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quinta-feira, maio 7, 2026
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Evento na USP debate deportações e detenções de brasileiros pelo ICE nos EUA

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Agentes do ICE, a polícia migratória dos EUA, durante abordagem contra um migrante indocumentado. (Foto: ICE)

O Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP), em São Paulo, recebe nesta quarta-feira (22) um debate especial sobre a situação de brasileiros detidos e deportados dos Estados Unidos nos últimos anos – tema que ganhou importância sobretudo com o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

A atividade, que vai ocorrer de forma presencial, é promovida pelo Fórum Fronteiras Cruzadas, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, em parceria com o IRI-USP e os grupos de pesquisa “Cidade e Trabalho” e “Mobilidades: Teorias, Temas e Métodos”.

contará com palestras dos pesquisadores Gustavo Dias (Unimontes / Observatório das Deportações), Guilherme de Almeida (IRI-USP), Bianca Freire-Medeiros (PPGS-USP), Miriam Debieux (IP-USP), Bela Feldman-Bianco (IFCH-UNICAMP) e Vera Telles (PPGS-USP). A mediação ficará por conta de Karina Quintanilha (PPGS-USP).

A pesquisa de Dias junto ao recém-lançado Observatório das Deportações será o ponto de partida das discussões. O projeto, ligado à Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), conta com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ajuda a jogar luz sobre um dos fatos mais importantes do debate sobre migrações no Brasil na atualidade.

Durante o evento, os pesquisadores irão debater a situação dos brasileiros deportados e detidos pela polícia migratória estadunidense, mas também questionar a forma que o governo federal tem lidado com o tema.

Parte de uma mobilização internacional

O evento conta com apoio da Migration Scholars Mobilize Network, uma aliança formada no ano passado que reúne acadêmicos, pesquisadores e pessoas da sociedade civil em diferentes países que possuem ligação com a pauta migratória.

Em novembro de 2025, a Migration Scholars Mobilize Network encabeçou uma mobilização global que contemplou mais de 30 cidades – incluindo locais no Brasil – com atos em defesa dos migrantes e do direito de migrar, dentro e fora de universidades (o movimento “Teach-in, Teach-out“). A iniciativa teve como objetivo fomentar uma resposta concreta e construtiva à crescente repressão, rechaço e criminalização das migrações em contexto local e global.

O debate desta quarta-feira na USP repete o conceito empregado nessa mobilização global de novembro, de promover a disseminação de conhecimento sobre a temática migratória tanto nos campi das universidades quanto fora deles.


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Na contramão da Europa, Espanha dá início a processo histórico de regularização migratória

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Manifestante durante protesto na Espanha em prol da regularização de migrantes indocumentados no país europeu. (Foto: Pedro Mata/Fotomovimiento)

Agora é para valer. O governo da Espanha – por meio do Conselho de Ministros – aprovou um decreto especial que tem como objetivo promover a regularização migratória extraordinária de pelo menos 500 mil pessoas em situação indocumentada, independentemente da nacionalidade.

A medida passou a valer oficialmente a partir de quinta-feira (16), por meio de publicação do chamado Decreto Real no Diário Oficial do país, mas já havia sido anunciada no final de janeiro pelo governo do premiê Pedro Sánchez. Esse recurso, previsto na Constituição nacional, dispensa a necessidade de aprovação por parte do Parlamento – onde o Executivo atual não tem maioria.

“Que aqueles que já fazem parte da nossa vida cotidiana o façam em igualdade de condições, contribuindo para a sustentação do nosso país e do nosso modelo de convivência”, disse o premiê espanhol em comunicado oficial.

Dados compilados pela Fundação porCausa, entidade especializada em jornalismo humanizado sobre migrações, indicam que o número de não nacionais em situação administrativa irregular na Espanha pode ter alcançado cerca de 840 mil pessoas em janeiro de 2025. O número representaria 17,2% da população migrante proveniente de países não pertencentes à União Europeia.

A medida foi criticada por setores da oposição que possuem o rechaço à migração como uma de suas principais bandeiras, como o partido de ultradireita Vox. No entanto, uma série de instituições da sociedade civil, organizações humanitárias e a Igreja Católica apoiam a regularização.

Por um lado, o caso espanhol chama a atenção por ir na contramão do que outros países europeus têm feito em relação à migração. Além disso, a proposta tem origem em uma mobilização social da época da pandemia de Covid-19, fato que costuma passar batido em certas publicações a respeito da regularização.

Vale lembrar que esta não é a primeira regularização extraordinária promovida pela Espanha. Desde 1986 foram pelo menos nove processos, conduzidos por governos de diferentes tendências políticas – a última delas ocorreu em 2005.

Em fevereiro de 2025, como parte das respostas aos estragos causados por fortes tempestades na região de Valencia em outubro de 2024, o governo espanhol aprovou um conjunto de medidas para atender às necessidades dos migrantes afetados. O pacote incluiu a regularização daqueles que se encontravam indocumentados ou com agendamento para realizar o registro antes de 4 de novembro daquele ano.

Como vai funcionar

O texto aprovado pelo governo espanhol contempla diferentes situações que permitem solicitar a autorização extraordinária de residência, como casos relacionados à oferta de trabalho, projetos de atividade por conta própria, vínculos familiares ou situações de vulnerabilidade social.

Para solicitar a autorização, é necessário ter chegado ao país antes de 1º de janeiro de 2026. Os interessados devem comprovar que moram na Espanha de maneira contínua por, pelo menos, cinco meses. Serão aceitos diferentes meios de prova, como comprovantes médicos, certificados de participação em atividades municipais, documentos administrativos e registros de serviços básicos, entre outros. Outra regra é não possuir nenhum antecedente criminal ou restrição de entrada no país.

A ministra da Inclusão, Segurança Social e Migração, Elma Saiz, informou que postos de atendimento da Seguridade Social e dos Correios serão instalados em toda a Espanha até 30 de junho para absorver a demanda. A intenção do governo é analisar cada pedido em até dois meses e meio, independentemente da nacionalidade do solicitante.

De acordo com o governo, a autorização inicial terá validade de um ano, com possibilidade de renovação, desde que os requisitos de manutenção sejam atendidos.

Para Renata Barbalho, CEO da Espanha Fácil, assessoria especializada em imigração, com atuação na Espanha e no Brasil e foco na regularização de brasileiros, a iniciativa é amplamente positiva.

“É uma medida acertada do governo espanhol e o país só tem a ganhar com essa medida, dando maior segurança jurídica para as pessoas que já trabalham e contribuem com a sociedade”.

Ela, contudo, chama a atenção para o prazo curto e para especificidades que cada comunidade migrante apresenta. “É fundamental dar entrada no processo da maneira correta para evitar negativas. No entanto, cada situação migratória possui características próprias. Por isso, analisar corretamente os requisitos antes da apresentação do pedido pode fazer diferença no resultado do processo, assim como contar com uma empresa especializada para guiar o trâmite”.

Embora o governo espanhol estima que mais de 500 mil migrantes serão impactados pela medida, a maioria deles da América Latina, Renata crê que o número real de beneficiados será maior ao final do processo.

Em reportagem publicada no MigraMundo em fevereiro, migrantes de diferentes nacionalidades que residem na Espanha apontaram que a regularização representa uma mudança decisiva em suas trajetórias e projetos de vida.

Justificativas econômicas

Segundo o premiê espanhol, a medida é um ato de “normalização” e de justiça para com os antepassados dos espanhóis que emigraram para a América e a Europa em busca de uma vida melhor nos séculos XIX e XX, e para com os muitos jovens que foram forçados a partir após a crise de 2008.

Sánches disse ainda que a Espanha, “como outros países europeus, está envelhecendo”, e sem mais pessoas trabalhando e contribuindo para o sistema, sua prosperidade diminui, sua capacidade de inovação enfraquece e seus serviços públicos – como saúde, previdência, educação – sofrem as consequências.

O próprio Banco da Espanha atribui a ela 80% do crescimento do PIB entre 2019 e 2024 e aponta que o país enfrenta uma necessidade de 2,4 milhões de postos de trabalho entre 2025 e 2035.

A isso se soma outro dado recentemente atualizado pelo Ministério da Inclusão: a Seguridade Social já ultrapassa 3,21 milhões de afiliados não-nacionais, e 42,9% dos empregos criados desde a reforma trabalhista correspondem a trabalhadores de outros países.

Oposição e outros empecilhos

Embora elogiada por acadêmicos, movimentos sociais e organizações humanitárias, a regularização migratória promovida pelo governo espanhol desperta a ira de setores da oposição – em especial os que possuem no rechaço à migração uma de suas principais bandeiras.

O Partido Popular (PP), de direita e principal legenda de oposição na Espanha, rejeitou o novo processo de regularização por considerá-lo “desumano” e “injusto”, além de considerar que a medida “alimeta o crime organizado”.

Outra legenda opositora, a ultradireitista Vox, disse que vai recorrer ao supremo Tribunal espanhol contra a proposta e lançou uma ação com o objetivo de “conscientizar sobre as consequências da imigração “em massa”. O partido também costuma dizer que essa regularização geraria um “efeito manada”, incentivando que outros migrantes venham de forma indiscriminada para a Espanha.

O pesquisador do Instituto Universitário de Estudos sobre Migrações, Yoan Molinero Gerbeau, contudo, conclui que a ciência não sustenta a ideia de um aumento automático de novas chegadas simplesmente pelo fato de regularizar. Tomando como base a última grande ação do gênero, realizada em 2005, o pesquisador concluiu que a redução da situação de irregularidade gerou menor vulnerabilidade, maior formalização do trabalho e aumento da arrecadação. Ou seja, o argumento mais repetido no debate é provavelmente o menos comprovado.

Os planos do governo podem ainda ser prejudicados por uma greve anunciada pelos escritórios de migração a partir de 21 de abril, em protesto contra a falta de participação dos trabalhadores desse setor no processo. Sindicatos de policiais também criticaram o uso de funcionários terceirizados para verificação das solicitações – o que, segundo eles, aumenta os riscos de fraude, erros ou deficiências na verificação da identidade e dos antecedentes dos requerentes.

Raízes sociais

Além das justificativas econômicas, o processo de regularização migratória na Espanha possui raízes mais profundas, que remontam às mobilizações de movimentos sociais no começo da pandemia de Covid-19.

Naquela época, diversos países – tanto europeus quanto o próprio Brasil – registraram iniciativas da sociedade civil para documentar pessoas migrantes. O objetivo era torná-las visíveis e, dessa forma, terem acesso aos serviços de saúde e colaborarem no combate à disseminação do vírus.

O caso modelo foi o de Portugal, que ainda em março de 2020 anunciou a regularização de migrantes indocumentados dentro do esforço de combate ao vírus. Já no mês seguinte, em abril, teve início a mobilização “Regularización Ya” (Regularização Já, em tradução livre) no contexto espanhol.

Em 2022, um movimento de quase mil organizações, liderado pelo Regularización Ya, iniciou a campanha “Esenciales” para promover uma Iniciativa Legislativa Popular (ILP) e levar a proposta de regularização ao Congresso, o que acabou ocorrendo de fato em março de 2024. Após um ano de campanha, a ILP reuniu mais de 700 mil assinaturas de apoio (eram necessárias 500 mil), com 611.821 assinaturas válidas certificadas, que foram apresentadas ao Legislativo.

Em abril de 2024, todos os grupos parlamentares votaram a favor da tramitação do ILP, com exceção do ultradireitista Vox. Desde então, a proposta aguardava aprovação pelo governo, o que acabou ocorrendo somente agora a partir do Decreto Real.

Para Renata Barbalho, outro ponto acertado com esse processo foi o de mantê-lo fiel a essa origem social. “O governo estruturou a medida com critérios amplos de acesso e manteve a base da proposta defendida por organizações sociais e coletivos migratórios nos últimos anos e isso é muito importante porque abre uma janela de oportunidade real para milhares de pessoas em situação irregular que trabalham e estudam na Espanha”.

Com informações de Deutsche Welle, Agenda Pública e El País


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Dois em cada três venezuelanos deslocados nas Américas não cogitam retorno ao país

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Venezuelanos são a nacionalidade mais presente entre os refugiados reconhecidos no Brasil. (Foto: Agência Brasil)
Foco da Operação Acolhida, venezuelanos são a nacionalidade mais presente entre os refugiados reconhecidos no Brasil. (Foto: Agência Brasil)

Uma pesquisa realizada pela Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) checou junto aos venezuelanos que migraram para outros países das Américas se cogitam retornar à terra natal. E os resultados, divulgados nesta semana, apontam que esse desejo ainda é minoritário junto a essa diáspora, que tem preferido permanecer nos locais de acolhida.

De acordo com o levantamento, pouco mais de um terço das pessoas entrevistadas na região indicou uma possível intenção de retornar para casa, com somente 9% considerando o retorno dentro de um ano. A principal motivação citada neste caso foi a reunificação familiar.

Por outro lado, 65% dos entrevistados descartaram um retorno à Venezuela, pelo menos não no atual momento. Para esse posicionamento pesam fatores como a reconstrução de suas próprias vidas no país de acolhida, bem como melhorias na segurança, no emprego e nos serviços essenciais disponíveis.

O Brasil é um dos locais que apresentam maior desejo de permanência por parte dos venezuelanos (70%). O país é o terceiro maior destino da diáspora venezuelana na América Latina e o quarto no continente americano como um todo, atrás somente da Colômbia, do Peru e dos Estados Unidos.

Os venezuelanos também são a nacionalidade mais contemplada com o status de refugiado no Brasil, com 148 mil casos reconhecidos. Considerando também aqueles que são solicitantes de refúgio com processos em andamento, pessoas com residência temporária ou outras formas de regularização migratória, o número chega a 732,3 mil, de acordo com a plataforma R4V, iniciativa da ONU que monitora a diáspora venezuelana no continente americano.

Para realização da pesquisa, o ACNUR entrevistou 1.288 venezuelanos no Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guatemala e Peru, entre janeiro e março deste ano. O levantamento completo, em inglês, pode ser consultado e baixado a partir do portal da agência da ONU.

Em novembro de 2025, segundo o ACNUR, 6,9 milhões de pessoas refugiadas e migrantes venezuelanas estavam acolhidas em países da América Latina e Caribe, incluindo 4 milhões que necessitavam de assistência.

Apelo por financiamento

A nova pesquisa divulgada também serve como um novo elemento para ajudar o ACNUR a pleitear recursos para financiamento de suas operações. Assim como outras instituições do sistema ONU, o ACNUR atravessa uma crise financeira que levou a cortes no orçamento, em projetos e na força de trabalho mundo afora.

Para 2026, a perspectiva da agência era de um orçamento de US$ 8,5 bilhões — 20% a menos do que em 2025 — além de 4.000 postos a menos e vários escritórios de campo fechados. Um cenário que faz o ACNUR depender ainda mais de doações voluntárias.

A redução global de recursos para ajuda humanitária, que já vinha se acentuando ao longo dos últimos anos, foi agravada em 2025 pela decisão do governo dos Estados Unidos ainda em janeiro de desmantelar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Além disso, a invasão russa na Ucrânia e o medo de que outros países sejam afetados levaram governantes europeus a redirecionar o dinheiro que antes ia para assistências humanitárias para reforçar o orçamento destinado às políticas de defesa nacional.

No caso específico dos venezuelanos, o ACNUR informa que necessita de um total de US$ 328,2 milhões para continuar apoiando projetos voltados a essa população no continente americano e na própria Venezuela. No final de março, esse valor era de 12% financiado.

Segundo a agência, “dependendo dos recursos disponíveis, o ACNUR planeja continuar monitorando regularmente as intenções de retorno entre os venezuelanos” para antecipar as tendências populacionais emergentes e orientar a resposta humanitária junto a essa comunidade.


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A aposta da Costa do Marfim e de outras seleções africanas nos “filhos da diáspora” para a Copa do Mundo

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Jogadores da seleção de futebol da Costa do Marfim, que conta com muitos atletas nascidos fora do país. (Foto: Divulgação/FIFA)

Por Guilherme Freitas

Na última Data FIFA, entre os dias 23 e 31 de março, a seleção de futebol da Costa do Marfim disputou e venceu dois amistosos realizados na Inglaterra. Golearam a Coreia do Sul por 4 a 0 e depois bateram a Escócia por 1 a 0. A equipe, que já está classificada para a Copa do Mundo, vem tendo bons resultados nos últimos anos com destaque para o título da Copa Africana de Nações em 2024. O elenco, que conta com diversos atletas de equipes tradicionais do futebol europeu, poderá ter um “upgrade” com vistas para o Mundial.

Essa melhoria técnica atende pelos seguintes nomes: Ange-Yoan Bonny, Elye Wahi e Martial Godo. Os três foram convocados pelo técnico Emerse Faé para a seleção principal e têm duas características bem semelhantes: nasceram na Europa e atuam por clubes do continente. Bonny nasceu em Aubervilliers, na França, e atualmente defende a Inter de Milão. Wahi é natural de Courcouronnes, também na França, e é atleta do Nice. Já Godo tem a cidade de inglesa de Greenwich como local de nascimento e é atacante do Strasbourg.

O trio, assim como outros veteranos da seleção nacional como o ídolo Sébastien Haller, por exemplo, são descendentes de migrantes oriundos da Costa do Marfim. São os chamados “filhos da diáspora”. Esses atletas fazem parte de um contingente incalculável de seres humanos que são descendentes de migrantes, estes, que foram para o continente europeu através de múltiplas ondas migratórias a partir do século 20.

A Costa do Marfim não é a única seleção do mundo a adotar esta estratégia de “repatriação”. No futebol africano vêm sendo cada vez mais comuns seleções nacionais mapearem potenciais talentos espalhados pela Europa e os convidarem para defender a pátria de seus antepassados. A ótima geração marroquina, que chegou às semifinais da última Copa do Mundo, adotou essa tática e conta com um plantel recheado de jogadores nascidos em solo europeu. Mesmo investindo muito dinheiro em novos estádios e modernos centros de treinamento, em vista da realização do Mundial de 2030 no país em conjunto com Portugal e Espanha, os marroquinos seguem observando potenciais craques que se encaixam neste perfil.

Essa mesma estratégia também é muitas vezes apoiada pelo próprio Estado, mostrando como o futebol pode ser uma importante ferramenta de orgulho nacional. O governo de Gana, por exemplo, criou em 2019 uma campanha chamada “Ano do Retorno” que tinha como objetivo convidar membros da diáspora africana, especialmente das Américas, a visitar, investir e viver em território ganense. Inspirada nessa ação governamental, a Federação Ganesa de Futebol criou um programa de mapeamento de talentos no futebol europeu e obteve sucesso ao “repatriar” atletas de expressão, sendo o caso mais famoso o do atacante Iñaki Williams, nascido na Espanha e ídolo do Athletic de Bilbao.

Todos estes jogadores atenderam ao convite de federações de futebol por variados motivos. Em alguns casos há o interesse em realizar o sonho de jogar uma Copa do Mundo, mas em outros há o genuíno interesse de representar um país onde exista um vínculo afetivo. Trata-se de uma questão identitária que colide, inclusive, com aspectos sociais, já que muitas comunidades migrantes são marginalizadas e desprezadas pelos governos e sociedades da Europa. Trata-se de um caldeirão de complexidade e algo impossível de ser explicado em um simples texto como este.

A Copa do Mundo, que começa dia 11 de junho, será um grande caso para podermos aprofundar e compreender ainda mais esta discussão. Se nos últimos anos existiram muitas análises e discussões sobre o multiculturalismo nas seleções europeias com seus atletas descendentes de migrantes, agora parte desses jogadores faz o caminho de “volta para a casa”, reforçando as seleções de seus antepassados e mostrando como o futebol, identidade e fluxos migratórios não só dialogam entre si, como também são complexos e totalmente dinâmicos.

Sobre o autor

Guilherme Freitas é doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo e pesquisador sobre fluxos migratórios e sociologia do esporte

Projeto de Lei visa regulamentar situação de migrantes sazonais no Brasil

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Trabalhadores durante colheita de uva no Rio Grande do Sul, com a presença de auditor fiscal do trabalho. (Foto: Arquivo MTE)

Um Projeto de Lei que acabou de ser protocolado no Congresso Nacional – mais exatamente na Câmara dos Deputados – visa regulamentar a situação de pessoas que se deslocam de outras regiões do Brasil e do exterior para trabalhar no setor agrícola – os chamados migrantes sazonais.

O PL 1649/2026 atualiza a Lei de Migração (13.445/2017) com o objetivo de estipular regras claras que assegurem condições dignas para essa migração laboral temporária. A ausência desses parâmetros gera insegurança jurídica e expõe os trabalhadores a situações de vulnerabilidade, como trabalho análogo à escravidão. Além disso, também cria empecilhos para a atividade econômica que depende dessa migração temporária.

Atividades agrícolas que dependem de migrantes sazonais – tanto internos quanto internacionais – podem ser encontradas em estados como Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Na Serra Gaúcha, por exemplo, plantações de uva, tabaco, maçã, trigo e arroz dependem desse reforço para que as colheitas sejam feitas dentro do prazo devido.

Segundo projeção da FETAR (Federação dos Trabalhadores Assalariados do Rio Grande do Sul), até 28 mil trabalhadores migrantes sazonais eram esperados no Estado em 2025, contra 18 mil do ano anterior.

Foi de olho nessa realidade que a deputada federal Denise Pessoa (PT-RS) apresentou o projeto. “O Brasil já convive com a migração sazonal, especialmente nas regiões agrícolas, mas ainda não tem uma legislação específica para dar segurança a todos os envolvidos. Nosso projeto reconhece esses trabalhadores e organiza essa dinâmica, com regras claras”, afirmou ela, em seu site oficial.

O que prevê o projeto

Entre os principais pontos, o PL prevê a criação de visto temporário específico para trabalho sazonal no setor agrícola, com validade de até cinco anos e possibilidade de múltiplas entradas no país, acompanhando os períodos de maior demanda por mão de obra.

A proposta também estabelece que a concessão desse visto deve ser articulada com o Sistema Nacional de Emprego (SINE), em diálogo com empregadores e trabalhadores, para definir as atividades permitidas e o tempo de permanência. Outro eixo central do projeto é a garantia de transparência e de condições adequadas de trabalho.

Ainda segundo o PL, os empregadores deverão assegurar informações claras sobre salários, jornada, saúde e segurança, além de garantir alojamento adequado durante o período da atividade.

Na justificativa para o PL, a parlamentar ressaltou que “reconhecer juridicamente o migrante sazonal é reconhecer sua existência concreta, sua contribuição histórica para a economia nacional e seu direito a condições dignas de trabalho”.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego revelam que, desde 1995, mais de 57 mil pessoas foram resgatadas de condições análogas à escravidão no Brasil, sendo 76% (43.906 trabalhadores) na agropecuária.

Uma vez protocolado junto à Câmara, o projeto começa agora a tramitar em comissões internas na Casa. Caso aprovado pelos deputados, o PL ainda precisa também passar pelo crivo do Senado.

Debate na Câmara e trabalho de campo

A parlamentar também foi uma das idealizadoras de uma audiência pública que debateu o tema em outubro do ano passado na Comissão de Assuntos Econômicos da Câmara dos Deputados.

Representantes do governo federal presentes ao debate – tanto do Ministério da Justiça quanto do Itamaraty – argumentaram que a migração laboral para fins sazonais já seria atendida por elementos como a Resolução Normativa 02, em vigor desde 2017, ou pelo artigo específico da Lei de Migração que trata dos tipos de visto temporário.

Os demais convidados para o debate, no entanto, ressaltaram a necessidade de uma normativa apta a atender sobretudo o setor agrícola, como uma portaria específica ou mesmo um projeto de lei.

Somente em 2024, mais de 2 mil trabalhadores foram resgatados, com destaque para atividades sazonais como o cultivo de café (214 trabalhadores), cultivo de cebola (194) e horticultura (84).

Segundo dados da auditoria fiscal do trabalho apresentados nessa audiência pública na Câmara, 131 nacionais de países do Mercosul foram resgatados de condições análogas à escravidão apenas em 2024.

Além do debate no Legislativo, outra atividade que ajudou a embasar o projeto de lei foi um seminário promovido em agosto de 2025 pelo Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) e pela 4R Consultoria Migração e Refúgio junto a três municípios do Paraná (Marechal Cândido Rondon, Iporã, Goioerê) e um de Mato Grosso do Sul (Mundo Novo).

O seminário, que reuniu agricultores, empresários, produtores rurais e lideranças locais, teve como objetivo principal debater a formalização da contratação de mão de obra no setor da mandioca. A atividade destacou de forma especial a presença significativa de migrantes paraguaios e os desafios e oportunidades ligados ao cumprimento da legislação trabalhista e migratória.

Um dos encaminhamentos feitos a partir do seminário foi a busca de uma resolução sobre trabalho temporário de migrantes em regiões de fronteira.


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Agência da ONU para refugiados palestinos troca de comando em meio a pressões e crise financeira

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Instalação da Agência da ONU para refugiados plaestinos (UNRWA) destruída em Gaza. (Foto: Divulgação/UNRWA)

Por Gustavo Cavalcante

A Agência da ONU para os refugiados palestinos (mais conhecida pela sigla em inglês UNRWA) vive um de seus momentos mais críticos, tanto do ponto de vista financeiro quanto institucional. É nesse contexto que a entidade trocou recentemente de direção, com a saída antecipada do suíço Philippe Lazzarini e a volta à cena do britânico Christian Saunders como chefe de uma estrutura essencial para milhões de palestinos em meio à guerra e ao agravamento da crise humanitária local.

Essa atuação da UNRWA segue sendo considerada peça-chave sobretudo na Faixa de Gaza, onde a população civil enfrenta deslocamento massivo e colapso de serviços básicos. A combinação entre aumento das necessidades, limitações operacionais no terreno e desafios estruturais da própria agência contribui para um ambiente de alta complexidade, no qual a continuidade das operações depende de fatores que vão além da capacidade técnica da organização.

A gestão anterior, liderada por Lazzarini desde 2020, foi marcada por crises sucessivas que ajudam a dimensionar o cenário atual. Durante seu mandato, a agência enfrentou não apenas dificuldades financeiras crescentes, mas também o impacto direto da guerra iniciada em outubro de 2023, que já resultou na morte de quase 400 funcionários da UNRWA e na destruição de parte significativa de sua infraestrutura, além de dezenas de milhares de vítimas civis em Gaza.

O ingresso de Christian Saunders no comando da UNRWA é precedido de uma longa trajetória dentro do sistema das Nações Unidas, que inclui a própria agência voltada aos palestinos. Desde 2022, o britânico atuava como coordenador especial para o aprimoramento da resposta da ONU à exploração e ao abuso sexual, função voltada à supervisão de políticas institucionais e mecanismos de responsabilização. Antes disso, ocupou cargos de alto escalão, como secretário-geral adjunto em áreas operacionais e de apoio estratégico.

Saunders já atuou anteriormente na UNRWA, em 2019, na função de comissário-geral interino, em substituição ao suíço Pierre Krähenbühl, que era alvo de denúncias de irregularidades administrativas. Com um histórico de familiaridade com a estrutura e o funcionamento da agência, a expectativa é de que o britânico tenha uma atuação voltada à eficiência administrativa e à priorização de ações consideradas essenciais para a continuidade das atividades.

Christian Saunders, novo chefe da UNRWA.
(Foto: UNRWA)

Cenário atual da UNRWA

Criada em 1949, a UNRWA mantém atualmente suas operações em cinco territórios — Jordânia, Síria e Líbano, além da Cisjordânia e Faixa de Gaza, ambos territórios palestinos ocupados por Israel. Nesses locais, presta assistência direta a cerca de 6 milhões de refugiados de origem palestina. Ela se consolidou como uma das principais estruturas de apoio humanitário da região, atuando em áreas como educação, saúde e distribuição de alimentos, especialmente em contextos de crise prolongada.

Na Faixa de Gaza, onde a guerra iniciada em outubro de 2023 intensificou uma situação já considerada crítica, a atuação da agência ganhou ainda mais centralidade. A ONU e outras organizações internacionais classificam a UNRWA como a principal responsável por sustentar a rede de serviços básicos para a população local, em meio à destruição de infraestrutura civil e ao deslocamento em massa de moradores dentro do território.

Os impactos do conflito também atingem diretamente a própria estrutura da agência. Desde o início da guerra, 390 funcionários da UNRWA foram mortos, segundo declarações públicas da gestão anterior. Além disso, diversas instalações da ONU foram danificadas ou destruídas durante as operações militares, comprometendo a capacidade de resposta humanitária em diferentes pontos da Faixa de Gaza.

Ao mesmo tempo, a demanda por assistência cresce em ritmo acelerado. O avanço das operações militares e as restrições de circulação têm ampliado o número de pessoas deslocadas internamente, pressionando ainda mais os serviços oferecidos pela UNRWA. Em muitos casos, famílias inteiras passaram a depender exclusivamente de ajuda para acesso a itens básicos de sobrevivência.

Pressão política, acusações e crise de financiamento

Quando Saunders liderou a UNRWA provisoriamente, em 2019, a questão financeira já era um problema latente. No entanto, a situação atual é bem mais grave e se junta a limitações crescentes de atuação, sobretudo exercidas por Israel. O país que ocupa os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia afirma constantemente que a agência serve de esconderijo para integrantes do Hamas, grupo que arquitetou o ataque de 7 de outubro de 2023 e foi o estopim para a guerra que devastou Gaza por completo. O governo liderado atualmente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu defende ainda a dissolução da UNRWA e que os palestinos por ela assistidos passem para o mandato de outra agência das Nações Unidas, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

A UNRWA nega veementemente as acusações e publicou um relatório em dezembro de 2024 em seu site oficial para desmentir cada uma delas. Além do afastamento preventivo ainda em janeiro de 2024 de dez funcionários acusados de envolvimento nos ataques, a ONU designou duas comissões para investigação das acusações de Israel: uma da própria ONU e outra de um grupo independente, liderada pela ex-ministra das Relações Exteriores da França Catherine Colonna.

Esses processos identificaram questões relacionadas à neutralidade institucional em alguns casos específicos, mas não apresentaram comprovação conclusiva das principais acusações de envolvimento sistemático da agência com grupos armados. Ainda assim, o impacto político das denúncias contribuiu para ampliar o isolamento da UNRWA em determinados contextos.

Paralelamente à pressão política, a agência enfrenta uma crise financeira que se intensificou nos últimos anos. Um dos marcos desse processo foi a suspensão do financiamento por parte dos Estados Unidos, sob ordem do presidente Donald Trump, decisão que afetou diretamente o orçamento da organização. A partir desse momento, a UNRWA passou a operar com maior dependência de contribuições voluntárias de outros países e parceiros internacionais.

Saunders (d), novo chefe da UNRWA, em visita a campo de refugiados palestinos na Jordânia.
(Foto: Divulgação/UNRWA)

No final de 2024, o Knesset – como é chamado o Parlamento israelense – aprovou o banimento da UNRWA tanto de Israel quanto da Cisjordânia e de Gaza. A medida, fortemente criticada pelas Nações Unidas e parte da comunidade internacional, impediu o contato da UNRWA com autoridades israelenses e resultou na evacuação de suas equipes internacionais para a Jordânia. O Parlamento israelense também suspendeu o fornecimento de vistos diplomáticos e facilidades cedidas até então à entidade.

Ao encerrar sua gestão, Lazzarini alertou para o risco de colapso da agência, relacionando a situação à combinação entre destruição de infraestrutura, pressão política e restrições financeiras. Ele afirmou que, caso a comunidade internacional não mantenha o apoio à UNRWA, as consequências poderão se estender por gerações, afetando diretamente a capacidade de assistência.

Diante desse cenário, o secretário-geral da ONU, António Guterres, tem reiterado a necessidade de manutenção do apoio internacional à UNRWA. Em comunicados oficiais, ele destacou a importância do compromisso dos Estados-membros para garantir a continuidade das operações da agência em uma região caracterizada por instabilidade e crescente necessidade humanitária.

Desde outubro de 2023, 72 mil pessoas morreram em Gaza, mas o número real pode ser ainda maior em razão de vítimas que ainda podem estar sob os escombros. Cerca de 90% da população do território – estimada em 2 milhões de habitantes – está em situação de deslocamento forçado. Além disso, cerca de 36 mil palestinos sofreram a mesma condição na Cisjordânia em razão do avanço do controle israelense sobre o território, o que levou a ONU a alertar para o risco de limpeza étnica na região.


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Entre o humanitário e o controle: o que revela o novo relatório sobre vistos humanitários no Brasil

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Painel “Fórum Nacional: Vistos Humanitários no Brasil: História, Desafios e Boas Práticas", que ocorreu em São Paulo em março de 2025. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Por Natalia Cintra, Patricia Martuscelli, Svetlana Ruseishvilli, Ana Maria Augusti e Rafael Faustino

Em 2012, o Brasil se destacou internacionalmente com a criação inédita de um visto para pessoas provenientes do Haiti com necessidade de acolhimento, à época denominado humanitário. Após o terremoto de 2010 que acometeu o Haiti, milhares de pessoas se viram sem opção a não ser deixar o país. O Brasil foi, naquele momento, um dos principais destinos. Sem opções de visto, haitianos cruzavam a fronteira entre o Brasil e o Peru indocumentados e solicitavam refúgio. Em 2012, o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) criou um visto que visava estabelecer uma rota segura, direta e regular entre Brasil e Haiti, sem que haitianos precisassem recorrer a redes de contrabando de migrantes ou ao cruzamento de fronteiras de maneira irregular.

Em paralelo, uma das principais nacionalidades entre os refugiados no mundo eram os sírios, que naquele momento fugiam do violento conflito armado em seu país. Igualmente, essa nacionalidade não tinha opções seguras para se deslocar até o Brasil, razão pela qual o Comitê Nacional para Refugiados (CONARE) criou, em 2013, um visto com fins humanitários para possibilitar a chegada de sírios ao Brasil, a fim de que pudessem pedir refúgio. Os vistos para sírios e para haitianos foram os únicos ‘vistos humanitários’ criados pelo Brasil até 2021, quando foram ampliados para afegãos, e em 2022, para ucranianos.

Essa narrativa sobre a criação, a importância e o desenvolvimento dos vistos humanitários não é novidade. No entanto, ela só representa uma das possíveis versões sobre o que de fato são os chamados vistos humanitários, incluindo os diferentes usos e consequências de sua aplicação em cada caso. Contudo, ainda havia necessidade de entender como e por que são aplicados esses vistos, qual sua correlação com o instituto do refúgio e da reunião familiar, e quais os atores envolvidos nessa política.

São estas algumas das perguntas feitas no âmbito do projeto Mapeamento da Política de Vistos Humanitários no Brasil (Mapping the Humanitarian Visa Policy in Brazil), financiado pelo International Science Partnerships Fund (ISPF), fundo do Conselho de Pesquisa Econômica e Social do Reino Unido, que é parte do UK Research and Innovation; (ESRC/UKRI), co-coordenado entre as Universidade de Sheffield e Universidade de Southampton, no Reino Unido, e a Universidade Federal de São Carlos, no Brasil. Neste projeto, nós mapeamos e reunimos os principais atores relacionados à política de vistos e acolhida humanitária no Brasil, no primeiro Fórum Nacional sobre Vistos Humanitários em março de 2025, em São Paulo-SP, realizado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), justamente para construir um marco conceitual sobre vistos humanitários e estabelecer uma agenda de pesquisa até então pouco explorada. Os principais resultados deste projeto encontram-se no seu Relatório Final recém-publicado (em português, em inglês e em versão resumida).

O relatório destaca como a narrativa de partida, apresentada no início deste texto, se encontra superada. A pesquisa demonstrou como os vistos humanitários são altamente polissêmicos: sendo tanto um instrumento humanitário quanto um mecanismo de controle migratório; tanto um imperativo ético-normativo quanto um instrumento responsivo aos interesses estatais. Os atores envolvidos na pesquisa, sejam migrantes, atores governamentais, membros da sociedade civil organizada, atores de polícia, e membros de organizações internacionais destacaram ainda como a aplicabilidade dos vistos humanitários, apesar de realizada pelo Estado de forma discricionária de acordo com conjunturas e interesses políticos, segue uma lógica de austeridade e de terceirização da responsabilidade governamental para a sociedade civil; e que seu uso é racializado, isto é, contém seletividade de viés nacional/racial, excluindo, por exemplo, populações de origem africana.

Desde a sua criação, a natureza e aplicação desses vistos mudaram substancialmente. Como apresentado anteriormente, o percurso dessa política é pouco linear, demonstrando uma disputa política sobre sua ampliação, redução e regulamentação, marcada por ganhos e perdas de benefícios e direitos promovidos por instrumentos legais distintos. Neste relatório, demonstramos que, muito embora o número de nacionalidades beneficiadas por esta política tenha sido ampliado entre 2012 e 2025, houve um aumento da distância entre a política de vistos humanitários prevista na Lei de Migração, n. 13445/2017, e sua prática. Isto se deve  ao progressivo crescimento do grau de discricionariedade estatal no estabelecimento desses vistos, o que não apenas consolidou e restringiu esses vistos a nacionalidades ‘escolhidas’ pelo governo brasileiro, mas incrementou ainda mais a complexidade na sua emissão, tornando-os mais inacessíveis – o que foi consolidado com o atrelamento dos vistos ao acolhimento por organizações da sociedade civil conveniadas ao Estado brasileiro. Sua (in)acessibilidade, diga-se de passagem, é substancialmente importante, principalmente considerando a intenção legal de sua criação, isto é, a de oferecer rotas seguras para proteção de pessoas migrantes.

Este relatório destacou ainda uma das maiores mudanças nessa política, isto é, a vinculação da emissão de vistos humanitários ao ‘patrocínio’ de uma organização autorizada pelo governo brasileiro. Oficialmente chamada de patrocínio comunitário, essa inovação foi iniciada com pessoas provenientes do Afeganistão e, em dezembro de 2025, se expandiu para todas as nacionalidades ‘beneficiadas’ com a política de vistos humanitários, limitando e dificultando o acesso a esses vistos de maneira exponencial. Usando a máscara de ‘humanitário’ e ‘benevolente’, este instrumento, da maneira como está sendo aplicado pelo país, se insere numa lógica securitária por uma orientação à austeridade nos gastos relacionados com proteção internacional a (seletos) não-nacionais. Essa dinâmica consolida uma tendência de diluição de responsabilidades estatais e cria incentivos para o surgimento de uma indústria público-privada de recepção migratória e humanitária no país. Tal realidade leva a uma pergunta adjacente, feita no âmbito do Fórum Nacional por um migrante de nacionalidade não beneficiada por essa política, qual seja, será que vale a pena lutar para a criação de vistos humanitários para outras nacionalidades?

Os vistos humanitários apontam ainda para a necessidade de revisitar outros instrumentos de proteção internacional ou mobilidade segura, tais como o refúgio e a reunião familiar. Em relação ao refúgio, os vistos humanitários, apesar de possuírem potencial para atuarem como instrumento complementar, não têm concretizado essa realidade. Isto se dá porque os vistos humanitários ora são implementados como complementares ao refúgio, permitindo o acesso seguro ao território, ora como alternativas ao refúgio, permitindo uma regularização migratória célere, porém sem o mesmo nível de proteção do refúgio. De maneira similar, os vistos humanitários têm sido frequentemente utilizados como alternativa à reunião familiar, cuja implementação tem se mostrado limitada na prática, sobrecarregando a estrutura dedicada aos vistos humanitários e dificultando o acesso efetivo ao direito à família por parte de migrantes e refugiados.

Diante desse cenário, torna-se evidente que os vistos humanitários no Brasil estão longe de constituírem um instrumento unívoco de proteção, pois são atravessados por disputas políticas, seletividade e tensões entre acolhimento e controle. Compreender essas dinâmicas é fundamental para repensar os rumos dessa política e seus impactos sobre as pessoas que dela dependem. Convidamos você a acessar o relatório completo do projeto, onde apresentamos em detalhe nossas análises e recomendações, e a se engajar nesse debate essencial sobre mobilidade, proteção e direitos.

Sobre os autores e autoras

Natalia Cintra é pesquisadora pós-doutoral pela British Academy no departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Southampton, no Reino Unido, codiretora do Centro de Etnografia Política e copesquisadora no projeto Mapeamento da Política de Vistos Humanitários no Brasil.

Patrícia Nabuco Martuscelli é professora de Relações Internacionais e diretora do Migration Research Group na Universidade de Sheffield, no Reino Unido, e pesquisadora principal no projeto Mapeamento da Política de Vistos Humanitários no Brasil.

Svetlana Ruseishvili é professora no Departamento de Sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), coordenadora do grupo de pesquisa InterMob e da Cátedra Sérgio Vieira de Mello na UFSCar e copesquisadora no projeto Mapeamento da Política de Vistos Humanitários no Brasil.

Ana Maria Augusti é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e mestranda em Sociologia na UFSCar. Integra o grupo de pesquisa InterMob e é assistente de pesquisa no projeto  Mapeamento da Política de Vistos Humanitários no Brasil.

Rafael Faustino é mestre e doutorando em Sociologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Integra os grupos de pesquisa InterMob e Nerep e é pesquisador assistente no projeto Mapeamento da Política de Vistos Humanitários no Brasil.


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Global Mobility não move pessoas, são as pessoas que se movem

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Foto: Timon Studler/Unsplash

Por Danyel Andre Margarido

A Mobilidade Global é muito maior do que um departamento dentro de uma empresa, chamado “Global Mobility”.
Não é, por natureza, um processo, embora seja frequentemente traduzido como tal no mundo corporativo.

De fato, a mobilidade não está apenas em levar pessoas de um país a outro, ou de uma região a outra. Ela está na capacidade do indivíduo de ser móvel, de transitar, de se deslocar, de se reconstruir em outro contexto.

Isso significa deixar para trás casa, rede de apoio, referências culturais. Significa se colocar no desconhecido e, muitas vezes, em um cenário de solidão, ou sem os códigos necessários para compreender o dia a dia de um novo país. Submergir em outro ambiente é muito mais do que seguir um processo.

No contexto corporativo, o departamento de Global Mobility estrutura processos e ferramentas para viabilizar essa transição. Mas a mobilidade não começa ali e nem depende disso para existir. Pessoas se movem com ou sem apoio corporativo. E é justamente por isso que o tema precisa ser compreendido em um contexto mais amplo.

Existe um cenário global em que talentos estão distribuídos pelo mundo, e não concentrados em um único país. Isso abre uma provocação importante: como as empresas podem usar o conhecimento de Global Mobility não apenas para movimentar pessoas, mas também para atraí-las?

Porque, no fim, a Mobilidade Global não está no processo. Está no movimento, na capacidade humana de ser móvel – seja por carreira, necessidade ou propósito.

Miopia

Caso olhemos para Global Mobility somente com as lentes da movimentação de expatriados, podemos ter uma impressão muito enviesada (e, muito excludente) do que a movimentação de pessoas pelo mundo realmente trata.

Por outro lado, não é errado olhar com as lentes corporativas para este tema – o grande ponto é usar essas lentes para focar tanto, que esquece-se dos demais nichos que formam a movimentação de pessoas pelo mundo. A ponto de, como crianças, podermos focar tanto em algo com uma lente que, por desconhecimento ou por intenção, atrapalha a formiga que só queria fazer o seu trabalho.

Há um equilíbrio — que varia de cenário a cenário — entre o Valor (custos, investimentos, retornos financeiros e corporativos) e a Experiência (carreira, ganhos invisíveis, impactos na vida do profissional, impactos na vida da família), que, de maneira cíclica, traz à discussão se mover pessoas, nacional ou internacionalmente, em um contexto empresarial, faz realmente sentido. Se por um lado a visão da empresa, de custos e investimentos, pesa muito, por outro lado há o interesse de movimentação de uma pessoa – que, pode, muitas vezes forçar o investimento em uma movimentação internacional.

Há o interesse individual – humano, no sentido mais amplo e mais íntimo – de mudar. Todos já contemplaram sobre, muitos pediram que as empresas onde trabalham os apoiassem no cumprimento deste desejo. E muitos desses não aproveitaram tudo o que podiam.

O eixo que empurra toda essa linha para frente está na pessoa – mesmo que para o advisor de Mobilidade Global, o seu maior cliente seja o negócio, e não a pessoa expatriada – e por ser a pessoa o principal vetor, este deve ser o ponto de partida quando se olha a arte que é movimentar pessoas pelo mundo.

“I still haven’t found what I’m looking for.” – U2

Para começar, por que pessoas decidem se mudar de país?

Essa decisão não vem em busca do desconhecido. É mais verdadeiro alguém decidir-se a movimentar-se pela ilusão de que a grama do vizinho é mais verde do que pela realidade que aguarda essa pessoa em outro país. É muito mais pela expectativa de melhora do que pelo real cenário local. Mudar para outro país nasce no desconforto, ou melhor, no nível tolerado de desconforto de alguém, em relação à sua terra, seu povo e sua comunidade – seja ela qual for, do que pela realidade local.

Em paralelo: O brasileiro é um povo quase “nômade”. Desde 2020 houve um crescimento de 9,5% no número de brasileiros vivendo no exterior. Os campeões de brasileiros são a América do Norte (principalmente os EUA, em torno de 2 milhões de pessoas) e a Europa (Portugal, Reino Unido e Espanha, cerca de 1,6 milhão). Por outro lado, olhando os dados da ONU, o Brasil aparece entre as posições 15 e 20 no International Migrant Stock (ONU), o ranking que olha qual dos países que acumulou mais pessoas vivendo fora ao longo do tempo. Nessa lista, o Top5 é:

  1. Índia → 18 milhões
  2. México → 11 milhões
  3. Rússia → 10 a 11 milhões
  4. China → 10 milhões
  5. Síria → 8 milhões

O mais interessante é olhar que esse número de pessoas não é de expatriados, mas inclui expatriados. Por mais que recebam benefícios invejáveis para poderem mudar de país, expatriados ainda são migrantes – mesmo que uma parcela deles se esconda sob a expatriação como algo que apagasse a mensagem de que deixou seu país natal, ou país atual, para outra oportunidade, em outro país.

O desconforto com a situação atual é o que move o indivíduo a buscar outras oportunidades, mesmo que não sejam, puramente, melhores, mas buscam algo diferente. Seja por um desconforto com a carreira atual, seja por conflitos e guerras, sejam por mudanças climáticas, seja por maior segurança, seja por maiores acessos, sejam questões espirituais – as razões são várias, mas todas nascem do desconforto. E qual o nível de tolerância aceitável a este desconforto.

Quando se entende o desconforto que impulsiona essa mudança de país, é necessário entender que a movimentação em si necessita de um acolchoamento ao adentrar na nova atmosfera de um novo país, de uma nova região, de uma nova cidade… de uma nova cultura. A chegada ao novo cenário está banhada em desconforto, e, com isso, vem o impacto (o choque cultural), vêm os impactos de um dia a dia diferente (ainda é necessário pagar contas, ir ao banco, ser um membro responsável da nova sociedade à qual se integrou). As lentes do turista são frágeis, e seus cacos precisam ser desfeitos, para que a visão não fique turva – é uma nova realidade, não precisa de lentes para ser vista.

A construção de uma nova identidade, de novas relações e de uma nova rotina vem com o tempo. Após o desconforto da saída, há o desconforto da chegada, muitas vezes mascarado pelos ganhos rápidos da mudança, mas que, após alguns meses, atinge com força o indivíduo. E, dependendo do grupo familiar, toda a sua família, não só os que acompanham, mas os que ficam na Origem também.

Nem toda a movimentação é escolha, mesmo que nasçam do mesmo lugar. Os níveis de desconforto podem ser vários a impulsionar uma movimentação. A mobilidade forçada de pessoas é um tema que para a Mobilidade Global latina é ainda distante, mesmo com o acesso a notícias globais de pessoas buscando refúgio em outros países por conflitos em seus países de origem, e, ainda em menor escala, de pessoas deixando seus países, ou mesmo cidades, de origem por crises climáticas. Forçada ou não, a movimentação de pessoas pelo mundo acontece e continua.

Com tantas camadas e fatores, com tanta complexidade e tanta história envolvidas na movimentação de pessoas pelo mundo, não é possível que seja tratada como algo simples.

“Não podemos resolver problemas com o mesmo nível de pensamento que os criou” – Einstein, A.

Resolver uma situação complexa e multidisciplinar como a Mobilidade Global requer muito mais que soluções simples – não é só emitir o visto e pronto. A vida de um indivíduo está em pauta, e, normalmente, acompanhada de mais indivíduos, e por ser uma vida (ou mais) tem suas complexidades inerentes, que trazem à tona “a dor e a delícia” da vida.

Há de se entender as empresas colocando a Mobilidade Global em trilhos a serem seguidos pela pessoa expatriada. A previsibilidade, os custos, a eficiência e o controle, todos juntos, pedem em uníssono que o departamento de Global Mobility traga políticas e acompanhamentos e follow-ups, de modo que esse coro uníssono seja satisfeito – e com razão. As empresas que movem pessoas pelo mundo precisam ter esse tipo de controle, precisam saber quanto custa, e precisam saber quanto investir.

Entretanto, ao mesmo tempo, a mobilidade das pessoas é imprevisível, quase subjetiva – afinal também nasce do desconforto, mesmo que dentro das regras corporativas. Sua não-linearidade é quase rebelde, mesmo que os padrões corporativos tentem segurá-la. Quantos advisors de Global Mobility já tiveram que adaptar processos, satisfazer demandas, escalar temas, para que o processo possa ser feito, para que a pessoa expatriada se mantenha no processo que custa quase três vezes mais que um trabalhador local.

Esse equilíbrio entre a Adequação Corporativa e a Imprevisibilidade da Mobilidade é o que torna o departamento de mobilidade global das empresas tão bem visto quanto mal visto. Tão acostumado a resolver problemas e demandas e tão acostumado a ser caro. E, olhando para os demais tipos de Mobilidade Global, ainda assim não tão difíceis.

Quando uma pessoa é forçada a deixar o seu país e mudar-se (às vezes, urgentemente) para outro país, não é a simples chegada no país de destino que traduz o sucesso e a finalização desta jornada toda, mas, sim, após a chegada, sua adaptação. A satisfação do desconforto inicial. O mesmo acontece na mobilidade de talentos – o que o departamento de Global Mobility faz nas empresas – não é simplesmente chegar e começar a trabalhar, mas sim a adaptação, o pouso, após os meses iniciais (um ou dois anos depois do visto carimbado no passaporte).

O processo da movimentação de pessoas já está até “batido”. Visto, Impostos, Documentos, Contrato de Trabalho, Contrato de Aluguel, Escola, Relocation, tudo o que é parte da chegada da pessoa expatriada. Isso é onde as empresas atuam. Mas o acolchoamento, a adaptação, a mobilidade – capacidade de se movimentar – em outro país propriamente dito é o que torna a Movimentação de Pessoas pelo Mundo em uma arte.

“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.” – Provérbios 16:9

A movimentação de pessoas pelo mundo carece do olhar estratégico – e, porque não, artístico – sobre o que realmente importa: pessoas.

Utilizando-se das ferramentas básicas (no melhor e mais nobre sentido da palavra) e necessárias para a movimentação de pessoas, o que acontece depois que essa parte acaba? O visto é carimbado, o contrato assinado, a família chega, e o que acontece depois? Renovações e extensões? É necessário olhar para o indivíduo migrante, a pessoa em questão, e do ponto de vista de Movimentação de Pessoas ver que o movimento continua. A Transição ainda está acontecendo. A ponte precisa ser feita – dentro das empresas, entre o negócio (cliente) e a pessoa expatriada, entre o movimento e o processo, entre a Arte e a Ciência, ambos formando o que é a Movimentação de pessoas.

São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.– Alvo Dumbledore

Se a mobilidade nasce do desconforto e se sustenta na adaptação, então o papel de Global Mobility precisa evoluir junto com essa realidade. Não apenas como guardião de processos, seguidor de políticas, mas como facilitador de transições humanas. Entre o processo e o movimento, entre a ciência e a arte, existe uma responsabilidade silenciosa: garantir que essa travessia aconteça para quem a vive. Porque, no fim, não são posições sendo movimentadas – mas histórias em transformação, dentro e fora das empresas.

Sobre o autor

Danyel Andre Margarido possui mais de quinze anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na Suzano. Já coordenou a movimentação de mais de 2.000 famílias pelo mundo, oferecendo suporte estratégico em relocation, imigração, integração cultural e todas as áreas que formam a Mobilidade Global de Talentos. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito. Possui MBA em Recursos Humanos pela Anhembi Morumbi e mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais pela Rome Business School. Faz parte do comitê sênior do Brazil Talks e é GMJ Ambassador no Global Mobility Journeys.


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O que medidas recentes no Chile mostram sobre a migração e governança do tema no país e no mundo

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Militares chilenos durante monitoramento da fronteira do Chile com a Bolívia. (Foto: Daniel Eduardo Caceres/Unsplash)

Por Gustavo Cavalcante
Colaboração de Rodrigo Borges Delfim

O atual governo do Chile, que tomou posse no começo de março, deu início à construção de barreiras físicas na fronteira norte, marcando o começo de uma de suas principais medidas e trazendo para o país um conceito que cada vez mais se espalha mundo afora como forma de lidar com a questão migratória.

As primeiras intervenções ocorreram na região de Arica, que faz fronteira com o Peru, onde máquinas começaram a escavar valas profundas que fazem parte da estrutura inicial do chamado “Escudo Fronteiriço”. A obra, que prevê a instalação de muros, trincheiras e sistemas de vigilância ao longo de até 500 quilômetros, tem prazo estimado de 90 dias para execução. O avanço das intervenções deve servir como modelo para a expansão do projeto em outros pontos da fronteira com o Peru e a Bolívia.

A abertura dos trabalhos foi acompanhada de perto pelo recém-empossado presidente José Antonio Kast, que esteve no local e participou simbolicamente do início das escavações. Diante da imprensa, o chefe de Estado posicionou-se ao lado de uma retroescavadeira em operação, reforçando o caráter prático e imediato da medida.

Segundo dados oficiais, atualmente o Chile concentra cerca de 337 mil migrantes indocumentados, a maioria de origem venezuelana. O governo Kast também prometeu avançar com políticas de expulsão de pessoas nessa condição.

Além da construção do muro, Kast anunciou no final de março a suspensão do processo de regularização iniciado pelo antecessor Gabriel Boric, que poderia beneficiar cerca de 182 mil migrantes em situação irregular no país.

Sistema integrado

O chamado “Escudo Fronteiriço” foi estruturado como um sistema integrado de contenção, combinando diferentes tipos de barreiras físicas ao longo da fronteira norte do Chile. O plano prevê a instalação de cercas eletrificadas em determinados pontos, reforçando a segurança física das áreas monitoradas.

Paralelamente, o governo aposta no uso intensivo de tecnologia, com a implementação de radares térmicos capazes de detectar movimentações durante a noite, drones para vigilância aérea contínua e torres equipadas com câmeras de longo alcance. A proposta é criar um sistema de monitoramento permanente, capaz de identificar e responder rapidamente a tentativas de entrada irregular.

Outro ponto destacado pelo governo é a integração entre infraestrutura e operação em campo. Cerca de 3 mil militares foram deslocados para atuar na região, auxiliando tanto na vigilância quanto na logística das obras. Segundo a gestão do presidente José Antonio Kast, a combinação entre barreiras físicas e recursos tecnológicos busca ampliar o controle territorial sem depender exclusivamente de presença humana constante, tornando o sistema mais eficiente e de resposta rápida ao longo dos cerca de 500 quilômetros previstos no projeto.

O que dizem os dados

O fluxo migratório em direção ao Chile se intensificou nos últimos anos, especialmente pelas rotas terrestres do norte do país, transformando regiões como Arica, Tarapacá e Antofagasta em pontos críticos de entrada. Em 2025, no entanto, foram registradas 26.275 denúncias de entradas por passagens não autorizadas, o que representa uma queda de 10,2% em relação ao ano anterior. A redução vem após o pico observado em 2021, quando o país enfrentou uma pressão migratória mais intensa. Esses dados têm sido utilizados por diferentes atores políticos para sustentar argumentos distintos sobre a necessidade, ou não, de medidas mais rígidas.

Para o governo do presidente José Antonio Kast, a diminuição recente não elimina o problema, mas reforça a urgência de consolidar o controle das fronteiras. Sua gestão defende que a imigração irregular está diretamente associada ao avanço do crime organizado e do narcotráfico, e que ações estruturais como o “Escudo Fronteiriço” são fundamentais para evitar novos picos de entrada e fortalecer a segurança interna.

Já entre setores da oposição, a leitura é diferente. Críticos questionam a eficácia de barreiras físicas como solução de longo prazo e argumentam que a queda nos números recentes poderia indicar que o fenômeno já estava em desaceleração antes mesmo da nova política. Além disso, há preocupações sobre os impactos humanitários da medida, especialmente em relação ao risco de migrantes buscarem rotas mais perigosas para entrar no país.

Para o arquiteto, sociólogo e político chilemo Daniel Jadue, a questão é mais ampla e está ligada à frustração da população com governos anteriores, incluindo o de Gabriel Boric. Nesse sentido, a pauta migratória teria se tornado um símbolo de insatisfação social, explorado politicamente por setores que defendem respostas mais imediatas e visíveis.

Segundo Jadue, o debate vai além da construção de muros e trincheiras. Ele envolve visões distintas sobre segurança, políticas públicas e o papel do Estado diante de crises migratórias. Enquanto o governo aposta em controle territorial e medidas de impacto rápido, a oposição levanta questionamentos sobre sustentabilidade e consequências sociais de longo prazo.

“Crimigração” em marcha

A iniciativa do governo chileno rapidamente passou a ser comparada a políticas adotadas em outros países, especialmente à estratégia do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que teve como uma das marcas de seu primeiro mandato a construção de barreiras na fronteira com o México. Embora o governo de José Antonio Kast não declare oficialmente essa inspiração, a semelhança no discurso, centrado na segurança e no controle migratório, tem alimentado análises sobre um possível alinhamento com tendências mais restritivas observadas em diferentes partes do mundo.

De acordo com a advogada Tamires Fallavena, especialista em securitização das migrações, o que vem do Chile é mais um exemplo de “crimigração”, conceito que descreve a crescente fusão entre o direito penal e o direito migratório. “Ao tratar a migração como questão de segurança pública, o Estado passa a associar o migrante à figura do infrator, legitimando medidas excepcionais de controle, vigilância e contenção. No caso do Chile, a construção de muros, a presença militarizada na fronteira e o discurso de ‘proteção’ revelam essa lógica. Não se trata apenas de gerir fluxos migratórios, mas de enquadrá-los sob uma ótica punitiva”.

Ainda segundo a pesquisadora, essa abordagem desloca o foco de políticas humanitárias e de integração para estratégias de repressão, reforçando estigmas e ampliando a margem para violações de direitos, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidade social e deslocamentos forçados.

“A experiência internacional mostra que essas estruturas raramente cumprem o que prometem. Elas não interrompem fluxos migratórios, apenas os deslocam. Tornam as travessias mais perigosas, mais caras e mais dependentes de redes ilegais. O resultado não é o fim da migração, mas sua precarização e o objeto estatal que é o controle do viver e morrer daquela pessoa”.

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Catástrofe humanitária: guerra no Oriente Médio gera milhões de deslocados no Irã e Líbano

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Fumaça sobe após um ataque aéreo em Beirute, capital do Líbano. (Foto: Alfredo Zuniga/WFP)

Por Gustavo Cavalcante

Imagine um país com 20% de sua população em situação de deslocamento forçado, enquanto outro conta com cerca de 3,2 milhões de pessoas nessa condição. É o que acontece respectivamente com o Líbano e o Irã, os dois principais palcos do conflito em curso no Oriente Médio desde 28 de fevereiro. 

Os dados acima, levantados pela ONU, ajudam a dar uma ideia do custo humano que esse conflito vem gerando. Nas palavras da organização, o que o Oriente Médio vive atualmente já é uma catástrofe humanitária. E que, além do peso do atual conflito, atinge diretamente dois países que figuram historicamente como locais de destino de refugiados no mundo, por estarem próximos de locais que vivem crises humanitárias de longa duração. 

Enquanto o Irã é um ponto de recepção de pessoas que fogem do vizinho Afeganistão, o Líbano é o país com a maior presença de refugiados per capita – um em cada oito habitantes é um deslocado internacional, sobretudo da Síria. A atual guerra, inclusive, tem feito com que sírios estabelecidos em território libanês retornem à terra natal, mesmo diante de condições ainda instáveis.

As hostilidades tiveram início em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel se uniram para bombardear o Irã. Os primeiros ataques mataram figuras importantes do comando do país, como o aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo iraniano. Tel Aviv, por sua vez, abriu nova frente no sul do Líbano, dias depois, ao revidar um ataque do grupo Hezbollah, que é apoiado pelo Irã e que divide opiniões na sociedade libanesa.

Desde então, o conflito ganhou escala e afetou toda a região conhecida como Oriente Médio, com países considerados aliados dos Estados Unidos recebendo ataques do Irã, mas tendo o próprio Irã e o Líbano como locais mais críticos. E o custo humano vem crescendo junto com o prolongamento das hostilidades.

Condições em degradação

O aumento dos ataques militares nas últimas semanas ampliou os danos à infraestrutura civil no Irã. Segundo dados de organizações humanitárias e autoridades locais, centenas de instalações essenciais foram atingidas, incluindo ao menos 282 centros de saúde e cerca de 600 escolas. Além disso, dezenas de milhares de residências sofreram danos diretos, especialmente em áreas urbanas densamente povoadas, como a capital Teerã, onde bairros inteiros foram afetados por bombardeios sucessivos.

Os impactos desses ataques se refletem também na sobrecarga dos serviços públicos. Hospitais operam acima da capacidade, lidando simultaneamente com vítimas da guerra e com a escassez de insumos médicos, enquanto sistemas de energia, transporte e abastecimento de água enfrentam interrupções frequentes. A destruição de instalações estratégicas, como refinarias e estruturas de filtragem de água, contribui para um cenário de instabilidade que afeta diretamente as condições de vida da população civil.

Além dos danos materiais, o número de vítimas continua a crescer. Estimativas variam entre 1.400 e 3.000 civis mortos desde o início da ofensiva, enquanto mais de 20 mil pessoas ficaram feridas. Organizações independentes e redes de ativistas apontam que esses números podem ser ainda maiores, diante das dificuldades de acesso a algumas áreas e da limitação de informações oficiais em meio ao conflito.

No caso do Líbano, já foram confirmados até o momento 1.260 mortos e 3.750 feridos nos ataques israelenses. A intensificação das operações militares no sul do país amplia o deslocamento populacional. Ordens de evacuação emitidas por Israel já cobrem cerca de 14% do território libanês, sobretudo áreas próximas ao rio Litani. A expansão da presença militar na região tem levado à retirada forçada de comunidades inteiras, em meio a um cenário de incerteza e restrição de mobilidade.

Há ainda a memória recente da ocupação israelense dessa região, entre 1982 e 2000, que chega junto com planos do Exército de Israel de retomar essa prática por tempo indeterminado. Dentro do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu há até quem defenda o exercício de “soberania” por Israel no sul do Líbano.

A amplitude dos ataques também tem gerado preocupações quanto ao direito internacional humanitário e saúde mental da população. Segundo relato da ONG Médicos Sem Fronteiras ao jornal Folha de S.Paulo, muitos dos deslocados atendidos no Líbano estão com ansiedade e depressão. No Irã, por sua vez, há relatos recorrentes de bombardeios próximos ou em áreas sem valor militar estratégico evidente, o que levanta questionamentos sobre a proteção de civis.

Fluxos migratórios

À medida que o conflito avança, os movimentos transfronteiriços começam a ganhar maior visibilidade. A Turquia se consolida como a principal rota de saída para quem deixa o Irã. Dados recentes apontam que cerca de 3 mil pessoas têm cruzado diariamente a fronteira, enquanto, ao longo de março de 2026, foram registradas 51.582 entradas de iranianos na Turquia.

Grande parte desses deslocamentos ocorre por vias terrestres, especialmente pela fronteira de Kapiköy-Razi, e inclui perfis variados, desde famílias em busca de segurança temporária até indivíduos que planejam seguir viagem para outros destinos. A permanência na Turquia, em muitos casos, é provisória, com uso de vistos de curta duração enquanto os deslocados avaliam possibilidades de retorno ou de migração para outros países.

No Líbano, o fluxo migratório externo tem como principal destino a vizinha Síria. Mais de 125 mil pessoas já cruzaram a fronteira nas últimas semanas, em um movimento marcado pela presença significativa de crianças, que representam quase metade desse total. Esse deslocamento ocorre em meio a condições adversas e reflete tanto a intensificação da violência quanto a limitação de alternativas imediatas para a população afetada.

Para parte dos refugiados, especialmente aqueles com mais recursos, a jornada segue em direção à Europa, com países como a Alemanha figurando como destinos finais. Esse trajeto, no entanto, envolve etapas intermediárias e custos elevados, o que restringe o acesso a uma parcela menor da população deslocada. Ao mesmo tempo, países como Iraque e Paquistão registram fluxos mais reduzidos, sem indicativos, até o momento, de pressão significativa em suas fronteiras.

Apesar desses movimentos, os fluxos internacionais ainda são considerados relativamente controlados, em grande parte devido a restrições impostas nas fronteiras e aos custos envolvidos no deslocamento. Barreiras administrativas, exigências de documentação e limitações financeiras dificultam a saída de uma parcela grande dessas populações, que permanece no interior dos países afetados mesmo diante da deterioração das condições de vida.

Ainda assim, há sinais de que esse cenário pode se alterar rapidamente. A continuidade dos ataques e a destruição progressiva de infraestrutura, além da falta de uma previsão clara para um acordo dos países envolvidos nos conflitos, tendem a ampliar o número de pessoas que buscam deixar a região. Organismos internacionais já apontam para perdas econômicas estimadas em US$ 63 bilhões na região afetada, o que agrava a instabilidade e pode acelerar os fluxos migratórios. Nesse contexto, cresce o risco de que a crise evolua de um deslocamento predominantemente interno para uma crise humanitária de alcance global.