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quinta-feira, maio 7, 2026
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Com mais de 60 mil vistos em 2025, Brasil cresce como destino para talentos internacionais

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Passageiros no terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Por Diana Quintas*

O Brasil concedeu em 2025 mais de 60 mil vistos de trabalho a profissionais estrangeiros, crescimento de 28% em relação ao ano anterior, que teve mais de 47 mil vistos emitidos. Os números são do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e mostram um salto nos últimos anos mesmo em comparação aos anos pré-pandemia, com crescimento de mais de 80% na entrada de trabalhadores estrangeiros em comparação com 2019. Esses números não são apenas estatística: são um termômetro econômico e geopolítico. Onde há gente qualificada chegando, existe capital, tecnologia, cadeias de suprimentos e projetos nascendo, e o Brasil está nesse mapa.

A mobilidade não acontece no vácuo. Antes de um investimento estrangeiro se transformar em fábrica, parque de energia, centro de Pesquisa e Desenvolvimento ou operação de serviços, há pessoas circulando para negociar, avaliar riscos, transferir tecnologia, treinar times e operar. É por isso que a migração laboral deveria ser tratada como política de desenvolvimento. Quando olhamos com lupa os fluxos de 2024 e 2025, vemos a força de setores como energia e offshore, uma vocação natural de um país com costa imensa e projetos que exigem alta especialização, mas vemos também serviços intensivos em conhecimento, infraestrutura e tecnologia da informação demandando perfis específicos que nem sempre estão disponíveis na velocidade necessária dentro das fronteiras.

Ao mesmo tempo, o mundo apertou as regras em várias frentes e redesenhou rotas. Os Estados Unidos ampliaram a exigência de entrevistas e reajustaram taxas; países europeus revisaram seus regimes de cidadania por descendência, endureceram regras e, em paralelo, vêm privilegiando caminhos baseados em habilidades, investimento e trabalho. O Reino Unido digitalizou controles; a União Europeia avança com o ETIAS, exigindo autorização eletrônica de viagem de isentos de visto; e, do outro lado do balcão, o Brasil adotou postura de reciprocidade com EUA, Canadá e Austrália, sem reimpor visto ao Japão após acordo bilateral. Em casa, 2025 trouxe atualização regulatória relevante ao ampliar atividades técnicas possíveis sob condição de visitante por períodos curtos. É uma modernização importante que reduz prazos e dá agilidade a projetos, mas que exige leitura jurídica cuidadosa para mitigar interpretações divergentes na implementação e respeitar limites de permanência e de remuneração no país.

O Brasil, aqui, tem vantagens competitivas que muitas vezes subestimamos. A legislação migratória pós-2017 é, em linhas gerais, moderna, com instrumentos para trabalho, transferência de tecnologia, pesquisa, nômades digitais e acordos multilaterais como os da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O ambiente regulatório é exigente, mas previsível quando bem navegado. Também é hora de atualizar a conversa pública. A busca por cidadanias europeias virou atalho popular na última década, mas o movimento recente de endurecimento mostra um ponto de inflexão: países com demografia desafiadora querem resolver lacunas do mercado de trabalho no curto prazo. Isso desloca o pêndulo para programas baseados em habilidades, investimento e estudo, e reforça a importância de trilhas formais e transparentes de trabalho qualificado.

Mobilidade internacional não é um fardo a ser administrado, mas uma estratégia a ser desenhada. Quando empresas incorporam essa visão, ganham acesso a talentos, aceleram inovação, constroem reputação e abrem mercados. Quando países a entendem como política de desenvolvimento, atraem investimentos, transferem tecnologia e melhoram produtividade. Os números do OBMigra mostram que o Brasil já está nesse jogo. O próximo passo é garantir que cada visto emitido se traduza em valor econômico, social e humano para quem chega, para quem recebe e para o país que queremos construir.

Sobre a autora

Diana Quintas é sócia da Fragomen no Brasil, maior e mais antiga empresa de imigração do mundo, líder em mobilidade internacional de pessoas físicas e empresas.


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Regularização migratória na Espanha reacende a esperança entre imigrantes em situação irregular em meio a polêmicas

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Manifestante durante protesto na Espanha em prol da regularização de migrantes indocumentados no país europeu. (Foto: Pedro Mata/Fotomovimiento)

Por Deborah Rodriguez e Denise Cogo

No dia 26 de janeiro desse ano, o governo da Espanha, liderado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez, do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) anunciou um acordo com o partido Podemos para regularizar, de forma extraordinária, cerca de 500 mil migrantes que tenham chegado ao país antes de 31 de dezembro de 2025.

Os beneficiários da medida serão migrantes em situação irregular que não possuam antecedentes criminais e comprovem residência na Espanha há pelo menos cinco meses. Aqueles que obtiverem a regularização terão direito a uma autorização de residência temporária por circunstâncias excepcionais, com vigência inicial de um ano, garantindo o direito de residir e trabalhar em qualquer parte do território espanhol. No caso de famílias com filhos menores de idade, a residência temporária também terá validade de um  ano.

Vanessa*, brasileira que vive na Espanha desde março de 2025, entrou com visto de turista, mas decidiu permanecer e apostar em uma nova vida na Catalunha, comunidade autônoma onde reside desde então. “Mesmo sem a documentação certinha, minha vida já mudou muito. Tem sido uma experiência surreal e maravilhosa. Não tenho intenção de sair da Espanha neste momento; pelo contrário, quero ficar aqui por muito tempo”, afirma. Formada em Administração no Brasil, Vanessa relata que sua experiência tem sido muito mais positiva do que imaginava, apesar de viver em situação migratória irregular. “A vida de quem é irregular não é fácil, e eu já passei por muitos perrengues desde que cheguei. Mas, ainda assim, aqui eu tenho qualidade de vida, poder de compra, segurança, lazer, uma infraestrutura muito boa e acesso à saúde muito melhor”, conta.

Em contraste, Kátia, de origem cubana, afirma ter enfrentado uma realidade muito mais dura como migrante irregular na Espanha.“Tem sido muito difícil. A Espanha é um país cujo sistema não facilita nem possibilita uma resolução rápida”, lamenta. Embora existam diversas formas de regularização, Kátia ressalta que o alto nível de burocracia e a lentidão dos processos — somados à demora dos trâmites a serem realizados a partir de Cuba — colocam os imigrantes cubanos “em uma situação de extrema vulnerabilidade, sobretudo para pessoas que não dispõem de uma estrutura financeira sólida.”

Antes da medida anunciada pelo governo espanhol em 2026, a regularização de migrantes na Espanha já havia sido impulsionada por governos de diferentes orientações políticas, como resposta a períodos de forte pressão migratória e à necessidade de tirar milhares de trabalhadores estrangeiros da invisibilidade.

Houve regularizações na segunda metade dos anos 1980 e no início dos anos 1990, durante os governos de Felipe González; outras no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000, sob o governo de José María Aznar. O processo mais amplo ocorreu, contudo,  em 2005, sob o governo de José Luis Rodríguez Zapatero, quando cerca de 600 mil pessoas obtiveram autorizações de residência e trabalho.

Segundo o jornal El País, o decreto de regularização migratória de 2026 — que, por sua natureza extraordinária, não precisa ser aprovado pelo Congresso espanhol — tem como objetivo “melhorar e agilizar as vias de acesso às autorizações de residência por circunstâncias excepcionais para as pessoas que comprovem um vínculo de convivência estável e indissociável na Espanha”. O decreto busca, ainda, conferir “maior segurança jurídica às pessoas estrangeiras presentes no território nacional, garantindo o exercício efetivo de seus direitos”.

Segundo estimativas da Fundação das Caixas de Poupança (Funcas), cerca de 840 mil migrantes em situação irregular viviam na Espanha em janeiro de 2025, número que cresceu 680% desde 2017, quando o total era de 107 mil. Em menos de uma década, a população migrante irregular no país aumentou oito vezes.

A possível aprovação da nova medida de regulamentação migratória representa, para muitos migrantes, uma mudança decisiva em suas trajetórias e projetos de vida. Atualmente, Vanessa não pode trabalhar em sua área de formação por falta de documentos. “Sou formada em Administração no Brasil, mas hoje não posso atuar na minha profissão. Com a regularização, vou poder voltar a trabalhar na minha área, ter um salário melhor e ainda melhor qualidade de vida. A revalidação é um pouco complicada, mas, futuramente, quando estiver tudo certinho, com certeza vou buscar essa revalidação”, afirma.

Regularização contra precarização

Para a psicóloga Daybell Pañellas, vinculada à Associação San Ricardo Pampuri — uma ONG dedicada à inclusão socioprofissional de pessoas em situação de exclusão social —, a regularização massiva representa um passo importante para a humanização e a recuperação da dignidade de muitos migrantes beneficiários da medida.

“Não ter documentos condiciona e perpetua a precariedade: para alugar apartamento, pedem comprovante de renda; muitos cursos não aceitam passaporte; os anos passam e a pessoa não contribui para a aposentadoria porque não trabalha; a saúde aqui é gratuita, mas, sem registro municipal, não há acesso. A regularização desestigmatiza institucionalmente ao eliminar a ‘irregularidade’, que funciona como suporte simbólico e normativo da desigualdade”, apontou Pañellas.

A redução da brecha de acesso social, especialmente na área da saúde, é uma das maiores expectativas de Dayron e de sua família, cubanos que chegaram à Espanha no final de 2024 com visto de estudos. A família possui um filho pequeno que é neurodivergente e não pode usufruir de alguns benefícios do sistema público por não estar regularizado. “A regularização massiva muda radicalmente a nossa situação. Um dos aspectos que mais nos satisfaz é que se levem em conta os menores e que seja concedida a eles uma autorização de residência de cinco anos. Para nós, isso é fundamental, não apenas pelo tempo de permanência autorizado, mas também pelo acesso que nosso filho teria à saúde pública e aos trâmites necessários para obter os certificados de deficiência e se integrar a uma turma TEA no sistema educativo regular”, conta Dayron.

Como ele, outros migrantes entrevistados concordam que a regularização permitirá alcançar conquistas materiais, como destacou Vanessa: “Vou poder comprar imóvel, veículo, fazer aquisições que hoje só são possíveis com documentação. Outro impacto importante da regularização na vida de Vanessa é a liberdade de circulação: “Hoje, por estar irregular, não posso sair da Espanha nem voltar, nem viajar para outros países. Com a nova regulamentação, vou poder conhecer outros lugares, outras culturas e entrar e sair do país legalmente”, aponta a brasileira.

A mesma expectativa é compartilhada por Alejandro, cubano que, desde 2023, não consegue visitar os pais em Cuba nem viajar ao exterior por estar em situação irregular. “Vai ser bom porque vou poder recuperar a possibilidade de viajar, inclusive para Cuba, algo que hoje não posso fazer.” O jovem, de 32 anos, lembra ainda que: “A regularização me permitiria ter mais estabilidade não apenas econômica, mas também de vida, com acesso a direitos trabalhistas e sociais”. Alejandro também espera que a medida represente um avanço em seu desenvolvimento profissional, ao permitir que trabalhe em sua área de formação — Economia — e tenha acesso a melhores oportunidades de emprego.

Sobre o processo de regularização, Vanessa acredita que não haverá grandes dificuldades: “O único talvez seja o custo para trazer documentos do Brasil, porque os que tenho aqui não serão suficientes. Também estamos aguardando para saber se será necessário contratar um advogado ou se as instituições vão orientar o processo.” Outros migrantes, como Dayron e sua esposa, ambos cubanos, ainda acompanham a implementação da medida com cautela, apesar da esperança que iniciativas como essa despertam.

Um dos principais desafios para quem deseja se beneficiar da regularização extraordinária está na incerteza quanto aos requisitos e à comprovação das condições exigidas. Entre as alternativas mais comuns para demonstrar a permanência na Espanha, o registro no padrón municipal continua sendo a via mais utilizada. Mais recentemente, passou a ser aceita a apresentação de comprovantes de transporte público, recurso que muitas pessoas utilizaram durante sua residência no país. Essa flexibilização permite que mais migrantes documentem sua permanência sem depender de trâmites formais que antes eram restritivos.

No entanto, para os cubanos, persiste um obstáculo complexo: a apresentação dos antecedentes criminais do país de origem. Segundo Dayron: “Quem ainda não os possui dispõe de muito pouco tempo para consegui-los, e trata-se de trâmites lentos que, além disso, exigem legalização e apostilamento, o que implica tempo e dinheiro. Isso complica a situação de muitas pessoas.”Esse requisito, essencial para ter acesso à regularização, evidencia como fatores burocráticos e ligados ao país de origem podem limitar a efetividade da medida, tendo em vista  o prazo relativamente curto  — até 30 de junho —para a realização das solicitações.

Já para imigrantes de outras nacionalidades, como os brasileiros, os requisitos para regularização parecem mais acessíveis. “Pelo que foi informado, só será preciso não ter antecedentes criminais e ter entrado na Espanha antes de dezembro de 2025. Se for assim, é a forma mais fácil de se legalizar hoje, muito mais simples do que visto de estudante, arraigo ou qualquer outro processo”, afirmou Vanessa.

Desejados ou não? Opiniões em confronto

Os imigrantes que poderão se beneficiar da regularização encaram a notícia com expectativa e esperança de acessar os mesmos direitos e benefícios que os que estão  em situação regular.  No entanto, a crescente popularidade da direita na política espanhola —e, em particular, da agenda anti-imigração defendida por partidos ultraconservadores como o Vox, que recentemente dobrou sua intenção de voto na província de Aragón— tem gerado disputas e polarização em torno da medida de regularização.

Nas mídias digitais, tanto figuras políticas quanto influenciadores, dentre eles imigrantes, têm se manifestado contra a regularização. É o caso da porta-voz de Vox, Isabel Pérez Moñino, que repostou um depoimento de novembro de 2025 em seu perfil do Instagram em que associa a questão securitária na comunidade de Madri à prevalência das chamadas “bandas latinas”, grupos criminosos integrados por jovens, em sua maioria de origem latino-americana: “Nem espanhóis, nem latinos, nem hispânicos, nem nada. São criminosos e, com Vox, vão para o seu país. Passagem de volta para todos aqueles que vieram ao nosso país para impor violência, impor sua cultura ou impor suas normas. Fora. Não os queremos”.

Em outro vídeo, publicado na mesma plataforma, Pérez Moñino alerta sobre um boletim de ocorrência que ela própria teria feito depois de “um estrangeiro” ter furtado a bolsa da sua mãe no supermercado. A porta-voz de Vox conclui o vídeo dizendo: “Esta é a Espanha que temos hoje. Esta é a Madri de todos os sotaques que a senhora Ayuso defende. Nós, desde Vox, vamos mudar radicalmente isso porque nossa mão não vai tremer na hora de mandar para o seu país a todos aqueles que vêm aqui para cometer delitos”.

Na comunidade imigrante na Espanha,  também surgem discursos contrários à regularização massiva. É o caso do criador de conteúdo Carlos Guamán, boliviano que se apresenta nas redes sociais como ativista anticomunista. Dois dias após o anúncio da medida, Guamán publicou um vídeo opinando sobre o tema, no qual descrevia a medida como uma manobra política da esquerda unida para conquistar votos de potenciais beneficiários da regularização. “Sou imigrante e, claro, sou contra o decreto de Pedro Sánchez para regularizar meio milhão de imigrantes”, postou no Instagram.

Essa tese, entretanto, já foi classificada como desinformação por veículos da imprensa espanhola, sendo desmentida com base no fato de que, para votar, os migrantes precisam não apenas estar regularizados, mas também nacionalizados. Na mesma postagem, outros comentários alinhados à postura de Guamán também refletem uma confusão entre termos como regularização e nacionalização. “Eu sou totalmente contra. A nacionalidade não se dá de graça como se não valesse nada. Eu emigrei nos anos 90 para o Canadá e te asseguro que só entrei porque cumpria os requisitos; caso contrário, não teria entrado. O processo levou mais de um ano até que eu obtivesse minha vida de imigrante. Tive que passar por duas entrevistas com a imigração, entregar documentação, certidão de antecedentes criminais, exame médico, comprovar solvência econômica para me manter nos primeiros seis meses até conseguir um trabalho, pagar as taxas do visto. Esperar a aprovação e receber o visto de imigrante, que indica o prazo para chegar ao país; se não chegasse dentro desse prazo, perderia o visto. A nacionalidade é algo muito sério e não se concede como se não tivesse valor”, expressou um usuário nos comentários da postagem.

Ao contrário do que sugerem muitos partidos com agendas anti-imigração, o status migratório não depende apenas da vontade do migrante de se integrar, mas também das políticas implementadas pelos governos, como a de regularização proposta pelo governo espanhol, para garantir que as pessoas que migram possam ter uma vida digna e ser reconhecidas como cidadãs com direitos.

Sobre as autoras

Deborah Rodríguez é pós-doutoranda pelo CNPq no Instituto de la Comunicación da Universidade Autônoma de Barcelona. Integrante da equipe do projeto de pesquisa “Ativismo migrante em plataformas digitais em apoio a pautas de extrema-direita e anti-imigração”, desenvolvido pelo grupo de pesquisa de Deslocar no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM  (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e financiado por CNPq e Fapesp. Jornalista e editora na revista digital OnCuba News.

Denise Cogo é Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM  (Escola Superior de Propaganda e Marketing), onde coordena projeto de pesquisa “Ativismo migrante em plataformas digitais em apoio a pautas de extrema-direita e anti-imigração”, desenvolvido pelo grupo de pesquisa de Deslocar e financiado por CNPq e Fapesp. Pesquisadora Produtividade 1C do CNPq.


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Longe dos holofotes, Sudão ultrapassa mil dias de guerra e vive maior crise atual de deslocamento forçado do mundo

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Pessoas que fugiram dos combates ao sul da capital do Sudão, Cartum, buscam abrigo em uma estação de ônibus. (Foto: Gilles Clarke/Ocha)

Por Gustavo Cavalcante

Após mais de mil dias de combates ininterruptos e caminhando para completar três anos, a guerra no Sudão consolidou-se como uma das crises humanitárias mais graves atualmente. Sem qualquer solução política à vista, o conflito entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) mergulhou o país em um colapso prolongado, marcado por violência sistemática contra civis, destruição de infraestrutura básica e desintegração do Estado.

Nesse período, o Sudão tornou-se, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a maior crise de deslocamento forçado do mundo, incluindo refugiados e deslocados internos. Desde abril de 2023, mais de 12 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas. O número supera o de crises históricas como as da Síria e da Ucrânia, refletindo a velocidade e a escala inéditas da emergência sudanesa.

Metade dessas pessoas deslocadas são crianças, muitas desacompanhadas, expostas a riscos extremos de violência, fome e exploração, tanto dentro do país quanto nos Estados vizinhos que as acolhem.

É nesse contexto que o líder do ACNUR, Barham Salih, realizou sua primeira visita oficial à crise sudanesa, com passagem pelo leste do Chade, principal destino dos refugiados que fogem da região de Darfur, epicentro dos confrontos. Ao encontrar famílias deslocadas múltiplas vezes pela guerra, Salih classificou a situação como uma “calamidade humanitária de proporções avassaladoras”.

Após mil dias de guerra

A guerra no Sudão teve início em 15 de abril de 2023, quando confrontos armados eclodiram entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF), comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo. O conflito emergiu de disputas pelo controle do poder após o golpe militar de 2021 e rapidamente se espalhou por diversas regiões do país, incluindo a capital, Cartum. Desde então, sucessivas tentativas de cessar-fogo fracassaram, e não houve avanços significativos rumo a uma solução política duradoura.

Ao longo de mais de mil dias de guerra, o Sudão passou por um processo acelerado de fragmentação territorial. Enquanto o Exército manteve maior presença no leste e em partes estratégicas do país, as forças paramilitares consolidaram controle em amplas áreas do oeste, especialmente na região de Darfur. Essa divisão enfraqueceu ainda mais as instituições estatais, comprometeu a administração pública e dificultou o acesso humanitário a áreas sob controle de diferentes atores armados.

A violência escalou sobretudo nas regiões de Darfur, Cartum e Cordofão. Em Darfur, cidades como El Fasher, Geneina e Nyala foram palco de combates intensos, cercos prolongados e ataques contra comunidades civis, forçando deslocamentos repetidos da população. Na capital e em áreas metropolitanas, confrontos urbanos, bombardeios e tiroteios transformaram bairros densamente povoados em zonas de guerra, levando milhões de pessoas a fugir em busca de segurança.

Relatórios de organizações humanitárias e das Nações Unidas documentam ataques sistemáticos contra civis e infraestrutura essencial. Hospitais, mercados, escolas e campos de deslocados foram atingidos ou saqueados, comprometendo gravemente a capacidade de resposta humanitária. Trabalhadores da saúde e equipes de socorro também foram alvo de violência, o que reduziu ainda mais o funcionamento de serviços básicos em áreas afetadas pelo conflito.

Como consequência direta da guerra, o sistema de saúde sudanês entrou em colapso. Mais de 70% das unidades hospitalares deixaram de operar totalmente ou parcialmente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A destruição de instalações, a escassez de profissionais e a falta de insumos agravaram o avanço da fome e de doenças evitáveis, como cólera, sarampo e malária. Em um contexto de deslocamento em massa e acesso limitado à água potável e à alimentação, esses fatores ampliaram o impacto humanitário do conflito sobre a população civil.

Epicentro do deslocamento forçado global

Com a intensificação e a prolongação do conflito, o Sudão tornou-se o epicentro do deslocamento forçado global. Dos 12 milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas, cerca de 9 milhões permanecem deslocadas internamente, vivendo em condições precárias dentro do próprio Sudão, muitas vezes em áreas de difícil acesso humanitário ou próximas às linhas de combate. As demais cruzaram fronteiras internacionais, buscando proteção principalmente em países vizinhos como Chade, Sudão do Sul, Egito, Etiópia e Uganda.

O fluxo contínuo de refugiados tem imposto pressão sobre as comunidades anfitriãs e a infraestrutura local nos países de acolhida, muitos deles já marcados por fragilidade econômica e crises próprias. Campos de refugiados e áreas de assentamento improvisadas enfrentam superlotação, escassez de água potável, serviços de saúde limitados e sistemas de saneamento insuficientes. A capacidade de resposta humanitária tem sido afetada pelo subfinanciamento crônico, agravando as condições de vida tanto dos refugiados sudaneses quanto das populações locais que os recebem.

A região de Darfur permanece como a área mais afetada pela guerra no Sudão e concentra alguns dos episódios mais graves de violência desde o início do conflito. Cidades estratégicas como El Fasher e Geneina enfrentaram cercos prolongados, combates intensos e sucessivas ofensivas armadas, que resultaram em grande número de mortos, destruição de bairros inteiros e deslocamentos em massa da população civil. A instabilidade persistente dificultou a atuação de autoridades locais e inviabilizou o funcionamento regular de serviços essenciais.

Relatórios das Nações Unidas e de organizações humanitárias registram massacres, ataques direcionados contra grupos étnicos não árabes e o uso sistemático da violência sexual como instrumento de guerra, especialmente em áreas sob controle de milícias aliadas às Forças de Apoio Rápido. Em Geneina e em localidades vizinhas, foram documentadas execuções sumárias, incêndios de vilarejos e perseguições com motivação étnica, levando a acusações de limpeza étnica. Esses episódios contribuíram para a fuga em massa de civis e para o agravamento da crise humanitária na região.

Atualmente, centenas de milhares de civis permanecem sitiados em Darfur, com acesso extremamente limitado a alimentos, água potável, assistência médica e ajuda humanitária. As rotas de fuga disponíveis são consideradas perigosas, frequentemente atravessando áreas de combate ou regiões controladas por grupos armados, o que expõe os deslocados a novos episódios de violência, extorsão e separação familiar. Como resultado, muitas pessoas são forçadas a se deslocar repetidas vezes, sem encontrar condições mínimas de segurança ou estabilidade.

Presença do ACNUR

A crise sudanesa foi a pauta principal da primeira viagem internacional de Barham Salih, novo chefe do ACNUR, que em janeiro deste ano visitou o leste do Chade. A região é atualmente o principal destino de pessoas que fogem da guerra no Sudão (cerca de 400 mil, segundo dados da ONU), especialmente da região de Darfur, e recebe novos refugiados diariamente desde o início do conflito em abril de 2023. A agenda teve como foco a avaliação direta das condições humanitárias e o diálogo com autoridades locais e organizações parceiras.

Durante a visita, Salih esteve em assentamentos que abrigam famílias sudanesas deslocadas múltiplas vezes pela guerra, muitas das quais cruzaram a fronteira após longos deslocamentos forçados e em situação de extrema vulnerabilidade. O Alto Comissário ouviu relatos de violência, perdas familiares e dificuldades de acesso a abrigo, água, alimentação e serviços básicos. As visitas de campo buscaram dimensionar os impactos do fluxo contínuo de refugiados tanto sobre os deslocados quanto sobre as comunidades anfitriãs.

Em declarações públicas, Barham Salih classificou a situação como uma “calamidade humanitária de proporções avassaladoras” e destacou o papel do Chade ao manter suas fronteiras abertas. “Ao oferecer proteção, status legal e segurança aos refugiados, o Chade está demonstrando um compromisso fundamental com os princípios da proteção internacional”, afirmou. Ao mesmo tempo, ressaltou que o país não pode arcar sozinho com a resposta à crise, diante da escala do deslocamento sudanês.

Milhares de refugiados atravessam a fronteira para o Chade fugindo da violência no Sudão.
(Foto: Aristophane Ngargoune/ACNUR)

O Alto Comissário fez um apelo direto à comunidade internacional por mais financiamento, alertando para o impacto da redução de recursos sobre a capacidade de resposta humanitária. Em seus pronunciamentos, Salih enfatizou a necessidade de garantir dignidade e proteção internacional às pessoas refugiadas, além de investir em soluções duradouras e no apoio às comunidades anfitriãs, que enfrentam pressão crescente sobre serviços e infraestrutura em razão da chegada massiva de refugiados sudaneses.

A resposta humanitária à crise no Sudão enfrenta grave escassez de recursos, com o financiamento atualmente abaixo de 10% do valor considerado necessário pelas agências das Nações Unidas e organizações parceiras. Esse déficit compromete a capacidade operacional em um contexto de necessidades crescentes, marcado por deslocamentos em larga escala e acesso limitado a áreas afetadas pelo conflito. Como resultado, programas considerados essenciais vêm sendo reduzidos ou suspensos em diferentes regiões.

Entre os impactos diretos dos cortes de verba está a redução de serviços de água, saúde e proteção. Organizações humanitárias relatam o fechamento de espaços seguros para mulheres e crianças, que ofereciam apoio psicossocial, proteção contra violência de gênero e acesso a serviços básicos. A interrupção desses programas tem ampliado a exposição de grupos vulneráveis a riscos adicionais em campos de deslocados e comunidades anfitriãs.

Além disso, agências humanitárias também alertam para o aumento da vulnerabilidade à violência, exploração e trabalho infantil. Diante desse cenário, organizações que atuam na linha de frente apontam sinais de exaustão operacional, destacando que a continuidade da resposta depende de novos aportes financeiros e de acesso humanitário seguro às populações afetadas.

Retornos tímidos

A redução parcial dos combates em Cartum e em algumas áreas do centro do Sudão abriu espaço para retornos limitados de pessoas deslocadas ao longo dos últimos meses. Com a diminuição da intensidade dos confrontos em determinados bairros da capital e em cidades próximas, famílias que haviam fugido durante os momentos mais críticos da guerra passaram a tentar regressar às suas comunidades de origem, após longos períodos de deslocamento interno.

Segundo dados de agências humanitárias, cerca de 2,6 milhões de pessoas tentaram retornar às áreas de onde haviam sido forçadas a sair desde o início do conflito. Esses movimentos ocorreram tanto dentro de Cartum quanto em outros centros urbanos, como Omdurman, Wad Madani e partes do estado de Gezira, impulsionados pela percepção de maior segurança relativa e pela dificuldade de permanecer por longos períodos em locais de acolhimento precários.

Ao chegar, no entanto, muitas famílias encontraram casas destruídas ou danificadas, ausência de serviços básicos e infraestrutura severamente comprometida. Hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água e fornecimento de energia elétrica seguem inoperantes em diversas áreas, dificultando a retomada da vida cotidiana e o acesso a condições mínimas de sobrevivência.

As organizações humanitárias alertam que esses retornos ocorrem em um contexto de insegurança persistente, com presença de grupos armados, risco de novos confrontos e acesso limitado à assistência. Diante da destruição generalizada e da falta de serviços essenciais, os retornos são considerados frágeis e instáveis, com possibilidade de novos deslocamentos caso a situação de segurança volte a se deteriorar.

O que esperar para o futuro

Após mais de mil dias de guerra e perto de completar três anos de guerra, o Sudão expõe de forma clara os desafios enfrentados pelo sistema internacional de resposta a deslocamentos forçados em larga escala. A dimensão da crise, que já deslocou mais de 12 milhões de pessoas, coloca à prova a capacidade das agências humanitárias e dos Estados de garantir proteção, assistência e soluções duradouras em um contexto de conflito prolongado e instabilidade regional.

A atuação do ACNUR ocorre em meio a restrições severas de recursos, com impactos diretos sobre a continuidade de programas essenciais. A escassez de financiamento limita a capacidade da agência de responder ao ritmo acelerado dos deslocamentos, ampliar a assistência nos países de acolhida e sustentar iniciativas de proteção e integração. Nesse cenário, a resposta humanitária depende cada vez mais das decisões políticas e financeiras dos Estados, tanto no apoio às operações quanto na manutenção de políticas de asilo e proteção internacional.

Organizações humanitárias alertam para o risco de o Sudão se tornar uma crise prolongada e gradualmente normalizada, à medida que o conflito se estende e a atenção internacional se dispersa entre múltiplas emergências globais. A continuidade da violência, somada à falta de avanços diplomáticos consistentes, tende a perpetuar ciclos sucessivos de deslocamento, retorno precário e novas fugas.Diante desse cenário, as agências da ONU reiteram que a interrupção do ciclo de guerra e deslocamento depende, em última instância, de uma solução política para o conflito. Sem avanços nesse campo, a crise humanitária no Sudão deve seguir se aprofundando, com impactos duradouros para milhões de pessoas deslocadas e para a estabilidade da região.


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A conquista de Lucas Pinheiro Braathen, migrações e o multiculturalismo no esporte

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Lucas Pinheiro Braathen, que fez história ao conquistar a primeira medalha para o Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno. (Foto: Rafael Bello/COB)

Por Guilherme Freitas

Após uma longa espera, finalmente o esporte olímpico brasileiro conquistou seu primeiro pódio em Jogos Olímpicos de Inverno. E essa façanha coube a Lucas Pinheiro Braathen, medalha de ouro na prova do slalom gigante do esqui alpino. Não sou um especialista em esportes de gelo, honestamente, meu conhecimento é nulo. Por isso, não pretendo falar da prova ou da competição que ocorre em Milão e Cortina. Quero falar sobre Lucas e esse fator da multiculturalidade do esporte.

Nascido em Oslo, capital da Noruega, filho de pai norueguês e mãe brasileira, Lucas cresceu entre o Brasil e a Noruega devido ao divórcio dos pais ainda quando ele era muito pequeno. O atleta começou a esquiar incentivado pelo pai, um apaixonado por modalidades de gelo. Lucas contou em entrevistas que teve uma infância complicada devido ao fato de representar e vivenciar duas culturas distintas, dizendo que “era difícil achar meu espaço nas comunidades”. Simultaneamente, ele se sentia brasileiro e norueguês.

O fato de viver alguns anos no Brasil com a mãe lhe fez aflorar o sentimento de brasilidade. Algo que ele sempre demonstrou carregar consigo, mesmo quando ainda representava a Noruega em competições internacionais. Em 2023 ele teve algumas rusgas com a federação norueguesa e optou em seguida por representar o Brasil. Fluente em português e sempre mantendo contato com a família e amigos por aqui, não foi difícil se adaptar. E para nossa sorte, a escolha em representar o Brasil deu ao país a primeira medalha olímpica em Jogos de Inverno.

Lucas é um exemplo de atleta cada vez mais comum atualmente. O esportista que costumo chamar de multicultural, aquele atleta que carrega consigo duas ou até mais diferentes culturas. Este sujeito, muitas vezes, pode acabar sendo um elo de ligação entre estes mundos tão distintos. Esse atleta carrega consigo uma identidade única, híbrida, como vai dizer Stuart Hall, ou líquida, como diria Zygmunt Bauman. Estudei este tema no meu mestrado através das seleções de futebol da Europa, um caso bem mais famoso e conhecido popularmente. Porém, este tipo de atleta não se resume somente ao futebol.

Cada vez mais estamos assistindo uma ascensão de atletas com este perfil multitcultural. E os motivos são variados. Pode ser um sujeito que tenha seus pais nascidos em diferentes locais, pode ser um indivíduo que seja um representante de terceira ou até quarta geração de migrantes, pode ser um atleta que encontrou refúgio em um novo país, pode ser alguém que tenha um cônjuge de outro Estado, pode ser uma pessoa que carrega os efeitos do colonialismo. Enfim, uma diversidade de casos. Porém, todos eles nos trazem trajetórias pessoais que se relacionam com a sociedade.

Atualmente está cada vez mais comum assistirmos aos grandes eventos internacionais, como os Jogos Olímpicos, e notar um perfil de bastante diversidade nas delegações. São atletas com diferentes origens étnicas, culturais, linguísticas e religiosas competindo sob a mesma bandeira e representando o mesmo país, que muitas vezes pode ser hostil com este tipo de sujeito. Afinal, o extremismo não perdoará um medalhista pela sua conquista caso ele não seja visto como um semelhante. Porém, dentro da esfera esportiva este tipo de sujeito está crescendo.

Na última edição olímpica de Verão, em Paris, a seleção anfitriã foi um exemplo desse multiculturalismo. Os atletas franceses, que em sua grande maioria nasceram dentro das fronteiras do país, mostravam uma ampla diversidade. Ao todo 167 dos 573 atletas da delegação foram medalhistas na competição e deste total, 94 contavam com algum tipo de multiculturalidade: nascidos na França, em algum território ultramarino ou naturalizados. A equipe de judô, que foi a melhor do torneio, tinha todos os seus integrantes com algum tipo de origem estrangeira.

No esporte brasileiro, Lucas não é o primeiro medalhista olímpico com esse perfil. O feito pertence a Antonio Sucar, nascido na Argentina e naturalizado brasileiro, que foi medalhista olímpico em Roma-1960 com a seleção de basquete. Entre Sucar e Lucas, tivemos vários outros atletas com esta característica representando o Brasil em Jogos Olímpicos. Alguns foram medalhistas, como Lars Björkstrom, campeão olímpico na vela; outros não chegaram ao pódio olímpico, mas tornaram-se grandes ídolos, como o tenista Fernando Meligeni.

William Douglas, pesquisador e um grande colega que fiz neste universo acadêmico, tem um trabalho espetacular sobre isso. Sua tese “Brasileiros, por que não? Trajetória e identidade dos migrantes internacionais no esporte olímpico do Brasil”, defendida em 2020 na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, e que depois virou livro pela Editora Laços, traz um pouco dessa história que envolve migração, identidade e esporte. Através de entrevistas com alguns destes atletas olímpicos brasileiros, William aborda essa questão e nos apresenta o ponto de vista destes sujeitos, mostrando toda a complexidade que envolve identidade e nacionalidade.

Lucas entrou para a história do esporte olímpico do Brasil e outros atletas com perfil semelhante esperam uma oportunidade para fazer o mesmo. Nessas horas não existe esse papo de “ser menos brasileiro” ou “brasileiro por conveniência”. Lucas escolheu o Brasil porque se sente brasileiro. Sente que representa o país e que o Brasil o representa. E alguém ainda vai duvidar deste sentimento após ele celebrar o ouro olímpico sambando na neve em pleno sábado de Carnaval?

Este novo perfil de atleta, no qual Lucas se encaixa, pode ainda nos fazer repensar muitas coisas. Além de nos ajudar a compreender a complexidade referente ao quesito nacionalidade, pode nos auxiliar a combater a intolerância e o preconceito contra outras culturas, países e sociedades. Afinal, Estado-nação é uma discussão recente na história da humanidade e não é um número de passaporte que definirá a identidade nacional de alguém.

Sobre o autor

Guilherme Freitas é doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo e pesquisador sobre fluxos migratórios e sociologia do esporte

Conteúdo publicado originalmente no Medium pessoal de Guilherme Freitas


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ICE, símbolo da repressão de Trump a migrantes e alvo da resistência civil nos EUA

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Agentes do ICE, a polícia migratória dos EUA, durante abordagem contra um migrante indocumentado. (Foto: ICE)

Por Dominique Maia e Rodrigo Borges Delfim

Enquanto a construção do muro na fronteira com o México se tornou um dos símbolos da política de repressão à migração no primeiro mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, o segundo termo tem se personificado na figura do ICE (sigla em inglês para Departamento de Imigração e Alfândega). Responsável pela detenção e deportação de imigrantes, o órgão se firmou como um pilar da política migratória estadunidense, operando com orçamento bilionário, poderes ampliados e práticas marcadas pelo uso sistemático da repressão.

De acordo com o Conselho Americano de Imigração, que fornece apoio a migrantes nos EUA, o orçamento do ICE sob Trump mais que triplicou e passou de US$ 8 bilhões para US$ 29,9 bilhões ao ano. Um recurso que visa concretizar uma das promessas de campanha de Trump: a de deportar, em média, 1 milhão de imigrantes sem documentos por ano.

Turbinado com esse aporte e com seus agentes tendo carta branca do governo Trump, o ICE tem sido cada vez mais violento em sua abordagem, com ações sem mandado em locais de trabalho, igrejas e escolas para prisões em massa, envio dos detidos para centros distantes e violações de direitos básicos de quem cai sob poder da agência. Além disso, os agentes não têm se limitado aos migrantes indocumentados e agora mira também os que vivem em situação regular e que possuem laços familiares consolidados nos Estados Unidos. Em suma, todo e qualquer indivíduo que não se encaixe no padrão “WASP” – acrônimo em inglês para White Anglo-Saxon Protestant (Branco, Anglo-Saxão e Protestante) – que representa a elite tradicional dos Estados Unidos é um potencial alvo.

A repressão promovida pelo ICE não tem passado batida pela sociedade civil nos Estados Unidos, que vem se mobilizando nas ruas. Os embates chegaram a um ponto culminante – pelo menos até o momento – na cidade de Minneapolis, onde em janeiro dois cidadãos dos Estados Unidos foram mortos pelos agentes de migração durante protestos contra sua atuação.

Da criação à consolidação do poder

O ICE foi criado em 2003, no contexto da Guerra no Iraque e como parte das respostas aos atentados de 11 de setembro de 2001, e rapidamente se consolidou como um dos principais órgãos do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. Com atuação exclusiva em território estadunidense, a agência passou a ocupar posição central na condução das políticas de imigração, fiscalização e deportação. 

Instituído pela Lei de Segurança Interna, o órgão foi concebido para articular controle migratório e investigação sob a lógica da segurança nacional. Desde então, acumulou amplos poderes de detenção, fiscalização e cooperação com forças policiais estaduais e locais, o que contribuiu para a expansão de sua influência institucional e para o fortalecimento de uma política migratória cada vez mais marcada pelo endurecimento e pela repressão.

Com o tempo, esse desenho institucional permitiu ao ICE atuar com margem significativa de discricionariedade. Programas como o 287(g), que autoriza forças policiais estaduais e municipais a colaborar com a agência, ampliaram o alcance das operações e criaram um ambiente de vigilância permanente para comunidades migrantes. Relatórios da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês) e da Human Rights Watch (HRW) apontam que essa integração entre imigração e policiamento cotidiano tem aprofundado práticas de perfilamento racial e resultado em violações recorrentes de direitos civis.

Repressão como política de Estado

Durante o primeiro mandato de Trump, o ICE recebeu respaldo político explícito para intensificar ações repressivas. Ordens executivas ampliaram prioridades de deportação, reduziram proteção a pessoas solicitantes de refúgio e pressionaram a agência a elevar números de prisões e remoções. O resultado foi a multiplicação de operações ostensivas, batidas em locais de trabalho e ações que levaram à separação de milhares de famílias.

Esse modelo não apenas permaneceu como foi aprofundado no segundo mandato de Trump. A retórica de criminalização da migração voltou a orientar decisões administrativas, acompanhada de pressões diretas sobre o ICE para intensificar ações de fiscalização. Programas de cooperação com forças policiais locais foram reativados ou ampliados, e proteções temporárias a determinados grupos migrantes passaram a ser sistematicamente revistas ou enfraquecidas. 

O fortalecimento do ICE teve impacto direto sobre o sistema de detenção migratória dos Estados Unidos. O país mantém uma das maiores redes de detenção administrativa de migrantes do mundo, com milhares de pessoas privadas de liberdade diariamente, muitas delas sem acusação criminal. Parte significativa dessas instalações é operada por empresas privadas, o que adiciona interesses econômicos a um sistema já marcado por baixa transparência.

Organizações de direitos humanos documentam, há anos, condições degradantes nos centros de detenção, incluindo superlotação, acesso limitado a cuidados médicos, uso excessivo do isolamento e dificuldades no acesso à defesa legal. Casos de mortes sob custódia do ICE também vêm sendo registrados, frequentemente acompanhados de investigações incompletas ou respostas insuficientes por parte das autoridades. Esse cenário reforça críticas de que a detenção migratória nos Estados Unidos funciona como um mecanismo punitivo, ainda que formalmente classificado como “administrativo”.

Um futuro marcado pela disputa

Há, no entanto, movimentos que contestam essa política migratória cada vez mais securitária e buscam limitar o alcance do ICE. Jurisprudências nos tribunais federais e ações judiciais têm desafiado práticas específicas da agência, incluindo limites à detenção sem mandado e restrições que afetam o devido processo legal. Em dezembro de 2025, um juiz federal ordenou a suspensão de uma política que exigia aviso prévio para visitas de membros do Congresso a centros de detenção, considerando que ela interferia na fiscalização e na transparência sobre condições e tratamento de pessoas detidas.

No Congresso, propostas de reforma migratória seguem paralisadas em meio à polarização política, mas incluem iniciativas voltadas ao aumento da supervisão sobre o ICE, à limitação do uso de centros de detenção privados e ao fortalecimento de mecanismos de prestação de contas. Paralelamente, organizações da sociedade civil continuam a documentar abusos, oferecer assistência jurídica a pessoas migrantes e manter a atuação da agência sob escrutínio público, apesar das dificuldades impostas por um aparato estatal cada vez mais robusto.

A trajetória do ICE evidencia como a política migratória dos Estados Unidos tem sido moldada por sucessivos ciclos de endurecimento, nos quais a agência passa a ocupar um espaço cada vez mais central no aparato estatal. A consolidação de uma abordagem securitária no atual governo de Trump reforça esse movimento, mantendo o órgão como um dos principais instrumentos de controle migratório e aplicação coercitiva das leis de imigração.

O debate em torno do ICE expressa ainda uma disputa mais ampla sobre o lugar das pessoas migrantes na sociedade estadunidense e sobre os limites do poder estatal quando a migração é tratada prioritariamente como questão de “segurança”.

Recuo?

As mortes de cidadãos natos dos Estados Unidos ocorridas em Minneapolis levaram o governo Trump a anunciar o encerramento do que chama de “operação especial” na cidade. Assim foi anunciado por Tom Homan, encarregado para questões de fronteira e enviado do presidente à cidade, na última quinta-feira (12).

A mudança de tom pode ser creditada a dois fatores. Um deles foi a ameaça de um novo “shutdown” nome dado à paralisação do governo por falta de verbas aprovadas pelo Congresso. Isso porque parlamentares do Partido Democrata (de oposição) ameaçam não aprovar o orçamento federal com verba extra para o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), responsável pelo ICE.

Também contribuem para isso as eleições legislativas que vão acontecer no final deste ano – as chamadas “midterms”, que renovam o Congresso dos Estados Unidos. Segundo dados divulgados pela AP-NORC, 60% dos eleitores entrevistados dizem que Trump ‘foi longe demais’ com sua repressão aos migrantes – ou seja, uma popularidade em queda pode gerar impacto direto no pleito e mudar a correlação de forças no cenário político local.


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Consulta pública sobre Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia atrasa e aguarda nova data

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Delegados votam na plenária final da segunda Comigrar, em Brasília. Atividade compilou sugestões para a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Atualizado às 9h20 de 23.fev.2026

O governo federal havia previsto para a última quinta-feira (19) o início da consulta pública sobre o primeiro Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (I PlaNaMigra), por meio da plataforma Brasil Participativo. No entanto, o texto não foi publicado na data divulgada inicialmente.

Após questionamento do MigraMundo, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, que encabeça o processo, informou que o começo da consulta foi postergado.

“A medida decorre da necessidade de ajustes técnicos e operacionais para assegurar a adequada realização do processo de participação social”, disse a pasta em resposta ao MigraMundo. Fontes com acesso ao ministério informaram que o processo começaria nesta segunda-feira (23), o que também não ocorreu.

Ainda de acordo com o Ministério da Justiça, “a nova data de lançamento será divulgada oportunamente nos canais oficiais” da pasta.

Em janeiro passado, Wellington Cesar Lima e Silva assumiu no lugar de Ricardo Lewandowski, levando também a mudanças nos escalões inferiores, incluindo a Secretaria Nacional de Justiça – que também coordena, entre outras áreas, o andamento da política de migração brasileira.

Antes do atraso

Conforme divulgação do próprio governo federal, o documento a ser avaliado foi elaborado pela Coordenação-Geral de Política Migratória e debatido em oficinas interinstitucionais realizadas em novembro de 2025, no Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), da Universidade de Brasília (UnB). Ele contou ainda com apoio técnico da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Organização Internacional para Migrações (OIM).

Ainda segundo a pasta, uma reunião interministerial ocorreu no último dia 4 de fevereiro para apresentar a sistematização das contribuições recebidas e discutir ajustes na elaboração do Plano. Ao todo, ele conta com 28 estratégias de implementação, 114 ações e 291 indicadores. Ao final do encontro, foram pactuados os próximos encaminhamentos.

O PlaNaMigra está organizado em cinco eixos estratégicos, que orientam as ações do Estado na área migratória:

  • Fortalecimento da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia;
  • Articulação entre órgãos e parceiros;
  • Promoção de direitos e integração comunitária;
  • Desenvolvimento e inserção socioeconômica;
  • Proteção de direitos.

“A pauta migratória é ampla e complexa, e precisamos avançar juntos para que ninguém fique para trás”, disse a coordenadora-geral de Política Migratória do Ministério da Justiça, Sarah Lemos, em comunicado à imprensa.

Segundo o decreto que criou a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, o plano nacional deve ser renovado a cada quatro anos. Ou seja, o texto aprovado neste ano terá validade até 2030.

Expectativas

O Ministério da Justiça informou que as sugestões recebidas na consulta pública subsidiarão a consolidação da versão final do documento. Segundo atores do poder público e da sociedade civil que acompanham o tema, a expectativa é que o primeiro PlaNaMigra seja de fato divulgado ainda neste ano.

Respondendo a um questionamento do MigraMundo, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou em outubro passado que as contribuições advindas da Comigrar foram usadas em parte do decreto publicado naquele mês, mas que teriam maior espaço na elaboração do futuro PlaNaMigra.

A consulta pública em si é alvo de grande expectativa entre integrantes da sociedade civil envolvidos na temática migratória, pois representa uma das últimas oportunidades para tentar contribuir com o plano nacional que vai orientar a política migratória brasileira pelos próximos anos. E também como forma de tentar preencher lacunas e corrigir distorções dadas pelo decreto já publicado pelo Executivo federal.

Entre os pontos considerados problemáticos do decreto estão:

  • a falta de menção aos brasileiros residentes no exterior;
  • dúvidas sobre como se dará a participação da sociedade civil em relação à política nacional migratória;
  • a concentração de poderes dentro do Ministério da Justiça e Segurança Pública na condução da política migratória brasileira e o receio de uma abordagem securitária sobre o tema;
  • margens excessivas no decreto para regulamentação ministerial futura, o que pode gerar dúvidas e incertezas sobre temas diversos;
  • ausência de menções a temas como migração indígena e mobilidade por mudanças climáticas;
  • ausência do reconhecimento do princípio de non-refoulement ou compromissos contra devolução indevida e deportações coletivas.

Algumas dessas preocupações foram expressadas e detalhadas pelo defensor público federal João Chaves, também pesquisador e nome atuante na temática migratória brasileira, em artigo publicado em outubro de 2025 no MigraMundo, poucas semanas após a divulgação do decreto.


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União Europeia libera envio de solicitantes de refúgio para centros de detenção em “países seguros”

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Uma das sedes do Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

A situação de migrantes que solicitam refúgio na Europa deve ficar ainda mais difícil a partir de 12 de junho. Essa é a data na qual entrarão em vigor novas regras aprovadas pelo Parlamento Europeu para restringir a migração indocumentada para os países que integram a União Europeia.

Os chamados eurodeputados aprovaram na última terça-feira (10) a liberação para que os Estados-membros da União Europeia façam “acordos de terceiro país seguro” com outros governos de fora do bloco. Essa política já é adotada pela Itália, que envia solicitantes de refúgio para centros de detenção na Albânia, e pela Holanda, que faz o mesmo com Uganda, no leste africano.

A margem de apoio à medida foi ampla. Ao todo, 408 eurodeputados votaram a favor da criação de uma lista da UE de países terceiros de origem seguros – foram 184 manifestações contra e 60 abstenções. Além disso, o regulamento relativo à aplicação do conceito de “país terceiro seguro” contou com 396 votos a favor, 226 contra a 30 abstenções. O Parlamento Europeu conta com 720 assentos.

De acordo com o entendimento atual da União Europeia, os seguintes países que se encontram prontos para esse tipo de acordo são: Bangladesh, Colômbia, Egito, Kosovo, Marrocos e Tunísia.

Além da Albânia, que já possui acordo com o governo italiano, outros países que podem ser considerados elegíveis para essa classificação de “terceiro seguro” são Bósnia, Geórgia, Macedônia do Norte, Moldávia, Montenegro, Sérvia e Turquia.

Há ainda opções que são consideradas internamente por certos Estados-membros da União Europeia. A Itália, por exemplo, em uma predisposição a ampliar o que já faz em relação à Albânia, lista Costa do Marfim, Gana, Gâmbia, Senegal e Sri Lanka como possíveis “terceiros países seguros”.

A Comissão Europeia sustenta que os países para os quais os migrantes serão enviados deverão respeitar os direitos fundamentais, sem entrar em maiores detalhes.

Vitória da extrema-direita e preocupação de setores progressistas

A aprovação das regras que endurecem a política migratória da União Europeia foi viabilizada pela união do Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, com outros três grupos nacionalistas e de extrema-direita. Uma minoria de eurodeputados socialistas e centristas também deu aval ao acordo.

“A lista de países de origem seguros é um ponto de virada política na gestão da migração pela UE. Esta legislação põe fim ao período de ambiguidade e define um rumo claro: regras comuns, procedimentos mais rápidos e eficazes, proteção do direito de asilo para as pessoas que têm direito e uma abordagem firme para combater os abusos. A UE está adotando regras claras e executórias baseadas na responsabilidade partilhada”, disse o europdeputado italiano Alessandro Ciriani, do Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus, que foi relator do projeto.

As novas regras chegam em um momento no qual as chegadas de migrantes indocumentados à União Europeia tiveram uma redução de cerca de 25% em comparação com o ano passado. No entanto, a retórica de rechaço à migração é cada vez mais popular em sociedades europeias, fazendo com que lideranças políticas de centro e centro-direita passem a adotar tal postura para fazer frente aos grupos de ultra- e extrema-direita que já possuem tradicionalmente essa bandeira.

“Os cidadãos esperam que cumpramos nossas promessas em matéria de política migratória, e é exatamente isso que estamos fazendo”, comemorou no plenário a eurodeputada alemã Lena Düpont, do Partido Popular Europeu.

Movimentos, organizações e lideranças políticas mais alinhadas à esquerda temem pelas condições de acolhimento dos solicitantes de asilo nesses países, além de lamentarem a guinada conservadora europeia.

“É mais um passo na desumanização da política migratória da União Europeia”, lamentou a francesa Mélissa Camara, filiada aos Verdes no Parlamento Europeu. A eurodeputada, inclusive, tem origem migrante – seu pai é nascido na Guiné.

A aprovação desse endirecimento da política migratória pela União Europeia também é vista com preocupação pela Anistia Internacional, que comentou o caso por meio da advogada da UE para Migração e Asilo, Olivia Sundberg Diez.

“Esse ataque ao direito de asilo ocorre enquanto uma ampla série de medidas punitivas de deportação ainda está em negociação. Com essa votação, o Parlamento Europeu está capitulando a uma campanha de décadas para retirar direitos humanos, começando pelos direitos de solicitantes de asilo, refugiados e migrantes. Essa preocupante mudança política atinge o cerne dos princípios fundamentais da União Europeia.”


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De Porto Rico ao Grammy e Super Bowl: Bad Bunny e a resistência latina nos EUA

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O cantor porto-riquenho Bad Bunny durante performance no intervalo do Super Bowl 2026. (Foto: Reprodução/DAZN)

Por Gustavo Cavalcante

A apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl no último domingo (8), majoritariamente em espanhol e carregada de símbolos da cultura latina, marcou um dos momentos mais políticos da história do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos. Uma semana, o artista porto-riquenho já havia protagonizado outra cena histórica ao vencer o Grammy com um álbum totalmente em espanhol e usar o discurso de agradecimento para denunciar diretamente o ICE, órgão responsável pela repressão migratória no país. As duas aparições, conectadas no tempo e no discurso, colocaram a migração no centro da cultura pop estadunidense.

O impacto foi imediato e extrapolou o campo musical. A performance no Super Bowl gerou reações políticas, incluindo críticas públicas do presidente Donald Trump, que classificou o show como uma afronta à “grandeza da América”. A resposta negativa evidenciou como a presença explícita da identidade latina na língua, na estética e na narrativa incomoda setores que defendem uma ideia excludente de nação. No palco, Bad Bunny propôs outra definição de América: plural, continental e marcada pela experiência migrante.

Essa sequência de acontecimentos revelou um momento em que cultura pop, migração e política se cruzam nos Estados Unidos. De um lado, há o endurecimento das políticas antimigratórias, o fortalecimento do discurso de criminalização de migrantes e a atuação violenta de órgãos como o ICE. De outro, um artista latino que se recusa a abandonar o espanhol, suas referências porto-riquenhas e sua trajetória periférica, mesmo ao ocupar os espaços mais tradicionais e simbólicos do entretenimento estadunidense.

Quem é Bad Bunny

Bad Bunny é o nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio, nascido em 10 de março de 1994, em Vega Baja, município de Porto Rico próximo à capital, San Juan. Criado em uma família de origem popular, o artista cresceu em um território marcado por uma relação política singular com os Estados Unidos, além de crises econômicas e fluxos migratórios constantes. Embora os porto-riquenhos sejam cidadãos estadunidenses, eles não podem votar nas eleições para presidente e tampouco elegem representantes para o Congresso dos Estados Unidos – votam apenas para o governo local. Dessa forma, a população da ilha historicamente enfrenta situações de marginalização e tratamento como estrangeira, tanto no debate político quanto no campo cultural, especialmente quando migra para o continente.

Antes de alcançar projeção internacional, Bad Bunny trabalhava em um supermercado e cursava comunicação audiovisual, ao mesmo tempo em que lançava músicas de forma independente na plataforma SoundCloud. Foi nesse ambiente digital que suas produções ganharam visibilidade e atraíram a atenção de produtores da indústria musical. A trajetória inicial do artista ocorre paralelamente à experiência da diáspora porto-riquenha nos Estados Unidos, marcada pela circulação entre territórios, pela busca por oportunidades econômicas e pela afirmação de identidade em contextos sociais adversos.

Ao longo da carreira, Bad Bunny se tornou um dos principais nomes na consolidação do trap latino e do reggaeton no mercado musical global. Álbuns como Un Verano Sin Ti e Debí Tirar Más Fotos figuram entre os lançamentos mais relevantes da música contemporânea, abordando temas como memória, território, cotidiano e vínculos afetivos, frequentemente associados à experiência caribenha e latino-americana.

A opção por manter o espanhol como idioma central de sua obra e por incorporar referências culturais porto-riquenhas contribuiu para ampliar a presença da língua e da estética latina na cultura pop dos Estados Unidos. Nesse contexto, a música de Bad Bunny tem sido associada à representação de migrantes e descendentes de migrantes, refletindo transformações demográficas e culturais em curso no país e evidenciando o papel da indústria cultural na disputa por visibilidade e reconhecimento de identidades historicamente marginalizadas.

Do Grammy ao Super Bowl

No Grammy 2026, Bad Bunny conquistou uma vitória histórica ao vencer com um álbum totalmente em espanhol, consolidando um marco para a música latina na principal premiação da indústria fonográfica. Ao subir ao palco para receber o prêmio, o artista porto-riquenho fez um discurso em espanhol e direcionou sua fala à política migratória dos Estados Unidos. Antes dos agradecimentos formais, afirmou: “Antes de dizer obrigado, eu quero agradecer a Deus e quero dizer fora ICE”, em referência ao Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA.

Em seguida, Bad Bunny ampliou a crítica ao que classificou como desumanização de migrantes, dizendo: “Não somos selvagens. Não somos animais. Não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos”. A declaração foi recebida com aplausos do público presente e teve ampla repercussão na imprensa internacional e entre organizações e integrantes da comunidade latina nos Estados Unidos, que interpretaram o discurso como um posicionamento direto em defesa da dignidade de migrantes e descendentes de migrantes.

O cantor também fez um chamado para que a resposta ao cenário de hostilidade fosse pautada por outra lógica. “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, afirmou. Ao encerrar, acrescentou: “Se a gente for lutar, que seja com amor.” As falas reforçaram a leitura de que o artista utilizou o palco global do Grammy para legitimar a defesa de direitos e a humanização de populações migrantes.

Dias depois, no último domingo (08) Bad Bunny levou uma mensagem semelhante ao intervalo do Super Bowl, evento de maior audiência da televisão nos Estados Unidos. A apresentação foi realizada majoritariamente em espanhol e contou com cenários que remetiam ao cotidiano porto-riquenho e latino, como salões de beleza, jogos de dominó e referências à vida comunitária. O show também incluiu a participação de artistas e personalidades latinas, reforçando a centralidade da cultura latino-americana no espetáculo.

Durante a performance, Bad Bunny exibiu a bandeira de Porto Rico, incluindo a versão com o triângulo azul-claro associada a movimentos pró-independência, e fez referência ao apagão na ilha após o furacão Maria, em 2017. No encerramento, apareceu acompanhado por bailarinos e músicos com bandeiras de países da América Latina e afirmou: “Juntos, somos a América”, propondo uma leitura do continente como espaço plural, marcado por migração, diversidade cultural e pertencimento compartilhado.

Reações políticas e disputa simbólica

A apresentação no intervalo do Super Bowl gerou reações políticas imediatas nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump criticou publicamente o show, classificando-o como uma afronta à “grandeza da América” e questionando a escolha de um artista que se apresentou majoritariamente em espanhol em um dos eventos mais simbólicos da cultura estadunidense. As declarações ampliaram o alcance do debate e reforçaram a dimensão política atribuída à performance.

Especialistas em cultura e música analisaram o episódio como parte de uma disputa simbólica mais ampla. Para analistas ouvidos pela imprensa internacional, Bad Bunny passou a ser visto como uma “antítese cultural” do poder conservador, ao ocupar espaços historicamente dominados pela cultura anglófona sem adaptar sua língua ou suas referências culturais. A leitura aponta que o incômodo gerado não está restrito ao conteúdo das mensagens, mas à própria visibilidade da identidade latina em plataformas de alcance global.

Nesse contexto, a cultura pop aparece como um campo de disputa política e simbólica, no qual artistas e performances se tornam veículos de debates sobre pertencimento, identidade e poder. A presença do espanhol, de símbolos latino-americanos e de narrativas ligadas à migração em eventos como o Super Bowl e o Grammy evidencia como o entretenimento passou a refletir tensões sociais mais amplas, especialmente em um cenário de endurecimento das políticas migratórias.

A repercussão em torno de Bad Bunny também ocorre em meio ao crescimento demográfico da população latina nos Estados Unidos e às transformações culturais associadas a esse processo – segundo estudo divulgado em outubro passado pelo Pew Research Center, eles representam 20% da população, somando 68 milhões de pessoas em 2024. Mudanças no consumo cultural, na música e no uso da língua espanhola indicam uma ampliação da centralidade latina no país. Nesse cenário, o artista porto-riquenho tem sido frequentemente citado como um símbolo de uma América em transformação, na qual a diversidade cultural e a experiência migrante ocupam um espaço cada vez mais visível no debate público.

As ações recentes de Bad Bunny evidenciam como artistas latinos passaram a ocupar espaços centrais da indústria cultural dos Estados Unidos sem abdicar de sua língua, de sua identidade e de suas referências. A repercussão das apresentações e discursos indica que esses palcos deixaram de ser apenas vitrines de entretenimento e se tornaram arenas de disputa simbólica em torno de quem pode representar a cultura americana – no sentido mais amplo, do Canadá ao Chile, como bem mostrou o cantor porto-riquenho.


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O que pensa António José Seguro, novo presidente de Portugal, sobre migração

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António José Seguro, eleito presidente de Portugal em 2026. (Foto: Reprodução/SIC/Creative Commons)

Por Alana Moreira e Rodrigo Borges Delfim

António José Seguro é o novo presidente português, eleito na noite deste domingo, quando teve lugar o segundo turno das eleições presidenciais. Historicamente vinculado ao Partido Socialista, Seguro conquistou mais de 66% dos votos válidos contra pouco mais de 33% dos votos direcionados a André Ventura, líder do Chega, partido de extrema-direita português. O pleito teve a questão da migração como um dos principais temas.

A vitória se deu em todos os distritos do país e ainda nas duas regiões autônomas, que são os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Entre os eleitores portugueses no exterior e brasileiros que possuem direito de voto em Portugal, no entanto, Ventura se saiu melhor.

Em mais de cinco décadas de democracia em Portugal (a ditadura caiu em 1974), António Seguro tornou-se o presidente eleito com o maior número de votos. Até o momento, foram mais de 3,48 milhões de votos, superando o também socialista Mário Soares nas eleições de 1991.

Migração em questão

As eleições em Portugal foram marcadas por discursos xenófobos e racistas por parte de André Ventura. Ainda antes do primeiro turno, outdoors foram espalhados pelas principais cidades com a frase “Isso não é Bangladesh” ou mesmo “Os imigrantes não podem viver de subsídios”.

Os discursos de Ventura são normalmente baseados em distorções dos dados, a exemplo da alegada dependência dos imigrantes à segurança social, por exemplo, quando na verdade a contribuição dos trabalhadores imigrantes no país representou um saldo positivo de mais de 4 bilhões de euros em 2025.

Durante a campanha, António Seguro mostrou-se mais prudente ao comentar as políticas migratórias. Questionado sobre o tema durante debate com Ventura no segundo turno da campanha, reiterou a necessidade de “controlar, regular e organizar a entrada de imigrantes” e defendeu que é preciso melhorar o “acolhimento e a integração” dessa parcela da população.

“A questão do controle e da imigração é crucial para que nós possamos ter esse contributo e não tenhamos outros problemas. Os imigrantes dão um contributo indispensável para a Segurança Social, portanto, uma boa integração é algo positivo para o país”.

Vale recordar que Portugal conta hoje com uma população de mais de 1,5 milhão de imigrantes documentados, sendo os brasileiros a maior comunidade, com pouco mais de 484 mil imigrantes regularizados. Em outubro do ano passado, o parlamento português votou a nova lei de imigração, que impõe regras mais rígidas para regularização e reunificação familiar no país.

O presidente Lula parabenizou António Seguro, reforçando que o processo eleitoral em Portugal foi pacífico e que representa a vitória da democracia. Lula afirmou ainda que o Brasil continuará a parceria com o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, pelo fortalecimento das relações entre os dois países.

O que esperar para o futuro

Embora a maioria da população portuguesa tenha optado por um candidato de perfil mais moderado para presidir o país, o debate em torno de temas-chave em Portugal como a migração deve continuar aquecido. O governo é conduzido pelo premiê Luis Montenegro, de centro-direita, que vem adotando uma postura mais restrita em relação a migrantes – uma tendência que também se verifica em outros países europeus como forma de tentar angariar apoios que poderiam ir para partidos de ultra e extrema-direita.

Foi durante o governo de Montenegro que Portugal adotou uma nova Lei da Nacionalidade, ampliando de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para o pedido de nacionalidade. Além disso, fechou de vez a possibilidade de pedir residência após entrada no país como turista, mesmo para cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Mesmo derrotado na eleição presidencial, André Ventura canta vitória e deve voltar fortalecido ao Parlamento, onde continuará a defender propostas como as apresentadas durante a campanha, como a de dar prioridade a portugueses no acesso a serviços públicos como hospitais e escolas — ideia sintetizada no slogan “Os portugueses primeiro”.

Em artigo publicado no MigraMundo em 3 fevereiro, na semana anterior ao segundo turno da eleição presidencial portuguesa, o professor do curso de Relações Internacionais da UFRR (Universidade Federal de Roraima) João Carlos Jarochinski Silva, atualmente em pós-doutorado no país europeu, reflete que Ventura conseguiu levar sua visão sobre migração para o debate público. E que isso “constitui um retrocesso significativo para um país marcado por uma intensa trajetória migratória e que, ao longo das últimas décadas, conseguiu desenvolver políticas relativamente exitosas tanto na promoção do interesse nacional quanto na garantia de acolhimento e integração dos imigrantes”.

O professor reflete ainda que a concertação de forças em torno de Seguro representa, sem dúvida, a preservação de uma esperança: a de que a resistência aos radicalismos excludentes ainda seja capaz de produzir convergências e de reafirmar o diálogo como elemento estruturante da construção política. No entanto, faz uma ponderação: “Parece que vivemos o momento de conter maiores danos do que conseguir avançar”.


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Novo Alto Comissário assume o ACNUR em um dos períodos mais críticos da agência da ONU

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Barham Salih, novo chefe do ACNUR, durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em 2019, quando era presidente do Iraque. (Foto: Cia Pak/ONU)

Por Gustavo Cavalcante

Em janeiro de 2026, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) iniciou um novo capítulo sob a liderança de Barham Salih, ex-presidente do Iraque. Sua posse marca uma exceção histórica: raramente a principal agência da ONU dedicada à proteção de refugiados foi comandada por alguém de fora da Europa  e menos ainda por um representante do chamado Sul Global.

A chegada de Salih ocorre em um momento particularmente delicado. O ACNUR enfrenta cortes significativos de financiamento, redução de equipes, fechamento de escritórios e um cenário global marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo e por pressões crescentes contra o direito ao asilo.

Por um lado, o novo Alto Comissário chega ao cargo com credenciais no sistema humanitário. Foram décadas de atuação política em um país marcado por guerras, perseguições e deslocamentos forçados, além da experiência pessoal do exílio. Seu discurso público até o momento tem enfatizado empatia, dignidade humana e a necessidade de preservar a proteção internacional aos refugiados, especialmente em um momento de questionamento aberto às bases do direito de asilo.

De outro, a agência se vê fragilizada por limitações financeiras profundas, disputas geopolíticas e uma dependência crescente das decisões políticas dos Estados doadores. Entre a urgência humanitária e a escassez de recursos, o ACNUR se vê pressionado a priorizar, cortar e redefinir sua atuação, um cenário que coloca à prova não apenas a liderança de Salih, mas o próprio futuro do regime internacional de proteção aos refugiados.

O cenário encontrado por Barham Salih

O ex-presidente do Iraque assume o comando da agência da ONU para Refugiados em um momento em que o deslocamento forçado atinge níveis sem precedentes no mundo. Segundo dados mais recentes da própria agência, mais de 117 milhões de pessoas vivem hoje fora de suas casas devido a conflitos armados, perseguições, violações de direitos humanos e crises climáticas.

Deste total, cerca de 30 milhões são refugiados, sob mandato direto do ACNUR, que atua em mais de 130 países, frequentemente em contextos de conflito ativo, instabilidade política e emergência humanitária prolongada.

Esse cenário humanitário se combina a uma crise financeira profunda. Em 2025, o ACNUR sofreu um corte de cerca de 35% em seu orçamento, o que resultou no fechamento de escritórios, na redução de programas essenciais e na eliminação de milhares de postos de trabalho, inclusive na sede em Genebra. Um dos fatores centrais dessa retração foi a queda abrupta do financiamento dos Estados Unidos, historicamente o maior doador da agência: as contribuições norte-americanas recuaram de aproximadamente US$ 2,1 bilhões para cerca de US$ 800 milhões, uma redução superior a US$ 1,3 bilhão em apenas dois anos.

A combinação entre o aumento das necessidades globais e a diminuição drástica dos recursos disponíveis impõe limites severos à capacidade operacional do ACNUR e condiciona, desde o início, o campo de ação da nova liderança.

O que esperar de Salih – primeiros sinais

A expectativa em torno da atuação de Barham Salih à frente do ACNUR se apoia em seu discurso público, que tem enfatizado a empatia e a dignidade das pessoas refugiadas em um momento de forte desumanização do debate migratório. Ao afirmar que refugiados não podem ser tratados apenas como estatísticas, o novo Alto Comissário sinaliza a intenção de recolocar o indivíduo no centro das políticas de proteção, em contraste com abordagens cada vez mais securitárias adotadas por diversos Estados.

“Sinto-me honrado por ter sido eleito o próximo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Como ex-refugiado, sei em primeira mão como a proteção e as oportunidades podem mudar o rumo de uma vida. Essa experiência norteará minha liderança, pautada na empatia, no pragmatismo e em um compromisso inabalável com o direito internacional. Minha principal responsabilidade será para com os refugiados e outras pessoas forçadas a fugir – defendendo seus direitos e sua dignidade e promovendo soluções duradouras para que o deslocamento seja uma situação temporária, e não um destino permanente”, escreveu Salih em sua declaração por ocasião da posse como Alto Comissário.

O novo chefe da agência tem adotado um tom pragmático ao reconhecer os limites impostos pela crise financeira da agência. Em entrevistas recentes, ele deixou claro que o ACNUR não tem mais condições de manter todas as frentes de atuação como no passado, o que aponta para uma gestão marcada por priorização, eficiência e foco em impacto, inclusive com decisões difíceis sobre onde e como atuar.

Em entrevista recente à Associated Press, o Alto Comissário falou sobre a perda de apoio financeiro, mas que sua gestão buscará caminhos pra atuar. “É claro que é uma luta, inegavelmente, mas também tenho esperança e confiança de que existe humanidade suficiente para nos permitir fazer isso”.

Outro eixo central de sua atuação esperada é a defesa do regime internacional de proteção aos refugiados, especialmente da Convenção de 1951, em um contexto de pressões políticas para enfraquecer o direito ao asilo. Salih tem se posicionado contra iniciativas que buscam relativizar obrigações internacionais, tratando a proteção não como um gesto de caridade, mas como um pilar da estabilidade e da segurança globais.

Os primeiros movimentos no cargo ajudam a materializar esse discurso. Poucas semanas após assumir, Salih priorizou viagens ao Chade e ao Quênia, países africanos que acolhem grandes contingentes de refugiados e que enfrentam situações prolongadas de deslocamento. Nessas visitas, manteve contato direto com refugiados sudaneses que fugiram da guerra em Darfur (Sudão), além de somalis, congoleses e etíopes, reforçando a importância de políticas que garantam não apenas proteção imediata, mas condições para reconstrução de vidas com dignidade.

Durante essas agendas no campo, o novo Alto Comissário destacou iniciativas voltadas à integração socioeconômica, como acesso ao trabalho, educação e meios de subsistência, tanto para refugiados quanto para comunidades anfitriãs. A ênfase em inclusão aponta para uma tentativa de romper com o modelo de dependência prolongada da ajuda humanitária, reconhecendo os refugiados como agentes ativos capazes de contribuir para as sociedades que os acolhem.

Paralelamente, Salih também buscou reforçar frentes diplomáticas e simbólicas. Em sua viagem ao Vaticano, onde se encontrou com o Papa Leão XIV, o Alto Comissário destacou o papel das organizações religiosas como parceiras históricas do ACNUR e ressaltou a autoridade moral da Igreja na defesa dos refugiados, especialmente em um momento de retração do espaço humanitário – o atual Pontífice vem seguindo a diretriz deixada pelo antecessor Francisco de apoio a pessoas migrantes.

“Minha esperança é que possamos ampliar ainda mais essa cooperação com outras organizações religiosas e desenvolver uma filantropia inter-religiosa capaz de se unir em torno dos valores centrais da fé, especialmente no que diz respeito à humanidade e ao auxílio aos nossos semelhantes em situação de necessidade”, comentou Salih em entrevista ao Vatican News.

Somada à sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, essa agenda indica que sua gestão deve combinar presença no campo, articulação política e mobilização de novos apoios internacionais. Salih terá de buscar resultados concretos, embora algumas iniciativas dependam, em última instância, da disposição dos Estados em sustentar financeiramente o sistema de proteção.

Momento crucial

A redução do financiamento do ACNUR, especialmente após a queda abrupta das contribuições dos Estados Unidos, tem provocado impactos imediatos na assistência, na proteção jurídica e na capacidade de oferecer soluções duradouras. Programas foram encerrados, equipes reduzidas e escritórios de campo fechados, justamente em um momento em que o número de pessoas deslocadas continua a crescer.

Essa realidade foi sintetizada publicamente por Patrick Wall, cofundador do Global Strategic Initiatives Group, que trabalha em estreita colaboração com equipes do ACNUR em contextos de crise. Para ele, o novo Alto Comissário assume a agência “no momento mais grave da história do regime internacional de refugiados”, com necessidades humanitárias em níveis recordes e recursos financeiros reduzidos a patamares comparáveis aos de uma década atrás, quando havia significativamente menos pessoas deslocadas no mundo.

Na avaliação de Wall, a linha de frente humanitária espera da nova liderança três elementos centrais. O primeiro é clareza moral, em um contexto de polarização política no qual refugiados e migrantes são frequentemente instrumentalizados por governos e discursos nacionalistas.

O segundo é uma defesa firme da proteção internacional, entendida não como um ideal abstrato, mas como um pilar construído após as grandes guerras do século XX e essencial para a estabilidade global.

Por fim, o terceiro ponto é a necessidade de orientação estratégica clara, capaz de assumir publicamente que, diante da escassez extrema, o ACNUR não poderá fazer tudo e que escolhas difíceis serão inevitáveis.

Apesar do cansaço acumulado, Wall destaca que as equipes do ACNUR e seus parceiros permanecem comprometidos com os princípios humanitários e com o direito internacional dos refugiados. O sentimento predominante não é de desistência, mas de expectativa por uma liderança que seja transparente, íntegra e capaz de conduzir a agência em meio a perdas, restrições e pressões políticas.

Nesse sentido, a gestão de Barham Salih é vista pela linha de frente não como uma solução milagrosa, mas como uma oportunidade de dar direção e legitimidade a decisões que definirão o futuro da proteção a refugiados nos próximos anos.

Transição e o legado de Filippo Grandi

A escolha de Barham Salih para comandar o ACNUR rompe com um padrão histórico consolidado desde a criação da agência, em 1951. Dos altos comissários que ocuparam o cargo ao longo das últimas décadas, a ampla maioria teve origem europeia, reflexo tanto do peso político do continente quanto de sua posição como principal financiador da agência. Iraquiano de origem curda e oriundo do Sul Global, Salih figura entre as raras exceções a esse perfil, ao lado de nomes como o iraniano Sadruddin Aga Khan (de 1965 a 1977) e a japonesa Sadako Ogata (de 1991 a 2000).

A nomeação de Salih também carrega uma dimensão geopolítica relevante. Sua candidatura recebeu apoio formal do Grupo Árabe e de países do Golfo, em um momento em que essas nações buscam ampliar sua influência em fóruns multilaterais e demonstrar protagonismo em agendas humanitárias. Ao mesmo tempo, o fato de a agência depender majoritariamente de doadores tradicionais do Norte Global reforça as tensões entre representatividade, financiamento e autonomia política que marcam o funcionamento do ACNUR.

A transição ocorre sob o legado de Filippo Grandi, que liderou a agência durante um período de sucessivas crises globais, marcado pela ampliação dos deslocamentos forçados, pela pandemia de Covid-19 e pelo início da retração do financiamento humanitário. Ao saudar publicamente a escolha de seu sucessor, Grandi destacou a experiência política e diplomática de Salih, bem como seu conhecimento direto das realidades de conflito e deslocamento.

Ainda assim, a passagem de comando deixa claro que o futuro da agência dependerá menos do perfil individual do Alto Comissário e mais das decisões políticas e financeiras dos Estados. Entre expectativas e limitações, a gestão de Salih se inicia em um momento decisivo para o regime internacional de proteção aos refugiados, cuja sobrevivência passa, cada vez mais, pela disposição do mundo em sustentar, na prática, os princípios que afirma defender.

Quem é Barham Salih — e sua experiência como refugiado

Nascido em Suleimânia, no norte do Iraque, Barham Salih é de origem curda e construiu sua trajetória política em meio a conflitos, repressão e disputas por autonomia em seu país. Durante o regime de Saddam Hussein, foi preso duas vezes por envolvimento com movimentos nacionalistas curdos, tendo relatado episódios de tortura e perseguição política. 

Ainda adolescente, em 1974, fugiu do Iraque para o Irã e, anos depois, em 1979, deixou novamente o país rumo ao Reino Unido, onde viveu no exílio. 

Exilado, Salih construiu uma sólida formação acadêmica no Reino Unido, graduando-se em engenharia civil pela Universidade de Cardiff e obtendo doutorado em estatística e aplicações computacionais pela Universidade de Liverpool. Após a queda do regime de Saddam Hussein, retornou ao Iraque e ocupou posições centrais no novo arranjo político do país, incluindo dois mandatos como primeiro-ministro da Região do Curdistão, o cargo de vice-primeiro-ministro do Iraque e, entre 2018 e 2022, a presidência da República. 

Antes de assumir o comando do ACNUR, também atuou como pesquisador em centros acadêmicos internacionais e foi responsável pela criação da Universidade Americana do Iraque, consolidando um perfil que combina experiência política, técnica e diplomática, agora colocado à prova no comando da principal agência da ONU para refugiados.


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