Em seis idiomas, cartilha do Procon-SP orienta migrantes sobre direitos como consumidor no Brasil.
(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
Por Andrea Mottola
O ser humano migra por diversas razões: para garantir a própria sobrevivência, buscar segurança, sustento para sua família ou a esperança de um futuro mais digno. Estar na posição de refugiado ou migrante em um país desconhecido, com costumes, idioma e estruturas jurídicas diferentes, representa um desafio constante, inclusive no exercício de direitos cotidianos, como o Direito do Consumidor.
Na perspectiva do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), refugiado é toda pessoa que, “devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados”, é forçada a deixar seu país de origem. Esse reconhecimento internacional embasa a proteção jurídica às pessoas que se veem forçadas a buscar refúgio além de suas fronteiras.
Para além da condição específica de refúgio, o debate sobre mobilidade humana é mais amplo. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), “migração” é um conceito abrangente que engloba todas as formas de mobilidade humana, internas ou transfronteiriças, temporárias ou permanentes, motivadas por diferentes razões. Assim, migrante é toda pessoa que se desloca de seu local habitual de residência para outro território, seja por decisão voluntária (como trabalho, estudo ou busca por melhores condições de vida), ou por fatores forçados, (como conflitos armados, perseguições, desastres ambientais, pobreza extrema ou violações de direitos humanos). Nesse sentido, refugiados integram o conjunto mais amplo das migrações internacionais, compartilhando desafios comuns a outros grupos migrantes, especialmente no que se refere ao acesso a direitos e serviços no país de acolhida.
Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) confirmam que o Brasil se consolidou, nos últimos anos, como um importante país de destino de migrantes internacionais, com fluxos intensos e diversificados tanto nas regiões de fronteira quanto nos grandes centros urbanos. Relatórios recentes indicam que milhões de pessoas cruzam anualmente as fronteiras brasileiras, registram residência, ingressam no mercado formal de trabalho, solicitam refúgio ou buscam a naturalização, estabelecendo vínculos sociais, econômicos e jurídicos duradouros no país. Esse cenário evidencia que migrantes e refugiados não ocupam uma posição marginal na vida social brasileira. Eles trabalham, consomem, contratam serviços, alugam imóveis, enviam e recebem remessas financeiras e participam ativamente das relações de mercado reguladas pelo ordenamento jurídico nacional.
Portanto, com o fluxo migratório global em ascensão – e o Brasil figurando como um importante país de acolhida de refugiados e migrantes internacionais na América do Sul – torna-se indispensável que o debate sobre os direitos dessas pessoas seja ampliado em todos os campos da vida social, inclusive nas relações de consumo. Afinal, do mais, todo ser humano também exerce, diariamente, relações de consumo, seja na compra de um celular, na contratação de um plano de telefonia, na locação de um imóvel ou no uso de serviços bancários.
No plano normativo, o Estatuto dos Refugiados (Lei nº 9.474/1997) assegura direitos fundamentais às pessoas que buscam proteção no Brasil, reconhecendo sua condição e garantindo acesso a direitos sociais básicos e à dignidade humana. Paralelamente, o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990) disciplina e protege as relações de consumo em território nacional, aplicando-se a todas as pessoas que participam dessas relações, independentemente de sua nacionalidade ou condição migratória.
Além disso, o Brasil dispõe de um marco normativo específico voltado à proteção de migrantes internacionais: a Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017). Essa legislação estabelece princípios e diretrizes para as políticas migratórias nacionais, reconhecendo direitos e deveres de migrantes e visitantes e reafirmando o compromisso do Estado brasileiro com a dignidade da pessoa humana, a não discriminação e a igualdade de tratamento. Em consonância com a Constituição Federal, a Lei de Migração reforça que o acesso a direitos fundamentais – inclusive nas relações de consumo – independe da nacionalidade ou da condição migratória, consolidando a aplicação do Código de Defesa do Consumidor a todos aqueles que consomem bens e serviços no país.
Nesse contexto, refugiados e migrantes, com ou sem documentação provisória, possuem os mesmos direitos de consumidores que cidadãos brasileiros, incluindo o acesso à informação adequada, a proteção contra práticas abusivas, as garantias legais de produtos e serviços e os mecanismos de reclamação e reparação previstos em lei – elementos essenciais para a promoção da cidadania no contexto socioeconômico brasileiro.
Em junho de 2025, o Procon-SP lançou uma cartilha e um conjunto de folders sobre direitos básicos do consumidor voltados especificamente para refugiados e migrantes no Brasil. O material, disponível em português e traduzido para árabe, espanhol, francês, inglês e persa, aborda temas como direito à informação, garantia de produtos e serviços, mecanismos para registrar reclamações e direitos em áreas sensíveis como moradia, educação, serviços financeiros, telefonia e transporte. Essa iniciativa resulta de uma parceria com o ACNUR e diversas organizações da sociedade civil, sendo um passo concreto para democratizar o acesso à informação e combater práticas abusivas dirigidas a populações em situação de vulnerabilidade.
É fundamental ressaltar que acesso à informação é um elemento estruturante de proteção ao consumidor, especialmente para pessoas que enfrentam barreiras linguísticas, culturais e jurídicas. Sem conhecimento sobre seus direitos básicos, refugiados ficam mais expostos a golpes, fraudes ou cláusulas contratuais abusivas que desrespeitam o CDC. Por isso, a tradução e disseminação de conteúdo educativo é, por si só, um instrumento de inclusão social e fomento à cidadania.
O direito do consumidor, portanto, não é um privilégio de poucos, é um mecanismo que assegura equidade nas relações de mercado, proteção contra práticas desleais e acesso efetivo a reparação em caso de violação. Garantir que refugiados e migrantes compreendam e possam exercer esses direitos no Brasil é, além de uma exigência legal, um compromisso com os valores democráticos que devem nortear qualquer sociedade plural e acolhedora.
A efetividade desses direitos depende, ainda, da atuação articulada de órgãos públicos, organizações da sociedade civil, operadores do direito e da própria mídia. Só assim transformaremos garantias legais em práticas sociais concretas, assegurando que consumir no Brasil – seja morando no país desde o nascimento ou buscando aqui uma chance de viver – signifique exercer direitos com segurança, dignidade e igualdade. Essa perspectiva também se adequa aos ideais de promoção para a paz e da dignidade humana, declarados na Constituição da UNESCO, de 1945, que diz: “uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz”. Garantir informação, acesso a direitos e proteção jurídica a refugiados e migrantes é, portanto, mais do que uma obrigação legal: é um passo concreto na construção de uma sociedade mais justa, consciente e comprometida com a convivência democrática.
Sobre a autora
Andrea Mottola é advogada especialista em Direito do Consumidor e Direito Digital. É coautora do livro “Golpes Contra a Pessoa Idosa” (Portal Edições, 2024).
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Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), em El Salvador, considerado o maior presídio das Américas e que vem recebendo migrantes deportados pelos Estados Unidos.
(Foto: Casa Presidencial / El Salvador)
O relatório 2026 da ONG Human Rights Watch, divulgado nesta quarta-feira (4), criticou os retrocessos verificados em escala global quanto aos direitos humanos, potencializados sobretudo pelo retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. E a questão migratória está entre os pontos levantados pela entidade, que vê o tema sendo usado como pretexto para rechaços não apenas cometidos pelo governo atualmente à frente da Casa Branca, mas também por outras nações na América Latina.
“Durante 2025, vários governos limitaram o acesso ao asilo e cometeram abusos contra migrantes deportados dos Estados Unidos. Alguns governos latino-americanos têm adotado cada vez mais políticas de segurança baseadas em prisões em massa, envio de forças militares para combater o “terrorismo” e uso excessivo da força. Embora o governo dos Estados Unidos tenha frequentemente criticado as violações sistemáticas dos direitos humanos na Venezuela, Cuba e Nicarágua, ele fechou os olhos para graves abusos em El Salvador, Equador e Peru, que restringem jornalistas e grupos de direitos humanos”, escreveu a entidade, em comunicado à imprensa.
Mesmo ponderando que os Estados Unidos têm o direito de proteger as próprias fronteiras, a Human Rights Watch afirma que o governo Trump tem ignorado de forma sistemática os direitos das pessoas migrantes, promovendo maus-tratos, discriminação e negando aos requerentes de asilo o acesso devido ao processo legal.
A respeito dos Estados Unidos, em especial, a Human Rights Watch recorda que desde o começo do governo Trump, em janeiro de 2025, o país impôs amplas políticas anti-imigração, utilizou o perfilamento racial na fiscalização imigratória, limitou os pedidos de asilo com base em violência doméstica e procurou impedir os requerentes de apresentar as solicitações, apesar de seu direito de fazê-lo sob as leis locais e internacionais.
A Human Rights Watch também menciona que 32 migrantes e requerentes de asilo morreram sob custódia do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) em 2025 e outros 4 morreram até meados de janeiro de 2026. A ONG também criticou a abordagem adotada pelos agentes do ICE, aterrorizando comunidades e prendendo indevidamente dezenas de cidadãos. E mencionou os dois cidadãos natos estadunidenses mortos pelos agentes da polícia migratória em Minneapolis durante o mês de janeiro.
Além dos Estados Unidos
Outros países da América Latina também foram criticados pela Human Rights Watch quanto ao trato desumano destinado aos migrantes.
A entidade cita que Panamá e Costa Rica detiveram arbitrariamente cidadãos de terceiros países deportados dos Estados Unidos, enquanto El Salvador submeteu os venezuelanos que o governo Trump deportou para lá a desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias e tortura sistemática.
A República Dominicana, por sua vez, intensificou a deportação de haitianos, colocando-os em perigo, em violação ao direito internacional dos direitos humanos.
O Brasil, por sua vez, é citado de forma breve em relação à questão migratória, a partir de dados públicos. A Human Rights Watch aponta que mais de 700 mil venezuelanos cruzaram a fronteira com o país nos últimos anos, além da menção à concessão de refúgio a 145.276 venezuelanos e autorizações de residência a 575.918 desde 2010.
Pelo recorte de tempo, o relatório não cita questões importantes que mexeram com o debate e o cenário da migração no Brasil, como o estabelecimento da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia – definida por decreto em outubro passado – e a mudança na concessão de vistos humanitários, agora atrelados à possibilidade de acolhida por meio do programa de patrocínio comunitário.
Caminhos possíveis
O diretor-executivo da Human Rights Watch, Philippe Bolopion, disse em artigo associado ao relatório da entidade que os Estados Unidos se tornaram “aliados de conveniência” de Rúsia e China na destruição do sistema global de direitos humanos.
“Com os EUA minando o sistema global de direitos humanos, quem se levantará em sua defesa? Apesar dos floreios retóricos, muitos governos tratam os direitos e o Estado de direito como um obstáculo, e não como um benefício, à segurança e ao crescimento econômico”, criticou o diretor da entidade.
Como alternativa, Bolopion pediu a criação urgente de uma nova aliança global para apoiar os direitos humanos internacionais dentro de uma ordem mundial regida por leis. Ele menciona Austrália, Brasil, Canadá, Japão, África do Sul, Coreia do Sul e Reino Unido, além da União Europeia, como participantes óbvios dessa sugerida articulação internacional. Mas também estende o olhar para nações como Costa Rica, Gâmbia, Gana, Liechtenstein, Malásia, México, Senegal, Serra Leoa e Vanuatu pelo papel desempenhado em iniciativas específicas de direitos humanos em fóruns internacionais.
“Individualmente, esses países podem ser facilmente dominados pela influência global dos EUA e da China. Mas juntos, eles podem se tornar uma força política poderosa e um bloco econômico substancial”, sustenta o diretor.
Por fim, Bolopion acrescenta que a sociedade civil é mais crucial do que nunca em um mundo cada vez mais hostil, mesmo sendo cada vez mais ameaçada e atacada, além de contar com recursos cada vez mais escassos.
“Quebrar a onda autoritária e defender os direitos humanos é um desafio geracional. Em 2026, isso se manifestará de forma mais aguda nos EUA, com consequências de longo alcance para o resto do mundo. A resistência exigirá uma reação determinada, estratégica e coordenada dos eleitores, da sociedade civil, das instituições multilaterais e dos governos que respeitam os direitos humanos em todo o mundo”.
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O Largo de São Domingos, em Lisboa, acolhe um comércio informal marcado pela participação de diferentes nacionalidades - e que ajuda a refletir a atualidade migratória de Portugal.
(Foto: Alana Moreira/MigraMundo)
Por João Carlos Jarochinski Silva
No próximo domingo, dia 8 de fevereiro, será realizado o segundo turno das eleições presidenciais em Portugal. As funções do Presidente da República estão definidas na Constituição da República Portuguesa, nos termos do artigo 133.º e seguintes, as quais são distintas das exercidas no Brasil. Esta será a segunda vez que acompanho esse pleito de forma mais próxima: a primeira ocorreu quando o atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, foi eleito para o seu primeiro mandato, em 2016. Cabe destacar, contudo, que a eleição atual adquiriu uma relevância muito maior do que as anteriores, não apenas pela pluralidade de candidaturas, mas sobretudo por ocorrer em meio a um processo de crescente polarização política que tem marcado os últimos anos no país.
Encontro-me atualmente em Portugal, junto com minha família, em virtude da prorrogação do meu período de pós-doutorado, vinculado ao Observatório da Emigração Brasileira (Projeto 4419-52/2023-2/CNPq), coordenado pela professora Rosana Baeninger, em parceria com o Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. Nesse contexto, tenho como supervisor o professor Jorge Malheiros.
Este texto não tem como objetivo apontar dificuldades relacionadas ao meu período como residente em Portugal, país que tem proporcionado a mim e à minha família experiências profundamente relevantes, oportunidades significativas de aprendizado acadêmico e uma convivência fraterna, em grande medida graças às excelentes pessoas que têm cruzado nosso caminho ao longo desse percurso. Destaco esses aspectos como forma de expressar nosso sincero agradecimento a todas e todos que nos acolhem e compartilham a vida conosco. Mas o olhar sobre a realidade para além de nossa experiência particular, infelizmente, revela uma realidade mais dura aos imigrantes em Portugal.
Mas o que, afinal, me motiva a escrever sobre este tema?
Após a minha chegada a Portugal, para estudar a migração de brasileiros no país no âmbito do Observatório, no primeiro evento acadêmico de que participei, ouvi o professor João Peixoto, uma das principais referências na área, afirmar que nunca se falou tanto da imigração no país. No entanto, segundo ele, esse protagonismo do tema não decorre, necessariamente, dos melhores motivos.
Outro elemento que me chamou a atenção foi as pessoas próximas que não estão conosco aqui, ao perguntarem se estava tudo em uma ligação ou mensagem de texto, também questionarem se estávamos sofrendo preconceito ou xenofobia, demonstrando preocupação com aquilo que vinham acompanhando através dos meios de comunicação.
Além destes, é inegável que a temática migratória marcou de forma decisiva o ano de 2025 em Portugal, tanto pelos intensos debates públicos quanto pelas alterações recentes nas leis de imigração e de nacionalidade. Trata-se, sem dúvida, do tema que mais acompanhou e tensionou o debate político no país ao longo do último ano.
Há, também, um elemento de natureza mais pessoal e experiencial: estou vivendo, justamente no meio desse debate público acirrado, os processos burocráticos de regularização migratória. Mesmo reconhecendo a minha condição privilegiada — cheguei ao país com visto para uma permanência temporária para fins de pesquisa com recursos brasileiros para manutenção financeira minha e de minha família, tenho conhecimento prévio das dinâmicas migratórias e, por tudo isso, considerado como migrante qualificado—,tem sido um processo bastante desafiador compreender e atender a todas as exigências administrativas impostas pelas autoridades portuguesas. Trata-se de uma experiência que, quando finalmente concluída, talvez mereça um texto próprio.
Por fim, sem dúvida o motivo mais sensível e impactante, foi o fato de ter sido confrontado com perguntas feitas pelo meu filho mais novo, de apenas oito anos: teríamos que voltar para casa (Brasil) caso André Ventura vencesse as eleições? Ou apenas quem chegasse depois das eleições sofreria esse tipo de constrangimento? Ouvir esse tipo de preocupação na voz de uma criança foi profundamente marcante.
É verdade que, por fazer parte do meu cotidiano, ele ouve frequentemente conversas sobre migração e refúgio, além de acompanhar, ainda que de forma fragmentada, o noticiário que acompanhamos em casa. Ainda assim, o nível de interesse e inquietação que demonstrou chamou-me particularmente a atenção. Ao questioná-lo sobre a origem dessa preocupação, ele explicou que o tema estava a ser comentado na escola, que havia visto cartazes do partido Chega pela cidade e propagandas eleitorais, e que não conseguia compreender por que algumas pessoas não queriam migrantes, já que — nas palavras dele — “não fazemos nada de errado” e ele próprio convive com colegas migrantes que “estão a fazer tudo direitinho e que se dão bem com todos, incluindo os colegas portugueses”.
Procurei tranquilizá-lo dizendo que, caso algo assim viesse a ocorrer, voltaríamos para o Brasil, para a nossa casa em Roraima. Mais uma vez, reconheço a minha posição privilegiada enquanto imigrante com garantias e com a possibilidade concreta de retorno. Naquele momento, contudo, o meu objetivo era apenas impedir que aquela preocupação que ele demonstrava não se transformasse em medo, perturbação ou ansiedade.
Chegamos a Portugal num momento de intensa efervescência política, marcado por sucessivos processos eleitorais e por dificuldades na consolidação de um governo estável na Assembleia da República, sob a liderança de um primeiro-ministro (que aqui exerce as funções governamentais). O predomínio de dois partidos que marcou o país após a Revolução dos Cravos, em 1974, está em mudança. Nesse contexto de instabilidade institucional, que gerou diversas eleições para a Assembleia, dada a dificuldade de uma força política possuir controle do Parlamento, gerou também a reorganização do sistema partidário e a ascensão de forças políticas que até recentemente ocupavam posições marginais no debate público.
É nesse cenário que se observa a ascensão do partido Chega, representante de uma direita mais radical (no Brasil denominaríamos de Extrema-direita), cujo candidato à Presidência é André Ventura, a quem meu filho fazia referência. No segundo turno, Ventura disputa o cargo com António José Seguro, historicamente vinculado ao Partido Socialista, embora, ao longo do pleito, venha se apresentando como um candidato independente do partido. Essa estratégia é politicamente viável no contexto português, tanto pelas atribuições constitucionais do Presidente da República, que não exerce a chefia do governo, quanto pelo fato de o cargo permitir uma candidatura não vinculada às estruturas partidárias tradicionais, a ponto de candidaturas independentes terem conseguido resultados expressivos.
O que se observa ao longo da campanha e, sobretudo, no único debate televisivo entre os dois candidatos realizado neste segundo turno, é que pouco se tem discutido sobre os temas diretamente relacionados às atribuições do cargo de Presidente da República, mesmo em um contexto internacional extremamente complexo, no qual a atuação presidencial tende a ter maior relevância. A Europa vive um período de fortes tensões, seja em razão da guerra prolongada na Ucrânia, seja pelas dificuldades enfrentadas no âmbito da OTAN, entre outros elementos estruturantes do atual cenário geopolítico. Ainda assim, esses temas permaneceram relativamente marginalizados no debate eleitoral.
Em contrapartida, a migração internacional assume centralidade. Trata-se de um tema que já vinha marcando fortemente a discussão política no âmbito da Assembleia da República, com a discussão das mudanças legislativas, assim como no âmbito judicial onde foi analisada a constitucionalidade da nova Lei de Imigração. Também nas eleições autárquicas (equivalentes às eleições municipais no Brasil) o tema teve centralidade, ainda que sob outros enquadramentos.
A escolha do termo “migração” aqui é deliberada, pois envolve tanto a imigração, mas também a emigração. Em primeiro lugar, porque a imigração continua a ser um dos eixos centrais do debate público. O tema apareceu no debate televisivo, ocasião em que André Ventura reiterou o seu discurso de fechamento de fronteiras e defesa da ideia de que a imigração estava sem controle, uma das marcas centrais de sua atuação política, responsabilizando a imigração por uma série de problemas sociais e econômicos. O elemento surpreendente, nesse contexto, foi a postura de António José Seguro. Embora historicamente vinculado ao Partido Socialista, o candidato adotou um discurso centrado na necessidade de “controle da migração”, ainda que tenha destacado em suas manifestações a importância que a força de trabalho migrante tem para o país.
Seguro, quando questionado por um dos mediadores sobre a experiência espanhola — em particular, o anúncio de uma regularização extraordinária de migrantes —, não apresentou uma resposta clara ou enfática sobre o que faria em situação semelhante. Tal silêncio torna-se ainda mais significativo quando se observa que, no mesmo dia do debate, o Partido Socialista promovia um evento dedicado às políticas que desenvolveu no tema migratório nos últimos 30 anos, salientando a centralidade da integração de migrantes (não entrarei nas disputas conceituais em torno do conceito de integração). Mesmo após o debate, ao ser novamente questionado por uma jornalista sobre o tema migratório, Seguro optou por encerrar o assunto, afirmando que já havia respondido à questão durante o confronto televisivo.
Esse episódio evidencia que, no campo da migração, o Chega conseguiu impor sua visão no debate público. O primeiro deles é a consolidação da narrativa de que seria necessário “retomar o controle migratório”, supostamente perdido. Como aponta o professor Jorge Malheiros, com o qual concordamos, o controle migratório nunca deixou de existir em Portugal, com possibilidades como a manifestação de interesse e algumas concessões dadas aos migrantes oriundos da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). O que houve foi um alargamento de critérios e mecanismos de regularização, o que não equivale à ausência de controle. Ainda assim, a narrativa do Chega, segundo a qual inexistia controle migratório e, portanto, seria indispensável uma reforma legislativa e o reforço de autoridades de caráter policial para exercerem o controle migratório, acabou por se consolidar como uma “verdade” no debate público e já vem trazendo consequências na vida de migrantes, que como meu filho, sentem-se mais inseguros, conforme relatos que colhemos com a comunidade.
Essa mesma narrativa foi, inclusive, mobilizada pelo governo do primeiro-ministro Luís Montenegro para justificar mudanças recentes na legislação migratória. O que chama a atenção é a ausência de uma defesa mais enfática das políticas anteriormente adotadas, muitas delas implementadas sob governos liderados pelo próprio Partido Socialista, em períodos nos quais António José Seguro também ocupava posições de protagonismo político. Percebe-se uma dificuldade em parte do campo progressista, realidade que não marca só Portugal, da defesa de uma pauta migrante que seja estabelecida em preceitos da dignidade da pessoa humana e da sua integração. A Sociedade Civil organizada que atua na defesa da comunidade migrante também tem encontrado dificuldade em estabelecer uma interlocução capaz de evitar retrocessos na temática como tem sido visto.
No caso de Portugal, isso é ainda mais relevante, já que existia no país a ideia, identificada pela cientista política Ana Paula Costa, atual presidente da Casa do Brasil em Lisboa, de um certo consenso em torno da temática migratória entre o Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita, e o Partido Socialista, de centro-esquerda, que fez com que o país fosse reconhecido pelas suas boas iniciativas, notadamente no foco da integração e da valorização da interculturalidade. Parece que o consenso agora é outro, na defesa de que é necessário reforçar o controle migratório, o que aponta para um outro fator relevante: o fortalecimento de uma abordagem cada vez mais securitária das migrações.
Essa mudança de enquadramento representa outra vitória das posições defendidas pelo Chega, pois, ao privilegiar a lente da segurança, questões fundamentais como os desafios demográficos, como são os casos do envelhecimento da população portuguesa e da sua baixa taxa de natalidade, a manutenção do sistema de seguridade social com as contribuições desses imigrantes, assim como outras necessidades do mercado de trabalho e as responsabilidades internacionais assumidas pelo Estado português tendem a ser relegadas a um segundo plano.
Essa lógica já se mostra presente em outras ações. Portugal optou por pagar 8,44 milhões de euros para não receber 420 pessoas solicitantes de asilo (no Brasil essas pessoas se enquadrariam como solicitantes de refúgio), no âmbito do mecanismo de solidariedade previsto no Pacto Europeu de Migração e Asilo. Em um país que enfrenta desafios demográficos significativos, no qual, apesar do crescimento populacional agregado, diversas regiões continuam a perder habitantes, e que frequentemente aponta os elevados custos do Estado como um problema central, pouco se discute que esse recurso poderia ter sido investido de forma mais eficiente na recepção e integração dessas pessoas, pois poderia gerar benefícios sociais, econômicos e demográficos mais amplos, em vez de ser tratado exclusivamente como um custo a ser evitado, já que, supostamente, o país vive sob “situação migratória significativa” segundo avaliação governamental.
Paralelamente, a temática da emigração portuguesa também adquire novos contornos políticos. Embora a emigração seja um traço histórico da sociedade portuguesa, essa realidade já não parece suficiente para sustentar, no debate público, uma defesa consistente da integração e do acesso a direitos por parte de migrantes. André Ventura obteve expressiva vitória entre os eleitores emigrantes, recorrendo a um discurso segundo o qual os portugueses, especialmente os mais jovens, deixam o país porque este não lhes oferece condições adequadas de permanência, ao mesmo tempo em que o Estado privilegiaria a entrada de imigrantes para “substituí-los”, mesmo em um contexto que muitos desses migrantes assumem funções que os nacionais não desejam, seja pelo tipo de trabalho, seja pela remuneração.
Constrói-se, assim, uma nova politização da emigração, que combina o argumento clássico da falta de oportunidades internas, em decorrência de problemas estruturais que a classe política tradicional não consegue ou não tem interesse em resolver, com a ideia de que os imigrantes estariam sendo favorecidos pelo Estado.
Pouco se discute, nesse enquadramento, se, diante do contexto do Espaço Schengen e das profundas desigualdades econômicas existentes no interior da União Europeia — espaço que hoje concentra a emigração portuguesa —, seria possível pensar na promoção do retorno desses emigrantes, dado as diferenças salariais significativas praticadas nesses locais frente a Portugal, a cultura de circulação que práticas como o sistema Erasmus na educação gerou, entre outros fatores, entre eles, a relevante trajetória histórica de emigração que marca o país. Tampouco se problematiza o fato de que setores centrais da economia portuguesa, como a agricultura, dependem fortemente da mão de obra imigrante. Esses elementos são secundarizados, pois o que parece politicamente mais eficaz é mobilizar frustrações e convertê-las em capital eleitoral.
O caminho das mudanças que vêm sendo promovidas em Portugal no campo da governança das migrações parece apontar para um cenário sem perspectiva de retorno, ao menos no curto prazo, às boas práticas que historicamente o caracterizaram . As projeções apresentadas no âmbito do MIPEX – Migrant Integration Policy Index (Índice de Políticas de Integração de Migrantes), cuja coordenação em Portugal esteve a cargo da professora Maria Lucinda Fonseca, indicam a perspectiva de uma queda significativa nos indicadores nacionais diante da nova legislação que passou a vigorar no ano passado. Essa projeção aponta que a percepção atual se orienta pela ideia de que parte substantiva das políticas que fizeram de Portugal uma referência internacional em matéria migratória já não é mais considerada credível nem mesmo por muitos dos agentes que as formularam e implementaram.
Ao abordarmos de forma crítica o que temos acompanhado, não significa dizer que há qualquer equivalência entre as posições de André Ventura e de António José Seguro no que diz respeito à temática migratória e a outros temas centrais, como os direitos humanos, o respeito à Constituição e o reconhecimento da diversidade e do dissenso democrático. António José Seguro, que lidera isoladamente as pesquisas, apresenta-se como uma figura moderada, consciente de seu papel institucional, a ponto de conseguir articular, neste segundo turno, o apoio de distintas lideranças políticas — da esquerda mais radical à direita moderada —, sobretudo no objetivo que os aproxima, que é barrar a ascensão de André Ventura e o risco de retrocesso institucional que isso representaria. Essa concertação de forças em torno de Seguro representa, sem dúvida, a preservação de uma esperança: a de que a resistência aos radicalismos excludentes ainda seja capaz de produzir convergências e de reafirmar o diálogo como elemento estruturante da construção política, mas, mesmo assim, parece que vivemos o momento de conter maiores danos do que conseguir avançar.
Ainda assim, não se pode ignorar o fato de que as pautas do Chega, especialmente no que se refere à migração, têm logrado impor-se como predominantes no debate público. Esse fenômeno, por si só, constitui um retrocesso significativo para um país marcado por uma intensa trajetória migratória e que, ao longo das últimas décadas, conseguiu desenvolver políticas relativamente exitosas tanto na promoção do interesse nacional quanto na garantia de acolhimento e integração dos imigrantes.
Frente a esse quadro, retomando as preocupações de meu filho, não deixo de pensar que, caso ele deseje retornar a Portugal como migrante no futuro, precisará de uma enorme dose de resiliência para enfrentar um cenário de securitização que transforma e, invariavelmente, dificulta a regularização migratória, além de abrir espaço para manifestações de preconceito e xenofobia. Ou, melhor pensando, talvez seja eu quem precise reunir forças para, caso isso aconteça, a cada ligação ter coragem de perguntar se ele não tem sido alvo de discriminação, preconceito ou xenofobia.
Agradeço aos colegas Ana Karina Brenner, Luís Felipe Magalhães e Marco Aurélio Machado de Oliveira pela leitura prévia e comentários ao texto, mas os problemas que ele apresenta são de minha responsabilidade.
Sobre o autor
João Carlos Jarochinski Silva é professor do curso de Relações Internacionais da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e do mestrado em Sociedade e Fronteiras na mesma instituição. Membro do Observatório da Emigração Brasileira (financiado pelo CNPq), motivo pelo qual se encontra em Portugal em um pós-doutorado no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa. Pai de dois filhos.
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Não há como dizer que toda a arte envolvida em Global Mobility pode tornar o dia a dia monótono. A multidisciplinaridade da movimentação global de talentos se reflete em quase todos os aspectos da vida de uma pessoa enviada para outro país, outra cultura, e qualquer abalo no mundo pode trazer uma grande exposição para todos os envolvidos.
As recentes tensões geopolíticas, em escala literalmente global, mostram que o tédio não é parte de tudo o que é feito para que empresas façam a movimentação das pessoas certas para os lugares certos. Em um mundo, e em uma arte, onde a proatividade prevalece, os eventos, tensões e os abalos colocam a área de Mobilidade Global em um lugar mais reativo do que gostaria.
Como se preparar para o inesperado? Sendo ainda que este inesperado se renova a quase toda a semana?
“Faça bem feito e fará uma vez só”
Essa não é uma frase que se aplica a Global Mobility. Uma vez que os eventos globais que acontecem (e vêm acontecendo em uma escala de tirar o fôlego) não seguem padrão algum, estar preparado significa estar atrasado. Afinal não são só eventos de escala global por si só, podem afetar pessoas diferentes de formas diferentes, e a obviedade deste momento é o que precisa ser lembrado.
O mundo está sempre se alterando, sempre passando por algo, e, independentemente do seu tamanho, pessoas são afetadas. A lembrança da Covid-19 ainda nos é presente não só por toda a dor e perda causadas, mas também pelos processos de Mobilidade Global que foram alterados para acomodar os passos – o famoso Duty of Care – a serem todos caso algo assim aconteça novamente. Não pela esperança de que algo tão terrível se repita, mas pela esperança de que, em caso de algo tão terrível assim se repita, possamos auxiliar a cuidar de mais pessoas, mais rápido.
O mesmo se passa com as crescentes “guerras e rumores de guerras” que rondam nosso 2026. Como estar preparado, se algo novo acontece no mundo a cada semana? Durante a pandemia tivemos a invasão russa sobre o estado-soberano da Ucrânia – até hoje é possível ver países bálticos com frases de suporte à Ucrânia, e de condenação ao atual Kremlin. Ainda o mundo foi lembrado recentemente de um conflito secular entre Israel e Hamas, que perdura há tanto tempo, e que possui tantas facetas, conseguindo continuar de várias maneiras – algumas dessas maneiras embasadas em puro preconceito. Em cenários absurdos como estes, como estar preparado para a movimentação de pessoas?
Em primeiro lugar, é importante saber os primeiros afetados. Expatriados. Localizados, recém-chegados. Dependentes. Viajantes a negócio. A lista pode ser maior ou menor, dependendo de quem é enviado. Mas não é possível desvincular o conceito principal: uma pessoa deslocada, sem sua rede de apoio, em uma nova cultura, que provavelmente não conhece todas as regras locais. Saber quem são essas pessoas, onde estão, e o que está acontecendo, vai ajudar na definição do próximo passo – mesmo que seja uma mensagem simples, a depender do tamanho da situação.
Ninguém espera que movimentos geopolíticos aconteçam de maneira tão rápida – principalmente em um mundo mergulhado na complexidade das relações entre países. Em poucas semanas de diferença, incursões estadunidenses aconteceram na Venezuela, ferindo soberanias e passando mensagens, e ofertas, também estadunidenses, de compra de um território autônomo ligado a outro país, foram feitas. Os impactos dessas ações no mundo das Pessoas em Movimento ainda não foram plenamente sentidos, mas a pedra foi jogada no lago, só falta saber quantas ondas atingirão a margem e por quanto tempo.
Como se preparar para movimentações tão grandes? E como informar e guiar os envolvidos? Infelizmente, os advisors de Global Mobility acabam por ser mais reativos do que proativos justamente pela impossibilidade de prever próximos passos – não incapacidade, mas sim a impossibilidade. A Incerteza do Mundo VUCA (ou “VICA”) realmente deu lugar ao Incompreensível do mundo B.A.N.I. (bem como se juntou o Ansioso, do mesmo mundo).
“Primeiro aprender a ficar de pé, depois, voar. Regra da natureza, Daniel-San” – Sr. Miyagi (Karatê Kid).
Mesmo com a Reatividade causada pela Incompreensibilidade do mundo, ações podem ser tomadas para que haja a proteção da pessoa em deslocamento, em movimentação pelo mundo. Decisões não muito populares, no começo, precisam ser tomadas em meio a um evento de grande escala. Muitas confirmações e validações das decisões tomadas vão acontecer após os eventos. Além disso, não é possível ser uma decisão tomada só por GM.
A Multidisciplinaridade da Mobilidade Global requer o “buy in” de várias frentes, o que em um momento de intensa decisão, precisará do apoio de áreas como Segurança, Compliance, Jurídico, RH entre outras tantas. Decisões como o congelamento de viagens, o que impediria as pessoas de deixarem o local onde estão no momento, o que pode ser uma ferramenta importante (e simples) na contenção de problemas, precisam de todos esses envolvidos.
Ainda a questão de parceiros estratégicos é pouco comentada. Quais ações os seus parceiros precisam tomar em casos como o dos Estados Unidos com a Venezuela? Quais soluções podem ser pensadas em conjunto para poder resolver algum problema que impeça a entrada de pessoas no país, ou mesmo, na necessidade de saída de alguém que já está alocado neste destino? A resposta do primeiro contato de emergência não pode ser um simples “vou verificar”. Ações reais precisam estar, no mínimo, ensaiadas, e as parcerias precisam estar sólidas desde o começo, justamente para diminuir a reatividade inerente ao estado de incompreensão.
Mesmo que as fábulas nos tenham vendido o conto do herói, o “heroísmo” na Mobilidade Global é cansativo para todos os que dele tomam parte. Problemas vão acontecer. Erros serão feitos, e somente vistos depois. É hercúlea a tarefa da perfeição, do heroísmo do Advisor de Global Mobility, da pessoa que vai resolver todos os problemas sozinha – por mais que este seja o desejo de muitos – não é nada fácil.
“Para aqueles que ainda virão” – Gustave
Por mais que a incerteza, a ansiedade e a incompreensão (além das outras letras que formam o mundo BANI), preparar o caminho, com parcerias estratégicas, com conversas difíceis, com planos e ensaios, sabem quem são as pessoas atingidas, ajuda muito com o lidar do incerto.
A movimentação de pessoas pelo mundo, não só de talentos, mas de pessoas, está ficando cada vez mais complexa. A multidisciplinaridade está ficando cada vez mais multidisciplinar, e impossível de se colocar em trilhos que ligam (e seguram) a movimentação de pessoas de um ponto A a um simples ponto B. O dever do cuidado com a pessoa, com as vidas envolvidas, é tanto dever quanto cuidado. Principalmente em meio a cenários novos, a pessoas que estão em culturas novas, sem uma rede de apoio para segurar a bronca que é mudar de país, e que é ter isso mudado do dia para a noite, a depender do cenário. Na maioria das vezes, a rede de apoio das pessoas, das famílias, das vidas enviadas é você.
Sobre o autor
Danyel Andre Margarido possui mais de quinze anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na Suzano. Já coordenou a movimentação de mais de 2.000 famílias pelo mundo, oferecendo suporte estratégico em relocation, imigração, integração cultural e todas as áreas que formam a Mobilidade Global de Talentos. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito. Tem MBA em Recursos Humanos pela Anhembi Morumbi e um mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais pela Rome Business School.
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O ator Leonardo DiCaprio em cena do filme "Uma Batalha Após a Outra".
(Foto: Divulgação/Warner)
Atualizado às 9h20 de 16.mar.2026
A questão das migrações novamente está entre os assuntos em destaque no Oscar, a maior e mais famosa premiação do cinema mundial. Desta vez o tema chega por meio do filme “Uma Batalha Após a Outra”, premiado em seis das 13 categorias nas quais foi indicado – incluindo a de Melhor Filme.
Dirigido por Paul Thomas Anderson, que também levou a estatueta de Melhor Direção, “Uma Batalha Após a Outra” utiliza uma narrativa distópica para discutir migração, políticas anti-imigração e violência institucional, trazendo à tona temas como centros de detenção, fronteiras militarizadas e a criminalização de pessoas migrantes em regimes autoritários.
Nesse universo, marcado por radicalização política, violência institucional e conflitos ideológicos, grupos extremistas – liderados por Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) e Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) – e forças estatais que têm o General Steven J. Lockjaw (Sean Penn) como líder, disputam o controle social. Dentro desse cenário, a migração surge como um eixo simbólico e político, especialmente ao retratar centros de detenção, fronteiras militarizadas e a criminalização de pessoas em deslocamento.
Além dos prêmios de Melhor Filme e Direção, o longa também saiu vencedor nas seguintes categorias: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Escalação de Elenco, Roteiro Adaptado e Montagem, sendo a produção mais premiada do Oscar 2026.
A questão migratória em “Uma Batalha Após a Outra”
Embora não acompanhe a trajetória íntima de migrantes específicos, o filme utiliza a questão migratória para evidenciar relações de poder, exclusão e desumanização, mostrando como corpos migrantes se tornam alvos centrais de políticas repressivas. Assim, a obra conecta a migração a debates mais amplos sobre direitos humanos, autoritarismo e resistência, tratando o deslocamento não apenas como movimento geográfico, mas como consequência direta de sistemas políticos em conflito.
O diretor Paul Thomas Anderson já possui o costume de trazer momentos-chave da sociedade americana, como o capitalismo expansivo do pós-guerra (There Will Be Blood), o culto ao sucesso e à performance emocional (Magnolia), a ascensão de líderes carismáticos e autoritários (The Master) e a alienação contemporânea (Punch-Drunk Love, Phantom Thread).
Uma Batalha Após a Outra é um filme para quem quer aprender sobre relações de poder às quais os imigrantes são submetidos quando se diz respeito a regimes autoritários e com agenda anti-imigração. O longa foi amplamente aclamado pela crítica, se tornando a maior bilheteria de Paul Thomas Anderson no Brasil e conta com um elenco de peso, que inclui: Benicio del Toro(Sensei Sergio),Sean Penn(Steven J. Lockjaw) e Teyana Taylor(Perfidia Beverly Hills). A trama já pode ser assistida nas plataformas de streaming.
Além disso, a obra veio em um momento especial com a crescente violência contra imigrantes na Era Trump, cuja principal faceta atualmente vem sendo a atuação do ICE, a polícia migratória estadunidense que ampliou seu poder e atuação sob o atual governo. A truculência mira não apenas migrantes indocumentados, mas também aqueles que possuem residência legal e até mesmo cidadãos estadunidenses que se colocam contra essa abordagem. As mortes de Renee Nicole Good e Alex Pretti, ocorridas todas neste mês de janeiro, têm levado parte da opinião pública nacional a rejeitar o ICE e a política migratória trumpista como um todo.
Oscar e migração em outros filmes
Além de “Uma Batalha Após a Outra” neste ano, edições recentes do Oscar têm trazido a temática migratória tanto nos longas candidatos – e em certos casos, premiados – quanto nos discursos dos laureados com a estatueta.
Nascida nos Estados Unidos e filha de migrantes dominicanos, Zoe Saldaña defendeu a comunidade durante o discurso de agradecimento no Oscar 2025 pelo prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pela atuação em “Emilia Perez”. “Minha avó veio para este país em 1961. Tenho orgulho de ser filha de imigrantes! Com sonhos, dignidade e mãos trabalhadoras. E eu sou a primeira dominicana-americana a receber um Oscar. E sei que não serei a última.”
Em 2023, o longa “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” trouxe a questão migratória de forma direta, tanto no enredo quanto junto aos atores premiados. Com uma mistura de multiverso, humor e ficção científica, a produção traz reflexões diversas sobre as contradições, obstáculos e sonhos de imigrantes, a partir da história de uma família chinesa que migrou para os Estados Unidos.
Ao todo, o longa venceu em 7 das 11 categorias nas quais tinha sido indicado, entre elas a de Melhor Filme. Também ganhou em Melhor direção e Roteiro original (Daniel Kwan e Daniel Scheinert), Atriz (Michelle Yeoh), montagem e ator e atriz coadjuvante (Ke Huy Quan e Jamie Lee Curtis). Ao discursar com a estatueta, Ke Huy Quan – nascido no Vietnã – lembrou da própria trajetória como migrante em situação de refúgio ao agradecer pelo prêmio.
“Minha jornada começou num barco. Acabei num campo de refugiados [em Hong Kong]… E, de alguma forma, acabei aqui. Dizem que histórias como essa só acontecem em filmes. Não acredito que isso está acontecendo comigo”, disse ele, no que foi considerado um dos momentos mais emocionantes da cerimônia.
Na edição de 2015, o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, que recebeu quatro prêmios pelo filme “Birdman”, aproveitou a visibilidade do evento e dedicou o seu discurso em favor dos direitos de seus compatriotas, que vivem em condições precárias nos Estados Unidos.
Também vale menção aos casos de: “Eu Capitão”, que retratou a jornada pela África e pelo mar Mediterrâneo de dois irmãos senegaleses que tentavam chegar à Europa e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2024; e de “Fuga”, indicado às estatuetas de Melhor Filme Internacional, Melhor Documentário e Melhor Animação em 2022 ao abordar a história real de um refugiado afegão homossexual que migrou para a Dinamarca.
Até o Brasil contribui para esse destaque, mesmo de forma indireta. O longa “Ainda Estou Aqui”, que entrou para a história como o primeiro a conquistar o Oscar para o país – na categoria Melhor Filme Internacional -, exibe as consequências de uma posição contrária ao exílio durante o regime militar e mostra o apoio de Rubens Paiva aos emigrantes nacionais.
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Dança do Dragão na Festa do Ano Novo Chinês, em São Paulo, em 2018.
(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Saudades das comemorações de final de ano? Depois da virada de 2025 para 2026 no calendário gregoriano, seguida pela maior parte do mundo, é a vez de celebrar a chegada do Ano Novo Chinês, que costuma levar multidões ao bairro da Liberdade e outros pontos de São Paulo e região metropolitana que celebram a cultura do gigante país asiático.
No calendário lunar, o Ano do Cavalo começa oficialmente em 17 de fevereiro, mas as celebrações ocorrem já neste final de semana (dias 31 de janeiro e 1 de fevereiro) nas ruas da Liberdade, que receberá um festival gratuito. A promoção do evento neste ano fica novamente a cargo da Associação Amizade Brasil China (AABC).
A celebração do Ano Novo Chinês, com suas tradições milenares, oferece uma oportunidade única para todos vivenciarem a rica cultura chinesa em São Paulo. Com atividades para todas as idades, representa uma experiência imperdível para quem deseja começar o ano com boas energias e novas descobertas.
Estima-se que no Brasil vivam cerca de 300 mil chineses, sendo a grande maioria no estado de São Paulo e em especial na capital paulista – uma comunidade ainda engrossada pelos descendentes diretos.
Programe-se
As festividades deste final de semana se concentram na Praça da Liberdade, onde fica o palco que recebe as principais atrações. Veja abaixo a programação:
Sábado — 31/01 (10h às 19h) Abertura oficial com presença de autoridades Desfile / Dança do Leão e do Dragão Apresentações musicais Demonstrações de Kung Fu e Tai Chi Chuan Caligrafia chinesa Horóscopo chinês Artesanato e comidas típicas / culinária chinesa Atividades como massagem também aparecem listadas como parte das atrações
Domingo — 01/02 (10h às 19h) Abertura + Dança do Leão e do Dragão Sequência de atrações culturais e gastronômicas (música, Kung Fu, Tai Chi, artesanato, caligrafia, comidas típicas)
Para quem não conseguir participar das festividades no bairro da Liberdade, haverá ainda uma oportunidade no próximo dia 26 de fevereiro, promovida pelo Templo Zu Lai, localizado na cidade de Cotia, região metropolitana de São Paulo.
Programação Templo Zu Lai:
9h30 – Workshops: Recorte de papel, Origami, Caligrafia Chinesa, entre outras oficinas Barracas com comidas típicas (vegetariana); 10h – Cerimônia dos Mil Budas; 13h30 – Dança do Dragão e Leão Apresentações culturais.
O Templo Zu Lai fica em Cotia, na Estrada Fernando Nobre, 1461. O acesso se dá pelo km 2,5 da Rodovia Raposo Tavares.
Entenda o calendário chinês
Os chineses seguem o calendário lunar, e cada ano é regido por um dos 12 animais do Horóscopo Chinês: rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, cabra, macaco, galo, cachorro e javali. Além disso, cada ano também incorpora um dos cinco elementos da natureza – madeira, fogo, terra, metal ou água – criando um ciclo de 60 anos para eles.
Em 17 de fevereiro tem o início o Ano do Cavalo de Fogo, sucedendo o Ano da Serprente de Madeira. Esse aninal é visto no Horóscopo Chinês como símbolo de movimento, liberdade, expansão e desejo de autonomia. O elemento Fogo, por sua vez, favorece lideranças autênticas, projetos autorais e caminhos que pedem coragem para sair do lugar, mas exige atenção aos excessos e à impulsividade.
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Mobilização na Espanha em prol da regularização de migrantes indocumentados no país europeu.
(Foto: Pedro Mata/Fotomovimiento)
Na contramão do que Estados Unidos e outros países dentro e fora da Europa têm feito em relação à migração, a Espanha anunciou que pretende regularizar a situação documental de cerca de 500 mil migrantes, sem distinção de nacionalidade. O plano foi divulgado na última terça-feira (27), mas as raízes que levaram a essa medida datam pelo menos de 2020, dos primórdios da pandemia de Covid-19, fruto da mobilização de movimentos sociais.
De caráter excepcional, o plano permitirá que cerca de “meio milhão de pessoas” que estão na Espanha há pelo menos cinco meses e que chegaram antes de 31 de dezembro de 2025 tenham status regularizado e possam “trabalhar em qualquer setor, em qualquer lugar do país”.
Como não há restrição de nacionalidade, a regularização pode beneficiar brasileiros que se enquadram no requisito.
“Hoje é um dia histórico para o nosso país. Estamos reforçando um modelo migratório baseado nos direitos humanos, na integração e compatível com o crescimento econômico e com a coesão social”, afirmou a ministra de Migrações, Elma Saiz, em coletiva de imprensa.
Vale lembrar que esta não é a primeira regularização extraordinária promovida pela Espanha. Desde 1986 foram pelo menos nove processos, conduzidos por governos de diferentes tendências políticas.
Em fevereiro de 2025, como parte das respostas aos estragos causados por fortes tempestades na região de Valencia em outubro de 2024, o governo espanhol aprovou um conjunto de medidas para atender às necessidades dos migrantes afetados. O pacote incluiu a regularização daqueles que se encontravam indocumentados ou com agendamento para realizar o registro antes de 4 de novembro daquele ano.
Dados compilados pela Fundação porCausa, entidade especializada em jornalismo humanizado sobre migrações, indicam que o número de não nacionais em situação administrativa irregular na Espanha pode ter alcançado cerca de 840 mil pessoas em janeiro de 2025. O número representaria 17,2% da população migrante proveniente de países não pertencentes à União Europeia.
Raízes profundas
O projeto se tornou realidade a partir de um acordo entre o governo do premiê Pedro Sánchez (PSOE) e outros partidos à esquerda, como o Podemos, por meio de um “Decreto Real”. Trata-se de uma normativa prevista na Constituição espanhola que deve ser publicada posteriormente no diário oficial e dribla a necessidade de submetê-la à votação no Parlamento, onde o Executivo atual não tem maioria.
Naquela época, diversos países – tanto europeus quanto o próprio Brasil – registraram iniciativas da sociedade civil para documentar pessoas migrantes. O objetivo era torná-las visíveis e, dessa forma, terem acesso aos serviços de saúde e colaborarem no combate à disseminação do vírus.
Em 2022, um movimento de quase mil organizações, liderado pelo Regularización Ya, iniciou a campanha “Esenciales” para promover uma Iniciativa Legislativa Popular (ILP) e levar a proposta de regularização ao Congresso, o que acabou ocorrendo de fato em março de 2024. Após um ano de campanha, a ILP reuniu mais de 700 mil assinaturas de apoio (eram necessárias 500 mil), com 611.821 assinaturas válidas certificadas, que foram apresentadas ao Legislativo.
Em abril de 2024, todos os grupos parlamentares votaram a favor da tramitação do ILP, com exceção do Vox – partido de ultradireita e que defende o rechaço à migração. Desde então, a proposta aguardava aprovação pelo governo, o que acabou ocorrendo somente agora a partir do Decreto Real.
“Enquanto aguardamos a definição de como a medida será concretizada, celebramos com muita emoção essa vitória histórica da comunidade migrante na Espanha”, escreveu a Fundação porCausa em documento no qual recorda essa trajetória.
O sociólogo Flávio Carvalho, brasileiro residente há duas décadas em Barcelona e colaborador do MigraMundo, também ressaltou a necessidade de recordar esse histórico. “É fruto de um trabalho que está sendo pouco reconhecido”.
Entre outras pessoas mobilizadas em torno dessa pauta, Carvalho ressaltou ainda o nome da então deputada Maria Dantas, ativista brasileira eleita para o Parlamento espanhol em 2019 pelo partido Esquerda Republicana da Catalunha (ERC).
Repercussão
Entre movimentos sociais e coletivos simpáticos à temática migratória, o plano de regularização de migrantes tem sido visto como uma grande vitória.
Em nota, a Platform for Undocumented Migrants (PICUM), organização que atua em defesa da regularização de migrantes no continente europeu, celebrou a decisão do governo espanhol, apontando-a como “a medida correta” a ser tomada e que outros países deveriam seguir o mesmo caminho.
“É um poderoso lembrete de que a regularização não apenas é possível — ela funciona e é a decisão correta. Para milhares de pessoas em situação migratória irregular que construíram suas vidas na Espanha, isso pode significar dignidade, estabilidade e acesso a direitos básicos”.
A PICUM acrescenta ainda que “em um momento em que um ambiente hostil contra migrantes se espalha em ambos os lados do Atlântico, essa iniciativa demonstra humanidade e bom senso”.
Já entre partidos e grupos que rechaçam a migração, o plano do governo espanhol é visto como uma mensagem de que “a Europa está sendo vendida”, além da circulação de vídeos e fotos que visam vincular a migração a crimes e delitos diversos.
Em documento explicativo sobre o plano, o governo espanhol rebateu críticas dessa natureza
“A evidência empírica mostra que as regularizações geram efeitos positivos ao melhorar a integração no mercado de trabalho e a mobilidade das pessoas regularizadas, aumentar a arrecadação fiscal e reduzir a informalidade. Essa evidência demonstra que a medida não gera efeito de atração nem beneficia as máfias; ao contrário, a regularização é justamente a forma mais eficaz de acabar com um negócio que se alimenta da irregularidade.”
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Migrantes indocumentados sendo deportados da ilha de Mayotte, departamento francês, pela polícia local.
(Foto: Préfet de Mayotte)
Não é novidade que, desde o ponto de vista sociopolítico e econômico, os Estados Unidos declinam a passos largos. Década a década, ano a ano, o centro das decisões geopolíticas e da produção mundial desloca-se para o continente asiático, com destaque para a China e Índia. Certo. Militarmente, os Estados Unidos seguem com sua liderança incontestada. Mas isso, longe de significar potência hegemônica, é antes sinal de fraqueza. Hegemonia, de fato, segundo o filósofo italiano António Gramsci, não se impõe apenas pelo poderio bélico. Tem a ver, muito mais, com uma superioridade naturalmente reconhecida, consensual e articulada. Refere-se, por exemplo, à capacidade de estabelecer acordos no complexo xadrez internacional das relações comerciais, bem como no jogo da política econômica globalizada. Não está descartada, ainda, a potencialidade das expressões culturais que ajuda a pavimentar o campo da troca de bens, de tecnologia e de saberes.
Por si só, o uso da força militar costuma ser sintoma de desespero. Da mesma forma que um doente em fase terminal tende a tomar remédios cada vez mais fortes, e em maior quantidade, o declínio de uma potência pode ser medido por sua agressividade gratuita, aleatória e indiscriminada. Quando uma pessoa, um grupo ou um país se vê na necessidade de apelar ao poder bélico ou de elevar o tom da voz e dos gritos, evidencia a própria irracionalidade. A falta de razão é substituída pelos punhos e pelas armas. Mas não é só isso! Igual falta de bom senso se revela quando os berros e a força bruta se voltam justamente contra os mais frágeis, indefesos e vulneráveis. No contexto atual, entre esses figuram os imigrantes!
As deportações de estrangeiros dos Estados Unidos (mas não só), com voos frequentes para os países de origem; a política migratória cada vez mais rigorosa, intransigente e intolerante no âmbito da Comunidade Europeia e do Reino Unido; a emergência consideravelmente generalizada de forças de extrema direita, sempre prontas a rechaçar na raiz o processo de imigração, como são os casos de Portugal, Chile, Hungria, Itália, França, entre outros; o aumento progressivo das exigências para conseguir vistos ou o direito de refúgio em numerosos países, com inclusão do Brasil; o crescimento de multidões de migrantes imobilizados nos campos de refugiados, e em situações de grande precariedades, nas várias fronteiras do planeta; e até mesmo as restrições ao turismo numa série de nações; – tudo isso espelha e aponta para o agravamento do preconceito, da discriminação e da xenofobia.
Em tempos de crise e de caos, cresce proporcionalmente o medo do “outro, diferente e estrangeiro”. Aquele que vem de fora tende a se tornar o “bode expiatório” de todos os males sociais e políticos, para não falar das doenças, pestes e epidemias. Enquanto as redes digitais, a opinião pública e a mídia em geral os veem como uma ameaça à ordem normal, as autoridades acionam os mecanismos de segurança nacional. O outro que bate à porta, vindo em especial dos países periféricos, se converte em potencial perigo. Por isso é que, não raro, nas páginas dos jornais, nas telas e telinhas, o noticiário sobre migrações vem com frequência associado ao terrorismo, ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas. Cruzam-se fatos, boatos e imagens que fazem questão de demonizar e criminalizar todo aquele que, forçado por uma série de motivações a deixar o solo pátrio, busca desesperadamente uma nova pátria, “aquela que lhe dê o pão”, como lembrava o bispo de Piacenza, Itália, São João Batista Scalabrini, considerado o “pai e apóstolo dos migrantes”.
Desnecessário acrescentar que nas turbulências da geopolítica mundial, a qual tenta reacomodar as peças do xadrez, os migrantes se encontram no vórtice da tempestade, no olho do furacão, no redemoinho dos ventos contrários e contraditórios. Num vaivém sem rumo e sem porto, correm ao sabor das correntes que movem o capital e a produção, disputam entre si as migalhas que caem da mesa dos mais ricos. Jogados uns contra os outros, não será novidade vê-los trabalhando por um mísero prato de comida. Felizmente, o migrante jamais pode ser reduzido a uma vítima inerme. Parafraseando Euclides da Cunha, ele é “antes de tudo um forte”. Venceu a primeira batalha ao escapar à violência, à guerra, à pobreza à fome. Venceu também as batalhas da dura travessia: criativo e dinâmico, sabe como enfrentar outros obstáculos e adversidades que se erguem pelos caminhos e fronteiras. Não são poucas as comunidades étnicas que, de uma forma ou de outra, se organizam e se mobilizam para “levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, como diz a canção popular. Neste caso, memória e valores culturais são ferramentas indispensáveis!
Sobre o autor
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
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Bandeiras de Brasil e China, que estabeleceram isenção mútua de vistos para turismo e negócios.
(Foto: Beto Barata/PR/Agência Brasil - set.2017)
Além de parceiros comerciais, Brasil e China agora contam com uma reciprocidade na questão de vistos de turismo e negócios. Uma abertura que, segundo especialistas ouvidos pelo MigraMundo, deve beneficiar ambas as partes e traz consigo uma mensagem importante no contexto atual.
Na última sexta-feira (23), o governo brasileiro informou que concederá isenção de algumas categorias de vistos de curta duração a cidadãos chineses. Embora o Brasil ainda não tenha informado exatamente quais serão os tipos de vistos incluídos nessa isenção, o objetivo da medida é facilitar o intercâmbio de pessoas entre o país asiático e outras regiões, no contexto de aproximação da China com a América Latina e outros blocos.
A decisão foi tomada após uma conversa na quinta-feira (22) entre o presidente Lula e o mandatário chinês, Xi Jinping. Ela é uma reciprocidade ao que já foi feito pela China em junho de 2025, quando incluiu o Brasil em uma lista de 45 países dispensados de visto de entrada para turismo e negócios. Na América do Sul, também foram beneficiados cidadãos de Argentina, Chile, Peru e Uruguai.
Por meio de nota divulgada na sexta, o Palácio do Planalto explicou que a isenção ocorre no contexto da ampliação da cooperação em áreas da “fronteira do conhecimento”.
Potenciais
A liberação dos vistos entre os dois países foi bem recebida por participantes do mercado de Mobilidade Global ouvidos pelo MigraMundo.
“A China é hoje um dos países que mais envia profissionais para o Brasil. A isenção de vistos, ainda que de curta duração, facilitará o intercâmbio e dará uma resposta ativa do interesse político-econômico brasileiro nesse intercâmbio”, disse Marta Mitico, presidente da ABEMMI (Associação Brasileira de Especialistas em Migração e Mobilidade Internacional), que congrega dezenas de empresas e institutos que trabalham com migração.
Para a advogada Karina Chuquimia, fundadora e diretora da empresa Immigration Consulting, a medida responde a dificuldades que já vinham sendo enfrentadas no âmbito consular no Brasil, especialmente por executivos no momento de solicitar vistos de negócios, o que muitas vezes limitava viagens e negociações presenciais.
“A iniciativa tende a facilitar esse fluxo, fortalecer a relação bilateral e estimular a economia, desde que sejam mantidos critérios adequados de controle migratório e respeitada a finalidade específica da isenção”.
Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), destacou que o anúncio vai além de um gesto de reciprocidade e reforça a solidez de uma relação construída ao longo de mais de 50 anos entre os dois países.
“É um movimento que consolida a confiança mútua e demonstra maturidade diplomática entre dois países que mantêm uma parceria estratégica de longo prazo. Ao isentar cidadãos chineses de visto, o Brasil fortalece uma agenda que vai além do comércio, abrangendo intercâmbios culturais, educacionais, turísticos e de negócios, em linha com a trajetória histórica da relação bilateral”.
Law acrescentou ainda que tal movimentação representa um sinal de abertura responsável e de compromisso com o diálogo internacional por parte do Brasil.
“Ao facilitar a entrada de cidadãos chineses, o país reforça uma diplomacia baseada na cooperação, na construção de pontes e na aproximação entre sociedades. Essa postura contribui para fortalecer a imagem do Brasil como um país aberto ao intercâmbio cultural, ao turismo e aos negócios, além de favorecer relações internacionais mais equilibradas e construtivas”.
Política de vistos
O Brasil costuma historicamente a aplicar o princípio da reciprocidade diplomática para concessão de vistos a pessoas de outros países. Ou seja, exige o documento de todas as nações que pedem o mesmo, como ocorre com os Estados Unidos e o Canadá. Por outro lado, cidadãos brasileiros estão isentos de visto para turista em diversos países da Europa, América Latina, África e Ásia, entre outros exemplos.
Essa tradição da reciprocidade diplomática foi quebrada em 2019, quando o então presidente Jair Bolsonaro (2019-2023) decidiu deixar de exigir visto de turistas de quatro países (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão), sem que o mesmo tratamento fosse adotado para os brasileiros. O argumento adotado à época foi o de fomento ao turismo nacional.
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Campus de Santo André (SP) da Universidade Federal do ABC (UFABC).
(Foto: Aline Veridiano/Divulgação)
A Fundação Universidade Federal do ABC (UFABC), na Grande São Paulo, abriu recentemente dois editais com vagas destinadas a solicitantes de refúgio, refugiados e migrantes com visto humanitário. As oportunidades contemplam o ingresso na Escola Preparatória da UFABC, com inscrições abertas até 31 de janeiro, e o acesso aos Cursos Interdisciplinares da instituição por meio do Sistema de Seleção Unificada (SISU) em 2026, cujas inscrições seguem até 10 de fevereiro.
Criada em 2005 e com primeiras turmas de graduação em 2006, a UFABC consolidou-se como um espaço público, gratuito, interdisciplinar e de excelência, cumprindo seu papel social de produzir e compartilhar ciência, tecnologia e inovação. Segundo dados da própria universidade, são quase 19 mil estudantes de graduação e mais de 3.700 em cursos de pós-graduação, distribuídos entre doutorado, mestrado e especialização.
Em 2018, a UFABC passou a oferecer vagas direcionadas especialmente a refugiados e solicitantes de refúgio com interesse em ingressar na graduação. A universidade é uma das instituições de ensino superior no Brasil que contam com a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, iniciativa acadêmica voltada ao ensino, pesquisa e extensão sobre refúgio e migrações.
Escola Preparatória da UFABC
Das 584 vagas ofertadas na Escola Preparatória da UFABC, seis são reservadas para refugiados(as), solicitantes de refúgio e migrantes beneficiários(as) de políticas humanitárias do Estado brasileiro, em conformidade com a Resolução ConsUni nº 245/2025. Não há exigência de idade mínima para a inscrição. O curso será realizado na modalidade presencial entre 1º de abril e 31 de outubro de 2026, abordando conteúdos do Ensino Médio com foco na matriz de habilidades e competências do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), podendo haver prorrogação a critério da coordenação.
As pessoas selecionadas poderão frequentar as aulas no período vespertino ou noturno no Campus Santo André (SP) ou no período vespertino no Campus São Bernardo do Campo (SP). As atividades ocorrerão de segunda a sexta-feira, conforme especificações do edital. Também está prevista a realização de atividades extraclasse ao longo do curso, possibilitando a participação de pessoas externas, conforme orientação da coordenação, além da aplicação de simulados aos finais de semana.
Não há cobrança de taxa de inscrição nem de mensalidade, sendo tanto o processo seletivo quanto as aulas totalmente gratuitos. Informações detalhadas sobre vagas, requisitos, cronograma, critérios de classificação e seleção, prova classificatória, divulgação dos resultados e matrícula estão disponíveis no edital publicado no site da UFABC.
Ingresso nos Cursos Interdisciplinares pelo Sistema de Seleção Unificada (SISU)
A UFABC também lançou o edital “Refugiados e Migrantes – UFABC”, voltado ao ingresso nos Bacharelados e Licenciaturas Interdisciplinares da universidade. O processo seletivo é destinado exclusivamente a pessoas refugiadas, solicitantes de refúgio e migrantes beneficiários de políticas humanitárias do Estado brasileiro, em conformidade com o Inciso IV do Art. 1º da Resolução nº 276/2025 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (ConsEPE), que regulamenta o acesso aos cursos interdisciplinares de ingresso da instituição.
Ao todo, serão ofertadas 22 vagas, distribuídas entre os cursos, campi e turnos, conforme a tabela abaixo:
As inscrições devem ser realizadas por meio de formulário digital disponível no endereço https://prograd.ufabc.edu.br/refugiados, até às 23h59 do dia 10 de fevereiro de 2026. Assim como no edital da Escola Preparatória, não há cobrança de taxa de inscrição.
Os critérios referentes às vagas, documentação exigida, etapas do processo seletivo, possibilidades de recurso e demais orientações podem ser consultados diretamente no edital, disponível no site oficial da UFABC.
As iniciativas reforçam o compromisso da UFABC com a promoção do acesso à educação superior e com a inclusão de pessoas em situação de refúgio e migração humanitária, contribuindo para a garantia de direitos e para a ampliação de oportunidades acadêmicas no Brasil.
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