países aonde costumam chegar em busca de proteção e de uma vida melhor.

Marcando as celebrações do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado deste ano, o Pontífice inaugurou uma escultura no Vaticano para homenagear as pessoas que buscaram – e ainda buscam – melhores condições de vida por meio de travessias.

“Esta escultura, em bronze e argila, retrata um grupo de migrantes de várias culturas e diferentes períodos históricos. Eu desejei essa obra artística aqui na Praça São Pedro, para que recorde a todos o desafio evangélico da acolhida”, disse Francisco, evocando um trecho de um dos livros do Novo Testamento, a Carta de São Paulo aos Hebreus. “Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.” (Heb 13,2)

Além da data promovida pela Igreja Católica, há o Dia Mundial do Refugiado (20 de junho) e o Dia Internacional do Migrante (18 de dezembro), ambas instituídas pela ONU. No Brasil tem ainda o Dia Nacional do Migrante, lembrado todo 25 de junho.

Conflito no Iêmen desloca milhares de pessoas em ”pior catástrofe humanitária mundial”

0
Abrigos para deslocados em Khamer, na província iemenita de Amran. Crédito: OCHA/Philippe Kropf

ONU alerta Conselho de Segurança para risco de cólera entre 300 mil novos deslocados; relatório internacional prevê cenários sombrios para o país

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Um milhão de deslocados, 14 milhões de pessoas sob o risco de fome, 6.872 civis mortos e 10.768 feridos. Esses são os números divulgados pelas Nações Unidas e pela ONG The Human Rights Watch sobre a situação no Iêmen engendrada pelo conflito armado entre forças separatistas, anteriormente lideradas pelo ex-presidente Ali Abdullah Saleh, e forças militares do atual governo aliadas à Arábia Saudita, aos Estados Unidos e reconhecidas pela comunidade internacional.

O conflito já dura cinco anos (desde 2014) e foi chamado pelas Nações Unidas de “pior catástrofe humanitária do mundo”. No último dia 20 de agosto, o enviado especial da ONU ao país, Martin Griffiths, falou ao Conselho de Segurança da ONU (órgão máximo da entidade com poder de decisão sobre possíveis intervenções militares).

Presente na sessão, a secretária-geral assistente para os Assuntos Humanitários, Ursula Mueller, disse que 300 mil deslocados estão sob o risco de um surto de cólera devido às interrupções de serviços de água e saneamento.

”A fragmentação do Iêmen está se tornando uma ameaça mais forte e dramática”, alertou o enviado especial Griffiths, dizendo ”não haver tempo a perder” nas negociações pela paz (Leia aqui a declaração em português ) .

Griffiths destacou as frustrações ao longo das negociações, como por exemplo a não-chegada de aviões com ajuda humanitária, apesar da reabertura do aeroporto de de Sanaa, negociada por meses, além da necessidade de incluir grupos separatistas do sul nas discussões.

Violações de direitos humanos

As violações de direitos humanos no Iêmen foram tema de um relatório (leia aqui em inglês e português) da ONG The Human Right Watch.

Tais violações incluiriam prisão, tortura e estupro de migrantes, bloqueio de ajuda humanitária, além de violações de leis de guerra, incluindo prisão de jornalistas e bombardeios aéreos mirando a população civil.

De acordo com a HRW, as bombas usadas nos bombardeios foram vendidas por países como o Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.

”O conflito armado tem um terrível impacto na população civil. Bombardeios aéreos desproporcionais matam milhares de pessoas e objetos civis violando assim as leis de guerra, usando munições vendidas pelos Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e outros, incluindo armas proibidas como bombas clusters”, denuncia o relatório baseado em práticas flagradas em 2019.

As bombas cluster (ou bombas de fragmentação) são armas que, quando disparadas, se abrem e dispersam. Assim, criam centenas de munições menores, ampliando seu poder de alcance e atingindo uma área equivalente a diversos campos de futebol, segundo a Coalizão de Munições Cluster (CMC, na sigla em inglês).

“O uso dessa munição foi documentado 18 vezes no Iêmen e, em duas delas, analistas constataram que a procedência das armas era brasileira”, disse à BBC Brasil Maria Laura Canineu, diretora da Human Rights Watch no Brasil.

Perspectivas sombrias

Um estudo feito em parceria entre a ONU e a Universidade de Denver (Colorado, EUA) prevê ao menos 102 mil novas mortes decorridas do conflito. Divulgado no início deste ano, o relatório “Analisando os efeitos da guerra sobre o desenvolvimento do Iêmen” aponta ainda que o impacto do conflito ”é pior do que o imaginado”. Leia aqui a versão em inglês.

De acordo com o estudo, o número total de mortes causadas direta (confrontos) ou indiretamente (doenças, deslocamentos, etc) é de 233 mil pessoas, ou 0,8% da população iemenita – de 30 milhões de habitantes.

”É um dos conflitos internos com maior impacto desde o final da Guerra Fria, comparável aos do Iraque, Serra Leoa, Libéria e República Democrática do Congo – conflitos que impactaram o desenvolvimento local por gerações”, afirmou Jonathan Moyer, professor responsável pela pesquisa.

Só 5% das cidades brasileiras com imigrantes têm serviços de apoio, aponta IBGE

0
Sede atual do CRAI (Centro de Referência e Atendimento do Imigrante), em São Paulo. Local oferece serviços e atendimentos a imigrantes, independente da situação migratória. Crédito: Leonardo
Sede atual do CRAI (Centro de Referência e Atendimento do Imigrante), em São Paulo. (Foto: Leonardo Hirai/SMDHC)

Pesquisa inédita integra o Perfil dos Municípios Brasileiros (Munic), realizada pelo instituto

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

Uma pesquisa inédita divulgada na última quarta-feira (25) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que há presença de imigrantes em 3.876 dos 5.570 municípios brasileiros (69% do total). No entanto, apenas 215 ( 5,5% ) contam com algum tipo de serviço de apoio voltado a essa população.

A partir da base de dados da Polícia Federal, o IBGE identificou os municípios com presença imigrante e compilou as informações para o Perfil dos Municípios Brasileiros (Munic) 2018.

Quando o escopo é ampliado para todos os 5.570 municípios, inclusive os sem registro de imigrantes, o número aumenta para 232, mas a proporção é ainda menor, de 4,1%.

“O Brasil vem recebendo um fluxo grande de migrantes em vários municípios. Era natural que a gente tentasse conhecer um pouco das estruturas existentes nos municípios. A intenção foi investigar o quanto esses municípios estão mais ou menos organizados para tratar da questão do migrante”, afirmou a gerente da pesquisa, Vânia Pacheco.

Maior cidade brasileira, São Paulo também é a que conta com o maior número de registros de imigrante e de serviços disponíveis, entre os oferecidos pelo poder público ou pela sociedade civil (associações em geral), seguida por Rio de Janeiro (RJ), Boa Vista (RR), Brasília (DF), Curitiba (PR), Manaus (AM), Macaé (RJ), Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC) e Belo Horizonte (MG).

A capital paulista, por enquanto, é o único município brasileiro a contar com uma Política Municipal para a População Imigrante, em vigor desde dezembro de 2016.

Serviços e lacunas

Para realizar o estudo, o IBGE definiu os seguintes instrumentos de gestão migratória: Mecanismos de cooperação entre os municípios e os demais entes da federação; relação entre a prefeitura e associação ou coletivo de imigrantes; oferta de curso de português para imigrantes; atendimento multilíngue nos serviços públicos; abrigo de gestão municipal; centros de Referência e Apoio (CRAIs); e formação e capacitação continuada interdisciplinar para o atendimento a imigrantes.

A pesquisa, contudo, não especifica quais são instrumentos destinados exclusivamente ao atendimento e orientação de imigrantes em cada município, caso existam.

De acordo com o instituto, apenas 75 municípios tinham mecanismos de cooperação na promoção e desenvolvimento das políticas públicas locais voltadas aos imigrantes. Os municípios de Epitaciolândia (AC), Manaus (AM), Presidente Figueiredo (AM), Boa Vista (RR), Normandia (RR) e Pacaraima (RR), que, recentemente, receberam correntes migratórias oriundas do Haiti e da Venezuela, estabeleceram cooperação ao menos com um ente federado.

Mutirão promovido pela Prefeitura de Boa Vista mapeia venezuelanos que vivem na cidade. Crédito: Nayra Wladimila/MigraMundo

A pesquisa identificou serviços de abrigamento de imigrantes em 58 municípios, incluindo Pacaraima (RR), Boa Vista (RR), Manaus (AM), Porto Velho (RO), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Foz do Iguaçu (PR) e São Paulo (SP).

O ensino de português a imigrantes era ofertado em apenas 48 municípios de 11 unidades da federação, concentrados nas cidades do Sul, particularmente em Santa Catarina – Estado que recebeu imigrantes de países como Senegal e Haiti que foram direcionados para setores como o abate de animais em frigoríficos.

Quando o assunto é atendimento multilíngue, o vazio é ainda maior: apenas 25 municípios, distribuídos em 12 Estados – de acordo com o IBGE, nenhuma capital do Sudeste oferecia esse serviço.

“A gestão migratória deveria ser da responsabilidade das três esferas de poder, com o ente federal gerindo as entradas e saídas, a regularização e a cooperação internacional. Já as políticas referentes à integração, como o ensino do idioma, geração de trabalho, acesso aos serviços, entre outras, estão mais próximas às esferas municipais e estaduais”, constatou Pacheco.

A Lei de Migração, que entrou em vigor em novembro de 2017, prevê no seu artigo 120 a instituição de uma Política Nacional Migratória, que teria como objetivo definir as tarefas que cabem a cada esfera na questão migratória. No entanto, ele ainda necessita de regulamentação para entrar em vigor – algo que não se vislumbra no horizonte.

Capacitação

Apesar das lacunas na oferta e na prestação de serviços para imigrantes, há ações Brasil afora que procuram preencher tais espaços.

Uma delas é o ciclo de oficinas de capacitação de atores locais que vem sendo promovidas desde meados de 2018 pela Rede de Capacitação a Refugiados e Migrantes, formada por um pool de instituições da sociedade civil, do Judiciário e das Nações Unidas.

Mantido com recursos das próprias instituições integrantes, o projeto vem rodando o Brasil com atividades gratuitas de formação para integrantes de instituições locais de acolhida e orientação a migrantes, jornalistas, migrantes, agentes públicos, entre outros interessados.

Roda de conversa com migrantes durante encontro de capacitação para acolhimento de migrantes, em Curitiba (PR).
Crédito: Amanda Souza/Ascom ESMPU

“A educação é o caminho para tentar superar essa dificuldade que temos hoje. Precisamos todos nos libertar de uma visão xenofóbica”, afirmou ao MigraMundo em maio o procurador João Akira Omoto, atual diretor-geral da ESMPU (Escola Superior do Ministério Público da União), uma das instituições que integram a rede e que dá apoio logístico para a realização dos encontros.

A série de encontros começou em julho de 2018, em Belém (PA). De lá, passou por Manaus (AM), São Paulo (SP), Boa Vista (RR), Porto Alegre (RS), Recife (PE), João Pessoa (PB), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Campo Grande (MS) e Cuiabá (MT). Até o final de novembro, quando se encerra o programa, ele passará por Rio de Janeiro (RJ), Foz do Iguaçu (PR), Belo Horizonte (MG) e Brasília (DF).

Levantamento anterior

Embora a pesquisa seja inédita por parte do IBGE, a inserção de imigrantes em cidades brasileiras também já foi notada por um outro estudo recente, finalizado em 2018 por pesquisadores do Observatório das Migrações em São Paulo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O trabalho deu origem ao “Atlas Temático – Observatório das Migrações em São Paulo”, apresentado em abril de 2018.

Embora o foco do trabalho seja o contexto paulista, o estudo também analisou números e o cenário nacional e internacional para entender como o Brasil e, mais especificamente, o Estado de São Paulo se insere na rota das migrações internacionais.

“Isso rompe com o imaginário de que a rota das migrações internacionais no Brasil passa pelas fronteiras, segue para as metrópoles, principalmente das regiões Sul e Sudeste do país, e se espalha para outros estados”, explicou à época Rosana Baeninger, pesquisadora do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Unicamp e coordenadora do projeto, em entrevista à Agência Fapesp.

Com informações da Agência Fapesp e Agência IBGE de Notícias

Com ajuda de vaquinha virtual, mostra fotográfica Infância Refugiada vira livro

0
Capa do livro Infância Refugiada, de Karine Garcês, que retrata crianças refugiadas palestinas. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Projeto idealizado pela ativista Karine Garcês agora está disponível em formato de livro bilíngue (português e inglês) e tem eventos de lançamento em São Paulo

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 19h02 de 23.set.2019

Depois de estrear em Fortaleza e passar por diferentes cidades brasileiras, a exposição fotográfica Infância Refugiada, ganha o formato de livro, em versão bilíngue (português e inglês).

Idealizada pela ativista cearense Karine Garcês, convertida há 14 anos ao Islamismo, a mostra retrata crianças palestinas que vivem refugiadas no Líbano, Turquia e na Síria. As fotos foram tiradas durante viagens da autora ao Oriente Médio, entre 2014 e 2015, integrando missão da ONG holandesa Al Wafaa Campaign.

Em meio às fotos, textos de apoio abordam aspectos como as definições da ONU para refugiados, a situação das crianças nessas condições e dos campos de refugiados. Em um deles, Karine também faz uma ponte entre o refúgio e o deslocamento gerado pelos longos períodos de seca, que afetam especialmente o povo nordestino.

Quem estiver em São Paulo e região metropolitana nos próximos dias terá diversas oportunidades para conhecer e adquirir o livro – veja mais no serviço ao final do texto.

Exposição Infância Refugiada durante passagem por Fortaleza. Com ajuda de vaquinha virtual, projeto virou livro.
Crédito: Divulgação

Viabilização do projeto

Para transformar a mostra no livro “Infância Refugiada – Retratos de um Conflito”, Karine contou com recursos do governo estadual do Ceará, complementado por uma campanha de crowdfunding lançada por ela no começo deste ano.

O programa Agentes de Leitura, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, recebeu 20% da tiragem total do livro, com o objetivo de promover a circulação do livro no interior do Estado.  Também serão doados exemplares para o Instituto Estadual de Surdos do Ceará, com a proposta de trabalhar a percepção da imagem em crianças e adolescentes surdas.

Depois de itinerar pelo Brasil, exposição fotográfica Infância Refugiada virou livro.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

“Esta publicação compreende a força da imagem enquanto fonte de estímulo e memória histórica neste assunto delicado e perturbante, bem como na relevância de propagá-lo. Inovador pela circunstância que o envolve e pelo desafio enfrentado pela fotógrafa no registro das imagens”, explica Karine.

Além do Infância Refugiada, ela é idealizadora de outro projeto, o Muslimah, que fala sobre a religião muçulmana em escolas públicas, com o objetivo de promover diálogo e desconstruir estereótipos em geral associados ao Islã.

Eventos com o livro Infância Refugiada em SP
25/09, às 19h – restaurante Al Janiah: Rua Rui Barbosa, 269, Bela Vista
27/09, às 15h – Museu da Imigração: Rua Visconde de Parnaíba, 1316, Mooca
28/09, às 16h – Matilha Cultural: Rua Rêgo Freitas, 542, República
30/09, às 18h – Universidade Metodista de São Paulo – Edfício Capa, campus Rudge Ramos: Rua Planalto, 106, Rudge Ramos, São Bernardo do Campo (SP)
02/10, às 19h – Faculdade de Direito da USP: Largo São Francisco, 95, Centro (evento em parceria com o grupo de extensão universitária ProMigra)

Valor do livro: R$ 59,90

Maior orfanato do mundo é voltado para crianças refugiadas sírias

0
Orfanato foi erguido no formato de vila, com o intuito de diminuir os efeitos da guerra. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Mantido por uma fundação turca, local existe há quatro anos e abriga atualmente quase mil crianças

Por Alethea Rodrigues
Em Hatay (Turquia)

Milhões de sírios já foram obrigados a deixar suas casas desde que teve início a guerra no país, em março de 2011. Segundo dados do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), são 6,7 milhões de sírios vivendo como refugiados fora do país e outras 6,1 milhões de pessoas deslocadas internamente.

Desse grupo, pelo menos a metade são crianças – e cerca de 800 mil ficaram órfãs, segundo a fundação turca IHH (Humanitarian Relief Fundation) – a Turquia é atualmente o país com maior número de refugiados no mundo (3,7 milhões), de acordo com as Nações Unidas, sendo a maior parte deles da vizinha Síria.

Em meados de 2013, a fundação IHH, com apoio de outras organizações internacionais, sentiram a necessidade de ajudar os órfãos que chegavam a Turquia. A demanda era assustadora e todos chegavam extremamente debilitados, apenas com a roupa do corpo e psicologicamente destruídos. Após dois anos de muito trabalho, em julho de 2015 foi inaugurado o RAF-IHH City que atualmente é considerado o maior orfanato dedicado as vítimas de guerra do mundo, com capacidade para acolher 990 crianças.

Vista aérea do complexo que funciona como orfanato na região sul da Turquia, voltado para crianças refugiadas sírias.
Crédito: Divulgação

Crianças órfãs são consideradas mais vulneráveis a abuso sexual, podem ser forçadas a casar precocemente, se tornarem soldados para lutarem em guerras (como é o caso das sírias) e constantemente são vítimas do tráfico internacional de crianças. No caso das órfãs sírias, grande parte está refugiada na Turquia, em cidades como Hatay, no sul do país e bem próxima da fronteira.

A estrutura ocupa um espaço de 100 mil metros quadrados e foi erguida como uma pequena vila, para que as crianças traumatizadas pela guerra tenham a chance de retornarem a rotina de uma vida normal. O espaço conta com 55 sobrados, todos equipados com ar condicionado e wifi. Cada casa possui duas cuidadoras que trabalham período integral e vivem com as crianças.

Na parte externa, os órfãos desfrutam de diversos playgrounds, um centro cultural, biblioteca, quadras para a prática de esportes e uma mesquita, onde aprendem diariamente os ensinamentos do Islamismo, religião que predomina tanto na Turquia quanto na Síria. O espaço também oferece salão de cabeleireiro e supermercado.

Um dos playgrounds de RAF- IHH City, que atende crianças sírias.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Além da acomodação, a fundação providencia todas as refeições e roupas para os órfãos. A educação também é uma das principais preocupações – por isso, três escolas foram construídas no próprio complexo, duas para meninos (que são a maioria) e uma para as meninas. De acordo com as regras do Islamismo não é permitido a mescla de sexo, por isso, na escola e nas próprias acomodações as crianças são mantidas separadamente.

“Todas as crianças estudam porque é uma prioridade para nós. Queremos acompanhá-las até que alcancem a universidade. Nosso objetivo é que elas se tornem mais independentes possível”, explicou o coordenador-geral do orfanato Sharif Dizen, que trabalha no local desde a inauguração.

Outras atividades também são realizadas durante a semana, como aulas de inglês e turco, idiomas considerados fundamentais para a integração dessas crianças na sociedade do país de acolhida. A saúde também não é considerada menos importante. Os órfãos mantêm contato direto com a natureza, aprendem a plantar frutas e vegetais e passam regularmente por check-ups na clínica do próprio orfanato.

Um dos dormitórios do orfanato dedicado a crianças refugiadas sírias na Turquia.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Conflitos armados, como o que está ocorrendo na Síria, causam graves problemas emocionais para todos que convivem ou conviveram em um ambiente de guerra, principalmente quando se trata de crianças que ficaram órfãs. Os traumas são diversos, sempre relacionados com medo excessivo, estresse e ansiedade.

“Temos 168 funcionários, sendo 80 voluntários e muitos deles são responsáveis por cuidarem do equilíbrio psicológico dos pequenos aqui mesmo na nossa clínica de terapia intensiva. Quase todas elas chegaram aqui com problemas sérios, mas depois de receberem tratamento adequado durante meses ou até anos já conseguem viver normalmente e sem grande sequelas”, ressalta o coordenador.

Segundo ele, atualmente há somente dois casos graves de crianças que recebem tratamento intensivo, mas informações específicas relacionadas a doenças desses pequenos não podem ser divulgadas. Apesar do sigilo, Dizen garante que os casos estão evoluindo significativamente e os resultados tem sido positivos.

Cerca de 90% das crianças que vivem no RAF-IHH City são órfãs de pai. O coordenador explica que a maioria delas perdem a figura paterna porque os mesmos vão as ruas lutar na guerra e acabam falecendo enquanto as mães ficam em casa escondidas com os filhos. Apenas 10% perderam ambos os membros da família. As mães não moram com as crianças no orfanato, mas podem fazer visitas quando desejarem e solicitarem que as crianças passem os finais de semana em casa.

O espaço oferece ainda cursos de capacitação como costura e artesanato para essas mães e os produtos produzidos são encaminhados para uma pequena loja. Todo o lucro arrecadado com as vendas é revertido para ajudar nos gastos da fundação, que chega ao equivalente a R$ 2 milhões por mês.

Pequena loja que vende produtos elaborados por mães das crianças órfãs. Valor arrecadado ajuda a custear o orfanato.
Crédito: Alethea Rodrigues

Apesar de o governo da Turquia não ajudar o orfanato financeiramente, há frequentes fiscalizações para checar se as crianças estão recebendo tratamento adequado e se não há nenhum problema de abuso ou maus tratos por parte dos funcionários. Além disso, dão todo o suporte na questão da documentação dos órfãos para os mesmos consigam se legalizar no país.

O coordenador ainda ressalta que os voluntários exercem um papel fundamental para que os resultados dos projetos saiam ainda melhores, por isso foi construída uma Guest House, um espaço para abrigar os voluntários que moram fora da cidade ou que vêm de outros países.

Portaria do complexo na região de Hatay (Turquia) que atende crianças sírias e é considerado o maior orfanato do mundo.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“Nossos voluntários ajudam de forma significativa. Os que vêm de fora da Turquia, por exemplo, ensinam novos idiomas, compartilham suas culturas, isso é bem interessante para o futuro das crianças”.

Dizen finaliza afirmando que o critério que utilizam para selecionar voluntários para fazer parte da equipe é extremamente rigoroso porque todos que tem contato com essas crianças servem de referência para elas.

Atualmente todas os moradores do orfanato são sírios, porém, nos próximos meses é possível que comecem a receber crianças turcas na fundação.

O conceito de Saúde Global: como ele se aplica aos fluxos migratórios brasileiros

0
Mutirão promovido pela Associação Paulista de Medicina atende imigrantes na zona norte de São Paulo, em julho de 2018. Crédito: Marina Bustos/APM

Embora a lei brasileira preveja que imigrantes acessem os serviços de saúde, foram poucas as políticas públicas até agora desenvolvidas no país para tal segmento da sociedade

Por Thais Tozzini Ribeiro
Do ProMigra

Diferentemente do que muitos pensam, a imigração não é uma decisão tomada de forma racional e confortável. Muitas vezes, é uma situação que se impõe ao indivíduo como alternativa de sobrevivência e gera fragilidade emocional e física. A discriminação, trauma e estresse procedente da saída de sua terra natal, falta de redes de suporte, declínio econômico e social, barreiras linguísticas e institucionais, rompimentos identitários, choque cultural e exclusão são algumas das questões com que o imigrante lida ao chegar a um novo país.

Além disso, em países de baixa e média renda, como o Brasil, a grande maioria deles também enfrenta os mesmos problemas que qualquer cidadão em situação social vulnerável: violência, desemprego, subemprego, falta de saneamento básico, habitação inadequada, dificuldade de acesso à educação, fome, urbanização desordenada, má qualidade do ar e da água. Neste contexto, a efetivação do direito à saúde surge como importante ferramenta para restabelecer a força e dignidade do imigrante e servir como ponto de apoio no novo país.

Entretanto, em uma época na qual os governantes mundiais parecem cada vez mais preocupados em impedir a entrada de imigrantes ou segregá-los dentro de suas fronteiras, de que forma o direito à saúde é previsto aos imigrantes? Existe qualquer tipo de esforço para a sua efetivação? Como o Brasil se insere nesse contexto?

O conceito de saúde global surgiu a partir da mudança de paradigma após a 2ª Guerra Mundial, que passou a valorizar o conceito de justiça social, embasada na equidade, na ética e no respeito aos direitos humanos na ordem internacional e reconhecer o direito à saúde como indispensável para a implementação de outros direitos. A Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), faz referência ao direito de todo indivíduo de ter um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar e, trinta anos depois, a Declaração de Alma-Ata (1978) foi o primeiro documento a garantir o direito à saúde no âmbito internacional, determinando ser uma responsabilidade do Estado garanti-lo.

No Brasil, a adoção desse conceito ocorreu nos anos 80 e se deu com a Constituição Federal de 1988 e com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) que organizou os serviços de saúde e traduziu em ação a efetivação da política de saúde no país.

Mutirão de serviços durante lançamento da “Imigrante, São Paulo te Acolhe”, do governo paulista, no Centro de Integração da Cidadania (CIC) do Imigrante, zona oeste de São Paulo.
Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O art. 196 da Constituição Federal fala da saúde como um direito de todos, de acesso universal e do Estado como agente responsável por garanti-lo, não fazendo nenhuma distinção entre brasileiros e estrangeiros. A nova Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) desenvolve a mesma lógica e coloca o acesso a serviços públicos de saúde e de assistência social e à previdência social sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória como um dos princípios da política migratória brasileira. A cidade de São Paulo se antecipou e em 2016 instituiu, por meio da Lei nº 16.478/2016, a Política Municipal para a População Imigrante, que, em no inciso II de seu artigo 7º, o acesso universal da população imigrante à saúde, observando as necessidades especiais relacionadas ao processo de deslocamento; as diferenças de perfis epidemiológicos; e as características do sistema de saúde do país de origem. 

Contudo, antes destes dois marcos legislativos, a própria jurisprudência brasileira já concedia o acesso ao direito à saúde para estrangeiros, sendo um exemplo disso a decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região que determinou que o SUS pagasse o transplante de medula de um estrangeiro que estava no país em situação não permanente. 

Na prática, foram poucas as políticas públicas desenvolvidas no Brasil para o público migrante. Em 2005, a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde criou o Sistema Integrado de Saúde nas fronteiras (SIS fronteiras), que tinha como objetivo contribuir para o fortalecimento e organização dos sistemas de saúde dos municípios fronteiriços, incluindo o aumento de recursos repassados e o acesso a programas voltados a áreas específicas, de acordo com as necessidades dos municípios. Corumbá (MS) e Santa Helena (PR) foram alguns dos municípios beneficiados com a política. 

No âmbito local, em 2003, Secretaria Municipal de Saúde, em conjunto com a Coordenação de Vigilância em Saúde da Cidade de São Paulo e organizações não governamentais, atuou no desenvolvimento de ações especificas para lidar com a tuberculose e o HIV que acometia os imigrantes bolivianos que chegavam às Unidades Básicas de Saúde (UBS). As ações mais relevantes consistiram na elaboração de material de esclarecimento sobre prevenção da AIDS e tuberculose, em espanhol; revisão dos pré-requisitos para atendimento nas UBSs, como por exemplo, a eliminação da necessidade de apresentação de documentos que comprovem residência, nas áreas onde se concentram os imigrantes; contratação de profissionais bolivianos para trabalharem nas UBSs e como agentes comunitários de saúde; oferta de cursos de espanhol e sobre cultura boliviana para profissionais das UBSs.

No âmbito local, em 2003, Secretaria Municipal de Saúde, em conjunto com a Coordenação de Vigilância em Saúde da Cidade de São Paulo e organizações não governamentais, atuou no desenvolvimento de ações especificas para lidar com a tuberculose e o HIV que acometia os imigrantes bolivianos que chegavam às Unidades Básicas de Saúde (UBS). As ações mais relevantes consistiram na elaboração de material de esclarecimento sobre prevenção da AIDS e tuberculose, em espanhol; revisão dos pré-requisitos para atendimento nas UBSs, como por exemplo, a eliminação da necessidade de apresentação de documentos que comprovem residência, nas áreas onde se concentram os imigrantes; contratação de profissionais bolivianos para trabalharem nas UBSs e como agentes comunitários de saúde; oferta de cursos de espanhol e sobre cultura boliviana para profissionais das UBSs.

Nas situações de crises humanitárias, onde o volume de imigrantes é maior, a prática brasileira é mais desastrosa. A falta de suporte do governo federal coloca o imigrante em uma situação que por si só agrava o seu estado de saúde, ou leva o sistema de saúde local a um colapso devido a uma demanda acima do normal.

O caso de Brasileia, no Acre, no qual em um galpão com capacidade para 200 pessoas foram abrigados mais de 830 imigrantes – quase todos haitianos vítimas de desastres naturais, em condições insalubres de higiene – é um exemplo da primeira situação. Essas condições resultaram em muitos casos de diarreia, piorando diretamente o estado de saúde dos haitianos e criando uma demanda ao sistema de saúde. Por conta do expressivo aumento da imigração de venezuelanos, em dezembro de 2016, o governo estadual de Roraima declarou emergência na Saúde Pública em Pacaraima e na capital, Boa Vista. Ainda que depois disso o Governo Federal tenha repassado recursos ao estado de Roraima, a Operação Acolhida, política do governo federal implementada em março de 2018 para o acolhimento de imigrantes vulneráveis, só dispõe de recursos até março de 2020. 

Venezuelanos esperam no posto da Polícia Federal na cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima.
Crédito: Reynesson Damasceno/ACNUR

No âmbito brasileiro, no caso dos imigrantes, é nítido que o conceito de saúde global está consolidado no ordenamento jurídico brasileiro, sem que, no entanto, tenha encontrado um respaldo prático estruturado. As políticas públicas pensadas e elaboradas para atender às necessidades dos imigrantes estão mais presentes na cidade de São Paulo, que teve casos de sucesso no passado e recentemente criou uma lei como base para a implantação de políticas futuras. No caso de crises humanitárias, ainda que o Brasil tenha acolhido haitianos e venha acolhendo venezuelanos, não houve um planejamento para o oferecimento de uma infraestrutura e atendimento, sendo um improviso para conter uma situação que já se encontrava em um nível insustentável. Tendo em vista que a globalização traz à tona e de forma mais expressiva as desigualdades e isso impulsiona a demanda migratória por melhores condições de vida, é preciso encarar a migração como um fenômeno recorrente e a garantia do direito à saúde como algo que transcende a legislação e encontra eco no planejamento governamental brasileiro. 

Thais Tozzini Ribeiro é formada em Direito pela USP, membro do ProMigra – Projeto de Promoção de Direitos de Migrantes e advogada no escritório Szazi, Bechara, Storto, Reicher, Figueirêdo Lopes Advogados. Trabalha com terceiro setor, direitos humanos e tem como objeto de estudos a efetivação de direitos sociais para a população imigrante.

Frente de brasileiros no exterior realiza encontro em Barcelona

0
Reunião da FIBRA em Berlim, em agosto passado. Próximo encontro acontece em Barcelona. Crédito: Divulgação

Atividade da rede busca fortalecer resistência contra retrocessos em relação aos direitos humanos no Brasil

Por Flávio Carvalho*

A Comisions Obreres de Catalunya, em Barcelona será sede nova assembleia da FIBRA – Frente Internacional de Brasileiros que moram no exterior. O encontro, que acontece nesta sábado (21), pretende fortalecer os objetivos de resistência ao golpe contra os direitos humanos no Brasil.

Na Catalunha, brasileiras (principalmente, devido a forte presença feminina, tanto qualitativa quanto quantitativa) estão organizadas em diversos coletivos como as Brasileiras contra o Fascismo e Amig@s da Democracia, entre outras. Também em organizações como o Coletivo Brasil Catalunha, que esteve presente no Encontro da FIBRA, realizado em Berlim. Não é a toa que a Catalunha, pelo seu nível de organização política, elegeu a primeira deputada brasileira para o Parlamento Espanhol (Maria Dantas), já havia elegido a primeira vereadora brasileira (Katia Juncks), e que o Conselho de Cidadania elegeu uma totalidade de mulheres, a maioria delas vinculada aos mesmos processos sociais e culturais que estarão reunidos neste sábado na sede da mais importante central sindical catalã.

Este encontro, em resposta e continuidade às deliberações do mencionado Encontro de Berlim, possui o objetivo de estabelecer uma agenda unificada de ações estratégicas de organização e denúncia sobre as atuais políticas da ultradireita brasileira. Por não ser um encontro fechado apenas para brasileiros – o transnacionalismo e a interculturalidade são práticas, mais que conceitos – esperam-se a presença de cidadãos não brasileiros, preocupados, principalmente, com a situação da Amazônia. De fato, os mais recentes atos públicos em defesa da Amazônia foram promovidos por iniciativa de organizações catalãs, em Barcelona. O maior deles, em frente ao Consulado do Brasil, fechou o trânsito em uma das mais importantes avenidas, a Diagonal.

Sem dúvida, o maior desafio na construção do que os organizadores chamam de “Unidade na Diversidade”, são as pautas políticas desde uma perspectiva de solidariedade internacional. Constituiu-se recentemente o Comitê Lula Livre – Barcelona e desde muitos anos existe um movimento histórico chamado Comitê de Apoio ao MST em Barcelona.

Também na questão cultural, entendendo a cultura como um dos mais importantes elementos de transformação da sociedade, Barcelona – uma das principais capitais culturais da Europa – sediou, recentemente, um dos mais importantes festivais (o Dia do Brasil) e o Ciclo de Mulheres, organizado pela Assembleia de Mulheres Brasileiras contra o Fascismo promove atividades de êxito, a cada semana – envolvendo mulheres catalãs, latino-americanas de outras nacionalidades. Enquanto isso, o pioneiro livro escrito em português sobre o processo de independência da Catalunha, da jornalista Taíza Brito, já é considerado uma importante referencia literária sobre esse tema, no nosso idioma.

A grande questão diz respeito à coerência, por exemplo, na denúncia de golpes políticos como a estratégia do Lawfare: a direita e a ultradireita acionando o poder judicial para promover prisões políticas em qualquer parte do mundo – na Catalunha, no Brasil ou na Turquia . Quais serão as atuais pautas políticas com maior capacidade de criar consenso? Como sair do (já difícil) consenso para uma ação efetiva, não somente conceitual, de defesa da democracia no Brasil?

Tudo isso, por parte dos brasileiros na Catalunha, em meio ao inegável conflito catalão com o Estado Espanhol e às vésperas de uma sentença política – sobre os presos de ideias independentistas – que pretende esquentar o outono europeu. Como respeitar cada contexto, o brasileiro e o catalão – cada qual com suas particularidades – e ao mesmo tempo articular a solidariedade internacional em um país, a Espanha, que hoje possui boa parte da sua economia comprometida com os vínculos econômicos de suas grandes empresas presentes no Brasil?

“Odeio os indiferentes”, dizia Bertold Brecht.

*Disponível também no blog da Taíza Brito

Descanse em paz, Omana

3
O professor congolês Omana Ngandu, que fundou a ONG Mungazi para auxiliar na integração de refugiados no Brasil. Crédito: Stefanye Falco

Congolês criou ONG para ajudar na integração de refugiados no Brasil e morreu nesta quarta-feira (18) aos 53 anos

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo
Atualizado às 18h10 de 19.set.2019

Lembro até hoje do dia que conheci Omana Petench Ngandu. Foi durante a primeira Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, que aconteceu em São Paulo no final de novembro de 2013.

Fui fazer uma entrevista com Omana. Nascido em Kinshasa (República Democrática do Congo) em 14 de outubro de 1965, ele tinha chegado há pouco mais de seis meses e ainda falava pouco o português – e eu continuo a apenas arranhar o francês, enquanto ele já se expressava bem no idioma lusitano poucos anos depois. Na época, tive a ajuda de um outro congolês, o Alphonse Nyembo, e entrevistei ambos para a reportagem que fiz para o MigraMundo sobre a conferência. E mal podia saber do tamanho da história, dos dramas e esperanças que ele carregava consigo.

Após viver as dificuldades do deslocamento forçado, Omana Petench decidiu criar uma campanha para ajudar crianças refugiadas.
Crédito: Divulgação/LFCAB

Ele veio ao Brasil como refugiado por causa de sua atuação em nome dos direitos humanos no Congo, graças à ajuda de um médico brasileiro. Foi perseguido pelo governo e preso várias vezes por causa de seu ativismo político.

Em 2015, fundou na zona leste de São Paulo a ONG Mungazi, que auxilia refugiados na integração ao Brasil, além de promover atividades junto às crianças em situação de refúgio. Também foi um dos professores do LFCAB (Língua Francesa e Cultura Africana no Brasil), que usa a cultura africana para o ensino do francês para brasileiros.

Durante uma mesa que dividimos em um evento na USP, em maio de 2016, ele comentou que havia sobrevivido a um fuzilamento. Foi após esse acontecimento que veio para o Brasil, em 2013. Seis meses depois, estava na conferência onde o encontrei pela primeira vez.

Um dos episódios mais marcantes de sua trajetória no Brasil foi quando ganhou de amigos uma campanha para ajudar a trazer a família (mulher e cinco filhos), que teve de ir para um campo de refugiados no Quênia. Em 11 de abril de 2016, graças à ajuda obtida, conseguiu realizar o sonho.

Após longos três anos, finalmente a família de Omana está reunida novamente! Estamos com o coração transbordando de felicidade e alegria pelo reencontro.Muito obrigada a todos que compartilharam a história de Petench Ngandu, ajudaram no crowdfunding e torceram, de alguma maneira, pela reunião desta família.Família Omana, seja muito bem vinda ao Brasil ❤❤❤Vídeo gentilmente cedido por Uziel Pacheco 🙂 Obrigada!

Posted by Instituto Adus on Monday, April 11, 2016

Após esse breve sobrevoo em sua trajetória, interrompida no Congo e reconstruída no Brasil, até parece irônico que o homem que sobreviveu a um fuzilamento tenha partido desta vida depois de sentir dores no abdômen, decorrentes de problemas com o fígado e de um pedra na vesícula, que o levaram a ir e voltar do hospital várias vezes – a última delas, na madrugada desta quarta-feira (18).

Ás 6h42, Omana – ou também Fufu ou Papa Docta, para os mais íntimos – deixou este plano, pouco menos de um mês antes de completar 54 anos. Ficam familiares, amigos e admiradores das realizações que concretizou – incluindo este escriba.

O velório e sepultamento acontecem no sábado (21), a partir das 9h, no Cemitério do Curuçá – Rua Coréia, 491, Pq das Nações – Santo André (SP). O enterro está previsto para 16h15.

Que seu legado seja preservado e expandido, especialmente em um momento no qual a intolerância e a indiferença em relação ao outro pautam as relações humanas.

Professor Omana, presente!