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terça-feira, junho 30, 2026
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De au pair a engenheira civil: brasileira conta sua trajetória na Alemanha

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A brasileira brasileira Larissa Ziesmann, mestranda no Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), Alemanha. Crédito: Kevin Vargas

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Com três prêmios Nobel (Engenharia, Física e Matemática), o inventor do carro figurando entre seus ex-alunos e um orçamento de 884 milhões de euros, o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) está entre as 60 melhores faculdades de Engenharia do mundo.

É nessa instituição, exigente com os candidatos e mais ainda com os seus alunos, que estuda a brasileira Larissa Ziesmann, 28. Ela não só conseguiu se formar em Engenharia Civil, um dos cursos mais concorridos do KIT, como concluiu sua tese de mestrado sobre estruturas mais ecológicas contra a erosão dos solos de rios.

Hoje cidadã alemã, Larissa se prepara para ingressar no mercado de trabalho do país. Segundo o ranking mundial de universidades, o KIT é considerado como excelente por 92,4% das empresas alemãs.

O MigraMundo conta o caminho da brasileira, que trabalhou como au pair, como caixa de supermercado por nove meses nos turnos da noite e depois como assistente do laboratório da universidade para bancar seus estudos.

”Foi bem difícil, os estudos eram puxados e eu ainda me pressionava por medo de perder o emprego no supermercado. Eu também tive que aprender a lidar com a solidão”, contou ela, afirmando que aprendeu a ser mais independente e a lidar com o jeito ”extremamente direto” dos alemães.

”Hoje quando eu visito o Brasil, minha mãe é quem me fala: ‘Nossa, Larissa, mas você ficou grossa né?”’, acrescentou a brasileira entre risadas.

”Sem dinheiro, comecei a pesquisar voos”

Após não ter passado em Engenharia Civil na Fuvest, vestibular que dá acesso à Universidade de São Paulo (USP), Larissa passou a levar a sério uma ideia antiga de ir estudar na Alemanha. Por ter pai alemão e ser egressa de uma escola alemã, tentar uma vaga em um universidade no país poderia ser mais fácil.

Para prestar o Abitur, Larissa precisaria pagar mais um ano de estudos. Uma espécie de Enem local, é o exame obrigatório para quem quer se candidatar à qualquer universidade na Alemanha. Com notas de 5 a 1, sendo a melhor 1, o aluno faz provas ao longo de uma semana e, com a nota final, ele pode se candidatar para cursos de graduação em todo o território alemão.)

”Minha mãe tinha perdido o emprego. Eu fui pedir bolsa de estudos e a escola me deu 60%. Minha mãe não tinha como pagar os 40%, mas mesmo assim ela assinou o termo de responsabilidade.”

”Larissa, eu estou desempregada, como vai ser isso?”, minha mãe me perguntou. Eu respondi: ”Mãe, se Deus quer que dê certo, vai dar certo,” contou a brasileira, que se professa cristã . ”Semanas depois, minha mãe achou um trabalho temporário de um ano.” Era novembro de 2009.

Após um ano, Larissa tirou 2.5 em seu Abitur, o que lhe permitiu ser admitida em universidades como o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, além de universidades em Berlim e Hannover.

Mas agora uma questão se erguia no horizonte: como bancar o voo, além da estadia na Alemanha?

”Eu só poderia ter alguma ajuda do governo como estudante quando a minha cidadania fosse reconhecida, o que aconteceria só depois de três anos vivendo na Alemanha. Mas e até lá?”.

”Eu não sabia, mas comecei a pesquisar voos”, contou.

Um dia no trabalho, uma das colegas de sua mãe falou sobre a possibilidade de cuidar de crianças em troca de salário e moradia (trabalho conhecido como au pair e comum entre estudantes europeus).

”Comecei a pesquisar e achei uma família no Norte da Alemanha que procurava alguém para cuidar dos seus quatro filhos”, contou ela. ”E eles pagariam pelo meu voo!”

Larissa em Berlim, capital alemã. Ela começou sua jornada pelo país europeu como au pair. Crédito: Marli Waldow/Arquivo pessoal

“Choque de toda ordem”

”O começo foi um choque de toda a ordem”, contou Larissa. ”Era tudo organizado, tudo limpo. Até as árvores do lado das ruas eram alinhadas…”, disse a brasileira, que morou quatro meses em um vilarejo de mil habitantes no norte da Alemanha. Larissa se surpreendeu com o comportamento das crianças no país.

”Eu achei as crianças alemãs muito respondonas, e era difícil porque eu não estava acostumada com crianças respondonas desse jeito”, disse. ”Mas as crianças são educadas desse jeito aqui, por um lado cria-se pessoas mais independentes e com uma opinião mais sólida, sem precisar se esconder atrás dos outros.”

Trabalho e estudos

Ao se aproximar o início das aulas, Larissa deixou o trabalho como au pair e se mudou para Karlsruhe, fixando-se em uma república de estudantes.

”Eu tinha agora total liberdade, mas também muita pressão”, conta ela, que ainda não sabia se a sua cidadania seria reconhecida. E nem se encontraria emprego para bancar seus estudos.

O governo alemão disponibiliza bolsas-empréstimos para os estudantes alemães e/ou europeus durante o tempo de seus estudos. O valor mensal pode chegar até 800 euros.

Com tal valor, pressupõe-se que o estudante poderá se dedicar integralmente aos estudos. De acordo com o Ministério da Educação alemão, um quarto dos estudantes recebem esse tipo de bolsa do governo.

O que não foi o caso de Larissa, que na época não havia sido reconhecida cidadã alemã.

”Sem a bolsa, eu precisaria procurar trabalho, mas eu não sabia quais documentos eu precisaria. Por eu não ter cara de estrangeira, as pessoas achavam que eu tinha o dever de saber”, disse.

E acrescentou: ”O grande choque na Alemanha é as pessoas serem bem diretas. E isso me soava agressivo no começo. Se você é alemão é a sua responsabilidade saber das coisas. As estruturas funcionam, você tem internet. Se você não sabe é porque você não quer”, disse Larissa.

Os primeiros trabalhos de Larissa foram semelhantes aos de outros migrantes brasileiros que iniciam a jornada para ganhar a vida mundo afora. ”Comecei com trabalhos bem básicos, limpeza, ajudante de cozinha, etc. E então consegui um trabalho como caixa de supermercado de três a quatro vezes na semana.”

Larissa conta que ficou no emprego nove meses e que durante a semana trabalhava das 16h às 22h para poder ir às aulas pela manhã e aos sábados, período integral.”Eu poderia ter no máximo três sábados livres”.

Larissa acordava às 6h da manhã para entrar na aula às 8h, saindo à tarde para chegar ao trabalho às 16h. ”Eu trabalhava 80 horas por mês. Aqui os estudos são bem puxados e eu ainda tive que aprender muita coisa nova no trabalho”, contou.

” Tinha muito nome de fruta e vegetal que eu não sabia. A numeração e o peso das coisas também eram outros desafios”, acrescentou.

”Foi um tempo difícil, porque eu não estava conseguindo me concentrar, eu me cobrava muito e ainda tinha medo de perder o trabalho porque eu pensava que era como no Brasil, onde há muita gente querendo esses trabalhos básicos.”

Estágio

Até que Larissa conseguiu trabalhar no laboratório de solos e rochas da universidade. ”Eu consegui a vaga no laboratório, mas o pessoal do mercado me pediu para ficar, me ofereceram aumento e tudo”, contou Larissa, que recusou a oferta, iniciando, assim, uma nova etapa que duraria seis anos.

”Era um trabalho de estudante, no qual você ajudava com os experimentos e pesquisas. Os dados coletados eram usados para melhorar equações que previam o comportamento do solo sob cargas”, explicou. E acrescentou: ”Era um trabalho de estudante, mas se o chefe via que você era esforçado ele investia em você”.

Larissa ficou. E ao final, as teses de bacharelado e mestrado estavam sob a sua tutela. O que a brasileira ganhava no laboratório, mais as ajudas vindas do Brasil, lhe permitiram terminar a sua graduação.

Até que em 2013 ela teve a cidadania alemã reconhecida, o que lhe dava o direito a uma bolsa de estudos para o mestrado, que ela faria em 2016 no departamento de solos e rochas.

”Depois que obtive a bolsa de estudos, a ajuda vinda do Brasil parou – até porque eu não precisava mais”; conta. ”Eu sou muito agradecida à pessoa que me ajudou, teria sido muito mais difícil sem ela.”

Larissa ao lado de outros estudantes do KIT, em Karlsruhe.
Crédito: Arquivo pessoal

Tese inovadora

Hoje, Larissa termina sua tese. Sobre o quê? ”Ai ai ai. Vamos ver se eu consigo explicar com o meu português”, brincou.

A tese é sobre estruturas mais ecológicas que evitam a erosão do solo dos rios. ”Aqui, 90% dos rios foram mudados, eles colocaram rios dentro de canos para construir cidades em cima, fizeram o rio ficar reto e etc”, contou. ” E quando você deixa o rio reto, por exemplo, a água corre mais rápido e nisso a erosão aumenta”, explicou ela.

”Tentou-se conter a erosão utilizando pedras grandes, porém elas impediam o desenvolvimento da fauna e da flora aquáticas.” Larissa pesquisa uma estrutura mais ecológica, atendendo os novos anseios europeus de preservação do meio ambiente.

Em vez de uma estrutura de proteção, a proposta estudada pela brasileira consiste em reorientar a correnteza por novos caminhos, deixando para trás os velhos, com risco de erosão.

”Apesar de ser de pedra, a nova estrutura é bem mais rasa e ao invés de proteger as margens do rio, ela vai reconduzir a correnteza criando um novo fluxo”, explicou. ”Com isso, o que antes era uma estrutura que tratava o sintoma, agora é uma estrutura que vai tratar a causa do problema”, acrescentou.

Sete anos depois

Larissa afirmou gostar de viver na Alemanha pela ”eficiência, pela honestidade nas interações pessoais e pela qualidade de vida”. Porém, ela sente falta do otimismo do brasileiro e da natureza.

”Eu gosto da Alemanha porque aqui as coisas funcionam, se você escreve um e-mail, faz uma ligação você recebe a resposta. Gosto da honestidade também, porque as pessoas sabem onde estão com você, eles dizem na cara e são mais estáveis e fiéis”, afirmou.

”Mas eu sinto falta da natureza, das praias, e também do otimismo brasileiro, aqui os alemães reclamam muito, nada está bom. Eu mando eles passearam, porque eu sei que os brasileiros, com muito menos recursos, são mais gratos e mais alegres pelas coisas”, acrescentou ela, que não hesita em rir dos extremos do jeito alemão:

”Às vezes você só quer descansar e conversar de coisas leves, mas é difícil achar alguém, porque eles são muito ocupados e não conseguem ser flexíveis. Eles precisam ter tudo planejado antes, se demorar mais tempo do que o previsto, por exemplo, é uma catástrofe, estraga o plano do dia”, contou ela.

”Eu já escutei coisas engraçadas de alemães, como um estudante que morava comigo que planejava o dia dele separando uma hora para imprevistos”, contou Larissa. ”Eu perguntei para ele o que ele faria se o imprevisto tomasse mais tempo do que o planejado, e ele me respondeu que seria o caos”, acrescentou ela, entre risadas.

Brasil cheio de potencial

”Quando eu fico sabendo sobre o Brasil, eu fico muito triste de ver tantos jovens inteligentes que desistiram de morar no país. O Brasil tem muitos recursos e muito potencial que poderiam fazer dele um país super bom para o seu povo”, disse ela. ”Mas eu vejo também na cultura brasileira uma preferência pelo mais fácil, pelo mais cômodo, uma cultura sem visão a longo prazo”, acrescentou.

Para Larissa, a necessidade de zelar pelo bem comum seria uma das razões para o progresso da Alemanha. ”Na visita a um campo de concentração, por exemplo, você consegue sentir o peso das atrocidades cometidas. Você percebe que um país precisa cuidar de sua nação e do bem-estar de todos para evitar que tudo aquilo se repita.”

Orgulho e preconceito na Alemanha: cresce o antissemitismo

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Vista parcial do Memorial do Holocausto, em Berlim (Alemanha). Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - jun.2014

O antissemitismo aumenta onde há o discurso de orgulho da identidade alemã – abrindo brechas para preconceitos e agressões contra judeus no país

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

Foi após o atentado numa sinagoga em Halle, no leste alemão, que muitos se assustaram com o crescimento antissemita na Alemanha. É claro, havia sempre um caso aqui e ali na imprensa sobre atitudes antissemitas, como casos de bullying em escolas ou nas mídias sociais. Os casos de preconceito estavam mais prominentes para com os refugiados – geralmente de religião muçulmana – cuja repercussão foi um dos principais pontos políticos nas últimas eleições.

Mas o antissemitismo crescia silencioso, sem grandes manchetes, e vinculado ao crescimento do partido de extrema-direita, a AfD (Alternative fuer Deutschland, ou Alternativa para a Alemanha), que parecia odiar muçulmanos e judeus em igual medida. Batendo na tecla do orgulho de ser alemão e da identidade do país, o partido não mede palavras e espalha o ódio contra minorias por todo país.

Mas é no leste da Alemanha, onde Halle se encontra, que o partido de extrema-direita encontra terreno fértil para sentimentos anti-Islã – e também antissemitas.  

Além do atentado em Halle, houve um aumento de 10% no número de crimes ligados ao antissemitismo em 2018 na Alemanha e o  governo alemão aconselhou cidadãos judeus de não usar a tradicional quipá em público.

O atentado de Halle abriu uma ferida que, na verdade, nunca cicatrizou na Alemanha. Apesar dos esforços de governos, pedidos de desculpas a Israel, aulas sobre o Holocausto nas escolas, museus sobre o tema assim como ruínas vivas como o campo de concentração de Dachau, um em cada quatro alemães expressa ideias antissemitas, de acordo com um pesquisa que faz parte de um estudo do Congresso Mundial Judaico (WJC, na sigla em inglês). A pesquisa – que ouviu 1.300 pessoas –  foi realizada antes do ataque em Halle e apontou que 27% dos entrevistados concordaram com uma série de argumentos antissemitas ou estereótipos sobre os judeus.

Por exemplo, 41% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que “os judeus falam demais sobre o Holocausto”. Outros 20% concordaram que os judeus “detêm muito poder” sobre a economia, os mercados financeiros mundiais e a mídia. E 22% concordaram que “as pessoas odeiam os judeus por causa do modo como eles se comportam”.

Surpreendentemente, sentimentos antissemitas também estão entre os mais ricos e bem educados na Alemanha (pessoas com pelo menos um diploma universitário e que ganham pelo menos 100 mil euros por ano – cerca de  R$ 450 mil). E 18% de entrevistados nesse grupo concordaram com várias afirmações antissemitas na pesquisa.

Na verdade, o antissemitismo é algo tão arraigado na Alemanha que nem todo esse esforço foi capaz de deter essa nova onda de ódio aos judeus. Apesar de ser um crime negar o holocausto, muitos começam a duvidar de fatos históricos comprovados. Na idade do fake news, muita gente duvida até que a Terra seja esférica e que a ditadura no Brasil realmente existiu. Para duvidar da existência do Holocausto ou de suas consequências é um pulo.

Da Alemanha para a Europa

Não é de hoje que algumas pesquisas alertam para um aumento preocupante do antissemitismo. Uma sondagem realizada pela rede CNN em 2018 contou com um universo de 7.000 europeus, espalhados pela Áustria, França, Alemanha, Reino Unido, Hungria, Polônia e Suécia – países onde o anti-semitismo ainda tem lugar e com um passado ligado ao Holocausto e aos horrores da 2ª. Guerra Mundial.

De acordo com o levantamento, 20% acham que os judeus dominam a política e os meios de comunicação, assim como consideram que os israelenses estão por trás da maioria das guerras e conflitos ativos.

Também constatou-se que um terço dos europeus considera que os judeus usam a lembrança do Holocausto no mundo em seu próprio benefício, como reportado pelo El País. Por fim, 28% acreditam que o aumento do antissemitismo na Europa se deve principalmente à política e às ações do Estado de Israel.

Existe hoje em dia um linha tênue entre a crítica aos judeus e à política israelense, especialmente sobre a questão da Palestina. Como disse o escritor israelense Amos Oz, alinhado com a esquerda pacifista, em entrevista ao El País: “O que é o antissemitismo? É complicado. Nem todos que criticam Israel são antissemitas. Eu mesmo faço isso. Se você critica o que os judeus fazem, pode ter razão ou não, mas é algo legítimo. Mas se você critica os judeus por serem quem são, aí existe antissemitismo. Onde está a linha vermelha? Não sei, mas existe”.

Orgulho contra o preconceito

O crescimento da extrema-direita na Alemanha é preocupante para os 200 mil judeus que habitam o país, mas há esperança. Existe uma consciência maior de que minorias precisam ser protegidas de discursos populistas e violências advindas da política do ódio. A maioria dos entrevistados no levantamento da WJC reconheceu o aumento no comportamento hostil em relação ao povo judeu na Alemanha. 65% dos entrevistados consideram que tal crescimento está ligado à ascensão de “partidos extremistas de direita”.

Embora a pesquisa tenha apontado um crescimento no sentimento antissemita na Alemanha, o estudo também constatou que a vontade de combater a intolerância é ainda maior. De acordo com a Deutsche Welle, dois terços dos membros das “elites” apoiaram uma petição contra o antissemitismo, enquanto um terço declarou que estava disposto a participar de manifestações a favor dos judeus. Também a pesquisa da CNN em 2018 apontou a tendência, na qual 40% dos consultados acreditam que os judeus estão ameaçados pela violência racista em seus próprios países e precisam ser protegidos.

O governo atual prometeu tolerância zero ao antissemitismo com maior foco em segurança para os judeus e educação sobre o Holocausto. Da mesma forma, a população não se calou; mais de 10 mil berlinenses foram às ruas em solidariedade às vítimas do atentado de Halle. E os judeus que vivem na Alemanha não se darão por derrotados na constante guerra contra o antissemitismo.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. É autora de “Ventos Nômades”, uma coletânea de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e a vida de imigrante, e do romance “Encontro de Marés”. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no Facebook, Instagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.    

A migração e as exigências da democracia

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Ato na avenida Paulista, em São Paulo, contra a então recém-aprovada Lei de Migração. Crédito: MigraMundo - 16.mai.2017

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves
No Rio de Janeiro

Primeira notícia. Caminhão com 39 cadáveres é encontrado num parque industrial na região de Essex, Reino Unido. Infelizmente, não se trata daqueles filmes de suspense, próprios do diretor britânico Alfred Hitchcock. Em lugar de ficção, trata-se da mais pura realidade: são 38 adultos e um adolescente, de nacionalidade vietnamita, que haviam saído da Bulgária. Por via alternativa, o caminhão cruzou o Canal da Mancha, chegando à costa da Inglaterra. O primeiro-ministro inglês se disse “horrorizado com esse trágico fim”. A polícia trabalha com a hipótese de tráfico de pessoas. (G1, 27.out).

Segunda notícia. “Os ministros do Interior da União Europeia chegaram a um consenso na passada segunda-feira sobre um novo mecanismo para ‘distribuir’ os migrantes que chegam em embarcações clandestinas na costa italiana ou maltesa. O ‘princípio de acordo’ foi discutido em Malta e será apresentado no dia 8 de outubro aos ministros do Interior de 28 estados membros” (UOL, 29.set).

Terceira notícia. De acordo com a Revista do Cepam/Caracas, “a crise migratória venezuelana é talvez o fenômeno regional mais ignorado pela comunidade internacional. Em escassos quatro meses, o ritmo acelerado de imigrantes e refugiados venezuelanos que fogem de seu país aumentou de 4 milhões para 4,6 milhões, e as projeções esperam que para o final do ano alcance a cifra de 5 milhões de ‘desplazados’. Com referência à população da Venezuela, representa uma fuga de quase 15% dos cidadãos” (Revista Acontecer Migratorio, Vol. 42, nº 10, outubro de 2019, pág. 12).

Estendendo o olhar para além dessas três notícias contam-se hoje aos milhões os migrantes, prófugos e refugiados que estão sendo represados em países de passagem ou de fronteira, tais como Líbia e Marrocos (rota mediterrânea entre África e Europa), Turquia e Grécia (rota balcânica entre Oriente Médio e Europa) Itália e Espanha (sul da Europa), Guatemala e México (rota entre América Central e América do Norte). Constituem um retrato vivo da política migratória (ou da falta dela) desenvolvida atualmente por todo o planeta, em maior ou menor grau.

Na contramão da economia globalizada, do aumento da atividade turística, do pluralismo cultural, étnico e religioso, da circulação de mercadorias, informações e capital – as esperanças dos migrantes acabam sendo brutalmente varridas por ventos fortes e adversos.

Sonhos longamente acalentados e laboriosamente alinhavados convertem-se em pesadelos, interrompidos no meio da travessia. Não raro terminam em tragédias, as quais, de tão frequentes parecem já nem sequer assombrar a sociedade e as autoridades internacionais. Com razão o Papa Francisco vem alertando para a Terceira Guerra Mundial “aos pedaços”.

As estimativas mais recentes apontam para 272 milhões o número de pessoas que residem fora do país em que nasceram. Dezenas e dezenas delas podem ser consideradas refugiados, seja das tensões e conflitos que terminam em guerras abertas, seja da pobreza e da miséria da subnutrição e da fome, seja, enfim, das catástrofes climáticas.

São “os condenados da terra”, na crua expressão da obra de Frantz Fanon. Faz-se necessário um imperativo de ordem ética, no sentido de regular as exigências da democracia. Ao lado desse apelo de caráter moral, outro desafio se impõe com a máxima urgência: o combate incansável ao autoritarismo de extrema direita, revestido com as roupas enganosas do nacionalismo popular. E, ao mesmo tempo, desmascarar a hipocrisia do fanatismo e fundamentalismo religiosos, os quais, em nome de Deus, acabam perpetrando um retorno pernicioso a formas retrógradas e ultrapassadas de visão de mundo e de forma de governo.

Em outras palavras, como defender os canais, os instrumentos e os mecanismos da democracia, regime que, não obstante tantos avanços e recuos, permite maior participação popular?

2ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes começa nesta sexta em São Paulo

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Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo

Seis anos depois da primeira edição, a cidade de São Paulo volta a reunir atores ligados à temática migratória para discutir as políticas a serem adotadas para a área.

A segunda Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes começa nesta sexta-feira (8) e vai até domingo (10) na Faculdade Zumbi dos Palmares – que já recebeu, entre outras atividades, o Fórum Social Mundial de Migrações, em 2016.

A conferência é organizada pelo Conselho Municipal de Imigrantes e pela Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente, ambos ligados à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. O lema para o evento, escolhido por votação online, é “Somos Tod@s Cidadãos”.

Além dos debates, estão previstas atividades para crianças, atrações culturais e gastronômicas protagonizadas por migrantes que vivem na capital paulista. Será possível ainda fazer uso da unidade móvel do CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante) durante a conferência.

Propostas e eixos

A preparação contou com 4 pré-conferências organizadas pela própria Prefeitura, além de outras 19 etapas prévias promovidas por diferentes coletivos e instituições ligados à temática migratória.

No total, foram produzidas 482 propostas. Após trabalho de sistematização da OIM (Organização Internacional para as Migrações), entidade apoiadora do evento, chegou-se ao total de 211 propostas que serão debatidas pelos participantes da conferência.

Os documentos relativos à sistematização das propostas – metodologia, codificação e nota metodológica – estão disponíveis no site da Conferência.

As propostas a serem discutidas estão organizadas em torno de oito eixos, definidos pelo Conselho Municipal de Imigrantes:

  • Participação social e protagonismo imigrante na governança imigratória local
  • Acesso à assistência social e habitação;
  • Valorização e incentivo à diversidade cultural;
  • Proteção aos direitos humanos e combate à xenofobia, racismo, intolerância religiosa, e outras formas de discriminação;
  • Mulheres e população LGBTI+: acesso a direitos e serviços;
  • Promoção do trabalho decente, geração de emprego e renda e qualificação profissional;
  • Acesso à educação integral, ensino de língua portuguesa para imigrantes e respeito à interculturalidade;
  • Acesso à saúde integral, lazer e esporte

Antecedentes

Realizada pela primeira vez de 29 de novembro a 1º de dezembro de 2013 – e acompanhada pelo MigraMundo -, a Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes reuniu 695 pessoas de 28 nacionalidades. Foram elaboradas propostas municipais visando a promoção e garantia de acesso a serviços públicos, ao trabalho decente e à inclusão social e ao reconhecimento cultural.

As discussões da primeira conferência serviram de base, entre outras ações, para a inauguração do primeiro Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes de São Paulo (CRAI), em 2014, e para a criação da Política Municipal para a População Imigrante (Lei Municipal nº 16.478), implementada em São Paulo no final de 2016.

A conferência de 2013 foi ainda o primeiro passo para a 1ª Conferência Nacional sobre Migrações e Refúgio (Comigrar), que ocorreu de 30 de maio a 1º de junho de 2014 em São Paulo.

Cronograma de atividades

Dia 08/11/2019 – Das 16h às 22h
16h às 17h: Credenciamento e café receptivo.

17h às 17h30: Cerimônia de abertura.

17h30 às 17h45: Lançamento do estudo “Políticas migratórias em nível local: análise sobre a institucionalização da política municipal para a população imigrante de São Paulo” (realizado pela Comissão Econômica para América Latina – CEPAL)

17h45 às 18h15: Saudação de especialistas sobre Imigração, (1) no Mundo e (2) no Brasil.

18h15 às 19h: Apresentação e discussão sobre o estudo “Políticas migratórias em nível local: análise sobre a institucionalização da política municipal para a população imigrante de São Paulo” (realizado pela Comissão Econômica para América Latina – CEPAL)

19h às 21h30: Leitura, discussão e a provação de regimento interno.

09/11/2019 – Das 9h às 18h: Grupos de Trabalho
09h às 10h: Credenciamento e café receptivo.

10h às 12h30: Apresentação do tema, organização e início das discussões.

13h às 14h: Almoço (Feira de Gastronomia Imigrante).

14h às 16h30: Seguimento das discussões.

16h30 às 17h: Pausa para café.

17h às 18h: Priorização de 10 propostas a serem levadas para votação em
plenário.

10/11/2019 – Das 9h às 18h: Plenária Final

09h às 10h: Café receptivo.

10h às 12h30: Leitura das propostas dos Grupos de Trabalho, destaques e início da discussão.

13h às 14h: Almoço (Feira de Gastronomia Imigrante).

14h às 16h30: Seguimento das discussões e aprovação das propostas prioritárias.

16h30 às 17h: Pausa para café.

17h às 18h: Leitura e aprovação das moções apresentadas pelos conferencistas.

Manifestações Culturais
09 e 10/11/2019 – Das 13h às 14h, na Área do Ginásio

Feira de Gastronomia Migrante
09 e 10/11/2019 – Das 11h às 15h, na Área do Ginásio

Futebol une haitianos e indígenas em jogo amistoso na Unicamp

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Amistoso na Unicamp une estudantes indígenas e haitianos que vivem em Campinas e região. Crédito: Antoninho Perri/Unicamp
Amistoso na Unicamp une estudantes indígenas e haitianos que vivem em Campinas e região. Crédito: Antoninho Perri/Unicamp

Atividade acontece neste domingo (3) e é aberto ao público

Por MigraMundo Equipe
Em São Paulo

Usar o principal esporte praticado no Brasil como meio de diálogo e de valorização da diversidade cultural existente no país. Esse objetivo, que já impulsiona ações como a Copa dos Refugiados, também motiva a promoção de outros eventos Brasil afora.

Um deles é o “Diversidade em Campo e no Campus”, um jogo amistoso promovido pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) entre os “Acadêmicos Indígenas da Unicamp” e o “Clube dos Haitianos de Campinas”, que acontece neste domingo (3), às 9h, na Faculdade de Educação Física (FEF). O evento é aberto ao público.

De um lado, o time da casa representa estudantes de 22 etnias que ingressaram na Unicamp através do Vestibular Indígena 2019. Do outro, haitianos que vivem em Campinas (SP) e região e que já jogam juntos há três anos, apesar das dificuldades em sustentar o time – bancado pelos próprios migrantes.

Um primeiro jogo entre os dois times já ocorreu no mês de setembro. Dentro de campo, o time haitiano fez valer a experiência e o entrosamento e levou a melhor pelo placar de 5 a 2.

A atividade é promovida na Unicamp pela Cátedra Sérgio Vieira de Melllo (CSVM), Pró-Reitoria de Graduação (PRG) e Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), com apoio da rede varejista de artigos esportivos Decathlon.

Com informações da Unicamp

Marcha dos Imigrantes e Refugiados 2019 acontece em 1º de dezembro na Paulista

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Diferentes nacionalidades, bandeiras e culturas se unem anualmente na Marcha dos Imigrantes, em São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Ato chega à sua 13ª edição e usará a famosa avenida paulistana como cenário pela quarta vez

Por MigraMundo Equipe
Em São Paulo
Atualizado às 11h30 de 31.out.2019

Tradicional manifestação das comunidades migrantes de São Paulo, a Marcha dos Imigrantes e Refugiados já tem definida a data da edição deste ano. O ato acontece no próximo dia 1º de dezembro, com concentração a partir das 14h em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo).

O ato chega em 2019 à sua 13ª edição – é realizado de forma ininterrupta desde 2007 em São Paulo. Pela quarta vez seguida, vai aproveitar o fechamento da avenida Paulista para carros aos domingos na tentativa de dialogar com outras pessoas que frequentam a área.

Cartaz da 13ª Marcha dos Imigrantes.
Crédito: Divulgação

A organização fica por conta de um conjunto de entidades ligadas à sociedade civil e imigrantes – seja independentes, seja ligados a algum coletivo.

Duas reuniões preparatórias, ambas abertas a qualquer interessado, já ocorreram na sede do CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante), na região central de São Paulo – a entidade é a principal proponente e uma das organizadoras da Marcha.

A última reunião de preparação será no próximo dia 23 de novembro, às 15h, também na sede do CAMI – Alameda Nothmann, 485, Campos Elíseos (próximo ao Terminal Princesa Isabel).

Luta por direitos

A cada ano a Marcha dos Imigrantes tem um tema diferente, que reflete o mote das reivindicações das comunidades migrantes naquele ano.

Para 2019 foi escolhida a frase “Para igualdade e dignidade não existem fronteiras: Livres com direitos em qualquer lugar do mundo”.

Reunião de preparação para a 13ª Marcha dos Imigrantes. Crédito: Divulgação/CAMI

“Estamos aqui hoje porque temos um propósito, da melhoria da vida de todos, a marcha dos imigrantes e refugiados ao longo destes anos retrata isso, o desejo de visibilidade e mudança social, os direitos que as pessoas das diversas nacionalidades pretendem conquistar no país que residem”, destaca Roque Patussi, coordenador-geral do CAMI, ao site da instituição.

A luta pelo reconhecimento dos migrantes como sujeitos de direitos é uma constante nos lemas das marchas. As edições anteriores abordaram ainda temas como a anistia a migrantes sem documentos, a Lei de Migração e as lutas contra diferentes formas de preconceito.

Veja os lemas de todas as edições da Marchas dos Imigrantes
2007 – “Integração, cidadania universal e direitos humanos”
2008 – “Nossas vozes, nossos direitos por um mundo sem muros, @s imigrantes pedem: ANISTIA JÁ”
2009 – “Por acesso a todos os direitos” 
2010 – “Por um MERCOSUL livre de xenofobia, racismo e toda forma de discriminação”
2011 – “Trabalho decente e Cidadania Universal”
2012 – “Nenhum direito a menos para @s imigrantes”
2013 – “Nova lei de imigração justa e humana para o fim da discriminação”
2014 – “Basta de violência contra @s imigrantes”
2015 – “Fronteiras livres, não a discriminação”
2016 – “Dignidade para os imigrantes no mundo: nenhum direito a menos”
2017 – “Pelo fim da invisibilidade dos imigrantes”
2018 – “Por direitos iguais Não me julgue antes de me conhecer”
2019 – “Para igualdade e dignidade não existem fronteiras: Livres com direitos em qualquer lugar do mundo”

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Associação síria mantém rede de orfanatos para ajudar crianças refugiadas

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Crianças sírias atendidas pela Associação AlSham, na Turquia. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Espaços também abrigam as mães viúvas e dão suporte financeiro e psicológico às famílias afetadas pela guerra

Por Alethea Rodrigues
Em Gaziantep (Turquia)

Desde 2015, a Associação AlSham mantém 14 orfanatos, localizados na Síria e na Turquia. Os espaços acolhem crianças sírias que ficaram órfãs por consequência da guerra – que teve início em março de 2011 e já deixou pelo menos 800 mil crianças sem o pai, a mãe, ou ambos.

A sede da Associação, que fica em Gaziantep (Turquia), abriga atualmente 30 crianças sírias. A unidade é mantida, assim como as outras 13, por doações principalmente vindas do Kuwait e da Arábia Saudita. O espaço também acolhe as mães desses órfãos, que perderam seus esposos e tiveram que se refugiar na Turquia. Quase todas as famílias que fogem da guerra não conseguem trazer qualquer bem material ao país de refúgio e chegam apenas com a roupa do corpo.

Na Síria, não é comum que as mulheres trabalhem. Por isso, atualmente a maioria das mães se dedicam apenas à criação das crianças – seja pela questão cultural, falta de experiência profissional ou até mesmo pela dificuldade com o idioma. Apesar disso, boa parte das famílias recebe um auxílio mensal do Crescente Vermelho (braço da Cruz Vermelha que atua em países islâmicos, como a Turquia e a Síria) para que possam manter suas despesas pessoais.

O prédio da sede tem cinco andares, porém é bem simples e antigo. Apesar dos cômodos serem bastante improvisados, há espaço suficiente para que todos possam cozinhar, dormir e realizar atividades de recreação e cursos de idioma para as crianças. Além disso, a AlSham tem um centro próprio na mesma cidade, onde as crianças refugiadas da sede, juntamente com outras 200 órfãs, frequentam todos os dias no período da manhã.

Edifício-sede da AlSham, entidade que apoia crianças órfãs afetadas pela guerra na Síria. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“Temos dez funcionários sírios que nos ajudam na manutenção do prédio, além de psicólogos e professores voluntários, a maioria deles sírios. Além disso, oferecemos cursos de capacitação para as mães, para que elas aprendam a confeccionar artesanatos e os mesmos sejam vendidos”, afirma a coordenadora Om Alkher, que é responsável pela acomodação de toda a rede de orfanatos.

A maioria dos orfanatos não permitem que adolescentes que completam a maioridade permaneçam vivendo no local. A Associação, porém, tem uma política diferente: as mulheres que cresceram ali podem continuar no abrigo se não tiverem casado ou condições de alugar uma moradia; já os garotos acima de 14 anos são levados para outro abrigo. No Islã não é permitido que mulheres e homens desconhecidos vivam e convivam no mesmo ambiente, com exceção das crianças.

Tanto a Turquia quanto a Síria são países em que o islamismo predomina e dentro do orfanato a religião é levada a sério. As mulheres podem andar à vontade, não são obrigadas a usar o hijab (lenço que cobre o cabelo e o pescoço de mulheres muçulmanas) dentro do espaço, mas há outras regras em relação a visitas, horários de entrada e saída do orfanato e obrigações relacionadas a manutenção do ambiente limpo e amistoso.

Visita de qualquer homem é proibida dentro do prédio, assim como é necessário pedir permissão para irem às ruas, mesmo que seja uma mãe ou uma órfã adulta.

Om Alkher tem 53 anos e chegou na Turquia em 2013, também como refugiada síria e no mesmo ano se tornou funcionária da associação. A coordenadora lembra da situação das crianças e das mães quando chegaram no orfanato precisando de ajuda.

“Todos chegam da Síria exaustos, as mães muitos estressadas e cansadas e as crianças com o psicológico extremamente abalado.  Mas, graças a Deus, essa situação foi melhorando aos com o trabalho intensivo de nossos psicólogos e hoje temos raros casos de crianças ou mães que ainda precisam de tratamento. Felizmente nossos órfãos têm a mãe do lado e isso facilita com que eles aprendam a conviver sem a figura do pai”.

A coordenadora ainda ressalta que a política da Associação consiste em trabalhar com a verdade, por isso todas as crianças sabem do que está acontecendo, tanto na Síria, quanto sobre a morte de seus pais. A AlSham acredita que, dessa maneira, elas amadurecem de maneira mais independente, auxiliando na formação do caráter e aprendendo a valorizar a família e ajudar as mães.

Atualmente, não há voluntários internacionais trabalhando na sede. Porém, durante a entrevista ao MigraMundo, Alkher falou sobre a importância das pessoas que dedicam um pouco do tempo para ajudar a quem precisa.

Mulheres e criança sírias atendidas pela Associação AlSham, na Turquia. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“O voluntariado traz benefícios enormes para as nossas crianças porque elas têm contato com outros idiomas e outras culturas. Além disso, voluntários nos ajudam basante na parte administrativa e a nossa demanda é grande demais”.

O fundador da AlSham é sírio, mas atualmente vive na Arábia Saudita e auxilia na arrecadação das doações que mantêm os orfanatos. Segundo a coordenadora, o principal objetivo da equipe é que todas as crianças cresçam independentes, conheçam o verdadeiro valor da religião e sejam encaminhadas para a universidade.

Segundo dados do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados), a Síria é atualmente o país que mais gera refugiados no mundo – 6,7 milhões – em virtude da guerra que atinge o país desde 2011 – e que ainda parece longe de uma solução.

Por sua vez, a vizinha Turquia é o país que abriga mais refugiados no mundo (3,7 milhões, a maioria deles da própria Síria).

De Guiné-Bissau a joia do Barcelona: conheça a história de Ansu Fati

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Ansu Fati, que nasceu em Guiné-Bissau e hoje é uma das promessas do elenco do Barcelona. Crédito: Miguel Ruiz/ FC Barcelona

Nova série do MigraMundo trará histórias de migrantes que tiveram suas vidas transformadas por meio do esporte

Por Mathias Boni
Em Porto Alegre

No último mês de agosto, teve início a temporada 2019/2020 no futebol profissional na Europa. Dentre as centenas de clubes que disputam competições nacionais ou continentais há uma série de jogadores que tiveram suas origens bem longe do país onde vivem hoje, ou mesmo em outros continentes.

Por essa razão, cabe ressaltar como o futebol (e também outros esportes, como o basquete) pode desempenhar um papel muito importante para a integração, inclusão social e até reconhecimento dos direitos de imigrantes e refugiados durante seu acolhimento em outro país. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar a série de contradições que exemplificam barreiras diversas e interesses sociais, políticos e econômicos que recaem sobre essas pessoas.

Ao longo das próximas semanas, faremos uma série contando as histórias de jogadores de futebol e outros atletas profissionais que hoje têm grande sucesso internacional, além das dificuldades do passado e do presente.

A primeira história contada será a de Ansu Fati, jovem jogador nascido em Guiné-Bissau que hoje brilha no Barcelona, mas que ainda muito novo precisou fugir com a sua família da guerra civil no seu país natal.

De Guiné-Bissau à Espanha

No último dia 25 de agosto, contra o Real Bétis, pela segunda rodada do campeonato espanhol, o Barcelona promoveu a estreia de um novo jogador, chamado Ansu Fati. Quando ele entrou em campo, aos 78 minutos de jogo, Fati se tornou o segundo jogador mais jovem da história a jogar partidas oficiais pelo clube. Ele tinha exatamente 16 anos e 298 dias, e fez sua estreia antes mesmo de Messi, que é um grande incentivador de sua carreira, e apenas atrás de Vicente Martínez, 20 dias mais jovem, em 1941.

Fati nasceu em Guiné-Bissau, onde viveu até os 6 anos, e que passou por uma sangrenta guerra de independência entre 1963 e 1974 – é ex-colônia portuguesa. No final dos anos 90, também em função do processo turbulento e inadequado de descolonização, uma guerra civil foi deflagrada no país.

A devastação e a violência causadas pela guerra fizeram com que Bori Fati, o pai de Ansu, fosse sozinho em 2001 para a Espanha, em busca de melhores condições de vida para a sua família. Após ter morado nas ruas e passado fome em alguns momentos, Bori acabou relativamente se estabelecendo. Três anos depois de sua chegada, morando em Sevilla, ele então finalmente conseguiu viabilizar para que sua esposa e os dois filhos fossem encontrá-lo, reunindo novamente a família. Em razão da guerra civil em Guiné-Bissau, cerca de 500 mil pessoas deixaram o país, imigrando principalmente para Senegal e países na Europa.

O Fenômeno Ansu Fati

Desde muito novo, Fati mostrou talento acima da média para o futebol. Por essa razão, ele jogou nas categorias de base do Sevilla quase a partir do momento em que chegou na cidade. Ao total, ficou dos seis aos dez anos no clube. Nessa idade, já chamou a atenção do Barcelona, e, após um convite formal, acabou se mudando com a família para jogar no gigante catalão, onde vem sendo destaque desde então. Só a partir da mudança para Barcelona que Ansu e sua família puderam finalmente se estabilizar financeiramente.

No último mês de julho, um pouco antes da liga espanhola dessa temporada começar, o Barça chamou Fati para assinar o seu primeiro contrato profissional. Válido até 2022, a cláusula de rescisão é no valor de 100 milhões de euros, o que demonstra como o clube catalão aposta no futuro da sua nova joia.

Em entrevista ao jornal Mundo Deportivo, Bori Fati declarou, após o primeiro jogo como profissional do filho: “Eu sabia que ele gostava de jogar futebol, como todo menino africano. Só não sabia que ele era tão bom. Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Quando ele nos disse que estava convocado para o jogo, eu e minha mulher começamos a chorar imediatamente. Quando ele entrou em campo, estávamos nas nuvens.”

Ao canal oficial da liga espanhola, após o jogo, Ansu falou: “Estava olhando para os meus pais, minha família, que foram os que me acompanharam até aqui. Fiquei ali no campo porque não acreditava e agora tenho que aproveitar o momento. Insisto que só tenho palavras para agradecer.”

Ansu Fati em ação pelo Barcelona durante jogo do Campeonato Espanhol.
Crédito: Victor Salgado/FC Barcelona

No dia 31 de agosto, apenas em seu segundo jogo, Ansu Fati fez seu primeiro gol como profissional, se tornando o jogador mais jovem a marcar com a camisa do Barcelona pelo Campeonato Espanhol na história, alcançando outro recorde pessoal para a sua precoce carreira. Ainda, algumas semanas depois, no dia 17 de setembro, ele também se tornou o jogador mais jovem da história do Barcelona a representar o clube na Uefa Champions League, a maior competição entre clubes da Europa.

Os feitos de Ansu Fati em campo pelo Barcelona foram facilitados pela ausência por lesão de algumas das principais estrelas do time catalão no período, como o argentino Lionel Messi e o uruguaio Luis Suárez, abrindo espaço para sua entrada nos jogos.

No entanto, Ansu Fati não joga pelo Barcelona desde o final de setembro, quando sofreu uma lesão do joelho. Recém-recuperado, ele aguarda uma oportunidade para voltar a ser relacionado – uma tarefa que não é das mais fáceis, em meio a um elenco repleto de talentos.

Inspiração, mas não exceção

No último dia 20 de setembro, após mais de 10 anos morando em solo espanhol, o Conselho de Ministros da Espanha concedeu a nacionalidade e o passaporte espanhol a Ansu Fati. Toda organização e negociação para a aprovação do pedido foram conduzidos pelo Barcelona e pela Federação Espanhola de Futebol, intermediando o contato entre os Ministérios da Justiça, Relações Exteriores e Cultura.

A Federação Espanhola, que passou mais de três meses especialmente empenhada no sucesso do processo de naturalização, tinha o intuito de utilizar o jogador nas seleções espanholas de base e profissional, inclusive tendo incluído o jogador na pré-lista de 50 jogadores que disputarão a Copa do Mundo sub-17 no Brasil esse mês – ele acabou não incluído na lista final.

Para o Barcelona, a naturalização de Fati também é benéfica, pois ele deixa assim de ocupar uma vaga de estrangeiro no clube – a Liga Espanhola permite até três jogadores que não tenham passaporte europeu.

Pela popularidade global do esporte, e pelo da ascensão social de Ansu e sua família, resta claro o potencial do futebol como agente integrador de imigrantes e refugiados durante sua estada no país de acolhida. Porém, há diferentes aspectos a serem compreendidos nessas histórias de sucesso; primeiramente, elas são importantes como exemplo de superação e inspiração a outras pessoas nas mesmas condições de dificuldades, além de invariavelmente atrair mais atenção da mídia sobre as condições dos refugiados e imigrantes no país onde o jogador estiver se destacando.

Contudo, esses casos acabam se tornando exceção, pois, muitas vezes, os imigrantes e refugiados acabam tendo seus direitos reconhecidos apenas porque grandes organizações esportivas têm interesse nos resultados que eles irão produzir.

Esse é justamente o ponto levantado por Moha Bakkali, um atleta profissional do atletismo que nasceu no Marrocos e mora há mais de 15 anos na Espanha. Ele reclamou da celeridade excepcional com que a cidadania foi concedida a Ansu Fati, expondo que atletas de altíssimo nível, principalmente do futebol, têm seus processos facilitados justamente pelo lobby dessas grandes organizações que estão por trás das nacionalizações, interessados nos retornos esportivos – e financeiros – que terão com os atletas no futuro.

Na esperança de voltar, venezuelana luta contra barreiras e burocracia no Brasil

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Família venezuelana caminha por estrada em Roraima em direção a Boa Vista. Crédito: ONU

Fama de país acolhedor cai diante de ações escassas em prol de pessoas que chegam em situação vulnerável

Por Patrick Freitas
Em São Paulo

“Eu acho que a maioria retornará, mas no momento que o governo mudar”.

Essa é a esperança da venezuelana Rosmary Astudillo, 27, uma entre tantos outros migrantes em situação de refúgio que procuram no Brasil uma terra segura para si e sua família.

No Brasil desde 2017, ela enfrentou uma viagem de 16 horas – sendo 4 delas de barco – para atravessar a Venezuela e chegar à fronteira. Chegando ao Brasil, foi de ônibus até a Paraíba, onde um amigo lhe ajudou com a passagem de avião para São Paulo.

Os venezuelanos atualmente são a nacionalidade responsável pela maior parte das solicitações de refúgio no Brasil. Só em 2018, de acordo com o Conare (Comitê Nacional para Refugiados), eles representaram 77% (61.681) dos 80.057 mil pedidos totais do último ano.

Com isso, aumentou para 161 mil o total de solicitações de refúgio que aguardam parecer do Conare, que somente em junho passado divulgou resolução na qual passou a reconhecer a Venezuela como local de “grave e generalizada violação de Direitos Humanos” – a medida é válida por 12 meses, podendo ser prorrogada ou revista a qualquer momento.

Ao menos em tese, a decisão do Conare pode acelerar a tramitação das solicitações e a diminuir o abismo em relação ao total de refugiados reconhecidos de fato pelo Brasil. Desde 1997, quando entrou em vigor a lei brasileira de refúgio, o comitê reconheceu 11.231 pessoas como refugiadas –atualmente 6.554 indivíduos contam com esse status ativo.

Os números sobre refúgio no Brasil são ainda menores quando comparados ao contexto global. O ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) informa que, até o final de 2018, 70,8 milhões de pessoas foram obrigadas a se deslocar pelo mundo, dentro e fora das fronteiras de seus países – destas, 25,9 milhões procuram abrigo em outras nações, colocando-as na condição de refugiadas.

Para Camila Asano, coordenadora de programas da ONG Conectas Direitos Humanos, hoje o mundo vive sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial, de pessoas que são obrigadas a deixarem suas casas por muitas razões, como a fome, guerras e crises. E apesar da fama de ser um país acolhedor, o Brasil tem feito muito pouco. “Falta um entendimento de que o refugiado não quer viver sob uma tutela do poder público, mas sim ser integrado na sociedade, podendo trabalhar, estudar, acessar seus direitos individuais e, assim, reconstruir sua vida em um novo país”.


Camila Asano, da Conectas, durante o 6º curso de Informação sobre Jornalismo e Direitos Humanos do Projeto Repórter do Futuro.
Crédito: Augusto Oliveira/Oboré Projetos Especiais

Até chegar em terras paulistas, Rosmary conta que não teve nenhuma assistência do governo brasileiro. “Eu saquei o RG e a permissão temporária por 2 anos… foi demorado. Muitos protocolos para agendamento de citação, consignação e entrega de documentos. Foi preciso fazer um pagamento também por serviços.” Em sua adaptação, ela fala como foi engraçado para se comunicar: “Nossa linguagem não é muito diferente. Só tem uma entonação particular.”

Para Beatriz Figlino, mestranda em ciências sociais pela Unifesp, integrante do grupo de pesquisa LIMINAR (Laboratório de Investigação em Migração, Nação e Região de Fronteira) e coordenadora do curso “Ensino de português e promoção de cidadania a imigrantes”, há várias barreiras que cada imigrante lida de certa forma.

“Os [imigrantes] da Venezuela parecem ter uma facilidade maior em aprender o português quando comparados aos sírios, por exemplo, e essa dificuldade no idioma deixa os imigrantes mais excluídos, de certa maneira. No nosso curso da Unifesp, nesse sentido, percebo que muitos dos árabes têm dificuldade em se comunicar em português, especialmente para falar, já os haitianos, apesar de falarem francês, parecem ter alguma timidez ou insegurança na comunicação. Percebemos que os imigrantes que falam inglês têm mais facilidade para aprender o português, mas temos a situação em que alguns imigrantes mal foram alfabetizados em seus países de origem, em sua língua materna. Então, como vencer o desafio de ensinar uma segunda língua a alguém que mal fala a primeira?”

Beatriz Figlino, que coordena curso que ensina português e promove cidadania junto a migrantes
Crédito: Arquivo pessoal

Preconceitos

Dados do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), ligado à UnB (Universidade de Brasília) e que tem parcerias com o governo federal, indicam que Brasil registrou, entre 2011 e 2018, 774,2 mil imigrantes.

Mesmo com números de migrantes –incluindo aqueles em situação de refúgio– baixos em relação à população brasileira (estimada em 210,1 milhões pelo IBGE), o país presencia situações de xenofobia.

O ato mais recente e de maior impacto foi contra o bar Al Janiah, em São Paulo, no começo de setembro – o proprietário é um brasileiro de família palestina e o local é conhecido por empregar migrantes em situação de refúgio e por sediar eventos ligados à temática.

Para Beatriz, parte da população ainda carrega consigo o preconceito de que imigrantes em situação de refúgio chegam ao Brasil e acabam roubando as vagas de empregos que brasileiros poderiam ocupar.

“Há os casos em que migrantes chegam ao Brasil com qualificação e experiência superiores aos da média do brasileiro, mas muitos deles ainda enfrentam o embaraço da língua portuguesa. Não são muitos os lugares que oferecem empregos em inglês, como na Europa ocorre, por exemplo.”

Rosmary não escapou de vivenciar esse preconceito. “Já aconteceram… Pessoas chatas que falaram coisas ruins. Sobretudo que nós portamos enfermidades e passamos fome porque queremos… Que somos uma maldição para o Brasil. Mas em sua maioria, a população é amável.”

Já no que diz respeito a adaptação cultural, Rosmary é enfática: “Sobre sua cultura… muda muitas coisas, tem uma mentalidade mais aberta. O mesmo na sua gastronomia.”

Beatriz considera essa a barreira mais complexa, pois a cultura se aprende no dia a dia, observando, aprendendo, analisando e também conhecendo a si mesmo.

“Interagir com as pessoas ‘locais’ pra aprender é muito importante, mas como interagir com brasileiros se muitos têm as barreiras anteriores que mencionei?”

Pelo 6º ano em SP, Copa dos Refugiados promove protagonismo e combate a preconceitos

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Seleção do congo conquistou o bicampeonato da etapa paulista da Copa dos Refugiados. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Com vitória do Congo na etapa paulista, ficam definidos os classificados para o torneio nacional, que acontecerá no Rio de Janeiro

Por Alethea Rodrigues
Em São Paulo (SP)

Disputada desde 2014, a Copa dos Refugiados e Imigrantes voltou a movimentar comunidades migrantes e instituições em torno da temática migratória em São Paulo. Após três finais de semana, terminou neste domingo (20) a sexta edição da etapa paulista do torneio, no estádio do Pacaembu.

Dentro de campo, quem levou a melhor desta vez foi a República Democrática do Congo, que conquistou o bicampeonato – levou também em 2016 – ao vencer por 2 a 0 o Níger, campeão de 2018.

Durante a partida, os dois times apresentaram um bom volume de jogo, porém poucas finalizações. Os gols da equipe congolesa só saíram no segundo tempo, mas foram suficientes para o bicampeonato.

Organizado pela ONG África do Coração, em parceria com a Prefeitura de São Paulo – via Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (SEME) – e outras instituições, a Copa dos Refugiados 2019 envolveu 16 equipes e cerca de 200 pessoas de países da América do Sul, Central, África e Ásia.

Bola oficial da Copa dos Refugiados e Migrantes.
Crédito: Divulgação

A etapa paulista foi a última das seis séries regionais disputadas ao longo deste ano. O vencedor de cada uma se credenciou para a edição nacional da Copa, a ser disputada no Rio de Janeiro – ainda este ano, em data ainda ser definida.

“Ninguém sai perdendo”

De acordo com um dos idealizadores e coordenador do evento, o sírio Abdul Jarour, a Copa busca promover protagonismos, mostrar a realidade dessas pessoas, dar mais um passo para romper os preconceitos, as discriminações e lutar contra a xenofobia.

“Temos vários objetivos e chamar a atenção para as necessidades de inserção dos refugiados e imigrantes no mercado de trabalho também é um deles. Uma das coisas que mais gosto nesse evento é que ninguém sai perdendo, todos participam felizes, fazem novos amigos e saem mais valorizados e integrados na sociedade brasileira”.

Nas arquibancadas era possível ver diversos cartazes pregando o combate à xenofobia e pedindo um país mais tolerante e acolhedor em relação a refugiados e imigrantes.

Cartazes nas arquibancadas pregam combate à xenofobia e respeito a refugiados e migrantes.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Após a vitória do Congo, o técnico Sérgio Pereira, que tem apenas 19 anos, comentou a importância de participar de um evento como esse e principalmente a alegria de ganhar o título após tantos dias de treinos intensos e pouco apoio financeiro.

“Foi meu primeiro ano na Copa e conseguimos fazer um trabalho maravilhoso. O evento nos deixa mais integrados, os africanos se unem e se ajudam e é uma oportunidade única de mostrar o nosso talento. Temos muito a oferecer”, concluiu o congolês, que vive no Brasil há dois anos e atualmente está desempregado.

Apesar de não ter conquistado o título em mais uma edição, a equipe do Níger não desanimou com a conquista da vice-liderança, muito menos a torcida. Patrícia Angélica, de 20 anos de idade, prestigiou o pai – que é goleiro da equipe, juntamente com a irmã e a sobrinha – e garantiu que o time tem potencial e que o ano que vem promete.

Patrícia Angélica, 20, prestigiou o pai, goleiro do Níger, juntamente com a irmã e a sobrinha. Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

“Já é a terceira Copa que meu pai participa e todos jogaram muito bem. Já saímos vitoriosos porque conseguimos mostrar os talentos que temos no nosso país. Tenho certeza que ainda venceremos”.

Plano futuros

Depois de passar por expansão neste ano, ocorrendo em seis estados diferentes, a Copa dos Refugiados deve repetir a dose em 2020. O plano é que a disputa ocorra também em Santa Catarina, Minas Gerais e Mato Grosso.

“Já estamos com quase tudo fechado para os jogos acontecerem nesses locais e estamos trabalhando para conseguirmos fechar uma parceria na França com intuito de tornarmos esse evento internacional e beneficiarmos cada vez mais os imigrantes e refugiados”, finalizou Abdul.

O sírio Abbul Jarour, coordenador da Copa dos Refugiados.
Crédito: Alethea Rodrigues/MigraMundo

Quem vai à Copa dos Refugiados 2019 – etapa nacional
Guiné-Conacri – vencedora em Brasília (DF)
Cabo Verde – vencedor em Recife (PE)
Colômbia – vencedor em Curitiba (PR)
Angola – vencedor no Rio de Janeiro (RJ)
Líbano – vencedor em Porto Alegre (RS)
Rep. Democrática do Congo – vencedora em São Paulo (SP)

Relembre quem já disputou as finais da Copa dos Refugiados em SP
2014 – Nigéria (campeã) / Camarões (vice)
2015 – Camarões (campeão) / Rep. Democrática do Congo (vice)
2016 – Rep. Democrática do Congo (campeã) / Togo (vice)
2017 – Nigéria (campeã) / Marrocos (vice)
2018 – Níger (campeão) / Nigéria (vice)
2019 – Rep. Democrática do Congo (campeã) / Níger (vice)