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quinta-feira, maio 7, 2026
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Visitas e relatório preliminar da ONU expõem virtudes e contradições das migrações no Brasil

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Coletiva de imprensa do relator especial da ONU sobre os Direitos Humanos dos Migrantes, Gehad Madi, em Brasília. (Foto: Yuri Curtulo/DPU - 27.mar.2026)

Atualizado às 16h de 6.abr.2026

O Brasil recebeu duas visitas de organismos das Nações Unidas ligados à questão migratória neste mês de março. E as declarações e resultados práticos dessas atividades exemplificam as contradições que permeiam a temática no país, sobretudo nos últimos anos.

De 16 a 27 de março, o Relator Especial das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos dos Migrantes, Gehad Madi, esteve em diferentes cidades brasileiras para verificar in loco a situação da temática no país. A partir de visitas a diferentes locais e encontros com representantes do poder público e da sociedade civil, ele elaborou um relatório preliminar que foi divulgado durante entrevista coletiva na última sexta-feira (27), com uma série de comentários e recomendações sobre a política brasileira para as migrações.

Quem também visitou o Brasil em um período semelhante foi a atual diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), Amy Pope, tendo como foco principal a celebração de dez anos da parceria entre a entidade e o governo brasileiro. As agendas foram concentradas em Brasília e nas cidades roraimenses de Boa Vista e Pacaraima – principais pontos de atuação da Operação Acolhida – voltada especificamente para o gerenciamento da migração venezuelana e que tem a agência da ONU como uma das parceiras.

“A Operação Acolhida mostra que, quando parcerias trabalham juntas, a migração pode beneficiar tanto migrantes quanto as comunidades de acolhida. O engajamento do setor privado é essencial para ajudar as pessoas a terem acesso mais rápido ao trabalho e contribuírem com a economia local”, disse a chefe da OIM, em comunicado à imprensa.

O relatório preliminar de Madi

O relatório completo da visita do representante da ONU no Brasil só será divulgado em meados de 2027, mas uma versão preliminar já foi apresentada durante a entrevista coletiva concedida à imprensa em Brasília, na última sexta-feira (27) – uma tradução para o português pode ser verificada neste link.

Nesse documento, Gehad Madi elogiou a legislação migratória brasileira por ter uma abordagem “baseada em direitos” e um dos principais exemplos na América Latina, “particularmente em meio a uma tendência regional de implementação de medidas migratórias mais restritivas”. Ele ainda apontou aspectos positivos em iniciativas como a Operação Acolhida e a força-tarefa que ajudou a regularizar haitianos que chegaram ao aeroporto de Viracopos (SP) com uma série de problemas de documentação.

Por outro lado, Madi apresentou uma postura mais crítica em relação à Operação Acolhida em relação à OIM. “Quase oito anos após sua criação, ela ainda funciona como resposta emergencial e muito focada em uma nacionalidade. Para a liderança do Brasil ser sustentável, o modelo requer institucionalização e planejamento de longo prazo. Com redução de financiamento internacional e dinâmicas de migração que se diversificam, é essencial ampliar o escopo da resposta [humanitária]”, disse, durante a coletiva de imprensa.

O relator da ONU também endossou as críticas já feitas por diferentes setores – sociedade civil, academia e Judiciário – contra a portaria polêmica que restringiu as solicitações de refúgio no aeroporto de Guarulhos. A medida, em vigor desde meados de 2024, teria como finalidade declarada impedir que o pedido de proteção internacional seja usado como uma mera ponte para que o migrante possa seguir viagem para outros países. Ele apontou que os esforços do governo para combater o tráfico de pessoas e o contrabando de migrantes não devem prejudicar o direito de buscar proteção internacional.

“Uma proibição para pedidos de asilo na fronteira é incompatível com as obrigações internacionais do Brasil, pois os indivíduos, independentemente das circunstâncias de sua chegada, podem ter necessidades legítimas de proteção que exigem avaliação individualizada”, afirmou Madi no relatório. Ainda segundo ele, a retenção de pessoas em áreas restritas poderia equivaler a uma prisão arbitrária.

Madi também criticou a limitação do visto humanitário aos programas de patrocínio comunitário, medida tomada pelo governo federal no apagar das luzes de 2025. No momento, somente os afegãos contam com entidades da sociedade civil habilitadas a receber migrantes contemplados com essa documentação. O representante das Nações Unidas frisou que esse mecanismo deve funcionar como um caminho complementar, não como o único mecanismo de acesso a vistos humanitários.

“Como um país comprometido com os direitos humanos dos migrantes e requerentes de asilo, o Governo do
Brasil deve permanecer no centro dos esforços de acolhimento e proteção. Além disso, dar às OSCs [organizações da sociedade civil] a prerrogativa sobre a seleção de beneficiários pode levar a decisões que não refletem consistentemente as necessidades de proteção ou critérios objetivos de vulnerabilidade”.

Também foi destacada uma preocupação especial com a demora na avaliação dos pedidos de refúgio e com a situação dos cubanos, atualmente a nacionalidade que mais solicita esse tipo de proteção – foram 41 mil somente em 2025.

O relatório preliminar vai na direção do que relataram ao MigraMundo pessoas e organizações que estiveram com Madi nos últimos dias. Segundo elas, o representante da ONU expressou desconforto com situações como a dos migrantes retidos em áreas restritas de aeroportos internacionais e com a falta de clareza e regulamentação sobre a questão dos vistos humanitários.

Recomendações preliminares da ONU

Além de apontar virtudes e pontos críticos, o relatório preliminar divulgado por Gehad Madi elencou uma série de recomendações ao Brasil – tanto ao governo federal quanto para gestões locais – no sentido de garantir direitos para a população migrante.

“O Brasil tem potencial para se tornar um modelo global de governança migratória baseada em direitos humanos. Alcançar isso requer vontade política contínua, recursos sustentados, implementação consistente e baseada em direitos e a participação significativa de migrantes e refugiados na formação das políticas que afetam suas vidas”, disse o especialista durante a entrevista coletiva.

Na esfera federal, Madi sugeriu – entre outros pontos – a ampliação de meios para garantir vias regulares e seguras de ingresso de migrantes no país, a alocação de recursos orçamentários anuais adequados para a implementação de todas as políticas de migração, a ampliação da capacidade do Conare para agilizar a apreciação de pedidos de refúgio e a realização de uma campanha nacional para sensibilizar a sociedade brasileira para a temática migratória.

O relatório ainda pede o fortalecimento da Defensoria Pública da União, a criação de uma estratégia nacional de ensino de português como segunda língua e a ratificação da Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros de suas Famílias – que começou a tramitar no Congresso Nacional em 2010 e desde 2022 se encontra à espera do parecer do plenário da Câmara dos Deputados.

No entanto, o relatório preliminar não fez nenhuma menção à Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia – criada por decreto federal em outubro de 2025, tampouco ao plano que deve norteá-la – a prometida consulta pública sobre o tema, que deveria ter ocorrido em fevereiro, se encontra atrasada e sem previsão de data.

Na esfera local, entre outros pontos, o relatório chamou a atenção para a violência policial em São Paulo contra vendedores ambulantes migrantes, feita no âmbito da Operação Delegada – o que levou, em abril de 2025, à morte do senegalês Ngagne Mbaye. Entre as recomendações, Madi pede revisão desse modelo de fiscalização e a adoção de abordagens baseadas em direitos para regular o trabalho informal de vendedores ambulantes migrantes.

Impressões da sociedade civil e academia

Segundo apuração do MigraMundo junto a atores que acompanharam a agenda de Madi em algum momento e pesquisadores, a avaliação geral a respeito do relatório foi positiva, contemplando tanto temas de alcance nacional quanto questões mais locais.

Para a professora Bela Feldman-Bianco, Professora Sênior de Antropologia da Unicamp, o documento tem como mérito principal trazer um diagnóstico que oferece críticas pontuais às políticas atualmente em curso, sempre em defesa dos direitos humanos das pessoas migrantes.

“Sem dúvida alguma, suas recomendações proporcionam importantes subsídios para a operacionalização e concretização de uma Política Nacional de Migração, Refúgio e Apatridia com ênfase em direitos humanos e na dignidade das pessoas   e não na securitização e externalização de fronteiras”.

A advogada e socióloga cofundadora do Fórum Fronteiras Cruzadas, Karina Quintanilha, destacou ainda a articulação promovida a partir da sociedade civil para que o relatório preliminar contemplasse questões mais locais, como a violência policial em São Paulo contra ambulantes de origem migrante.

“Acredito que foi fundamental a nossa pressão para que a Operação Delegada fosse reconhecida no relatório como uma forma de violência racial que tem produzido graves violações de direitos contra trabalhadoras/es ambulantes, principalmente de imigrantes haitianos e africanos que atuam no Brás”.

No entanto, foram também feitas algumas ressalvas. Uma deles foi a ausência de menção ao Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia e ao atraso nesse processo por parte do governo federal. Outra observação foi a respeito da sugestão da presença de integrantes do Conare (Comitê Nacional para Refugiados) em locais como aeroportos e postos de fronteira, o que não seria viável. Representantes da sociedade civil que falaram ao MigraMundo sob reserva consideraram ainda que o relator da ONU foi tímido em suas recomendações e poderia ter tido uma postura ainda mais crítica no relatório.

Também foram expressas queixas quanto a organizações que foram convidadas ou não a participar dos encontros com o relator da ONU, o que poderia soar como favorecimento de alguns grupos em relação a outros.


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Solenidade, missa e Festa Italiana marcam comemorações de 30 anos Arsenal da Esperança

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Festa de rua em celebração dos 30 anos do Arsenal da Esperança. (Foto: José Luiz Altieri/Divulgação)

Três décadas de acolhimento, mais de 80 mil pessoas atendidas e recomeços diários para 1.200 homens em situação de vulnerabilidade, vindos tanto de outras regiões do Brasil como também imigrantes. Esses são alguns dos números do Arsenal da Esperança, instituição que completou 30 anos de fundação neste mês de março e é atualmente o maior centro de acolhimento da capital paulista. E uma programação especial no último final de semana (20 a 22.mar) celebrou esse passado e presente do acolhimento na cidade.

De sexta-feira a domingo (20 a 22), a instituição recebeu aproximadamente 3 mil pessoas na Festa de Rua, com pratos da culinária italiana, além de apresentações musicais e artísticas. Já na tenda central, uma solenidade no último sábado (21) contou com a presença de representantes do poder público, lideranças locais, convidados vindos especialmente da Itália, voluntários, parceiros e a comunidade local. Teve ainda uma missa, presidida pelo cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer.

Missa realizada em ação de graças pelos 30 anos do Arsenal da Esperança.
(Foto: José Luiz Altieri/Divulgação)

Fundado em 1996 pelo religioso brasileiro dom Luciano Mendes de Almeida e pelo italiano Ernesto Olivero, o Arsenal da Esperança é gerido pela Sermig, uma fraternidade católica italiana sediada em Turim e criada por Olivero em 1964. Ela tem como espírito “ser um lugar de fraternidade, aberto à acolhida e ao encontro com quem quiser procurar o sentido da sua vida”.

O Arsenal da Esperança é o primeiro projeto fora de Turim ligado ao Arsenal da Paz, criado em 1983. Na cidade italiana, um antigo paiol de armas foi transformado em um mosteiro urbano que, além de ser um espaço de oração, também oferece acolhida a pessoas em situação vulnerável.

“A bondade desarma”: mensagem inscrita no pátio do Arsenal da Esperança, em São Paulo. Ligado a uma ordem religiosa católica, essa casa de acolhida abriga cerca de 1.200 pessoas todas as noites – muitas delas, migrantes de outras regiões do Brasil e até de outras nacionalidades.
(Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Conquistas compartilhadas

Ao longo de três décadas conquistou dezenas de prêmios, certificados, homenagens, entre eles Salva de Prata (4/12/2025) – maior honraria da Câmara Municipal de São Paulo. A instituição oferece cursos de capacitação profissional e de alfabetização, promovendo inclusão e oportunidades a todos. Oferece, ainda, biblioteca, quadra de futebol, sala de jogos, grupos de apoio (NA e AA – Narcóticos e Alcoólicos Anônimos), entre outros serviços. Entre os principais parceiros estão: Prefeitura de São Paulo – Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS); Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI); Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).

Durante a cerimônia que celebrou os 30 anos do Arsenal da Esperança, os discursos dos convidados destacaram a relevância da instituição para a cidade, relembrando conquistas por meio de grandes números ao longo de sua trajetória. A rede de voluntários e seu trabalho incansável também foram exaltados.

“Quero agradecer a todos que ajudaram a construir essa história incrível. Àqueles que disseram um sim para o Arsenal e colaboraram para acolher e dar esperança a todos que batem nesta porta. Grazie [“Obrigado”, em italiano], muito obrigado, por todo o bem, amor e dedicação que foram promovidos nestes 30 anos nesta casa, iniciada pelo nosso fundador Ernesto Olivero – que está nos acompanhando da Itália – e Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, e que começou entre esses muros uma história aparentemente impossível, mas enxergaram muito além”, explicou o missionário italiano Simone Bernardi, que dirige o espaço há 21 anos.

O espaço que abriga o Arsenal da Esperança é nada menos que a antiga Hospedaria do Brás, que funcionou entre 1887 e 1978, e foi ponto de recepção de migrantes que chegavam a São Paulo de diferentes locais do Brasil e do exterior. O centro de acolhida atualmente responde por cerca de 60% do edifício, enquanto os outros 40% ficam com a instituição que costuma ser mais conhecida e ligada a esse histórico, o Museu da Imigração.

A Festa do Imigrante, promovida anualmente pelo Museu da Imigração, conta com a parceria do Arsenal da Esperança e representa também uma oportunidade de conhecer de perto o trabalho da instituição – por exemplo, pelo acesso aos dormitórios que acolheram migrantes no passado e hoje abrigam pessoas em situação de rua. Uma utilização que, de certa forma, dá continuidade ao caráter inicial do espaço.

Um dos dormitórios do Arsenal da Esperança, que recebe a Festa do Imigrante junto com o Museu da Imigração e abriga cerca de 1.200 homens em situação de rua por noite.
(Foto: Antonella Pulcinelli/MigraMundo)

Em reportagem sobre o Arsenal da Esperança em 2019, o MigraMundo destacou que todas as madrugadas são preparados 1.200 lanches para o café da manhã – ou seja, uma média de 8.400 por semana, 36 mil por mês e 485 mil por ano.

Na edição do ano passado da Festa do Imigrante, que teve entrada gratuita, o público foi convidado a doar 1 kg de alimento não perecível ao ingressar no espaço. Como resultado, foram arrecadados cerca de 12 mil quilos de mantimentos, repassados diretamente ao Arsenal da Esperança.

“Tudo que envolve o Arsenal é uma comoção muito grande. As pessoas envolvidas neste projeto, que saiu de Turim, representam um grande símbolo de fidelidade, que seguem acreditando, aconteça o que acontecer! Nossa missão aqui é oferecer acolhida, dar respeito e, principalmente, restaurar a dignidade humana e mostrar que a vida tem recomeços”, reforçou Bernardi.

As histórias e vivências do Arsenal já renderam inclusive um livro, escrito pelo missionário e lançado no final de 2017. Intitulado “O Bom Samaritano e a Hospedaria“ (Loyola), ele faz uma analogia da famosa parábola cristã do Bom Samaritano com a experiência de acolhimento da Casa. A festa dos 30 anos da instituição foi palco ainda para lançamento de outra obra alusiva à instituição, “SIM – O Coração do Arsenal da Esperança” (Format Editora), de autoria do fundador Ernesto Olivero.


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Migrantes e sociedade civil levam a relator da ONU contradições e retrocessos sobre a migração no Brasil

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O Relator Especial das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos dos Migrantes, Gehad Madi (e), durante agenda com autoridades em São Paulo. (Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo)

O Relator Especial das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos dos Migrantes, Gehad Madi, está no Brasil neste mês de março para checar in loco a situação da temática no país. E diversas entidades têm se articulado para apresentar os pontos que mais despertam preocupação quanto à garantia de direitos para essa parcela da população, além de sugestões do que poderia e deveria ser feito pelo Estado brasileiro.

Madi chegou ao Brasil no último dia 16 e desde então teve uma série de encontros com representantes do poder público, entidades da sociedade civil, organizações internacionais e coletivos para montar um panorama da situação dos direitos humanos dos migrantes. A programação teve início em Brasília e passou por Roraima (Boa Vista e Pacaraima), Curitiba e São Paulo. A programação termina na tarde de sexta-feira (27), quando ele vai conceder uma entrevista coletiva na Casa da ONU, em Brasília.

A partir dos encontros e de relatórios que vem recebendo, o representante da ONU vai divulgar um documento preliminar com as impressões iniciais coletadas. A versão final desse diagnóstico, no entanto, só será conhecida em junho de 2027, em sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Contradições e retrocessos

Em conversas que o MigraMundo teve com pessoas e organizações que se encontraram com Madi nos últimos dias no Brasil, a expectativa é grande para que o relator da ONU emita um parecer bastante crítico ao que o governo federal vem fazendo em relação às migrações.

De acordo com esses participantes, o relator da ONU expressou desconforto com situações como a dos migrantes retidos em áreas restritas de aeroportos internacionais e com a falta de clareza e regulamentação sobre a questão dos vistos humanitários.

Esse sentimento também está presente em documentos produzidos pela sociedade civil e enviados a Madi, aos quais o MigraMundo teve acesso, que fazem um resumo dos avanços e retrocessos vivenciados em relação à temática migratória no Brasil nos últimos anos.

Em síntese, esses documentos apontam que o Brasil ainda carece de políticas de integração consistentes, estáveis e financiadas, capazes de articular acolhimento, inserção socioeconômica e proteção contra exploração. A efetividade da política migratória depende da construção de uma rede pública de acolhimento e integração, com responsabilidades claras, cooperação federativa, financiamento adequado e mecanismos aptos a prevenir exploração laboral, tráfico de pessoas e outras formas de violação de direitos.

Embora o Brasil conte com uma legislação migratória considerada progressista e que tenha o migrante como um sujeito de direitos e deveres, as manifestações enviadas ao relator da ONU apontam que esse marco legal tem sido aplicado sob um ponto de vista securitário.

Outro ponto ressaltado a Gehad Madi é a indefinição do governo federal quanto à implementação efetiva da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. Criada por decreto em outubro de 2025, ela prevê consigo um plano nacional a ser renovado a cada quatro anos e cujo texto para sua primeira edição deveria passar por consulta pública em fevereiro – o que não ocorreu até o momento e não há data prevista para tal.

Convenção da ONU pendente no Brasil

Criado em 1999 pela Comissão de Direitos Humanos, atual Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a partir da resolução 199/44, o mandato do Relator Especial sobre direitos de migrantes, tem o objetivo de examinar formas e meios para superar os obstáculos existentes para a proteção plena e eficaz dos direitos humanos de todos os migrantes em todas as etapas da migração e elaborar recomendações para fortalecer a promoção, proteção e implementação dos direitos humanos de todos os migrantes.

Egípcio com formação em Direito e Língua e Literatura alemã pela Ain Shams University, no Cairo, Gehad Madi ocupa o cargo de Relator Especial das Nações Unidas sobre os direitos humanos de migrantes desde outubro de 2023. Antes, já atuou como Membro do Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança (2011-2023).

Durante diálogos com Estados Partes, ele forneceu conselhos e recomendações pertinentes aos direitos de migrantes, refugiados e crianças em busca de asilo, bem como de suas famílias. Ele também emitiu declarações relacionadas a migrantes, refugiados e crianças em busca de asilo e suas famílias.

Vale lembrar que o Brasil ainda não ratificou sua adesão à Convenção das Nações Unidas sobre a Proteção aos Trabalhadores Migrantes e suas famílias, uma demanda antiga da sociedade civil ligada à temática migratória. O assunto começou a ser discutido em 2010 pelo Congresso Nacional e teve sua última movimentação no final de 2022, quando foi aprovado por uma comissão especial na Câmara dos Deputados.

Até o momento a convenção já foi ratificada por 55 países. Na América Latina, o documento conta com a adesão de Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai e Peru.

O documento é o único dos nove principais tratados internacionais de direitos humanos que ainda não foi ratificado pelo Brasil. Além da sociedade civil, a adesão do país a esse acordo também tem sido cobrada pelas Nações Unidas por meio da Revisão Periódica Universal, um mecanismo de avaliação da situação dos direitos humanos nos 193 Estados-membros da ONU.

A falta de resposta do Brasil a essa convenção da ONU pode ser um dos pontos cobrados por Madi em seu parecer sobre o país.


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Migração e moradia: uma reflexão a partir do tema da Campanha da Fraternidade 2026

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Edifício do INSS no centro do Rio de Janeiro que chegou a ser ocupado por movimentos de luta por moradia e foi esvaziado em dezembro de 2024. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil - 16.dez.2024)

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

Neste ano, a Campanha da Fraternidade (CF 2026) nos convida a refletir sobre o tema da moradia. Embora a temática esteja umbilicalmente entrelaçada com o fenômeno migratório, este, por si só, não explica a precariedade em que vive boa parte da população brasileira. Múltiplos fatores entram em jogo quando se analisa o déficit habitacional no Brasil, o qual, de acordo com os estudos mais confiáveis, gira em torno de 6 milhões de unidades. 

O êxodo rural das últimas décadas levou milhões de brasileiros às cidades, além da chegada de novos imigrantes. A falta de moradia, porém, se agrava sobretudo pela estrutura agrária concentracionista, seja no meio rural, seja no meio urbano, bem como pela falta de políticas públicas voltadas aos camponeses, de um lado, e, de outro, à população urbana de baixa renda. 

Além disso, se a imagem do cartaz da CF 2026 chama nosso olhar para a população de rua, o foco da Campanha é bem mais abrangente. Inclui, por exemplo, as pontas de rua, periferias extremas e áreas degradadas; os sórdidos porões e cortiços abarrotados no coração de tantas cidades; as ocupações de sem-teto e assentamentos; os morros e os mangues, estes sujeitos a enchentes, aqueles a deslizamentos e tragédias; as favelas e casebres de lona nos centros das grandes cidades. Também inclui a mercantilização do direito à moradia, o que eleva abusivamente o preço dos terrenos e dos aluguéis, além de estimular o frenesi pela especulação imobiliária, tanto da terra urbana quanto da construção de novos apartamentos. 

Cartaz oficial da Campanha da Fraternidade 2026.
(Foto: Divulgação)

Esse ciclo perverso e excludente entre o crescimento dos serviços públicos na geografia urbana, por uma parte, e o encarecimento dos custos habitacionais, por outra, continua expulsando os moradores para os limites da cidade. Confina-os, não raro, em áreas de mananciais, nas quais é proibido construir. Ocorre que a dor, a fome e a carência não cabem nas leis férreas do lucro e do capital. O resultado não pode ser outro: chega a estação de metrô ou banco, chega o hospital ou supermercado, chega a escola, a creche ou o posto de saúde… e o pobre tem de sair. Os preços da terra, do aluguel e da casa dobram ou triplicam. Parafraseando Shakespeare, impõe-se a pergunta imperiosa: comer ou morar, eis a questão? Torna-se impossível competir com as grandes empresas e empreiteiras, resta esperar pela distribuição das migalhas.

O ato de morar com dignidade, de resto, comporta não apenas uma casa como tal – teto, paredes e piso, portas e janelas – mas o conjunto do seu entorno. Entram aqui as redes de água potável, esgoto e asfalto; a oferta de transporte coletivo; os serviços de educação, saúde, alimentação; a instalação elétrica e a internet; o nível de arborização. A este respeito, no município de São Paulo, por exemplo, bastaria confrontar os jardins com os estremos das regiões Norte, Sul e Leste. “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), diz o lema da CF 2026.

No Mistério da Encarnação, a gruta de Belém constitui um símbolo de duplo sentido. Ao mesmo tempo em que revela a todo forasteiro a provisoriedade da casa terrena, durante a passagem pela face do planeta, aponta a solidez do Reino de Deus como casa definitiva e eterna.

Publicado originalmente no jornal O São Paulo, edição 3589

Sobre o autor

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)


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Onde está Miguel? Desaparecimento de jovem migrante de 17 anos mobiliza comunidade e alerta para vulnerabilidades

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Miguel Lau Mbiya, jovem migrante de 17 anos, desaparecido desde agosto de 2025. (Foto: arquivo pessoal)

Por Clarissa Paiva

A família de Miguel Lau Mbiya, de 17 anos, procura por informações que possam ajudar a localizar o jovem, desaparecido desde 23 de agosto de 2025, na cidade de São Paulo. Miguel foi visto pela última vez nas proximidades da estação de metrô Luz, na região central da capital paulista. Jovem migrante e negro (de mãe congolesa e documentação angolana), seu desaparecimento mobiliza familiares, amigos e integrantes da comunidade migrante, que pedem apoio da população para ampliar as buscas.

Segundo familiares, um boletim de ocorrência já foi registrado, e o caso está sendo acompanhado pelas autoridades competentes. A mãe do adolescente, Ana Maria Lau, segue em busca de qualquer informação que possa levar ao paradeiro do filho. Desde o desaparecimento, ela tem mobilizado redes de apoio e divulgado o caso na tentativa de alcançar pessoas que possam ter visto Miguel naquele dia ou que tenham alguma pista sobre o que aconteceu.

Miguel é descrito por pessoas próximas como um jovem tranquilo, com sonhos e planos para o futuro. Sua rotina era marcada por atividades comuns à sua idade, e seu desaparecimento repentino trouxe profunda angústia para a família e para a comunidade que o acompanhava. Para sua mãe, cada dia sem notícias aumenta a preocupação, mas também reforça a esperança de reencontrá-lo.

O caso também chama atenção para as vulnerabilidades enfrentadas por jovens migrantes negros no Brasil, que muitas vezes vivem em contextos de maior exposição a desigualdades sociais, racismo estrutural e barreiras institucionais. Especialistas em direitos humanos apontam que a interseção entre migração, juventude e raça pode tornar essas pessoas mais invisibilizadas em situações de violência ou desaparecimento, reforçando a importância de uma mobilização ampla da sociedade e das autoridades.

No Brasil, o desaparecimento de pessoas é um fenômeno significativo. Dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que 85.233 pessoas desapareceram no país em 2025, sendo 234 pessoas por dia, envolvendo crianças, adolescentes e adultos. Entre as causas mais comuns estão conflitos familiares, situações de vulnerabilidade social, fuga do lar, uso problemático de álcool ou drogas, além de casos mais graves relacionados à exploração, trabalho forçado ou tráfico de pessoas.

Autoridades reforçam ainda que não é necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento. O boletim de ocorrência pode ser feito imediatamente assim que familiares percebem a ausência ou a impossibilidade de contato com a pessoa desaparecida, o que permite o início mais rápido das investigações e das buscas.

Nos últimos anos, o Brasil também tem avançado na implementação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, criada pela Lei nº 13.812/2019, que busca fortalecer a articulação entre órgãos de segurança pública, perícia e instituições de direitos humanos, como Mães da Sé. Entre os instrumentos mais recentes está a ampliação da coleta de DNA de familiares de pessoas desaparecidas, que passa a integrar o Banco Nacional de Perfis Genéticos. O material genético, coletado de forma simples, geralmente por meio de saliva, é comparado com perfis de pessoas encontradas sem identificação em diferentes regiões do país, vivas ou mortas. Essa tecnologia permite estabelecer vínculos familiares e pode ajudar a identificar pessoas desaparecidas mesmo muitos anos depois, oferecendo uma possibilidade concreta de resposta para famílias que aguardam notícias de seus entes queridos.

A família pede que qualquer pessoa que tenha visto Miguel ou tenha informações sobre seu paradeiro entre em contato com as autoridades. Informações podem ser repassadas à Polícia Militar pelo telefone 190, em delegacias da região ou por meio do Disque 100, canal nacional para denúncias e proteção de direitos humanos.

Enquanto as buscas continuam, familiares reforçam o apelo à sociedade. Para Ana Maria Lau, cada informação pode ser essencial: qualquer detalhe pode ajudar a trazer Miguel de volta para casa.

Para mais informações sobre o que fazer em caso de desaparecimento em São Paulo, acesse o link da Prefeitura de São Paulo.


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Nowruz: comunidade afegã celebra Ano Novo persa com festas em SP

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Bandeira do Afeganistão levada por afegãos presentes à Marcha dos Imigrantes 2023, em São Paulo. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - dez.2023)

Depois do Ano Novo tradicional entre dezembro e janeiro e o Ano Novo Chinês em fevereiro, chegou a vez de outra comunidade migrante celebrar um momento de passagem: trata-se do Nowruz, que marca o Ano Novo do calendário persa, seguido por diversos povos da Ásia Central e do Oriente Médio – entre eles o Afeganistão, cuja diáspora promove festas neste final de semana em São Paulo e região metropolitana para marcar a data.

Nowruz significa “novo dia” e a data coincide com o Equinócio de primavera e o fim do inverno, momento visto na cultura local como período de perdão, união e recomeço. Neste ano, o Nowruz em si ocorre exatamente nesta sexta-feira (20).

Com o Nowruz, o objetivo é promover a integração entre pessoas afegãs e as comunidades de acolhida. Além disso, trata-se de uma oportunidade para celebrar o recomeço daqueles que estão retomando suas vidas no Brasil. Assim, a comunidade migrante une forças com entidades da sociedade civil local e até com organismos oficiais para concretizar essa meta.

“Para nós é um momento muito especial, que simboliza um novo começo para nossa comunidade aqui no país, além de ser uma forma de manter viva a nossa cultura”, comentou ao MigraMundo o afegão Shabir Ahmadi Niazi, diretor da Organização de Resgate de Refugiados do Afeganistão (ARRO), que organiza uma das atividades em honra ao Ano Novo Persa que ocorrem no final de semana.

Comemorações

A primeira delas acontece no sábado (21), em Poá, município na região leste da Grande São Paulo. A atividade é promovida pela Associação dos Afegãos no Brasil, em parceria com a Associação Cultural Opereta, e contará com apresentações artísticas e musicais, comidas típicas do Afeganistão e artesanato, além de apresentação sobre o significado do Nowruz.

Já no domingo (22) será a vez do Museu da Imigração, em São Paulo, receber uma celebração do Ano Novo persa. O “Nowruz com a comunidade afegã” é uma iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, com o apoio de Associação dos Afegãos no Brasil (ADAB), Organização de Resgate de Refugiados Afegãos (ARRO), Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), Museu da Imigração do Estado de São Paulo e Islamic Relief USA (IRUSA).

Veja a seguir a programação completa:

11h – Abertura do espaço ao público

11h30 – Abertura oficial do evento
12h às 15h – Oficinas gratuitas para aplicação de tatuagem em henna gratuitas (atendimento por ordem de inscrição)

12h30 – Recital de poesia afegã

13h – Atividade com as crianças 

13h – Oficina de dança para mulheres afegãs

14h30 – Apresentação de orquestra

16h – Encerramento do evento

Além das atrações citadas, o evento contará com tendas de comidas típicas durante todo o dia.


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Sociedade civil cobra governo federal sobre lacunas na política migratória brasileira

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Delegados e demais participantes celebram o encerramento da segunda edição da Comigrar, em Brasília. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

O atraso na definição das diretrizes na política migratória brasileira – prometida pelo governo federal em consulta pública pendente – e consequências práticas da lacuna gerada por essa situação levaram a sociedade civil articulada em torno da temática a se mobilizar em busca de respostas. Essa mobilização ganhou corpo com o lançamento de uma carta pública que sintetiza uma série de preocupações com os rumos do país quanto à forma como lida as migrações.

A carta foi lançada oficialmente na última sexta-feira (13) e é puxada pela Frente Nacional pela Saúde de Migrantes (Fenami) e Observatório Saúde e Migração (OSM). O documento reconhece avanços recentes na gestão das migrações no país, como a regulamentação do Artigo 120 da Lei de Migração – que prevê uma política nacional migratória – e ações como a Operação Horizonte em São Paulo, que visa agilizar o atendimento a migrantes para regularização documental. Por outro lado, aponta preocupações importantes sobre os rumos das políticas migratórias no país como:

  • barreiras criadas desde 2024 para solicitação de crescente fragilização do direito à solicitação de refúgio;
  • cotização da política de vistos humanitários por meio do patrocínio comunitário;
  • crescente envolvimento direto e indireto de governos estrangeiros, como o dos Estados Unidos, na elaboração e implementação da política migratória brasileira.

“Reafirmamos que a política migratória brasileira deve estar orientada pelos princípios constitucionais de igualdade, dignidade da pessoa humana e não discriminação, bem como pelos compromissos internacionais assumidos pelo país”, destaca trecho da carta pública.

O documento completo pode ser conferido neste link. Ele está aberto a adesões tanto por parte de pessoas físicas quanto por associações e coletivos em geral.

Caso dos haitianos barrados em Campinas

Um dos pontos de preocupação dos autores da carta pública se fez presente na última semana, com a chegada de um voo no aeroporto internacional de Viracopos, em Campinas (SP), com 118 haitianos. O grupo foi barrado porque, segundo informações da Polícia Federal, tinha vistos de reunião familiar falsos, o que não foi ainda totalmente esclarecido.

Os haitianos foram a nacionalidade que deu origem à aplicação do visto humanitário, como forma de responder às solicitações de refúgio feitas por esse grupo logo após o terremoto de 2010 no Haiti, quando o Brasil passou a ser visto como uma das opções de destino. Desde o ano passado, a concessão desse documento passou a ser atrelada à possibilidade de acolhimento por parte de uma entidade da sociedade civil – o chamado patrocínio comunitário. Somente os afegãos contam até agora com esse mecanismo regulamentado.

Desde janeiro deste ano, o patrocínio comunitário se tornou a condição para concessão de vistos humanitários de modo geral, independentemente da nacionalidade. No entanto, não há no horizonte a previsão de publicação de um edital para reconhecimento de entidades aptas a acolher esses migrantes.

Os haitianos acabaram liberados, depois de 55 horas retidos no aeroporto, a partir de uma força-tarefa envolvendo diferentes entidades da sociedade civil, organizações internacionais e poder público local e federal para registro de pedidos de refúgio. Em seguida, a maioria dos migrantes seguiu viagem para outras cidades brasileiras para encontrar parentes já estabelecidos no Brasil.

Ao MigraMundo, o coordenador da Fenami Frente Nacional pela Saúde de Migrantes e do Observatório Saúde e Migração, Alexandre Branco-Pereira, o caso dos haitianos é bastante ilustrativo dos pontos críticos levantados pela carta pública. “Só deixa explícito que hoje há uma seletividade racial e de outros tipos na política migratória brasileira, que tem atuado para negar o direito de entrada e o direito de solicitação ao refúgio, que são garantidos pela legislação internacional e nacional”.


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Fuga, exílio e memória: como O Agente Secreto levou ditadura militar brasileira e migração ao Oscar

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O ator Wagner Moura em cena do filme O Agente Secreto, que teve quatro indicações ao Oscar 2026. (Foto: Divulgação)

Por Gustavo Cavalcante

O resultado da premiação do Oscar 2026, no domingo (15), pode ter deixado um certo sentimento de frustração pelo fato do filme brasileiro “O Agente Secreto” não ter levado prêmios em nenhuma das quatro categorias nas quais foi indicado. No entanto, a produção dirigida por Kleber Mendonça Filho e estrelada por Wagner Moura alcançou feitos históricos e ainda ajudou a expor histórias que revisitam um dos períodos mais sombrios do país de uma forma inovadora e que ganhou aclamação internacional. Além disso, o suspense político ambientado nos anos mais duros da ditadura militar ajuda a recordar que a saída do Brasil foi uma das defesas encontradas para resistir e sobreviver à repressão.

Conhecido por explorar tensões sociais e urbanas em sua filmografia, Kleber Mendonça Filho retorna ao passado para investigar como o clima de vigilância afetava a vida cotidiana no país. A trama é vivenciada nos anos 70, período marcado pela intensificação da censura e da perseguição a opositores do regime. Nesse ambiente, a cidade se transforma em um espaço de desconfiança permanente. Encontros acontecem de forma discreta, conversas são interrompidas por receio de escutas e cada deslocamento carrega a possibilidade de perigo.

No filme, o Recife daquela época surge como um território marcado por vigilância, medo e deslocamentos silenciosos. Personagens transitam por uma cidade onde qualquer movimento pode significar risco. Em um país sob repressão, mudar de endereço, desaparecer por alguns dias ou circular discretamente podia ser uma questão de sobrevivência.

Exílio como recurso

Embora utilize elementos clássicos do suspense como investigação, perseguições e segredos, o filme vai além do gênero. A narrativa observa como o autoritarismo moldava relações pessoais, interferia na rotina das cidades e redefinia a forma como as pessoas se moviam e se relacionavam.

Isso é parte da história do protagonista Marcelo, interpretado por Wagner Moura. Um intelectual acadêmico que, ao bater de frente com um barão que tentava manipular o desenvolvimento científico brasileiro, a fim de ter controle sobre patentes e enriquecimento pessoal, o jovem personagem se vê acuado e o tempo inteiro correndo risco de vida. 

Mais do que uma mudança geográfica, esse exílio representava uma ruptura profunda com o cotidiano, com as redes de afeto e com o próprio país de origem. Muitos dos que deixaram o país reconstruíram suas vidas no exterior, mantendo vínculos com a luta pela redemocratização do Brasil.

No fim, ele acaba vendo seus pares intelectuais cedendo à pressão do capital em troca de cargos públicos e, para se proteger do regime militar, é obrigado a trocar de identidade e passa a viver como um mero funcionário em um cartório, enquanto aguarda uma oportunidade para fugir e se salvar. Algo que, no fim, não aconteceu.

Cinema brasileiro revisita histórias de deslocamento

O cenário retratado no filme remete a um período de forte repressão política no Brasil. Após o golpe de 1964, opositores do regime passaram a enfrentar cassações de mandatos, censura à imprensa, vigilância constante e prisões conduzidas por órgãos de segurança do Estado. Diante desse contexto, muitos brasileiros foram obrigados a deixar o país. Intelectuais, artistas, jornalistas e militantes políticos buscaram refúgio em diferentes partes do mundo. O exílio tornou-se uma experiência comum para uma geração que viu suas trajetórias interrompidas pela repressão.

A presença de “O Agente Secreto” na corrida pelo Oscar ocorreu em um momento em que o cinema brasileiro volta a olhar para esse passado recente. O movimento ganhou força após o reconhecimento de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 ao contar a história de Eunice Paiva para defender sua família e lutar pelo marido e ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido e depois reconhecido como vítima do regime militar.

Embora partam de caminhos narrativos diferentes, “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” revelam dimensões complementares da experiência do deslocamento durante a ditadura.

No primeiro, a narrativa se aproxima do suspense político para mostrar o ambiente de vigilância e clandestinidade que obrigava personagens a se movimentar constantemente. No segundo, o foco recai sobre o drama familiar e sobre os efeitos duradouros da repressão.

Em comum, os dois filmes revelam como a mobilidade forçada se tornou parte da experiência de milhares de brasileiros — seja pela fuga, pela clandestinidade ou pelo exílio. E a temática se prova como um tema muito debatido atualmente, coroando o cinema brasileiro com indicações ao Oscar por dois anos seguidos. 

Ao ganhar visibilidade global, relatos sobre repressão política e exílio buscam dialogar com debates contemporâneos sobre migração e mobilidade humana. Experiências de deslocamento forçado, como as retratadas nesses filmes, continuam a marcar diferentes sociedades ao redor do mundo.

Nesse sentido, o reconhecimento internacional do cinema brasileiro também serve para mostrar a força que narrativas locais são capazes de alcançar uma dimensão universal. Histórias que, ao revisitar o passado, ajudam a iluminar discussões urgentes sobre memória, justiça e direitos humanos.


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Corte italiana decide a favor de lei que restringe cidadania por descendência. E agora?

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Edifício da Corte Constitucional da Itália, em Roma. (Foto: Divulgação / Nostrali Cidadania Italiana)

A Corte Constitucional da Itália divulgou um comunicado na quinta-feira (12) com uma decisão favorável à lei que entrou em vigor no ano passado que lei que restringiu a transmissão da cidadania italiana por direito de sangue de descendentes nascidos no exterior. O parecer veio somente um dia após a realização da audiência pública na Corte, sediada em Roma, que recebeu advogados que apresentaram argumentos a favor e contra a lei que limitou a transmissão da cidadania italiana por sangue.

Pelas regras em vigor desde o final de março de 2025, a transmissão e o reconhecimento da cidadania só é válido para duas gerações nascidas fora da Itália. A legislação anterior, de 1992, previa que qualquer pessoa que pudesse comprovar vínculo com alguém nascido na Itália após março de 1861 (quando o Reino da Itália foi criado) seria elegível à cidadania local.

Desde então, a normativa – apelidada de “Decreto Tajani”, em referência ao seu criador, o chanceler e vice-premiê Antonio Tajani, e de “Decreto da Vergonha” por italianos no exterior – vem sendo alvo de questionamentos em tribunais de toda a Itália. Um desses foi o de Turim, de onde veio o caso analisado pela Corte Constitucional na quarta-feira.

Entenda o que aconteceu

A Corte Constitucional da Itália declarou “parcialmente não fundadas e parcialmente inadmissíveis” as questões de legitimidade constitucional apresentadas contra o decreto-lei nº 36 de 2025, que trata da cidadania italiana. A objeção foi apresentada pelo Tribunal de Turim, que questionava a constitucionalidade da norma com base no artigo 3 da Constituição do país europeu.

De acordo com o recurso, poderia haver arbitrariedade na distinção entre pedidos de reconhecimento da cidadania feitos antes e depois de 28 de março de 2025, além de possível violação de direitos adquiridos, sob o argumento de que a regra representaria uma revogação implícita da cidadania com efeitos retroativos.

O comunicado da Corte antecipou o parecer, mas se limitou a dizer que tais alegações foram rejeitadas e declarou as censuras como sem fundamento. Os argumentos que embasaram a decisão devem ser conhecidos somente nas próximas semanas.

A Corte ainda descartou outros argumentos levantados pelo Tribunal de Turim, como a alegação de violação ao artigo 9 do Tratado da União Europeia e ao artigo 20 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que estabelecem a cidadania da União para quem possui cidadania de um Estado-membro. E refutou suposta violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que prevê que ninguém pode ser arbitrariamente privado de sua cidadania.

Cidadania italiana em disputa

Durante a audiência, foi possível novamente ter uma ideia da dimensão do debate que se formou em torno da cidadania italiana, sobretudo nos últimos anos. De um lado, o governo Meloni sustenta que o reconhecimento da cidadania por descendência precisa ser submetido a limites mais rígidos, com base na ideia de “vínculo real” com o país, no controle administrativo dos pedidos e no combate a supostos abusos do sistema.

“O direito internacional não prevê nenhum direito absoluto de uma pessoa possuir dupla ou múltipla cidadania. O que é garantido é apenas o direito a ter ao menos uma cidadania e a não se tornar apátrida”, afirmou o advogado do Estado Lorenzo D’Ascia durante a audiência da quarta-feira.

Ele prosseguiu, dizendo que ausência de pedidos de reconhecimento por um longo período seria um indicativo de ruptura do vínculo efetivo com a Itália. “A ausência de qualquer pedido de reconhecimento por décadas, às vezes por mais de um século, por parte dos ascendentes e também dos próprios descendentes pode ser avaliada pelo legislador como motivo para considerar rompido o vínculo efetivo com o Estado italiano.”

Do outro lado, juristas, parlamentares e representantes da diáspora argumentam que a cidadania italiana por jus sanguinis (direito de sangue) é um direito adquirido no nascimento, anterior a qualquer solicitação formal e protegido por princípios constitucionais. Para esse grupo, a mudança promovida em 2025 rompe uma tradição jurídica consolidada e atinge não apenas procedimentos administrativos, mas dimensões mais profundas da cidadania como identidade, herança histórica e direito civil, ao mesmo tempo em que revela seu uso crescente como ferramenta de disputa política.

“O direito à cidadania por jus sanguinis é um direito subjetivo perfeito, imprescritível, que não depende de discricionariedade administrativa. O procedimento serve apenas para reconhecer um direito que já existe”, sustentou o advogado Corrado Caruso.

A advogada Monica Lis Restanio também esteve entre os que tentaram convencer a Corte da inconstitucionalidade das mudanças promovidas pelo governo Meloni por meio do Decreto Tajani. “Não se pode transformar o direito à cidadania por jus sanguinis, que nasce com a filiação, em mera expectativa condicionada ao horário de um protocolo ou à disponibilidade de um agendamento”.

Novas batalhas à vista

A decisão da Corte Constitucional era aguarada com grande expectativa pela extensa comunidade de ítalo-descendentes espalhada por diferentes países mundo afora. Estimativas apontam que, só no Brasil, sejam mais de 30 milhões de pessoas com algum grau de ascendência italiana, o que explica a grande mobilização em torno do julgamento.

“Mais do que um ato jurídico, o veredito expõe o dilema da Itália contemporânea em preservar vínculos históricos ou priorizar desafios internos. Ao optar pela restrição, o país envia uma mensagem clara sobre o rumo de sua política de cidadania”, disse a Rotunno Cidadania, por meio de comunicado enviado à imprensa.

No entanto, o escritório ressalta que o debate jurídico em torno da cidadania italiana segue aberto. Isso porque outras ações chegarão nos próximos meses à Corte Constitucional italiana, como os casos dos tribunais de Mantova e Campobasso. No caso de Mantova, por exemplo, já existe uma audiência marcada na própria Corte para 9 de junho.

“Nas últimas horas, diferentes interpretações têm circulado na imprensa e nas redes sociais. Por isso, recomendamos cautela na leitura das notícias, já que muitas análises estão sendo feitas sem acesso ao conteúdo integral da decisão”, comentou David Manzini, CEO da Nostrali Cidadania Italiana.

Na mesma linha, o CEO e co-fundador da Cidadania4U, Rafael Gianesini, ressaltou que a Corte, neste momento, não julgou o mérito da lei como um todo, mas apenas as particularidades deste processo. “Por isso, não é possível interpretar esse comunicado como uma definição definitiva sobre o futuro das ações relacionadas à cidadania italiana. O mais prudente neste momento é aguardar a sentença e acompanhar as próximas decisões”.

Por sua vez, a conselheira do Comites (Comitê dos Italianos no Exterior) em São Paulo Guiliana Patriarca, disse em postagem nas redes sociais, que não vê nem otimismo, tampouco esperança na decisão da Corte. “A Itália está com raiva dos italianos no exterior. Fico triste. Mas eu entendo que no decorrer dos anos teve a corrida desenfreada pela cidadania nos trouxe a esse resultado. Esta é a minha opinião”.


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Entenda o que é a Jornada Continental pelo Direito à Migração, que mobiliza atos na América Latina

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Cartaz de divulgação de ato em São Paulo em defesa do direito de migrar. (Foto: Divulgação)

Organizações da sociedade civil em diferentes países da América Latina – incluindo o Brasil – se unem ao longo desta semana para manifestações com um mesmo objetivo: defender o direito das pessoas de migrar e o direito de cada povo de definir seu destino. A articulação faz parte da Jornada Continental mobilizada por delegados de nove países das Américas, reunidos na Conferência Continental pelo Direito de Migrar, realizada em setembro de 2025, na Cidade do México. 

Com o lema “Migrar não é crime, é um direito”, a jornada busca denunciar políticas migratórias consideradas violadoras de direitos humanos e reforçar a defesa da livre circulação de pessoas, da dignidade dos migrantes e da soberania dos povos. A iniciativa reúne trabalhadores, jovens, organizações sociais e comunidades migrantes em diferentes países do continente.

A jornada deste mês de março ganhou apelo especial após a repressão empreendida pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos contra os migrantes, sobretudo na cidade de Minneapolis, desde dezembro de 2025. A resposta da sociedade civil local contra os agentes também foi alvo da violência dos agentes do ICE, a polícia migratória do país, que ficou personificada nas mortes de dois cidadãos estadunidenses e aumentou a pressão contra o atual presidente.

Os protestos também criticam as intervenções militares que a Casa Branca empreendeu nos últimos meses, como a que levou à prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e ao conflito em curso atualmente no Oriente Médio, tendo o Irã como alvo principal. Ambos os casos representam violações tanto do Direito Internacional quanto da própria legislação estadunidense, porque as incursões não foram aprovadas pelo Congresso, tampouco pelas Nações Unidas. Além disso, tal atuação gera instabilidades generalizadas que costumam ter deslocamentos forçados como parte das consequências.

“A defesa do direito a migrar e dos migrantes é inseparável da defesa da autodeterminação dos povos”, diz trecho da convocação para o ato em São Paulo – marcado para sábado (14), a partir das 15h, em frente ao Theatro Municipal, uma das referências culturais da cidade.

Transformar a dor em luta

Em São Paulo, o chamado é impulsionado por um conjunto bastante diverso de organizações, que inclui sindicatos, entidades ligadas ao PT (Partido dos Trabalhadores), Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), CMI (Conselho Municipal de Imigrantes), Cami (Centro Pastoral de Apoio ao Migrante) e organizações e coletivos ligados a diferentes comunidades migrantes, como bolivianos, haitianos, sírios e angolanos, entre outras.

“Essa Jornada Continental é importante para mim como imigrante e liderança dos direitos humanos, porque transforma minha dor individual em luta coletiva. Ela permite que nossas vozes sejam ouvidas não como um pedido de favores, mas como a reivindicação de um direito fundamental: o direito de existir, circular e viver com dignidade, segurança e respeito, onde querem que estejam”, sintetiza Constance Salawe, militante camaronesa que reside em São Paulo e integra tanto o CMI quanto o comitê paulista da mobilização. Ela também acompanhou in loco a conferência de setembro passado no México.

“Vamos para as ruas para defender o direito de migrar com dignidade. Enquanto a extrema-direita espalha ódio e tenta criminalizar quem busca uma vida digna, nós seguimos defendendo solidariedade entre os povos e o respeito à vida”, disse a deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP). Ela gravou um vídeo para as redes sociais dando apoio para o ato.

De acordo com os organizadores entre 9 e 14 de março as seguintes cidades brasileiras tiveram ou terão algum tipo de manifestação de rua, audiência em casa legislativa ou debate em universidade: Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Belo Horizonte, Juiz de Fora e Governador Valadares (MG), Rio de Janeiro (RJ), Cuiabá e Cáceres (MT), Salvador, Vitória da Conquista e Feira de Santana (BA), Recife (PE), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB), Maceió (AL) e Brasília.

Além das cidades brasileiras, os organizadores da mobilização continental relatam atos previstos para países como Equador, Colômbia, Peru e Venezuela.


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