A redação do jornal Expresso, um dos principais de Portugal, elegeu o imigrante como figura nacional de 2025. Mesmo representando quase um quarto da população ativa (24%) e contribuições econômicas, ele virou alvo de grupos políticos que encontraram nele o bode expiatório perfeito para os problemas nacionais. Essa contradição é um belo exemplo do que foi o ano de 2025 para as migrações e os migrantes, tanto no contexto internacional quanto no local – no caso, o Brasil.
O MigraMundo ajuda a recuperar alguns dos principais acontecimentos da temática migratória ao longo deste ano, que também ajudam a vislumbrar o que pode vir por aí em 2026.
A volta de Donald Trump e suas consequências
O retorno de Donald Trump ao cargo de presidente dos Estados Unidos já a partir de 20 de janeiro foi, sem dúvidas, um dos eventos-chave de 2025. E a questão migratória, que já havia sido um grande alvo em seu primeiro mandato (2017-2020), voltou com força redobrada nesse segundo mandato, com consequências que não se restringem ao território estadunidense.
Desde os primeiros atos do atual governo Trump, nas primeiras horas de mandato, os migrantes se viram sob forte perseguição. Deportações em massa, abordagens violentas por parte do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (mais conhecido pela sigla “ICE) e restrições crescentes ao ingresso, permanência e regularização deram o tom.

A política antimigração de Trump não se restringe aos migrantes indocumentados. Estudantes internacionais, por exemplo, também foram afetados, mexendo com o cotidiano de universidades de renome internacional, como Harvard, Yale e Columbia.
A sociedade civil local vem resistindo e se contrapondo com os recursos disponíveis. Esses elementos vão desde rede de apoio para identificar ações do ICE quanto a mobilizações junto a parlamentares locais e em outros países em defesa dos migrantes. Essa articulação inclui participações da diáspora brasileira, estimada em pelo menos 1,7 milhão de pessoas.
Apesar da repressão, a questão migratória nos Estados Unidos não é feita apenas de notícias ruins. Um exemplo é Nova York, mais famosa cidade do país, que a partir de janeiro terá Zohran Mamdani como prefeito.
Nascido em Kampala (Uganda), Mamdani é filho de pais de ascendência indiana. Sua mãe, Mira Nair, é uma respeitada cineasta indiana-americana, e seu pai, Mahmood Mamdani, é um acadêmico ugandense nascido na Índia. Fugindo da instabilidade política na África Oriental, a família se estabeleceu nos Estados Unidos, onde Mamdani chegou aos sete anos e obteve a cidadania local em 2018. Antes de entrar para a política, se tornou um organizador comunitário.
Em seu discurso de vitória, Mamdani destacou sua identidade como ponto foco da campanha municipal e mandou um recado ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem na perseguição a imigrantes uma de suas principais ações de governo: “Nova York é uma cidade construída por imigrantes, impulsionada por imigrantes. E a partir desta noite, ela será liderada por um imigrante”.

Como resultado dessa política hostil a migrantes, o ranking de passaportes divulgado trimestralmente pela consultoria britânica Henley & Partners apontou que pela primeira vez o documento de viagem dos Estados Unidos deixou de figurar entre os dez mais poderosos do mundo.
Edições anteriores do ranking já indicavam uma queda no poder do passaporte dos Estados Unidos e projetavam que esse cenário poderia se aprofundar com a chegada de Donald Trump à Presidência do país – o que de fato se concretizou. Mais do que no mandato anterior (2017-2021), o republicano vem adotando uma política bastante hostil à migração – tanto indocumentada quanto documentada, além de ampliar restrições e exigências para ingresso no território estadunidense. Uma abordagem que já vem refletindo tanto na imagem do país no exterior quanto no interesse por investimentos e na atração de pessoas.
Avanço global da ultradireita e dos discursos e ações antimigração
O governo Trump nos Estados Unidos ajuda a dar impulso e visibilidade a outros grupos que chegam ao poder ou se aproximam dele em diferentes países mundo afora. Um fio condutor entre eles é a abordagem antimigração.
Países como Itália, Hungria e Polônia já são governados por partidos que possuem no rechaço à migração como uma de suas principais bandeiras. Em outros, o crescimento da ultradireita empurra governos considerados de direita clássica ou centro-direita a abraçarem pautas antimigração, como o Chega em Portugal ou o AfD na Alemanha e a Reunião Nacional na França.
Em dezembro, países da União Europeia aprovaram um endurecimento das normas migratórias do bloco, o que permitirá a criação de “centros de retorno” fora do bloco para os solicitantes de asilo com pedidos rejeitados – o que, na prática, já acontece com a Itália em relação à Albânia e pode ganhar nova escala a partir dessa nova diretriz.
Essa onda não se restringe à Europa. O discurso de criminalização da migração também chegou ao poder com governantes como Javier Milei (Argentina) e com o recém-eleito José Manuel Kast no Chile.
Tudo isso no mesmo ano em que se completaram dez anos da morte de Alan Kurdi, menino curdo-sírio que se tornou um dos símbolos de uma crise humanitária que gera deslocamentos forçados e refugiados em todo o mundo. Especialistas consultados pelo MigraMundo em setembro concordaram que a foto da criança sem vida em uma praia turca de fato ajudou a chamar a atenção para uma problemática que estava longe de ser nova, inclusive sendo ressignificada por diferentes representações ao longo do tempo. Por outro lado, apontaram avanços tímidos e até mesmo efêmeros, apesar de toda a comoção que se seguiu nos dias e semanas seguintes à imagem.

O total de pessoas em situação de deslocamento forçado no mundo, incluindo refugiados e deslocados internos, chegou a 122 milhões de pessoas no final de abril, de acordo com a edição mais recente do relatório Tendências Globais (ou Global Trends, no original em inglês), do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). Palco de uma guerra que se arrasta há dois anos e considerada uma crise ignorada pela comunidade internacional, o Sudão é o país que mais gera deslocados forçados internos e refugiados no momento (14,3 milhões de pessoas), superando a Síria (13,5 milhões). Uma em cada três pessoas em situação de deslocamento forçado ou de refúgio é natural de um dos seguintes países: Sudão, Síria, Afeganistão e Ucrânia.
Agências da ONU em dificuldades
As agências das Nações Unidas mais ligadas à temática migratória tiveram um ano bem difícil, a exemplo da própria ONU em si.
Em dezembro, a OIM e o ACNUR lançaram apelos globais por recursos para financiamento de suas atividades em 2026. Ambas tentam levantar um montante de US$ 13,2 bilhões, diante de um quadro cada vez mais desafiador para essa captação.
Ao todo, o ACNUR fez um pedido de US$ 8,5 bilhões para 2026 – um orçamento 20% menor do que o previsto para este ano, com o qual a agência vem lidando a duras penas – destinado ao apoio a 136 milhões de pessoas forçadas a fugir, apátridas e retornadas em todo o mundo. A OIM, por sua vez, solicitou US$ 4,7 bilhões para prestar apoio a cerca de 41 milhões de pessoas em situação de deslocamento e reforçar sistemas que promovam uma migração ordenada, regular e segura.
Segundo o próprio ACNUR, cerca de 4.000 postos de trabalho e vários escritórios de campo fechados ao longo deste ano. A OIM também teve de lançar mão da dispensa de 20% funcionários de sua sede, em Genebra, além da realocação de profissionais e operações locais por conta do orçamento 30% menor para 2025 – a Agência da ONU para as Migrações foi especialmente afetada pelo desmantelamento da USAID, a agência humanitária do governo dos Estados Unidos.
Esse é o cenário diante de Barham Salih, iraquiano de origem curda que foi escolhido para chefiar o ACNUR até 2030. Ele será o 12° a ocupar o posto e apenas o terceiro que não vem de um país europeu, o que gera expectativas sobre como irá proceder diante dos grandes desafios à frente da agência. Na OIM, a chefia é exercida desde outubro de 2023 pela estadunidense Amy Pope, em mandato que vai até 2028.

Ainda há a agência da ONU focada nos refugiados palestinos – mais conhecida pela sigla UNRWA – e sua luta para se manter minimamente operante, diante das seguidas objeções e iniciativas do governo Netanyahu em Israel contra ela.
Francisco, Leão e os migrantes para a Igreja Católica
Notório defensor dos migrantes, o Papa Francisco morreu em abril de 2025, aos 88 anos. Com sua partida, ficou no ar a dúvida se o seu próximo Pontífice manteria a Igreja Católica nessa posição, contrapondo-a a uma série de governos em todo o mundo – sobretudo no continente europeu.
Mesmo de forma mais discreta, o sucessor tem dado continuidade a esse legado deixado pelo papa argentino, descendente de migrantes italianos. Embora nascido nos Estados Unidos, o cardeal Robert Prevost possui também a cidadania peruana, resultado de três décadas de atuação pastoral no país sul-americano. Agora como papa Leão XIV, ele também tem feito da defesa dos migrantes um dos marcos de seu pontificado.
Em um de seus primeiros atos como papa, já em maio, Leão XIV disse em reunião com diplomatas baseados no Vaticano que ele próprio é resultado de um processo migratório, tanto nas origens familiares como na própria trajetória eclesiástica. E pediu que a dignidade das pessoas migrantes seja respeitada pelos governos de todo o mundo.
Já no último trimestre, Leão XIV nomeou novos bispos em importantes cidades nos Estados Unidos, como Nova York. Em comum entre eles está o fato de terem origens migrantes e de adotarem uma postura de acolhida a essa comunidade, em contraposição ao que Trump tem feito no país desde que voltou à Casa Branca.

E o Brasil?
O Brasil não ficou alheio às movimentações internacionais sobre migração, como mostraram as mudanças promovidas pelo governo italiano na concessão de cidadania, o que mexeu diretamente com a numerosa comunidade de ítalo-descendentes – um debate que vai se estender ao longo do próximo ano, inclusive.
Além disso, alguns dos primeiros voos de cidadãos deportados pelo governo Trump e a situação degradante verificada junto aos retornados geraram reações e levaram à criação de ações emergenciais de atendimento e acolhida.
Quando os voos com deportados começaram a chegar ao Brasil, o país não contava com um plano estruturado para receber os cidadãos retornados. No começo de agosto, o governo federal lançou o programa “Aqui é Brasil”, com a oferta de atendimento psicossocial, assistência em saúde, abrigo, alimentação, transporte e regularização documental, desde o desembarque até a reintegração.
A comunidade brasileira no exterior também vem cobrando uma postura mais forte do governo federal de defesa diante da cada vez mais hostil política migratória de Donald Trump. Em outubro, durante uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi chamado a tomar uma medida mais contundente.
Também se fizeram notar no Brasil os efeitos do desmantelamento da USAID. A OIM, fortemente dependente desses recursos, chegou a suspender temporariamente suas atividades junto à Operação Acolhida. Instituições que tinham convênio com a agência estadunidense foram obrigadas a rever e até mesmo encerrar projetos.
Em meio a esse cenário conturbado, foi possível verificar no contexto brasileiro avanços significativos, ainda que longe de serem perfeitos. O principal deles, em outubro, foi a publicação do decreto de criação da Política Nacional de Migração, Refúgio e Apatridia, onze meses depois da realização da segunda Comigrar (Conferência Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia). Esse dispositivo consta no Artigo 120 da Lei de Migração, em vigor desde o final de 2017, mas seguia pendente até então.
Com isso, as atenções se voltam para o ainda pendente Plano Nacional que vai nortear essa política, esperado para 2026. Pelo menos de acordo com o governo federal, essas diretrizes serão submetidas à consulta pública e deverão trazer as contribuições da sociedade civil feitas durante a Comigrar em 2024.
Também merece destaque em 2025 a condenação ocorrida em março de dois dos três réus pela morte do refugiado Moise Kabagambe. A mobilização social foi fundamental para garantir que o caso fosse a júri popular e não caísse no esquecimento, além de servir como lembrete para a necessidade de se lutar contra o racismo e a xenofobia no Brasil. Já no mês seguinte, a morte do migrante senegalês levou milhares de pessoas às ruas no bairro do Brás, em São Paulo, e motivou manifestações de repúdio até mesmo a partir do Senegal.
Vale ainda recordar que o primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar, “Ainda Estou Aqui”, traz a questão migratória de forma indireta. Enviar os filhos ao exterior foi uma estratégia utilizada por famílias ricas das principais capitais brasileiras para evitar que adolescentes próximos à maioridade e jovens adultos se manifestassem contra a política militarizada da época. Isso acontecia porque, como comprovado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), a execução de torturas e ameaças contra cidadãos maiores de 18 anos durante a ditadura militar era recorrente.
E o que esperar de 2026
Diante de um ano complexo e difícil para as migrações, o 2026 que desponta no horizonte não se mostra muito diferente. Determinadas políticas podem se aprofundar como resultado de processos eleitorais que vão ocorrer nos meses seguintes – inclusive no Brasil (presidencial, governadores e Congresso) e nos Estados Unidos (parlamentares).
Ao mesmo tempo, no Brasil e no exterior as movimentações de sociedade civil se mostraram efetivas para frear ou mesmo barrar certas políticas de governos, tanto no contexto federal quanto local. Em um cenário no qual os recursos são cada vez mais escassos e no qual o discurso e práticas antimigração ganham terreno, grupos e pessoas alinhadas com visões progressistas são cada vez mais demandadas a manter a mobilização, sem perder de vista a necessidade de buscar novos caminhos para a defesa de direitos conquistados ao longo de décadas.
O ano 2025 já dá seus últimos suspiros, mas 2026 e seus desafios já estão na próxima curva. E o MigraMundo segue acompanhando essas movimentações e procurando dar sua contribuição para um mundo mais aberto e respeitoso ao diferente, que valorize a diversidade cultural e defenda os migrantes como sujeitos de direitos e deveres, além de vetores de transformação e desenvolvimento cultural, econômico e social.
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